terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Há algo de podre no reino de Francisco - Adriana Dias Lopes


Resultado de vazamento de informações do Vaticano, dois novos livros denunciam uma série de malversações na Cúria Romana e revelam o árduo caminho do papa saneador

Feito papa em 2013, Jorge Mario Bergoglio prometeu aos cardeais combater o que chamou de "narcisismo teológico" da Cúria Romana, atalho para alimentar, entre outros males, a malversação. Logo percebeu a incapacidade de rapidamente mexer no atávico comportamento venal da sagrada instituição. Na semana passada, dois livros escritos por jornalistas italianos (Avarizia, de Emiliano Fittipaldi, e Via Crucis, de Gianluigi Nuzzi) revelaram graves problemas nas contas eclesiásticas. Há avareza, esbanjamento, dívidas e desvios de dinheiro. As informações teriam sido reveladas aos autores por uma italiana de origem marroquina, de nome irônico, a executiva Francesca Immacolata Chaouqui, e pelo sacerdote espanhol Lucio Vallejo Balda. Ambos integravam a Comissão de Estudo sobre a Organização das Estruturas Econômico-Administrativas da Santa Sé, criada pelo próprio pontífice para avaliar a situação financeira da casa. Francesca e Balda foram presos sob a acusação de roubo de textos e gravações confidenciais. A italiana já foi solta por concordar em colaborar com a promotoria, mas está sob a guarda das autoridades. Os dois podem pegar de quatro a oito anos de prisão. As denúncias compõem uma coleção de pecados nada veniais:

- Cerca de 400 milhões de euros teriam sido desviados do "Óbolo de São Pedro", nome que se dá ao dinheiro oferecido pelos fiéis do mundo todo para ser usado em obras de caridade.

- O supermercado, a farmácia e a tabacaria da Santa Sé, criados para atender os funcionários do Vaticano, estão com as contas no vermelho, para além de 1,1 milhão de euros.

- Alguns cardeais moram em apartamentos de até 700 metros quadrados. O do papa Francisco não tem 50 metros quadrados. A atual residência do cardeal Tarcisio Bertone (prefeito da Secretaria de Estado de Bento XVI) teria sido reformada já no pontificado de Francisco com o dinheiro (200 000 euros) de uma fundação destinada a recolher fundos para o Hospital Menino Jesus, instituição mantida pelo Vaticano.

Para qualquer papa, o escândalo seria desanimador. No caso de Francisco, ecoa como derrota. Sabe-se a partir de relatos de alguns dos cardeais que estavam na Capela Sistina em março de 2013 que houve um raro consenso - alçar ao Trono de Pedro alguém que levasse a bom termo uma vasta limpeza ética e moral na burocracia do Vaticano. Bergoglio era o homem certo, na hora certa. Um pouco antes de sua eleição, em 2012, outro vazamento de informações da Cúria havia exposto os jogos de intriga e a má gestão dos recursos econômicos, instaurando a pior crise vivida pelo pontificado de Bento XVI -e culminando na renúncia do papa alemão em fevereiro de 2013. As denúncias foram deflagradas em um contexto semelhante ao de agora. O mordomo romano Paolo Gabriele, um dos poucos homens de confiança de Bento XVI, roubara documentos referentes a investigações de casos de corrupção na Santa Sé e os entregou a Gianluigi Nuzzi, o mesmo autor de Via Crucis. Nuzzi transformou as denúncias no livro Sua Santidade - As Cartas Secretas de Bento XVI. O escândalo envolvendo informações secretas ficou conhecido como VaticanLeaks.

Uma pergunta se impõe: os atuais abusos econômicos começaram antes ou depois de Francisco? É difícil precisar. Mas um fato é incontornável: a esperteza ainda grassa entre os muros do Vaticano. Em entrevista ao jornal italiano Il Fatto Quotidiano, Nuzzi explicou que o estrago pode ser ainda maior: "A Santa Sé é o terreno ideal para os jogos duplos. Os campos e as alianças são moventes. Digamos que de um lado está o papa, os especialistas leigos e os religiosos dos quais ele se cercou para reformar a Igreja. De outro, o sistema curial que se opõe ao pontífice por meios legais, como a inércia, e ilegais, como os furtos", Francisco sabe disso. No Natal do ano passado, ele fez um duro sermão contra os clérigos. "A Cúria sofre de doenças que precisa aprender a curar", disse. E imaginou duas doenças, ambas incuráveis, de modo a ressaltar as dificuldades de vencê-las: o "Alzheimer espiritual" e a "esquizofrenia existencial".



(texto publicado na revista Veja edição 2451 - ano 48 - nº 45 - 11 de novembro de 2015)

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