Pages

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A força do perdão - Nelson Moraes, massagista psicossomático, escritor e palestrante espírita


Com os inegáveis avanços da ciência, o homem, em seus arroubos de grandeza, gasta valiosos recursos tentando ampliar seu domínio ao espaço cósmico, sem ao menos ter aprendido a viver no diminuto espaço que ocupa na sociedade onde convive com o seu semelhante. Cada presídio construído no mundo comprova essa realidade, atestando o grau de ignorância em que ainda se encontra o homem na Terra. Não falamos da ignorância cultural ou inocente, mas da mais grave de todas as ignorâncias que predomina não só entre os incultos, mas, principalmente, nos meios ditos esclarecidos.

A tecnologia encurtou distâncias e ampliou as comunicações, proporcionando ao homem tomar conhecimento em poucos instantes de tudo o que acontece no mundo. Entretanto, com todos esses recursos, por incrível que pareça, a grande maioria dos homens ainda continua ignorante da sua real natureza e da verdadeira finalidade da vida.

É essa a ignorância que contribui para o aumento da criminalidade e o crescimento constante da população carcerária em todo o mundo. Se analisarmos o problema da criminalidade de forma um pouco mais profunda, vamos perceber que, na verdade, não existem criminosos, o que existe são dois tipos de vítimas dessa ignorância: a vítima passiva e a vítima ativa.

Os violentos, os desonestos, os corruptos e os criminosos de toda sorte são as vítimas ativas que, sem compreenderem o verdadeiro significado da vida, acham-se no direito de tomar para si o que não conseguiram conquistar pelos meios adequados e justos. Vítimas da própria ignorância, serão julgados no tribunal da própria consciência, onde o remorso os condenará a duras penas, que poderão representar séculos de sofrimentos.

Até que consigamos superar esse período de ignorância espiritual em que vive a maioria dos seres encarnados, os cárceres, os hospitais e os manicômios estarão sempre lotados.

Não quero, sob esse argumento, isentar da culpa aqueles que optaram pelos caminhos do crime, mas apenas chamar a atenção a um sentimento que, estimulado pela mídia, parece se generalizar na grande maioria das mentes desprevenidas. Trata-se da ideia de que os criminosos são seres à parte do contexto social e incapazes de qualquer recuperação.

Não podemos generalizar e nem esquecer de que, há menos de 150 anos, as leis humanas permitiam a muitos de nós, reencarnados naquela época, dar os filhos recém-nascidos dos nossos escravos como alimento aos cães e aos porcos e até matar os adultos nos troncos, sob o guante infame da chibata, além de nos permitir praticar abusos inconfessáveis contra as mulheres cativas.

Apesar disso, não nos tornamos criminosos perante as leis da Terra, mas ferimos profundamente as leis naturais e as leis divinas. Talvez os erros que apontamos no nosso próximo sejam aqueles que mais praticamos no passado. Hoje entendemos por que Jesus desafiou a turba sequiosa pela condenação, afirmando: "Atire a primeira pedra quem não tiver pecado".

As pessoas habituadas ao perdão sofrem menos do que aquelas que ainda se deixam envolver pela ideia de que perdoar irrestritamente é abdicar dos próprios direitos, supostamente conferidos pelas leis humanas. Com isso, arrastam-se durante uma vida duelando mental ou juridicamente em uma luta inglória, que culminará somente com perdedores perante as leis naturais da vida.

Os movimentos que alguns realizam para agravar as penas sobre os infelizes que optaram pelo crime, quase sempre nasceram do sentimento de vingança e de ódio daqueles que tiveram seus interesses ou entes queridos feridos pela violência, que não é causa, mas sim um efeito gerado por uma sociedade que ajudamos a construir.

No decorrer deste artigo, o leitor vai descobrir que, em certos momentos de nossa vida, sofremos muitos dissabores desnecessários por não termos aprendido a exercitar o perdão.

Não estamos expondo ao leitor apenas uma teoria, mas sim, uma verdade comprovada por fatos colhidos ao longo de muitos anos em contato com os problemas humanos. Por isso, podemos afirmar, com segurança, que a grande maioria dos problemas que fazem o ser humano sofrer são oriundos de sentimentos desequilibrados.

Quando falamos em sentimentos, não estamos nos referindo ao sentimentalismo, às emoções, mas sim os verdadeiros sentimentos que o ser humano precisa desenvolver para poder desfrutar da genuína felicidade.

Sentir, todos sentimos, porém, cada qual ao seu modo. O importante, no sentir, é saber por que sentimos.

Quando se pergunta: Por que você ama? Logo vem a resposta: Não sei! O amor é cego!

Esse conceito é errôneo: na verdade, o amor não é cego. As pessoas que amam por impulso é que são cegas e esse sentimento que dizem ser amor nada mais é do que paixão. Esta sim é cega! Faz-nos iludir com as aparências para depois desiludir-nos com a realidade. Por isso cresce o número de separações e divórcios no mundo. Todos os dias vemos esse sentimento equivocado que parecia um grande amor se transformar em ódio.


Exercitando o amor

O verdadeiro amor é um conjunto de sentimentos que sobrevive a tudo! inclusive à paixão! O amor é perdão, compreensão e renúncia. Sem esses ingredientes, não existe o amor. Este é o amor que precisamos desenvolver!

Não perdoar os erros humanos cometidos pela ignorância é o mesmo que não perdoar as crianças por não se comportarem como adultos. A vida é a grande pedagoga! Todos os dias, através de circunstâncias que fogem ao nosso controle, ela nos ensina a caminharmos na direção do amor.

Os desencontros, a ingratidão e as decepções são materiais didáticos que nos proporcionam a oportunidade de ensaiarmos esse amor. Não existe o amor à primeira vista. Quando duas pessoas se encontram e imediatamente surge entre elas um amor verdadeiro, esse amor não nasceu naquele momento. Com certeza foi construído algum dia no passado.

Ao contrário da paixão, o verdadeiro amor transcende as aparências e supera os obstáculos, consolidando-se em uma convivência feliz, apesar de toda a adversidade que possa enfrentar.

Aqueles que amam de verdade se realizam quando conseguem promover a felicidade de quem ama. O verdadeiro amor coloca, acima dos próprios direitos, os direitos da pessoa amada. Um amor desse porte nada pode destruí-lo; ele supera o orgulho e todas as paixões que possam prejudicá-lo. É esse amor que se perpetua na eternidade! Supera os interesses materiais e físicos, para consolidar-se no espírito eterno.

Estamos falando do amor entre um casal, mas é esse mesmo amor que um dia vai prevalecer entre todas as criaturas. Por isso, podemos afirmar, com segurança, que o casamento e a constituição da família compõem valioso laboratório para desenvolvê-lo.

É na convivência domiciliar de uma família que acontecem os reencontros mais importantes entre os espíritos em evolução. Na maioria dos casos, são espíritos que se reúnem para exercitarem entre si o perdão, a fim de apagarem as marcas dos desencontros e conflitos vividos em encarnações passadas. É esse convívio, muitas vezes difícil, que, se bem compreendido, pode levar os espíritos envolvidos à consolidação do verdadeiro amor. Para isso, entretanto, é necessário muita compreensão, tolerância e o exercício constante do perdão.


Um caso de reaproximação

Certa ocasião, uma senhora procurou-me. Estava aflita. Seu filho de 18 anos saíra de casa pela terceira vez. Só que, desta vez, fazia dez dias e ele ainda não havia retornado. Desabafou:

- Eu não sei se devo ir à polícia ou procurá-lo nos hospitais; estou desesperada.

Durante o momento em que ela desabafava, o amigo espiritual que me assistia naquela ocasião informou-me que o rapaz estava bem e que ele sofria de uma aversão pela mãe. Tornava-se necessário apagar certos registros existentes no seu subconsciente. Eu a orientei:

- Não se preocupe, seu filho está bem e vai voltar. Mas é preciso que a senhora colabore com os seus pensamentos. Todos os dias, converse mentalmente com ele; use a sua imaginação para abraçá-lo como se estivesse presente ao diálogo. Diga-lhe que o ama muito. Peça perdão por possíveis erros cometidos em outras vidas contra ele. Use de palavras firmes e sinceras, faça-o sentir que você precisa dele e ele de você.

Passados alguns dias, o rapaz retornou para casa e abraçou-a como nunca o fizera antes. Chorou muito e confessou-lhe que sentia alguma coisa que o distanciava dela. Era um algo que não sabia explicar. Sentia uma vontade constante de ficar longe, mas, desta vez percebeu que, apesar de tudo, ele deveria aprender a amá-la.

A partir daí, os dois passaram a desfrutar de uma convivência feliz. Todas as noites ela continua praticando a reconciliação mental. Hoje, ela sente que passou a amar ainda mais o seu filho.

O problema desta mãe e deste filho é igual a muitos que existem por aí no seio das famílias, cuja solução está nas próprias pessoas envolvidas. Mães cujos filhos se revelam desde cedo rebeldes, além de corrigi-los energicamente, usem de vossa mente para gravar, no subconsciente deles, as responsabilidades que a própria vida nos impõe e as quais devemos cumprir e respeitar. No caso de aversão espontânea revelada desde cedo, faça como a nossa irmã que reconquistou seu filho. Trabalhe o amor e o perdão no seu subconsciente.


(texto publicado na revista Caminho Espiritual nº 27)





Nenhum comentário:

Postar um comentário