Uma biografia narra como a feiosa Josefina seduziu Paris e Napoleão, o homem mais poderoso de seu tempo
A exemplo de outras grandes sedutoras da história - como a imperatriz Catarina da Rússia e Cleópatra 0, Marie-Josèphe-Rose de Tascher de la Pagerie não foi nenhuma beldade. Era baixa, gordota, tinha maneiras rudes e sorria cobrindo os lábios com um lenço, para esconder os dentes enegrecidos pelo consumo excessivo de açúcar durante a infância, no engenho do pai na Martinica. Mas, se as mulheres zombavam dela, os homens se viam imediatamente atraídos por sua pele morena e pela atenção que ela lhes devotava mesmo em uma rápida conversa. "Ela os fazia pensar no boudoir", diz a escritora inglesa Kate Williams, na biografia Josefina: Desejo, Ambição, Napoleão (tradução de Luis Santos; Leya, 512 páginas; 49,90 reais, ou 33,99 na versão eletrônica).
Historiadores e consultora da rede BBC, Kate conta a trajetória da primeira mulher de Napoleão Bonaparte com o ritmo de uma série de TV. Se falta profundidade de análise histórica à narrativa, ela é compensada pela rica descrição da época e, sobretudo, pelo carisma do casal de protagonistas. O amor entre Josefina e Napoleão - foi ele quem lhe deu o nome pelo qual é conhecida até hoje - era carnal, passional e tão intenso que sobreviveu à separação (motivada pela incapacidade de Josefina, já com certa idade, de gerar filhos) para chegar à beira da morte> consta que ele teria chamado pela amada pouco antes de expirar, na Ilha de Santa Helena, em 1821, seis anos depois de ela ter sucumbido a uma pneumonia, em Paris. Ambos compartilhavam o mesmo apego ao poder e uma notável habilidade para engendrar intrigas palacianas e diplomáticas e delas se desvencilhar. Uma ligação inflamada e inevitável desde a noite, em 1795, quando em um banquete a viúva do fidalgo Alexandre de Beauharnais se sentou ao lado do ainda jovem e tímido soldado Bonaparte. A relação é bem documentada através da extensa correspondência trocada por eles - o general francês, como se sabe, era excelente missivista.
Nascida em 1763, em uma família de latifundiários crioulos- como eram chamados os brancos originários do Caribe - Josefina foi enviada a Paris aos 15 anos, para um casamento de conveniência. Escapou da ruína financeira do pai, mas enfrentou um marido mulherengo e ciumento que, depois de dois filhos, a acusou de adultério e a enviou para um convento que acolhia damas da sociedade caídas em desgraça. A partir de então teve de se reinventar, primeiro como cortesã em Versailles - por pouco não foi parar na guilhotina, como o marido - e, depois, como femme du monde na França pós-revolucionária.
No terceiro ato de sua vida, já imperatriz - foi coroada graças a uma manobra de última hora junto ao papa Pio VII -, comprava cerca de 900 vestidos por ano e possuía mais diamantes do que Maria Antonieta. Mas dizia nunca ter sido tão feliz quanto no tempo em que corria livre e despreocupada pelo engenho do pai. Isso, nem o homem mais poderoso do mundo conseguia lhe devolver.
(texto publicado na revista Veja edição 2385 - ano 47 - nº 32 - 6 de agosto de 2014)
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