Irmã Cecília Berno, a catarinense que ficou famosa na despedida de Bento XVI, retoma as críticas à Igreja defende a participação da mulher na hierarquia e nas grandes decisões do mundo católico e diz o que espera do novo papa, Francisco
Na Praça São Pedro, em Roma, no meio de uma multidão de 150 mil pessoas, uma mulher aparentemente comum chamou a atenção da imprensa internacional. Empunhando a bandeira do Brasil, ela assistia à despedida de Bento XVI, depois de sua renúncia motivada por falta de força física e de energia para combater escândalos sexuais e corrupção na Igreja Católica. No dia seguinte, a religiosa catarinense Cecília Berno, 66 anos, da Congregação das Irmãs de São José de Chambery, estava em vários jornais com suas corajosas análises. A favor de avanços - todos preteridos pelo pontífice -, ela defendia a ordenação de mulheres e a participação delas na hierarquia católica, o celibato como opção e a abertura da Igreja para as necessidades contemporâneas da humanidade. Na praça, ainda particularizou nosso país: "O papa foi muito duro com o Brasil ao silenciar vozes da Teologia da Libertação (a corrente que enxerga a aproximação dos pobres e a justiça social como compromissos cristãos)". Dias depois, explicou a CLAUDIA: "No tempo da sangrenta ditadura militar, calar os teólogos que estavam junto do povo sofrido foi como calar os profetas". Irmã Cecília reconheceu, porém, "o ato humilde" de Joseph Ratzinger e "a coerência evangélica" ao entender que o poder deve estar a serviço do bem comum. "No momento em que se viu sem condições de levar adiante a sua missão, ele deixou espaço para quem pudesse fazê-lo. É uma lição não só para a Igreja, mas para todos que exercem a liderança e o poder." No dia 13 de março, lá estava ela, de novo, na Praça São Pedro, esperando a fumaça branca que confirmaria a eleição do sucessor. Cecília observava a movimentação com sua bandeira do Brasil. "Tenho três e sempre participei com elas de atos importantes da vida democrática do meu país. Agora trago um pouco dele para a escolha do papa."
Como professora, "de salário curto", ela frequentou assembleias da categoria e manifestações políticas nos últimos 40 anos. "Cecília foi a primeira freira a assumir um cargo numa prefeitura gaúcha", lembra a deputada estadual Marisa Formolo (PT) - que, quando foi prefeita de Caxias do Sul (RS), contou com a irmã na elaboração do orçamento participativo, que inclui os moradores na decisão de onde colocar o dinheiro público. "Ela fez suas superioras entenderem que uma religiosa pode contribuir com a vida pública. Cecília é ótima articuladora. Negociava com a oposição e era admirada por todos", afirma a deputada. Foi com esse espírito que a irmã recebeu a inesperada eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio. "Fico feliz por ser um homem da América Latina. Ele sabe dos problemas dos países onde há desigualdade", ressalta Cecília. E avisa: "Vou apostar nele".
Embora de perfil conservador, inimigo do casamento gay e das políticas que flexibilizam o aborto, o arcebispo de Buenos Aires é filho de imigrantes italianos humildes e pautou sua missão evangelizadora nas favelas portenhas. Seu ato mais conhecido foi lavar e beijar os pés de doentes com aids, em 2001. Ao colégio de freiras onde aprendeu a ler, ele sempre voltava para rezar com as irmãs. Uma delas conta que Bergoglio as orientava a andar pelas ruas, convicto de que, se a Igreja não sair de si, perecerá. Ele gosta de tango e futebol e é amigo de dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo. No dia da eleição, ouviu um apelo de Hummes: "Não se esqueça dos pobres". E o tomou como inspiração para adotar o nome de São Francisco de Assis. Uma nódoa atribuída à biografia do papa - a cumplicidade com a ditadura militar em seu país - parece ter sido clareada pelo compatriota Adolfo Pérez Esquivel, ativista de direitos humanos e Prêmio Nobel da Paz em 1980. "Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois padres da prisão, sendo ele o superior dos jesuítas. Sei que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e não eram atendidos", declarou Esquivel. "Pode ter faltado coragem para acompanhar a luta pelos direitos humanos naquele momento difícil."
Coragem é o que todos esperam agora do novo pastor. Inclusive Cecília, que vive há 11 meses em Roma atuando na administração da sua congregação. Ela tem rezado pelo papa Francisco. "Da minha parte, farei tudo para ajudá-lo. Creio que ele sentiu o peso da Igreja, percebeu a sua responsabilidade quando viu a praça lotada, a repercussão da sua escolha. O mundo estava voltado para Roma. E começou bem: convidou o povo para fazer o caminho com ele, rumo ao reencontro do Evangelho." Cecília pondera que, para enfrentar os desafios que o esperam, é preciso ser como Cristo. "Jesus combateu a hipocrisia, o legalismo que usava a religião para explorar. Foi revolucionário, e a Igreja tem de ser revolucionária, responder aos anseios mais profundos do ser humano." Um deles diz respeito a avanços femininos. "É preciso abrir as janelas: a mulher poderia exercer o sacerdócio", defende a religiosa. E faz sua análise: "O projeto salvador de Deus, que é pai e mãe, é para todos e todas. Jesus resgatou a dignidade das mulheres, mas levou em conta a realidade do seu povo e, na época, elas eram totalmente excluídas, não participavam das instâncias da religião e da sociedade. Hoje os tempos são outros, temos no Brasil uma presidenta. Na Igreja, a mulher está na base, na evangelização, nos serviços, mas poderia atuar em todas as esferas. Com sua sensibilidade e dimensão maternal, traria novos ares". Esses temas, lembra, constam das conclusões do Concílio Vaticano II, que não foram retomadas. "A Igreja já tem uma reflexão feita. É só dar continuidade".
Sobre a proibição de um sacerdote constituir família, Cecília aponta para a liberdade de escolha. "Há os que desejam ser celibatários. Outros querem exercer o sacerdócio e casar", justifica. "Isso supriria a falta de padres e resolveria parte dos escândalos ligados à sexualidade." Ela é progressista também em relação ao casamento de divorciados, o que a Igreja não admite. "Penso que, nas relações humanas, o que vale é o amor. A lei e o ato religioso às vezes não correspondem à realidade. Ouvi de um padre que a maioria dos matrimônios não é legítima diante de Deus porque se baseia em outros interesses, distantes do amor e do afeto. Temos que buscar o diálogo para entender cada caso."
Em uma sociedade conturbada, em que valores essenciais são descartáveis, como crê Cecília, o papa Francisco vai se deparar, ainda, com a discriminação e a intolerância religiosa. Esses assuntos já estão no radar do argentino. A declaração, antes do conclave, de que a Igreja deveria se arriscar mais e não temer o contato com o mundo de fora, foi entendida por estudiosos como uma aproximação de outras religiões. É algo que ele fazia em Buenos Aires, ao manter laços fraternos com a comunidade judaica. Por tudo isso, Cecília reitera sua expectativa de bons tempos: "Vou ficar na confiança".
(texto publicado na revista Claudia - abril de 2013)
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