domingo, 10 de dezembro de 2017

Os astros e o poder


A astrologia deveu sua prosperidade no período renascentista pelo menos em parte à Igreja e ao estímulo positivo que recebeu de diversos papas. Disse-se que uma das razões de Lutero para se opor tanto à astrologia foi o fato de ela se encontrar tão em moda no Vaticano.

Os primeiros papas a se dedicarem ativamente à astrologia foram Sisto IX e Júlio II. O sucesso de Júlio, Leão X, levou um grupo de astrólogos para a corte papal, a fim de aconselhá-lo durante o seu reinado. Paulo III (1438-1549), o primeiro papa da Contra-Reforma, usava astrólogos para determinar as horas para o seu consistório. Mesmo Urbano VIII (1568-1644), que emitiu uma bula contra alguns aspectos da astrologia, continuou como patrono de astrólogos isolados, que o auxiliavam nas suas intrigas políticas particulares.

O exemplo dado pelo papado foi seguido nas principais cortes da Europa. Na Inglaterra a Rainha Elizabeth I aconselhava-se diariamente com o extraordinário Dr. Dee, e Cristiano IV da Dinamarca, Sigismundo III da Suécia e Frederico da Boêmia também utilizavam astrólogos de corte.

Um médico francês, Nostradamus, tornou-se o profeta de sua era após predizer a morte, num torneio, do rei francês Henrique II, quatro anos antes de acontecer. A viúva do rei, Catarina de Médicis, levou-o para o seu círculo cortesão. Nostradamus, porém, era mais necromante do que astrólogo, e consta que conduziu uma sessão espírita com a rainha que durou o tempo de 45 noites consecutivas. Conseguiu finalmente conjurar um espírito que mostrou a ela o seu futuro. A rainha viu cada um de seus três filhos passar rapidamente por um espelho, uma vez para cada ano que reinariam. Depois seu enteado, o protestante Henrique de Navarra (futuro Henrique IV), passou ante seus olhos 23 vezes, muito chocada. Catarina imediatamente suspendeu a perturbadora experiência, não desejando mais repeti-la.



(texto publicado no livro O grande livro da astrologia - Derek e Julia Parker)

sábado, 9 de dezembro de 2017

Diário de Roma - Roberto Pompeu de Toledo


Dias em que o princípio de outono se contamina de um rabicho de verão. Céu de um azul absoluto, noites frescas. Como o colunista também é filho de Deus, coube-lhe, ainda por cima, chegar em dia de lua cheia. O motorista do táxi, ao dar com ela numa curva, confessa-se um enamorado de la luna. Já a fotografou em diversas fases. Conta que uma vez a surpreendeu, em seu esplendor, sobre o Coliseu, e lamenta que naquela época ainda não andasse com o celular a postos para tais emergências. A lua e o Coliseu conhecem-se há 2000 anos, prepararam para o motorista aquele encontro glorioso e ganharam a recompensa de ter o momento gravado em sua memória.

A exemplo do Rio de Janeiro em seus momentos mais críticos, Roma tem militares nas ruas. Dobram com os carabinieri o cuidado de dar proteção às levas de turistas. No Pantheon uma bonita soldada, junto a um carro de combate, mantém o dedo no gatilho da submetralhadora. Os soldados têm sempre o dedo no gatilho. Os carros de combate fazem posto, no centro histórico, como se fossem táxis. Os turistas estão em toda parte. No imenso monumento a Vittorio Emanuele II, com seus muitos e altos patamares, no modelo do bolo de noiva, as multidões que vêm e voltam, avançam e recuam, sobem e descem pelas muitas escadas, corredores e terraços repetem, vistas de longe, o formigueiro humano de Serra Pelada.

Na feira da praça de San Cosimato, bairro do Trastevere, a vendedora de frutas e uma cliente conversam sobre o papa Francisco. "Ele é humano, um homem disponível", diz a vendedora. Faltou dizer que Francisco é também divertido. Com base numa expressão popular argentina, ele enriqueceu a língua italiana com o neologismo balconare la vita. O significado é passar a vida num balcão, só a observar do alto e criticar os outros, sem se envolver. Francisco usou a expressão já duas vezes, em dias recentes, para criticar os que "balconam a vida". Trata-se, segundo o escritor Paolo Di Paolo, em artigo no jornal La Repubblica, de uma expressão feliz, das que "não se limitam a descrever as coisas, mas as tocam e as fazem existir de modo diverso, deslocando a perspectiva de quem escuta".

O Catar, não contente em comprar Neymar, comprou também o Estado Maior da Defesa Italiana. A oportunidade para a segunda aquisição surgiu quando o Estado-Maior da Defesa mudou de seu antigo endereço para um novo complexo do Exército. Com isso ficou vago o histórico Palácio Caprara, com mais de 100 cômodos, e o Catar apressou-se em comprá-lo, para ali instalar sua embaiada. Antes, a embaixada dos Emirados Árabes Unidos também se mudara para um prestigioso edifício, agora exibido com exuberância de luzes na praça da Croce Rossa, e assim os novos potentados do Golfo avançam sobre os signos da riqueza dos velhos donos da Cidade Eterna. Não chegam a se igualar à França, cuja embaixada ocupa o Palácio Farnese, a mais bela das casas da nobreza papal; não chegam nem mesmo a se igualar ao Brasil, cuja bandeira enfeita a fachada do Palácio Pamphili, na Praça Navona, mas descobriram a importância dos palácios romanos como instrumentos de poder, ao lado dos times e jogadores de futebol.

No Campo dei Fiori a estátua do pobre Giordano Bruno é sitiada por todos os lados pelos toldos das barracas do mercado permanente que existe no local. Só se vê a cabeça, coberta pelo capuz do monge dominicano que um dia ele foi. Hoje o Campo dei Fiori, uma ampla e animada praça no centro de Roma, celebra a vida, com sua constante oferta de queijos, salames, frutas, temperos. Já foi celebração da morte, ao tempo em que ali se queimavam criminosos e hereges, entre os quais o mais célebre foi Bruno, filósofo que ousou transgredir os dogmas católicos e, não bastasse, defendeu, com seus prestígio de astrônomo, a tese de que no espaço coexistiam diversos mundos. O Campo dei Fiori ilustra as , digamos, errâncias do erro. Em 1600, quando foi morto, o erro era de Bruno, ao pensar fora dos trilhos da Contrarreforma, em 1889, quando se levantou uma estátua em sua memória, o erro passou a ser de seus algozes.

Em contraste com o motorista atento à lua sobre o Coliseu, incluem-se entre os romanos massas incontáveis de distraídos. O ônibus que os traz do trabalho passa pela Coluna de Trajano e nenhum passageiro dá um grito de espanto. Contorna as Termas de Caracalla e não há quem emita um mísero "oi". Encosta rente à Domus Aurea, passa ao largo das ruínas dos foros imperiais, dá de frente com os arcos do Teatro de Marcello, e ninguém desmaia de emoção, ninguém se estrebucha, ninguém sequer morre! Entre nós brasileiros uma padaria que se alardeie "desde 1960" é uma relíquia histórica. Contada aos milênios, a história nos assombra e nos esmaga.


(texto publicado na revista Veja edição 2552 - ano 50 - nº 42 - 18 de outubro de 2017)

domingo, 26 de novembro de 2017

Uma velhice arrebatadora - Walcyr Carrasco


Envelhecer é um fato e o sinal dos tempos em nosso corpo nos faz ver isso. Mas e a alma? Envelhece também ? Cheguei à conclusão que não. Depende de quanto queremos ainda viver, de quantos sonhos ainda temos, enfim, de quanto nos amamos e nos damos valor. 

Como nada em nossa vida acontece por acaso, enquanto esperava a sessão de quiropraxia, comecei a ler uma edição da Época. O primeiro texto que procuro toda vez que abro um exemplar dessa revista é a coluna do Walcyr Carrasco. E foi com prazer que o tema era justamente a velhice, mas uma muito bem vivida pela consagrada atriz Fernanda Montenegro.

Uma velhice arrebatadora

Fernanda Montenegro tem uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos

Já admirava Fernanda Montenegro havia muitos anos. Era jovem quando assisti a sua magnífica interpretação em As lágrimas amargas de Petra Von Kant. Saí impactado. Fernanda pertence a uma geração de atores formada nos palcos. Nunca fez questão de ser a mais bonita, a exuberante. Ao lado do marido, Fernando Torres, já falecido, investiu sempre na carreira teatral. Surgiram a televisão, o cinema. Foi finalista do Oscar por Central do Brasil. Feio fez a Academia, ao não lhe dar o prêmio. Há pouco tempo, ganhou o Emmy por uma série da TV Globo.

Ainda vive em mim algo do menino de interior de São Paulo que fui um dia. Fico tímido diante de quem admiro. Em um evento da Globo, há dois anos, ela me abordou. Para minha surpresa, disse que gostaria de trabalhar comigo. Quase me ajoelhei. Explicou que já tinha mais de 80. Seria bom não demorar muito tempo, avisou. Óbvio, criei um papel para ela na minha novela atual, O outro lado do paraíso. Um personagem especial, inspirado em uma vidente que conheci no interior do Tocantins. Dia desses, fui visitar as gravações. No camarim, Fernanda, orgulhosa, se contemplou no espelho.

– Estou sem maquiagem.

Aviso. Ouvir isso de uma atriz, ainda mais de uma estrela como é Fernanda, é raríssimo. Não só de atrizes. Eu mesmo gostaria, quando dou entrevistas, de passar pelas mãos mágicas de um maquiador. Uma boa maquiagem elimina sinais de idade. Diante da iluminação, torna os rostos muito mais atraentes. Para uma atriz, abrir mão da maquiagem é o mesmo que expor todos os sinais do tempo, as marcas da vida. Fernanda, como a vidente Mercedes, não usa nenhum artifício. Também a observei nas entrevistas. Lúcida, com um raciocínio exato e conciso, ao fazer declarações sobre os recentes ataques a exposições de arte. Surpresa! Justamente no dia da minha visita, era seu aniversário. Haveria um bolo em sua homenagem. Coisa simples, apenas com o pessoal que estava no cenário, não mais de seis ou sete pessoas.

Cantamos “Parabéns”. Cortamos o bolo. Oferecemos um buquê de flores. Alguém comentou sobre o fato de estar trabalhando justo no dia do aniversário. Ela disse:

– Só tenho a agradecer por estar com 88 anos, aqui, gravando. Ser atriz é o que quis fazer toda a vida. Possuir condições físicas para trabalhar é uma dádiva. A oportunidade de ter um papel, de viver meu personagem, é a melhor comemoração que posso ter. Existe felicidade maior?

Cortou o bolo, ofereceu. Depois se retirou emocionada e majestosa. Porque uma grande atriz, mesmo nas roupas simples da vidente Mercedes, continua a possuir uma aura. Uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos.

Sempre fui pessimista em relação à velhice. Meu olhar sempre se voltou para os problemas, as doenças. No entanto, diante de Fernanda Montenegro, descobri que a velhice pode ser uma fase intensa, cheia de vida, de emoções. No dia da estreia da novela, chovia. Também teve tiroteio no Rio de Janeiro, o que se tornou, lamento, habitual. Houve uma festa, perto dos Estúdios Globo, para atores e equipe assistirem ao primeiro capítulo juntos. Eu demorei uma hora e meia para chegar. Fui avisado. Fernanda não viria. Havia gravado o dia inteiro e voltado para casa. Precisava descansar.

Sentei-me, à espera da novela. Quase no momento de começar, veio novo aviso. Fernanda chegara. Fui até sua mesa. Peguei sua mão. Tremia. Emocionada, como uma principiante. As lágrimas caíam. Explicou. Estava em casa, havia trânsito e tiroteio no caminho. Mas não conseguiu ficar solitária no apartamento. Era uma estreia! Seu coração falou mais alto. Apesar de tantos trabalhos, prêmios, sua emoção era idêntica a minha, do diretor Maurinho, de todos os atores. A mesma emoção que senti quando meu primeiro livro foi editado, peguei impresso nas mãos. Cada estreia de uma peça, de uma novela, quase tenho um enfarte de tão rápido que bate o coração. É o sentimento de todo artista. Do pintor na última pincelada. Do escritor no ponto final. Talvez sejam essas emoções tão intensas que dão forças para um artista enfrentar o mundo. Arte proporciona um contato com algo que está além de mim, de nós. É uma conexão com o impossível.

Fernanda me tocou, me toca. Onde estarei aos 88 anos, pensei. Então entendi. Ela nunca terá os 80 cronológicos. Continua intensa a cada papel. É seu segredo para uma vida luminosa. Tornar a velhice tão arrebatadora e criativa como a juventude.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A longevidade de Star Wars: um mito moderno? - Christiane Tavares Ferreira da Silva


Em maio de 1977, estreava nos cinemas estadunidenses Star Wars, ou Guerra nas Estrelas, como foi chamado no Brasil. Ele não era a aposta principal daquela temporada de cinema, e seu criador, George Lucas, lançou o filme sem a certeza de que conseguiria financiar continuações onde pudesse contar a história principal da saga: a jornada do icônico Darth Vader. Esse primeiro filme tem inclusive um fechamento claro, que se dá com o fim da mortífera arma do Império denominada Estrela da Morte e a consagração de Luke Skywalker e seus companheiros como heróis.

Apesar das baixas expectativas, filas enormes de adultos e crianças se formaram em frente aos cinemas, criando fãs de uma saga que continuou nos bem-sucedidos O Império contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983). Os efeitos especiais inovadores da trilogia mudaram a história do cinema, deixando o público espantado com as possibilidades visuais e sonoras apresentadas.

Era razoável se e sperar que os filmes se tornassem clássicos, mas Star Wars fez mais do que isso, e continuou a repercutir por através das décadas. Hoje podemos observar ao menos três gerações que levaram seus familiares não apenas para assistir aos filmes da nova trilogia (1999-2005) ou ao recente O Despertar da Força, mas sim que os apresentaram para a chamada trilogia clássica. O que torna esses filmes ainda tão relevantes?

George Lucas sempre deixou claro que seus filmes eram permeados de simbolismo e que bebeu de diversas mitologias. O herói Luke Skywalker passa por um episódio de tentação nas mãos de Darth Vader, análogo às tentações de Cristo e Buda. A filosofia dos cavaleiros que lutam em nome da justiça na galáxia, os Jedi, tem características claras do budismo. A Força, energia mística utilizada por esses cavaleiros, pode ser entendida como equivalente ao conceito de energia cósmica denominado prana pelos hindus.

Sua história é centrada em valores como amizade, lealdade e fé, e Darth Vader só pôde ser redimido pela fé de seu filho no bem que existia nele; ao longo dos seis primeiros filmes acompanhamos a origem, tentação, queda e redenção desse personagem. Para Lucas, é isso que possibilita o mundo de continuar em equilíbrio: não necessariamente a fé em um sistema religioso, mas sim em algo maior do que nós.

Há quem considere a saga como uma mitologia moderna. Lucas discorda, acreditando que ele adotou o papel de recontar os mitos antigos de uma forma nova. Joseph Campbell, conhecido por seus trabalhos no campo da mitologia comparada exposto em livros como O Herói das Mil Faces, atuou como mentor de Lucas, que observou fielmente a "jornada do herói" descrita pelo autor ao escrever os roteiros dos filmes.

Desde tempo imemoriais, se narra a jornada de um herói que sai em uma aventura e se torna a peça decisiva da vitória em uma crise. Luke Skywalker, um rapaz com uma vida ordinária, é "chamado para a aventura" quando dois simpáticos androides trazem um pedido de ajuda de uma princesa. O herói é relutante e tem medo, mas seu mentor, dotado de poderes mágicos, aqui expressos pela Força, o auxilia a seguir em frente. Ele deve então deixar tudo o que tinha para trás e partir com o novo amigo Han Solo para o resgate da princesa Leia.

O grupo passa por várias provações, e Darth Vader finalmente encontra Luke Skywalker, e o tenta para que esse use seus poderes para o mal, abandonando a jornada, mas Luke se recusa. Depois de um ano de treinamento, o herói pode finalmente enfrentar novamente o vilão que agora sabe que é seu pai, tendo a fé e a crença na piedade deste. Seu pai é subordinado à verdadeira figura do mal, o Imperador. Juntos, eliminam essa figura sombria, e Luke se torna um verdadeiro Jedi - o último - e o fundador do Império e seu representante está destruído e seu pai foi redimido das trevas. A jornada se encerra.

Tanto Lucas quanto Campbell acreditam que o mito é um parâmetro para a vida, algo que mostra nosso lugar no mundo. A mitologia comparada mostra que os povos, em lugares e tempos diversos, contam sempre as mesmas histórias. Assim, uma narrativa concebida nessa estrutura pode ser compreendida por todos, pois elas são imediatamente humanas. Essa é a verdadeira razão da permanência de Star Wars durante 40 anos e, aparentemente, muitos mais em nossa cultura. A mitologia pode sempre ser recontada, e Star Wars o faz brilhantemente.


(texto publicado no Jornalzen - nº 152 - ano 13 - outubro/2017)

sábado, 18 de novembro de 2017

Sabe porque ela é tão bonita? Porque ela já passou pelo inferno e sobreviveu! - Wandy Luz


Sabe porque ela é tão bonita?

Porque ela já passou pelo inferno e sobreviveu.

Porque ela já chorou até pegar no sono, e pela manhã, levantou e continuou, e mesmo com o sorriso meio xoxo, ela não desistiu.

Porque ela já sentiu tanta dor, mas tanta dor que o seu coração quase parou, e mesmo quando a dor castigava e abraçava sua alma, ela não desanimou.

Porque a beleza dela vinha de sua essência, e o sorriso dela iluminava mais que o sol.

Porque a força dela, impressiona até os mais valentes, e apesar de ser delicada, defende seus ideais com unhas e dentes.

A beleza dela é de dentro para fora.

A vida às vezes a castiga, mas ela caminha em um propósito, confia e entrega seu destino nas mãos do criador e do Universo.

Sabe porque ela é tão bonita?

Porque no meio da escuridão ela sempre foi luz, nos momentos de solidão ela foi sua melhor companhia.

Porque a pureza do seu coração a fazia enxergar as maravilhas da vida, o segredo dela era sua fé e muita, mas muita gratidão.