quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Aqui passa um rio - colaboração de Letícia Mori


Debaixo das principais avenidas de São Paulo, passam rios. Sob a 23 de Maio, corre o Itororó. Na 9 de Julho, flui o Saracura. Na avenida dos Bandeirantes, esconde-se o córrego da Traição. E, na avenida Pacaembu, claro, o Pacaembu.

Na capital paulista, existem mais de 300 cursos de água encobertos. Pouco a pouco, alguns moradores da cidade depositam um olhar mais atento para esses leitos ocultos. Grupos de ativistas, artistas, geógrafos e arquitetos têm colocado os rios na mira de suas atividades. Vale escrever uma frase no asfalto com o dizer "aqui passa um rio", criar um bloco de Carnaval que percorra o curso de um córrego, encenar uma peça de teatro a partir das memórias de uma enchente ou inventar um site com o mapa hídrico da cidade e suas histórias.

"Água não falta, o que falta é a percepção dela", afirma o urbanista José Bueno, que criou a iniciativa Rios e Ruas ao lado do geógrafo Luiz Campos Jr.. Eles organizam expedições pela cidade atrás de nascentes e de córregos escondidos.

Bueno estava interessado em criar experiências vivas de aprendizagem na capital paulista. "Fui apresentado ao Luiz e perguntei: "Você diz que São Paulo tem um monte de rios, a gente pode experimentar isso?". Aí ele disse uma frase que me fisgou: 'Não existe nenhum lugar da cidade em que você esteja a mais de 200 metros de um curso d'água'. Isso é brutal", recorda o urbanista.

Os dois fizeram a primeira exploração de bicicleta ao redor da casa de Bueno (na Vila Indiana, próxima ao Butantã) e, a cem metros, acharam a nascente do rio Iquiririm.

"Passava ali todo dia. Era um brejo, uma área de despejo de entulho. Voltamos lá, abrimos a nascente e fizemos dois lagos", afirma Bueno.

Para a dupla, os rios devem ser limpos e abertos primeiramente na cabeça das pessoas. "Quando fizeram a retificação do rio Pinheiros, a palavra mais usada nos relatórios da Light era 'recuperação'. Hoje a gente usa a mesma palavra com o significado de abrir o rio, replantar as margens, fazer um parque linear. É a cultura que está mudando", afirma o geógrafo Campos Jr..

Também interessadas em recuperar a história dos cursos d'água que a cidade sufocou, as jornalistas Stephanie Kim Abe e Iana Chan e a designer Pamela Bassi criaram o projeto Rios (In) visíveis, mapeamento colaborativo dos rios da cidade.

No mapa estão marcados locais onde o grupo garimpou histórias, como as de moradores antigos que têm memórias de quando os rios ainda não estavam soterrados. "A gente vive em uma cidade que tem milhares de quilômetros de rios e córregos enterrados vivos. A ideia é trazer tudo isso à tona", diz Iana Chan.

A maior dificuldade foi encontrar dados - como a relação entre a rede fluvial e a rede de esgoto, ou informações sobre quando os rios foram enterrados. O grupo usou principalmente informações do Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais no Município de São Paulo, disponibilizadas pela prefeitura.

O mapeamento começou a ser feito em maio deste ano, durante o EcoHack World, um evento realizado ao mesmo tempo em São Paulo, Nova York, São Francisco e Madri para construir bancos de dados relacionados ao tema ambiental. O mapa e as histórias podem ser encontrados em www.riosdesapaulo.org.

Ilhas de frescor

Os arquitetos Tânia Regina Parma e Newton Massafumi Yamato têm um projeto para abrir a nascente do rio Saracura e revelar seu curso, no Bexiga. A ideia foi selecionada em um concurso promovido pelo IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) de São Paulo em conjunto com a prefeitura, no início de 2014.

O Bexiga foi escolhido por ser um dos pontos críticos da ilha de calor na cidade. Nesses locais, a umidade relativa do ar diminui bruscamente.

"A ideia é destampar o Saracura com a proposição de um parque linear curativo, que transforme o lugar num elemento de reversão desse processo climático", diz Yamato.

A arquiteta Tânia explica que o projeto faz parte de um plano maior, que prevê a criação de microáreas de projeção ambiental espalhadas pelo espigão central da cidade, onde ficam as "avenidas de topo", como a Paulista e a Heitor Penteado. "Esse espigão abriga várias nascentes. Mapeamos algumas. O estudo do Saracura pode ser aplicado em vários outros lugares", diz a arquiteta.

A dupla defende que a Lei de Zoneamento preveja essas microáreas de proteção em torno das nascentes urbanas, já que muitas delas estão dentro de áreas de adensamento previstas pelo Plano Diretor - que permitem levantar prédios mais altos a 200 metros de grandes avenidas.

Caçador de nascentes

Há cerca de três meses, o corretor de seguros Adriano Sampaio, 43, revelou-se um indômito "caçador de nascentes". Sobrepondo um mapa da cidade de 1930 com um atual, ele já encontrou dezenas delas: algumas em propriedades privadas, outras em lugares ermos da periferia.

Ele registra suas descobertas em fotos e vídeos no Facebook, na página "Existe Água em SP".

O interesse do corretor pelos rios foi intensificado quando ele participou da revitalização da praça Homero Silva, na Pompeia (zona oeste).

O lugar estava abandonado e tinha um histórico de violência. Há cerca de um ano e meio, o grupo Ocupe e Abrace, formado por moradores do bairro, começou a limpar a praça e descobriu ali duas nascentes do rio Água Preta. "Tiramos o lixo e fizemos um lago", diz Sampaio. O local foi rebatizado de praça da Nascente,que hoje recebe festivais de arte e cultura.

Mesmo enterrado sob as ruas da Pompeia, o rio que nasce na praça inspirou outras inciativas culturais. O casal de artistas Anahí Santos, 36, e Lincoln Antonio, 44, engajado nas questões ambientais e sociais do bairro, criou o Bloco do Água Preta, que segue o percurso do rio depois do Carnaval. "É uma forma alegre e convidativa de tocar numa questão séria e angustiante", diz Anahí.

Alguns integrantes do bloco formaram mais um grupo, que, com o mesmo espírito performático, faz grafites indicando os córregos soterrados com uma mensagem clara e contundente: "Aqui passa um rio".

No Carnaval deste ano, outro cortejo chamou a atenção para um rio oculto: o Bloco Fluvial do Peixe Seco fluiu pela avenida 9 de Julho, no Bexiga, onde passa o rio Saracura.

A ideia surgiu a partir de intervenções do coletivo Mapa Xilográfico, que já havia trabalhado com a temática dos rios no Jardim Pantanal (na zona leste) e no próprio Bexiga.

O nome do bloco é uma homenagem ao rio Piratininga (atual Tamanduateí), que na língua tupi quer dizer rio do peixe seco. Em 2015, o bloco vai passar pelo vale do Anhangabaú.

Há mais de dez anos, Cesar Pegoraro está envolvido no movimento dos moradores do Butantã (região oeste) pela criação de um parque linear no córrego Água Podre. O projeto está longe de ser concluído, mas pode vir a ser um exemplo pela forma que está envolvendo a comunidade e diversões órgãos públicos.

Em 2006, a Subprefeitura do Butantã apresentou um projeto para criar um parque linear em um trecho do Água Podre. A comunidade protestou e conseguiu incluir toda a extensão do córrego no planejamento.

Mas como fazer um parque linear com o rio cheio de lixo e ratos? A Sabesp foi acionada e incluiu o curso d'água no programa Córrego Limpo.

As obras passariam por uma comunidade que vivia em palafitas sobre o córrego. A Secretaria de Habitação entrou em campo para criar na região um conjunto habitacional. Por fim, o risco de desabamento das margens colocou em ação a Secretaria de Infraestrutura Urbana.

Em 2008, os moradores, junto à Secretaria do Verde, conseguiram impedir a construção de prédios e, em 2011, a área foi desapropriada e fará parte do parque. "Será o primeiro parque linear com intervenções da nascente até a foz e esse monte de secretarias trabalhando ao lado da comunidade", diz Pegoraro, biólogo e especialista em gestão ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica.

A luta dos moradores do Morro do Querosene pela criação de um parque na Chácara da Fonte também soma mais de dez anos. Em terreno particular de 39 mil metros quadrados, perto da avenida Corifeu de Azevedo Marques, fica uma fonte com duas bicas, cercada por árvores. É a nascente do rio Pirajussara-Mirim.

Protegendo a fonte, dois arcos feitos de pedras soltas remontam o tempo dos tropeiros. O lugar era um ponto de parada de um antigo caminho indígena ("peabiru").

Em 2011, a área ganhou um Decreto de Utilidade Pública para a criação do parque e, no ano seguinte, a fonte foi tombada pelo Conpresp (conselho municipal de preservação). O processo agora está na fase de desapropriação do terreno.

"Não dá para ficar calado. Esse lugar deveria ser transformado numa área de proteção ambiental", diz o músico e ativista cultural Dinho Nascimento, 63, que mora há mais de 30 anos no bairro. Ele lembra da época em que as pessoas podiam acessar livremente a bica pela rua da Fonte. Hoje, um muro impede a passagem dos moradores, mas a água continua escorrendo ininterruptamente até atingir a boca de lobo.

Aleijados de suas curvas, alguns rios retomam suas várzeas em época de cheia. É o caso do Três Pontes, um afluente do Tietê. No verão de 2009/2010, ele deixou as casas do bairro Jardim Romano, no extremo leste, debaixo d'água.

Na peça "A Cidade dos Rios Invisíveis", da companhia Estopô Balaio, a memória dessa enchente é evocada pelos atores e pelos próprios moradores. O espetáculo começa na estação Brás da CPTM. O público acompanha a trupe dentro do trem até chegar ao Jardim Romano.

"O rio não é mais o mesmo, então eu sou outro homem", diz um personagem do espetáculo. A fala da peça faz coro com o pensamento do geógrafo Campos Jr., do Rios e Ruas.

"A gente quer achar um culpado, o planejador filho da mãe, o prefeito, mas, na verdade, o que aconteceu com os nossos rios foi algo que nós fizemos, nós desejamos. Fazia sentido num dado momento. Agora não faz mais."



(texto publicado na revista SãoPaulo do jornal Folha de São Paulo de 23 a 29 de novembro de 2014)
















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