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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

What is bullying? - Lucas Mendes


Achou estranho um título em inglês na Revista Canção Nova? Sim, mas para descrever este fenômeno, hoje tão presente na nossa sociedade, nós precisamos estender o seu significado em inglês.

Bullying é uma palavra que deriva do termo "bully" que significa "valentão", mas está longe de ser algo relacionado à valentia. São atitudes verbais ou físicas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação, podendo chegar até mesmo a agressões.

Saindo do campo teórico e indo para o campo prático, faço uma pergunta: o termo "valentão" lhe traz um sentimento positivo ou negativo? Para mim traz a representação de um sentimento negativo. Você deve imaginar. "Ah, então ele deve ter sofrido muito bullying". E eu posso dizer que sim. Eu passei por isso. Mas, acabei escolhendo o caminho errado, eu me tornei um "valentão".

Durante minha infância sempre fui gordinho. Isso nunca me impediu de fazer coisas que eu gostasse, como por exemplo, jogar futebol. Porém, as piadinhas e os apelidos sempre me incomodaram. Com certeza, ninguém gosta de ser chamado de baleia, gordão, elefante ou de outros apelidos.

Então, um dia percebi que tinha duas opções: conversar com meus pais e professores ou usar do meu tamanho para intimidar e ser respeitado pelos meus colegas. Olhando assim, a segunda opção pareceu-me bem mais atrativa. E eu decidi por ela, mesmo sabendo que não seria a melhor escolha.

Assim passei de vítima a praticante. Comecei a agredir de forma verbal e física, colocando medo oas que zombavam de mim. mas, se engana quem acha que eu vejo isso com admiração nos dias de hoje. Aprendi que não podemos nos orgulhar em ser alguém que intimida o outro ou que transforma o outro em motivo de risada.

Quero aproveitar para dizer que o bullying não é algo apenas entre "emissor e receptor", mas existe também o espectador, e essa plateia quem dá continuidade às humilhações, ele não ajuda quem sofre, não apóia quem faz, apenas assiste, e não existe show sem plateia, concorda?

Outra observação transformo aqui em alerta: o bullying acontece na escola, em família e até mesmo no trabalho. Porém, o local onde este fenômeno tem ocorrido com muita frequência é na WEB. Tornando-se aí o famoso "cyberbullying", praticado através da INTERNET.

O cyberbullying é a prática do bullying dentro da internet. Isso permite ao praticante o anonimato, as pessoas não estão cara a cara, proporcionando uma maior crueldade dos comentários e ameaças, causando efeitos tão graves ou até maiores.

Abro um breve espaço para me dirigir aos pais e professores. Você professor, fique atento ao que ocorre na sua sala de aula. Procure saber se acontecem brincadeiras constantes, humilhações e apelidos pejorativos entre os seus alunos. É de sua responsabilidade conter este tipo de situação.

Pais, vocês devem ficar atentos ao comportamento dos seus filhos! Caso eles mostrem desânimo para com a escola, estejam chateados e abatidos. É preciso buscar o diálogo, pois as vítimas nem sempre procuram ajuda para solucionar o problema. E quando não o fazem, é por vergonha ou medo.

Quero finalizar esta comunicação com uma dica para você que é estudante, professor, pai, mãe, trabalhador, seja lá qual a sua condição na sociedade: não se submeta a ser uma vítima do bullying. Não tolere o Bullying. Não deixe de procurar ajuda. Bullying não é brincadeira. É coisa séria. Saiba: não fomos criados para a humilhação. Fomos sim criados por Deus para amarmos o próximo como a nós mesmos.



(texto publicado na revista Canção Nova nº 190 - ano XIII - outubro de 2016)

sábado, 3 de setembro de 2016

Quase Harry Potter - Gabriel Bentley


Peça de Antonio Calmon usa o universo da magia para tratar de questões comuns na fase da adolescência, como o bullying

O primeiro texto para o teatro de Antonio Calmon, autor de novelas, como Vamp e Top Model, guarda semelhanças óbvias com o universo de Harry Potter, entre elas os elementos de bruxaria e a caracterização das personagens (o protagonista usa óculos de aros redondos, por exemplo). Inspirada pelo poema homônimo de Goethe, datado de 1797, a peça O Aprendiz de Feiticeiro conta a história de Arthur (Guilherme Lobo).  O aluno nota 10 sofre bullying por ter uma imaginação bastante fértil. O menino é salvo de uma agressão por Jane (a atriz global Klara Castanho), de quem ganha um celular. Ao bisbilhotar os aplicativos do aparelho, ele é transportado para tempos medievais. Nessa terra fantástica, encontra o feiticeiro Ambrósio (Mauricio Machado), com quem começa a treinar magia. O garoto descobre, então, que a princesa Jane procura um pretendente e se candidata para um desafio de força e inteligência. No espetáculo, chama atenção o uso do teatro de sombras e o revezamento dos sete atores, entre eles Victor Garbossa e Julio Oliveira, para interpretar onze personagens. Na plateia, os mais novinhos se encantam com os truques de mágica, enquanto os jovens curtem as cenas de ação e o clima de romance entre Arthur e Jane. Direção de Eduardo Figueiredo (75 min). Rec. a partir de 5 anos.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 3 de agosto de 2016)

sábado, 11 de junho de 2016

O problema do mundo sem bullying - Bruno Romani

A palavra bullying faz qualquer pai se arrepiar de medo. Mas uma linha de especialistas diz que não há o que temer: crianças e adolescentes precisam passar por apuros, e sozinhos. Do contrário, poderão cair numa enrascada ainda pior.

Era coisa de criança

Colar chiclete na cadeira dos outros, fazer cuecão no nerd da turma, rir do cabelo cortado do colega. Mas agora brincadeiras como essa ganharam um nome sério: bullying. E passaram a ser resolvidas por adultos: pais, mestres e até, em alguns casos, polícia.

O termo bullying significa a prática de agredir alguém fisicamente, verbalmente, até por atitudes (como caretas). Mas tem sido usado como um alarme, um chamado para que adultos interfiram no relacionamento de seus filhos e alunos. Uma nova linha de pesquisadores, no entanto, vem defendendo que o bullying não é necessariamente um problema para gente grande. Segundo eles, as picuinhas entre crianças e adolescentes devem ser resolvidas pelos próprios envolvidos. Sem adultos como juízes.

Esses especialistas não dizem que crianças devem trocar socos na saída da escola. Nem que apanhar faz bem. Afirmam, sim, que  disputar é como um rito, pelo qual passamos no início da vida para saber enfrentar as encrencas maiores do futuro. Afinal, fazemos isso desde os tempos mais remotos. "Em boa parte da história da humanidade a agressão foi um traço adaptativo", escreve Monica J. Harris, professor de psicologia da Universidade do Kentucky, em Bullying, Rejection and Peer Victimization (sem tradução em português). No passado, os homens disputavam comida para garantir a sobrevivência. O conflito definia quem ia perpetuar a espécie e quem ficaria para trás. "Aqueles humanos mais agressivos em termos de buscar as coisas e proteger seus recursos e parentes tinham mais chances de sobreviver e reproduzir", afirma Monica. Enquanto os homens teriam aprendido a usar a força física, as mulheres desenvolveram habilidades mais sutis, como agressões verbais, fofocas e rumores.

Se antes essas táticas garantiam a sobrevivência hoje nos ajudam no convívio social. Quando as crianças deixam o conforto do lar para frequentar o colégio, descobrem que nem sempre suas vontades são atendidas. E que precisam negociar o tempo todo, como por um brinquedo ou por um lugar para sentar. Sem passar por isso, será mais difícil lidar com um desafeto no futuro, como um chefe, o síndico do prédio ou aquele amigo que empresta dinheiro e nunca paga.

O resultado da superação desses primeiros embates aparece cedo. Um estudo com 2 mil crianças com idade de 11 e 12 anos feitos pela Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou que aquelas que tinham algum rival na turma da escola eram vistas como mais maduras pelos professores. As meninas que reagiam a alguma antipatia foram consideradas donas de maior competência social. Os meninos com inimizades foram classificados como alunos com melhor comportamento. Nesses casos - que não envolviam agressões físicas, segundo a pesquisa -, as crianças não só aprenderam a reagir a menosprezo, pressão e sarcasmo como ainda ganharam status no colégio. "Tanto para meninos quanto para meninas, ter uma antipatia mútua com alguém de outro sexo é associado a popularidade", escreve a pesquisadora e autora do estudo Melissa Witkow, hoje professora de psicologia da Universidade Willamette, nos EUA.

Medo: o rival dos pais

A recente onda de crimes ligados a bullying, no entanto, criou o temor de que crianças e adolescentes talvez não deem conta da briga sozinhos. A comprovação disso estaria em casos como o de Wellington Menezes de Oliveira, que guardou por anos o rancor das humilhações que passou em um colégio em Realengo, no Rio de Janeiro - até voltar lá, em abril, e disparar contra alunos, deixando 13 mortos. O  resultado de histórias assim foi uma pressão de pais, mestres e legisladores para que o comportamento das crianças seja mais controlado. E para que até a polícia seja chamada para impedir as agressões. Em junho, o Senado brasileiro aprovou um projeto de lei determinando que as escolas inibam atitudes e situações que possam gerar bullying (o projeto segue para a Câmara). Em maio, um americano de 17 anos, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi preso por dar notas às colegas de turma - altas para as mais bonitas, baixas para as mais feias - e publicar a avaliação no Facebook.

Essa reação é chamada de superproteção pelos pesquisadores que defendem a não intervenção dos adultos nas disputas entre crianças e adolescentes. "É como se o mundo inteiro estivesse sofrendo de amnésia. Os adultos se esqueceram de que passaram pelas mesmas disputas no colégio", diz Helen Guldberg, psicóloga e professora de desenvolvimento infantil na Open University, Inglaterra. Segundo Helen, estamos julgando as atitudes das crianças com base nos valores de adultos. "O comportamento das crianças - as palavras que usam, o jeito brusco com que, por exemplo, excluem outros de suas brincadeiras - está sendo julgado com a seriedade com que encararíamos o relacionamento entre adultos em um escritório", afirma.

Essa linha de não intervenção defendida por gente como Helen Guldberg é polêmica. Para os críticos, desavenças simples podem ser o início de conflitos mais graves - eventos que poderão deixar marcas físicas e psicológicas. "O bullying é um problema sério que precisa ser combatido", diz Aramis Lopes Neto, pediatra e estudioso do tema. Mas em um ponto as duas linhas concordam: quando a briga se repete e se prolonga por um tempo, e só um lado sai sempre perdendo, é porque a criança já está derrotada. E é hora de os adultos entrarem em ação.

Prestar atenção ao comportamento da criança ajuda a descobrir se é o caso de intervir. Mudanças repentinas, como queda no desempenho escolar ou aumento da agressividade, são sinais importantes. Se o problema não for resolvido, alguns efeitos podem se estender. "Muitos adultos trazem da infância dificuldades de relacionamento social e baixa autoestima", afirma Lopes Neto. Isso atrapalharia a vida profissional e pessoal, como a capacidade de manter relacionamentos estáveis. "Há vítimas que não se desenvolvem profissionalmente por medo de se expor e se tornar alvo de bullying no trabalho", diz o médico. É como se elas não conseguissem nunca sair da zona de conforto. Exatamente o que pode acontecer com quem passa a infância na sombra dos pais, sem enfrentar uma briga sozinho.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 294 - agosto de 2011)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um aluno sofreu bullying por tanto tempo, que sua professora decidiu fazer uma loucura (Não acredito)


Foi noticiada recentemente a história de um menino de 8 anos que foi atormentado terrivelmente por usar uma mochila com o desenho de um pônei. Histórias de crianças que sofrem bullying ou são perseguidas são bem comuns, e parece que muitas escolas, ou ignoram o fato, ou não sabem bem como lidar com isso. Mas há alguns casos positivos por aí. Uma história muito legal sobre uma professora que encontrou uma maneira de ensinar algo sobre relações interpessoais está circulando pela internet recentemente:

"Eu decidi parar em uma loja esta manhã e comprar duas maçãs. Durante o nosso encontro matinal (onde nós sentamos em um círculo e fazemos lições em espiral), eu disse à minha turma que nós iríamos tentar algo diferente. Eu mostrei as minhas duas maçãs e pedi à eles para listarem as diferenças e similaridades entre elas. Elas eram exatamente iguais em cor e formato... uma era um pouco mais brilhante e maior, mas esta era, literalmente, a única diferença.

Depois, eu segurei a outra maçã, que era apenas um pouco mais sem com e menor e disse: "Nojenta. Esta maçã parece nojenta!". Depois disso, a deixei cair no chão. Meus alunos todos me olharam como seu eu fosse LOUCA! Alguns riram desconfortavelmente, mas na maior parte do tempo, eles pensaram que eu havia enlouquecido. 

Em seguida, eu a peguei do chão e passei para o aluno sentado ao meu lado e disse: "Esta maçã não é ridícula? Você deveria dizer algo ruim para ela e fazer isso!" Novamente, eu a deixei cair na minha frente. "Agora passe-a para a pessoa ao seu lado para que ela também faça algo ruim com a maçã."

Resumindo, meus alunos se empolgaram em dizer coisas ruins e dolorosas para esta maçã e em jogá-la no chão na frente deles. "Eu odeio a sua casca.", "Você tem uma cor vermelha feia.", "O seu cabo não é muito comprido", "Você, provavelmente, está cheia de vermes.", e por aí foi...

Então, quando esta pequena maçã voltou para as minhas mãos, todos tiveram a chance de realmente esculachar a pobre fruta. Eu, sinceramente, comecei a sentir simpatia por um objeto inanimado, mas, enfim... eu segurei as duas maçãs para os meus alunos olharem e pedi a eles para listarem, agora, as similaridades e diferenças entre elas novamente. Foi a mesma coisa, realmente não havia diferença. Mesmo despois deles terem deixado ela cair repetidamente, você não conseguia dizer que ela tinha algum dano.

Eu peguei uma tábua e uma faca e comecei a cortá-la. Ela era perfeita, e todas as crianças falavam oooohhh e aaaahhh...

Depois eu cortei a segunda, e quando a abri, ela estava cheia de partes molengas e marrons, totalmente machucada por dentro, por causa das quedas. Quando eu a segurei, os alunos exclamaram "EEECAAAA. Eu não quero comer ESSA maçã! Ela está nojenta..."

Foi quando eu olhei para eles e disse: "Mas nós todos não contribuímos para a maçã ficar assim? Nós fizemos isso, por que não deveríamos comê-la?" Eles meio que pararam e ficaram muito quietos, e eu continuei: "Viu, gente, isso é o que nós fazemos com outras pessoas quando dizemos coisas maldosas e que machucam. Quando fazemos fofoca ou chamamos alguém de feio, ou dizemos à esta pessoa que ela não é boa o bastante, ou que ela não pode ser nossa amiga. Nós a estamos deixando cair e causando MAIS UM hematoma. Um hematoma que talvez não apareça exteriormente é MUITO REAL, e pode ser muito destrutivo internamente. Ele não desaparece tão fácil. Os hematomas ficam piores e mais profundos. ISSO...", eu disse enquanto segurava a maçã, "é o que nós fazemos uns com os outros. Nós temos que parar de nos derrubarmos.

Eu nunca vi meus alunos entenderem algo tão rapidamente antes. Foi tão real para eles... alguns choraram e riram e foi muito emocionante, mas absolutamente incrível. E eles tiveram que escrever sobre tudo o que aconteceu, e algumas respostas que eu recebi... bem, eu chorei durante todo o meu almoço. Tantas crianças vieram e me abraçaram depois, e disseram que estavam tão felizes que um professor havia "sacado".


O bullying é um fenômeno onipresente e atemporal. É um problema que está frequentemente sobre a cabeça de pais e professores. Talvez a lição desta professora estimule conversas importantes nas escolas. De qualquer forma, é uma mensagem importante para se compartilhar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Beleza invertida - Marcela De Mingo


Uma síndrome desconhecida fez da "mulher mais feia do mundo" um exemplo de superação

Na adolescência, Lizzie Velasquez recebeu o epíteto de "mulher mais feia do muno". Um vídeo de poucos segundos de sua imagem na internet tornou a jovem americana conhecida pelo infeliz título. O surpreendente é que Lizzie não se deixou afetar pelo julgamento alheio, e virou a mesa quando o assunto é a sua autoestima.

Ela possui uma doença rara que afeta apenas três pessoas no mundo. Ainda sem nome, sua condição não permite acúmulo de gordura e ganho muscular, e, por isso, ela pesa cerca de 30 quilos desde pequena. A doença também causou a perda da visão de seu olho direito e parte da capacidade de enxergar do esquerdo. E afeta o sistema imunológico. O fato de andar, falar e pensar por si mesma é considerado um milagre pelos médicos.

Lizzie tinha tudo para ser alguém amarga. Mas, com o apoio da família - que sempre a tratou como qualquer outra pessoa -, a jovem decidiu não permitir que sua aparência definisse quem ela era. Ver o lado positivo da síndrome tornou-se uma missão: "Eu tive uma vida muito difícil, mas tudo bem", diz. "Posso ficar doente muitas vezes, mas tenho um cabelo lindo", brincou durante uma palestra para a organização TED, no final de 2013. No vídeo, que viralizou no começo deste ano, ela explica como permitiu que as ações positivas fossem responsáveis por transformá-la na mulher que é.

Como resultado do bullying, Lizzie percebeu que dar atenção aos comentários maldosos de desconhecidos não a levaria a lugar algum, e usou essas adversidades como motivação para conseguir o que queria: tornar-se uma palestrante motivacional, uma autora publicada, graduada na universidade e mãe de família. Dessa lista, ela já conquistou três: trabalha como palestrante, vai publicar o terceiro livro - os dois primeiros são chamados Be Beautiful, Be You e Lizzie Beautirful - e se formou na Universidade do Texas em Comunicação. "Eu usei a negatividade dos outros para acender a minha fogueira e me manter no caminho. Façam o mesmo."



(texto publicado na revista Vida Simples nº 148 - agosto de 2014)


Documentário sobre Lizzie Velasquez (Domingo Espetacular)



Palestra ministrada por Lizzie Velasquez (sem legendas)






segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Postagens anônimas na internet podem ser usadas para promover o cyberbullying - Francisca Paris


Com a promessa do anonimato, usuários cedem ao apelo do aplicativo para celulares "Secret" e revelam seus segredos. Ele permite fazer confidências sobre si mesmo ou outras pessoas por meio de posts com textos ou fotos - ou também compartilhar amenidades e brincadeiras -, sem que o autor tenha sua identidade declarada, e se conectar tanto com conhecidos como com desconhecidos, que interagem por meio de comentários e curtidas.

A ideia de seus criadores nos Estados Unidos até pode ter sido boa, já que o programa incentiva o compartilhamento de pensamentos e sentimentos que às vezes são difíceis de serem revelados em outras ocasiões. Porém, a condição de anonimato acabou criando um espaço aparentemente sem lei, em que se pode falar de tudo, inclusive propagar calúnias, difamações e imagens constrangedoras sem a devida autorização.

O Secret é mais uma ferramenta de relacionamento com infinitas possibilidades, que podem ser usadas para o bem e para o mal. O problema é quando ele é mal utilizado. O que era para ser um diário aberto virtual bacana em alguns casos tornou-se uma grande rede de intrigas e fofocas. Ou, pior, um espaço utilizado por alguns para promover o cyberbullying - agressão, intimidação ou humilhação de terceiros na esfera virtual -, a intolerância, o preconceito e até mesmo a pedofilia.

Mesmo quando essa violência é provocada sem intenção de machucar, geralmente por pessoas que não pensam nas consequências de seus atos, ela resulta na vitimização especialmente da criança ou do jovem, causando-lhe sofrimento, perturbação e diversos danos. Como em tudo na vida, é preciso pensar bem antes de agir, e não o contrário.

O aplicativo está disponível para download no Brasil há poucos meses e tem provocado muitas reclamações. Quem se sentir ofendido com um conteúdo que julgar inadequado pode denunciar o post ou até bloquear o autor da postagem no aplicativo. Em casos mais sérios, é possível também prestar queixa na delegacia. Já há, inclusive, pedidos de vítimas de postagens maldosas na Justiça para que o Secret não possa mais ser usado por aqui.

A internet é livre, mas não pode esconder ações erradas pelo anonimato. Não é tão fácil encontrar o autor de uma ofensa virtual, mas também não é impossível. De acordo com especialistas em crimes cibernéticos, tudo o que é feito na internet deixa rastros. Quer postar um segredo seu ou contar algo sobre outra pessoa nas redes? Então se prepare para correr o risco de ter que assumir as consequências e eventualmente enfrentar até mesmo um processo por ter ofendido alguém.

As redes sociais trazem enormes benefícios, especialmente quando estreitam os laços entre famílias, amigos e escola. Mas a migração dos contatos reais para o espaço virtual também carrega consigo os vários conflitos da sociedade. E a violência utilizada no mundo virtual apenas reflete aspectos das práticas desse fenômeno no mundo real: sofrimento e humilhação da vítima e incapacidade de se defender das agressões. O combate a esses acontecimentos será tão mais exitoso quanto maior for a interferência dos variados protagonistas do espaço social: família, professores, amigos e comunidade em geral.

É preciso estar atento ao que se expõe e compartilha online, porque cada informação divulgada pode ser interpretada de inúmeras maneiras e trazer problemas. E nos casos dos menores de idade que estão na rede, é preciso atenção redobrada dos pais e da escola para ajudá-los na tarefa de identificar os limites entre o que precisa permanecer privado e o que pode tornar-se público. Mesmo que o autor não se identifique, as postagens no mundo virtual podem trazer implicações morais, éticas e legais. Na internet, assim como na vida, quanto mais conscientes, autocríticos e racionais com as nossas atitudes nós formos, melhor será nossa convivência com o próximo.

Quando o ataque acontece no mundo real, como na escola, por exemplo, e é denunciado, os agressores são identificados e confrontados pela autoridade escolar. Já nos casos de "perturbação online", isso é mais difícil de ser combatido, especialmente quando o autor cria um perfil falso ou uma página anônima. Apesar disso, as vítimas não devem se calar por vergonha ou medo de represália, e sim denunciar o que encontrarem de errado e até mesmo exigir que as medidas legais cabíveis sejam tomadas. Utilizando a velha máxima do "não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você", podemos estimular o convívio com o diferente, sabendo olhar para o outro com respeito.


(texto publicado na revista Leve & Leia nº 118 - ano 8 - setembro de 2014)