domingo, 8 de setembro de 2013

Profissão: cão-guia - Rita Santander


A rotina começa cedo para Toby. De casa para o trabalho, o labrador segue por calçadas apinhadas de gente, atravessa ruas de trânsito intenso, sobe e desce escadas, pega ônibus e metrô. Tudo isso ao lado da dona, a funcionária pública Ersea Alves, que ele conduz com todo cuidado. Concentrado, Toby não desvia a atenção. E se alguém o convida para brincar, o peludo lança aquele olhar de "estou ocupado". "Ao chegar ao local de trabalho da dona, ele bebe água e vai direto para a almofada, onde dorme sossegado", conta ela. "Nessa hora, começo a trabalhar e ele fica ao meu lado até o fim do expediente."

O labrador, que tem 5 anos de idade, é um dos 60 cães-guias ativos hoje no país. O número é baixo, quando se leva em consideração a população de deficientes visuais: 1,2 milhão, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Mas há motivos para isso. "Habilitar esse tipo de cachorro é um processo longo e bastante caro, feito por pouquíssimas ONGs tanto no Brasil como fora do país", explica Ersea. Muito antes de receber Toby, ela arregaçou as mangas e fundou o Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Iris), uma Organização Não Governamental que, com ajuda de doações, tenta trazer cães-guia treinados para o Brasil.

A Iris não é a única entidade que tenta mudar esse cenário. Em 2011, o Sesi lançou o projeto Cão-Guia Brasil, que tem como objetivo treinar e  distribuir esses cães, por meio de processo seletivo, a trabalhadores do comércio com deficiência visual. "O treinamento dura dois anos e atualmente temos 32 alunos na etapa final, quase prontos para serem entregues", comemora Beatriz Canal, que coordena esse trabalho. Há ONGs desenvolvendo projetos semelhantes no restante do país.

O candidato a cão-guia precisa ser saudável, inteligente e muito obediente. Ter cara de dócil também é fundamental. Afinal, ele vi circular em ônibus, metrôs e locais públicos e não poderá inspirar medo nas pessoas. Segundo Beatriz, raças como o labrador e o golden retriever atendem bem a esses requisitos e são as mais populares entre os cães-guias.

As aulas têm início aos dois meses de idade, quando o filhote é entregue à "família socializadora", que vai ensinar as regras básicas de educação, como sentar, ficar e caminhar com tranquilidade. Ao completar um ano, começa a parte mais intensa do adestramento. São sete meses de aulas até que ele esteja apto a conduzir uma pessoa. "É ele que vai ajudar o deficiente visual a reconquistar sua segurança e sua independência ao andar pela cidade", afirm Beatriz.

A idade recomendada para o cão-guia se aposentar é aos oito anos. Muitos, porém, continuam na família depois disso. Sinal de que a relação entre eles e seus donos vai muito além do trabalho. Ersea e Toby são uma prova. "Ele é mais do que um condutor, é um companheiro por quem tenho muito carinho e amor", conta ela, que está com o cachorro há três anos. Ao chegar em casa, ela tira a guia dele e o labrador já entende o recado: é hora de relaxar e brincar. Afinal, o expediente acabou!




(texto publicado na revista Meu Pet nº 01)






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