domingo, 8 de setembro de 2013

Animais em luto - Fátima Chuecco


Eles continuam indo aos túmulos dos donos, casas onde moravam ou lugares que frequentavam com seus amados tutores. Alguns passaram até a viver na porta do hospital numa eterna espera.

Perder um ente querido não é difícil apenas para os humanos. Cães e gatos com frequência demonstram o quanto sofrem quando deixam de conviver com seus amados donos. Um exemplo clássico, mundialmente divulgado, é o do cão Hachiko, da raça Akita, que passou quase dez anos indo diariamente à estação de trens de Shibuya (Japão) na espera de reencontrar o dono - um professor universitário que morreu de ataque cardíaco e era esperado por seu fiel cachorro todas as tardes na estação. A história foi filmada e fez sucesso no cinema com o título Sempre ao seu lado, estrelada pelo ator Richard Gere.

Além de ter sido reconhecida, essa devoção de Hachiko ao seu dono, segundo especialistas, pode também ser compreendida. Isso porque os peludos guardam em sua memória os odores das pessoas que conhecem. E armazenam com mais afinco os odores daqueles por quem sentem muito carinho ou gratidão. Com 220 milhões de células olfativas (contra cinco milhões de células encontradas no homem), os cães podem reconhecer pequenas mudanças no odor das pessoas, inclusive alterações de humor. Quantas pessoas não costumam dizer que seu animal percebe quando elas estão tristes? A perda ou desaparecimento do dono, então, pode causar sérias consequências no animal. "Nessas situações já foram descritas mudanças significativas no comportamento canino, como retração social, sonolência, agitação, busca exagerada de atenção, perda de apetite, irritabilidade, podendo chegar a uma agressão, micção e defecação em locais antes não utilizados, ansiedade, medo e destruição", comenta o médico e especialista em comportamento canino Paulo F. de O. Deslandes, de Vitória (ES).


VÍNCULO MUITO FORTE

Ainda segundo Deslandes, os cachorros possuem personalidades e formação social diferentes de acordo com o ambiente onde vivem. Portanto, terão respostas diversas diante da perda de uma pessoa querida. "Se o animal de estimação vive só com um tutor e mais ninguém, quando seu parceiro morre a mudança é muito brusca. Pode ser que esse pet se ressinta com a situação de uma forma mais intensa do que outro cachorro que esteja inserido numa família humana mais numerosa ou com outro companheiro canino", explica o especialista.

"Acredito que os cães criam um laço forte com seus donos a tal ponto que podem morrer por eles. Outros não saem do lado do seu tutor mesmo nas piores fases de sua vida. É possível, inclusive, que o animal morra de tristeza. A saudade é tanta que, muitas vezes, eles não conseguem se alimentar e perdem o sentido da vida", assinala a médica veterinária Michelle Samanta Ayres, de São Paulo (SP).

Para ajudar um cão a sair do luto, o adestrador Jorge Pereira dá algumas dicas. "Evite deixá-lo com pertences da pessoa que se foi, o cheiro faz com que a mente do nosso amigão não se desligue. Tente de todas as formas continuar com a rotina a que ele já está acostumado, com isso evitamos mudanças bruscas. Outra dica que pode ajudar é dar ao peludo brinquedos, petiscos e passeios para que sua cabeça trabalhe em outra frequência e esqueça um pouco da sua perda recente."


LOBÃO SE ASSEMELHA AO AKITA HACHIKO

No bairro de Rio Tavares, em Florianópolis (SC), um cão da raça Akita segue uma trajetória muito semelhante à de Hachiko, do filme Sempre ao seu lado. Seu dono morreu num acidente há mais de dez anos e desde então ele vive próximo à casa onde morava. Por diversas vezes a viúva tentou levá-lo para uma nova casa em outro bairro, mas Lobão sempre retornava a Rio Tavares. Corre na comunidade um boato de que ele teria, inclusive, pulado do caminhão de mudança na primeira vez em que tentaram transportá-lo.

Estima-se que ele tenha hoje entre 14 e 15 anos, e é alimentado e cuidado por muitos moradores locais. Pela manhã recebe ração especial para cães idosos de um casal. Ao meio-dia vai até a casa de uma senhora que lhe serve o almoço. E no fim da tarde janta na casa de outro morador do bairro. "Mas seu cantinho preferido, onde dorme e passa boa parte do tempo, é bem perto da casa onde morou com seu dono, na porta de uma mercearia. E dali ele não arreda o pé nem para tomar banho. Já tentaram levá-lo ao pet shop, mas ele só vai onde deseja", conta a protetora de animais Jussara Medeiros, que se comoveu com a história de Lobão e quis ver de perto como ele está vivendo. Ela conversou com diversos comerciantes e disse que todo mundo conhece o Lobão na região e que ele é muito manso. Só late de vez em quando, para outros cachorros que ainda não conhece. Passa suas horas dormindo ou caminhando bem devagar pelas ruas do bairro, que, certamente, lhe trazem lembranças que ele jamais esquecerá enquanto viver."


Lobão, o cão que continua a esperar seu dono


TIM VELOU O CORPO DO DONO POR 20 DIAS

O SRD Tim vivia com seu dono, um idoso, em São Paulo (SP), no bairro da Mooca. "O dono do Tim era um senhor muito sozinho e tão reservado que não sabíamos nem o seu nome. Mas dava para perceber que Tim era a vida dele. Ele cuidava muito bem do cachorro. Como ele não saía muito de casa, demoramos para perceber que algo havia acontecido", relata a vizinha que suspeitou da morte do idoso, que faleceu dentro de sua própria casa, em meados de dezembro de 2012.

Mesmo com o dono morto, Tim manteve-se quieto na residência por longos 20 dias, sem sequer pedir socorro ou tentar sair do local, até que o cheiro forte despertou a curiosidade da vizinhança, que decidiu quebrar os vidros da casa temendo que houvesse algum animal morto. "Vimos pelas janelas o corpo do senhor em decomposição e chamamos a polícia, que arrombou a porta. Tim ficou sem reação. Olhou para todo mundo com uma cara de confuso. Encontramos ele deitado sobre o dono. Logo peguei a coleira com guia que estava nele. Pela cena, mostrava que ambos estavam de saída para um passeio quando o proprietário passou mal e faleceu. Coloquei-o na minha garagem e dei um banho de mangueira, porque o cheiro era horrível", relata Adriana Cardamone Caloi, administradora de empresas e uma das vizinhas do idoso.

Com a morte do senhor, os vizinhos descobriram que sua família era do Rio de Janeiro (RJ), mas ninguém concordou em adotar o cão. Como Adriana já tinha outros peludos, muitos deles também vítimas do abandono, decidiu ficar com Tim até que achassem uma família para ele. "Durante oito dias ele só chorava e, quando passávamos na frente da antiga casa onde morava com o idoso, abanava o rabo e ficava todo contente", relembra Adriana.


ELE PESAVA APENAS 8 KG QUANDO FOI ENCONTRADO

Tim estava tão magro que suas costelas já estavam bastante visíveis. Calcula-se que o cachorro só sobreviveu porque bebia água do vaso sanitário. Estava com anemia profunda e problemas na pele. Teve de tomar muitas vitaminas e remédios. Quando passou a morar na casa de Adriana ele engordou 15 kg e foi castrado. "A vizinhança se comoveu com a história e até comprou uma casinha para o Tim. Encontrei uma boa adotante, porém Tim não se adaptou naquele lar. Ele chorava e não queria comer na outra casa. Então o peguei de volta e agora vou ficar para sempre com o Tim. O lugar dele é aqui e ele até já sorri para mim", acrescenta a estudante Larissa, filha de Adriana, que comemora o fato de Tim, atualmente, se sentir tão bem em sua casa que nem tenta mais entrar na antiga casa quando passa na frente dela.

Larissa e Adriana são loucas por bichos e Tim agora integra uma trupe de dez cachorros. "Além dos cães ainda temos seis gatos, sendo que um deles, o Spoke, apareceu recentemente na casa de meu namorado e decidi ficar com ele com medo que de a vizinha fizesse algo com o bichano", conta a estudante, ao revelar que o felino é o "desafeto" de Tim. "Aquele danado vive perturbando o gato", se diverte Larissa, que chegou até a adotar uma pomba machucada que encontrou na rua. "Todos os seres vivos merecem cuidados", comenta.


ALÉM DE UMA FAMÍLIA, TIM GANHOU UM AMIGÃO

Como se não bastasse ter casa, comida e "roupa lavada", Tim ainda ganhou um amigo, o Banzé. "Achamos o Banzé numa rua próxima à nossa, perto de uma fábrica. Estava mancando com a pata machucada e nos seguiu. Ele ficou tão bem quando deixamos que entrasse em casa que parecia até que havia fingido que estava doente só para ser adotado", relembra Larissa. Banze´fica na garagem da casa junto com o Tim, com quem divide uma casinha e brinquedos, pois os dois são loucos por bolinhas e se dão muito bem."


GATINHO SE RECUSA A DEIXAR CASA DA ANTIGA DONA

Em julho de 2012, uma protetora de animais de bom nível socioeconômico e que alimentava animais de rua foi assassinada dentro de sua casa, em São Conrado (RJ). Ela morava sozinha e tinha consigo três gatos e um cachorro. Após a sua morte, todos os animais de estimação foram adotados por parentes e vizinhos, exceto um gatinho preto, que não aceitava aproximação de pessoas nem queria deixar a casa. "Eu e minha irmã soubemos do caso pela imprensa e, como morávamos no mesmo bairro, passamos a alimentá-lo através do portão. Gostaríamos de arrumar um novo lar para ele, mas é muito desconfiado e não se deixa pegar. Uma vez o filho da dona conseguiu capturá-lo e levá-lo ao médico veterinário, onde ficamos sabendo que ele tem por volta de 15 anos, está saudável e castrado. Mas o rapaz o soltou na residência novamente e não foi mais possível tirá-lo de lá", conta Kamilla Anhê, atriz e vizinha da casa onde o gatinho mora.

Por causa de sua idade avançada, o bichano foi batizado por Kamilla de Matusa, que se refere a Matusalém, personagem mais antigo da Bíblia. "Por enquanto a casa não está à venda e continuaremos tratando dele. Todos os dias ele fica no jardim e logo foge quando vê pessoas", diz a atriz. Parece que Matusa era muito próximo de sua dona e está decidido a passar o resto de sua vida na casa onde esteve com ela por longos anos.


CARAMELO COMOVEU A TODOS NA PORTA DO HOSPITAL

Depois de sair em várias reportagens de TV em fevereiro de 2013, a história do SRD Caramelo ficou famosa por sua lealdade ao dono, que morreu dentro de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Cabo Frio (RJ). A cachorra ficou morando em frente do pronto-socorro por 20 dias e passou a ser alimentada por funcionários e transeuntes. "Dizem que alguns parentes a levaram para casa, mas ela fugiu e voltou para a UPA. Ela achava que o dono estava dentro da unidade porque o acompanhou na ambulância e depois ficou ali na porta, esperando ele sair. Todos repararam no olhar triste dela e começaram a alimentá-la", conta Eliete Freire Dorea, de 63 anos, proprietária de um canil onde mantém vários outros cachorros retirados das ruas.

Eliete soube da história pela televisão e se dirigiu para o pronto-socorro para ver como poderia ajudar Caramelo. "Percebi que era uma cadela jovem e estava entrando no cio. Vários cachorros já a rodeavam. Então me propus a recolhê-la. Fiquei das oito da manhã até ao meio-dia tentando ganhar a confiança dela. Por fim, consegui pegá-la no colo e a coloquei no carro", relata. Segundo Eliete, Caramelo comeu muito, dormiu muito e rapidamente se adaptou ao canil, onde aguarda por adoção: "Caramelo está feliz e só será doada para uma pessoa que tiver muito amor e carinho para dar a ela", garante.



A cachorra Caramelo e a adoção de Branquinho 


ROMER SEGUIU A AMBULÂNCIA ATÉ O HOSPITAL

Em Indaiatuba, interior de São Paulo, Romer foi o protagonista de outra história impressionante. Ele vivia com seu dono, um catador de papel, que foi atropelado em meados de janeiro de 2013. Romer estava com uma corda no pescoço amarrada na carroça do dono e conseguiu se soltar para seguir a ambulância até o hospital municipal da cidade. Seu pescoço sangrava e, mesmo abatido, o cão permaneceu na porta do hospital por dias sem saber que seu dono morrera logo depois de dar entrada no local.

Certa manhã, a assistente jurídica Nicole Carricondo Borba Regadas viu Romer na frente de seu prédio com o pescoço bastante ferido e já com bicheira. "Não moro perto do hospital, mas calculo que alguém o deixou na minha rua ou ele mesmo foi perambulando até lá. Só soube que se tratava do cão que havia acampado na frente do hospital por meio de uma conhecida, que estava com o marido internado na mesma época e o reconheceu devido ao corte profundo no pescoço e olhar triste", conta Nicole, que se comoveu e levou o cão para uma clínica veterinária. Ele ficou 12 dias internado, mas, depois de uma breve recuperação, teve recaída e ficou mais um mês em tratamento contra a doença do carrapato e outras complicações. "Com os altos gastos, foi preciso fazer um apelo no Facebook, onde consegui muita ajuda, e uma, em especial, de um rapaz que não quis se identificar, bancou todo o restante do tratamento", revela.

A intenção era doar Romer depois de curado, mas Nicole, o marido e sua mãe se apegaram tanto a ele que foi impossível a separação. "No início ele não latiu por 15 dias, mas aos poucos foi se soltando, inclusive com os outros cães que minha mãe tem em casa. Percebemos também que ele ficava muito feliz quando trazíamos uma caixa de papelão. Acho que lembrava do antigo dono. Eu e meu marido vivemos em apartamento e por isso Romer mora na casa de minha mãe, mas gostamos tanto dele que já estamos querendo mudar para uma casa só para tê-lo conosco", finaliza Nicole.


PETS QUE PASSAM A DORMIR EM TÚMULOS

Casos de animais que passam a visitar ou dormir no túmulo de seu dono são comuns nos noticiários, como o de Rambo, que desde 2009 frequenta a sepultura de seu ex-tutor, no cemitério municipal de Mamborê (PR). Outro exemplo é Capitán, um mestiço de pastor alemão que dorme todas as noites ao lado do túmulo de seu dono, no cemitério Villa Carlos Paz, na Argentina. O animal de estimação faz isso há seis anos e funcionários cuidam de sua alimentação e vacinas. Já a gatinha Mucufa sumiu após a morte de seu dono, em 2006, e um ano depois foi encontrada pelos parentes no túmulo do tutor, no cemitério de Passo Fundo (RS) - ela, inclusive, tinha dado cria no lugar. Por sua vez, Toldo, de 3 anos, é um gato que leva objetos como palitos, folhas, galhos e copos plásticos todos os dias ao túmulo do dono, na pequena cidade de Marliana, na região da Toscana (Itália). Ele participou do funeral de seu tutor em setembro de 2011 e, desde então, tem o hábito de visitar a sepultura. A viúva diz que às vezes ele a acompanha ao cemitério, mas muitas vezes vai sozinho e deposita objetos que encontra na rua como se fossem "presentes". A cidade toda já o conhece. Segundo a veterinária Michelle Samanta Ayres (SP), essas situações acontecem porque o cheiro do proprietário fica perceptível aos animais mesmo alguns dias após a sua morte: "Eles sentem muita saudade e não conseguem viver a não ser perto do túmulo", opina a especialista.


Capitán el perro amigo fiel hasta la tumba



O amor da gatinha Mucufa por seu dono



DEVOÇÃO E HOMENAGEM

Após o episódio com Hachiko, cão que por quase dez anos aguardou o dono na estação de trem japonesa, a raça Akita passou a ser considerada como um patrimônio nacional do povo japonês. Assim, se um proprietário não tiver condições de manter seu Akita, o governo japonês assume a guarda dele. Hachiko teve seus ossos enterrados em um canto da sepultura do professor que dele cuidou por um ano e quatro meses, num relacionamento intenso de lealdade e amor. Sua pele foi preservada e uma figura empalhada de Hachiko pode ser vista no Museu Nacional de Ciências de Ueno. Em 1934, ano de sua morte, uma estátua de bronze foi esculpida pelo artista Tern Ando na frente da bilheteria da estação de Shibuya com a placa Linhas para um cão leal. No entanto, em 1944 a estátua foi derretida e seu material usado na fabricação de armamento bélico. Então, em 1948 uma réplica feita por Takeshi Ando (filho do artista original) foi recolocada na estação e hoje ela é uma atração turística.

Filme Hachiko Monogatari 




(texto publicado na revista Meu Pet nº 09)



















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