domingo, 28 de setembro de 2014

Vamos nos estranhar? - Gustavo Gitti


Aprofundar nossa relação com estranhos é tão ou mais importante do que melhorar os relacionamentos íntimos

Há incontáveis livros sobre como melhorar a relação com o marido, com a namorada, com parentes, amigos e colegas de trabalho, mas quase nenhum sobre nossa relação com estranhos. O curioso é que, se pudéssemos contar todos os seres já registrados por nosso olhos, a grande maioria seria composta por desconhecidos: gente no metrô, nas ruas, em restaurantes, na internet, em shows... A conclusão não é nada animadora: a maior relação que cultivamos é a da indiferença. Nosso principal parceiro não teme nome, nosso principal relacionamento não tem graça. Não por acaso, exigimos tanta satisfação das outras relações.

Nessa conversa sobre como mudar o jeito de tratar estranhos, logo pensamos apenas em ser mais educados ou, talvez, criar mais amizades, transformando desconhecidos em conhecidos. Além de ser uma solução inviável em larga escala, por que mesmo é preciso conhecer a história de alguém para só depois reconhecê-lo como um possível parceiro de vida? O treino da empatia envolve se interessar pelo outro tanto quanto validar sua existência imediatamente, sem precisar saber nada a respeito de seu mundo, muito menos "gostar" dele.

Desconhecidos são desconhecidos para quem? Para o mesmo olho utilitário que vê maridos, filhas, amigas, inimigos. Nesses contextos, porém, o auto centramento ganha uma maquiagem mais humana e esconde o absurdo que é perceber alguém tomando o próprio umbigo como ponto de referência. Portanto, se eu contemplar um estranho com mais cuidado, enxergarei um ser muito familiar; e se aprofundar a relação com minha esposa, enxergarei uma estranha inalcançável. O olho que começa a ver estranhos como familiares também vê familiares como estranhos. Tal diferença é uma ilusão de ótica.

A presença de um estranho nos deixa mais à vontade porque não nos cobra de ser quem já fomos, não exige aquela coerência presente nos casais que oscilam entre "eu te conheço!" e "você está esquisito!", ambos problemáticos. Miranda July, diretora de cinema apaixonada por estranhos, costuma dizer que um desconhecido nos dá a liberdade de ser qualquer um, ao mesmo tempo que nos oferece um contraste para nos descobrirmos.

Pessoas íntimas que acham que se conhecem, por favor, vamos nos estranhar mais. Às pessoas que se ignoram, outro convite: vamos nos reconhecer mais como iguais? Nesse processo de aproximação pelo estranhamento, você talvez encontre uma outra pessoa desconhecida: você.




(texto publicado na revista Vida Simples nº 145 - junho de 2014)




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