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domingo, 10 de setembro de 2017

Diário de vida: A arte de ouvir - Reinaldo Passadori


Hoje o  padre Adão disse na missa que nascemos com dois ouvidos e uma boca por uma razão: termos a disponibilidade para ouvir mais e falar menos. Ele falou também sobre o excesso de informações e a necessidade (eu diria vício) de fazer mil coisas ao mesmo tempo. As pessoas perderam o foco e a dispersão tem tomado conta do mundo. A maioria das pessoas quer ver, falar e estão perdendo a capacidade de ouvir, de sentir o outro. 

Vou transcrever um texto que vem bem a calhar.

Perceber, reconhecer, entender, compreender, valorizar, dar atenção, respeitar... São vários nomes diferentes para um processo tão simples, mas ao mesmo tempo tão difícil de ser praticado: ouvir, de fato, o outro.

Ouvir não significa simplesmente escutar os sons da voz ou acompanhar o raciocínio do interlocutor. Significa, antes de tudo, ter paciência e tolerância para aceitar a outra pessoa como ela é, com suas qualidades e seus defeitos, crenças e emoções, com sua aparência, quer nos seja agradável ou desagradável, sem pré-julgamentos. Concordo com quem disse que esse não é um processo fácil, embora pareça tão elementar.

Vamos analisar um pouco as causas dessas dificuldades. É muito comum compararmos o mundo ao nosso próprio referencial de vida, de como percebemos o mundo, que passa a ser o "nosso mundo". Incluem-se aí os nossos valores, conceitos e preconceitos.

Além disso, as pessoas aproximam-se pelas semelhanças e não pelas diferenças, desmistificando a crença popular de que os opostos se atraem. Se observarmos bem, antes da diferença há muita convergência, situações comuns, similaridades que atuam como facilitadoras de um processo de entendimento e consideração e a partir daí eventuais diferenças de caráter, atitudes ou comportamentos passam a configurar uma relação afetiva.

Se observarmos bem, quando admiramos uma pessoa dizemos: "Que pessoa extraordinária! Que pessoa agradável! Que pessoa simpática!" Enquanto isso, lá no fundo, um outro comentário quase imperceptível complementa... tão parecida comigo!" Também fica fácil entender tal atitude por outra simples razão: só percebemos qualidades e defeitos nos outros quando nos chamam a atenção porque em potencial essas características existem em nós mesmos.

Se precisamos falar com o outro de verdade, primeiro é necessário querer e esse querer precisa ser um desejo, uma vontade inquebrantável que não nos fará desistir diante da primeira adversidade. Depois, devemos ter e exercitar a flexibilidade, colocando-nos no lugar do outro, empaticamente.

Aliás, empatia é isso mesmo: ajustar-se ao estilo, momento psicológico, crenças e valores do mesmo interlocutor e nessa projeção conseguir melhor entendimento. Algumas sugestões importantes para quem, de fato, deseja ouvir de verdade outra pessoa e, a partir daí, abrir uma porta de entrada para o relacionamento: amizade, vendas, negociações, lideranças, amor, etc...

Olhe nos olhos da outra pessoa e perceba-a nos seus detalhes, esteja com a atenção focada e envolvida com ela.

Procure manter a calma, evite deixar-se dominar por algum preconceito ou algo de outra pessoa que desagrada.

Tenha paciência, saiba aceitar o silêncio da outra pessoa.

Evite contradizer o outro, evitando as palavras "mas", "todavia", "entretanto", "contudo". Procure, antes de qualquer discordância, algum ponto com o qual vocês concordem.

Valorize e respeite as opiniões de seu interlocutor.

Demonstre respeito pelo outro como o outro é, e não como gostaria que fosse.

Crie condições favoráveis para o outro expressar livremente suas ideias e opiniões, saiba ter tato para lidar com a discordância.

Concentre as diferenças no campo das ideias e não permita que sejam levadas para o lado pessoal.

Certifique-se de que você compreendeu de fato o que o outro queria transmitir; repita, questione, pergunte, evite ao máximo interpretações infundadas.

Por último, faça bom uso do grande amor que você tem em seu coração para aceitar incondicionalmente as outras pessoas como são: cheias de defeitos, limites, preconceitos e, também, repleta de virtudes, sonhos, conhecimentos, de sentimento. Assim como você. 

Ouvir e escutar são duas ações diferentes. Ao longo do dia ouvimos muitas coisas, mas escutamos muito pouco. Quando ouvimos, não prestamos atenção profundamente, simplesmente captamos a sucessão de sons que são produzidos ao nosso redor. Enquanto que, quando escutamos, nossa atenção está dirigida a algum som ou mensagem específica, ou seja, existe uma intenção; nesse momento, todos os nossos sentidos se encontram focados no que estamos recebendo. Assim, as pessoas que sabem escutar os demais os acompanham em sua viagem pela vida.

Aprendendo a escutar

Um provérbio oriental diz: "Ninguém coloca mais em evidência sua má criação, do que aquele que começa a falar antes que seu interlocutor tenha terminado".

O que acontece é que, às vezes, quando estamos falando com outra pessoa, ambos temos a dificuldade de escutar, passando, em muitas ocasiões, a apenas ouvir enquanto elaboramos o que vamos dizer assim que o outro terminar, ao invés de prestar atenção ao que estão nos dizendo. Dessa forma, o diálogo fica bloqueado por pausas verbais, já que, se todos querem falar ao mesmo tempo e as razões de ambos não são escutadas, não há diálogo; há apenas monólogos se sobrepondo.

Saber escutar é uma atitude difícil, já que exige o domínio de si mesmo e implica atenção, compreensão e esforço para captar a mensagem do outro. Significa dirigir nossa atenção ao outro, entrando em seu âmbito de interesse e seu ponto de referência.

O diálogo exige uma atitude silenciosa, na qual se escuta atentamente. O escritor e orador J. Krishnamurti afirmava que "Escutar é um ato de silêncio". Enquanto não calarmos nosso diálogo interno e prestarmos atenção ao nosso interlocutor, não aprenderemos a escutar. Somente a atitude de escutar atentamente faz com que a resposta que daremos ao nosso interlocutor crie força. Se não abrirmos nossos ouvidos para escutar completamente, será difícil poder dizer ao outro algo que seja válido.

Se realmente escutarmos, a pessoa que fala sentirá que estão dando a ela a importância que ela merece, ficando agradecida e criando em si, dessa maneira, um clima de respeito, estima e confiança.

"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: 'Se eu fosse você... ' A gente ama não é a pessoa que fala bonito. E a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção. Todos reunidos alegremente no restaurante: pai, mãe, filhos, falatório alegre. Na cabeceira, a avó, com sua cabeça branca. Silenciosa. Como se não existisse. Não é por não ter o que dizer que não falava. Não falava por não ter quem quisesse ouvir. O silêncio dos velhos. No tempo de Freud as pessoas procuravam os terapeutas para se curarem da dor das repressões sexuais. Aprendi que hoje as pessoas procuram os terapeutas por causa da dor de não haver quem as escute. Não pedem para ser curadas de alguma doença. Pedem para ser escutadas. Querem a cura para a dor da solidão." (...)

(Rubem Alves, em "Se eu fosse você" (do livro "O Amor Que Ascende a Lua")


(texto publicado na revista Leve & Leia nº 147 - ano 11 - edição agosto/setembro de 2017)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Aprenda a reconhecer os primeiros passos rumo á perda de audição - Telex Soluções Auditivas


Falar sobre deficiência auditiva nunca é fácil. Muitas pessoas têm dificuldade em admitir que podem não estar ouvindo tão bem quanto antes. A maioria dos casos de perda de audição se desenvolve gradualmente, ao longo do tempo, e os sintomas são difíceis de ser identificados.

O processo é diferente em cada indivíduo, varia de acordo com a predisposição genética, mas aproximadamente uma em cada dez pessoas a partir dos 40 anos já sofre algum grau de perda auditiva. Isso porque com o envelhecimento natural do corpo, as células ciliadas do ouvido interno começam a morrer. Ao chegar à terceira idade, a perda de audição, conhecida como presbiacusia, tende a ser mais severa.

"O primeiro passo é aceitar que já existe dificuldade para ouvir em certas situações. Reconhecer a deficiência e procurar logo a ajuda de um especialista é a melhor coisa a fazer. Estudos comprovam que o  tratamento da perda de audição, geralmente com o uso de aparelhos auditivos, resulta em maior interação social e melhorias significativas na qualidade de vida", afirma a fonoaudióloga Isabela Papera, da Telex Soluções Auditivas.

O indivíduo já pode notar os primeiros indícios de surdez pela dificuldade em ouvir o que as pessoas estão falando. Os sons da fala com mais alta frequência são as consoantes, como o S, T, K, P e F. Além disso, dez outros sintomas podem indicar que você está com indícios de perda auditiva:

- Ouvir as pessoas falando como se elas estivessem sussurrando

- Assistir à televisão em volume mais alto do que as outras pessoas da cada, pedindo para aumentar o som

- Não ouvir quando é chamado por uma pessoa que não está à sua frente ou que se encontra em outro cômodo

- Comunicar-se com dificuldade em um pequeno grupo ou em uma reunião

- Pedir com frequência que as pessoas repitam o que disseram

- Ouvir com dificuldade o toque da campainha ou telefone; ou mesmo ficar embaraçado ao não entender o que o outro diz pelo telefone

- Dificuldade em comunicar-se em ambientes ruidosos, como carro, ônibus ou em uma festa

- Fazer uso de leitura labial durante uma conversa

- Família e amigos comentam que você não está ouvindo bem

- Se concentrar muito para entender o que as pessoas falam ou cochicham.

O diagnóstico deverá ser feito por um médico otorrinolaringologista e, depois, cabe a um fonoaudiólogo indicar qual tipo e modelo de aparelho são indicados para atender às necessidades de cada um.

"Dificuldades de audição podem afetar a vida social e prejudicar as relações de trabalho. A perda auditiva acontece de maneira lenta e progressiva e, com o decorrer dos anos, se não houver tratamento, a deficiência atinge um estágio mais avançado. Por isso, o uso diário do aparelho e o apoio da família são essenciais para que o indivíduo resgate sua autoestima", explica Isabela Papera.

A tecnologia avançada tem sido uma grande aliada dos deficientes auditivos. Atualmente, há uma diversidade de modelos de aparelhos, com design moderno, discretos, alguns até mesmo invisíveis no ouvido - ficam dentro do canal auditivo  - adequados para diferentes graus de perda de audição.



(texto publicado no Jornal Jaguaré nº 209 - ano 18 - setembro de 2016)

domingo, 18 de outubro de 2015

A síndrome do rock - Sinval Medina


Música no último volume? Acompanhe os efeitos dos decibéis em Carlos Padilha, um apaixonado que não deu ouvidos à bronca do pai.

Era um  garoto que, como milhões ao redor do mundo, amava os Beatles e os Rolling Stones. Com o rock nas veias, Carlos Padilha (hoje um bem-sucedido engenheiro químico em São Paulo) passou a integrar, aos 14 anos, a barulhenta banda formada pelos amigos do bairro, fazendo "misérias" com seu baixo elétrico. "Numa tarde de sábado, lá por 1969 ou 70, meu pai entrou na garagem onde ensaiávamos, hipnotizados, e gritou: 'Baixem o som, ou vocês todos vão acabar surdos'. Ninguém lhe deu ouvidos", lembra Padilha com uma ponta de arrependimento.

Passaram-se os anos, o sonho de tornar-se músico cedeu lugar à Química, mas a paixão pelos decibéis continuou. Adepto do som pesado de ídolos como Pete Towshend and The Who, o jovem baixista jamais abandonou a filosofia do "quanto mais alto, melhor".

Há cerca de dois anos, Padilha começou a dar razão ao pai pela bronca na garagem. "Não sei precisar o momento em que surgiram as primeiras dificuldades de audição, acompanhadas de um insistente zumbido. O jeito foi procurar um especialista e submeter-me a um teste."

O exame audiométrico não deixou margem a dúvidas. Padilha, 35 anos, realmente sofria de uma nítida deficiência de audição provocada por excesso de ruídos. Culpa do rock? Não. "Mas do alto volume em que costumava ouvir o som", diagnostica o dr. Perboyre Lacerda Sampaio, otorrinolaringologista em São Paulo. "Por isso a audição de Padilha sofreria danos, mesmo que preferisse música clássica ou samba."

Consoantes confusas

De fato, barulhos além do tolerável pelo ouvido humano podem causar a chamada perda neurossensorial. Trocando em miúdos, as células do ouvido interno incumbidas de transformar as ondas sonoras em impulsos nervosos sofrem danos ou ficam inutilizadas diante das agressões externas. Só que as coisas nem sempre acontecem de repente. "Em geral, o problema aparece após anos de exposição aos ruídos. Às vezes, porém, dependendo da intensidade, basta uma única exposição", esclarece o dr. Sampaio. Por exemplo: assistir a shows próximo às caixas de som; exibições de armas de fogo, próximo ao estande de tiro.

Quando o impacto é variável - diferentes níveis e volumes de som -, o dano pode ser, paradoxalmente, específico. O ouvido sadio responde a uma variada gama de frequências (número de vezes que a onda sonora se repete na unidade de tempo, medida em hertz). Tons mais agudos de um flautim chegam aos 20 000 hertz. Ruídos graves como o de um trovão à distância rondam 50 hertz. A capacidade auditiva humana situa-se entre 16 e 20 000 hertz.

Por razões ainda não esclarecidas, a perda neurossensorial começa, em geral, na região dos 4 000 hertz, correspondentes ás notas mais agudas do piano. "Felizmente, a maior parte dos diálogos ocorre em frequências menores - 500 a 2 000 hertz", tranquiliza o dr. Perboyre Sampaio. Assim, não há dificuldade em conversações normais. Mas atenção: os sons das consoantes tendem a ser emitidos em frequências mais altas (o que dificulta a distinção de sons como b, p, t); vozes femininas e infantis também se tornam menos compreensíveis, principalmente em ambiente barulhento. Tais características fazem muitas pessoas afetadas dizerem, com razão, que ouvem com clareza, mas não conseguem entender o que os outros falam. Na verdade, a incapacidade de perceber o fonema emitido provoca confusões, como troca de palavras (pato por bato, por exemplo), capazes de virar de ponta-cabeça o sentido de uma frase.

O ruído excessivo prejudica a audição de outras maneiras: sons suaves podem tornar-se inaudíveis, enquanto os intensos provocam irritação. Por exemplo, se você fala em voz baixa, o afetado por perda neurossensorial não escuta; se você eleva o tom, ele talvez reclame que não precisa gritar.

Outro sintoma comum é o zumbido constante no ouvido. Os especialistas não sabem exatamente por que, mas os nervos danificados começam a transmitir mensagens distorcidas, perceptíveis na forma de zumbidos ou chiados, semelhantes aos de uma televisão fora do ar. "No início, o som aparece esporadicamente: com repouso os ouvidos se recuperam e o tinido vai embora. Mas, se a agressão persiste, o sintoma se torna permanente", avisa o dr. Perboyre Sampaio. E alerta: 'Paralelamente, pode ocorrer também perda auditiva irreversível, pois as células sensoriais não têm possibilidade de regeneração".

Agora, se você imagina que apenas os fanáticos por música no último volume, como Carlos Padilha, estão sujeitos às consequências do barulho ensurdecedor, prepare-se para uma surpresa: os habitantes das grandes cidades nos países industrializados costumam sofrer de decréscimo auditivo devido à poluição sonora, inclusive nos ambientes de trabalho, como tecelagens, calderarias e aeroportos.

Nos anos 50, o audiologista norte-americano Samuel Rosen realizou testes com uma tribo africana, habitante da desértica fronteira entre o Sudão e a Etiópia. Distantes de buzinas, britadeiras e máquinas industriais, os nativos conservavam notável acuidade auditiva até os 70 anos ou mais. Já os norte-americanos não têm a mesma sorte. O pesquisador constatou que, por volta dos 65 anos, um em cada três tinha dificuldade de acompanhar conversas.

Recente estudo demonstrou que certos sintomas normalmente atribuídos à doença de Alzheimer - confusão, incapacidade de responder a perguntas - devem-se, na verdade, a graus variados de surdez.

O mais grave, de acordo com as pesquisas, é que o problema afeta um número crescente de jovens. Em 1969 (o ano do inesquecível festival de Woodstock), o dr. David Lipscomb, da Universidade de Tennessee, constatou que um terço dos estudantes de ambos os sexos (com idade de 18 anos), submetidos a testes audiométricos, revelavam deficiências em graus variados. Um em cada oito rapazes sofria de surdez grave, a ponto de dificultar a comunicação interpessoal.

Conclusão óbvia: a geração do rock, para alegrar o coração, martiriza os ouvidos. De fato, os concertos ao vivo produzem, frequentemente, ruídos em torno de 110 decibéis. O nível, semelhante ao de uma turbina de avião em funcionamento, é suficiente para lesar o ouvido numa única exposição.

Com o avanço da tecnologia, surgiram outros perigos. No início dos anos 80, o audiologista Maurice H. Miller, do Hospital Lenox Hill de Nova York, mediu o som de aparelhos tipos walkman usados por jovens nas ruas da cidade. Para seu espanto, registrou petardos acima de 90 decibéis, injetados diretamente nas vulneráveis orelhas dos transeuntes. Isso explica, segundo o dr. Miller, a afluência de pacientes com 13 e 14 anos de idade ao consultório dos audiologistas com queixas de zumbido e surdez. É claro que, em geral, a deficiência auditiva induzida por stress das células receptoras pode instalar-se aos poucos - como aconteceu com Carlos Padilha. Mas, quando a agressão é muito intensa, ocorre bruscamente.

Ataque surpresa

Bem, parece não haver margem para dúvidas: os ouvidos sofrem um bocado com os chamados progressos da civilização. E daí? Estamos todos condenados à surdez precoce, ou há meios de proteger-nos do perigo?

Ora, a forma de driblar as agressões externas é tão simples que chega a parecer brincadeira: evite barulho! Mas como avaliar o ruído excessivo, capaz de prejudicar a audição? Anote alguns exemplos corriqueiros: se você está num bar ou restaurante e precisa gritar para que alguém na mesma mesa ouça, está barulhento demais; se você tem de elevar o volume do walkman (no metrô, na rua, no carro) além do ponto 4 para abafar o ruído exterior, sinal vermelho. Há muito barulho.

Lembre-se ainda de que os danos dependem da intensidade e duração do som. Um multiprocessador de alimentos produz cerca de 85 decibéis - algo perfeitamente tolerável por um ou dois minutos. Agora, se uma pessoa fica exposta a esse nível de ruído no ambiente de trabalho (oito horas por dia, cinco dias na semana), será forte candidata à perda neurossensorial. À medida que sobe o volume, diminui o tempo necessário para os estragos: 120 decibéis - e muitos concertos de rock chegam lá - danificam o sistema auditivo em cerca de meia hora!

Bem que o ouvido tenta se proteger. Para isso, dispõe de uma membrana à entrada da parte interna que se fecha, amortecendo os sons. Mas pontadas súbitas, como a explosão de um foguete, pegam o sistema defensivo de surpresa e, dependendo da intensidade, causam mais danos que o ruído continuado.

De outro lado, as reações individuais também variam. Operários expostos ao mesmo nível de barulho ao longo de vários anos sofrem consequências diversas - alguns apresentam importante perda auditiva, outros resistem sem maiores problemas. A susceptibilidade pessoal depende, entre outras coisas, do fator genético. Assim, a existência de casos de surdez na família é um sinal de alerta, sem significar, em absoluto, uma fatalidade.

Já falamos que a melhor proteção contra o barulho é fugir dele. Ora, a tarefa envolve mil dificuldades num mundo povoado de liquidificadores, escapamentos abertos, máquinas de todos os calibres, além dos alto-falantes... Se você não pode mudar para uma casa no campo (e quem pode?), o jeito é fechar os ouvidos à barulheira que anda por aí. Literalmente. Existem dois tipos de protetores capazes de reduzir a níveis toleráveis e agressão dos decibéis: os abafadores e os tampões auditivos.

Abafadores são equipamentos utilizados por trabalhadores (operadores de britadeiras ou pessoal de terra nos aeroportos, por exemplo), semelhantes a fones de rádio. Abrangem todo o pavilhão auditivo e oferecem completa segurança - mas não combinam com todos os trajes e situações. Dependendo do seu estilo, talvez você não se sinta à vontade em uma festa com abafadores nos ouvidos. Além disso, em nosso clima tropical eles certamente esquentam as orelhas além da conta.

Já os tampões, menos eficientes, são sem dúvida mais discretos. Os tipos comuns diminuem em 30 a 35 decibéis qualquer barulho, tornando-o suportável. Até aqueles tampões de natação, que servem para impedir a entrada de água nos ouvidos ajudam bastante. Muitas pessoas os estão usando em casa, no trânsito, em bares e restaurantes, aviões e até estádios de futebol.

"Portas arrombadas, trancas de ferro", filosofa o engenheiro Carlos Padilha, que hoje não se separa do seu par de protetores, confeccionados sob medida para suas orelhas. "Habituei-me a usá-los como os óculos", diz o ex-roqueiro, preocupado em conservar o que lhe resta de audição. Mas não é só. Com muito jeito, persuadiu o filho Paulo, de 14 anos, a curtir o som de seus ídolos em volume civilizado e a ensaiar com tampões nos ouvidos. "É que o menino me saiu um excelente baterista, e vai muito bem na banda de rock da escola".



(texto publicado na revista Saúde é vital! nº 85 - outubro de 1990)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Surdez entre os jovens - Jacqueline Manfrin e Daniela Macedo


A perda de audição, antes considerada um problema quase exclusivo dos idosos, já atinge muitas crianças e adolescentes por causa do uso excessivo - e indevido - de fones de ouvido. Os primeiros sinais são discretos e, por isso, não costumam ser levados a sério. "Nos últimos cinco anos, o quadro de pacientes mudou consideravelmente. Já cheguei a atender crianças de 10 anos com perda auditiva irreversível, comparável à de alguém de 65 anos", diz o médico Edson Mitre, vice-presidente da Sociedade Paulista de Otorrinolaringologia. Dificuldade para compreender conversas, presença constante de zumbidos nos ouvidos e necessidade de aumentar exageradamente o volume da televisão são alguns dos indícios de possíveis problemas de audição. Conheça, a seguir, os cuidados indispensáveis para quem usa fones de ouvido.

Controle o volume: o recomendável é que a pessoa ao lado não escute a música que você está ouvindo no fone, mas você, sim, consiga ouvir o que ela fala. 

Faça intervalos: a cada duas horas de uso, desligue o fone por uma hora.

Fique atento aos sintomas: zumbidos, sensação de ouvido tampado, incômodo constante com ruídos, cansaço, dor de cabeça - se perceber esses sinais, procure um médico quanto antes.

O pulo do gato

Nem todos os fabricantes informam as características abaixo nas especificações do produto, mas elas determinam a qualidade do fone de ouvido.

Curva de resposta em frequência

Representa as variações de amplitude entre as diferentes faixas de frequência sonora reproduzidas pelo fone. Quanto mais constante é a amplitude dessas frequências, melhor é a qualidade dos sons agudos, médios e graves.

Distorção harmônica

É um indicador da fidelidade do fone de ouvido às frequências da música. O ideal é que seja inferior a 0,1%: quanto menor esse indicador, melhor é a qualidade do som. Um fone de má qualidade produz um som metalizado semelhante ao de uma ligação telefônica.




(texto publicado na revista Veja edição nº 2359 - ano 47 - nº 6 -  5 de fevereiro de 2014)




domingo, 18 de maio de 2014

Especialista recomenda tratamento auditivo em pessoas com depressão


Deficiência auditiva não tratada pode levar à depressão e a outras consequências para a saúde

Segundo dados da OMS, estima-se que 360 milhões de pessoas no mundo sofrem de perda auditiva. Destes, um total de 165 milhões é formado por indivíduos acima de 65 anos e 32 milhões correspondem a crianças e adolescentes com idade igual ou inferior a 15 anos. De acordo com o relatório da OMS, adultos acima de 75 anos podem desenvolver a doença. No entanto, a perda auditiva não tratada pode contribuir para a evolução de problemas como depressão, isolamento social, perda da memória e até demência.

"O tratamento da perda auditiva pode ser a melhor forma de minimizar os impactos psicossociais que ela provoca, como a depressão", alerta Maria do Carmo Branco, fonoaudióloga.

Em situações sociais, quando envolvem a comunicação, a participação de pessoas com perda auditiva pode ficar reduzida e isso pode provocar isolamento e problemas de autoestima. Com a reabilitação auditiva, por meio do uso de aparelhos auditivos e aconselhamento adequado, é possível proporcionar à pessoa o retorno a essas atividades sociais, sejam elas profissionais ou familiares, o que faz com que a pessoa se sinta melhor e mais participativa.

"Escutar os sons do dia a dia novamente e, principalmente, voltar a participar de conversas e de ambientes sociais, pode ser um excelente estímulo para que a pessoa melhore", ressalta a fonoaudióloga. Ainda, segundo a especialista, em grande parte dos casos, os resultados positivos com o uso de aparelhos auditivos para reestabelecer a função auditiva refletem na melhora dos sintomas de uma depressão, caso esta esteja diretamente relacionada ao impacto negativo da perda auditiva.

De acordo com a fonoaudióloga, a reintegração da pessoa a situações que, possivelmente, ela estava afastada por conta da dificuldade de comunicação, pode ser de grande importância para minimizar o quadro depressivo. Além disso, a família também exerce um papel fundamental nesse processo, devendo se esforçar ao máximo para inserir o portador de perda auditiva n comunicação do dia a dia.

Sobre a perda auditiva

A perda auditiva pode ser congênita ou adquirida. A exposição a sons fortes por períodos prolongados, o avanço da idade, doenças durante a gestação, má formações, traumatismos e o uso de remédios prejudiciais à audição são apenas algumas das possíveis causas da perda auditiva. Perdas auditivas que acometem a orelha média (porção média do sistema auditivo) e a orelha externa, muitas vezes, podem ser revertidas com tratamento medicamentoso ou cirúrgico. Uma numerosa parte das perdas auditivas, porém, estão localizadas na orelha interna e estas são irreversíveis. O tratamento para as perdas auditivas irreversíveis é o uso de amplificação sonora individual, ou seja, aparelhos auditivos.

A detecção precoce é de suma importância para que o tratamento obtenha melhores resultados. Seguir as orientações médicas e realizar acompanhamento periódico, também pode auxiliar no sucesso do tratamento e, até mesmo, evitar uma progressão da perda auditiva. Os cuidados com a saúde auditiva também envolvem evitar exposição prolongada a sons fortes e usar protetores auriculares quando essa exposição for inevitável, no caso de pessoas que trabalham no ruído, por exemplo. Deve-se evitar também o uso de remédios sem orientação médica, pois alguns medicamentos são prejudiciais à audição.



(texto publicado na revista Leve & Leia nº 60 - maio de 2014)