terça-feira, 20 de setembro de 2016

"A saída é deixar o país?" - Depoimento de José Donato Jr, a Talissa Monteiro


Tenho sofrido muito em meu dia a dia como professor e cientista da Universidade de São Paulo (USP). O ambiente de pesquisa no Brasil é absolutamente refratário; opõe-se aos profissionais que buscam real eficiência em seus trabalhos. A falta de recursos - agravada atualmente em razão da crise econômica, embora o problema seja anterior a ela - tem nos impedido de fazer avançar nossos projetos. Em janeiro, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lançou o edital de 2016 da Chamada Universal, um programa de investimentos em estudos acadêmicos, sem sequer ter pago a verba que fora prometida aos aprovados em 2014. Quer dizer, o novo edital não passava de propaganda enganosa. Isso ilustra bem o modo como o governo federal trata a ciência brasileira.

Não sou o único a penar com essa situação, que claramente envolve uma enorme maquiagem de números. Diversos colegas de profissão estão esperando o dinheiro dos órgãos governamentais para dar continuidade aos seus trabalhos e, em casos extremos, fazendo vaquinha on-line ou mesmo tirando do próprio bolso para não perder material de laboratório. A crise, a gente até entende. Em 2015, o edital para a Chamada Universal não foi aberto por falta de recursos. Mas como lançar um novo em 2016 sem arcar nem com 20% da verba para os contemplados em 2014? O mais grave foi o Ministério da Ciência. Tecnologia e Inovação divulgar que a última parcela do tal edital fora paga. Enquanto isso, eu só recebia respostas negativas no CNPq quando cobrava os recursos.

Sem dinheiro, não posso pesquisar, claro. Porém não quero - e meus colegas também não - estacionar meus estudos. Seria jogar no lixo anos de trabalho e gastos públicos. O pesquisador no Brasil faz malabarismo com sua escassa verba - para poder adquirir, por exemplo, reagentes químicos básicos à sua pesquisa. Isso para não falar da precária infraestrutura dos prédios. Recentemente, para me proteger do sol, substituí as folhas de papel sulfite que estavam grudadas na janela de meu escritório por cortinas - para tanto, abri minha própria carteira.

Todo esse ambiente drástico piora com a falta de transparência das agências federais. É difícil saber por que exatamente alguém foi contemplado. Colegas que deveriam receber dinheiro não são classificados para tal, enquanto outros que mal produzem ganham verbas. Os editais até elencam inúmeros critérios de análise, mas a pontuação que os pesquisadores recebem em cada um deles não é divulgada, o que torna o processo obscuro. Isso é não respeitar o dinheiro do contribuinte - e o modo de usá-lo.

Por todos esses motivos, o Brasil sofre com a evasão de cérebros, tal como recentemente pudemos testemunhar com a saída do país da neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Emigrar para lugares que dão mais suporte à pesquisa nem sempre é decisão fácil, pois não envolve apenas o aspecto profissional. Significa também abrir mão de familiares e amigos. Contudo, essa parece ser a solução para muitos cientistas e outros profissionais.

Estudei e trabalhei nos Estados Unidos por quatro anos. Convertendo meu salário em dólares, percebo que ganhava mais em 2008 como aluno no exterior do que recebo hoje como professor da maior e melhor universidade do Brasil. Escolhi voltar para meu país, em 2011, para provar que seria possível fazer ciência de qualidade aqui. Infelizmente, tenho a constante impressão de que nosso sistema conspira contra isso, por meio de muita burocracia e pelo pouco suporte aos cientistas,em especial os mais jovens. Quem sofre com isso é a produção acadêmica brasileira, pois essas dificuldades nos tornam incapazes de competir de igual para igual com colegas do exterior. Será que terei de sair novamente de minha terra para poder trabalhar de verdade?


José Donato Jr., paulistano, 37 anos, neurocientista e professor da USP



(texto publicado na revista Veja edição 2488 - ano 49 - nº 30 - 27 de julho de 2016)

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