segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Segredos de dom Pedro I - Bianca Castro


A arqueóloga Valdirene Ambiel exumou o imperador e suas duas mulheres. O que descobriu muda parte da história

O fascínio que vem da infância e a persistência científica levaram a arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, 42 anos, a rever o capítulo do Império na história do Brasil. Com requintes de cinema, ela concluiu, em setembro passado, a exumação dos corpos do primeiro imperador, dom Pedro, e das suas duas esposas, Leopoldina e Amélia. Em operação sigilosa, para evitar que o patrimônio nacional corresse risco de roubo ou dano, ela transportou os restos mortais dos três de madrugada e sob intensa proteção. As urnas mortuárias, com quase 200 anos cada uma, seguiram do Monumento à Independência, no bairro do Ipiranga, na capital paulista, para o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Como pacientes comuns, os cadáveres passaram por testes e exames de tomografia. Valdirene analisou tudo, fascinada. "Estava realizando um sonho de menina."

Quando criança, ela era levada pelo pai, um caminhoneiro, para visitar o Monumento e ouvia dele detalhes inesquecíveis sobre aqueles personagens. Aos 11 anos, assistiu à chegada triunfal do caixão lacrado de dona Amélia, trasladado de Portugal. Como a imperatriz estaria lá dentro? Que mulher teria sido? As interrogações só encontraram respostas na atual investigação de Valdirene, que foi vista com descrédito pelos cientistas. Eles diziam que só haveria pedras ou cinzas, já que Pedro I, segundo uma das versões oficiais, teria sido cremado.

As descobertas até agora são robustas: quatro costelas quebradas perfuraram o pulmão do imperador, complicando a tuberculose que o matou aos 36 anos. Havia medalhas e comendas, mas nenhuma brasileira. Ele foi enterrado como general português. Crânio e face preservados ainda ajudarão Valdirene a revelar como era o rosto dele - só visto em pinturas. Já se sabe que Pedro não causou a morte da primeira esposa. Os livros sugerem que Leopoldina teria sido empurrada escada abaixo pelo marido. Não há fraturas ósseas. A mulher não era rechonchuda. Seu corpo delgado media até 1,60 metro, e ela vestia o mesmo traje, em fios de ouro e prata, usado na coroação, em 1822. Mas devia estar em uma fase sem dinheiro: uma pedra falsa, de resina, enfeitava seus brincos. Aberto o caixão de Amélia, o cheiro de cânfora e mirra invadiu o local. Única a ter sido mumificada, apresentava pele, olhos, cílios e cabelos intactos.

Valdirene não tem mais a bolsa que bancava o projeto. Para se manter até concluir sua tese acadêmica, um documentário e um livro sobre a aventura investigativa, ela vendeu o carro e passou a fazer restaurações. "Eu me dedico de corpo e alma, porque amo história", diz.




(texto publicado na revista Claudia - abril de 2013)







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