quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Vida nova às bancas - Total Express


Projeto de lei que libera publicidade pode revitalizar bancas de jornais e revistas e criar novas áreas de convívio em São Paulo

Um dos jornaleiros mais tradicionais de São Paulo, o italiano Paolo Pellegrini, de 66 anos, vende jornais e revistas praticamente desde que chegou ao Brasil, em 1952. Começou garoto, aos 8 anos, ajudando o tio em uma banca no Viaduto do Chá, no centro da cidade. Depois abriu com o pai sua própria banca, em 1967. O negócio deu tão certo que Pellegrini transformou os empregados em sócios e montou uma rede com cinco bancas em São Paulo. Agora, enxerga a possibilidade de dar uma nova guinada nos negócios, com a ajuda de um projeto de lei em discussão na Câmara Municipal que pode revigorar as bancas da cidade, ao liberar, nesses pontos, a exposição de publicidade, restrita desde a entrada em vigor da Lei Cidade Limpa, há quase dez anos.

O programa Banca SP, idealizado pelo prefeito Fernando Haddad com base em um projeto de lei de 2014, do então vereador José Américo, também do PT, estabelece uma política pública dentro da Lei Cidade Limpa que pode auxiliar na renovação de parte dos 3 500 pontos de venda de jornais e revistas da cidade, com a veiculação de anúncios publicitários. As bancas poderão ter quatro painéis de até 90 centímetros de largura por 1.80 metro de altura, um em cada lateral externa e dois na parte traseira. O projeto já passou por uma votação e aguarda a segunda aprovação em plenário, prevista para agosto, para que, então, possa ser encaminhado para a sansão do prefeito Haddad.

Se for aprovado, os jornaleiros que quiserem colocar os painéis publicitários deverão reformar suas bancas para adequá-las à Lei Cidade Limpa e também aos padrões a serem definidos pela São Paulo Urbanismo, empresa pública ligada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU).

O acordo para veicular os anúncios seria feito diretamente entre os donos das bancas de jornais e revistas e as agências de publicidade, responsáveis pela criação das peças. Os jornaleiros pagariam uma taxa ao governo municipal, calculada de acordo com variáveis como o tamanho do terreno em que está a banca e a área total dos anúncios. A receita arrecadada seria direcionada a um fundo voltado à manutenção do chamado mobiliário urbano, categoria em que se encontram as bancas, os relógios e os pontos de ônibus da cidade.

Aumento nas vendas

O jornaleiro pode ser dispensado da taxa municipal ou pagar menos ao governo se oferecer e cuidar de facilidades como bicicletários, bancos de jardim, wi-fi e tomadas para recarregar smartphones. "A ideia é não só deixar a banca mais bonita, mas torná-la uma área de convivência agradável, para que as pessoas sintam vontade de frequentar", afirma José Antonio Mantovani da Silva, presidente do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas de São Paulo (SindjorSP).

A adesão ao programa Banca SP é opcional e o sindicato prevê que 2 000 bancas devem participar, o que geraria ao município uma arrecadação de cerca de 8 milhões de reais. A estimativa é que cada banca receba aproximadamente 1 000 reais por mês, em média, por painel de publicidade.

O sindicato estima ainda que somente a reforma das bancas para receber os anúncios publicitários já aumente em 30% as vendas, na média. "Um ambiente mais bonito, moderno e bem iluminado consegue expor os produtos de forma muito mais harmônico", afirma Mantovani.

Foi o qeu aconteceu com a banca localizada em frente ao edifício Copan, na avenida Ipiranga, no centro da cidade. Seu proprietário, Adroaldo Carrilho, de 63 anos, jornaleiro há 24, investiu em um teto de aço inox, iluminação embutida e ventiladores. Em um mês, seu faturamento cresceu mais de 70%. "Tem morador do Copan que nunca havia entrado na minha banca. Mas na primeira semana após a reforma já veio comprar. O ambiente ficou agradável", afirma Carrilho.

Com o italiano Paolo Pellegrini não foi diferente. Uma de suas cinco bancas, localizada na Avenida Paulista, ao lado do Masp, ganhou há cinco meses, uma estrutura nova, revestida de vidros, o que gerou mais movimento e vendas. Agora, ele enxerga a possibilidade de ter outra fonte de venda, com a publicidade e a revitalização do entorno da banca. "Isso com certeza vai gerar retorno", diz Pellegrini.

Ambiente de convívio social

As mudanças promovidas para receber os anúncios e a possibilidade de uma venda extra com publicidade têm potencial para inserir as bancas na vida urbana de um modo mais harmônico. "Bancas de jornal e revista aproximam as pessoas", afirma Fernando Forte, sócio-fundador do escritório FGMF Arquitetos. Para Forte, se o projeto de lei for aprovado pela Câmara Municipal e os recursos utilizados no entorno das bancas, esses pontos se enquadrarão em uma tendência contemporânea de criação de novos ambientes culturais e de convívio social. "Os espaços públicos serão cada vez mais tomados pelas pessoas", afirma Forte. "E as bancas podem fazer parte desse movimento."




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 27 de julho de 2016)

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