terça-feira, 22 de agosto de 2017

Mangia che ti fa bene


O macarrão nutre e não engorda. Quem afirmar o oposto - ah, esse não sabe o que está dizendo. Atualmente, aliás, mesmo os mais preclaros dietistas já não acusam o macarrão dos crimes da obesidade. A dieta da moda na Europa, a mediterrânea, proposta pelo cientista americano Ancel Keys, sugere que se comam massas como entrada nas duas principais refeições do dia, o almoço e o jantar. Desde que a continuação se faça com vegetais e carnes brancas.

Keys, no entanto, não é primeiro nessa teoria. No começo do século, um príncipe siciliano, Enrico Alliata di Salaparuta, teósofo e fisiologista, exaltava as qualidades das massas como prato-base de uma culinária vegetariana. O que engorda, explicava Salaparuta, é a união das proteínas e carboidratos do macarrão com as substâncias tóxicas que se encontram nas gorduras saturadas dos animais. De fato, 100 gramas de macarrão contêm em média tantas calorias quanto um filé de boi com a metade desse peso. Ou seja: o segredo da leveza de uma massa está no controle daquilo que se mistura a ela. Quanto menos gorduras animais, melhor. Quanto mais vegetais, melhor ainda.

Atletas em geral, principalmente os maratonistas, corredores de longas distâncias, se utilizam do macarrão como ração essencial de suas dietas. As massas, afinal, são riquíssimas nos carboidratos que no organismo se transformam em energia pura e acumulável. Além disso, são facílimas de digerir, graças à ação dos próprios fermentos salivares - em outras palavras, as massas não exigem muito esforço do estômago ou dos intestinos. Quem come apenas um belo prato de macarrão com alho e óleo em apenas uma hora volta a sentir sua doce fome.



(texto publicado na revista Super Interessante n° 5 - ano 2 - maio de 1988)

domingo, 20 de agosto de 2017

Pare de fugir dos seus problemas - Seiiti Arata


Como mudar hábitos - Seiiti Arata


A minha homenagem ao grande cômico Jerry Lewis



Flanar - Marina Bessa


Eu não gosto de programações turísticas. Daquele cronograma de atividades, com dezenas de atrações para ver em um dia. Os restaurantes já escolhidos. O tempo para comer definido. Saber que tenho que  visitar um museu em duas horas já me enche de ansiedade. Porque eu gosto de visitar museus sem hora para sair. Ler cada plaquinha, tentar me transportar no tempo, imaginando a história, a gente daquela época. E então olhar de novo para o quadro e pensar: uau, foi feito há centenas de anos, tem a pincelada daquele gênio aqui. Se por lá houver um café, ainda melhor. Enquanto descanso, observo as pessoas: quem elas são, de onde vêm, como se vestem, que língua falam, por que raios foram parar ali no mesmo dia que eu?

Os passeios têm que me dar espaço para a surpresa. Para me perder por uma rua bonita, me sentar em um banco ao sol saboreando o jornal do dia, para entrar  em um restaurante porque o cheiro da comida é incrível e ele é tão escondidinho e lotado... deve ser ótimo!

Depois de anos me perdendo nos meus pensamentos enquanto passeio, descobri que existe um nome pra isso: flanar. Andar sem rumo nem sentido certo, sem compromisso. Vagar. Perambular. Faz parte do hábito de um flâneur (uma pessoa que flana, em francês), observar detalhes, experimentar coisas novas, puxar assunto com a dona da lojinha, pegar com ela um par de dicas, perguntar em quem votou, saber o que ela vai comer de almoço e sair de lá sentindo-se tão perfeitamente integrado ao ambiente, que até imagina - e deseja - morar ali para sempre.

Flanar é um verbo muito usado para descrever as andanças por Paris, à capital francesa onde se faz isso por instinto. Mas o espírito flanador pode estar presente o tempo todo: na viagem para a casa dos seus avós no interior de Minas, em uma região desconhecida da sua cidade, na feira do seu bairro. Flanar é olhar com olhos curiosos, é estar atento aos imprevistos, ter o tempo a seu favor.

Um flâneur não sai em excursão jamais. E gosta de passear sozinho - no máximo na companhia de um outro flâneur. Porque só ele entenderá a magia de ver o mundo passar lentamente à frente das lentes de quem simplesmente ama estar vivo.




(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 56 - jul/ago de 2017)

12 razões para escrever um diário - Heloísa Iaconis


Mantenho um diário há cerca de 6 anos e posso garantir que é uma verdadeira terapia: é um amigo com quem posso contar em todas as horas.

1) Acalmar-se

Não é incomum encontrar quem, por meio da escrita, afirma obter paz. Manter um diário é uma forma de exteriorizar angústias e criar uma rotina para lidar com os próprios sentimentos - e esses dois hábitos ajudam a aliviar a ansiedade.

2) Organizar o pensamento

A mente é uma profusão de ideias. O raciocínio começa em um ponto, vai para outro, pula para mais longe e, quando percebemos, as peças estão embaralhadas. Escrever ajuda a ordenar esse fluxo, possibilitando um melhor entendimento.

3) Exercer a privacidade

Na era das redes sociais, somos estimulados a nos manter constantemente conectados ao mundo exterior. Ter um diário é uma boa maneira de recolher-se do barulho que vem de fora, permitindo um encontro com nossa individualidade.

4) Ressignificar vivências

Num diário, podemos escrever não só sobre fatos recentes, mas também sobre o passado. Ao fazermos isso, temos a chance de encontrar novos significados para antigas memórias, o que contribui para o autoconhecimento.

5) Superar traumas

Escrever sobre experiências difíceis pode ajudar a superá-las - é o que diz um estudo publicado no Journal of Palliative Medicine feito com pessoas que perderam cônjuges. Gradualmente, os efeitos dos baques vão sendo aliviados.

6) Cultivar a empatia

Escrever um diário é mergulhar nas profundezas dos sentimentos. Assim, pode ser uma ótima chance para perceber que cada pessoa é igualmente complexa. Ao escutarmos a nós mesmos, treinamos nossa capacidade de ouvir os outros.

7) Ser mais saudável

Segundo estudos da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, quem mantém um diário precisa ir menos ao médico. A conclusão é que expressas emoções combate o estresse, melhorando o funcionamento do organismo.

8) Estimular a criatividade

Mais do que um registro, o diário é como uma obra de arte. Brincar com a caligrafia, fazer ilustrações, montar colagens, enfeitar a capa, testar estilos de escrita. Tudo isso pode se revelar uma deliciosa e estimulante experimentação.

9) Cumprir metas

Anotar pequenos passos é um procedimento eficaz para atingir uma conquista maior. Se a ideia é economizar dinheiro, por exemplo, registrar os valores parciais poupados funciona como incentivo, tornando a meta mais palpável.

10) Treinar a concentração

Escrever pede foco. Se você não tem esse costume, pode ser difícil no começo. Mas, com a prática, vai se sentir mais blindado contra as distrações. E poderá usar essa habilidade em outras tarefas que exijam semelhante imersão.

11) Redescobrir-se

Ler páginas escritas anos atrás é como ter acesso à pessoa que você foi no passado. Que sonhos você tinha? O que valorizava? Perceber o que mudou permite avaliar essas transformações e, se preciso, alterar a rota.

12) Imortalizar-se

Você pode escrever um diário secreto, só para si mesmo. Mas também pode decidir transformar esses registros numa biografia. Assim, mesmo pessoas que nasceram após sua morte poderão saber quem você foi.



(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 56 jul/ago de 2017)