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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O direito a mentir e a felicidade - Samuel Sabino


Todo mundo mente. Algumas pessoas chegam a achar que a mentira é necessária e sustenta grande parte do convívio social. Normalmente apenas se diria que a mentira é má ou errada, mas o problema é que ela existe em situações ambíguas; onde há benefícios e malefícios, seja para o indivíduo mentiroso ou para o grupo enganado. A felicidade pode advir de uma mentira. Nada é preto no branco e é aí que entra a discussão ética, pois todos também querem ser felizes.

Não é esse o film último da humanidade, buscar a felicidade? Isso levanta dúvidas difíceis de responder como: mentir é certo ou errado? Quando nos voltamos aos líderes, sejam eles de governos, de empresas, de grupos sociais, ela toma proporções ainda mais complexas, podendo constituir crime ou mesmo sustentar as crenças de muitos.

Em alguns casos específicos a mentira pode até mesmo ser aceita pela perspectiva ética. Obviamente quando existir com a finalidade de manter a dignidade, não ferindo a lei ou visando proteger a vida, por exemplo. Se uma pessoa chega à minha casa, fugindo de um criminoso que quer lhe fazer mal e eu a escondo, quando questionado pelo criminoso se ela estaria lá, especificamente nesse caso eu mentiria. A maioria das pessoas mentiria.

Não e´que haja mentiras boas ou mentiras más, exatamente. Existem consequências da mentira, e elas são boas ou más para um determinado número de pessoas e valores. Nesse caso, o valor é a vida, como valor máximo, e a consequência é o bem-estar e a dignidade da pessoa escondida, aquilo que realmente se espera da vida. Percebe-se que em casos específicos, em prol da dignidade, a mentira é necessária.

Quando jogamos a mentira para a análise do olhar ético, ela assume essa dualidade. Se  ela tem como fim último apenas vantagens pessoais ou imediatas e ainda fera a lei, aí sim, podemos julgá-la como antiética, potencialmente ilegal e consequentemente uma ação negativa, ou propriamente ruim.

A mentira nesses termos pode levar a muitas consequências negativas para a sociedade, já que geralmente ela não envolve apenas uma ou duas pessoas. Ela é uma das posturas antiéticas mais comuns. Ela vem do desejo de ter vantagem sobre o outro - a tal da ética menos nobre ou que pensa apenas em si mesmo ou no menor grupo de pessoas.

Vivemos em uma sociedade onde a mentira se torna cada vez mais inaceitável, considerando, sobretudo, líderes que são responsáveis por guiar o povo ao engano. Isso se aplica muito a condição atual da política e sociedade brasileira, que enfrenta escândalo após escândalo, investigação após investigação. Além de ilegal, a mentira do líder tem consequências catastróficas se  tornada impune. Uma sociedade em que não se pode confiar está fadada ao colapso e isso começa por quem comanda.

Já na antiguidade, os filósofos gregos tinham como princípio que o ser humano era constituído de vícios e virtudes. Os vícios já nasciam com eles, enquanto que as virtudes eram ensinadas. Como seres viciosos, o erro, a mentira, a conduta inapropriada era algo natural, nos fazendo assim seres humanos incompletos; humanos para uma humanidade a se desenvolver.

Era através do esclarecimento que se aprendia e cultivava a virtude - extirpando so vícios quando identificados. Era através da virtude que se preservava a dignidade, pessoal e do próximo. Para Kant, filósofo da era moderna, isso era resultado de estarmos, como humanos, em uma menoridade moral. A maioridade viria com a prática ética. A saída de um estado para outro se dava exatamente no sentido de esclarecimento, verdadeira passagem para a maioridade.

Enquanto humanos, nossas condutas geralmente se baseiam em dois princípios fundamentais de motivação para a conduta: ou agimos por empatia ou por respeito ao mero princípio ético.

Quando agimos por  empatia, geralmente algum tipo de amor está envolvido e o fazemos por inclinação ao bem-estar do próximo. Quando fazemos por ética pura, o que está enredado é o pensamento racional por onde é possível aplicar a moral pelo respeito ao princípio, mesmo que não se ame os envolvidos.

É a moral quem verdadeiramente sustenta a sociedade. A guia da conduta, mesmo quando se faz necessária a mentira, é a moral interiorizada. A barbárie se esgueira quando a ética falha ao não ser convidada ao protagonismo.

É dever de todos acreditarem sobre suas mentiras, sobretudo, os líderes que carregam vidas de muitos em sua responsabilidade. Para eles, é de suma importância interiorizar a boa conduta, e do povo não tornar aceitável que se minta impunemente. A sociedade depende do peso e análise da ética, ou o futuro será a ruína.



(texto publicado no jornal Jornalzen nº 153 - ano 13 - novembro de 2017)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Como ser mais ético? - Daniele Martins


Ser ético é agir a favor da coletividade, pondo o bem-estar da sociedade à frente do seu. Parece simples, mas levar uma vida assim exige atenção constante aos dilemas do dia a dia. Veja como guiar suas escolhas

1) Entenda o que é ser ético

A ética é uma inteligência coletiva que estabelece os princípios para a boa convivência de uma sociedade. Não é um conjunto de leis determinado, é uma reflexão sobre aquilo que o grupo define por um período de tempo como referência de comportamento. Como a sociedade está em constante transformação, e como os valores nem sempre são absolutos (pense na sinceridade, por exemplo), o pensamento ético é algo que tem de ser trabalhado dia a dia.

2) Questione-se a cada momento

Justamente por não haver uma tabela com certo e errado, para ser ético é preciso fazer escolhas a todo tempo. E isso nem sempre é simples. São os chamados dilemas éticos. Eles podem ser grandes (você deve ou não pôr a vida de alguém em risco para salvar a de outras pessoas?) ou menores (você deve ou não desrespeitar uma lei de trânsito para chegar mais cedo e não deixar outras pessoas esperando?). Refletir sobre cada situação e sobre a melhor forma de agir diante dos dilemas é um exercício ético.

3) Aja como gostaria que todos agissem

Um dos caminhos para ser mais ético é agir com os outros como você gostaria que eles agissem com você. Parece básico, mas nem sempre nossas ações seguem instintivamente essa máxima. Quem questiona os políticos corruptos não deve aceitar presentes caros de um cliente. Se você acha roubar errado, deve avisar se receber um troco a mais. Se você quer que o seu trabalho seja valorizado, não deve comprar artigos pirata. É assim que se constrói uma cadeia virtuosa.

4) Esteja disposto a abrir mão

O melhor para você pode não ser o melhor para o grupo. E ser ético é priorizar a coletividade, mesmo que, para isso, a gente tenha que abrir mão de desejos e da sensação de que a nossa felicidade não tem preço. Sua vontade só deve ser permitida se não lesar a comunidade. Furar a fila porque você está com pressa, fumar escondido em local proibido, dar uma festança até altas horas, mesmo sabendo que há vizinhos querendo dormir. Pode? Volte ao item 2.

5) Assuma responsabilidades

Fuja de discursos como "é o sistema", "todo mundo faz" ou "sempre foi assim". Quando você justifica uma atitude que sabe que não deveria ter tido com frases como essas, está tentando se eximir de sua responsabilidade. Nós somos livres para tomar decisões, mas não podemos nos esquecer de que elas têm consequências e que somos responsáveis por elas. Uma boa medida é pensar se você ficaria desconfortável em contar o que fez em público. Se ficaria, não faça.

6) Não seja cúmplice

No limite, quem aceita uma atitude antiética também está sendo antiético. Se presenciar um caso de abuso moral no trabalho, denuncie. Se achar que colar é errado, não passe a cola. Se não concorda com quem sonega impostos, não aceite pegar menos por um serviço sem nota. Se for contra trabalho escravo, boicote fábricas que sujeitam seus trabalhadores a condições análogas à escravidão. Viver de forma ética não é fácil, mas faz diferença.



(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 56 - jul/ago de 2017)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Inteligência social é agir com ética - Eduardo Shinyashiki


Nos últimos anos, a crise de valores e ética e a indiferença moral, tornaram-se alvo de urgente atenção e conscientização

Cada vez mais o ser humano conquista contextos externos, novas descobertas e resultados, porém, ao mesmo tempo, presenciamos injustiças, individualismo e corrupção na sociedade, na gestão de empresas e nos negócios.

O ser humano, olhando muito para fora, pouco conhece sobre si mesmo e sobre suas reações ou até mesmo sobre como lidar com os conflitos, dificuldades, desafios, sonhos e objetivos. Outra dificuldade é como lidar com as outras pessoas, tendo consciência de que os nossos atos influenciam a vida daqueles que estão no nosso entorno e que a nossa liberdade e escolhas acarretam em responsabilidade e consequências.

A interdependência da inteligência emocional, inteligência social e da ética permite, pelo menos em parte, responder a essas reflexões. Essas disciplinas se tornaram assunto muito presente no âmbito organizacional, percebidas como instrumentos para harmonizar e equilibrar a razão e a emoção nas relações interpessoais.

A inteligência social é a capacidade de compreender, interagir e influenciar positivamente as pessoas. Ela tem como foco a qualidade e harmonia das relações interpessoais e, consequentemente, melhorar a forma de se relacionar com as pessoas, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da nossa vida, para uma convivência solidária.

Essa inteligência se desenvolve na relação com o mundo externo e origina-se da inteligência emocional que inclui o autoconhecimento, autoanálise, controle das emoções, automotivação, reconhecimento das emoções nas outras pessoas, saber usar as emoções adequadamente para atingir os objetivos, chegando, enfim, a ter ações responsáveis e aptidões sociais adequadas ao conceito de ética.

Do termo grego ethos, a ética refere-se na sua essência ao "interior do homem" ou "morada humana". A ética então é o estudo da conduta humana, ela refere-se ao agir do ser humano. Refletir sobre ela significa analisar a nossa ação, tornando-nos mais atentos e mais conscientes das atitudes que praticamos em qualquer contexto da nossa vida.

A ética é então o complexo de critérios e valores que guiam nossas ações e comportamentos, por exemplo o respeito, a honestidade, a coerência, cooperação e confiança. Por meio do crescimento pessoal e da evolução dos valores, moldamos a concepção de ética e, quanto maiores os níveis de inteligência emocional que um indivíduo desenvolve, mais elevado será o seu nível comportamental ético.

As emoções, a inteligência social e a ética são então evidentemente interligadas e interdependentes e são fatores impactantes e importantes na vida em geral e consequentemente na vida organizacional.

A emoção e a ética são consideradas como pontos de vista distintos de uma mesma realidade e se soubermos compreender nossas próprias emoções e as dos outros saberemos reagir a situações de forma mais ética. Logo, atuar de forma ética é agir de forma inteligente.

A empatia e a compreensão das emoções do outro nos permite criar relacionamentos sólidos, e a ética permite construir alicerces para uma convivência mais pacífica e respeitosa, capaz de superar as diferenças, pois, de forma ampla, a ética é agir na busca da realização individual e do bem comum. Nas últimas décadas, começou a ganhar força uma nova sensibilidade dentro das organizações, ligada ao fator humano, à atenção aos valores, aos relacionamentos interpessoais, ao trabalho em equipe e ao indivíduo como um todo.

Nossas decisões, em todos os planos, precisam ser coerentes com nossos valores e com nossas emoções. No contexto profissional, essa coerência precisa ser mais forte ainda, sob pena de vivermos em um constante conflito. Diante disso, precisamos então ter clareza acerca das nossas emoções e de nossos valores.

O grande segredo para fortalecermos e disseminarmos a ética é por meio da educação. Com ela podemos construir a competência intelectual, emocional e ética, contribuindo para a formação de uma sociedade mais coerente e equilibrada.

Ao escolher a ética como um princípio de vida estamos tomando a decisão mais inteligente. Se nos dedicarmos a compreender as nossas próprias emoções e também as dos outros, poderemos encarar os acontecimentos de forma mais simples e espontânea, criando um clima positivo e de cooperação em qualquer contexto da vida.



(texto publicado na revista Psique nº 118 - ano IX)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Tudo o que não puder contar, não faça: integridade é não agir errado mesmo sozinho (Portal Raízes)


Immanuel Kant, famoso filósofo alemão do século 18 dizia – “Tudo o que não puder contar como faz, não faça!”. Arremato esta frase com o que Spinoza refletia sobre o direito natural ser compatível com a democracia – “É nas grandes massas que a natureza melhor se manifesta”.

Ao jogarmos um simples papelzinho pela janela não temos consciência alguma de que não se trata apenas de um simples papelzinho. O que está por trás disso é absolutamente sério. O que estamos fazendo conosco, com o meio em que vivemos e com o mundo? Há que se dizer que culpar terceiros sempre nos traz alívio. Irresponsabilidade e caráter são questões inadmissíveis, não é mesmo?

Não é um simples papelzinho…. Mas se jogarmos três ao dia, serão quatorze por semana, e se milhões de pessoas de todo o mundo jogarem três míseros papéis por dia? Um dos maiores responsáveis por alagamentos nas cidades é o lixo, acarreta entupimento de bueiros e canalizações levando a dispersar doenças e incômodo à população em geral.

O âmago desta questão é a consciência. Nos dias de hoje coletamos informações prontas e não levamos questões reflexivas ao cotidiano agitado e quase atropelado pelo que não nos afeta tanto por enquanto.

“Toma das asas de mercúrio e passa deste ponto àquele outro onde o sol se põe” – frase emblemática de Shakespeare na tragédia mais poderosa e influente em língua inglesa – Hamlet. Questões informativas são substituídas intelectualmente por reflexivas com o uso de metáforas. Não estamos mais acostumados a pensar! Grave e infeliz constatação.

Durante uma discussão enriquecedora com Leandro Karnal, a informação pronta esta intimamente ligada à solidão. Alguém ouve a opinião alheia? Alguém está lendo? Refletindo?“O que estamos lendo de fato se todo o nosso tempo está sendo consumido pela atualização das ferramentas tecnológicas? A questão não está na existência da tecnologia, mas, em quem somos? Quem somos que temos que estar em todos os lugares ao mesmo tempo? Temos opiniões imediatas sem reflexões profundas, incrivelmente ocupadas com o mundo virtual”.

O que seremos no futuro? Seremos seres abastecidos virtualmente, mas, submergidos no lixo? A grande preocupação é que a realidade virtual se sobreponha à realidade real!
A vida no planeta como a conhecemos acabará de forma dramática e somente através desse processo de conscientização poderemos garantir a sustentabilidade ambiental.

Sustentabilidade: “Pensar globalmente, agir localmente.” Não é um simples papelzinho. É questão de educação, caráter, reflexão! Pensar – exclusividade nossa…ou não mais?

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Fazer a coisa certa deixa a mente tranquila: por isso nunca se culpe de tê-la feito - Sílvia Marques (Portal Raízes)


Nunca se culpe por ter amado. Por ter confiado. Por ter ajudado. Nunca se culpe por acreditar na bondade humana, na amizade verdadeira, no amor eterno. Nunca se culpe por pagar as contas em dia, ser dedicado ao seu trabalho, honrar seus compromissos. Nunca se culpe por dizer a verdade construtiva e pregar pequenas mentiras a fim de não magoar as pessoas. Nunca se culpe por algo que não deu certo apesar de todo empenho empregado. Nunca se culpe por fazer a coisa que acreditou ser a certa.

Amou e não foi amado? Paciência. Acreditou que tinha um amigo de verdade e não tinha? Azar do falso amigo que perdeu o seu carinho e atenção. Ajudou alguém e recebeu ingratidão? O problema não está com você com certeza.

Por alguma razão que não sei explicar algumas pessoas ficam ressentidas quando são amparadas e transformam o gesto de carinho em uma arma contra quem as ajudou. Uma espécie de sentimento de inferioridade. Uma raiva forte por ter dependido da bondade alheia. A tristeza por deparar-se com as próprias limitações. Limitações comuns à raça humana. Ninguém é autossuficiente.

Se o outro mentiu, não é você que deve se sentir magoado. Se o outro foi desleal, não é você que deve se sentir traído. Se o outro foi ingrato, não é você que deve se sentir tolo. Tolo é quem não consegue ver a beleza da solidariedade. Tolo é quem acha perda de tempo ajudar as pessoas. Tolo é quem se acha superior aos outros, autossuficiente. Tolo é quem ignora o sofrimento alheio. Tolo é que nunca se permitiu acreditar em nada e deixa a vida passar sem cor, sem odor, sem gosto.

Pode soar como loucura ou poesia barata, mas tolice é deixar de viver, de amar, de acreditar, de se entregar aos sentimentos, sensações e desafios da vida. Tolice é deixar de amar por medo de ser desprezado. Tolice é deixar de fazer uma prova por medo de ser reprovado. Tolice é deixar de fazer um convite por medo de ouvir um não. Tolice é dizer que nada muda no mundo por preguiça de arregaçar as mangas.

Sim, estamos no mundo para sofrer por amor, para sermos enganados por nós mesmos e pelos outros, manipulados, ignorados, mas também amados, queridos, acolhidos. Estamos no mundo para rir de nós mesmos, da nossa ingenuidade, dos absurdos que dizemos quando estamos tristes, confusos e sozinhos.

Estamos no mundo para ganhar e perder. Ganhar aprendizado perdendo o que julgamos mais querer. Estamos no mundo ao sabor das intempéries da natureza e precisamos aprender a nadar na marra quando formos arremessados no mar das incertezas. Viver é não saber. É não entender. É perdoar …é se perdoar e seguir em frente. Nunca se culpe por fazer a coisa certa.

domingo, 20 de setembro de 2015

Quando os remédios são venenos - Anthony Wong


A diferença entre remédio e veneno é a dose e o motivo do uso do primeiro. Prova disso são as alarmantes estatísticas nacionais e internacionais da exposição indevida a substâncias químicas. Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitrox), do Ministério da Saúde, mostram que ocorreram 99.035 relatos de intoxicação humana em 2012, no Brasil. Desse total, calcula-se que 45,3% devem-se a medicamentos, com pelo menos 20 mortes por erro de medicação e automedicação.

Estatísticas mais confiáveis, e preocupantes, vindas dos Estados Unidos indicam que eventos adversos e erros decorrentes do uso de remédios causam um prejuízo de mais de US$ 117 bilhões, anualmente, ao sistema de saúde local, além de resultar em mais de 106 mil óbitos, sendo a quarta ou quinta maior causa de morte.

Os números não mentem, existem graves problemas que levam a essas estatísticas alarmantes. Em nosso país, o primeiro deles é o fato de os brasileiros acumularem estoques de remédios em suas casas sem conhecer o enorme risco representado por essa prática. Mas, se muitos medicamentos possuem venda controlada, como as pessoas os estocam? As respostas são várias e vão desde equívocos do paciente a médicos que receitam indevida e excessivamente, em decorrência, entre outros fatores, da má formação e do bombardeio de novos remédios por meio da propaganda e do agressivo marketing da indústria farmacêutica.

O estoque de medicamentos induz a uma situação corriqueira muito comum entre os pacientes, mas que representa um perigo: grande número deles guarda as caixas desses remédios muito próximas uma das outras, o que pode confundir, principalmente, os idosos, na hora de tomá-los. Infelizmente, é também comum que, por esquecimento, eles acabem tomando doses repetidas do mesmo remédio. Acontece ainda de pais darem medicamento errado aos filhos.

Muitas vezes, os pacientes recorrem ao seu estoque de remédios por não conseguir agendar consultas médicas. E chegam até mesmo a indicá-los a amigos e familiares que apresentam "sintomas parecidos".

Embora a quantidade de cosméticos e produtos de higiene em uma residência padrão brasileira seja, em geral, maior que a de remédios, eles representam um percentual menor nos casos de intoxicações, cerca de 20%. Isso porque têm menor toxicidade, e ao contrário dos medicamentos, não possuem atrativos para ingestão oral, que aumentam os riscos.

Prescrição médica

Para diminuirmos o número de intoxicações, a excessiva prescrição de medicamentos por parte dos médicos precisa ser revista. Os pacientes chegam a uma consulta e, quase invariavelmente, saem com uma receita na mão para algo que, não necessariamente, é um sintoma. Há profissionais que sequer perguntam se o paciente já está tomando outros remédios, para evitar interações medicamentosas.

Muitas vezes, o médico prescreve o tratamento apenas em decorrência da reclamação do paciente, ao invés de levar em consideração a alteração fisiológica e funcional do medicamento. Em breve, a pessoa terá vários produtos farmacêuticos à disposição e irá ingeri-los de acordo com a "dor" que sentir, sem um controle específico.

As causas da prescrição desenfreada começam lá atrás. O aluno de Medicina depara-se, atualmente, com um cenário no qual há muito mais conhecimento científico que há 10 anos. Porém, o curso continua tendo a mesma duração de seis anos. Os médicos saem da faculdade sem ter tido tempo suficiente para aprender o necessário do básico, nem para assimilar os novos e constantes avanços tecnológicos. Acabam não aprendendo a examinar, de maneira adequada, o paciente que chega ao seu consultório.

A formação insuficiente é compensada com excessivos pedidos de exames. Por vezes, os profissionais têm, até mesmo, pouca habilidade em interpretá-los. Logo começam a ter problemas em fazer diagnósticos corretamente e, consequentemente, em prescrever tratamentos.

Não bastassem esses fatores para o aumento da probabilidade de prescrever em demasia, há também a influência da indústria farmacêutica sobre os estudantes, recém-formados e, mesmo, médicos com experiência. Contudo, incompreensivelmente, não há na grade das escolas médicas orientações sobre os efeitos adversos e as interações de medicamentos, nem sobre as consequências do uso prolongado deles, embora essas informações sejam essenciais para a formação profissional.

Basta refletir: quantos antidepressivos, soníferos e outros diversos medicamentos foram lançados nos últimos anos? Qual a diferença entre as novas medicações e as antigas? Será que aumentou, realmente, a qualidade desses remédios? Muitas vezes, não.

Por isso, é importante que o médico respeite um dos primeiros mandamentos da profissão, primum non nocere, ou seja, antes de tudo, não cause mais danos. Essa deve ser a meta da conduta médica. A prescrição de medicamento deve ser feita com cautela. Um médico melhor prescreve menos remédios. É preciso compaixão. Ao invés de tratar a doença, deve-se tratar o doente que, por vezes, não precisa de remédio, mas de uma palavra de conforto.




(texto publicado na revista Ser Médico nº 71 - ano XVIII - abril/maio/junho de 2015)

domingo, 9 de novembro de 2014

Lucro ético - Milton Correia Jr


O sonho tem a idade do capitalismo: criar negócios eficientes para resolver problemas sociais. A realidade pode ser diferente, mas a expansão dos negócios sociais é um fato. Existem R$ 250 milhões disponíveis para investimentos éticos no Brasil.

Muitas empresas estão prosperando graças a produtos e serviços inovadores que ajudam a melhorar a qualidade de vida da população carente. São os chamados negócios sociais, ou "setor 2,5", pois ficam entre o segundo setor (a iniciativa privada) e o terceiro (o das ONGs e organizações sem fins lucrativos), criando modelos que buscam soluções de mercado para superar problemas sociais e ambientais.

Como qualquer companhia, a "empresa social" deve dar lucro. Mas ele não é um fim em si mesmo, e sim um meio para gerar soluções que ajudem a reduzir a pobreza, a desigualdade e a degradação ambiental. Embora no começo a iniciativa possa depender de doações e recursos de fundos de investimento, o negócio deve se tornar autossustentável com o tempo. O produto ou serviço comercializado visa beneficiar diretamente as pessoas da base da pirâmide social e gerar recursos para a empresa prosperar e ser eficiente. Empresas sociais também precisam educar para o consumo sustentável e desestimular o endividamento.

A forma de usar o lucro ainda é controversa. Para o economista Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz em 2006, os investidores só deveriam recuperar o capital investido, sem direito a lucros e dividendos. A rentabilidade, afirma Yunus, deve subsidiar investimentos em marketing, inovação, tecnologia e aprimoramento de processos.

Já os defensores da distribuição de lucro afirmam que, quanto mais atraente for o negócio, mais investidores se interessarão e mais problemas sociais serão abordados, pois o modelo cresce e é replicado. Nesse grupo estão aceleradores de negócios sociais, fundos de investimento, startups e incubadoras.

Como o conceito é novo, a falta de uma definição clara e de uma legislação específica cria obstáculos. No Reino Unido, o governo regulamentou o setor e se tornou cliente das empresas sociais, que movimentam R$ 74 bilhões por ano. Em países como Chile, Canadá, EUA, Austrália e Coreia do Sul, os negócios éticos já são bastante estruturados.

Em 2009 havia só um fundo de investimento voltado para os negócios sociais; hoje, são dez. Embora não se saiba quantas empresas sociais existem no Brasil, o setor vem se fortalecendo. Calcula-se que os fundos internacionais tenham R$ 250 milhões para investir aqui.

Formação profissional

Em Salvador (BA), o Instituto de Co-Responsabilidade Social (Incores) qualifica e insere jovens carentes no mercado de trabalho. Desde sua criação, em 2010, cerca de 400, com idade entre 14 e 24 anos, passaram pela empresa. Desses, 37 concluíram o curso e 68 foram efetivados em parcerias com Ford, Banco do Brasil, Odebrecht e Voith. "O fundamental é despertar os jovens para atuar como agentes de transformação da vida e da sociedade", diz Tanya Andrade, superintendente do Incores.

Há sete anos, Tanya dirigia o Programa Enter Jovem, implementado no Brasil pelo American Institutes for Research, que atendia 11 mil jovens de comunidades pobres. Quando o instituto deixou o Brasil, a equipe decidiu conduzir o programa como um negócio social, para não depender de doações. O Incores começou numa pequena sede, com equipamentos e móveis doados. A aceleradora NESsT colaborou com recursos financeiros, assistência técnica e profissionais que ajudaram a estruturar e gerir o negócio.

Em apenas um ano, a empresa atingiu o ponto de equilíbrio, mudou-se para um espaço maior e hoje se mantém com a receita gerada por 25 contratos e convênios. Tanya atribui o sucesso à qualidade da formação dada aos jovens, além de estruturação adequada e um bom planejamento inicial. Mas nem tudo foi fácil. "As empresas sociais ainda são olhadas com desconfiança. Até abrir uma conta empresarial é trabalhoso", diz.

No início a empresa tinha 32 aprendizes. Em 2011 já eram 250. Hoje ela contabiliza mil jovens treinados em cursos com duração de até 24 meses. Por ainda integrar a rede NESsT, o Incores foi ajudado pela consultoria PwC, que analisou a gestão e delineou a estratégia de expansão. O instituto chegou este ano a São Paulo, para desenvolver atividades na capital e no ABC.

Conflitos

Em 2001, o advogado curitibano André Albuquerque criou a Terra Nova Regularizações Fundiárias, primeira empresa social do país especializada em mediar conflitos entre proprietários e moradores em áreas urbanas de ocupação irregular consolidada. Ela faz a ligação entre governo, titulares do domínio (proprietários) e ocupantes.

Com calma e determinação, Albuquerque busca transformar disputas em acordos. Para tanto, criou um método de atuação que permite o acesso de milhares de pessoas a títulos de propriedade. Em seus 12 anos, o negócio já fechou mais de cinco mil contratos de regularização e hoje atua em conflitos que envolvem 50 mil pessoas.

Outra empresa social de Albuquerque, a Renascer Reassentamento e Desenvolvimento Humano, reassenta famílias impactadas por obras de infraestrutura. A experiência começou em 2008, com os ribeirinhos atingidos pelas obras da hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho (RO), construída pela Odebrecht. A ação beneficiou 80 famílias. Segundo o advogado, seu método pode ser replicado em outros países. "Muitas famílias perdem sua condição de trabalho e rompem relações familiares ou sociais quando reassentadas involuntariamente. Precisamos mudar a forma de tratar os mais vulneráveis", afirma.

A Terra Nova já atraiu a atenção de um grande fundo de investimentos. Ela se reestruturou, atraiu colaboradores e planeja ampliar a atuação. A empresa tem cerca de 20 projetos em prospecção e pretende regularizar 50 mil famílias no Paraná e em São Paulo até 2017. "Vamos continuar trabalhando para viver em um mundo mais equânime e fraterno", diz Albuquerque.

Saúde itinerante

O caos na saúde pública inspirou o médico-cirurgião Roberto Kikawa a criar em 2008 o projeto Centro de Integração de Educação e Saúde (Cies) para levar atendimento preventivo especializado e de alta tecnologia a comunidades carentes por meio de um centro móvel avançado. Seu projeto tornou-se conhecido pela "Carreta da Saúde", um caminhão com 100 m² de área útil quando aberto, que oferece equipamentos e atendimento médico em até 12 especialidades.

O Cies tem parcerias com governos, empresas, sociedade civil e comunidades. Desde sua criação, a carreta e outras unidades já percorreram 27 cidades, atendendo cerca de 100 mil pessoas. Atualmente, o projeto está presente no bairro de Ermelino Matarazzo, na capital paulista, em Três Lagoas (MS), São Francisco do Sul e Navegantes (SC). Ainda este ano começará a atuar no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Países como Itália, Colômbia, Panamá, Venezuela e Angola já se interessaram pelo projeto.

O Cies trabalha com profissionais remunerados, garantindo um atendimento de qualidade. O programa opera com três modelos. Quando contrata o atendimento, o governo paga pelos serviços, baseados na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). Empresas privadas também podem contratar as unidades (Carreta, Boxes e Van da Saúde). A custo mensal baixo (de R$ 12,00 a R$ 144,00) as comunidades também podem ter acesso a um check-up completo anual.

Segundo Kikawa, o negócio está em fase de replicação e poderá se tornar uma franquia. "Temos convite para implantar o projeto em vários Estados, países da América Latina, África e até nos EUA", afirma.

Ensino aprimorado

Escolas públicas dificilmente oferecem a mesma formação do ensino privado. Por isso, em 2011, Cláudio Sassaki e Eduardo Bontempo fundaram a Geekie, empresa voltada a proporcionar educação de alto nível em escala, independentemente de classe econômica ou social, por meio do desenvolvimento de produtos para melhorar o aprendizado.

"Optamos por montar uma startup, pois acreditamos em negócios com resultados e retorno financeiro, mas cujo objetivo seja o impacto social", diz Sassaki. "Para cada escola particular que paga por nossos produtos, oferecemos gratuitamente o mesmo para uma escola pública."

Nesse sentido, a qualidade da equipe é fundamental. "Um dos principais desafios é a contínua contratação de talentos. Buscamos gente diferenciada tecnicamente, que tenha valores semelhantes aos nossos e o objetivo de melhorar a educação no país", afirma Sassaki.

A Geekie já atingiu cerca de 7,1 mil escolas, das quais 6,3 mil da rede pública, impactando 430 mil alunos (380 mil da rede pública). O Geekie Games, projeto desenvolvido para o Enem 2013, fez o impacto potencial subir para 2,6 milhões de alunos do ensino médio, considerados a parceria da empresa com 11 Secretarias de Ensino e o trabalho de divulgação e contato com estudantes.

A empresa também lançou projetos especiais como o "Simulado Geekie Estadão" no modelo Enem, em parceria com o jornal O Estado de São Paulo. Ela ofereceu o seu Geekie Teste um mês antes da prova do Enem e, com isso, atingiu 160 mil pessoas. As novidades continuam. "Alunos do ensino médio vão poder ter acesso gratuito ao Geekie Lab, nossa plataforma online de aprendizado adaptativo que permite a preparação para o Enem por meio de ferramentas de diagnóstico e estudo personalizado", avisa Sassaki.



(texto publicado na revista Planeta nº 495 - ano 42 - fevereiro de 2014)