Mostrando postagens com marcador lingua portuguesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lingua portuguesa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Por que respondemos "obrigado" com "de nada" ? - Bruna Estevanin


Para entender o porquê, é preciso explicar de onde vêm as expressões. A origem do agradecimento é obscura, mas houve um tempo em que, quando alguém recebia um favor ou um presente, era obrigatório retribuir. Assim surgiu o "obrigado" - e, mais tarde, sua variação no feminino. Ele vem do verbo em latim obligare, que significa "responsabilizar", "dever". Por isso, quando alguém nos agradece, é como se dissesse "fico devendo uma obrigação". Por educação, quem presta um favor responde "de nada", que significa "de modo nenhum" e vem do latim rem natam. Aqui no Brasil,  o regionalismo acabou dando origem a novas formas de dizer o mesmo, como "imagina", "não há de quê" e outras mais informais e recentes como "falou" e "valeu". Independentemente da versão escolhida, quando respondemos ao "obrigado" com expressões do gênero, estamos dizendo que "de modo nenhum você é meu devedor", "você não é obrigado a nada".

(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 162)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Quantas letras tem a maior palavra da língua portuguesa? - Fernanda Salla


Pode ter 46 ou 29 caracteres, depende do critério. "Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico", de 46 letras, designa um pessoa que sofre de uma doença pulmonar aguda causada por respirar ar carregado de partículas de sílica, expelida por vulcões. É uma palavra técnica formada pela aglutinação de termos. É relativamente nova, mas já aparece no dicionário Houaiss. Muitos especialistas a "desclassificam", porque levam em conta só vocábulos com uma única raiz (o elemento irredutível que dá origem ao significado da palavra), somada a prefixos e sufixos. 

É o caso de "anticonstitucionalissimamente", com 29 letras, que designa aquilo que se opõe ao que foi estabelecido pela Constituição.



(texto publicado na revista Mundo Estranho edição edição 141 - julho de 2013)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Mil novecentos e guaraná com rolha (Info Branding)



Pouca gente sabe, mas os refrigerantes, quase que no formato que conhecemos hoje, foram inventados por farmacêuticos e eram vendidos como produtos com propriedades medicinais!

Pois é, quem diria. Hoje martirizada por ter uma quantidade absurda de corantes, conservantes e açúcar, essa bebida começou quase como um suco, evoluiu para uma versão gaseificada e, após grande aceitação nos Estados Unidos, progrediu mais e mais. Ganhou componentes, cores, sabores, novas misturas e as receitas de sucesso passaram a ser guardadas como tesouros.

No Brasil, a novidade não foi aceita de primeira e alternativas tiveram que ser encontradas. Uma delas, o guaraná, pareceu ser boa escolha. Com apelo nacionalista, cor e sabor mais agradáveis ao gosto brasileiro, a bebida da fruta “matava dois coelhos em uma cajadada só”, seguindo a tendência mundial, tinha “propriedades medicinais” e altos índices de cafeína.

Uma das pioneiras no beneficiamento da bebida lançou sua versão com uma estratégia, digamos, interessante. A associação. Segundo alguns, o então Guaraná Champagne Antarctica, criado em 1921 pela Companhia Antarctica Paulista, recebeu esse nome por conta do leve amargor e da sua baixa adstringência. Outros defendem que as bolhas de gás carbônico e a coloração do produto é que contribuíram para essa escolha.

Outro ponto relevante é que as primeiras tampas-coroas metálicas, que selavam as garrafas, eram similares as de hoje em dia, só que em vez do plástico tinham um disco de cortiça (mesmo material das rolhas de champagne) para evitar o contato da bebida com o metal.

Qualquer semelhança é mera coincidência? Acredito que não. A companhia aproveitou esses “ingredientes” e abusou, chegando a deixar o produto sem identidade. As propagandas, o formato da garrafa, os elementos do rótulo, tudo fazia alusão aos champagnes da época, mais especificamente ao Mumm, um produto mais bem consolidado e com maior valor agregado.

A estratégia parecia boa, mas as vendas de refrigerantes, de qualquer sabor, ainda não eram um absurdo por esses lados, somente com o advento da tecnologia é que o povo brasileiro passou aceitar melhor o produto. Refrigeradores, latinhas e novos tipos de garrafa, facilitaram esse approach, e a essa altura a Coca-Cola, que vamos combinar, tinha muito mais poder financeiro e uma estratégia bem consolidada de mercado começou a nadar de braçada. Então qual foi à estratégia da Companhia Antarctica Paulista? Passou a utilizar em suas latinhas, elementos parecidos aos da latinha da Coca-Cola, cores e formas principalmente, e mais uma vez tínhamos um produto sem identidade.

A coisa evoluiu, e muito, com o produto refrigerante aceito, marcas começaram a surgir, o mercado se viu cheio de opções e algumas empresas passaram a se descolar, entre elas a Companhia Antarctica Paulista com o seu Guaraná Champagne Antarctica. O mercado tinha amadurecido e era preciso amadurecer, assim nova linguagem, novos elementos, novas cores passaram a ser adicionados à identidade do produto.

Nesse meio tempo, surgiu a Ambev (fruto da fusão entre a Companhia Antarctica Paulista e a Companhia Cervejaria Brahma) que se viu obrigada a fazer uma reforma no seu portfólio de marcas. A nova empresa tinha em suas mãos uma salada de produtos similares: Guaraná Brahma, Kas Guaraná, Guaraná Champagne Antarctica, Guará-Suco, Guaraná Baré, Guaraná Polar, entre outros. Descontinuou a maioria, restando somente o Guaraná Champagne Antarctica.

Tempos depois, trocou o nome do produto para Guaraná Antarctica, utilizar o termo champagne não fazia mais sentido, como dito, o rótulo tinha mudado, o formato da garrafa já não era parecido com uma garrafa de champagne e as propagandas não utilizavam mais esse gancho, enfim, um fechamento com chave de ouro para a família que, então, já contava com cores próprias, discurso amarrado e embalagens, teoricamente, bem resolvidas.

Hoje cheio de identidade, o Guaraná Antarctica, do Brasil, é vendido em diversos países (Argentina, China, Estados Unidos, Japão e Portugal são alguns exemplos) e está entre uma das marcas de refrigerantes mais vendidas no mundo. Uma evolução tão perceptível que contribuiu para o surgimento da expressão “Mil novecentos e guaraná com rolha”, uma alusão a coisas velhas/antigas e tempos passados.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Os 50 erros de português mais comuns no mundo do trabalho - Claudia Gasparini (Exame.com)


São Paulo - Certas competências são obrigatórias para profissionais de qualquer área. O domínio do português é uma delas.

Ainda assim, infrações à norma culta da língua são uma constante no mundo corporativo - e em qualquer nível hierárquico.

A alta frequência de erros reflete problemas na educação de base do brasileiro, segundo Rosângela Cremaschi, professora de comunicação escrita na Faap e consultora na RC7.

"No nosso país, geralmente não é preciso estudar muito para passar de ano", explica. "Por isso, a maioria não se aprofunda no próprio idioma e ingressa no mercado de trabalho com muitas dúvidas sobre o assunto".

Além de deficiências na formação básica, a falta de familaridade com a escrita também contribui para o problema.

Segundo a professora, quem lê pouco - e escreve de forma mecânica - está mais suscetível a "atropelar" alguns preceitos básicos da língua.

Veja a seguir os 50 erros de português mais comuns no mundo do trabalho de acordo com Rosângela. As informações foram retiradas da obra "Livro de anotações com 101 dicas de português" (Editora Hunter Books, 2014), de autoria da professora:

1- Anexo / Anexa

Errado: Seguem anexo os documentos solicitados.

Certo: Seguem anexos os documentos solicitados.

Por quê? Anexo é adjetivo e deve concordar em gênero e número com o substantivo a que se refere. 

Obs: Muitos gramáticos condenam a locução “em anexo”; portanto, dê preferência à forma sem a preposição. 

2- “Em vez de” / “ao invés de”

Errado: Ao invés de elaborarmos um relatório, discutimos o assunto em reunião.

Certo: Em vez de elaborarmos um relatório, discutimos o assunto em reunião.

Por quê? Em vez de é usado como substituição. Ao invés de é usado como oposição. Ex: Subimos, ao invés de descer.

3- “Esquecer” / “Esquecer-se de”

Errado: Eu esqueci da reunião.

Certo: Há duas formas: Eu me esqueci da reunião. ou Eu esqueci a reunião.

Por quê? O verbo esquecer só é usado com a preposição de (de – da – do) quando vier acompanhado de um pronome oblíquo (me, te, se, nos, vos).

4-“Faz” / “Fazem”

Errado: Fazem dois meses que trabalho nesta empresa.

Certo: Faz dois meses que trabalho nesta empresa.

Por quê? No sentido de tempo decorrido, o verbo “fazer” é impessoal, ou seja, só é usado no singular. Em outros sentidos, concorda com o sujeito. Ex: Eles fizeram um bom trabalho.

5- “Ao encontro de" / “De encontro a”

Errado: Os diretores estão satisfeitos, porque a atitude do gestor veio de encontro ao que desejavam.

Certo: Os diretores estão satisfeitos, porque a atitude do gestor veio ao encontro do que desejavam.

Por quê? “Ao encontro de” dá ideia de harmonia e “De encontro a” dá ideia de oposição. No exemplo acima, os diretores só podem ficar satisfeitos se a atitude vier ao encontro do que desejam.

6- A par / ao par

Errado: Ele já está ao par do ocorrido.

Certo: Ele já está a par do ocorrido.

Por quê? No sentido de estar ciente, o correto é “a par”. Use “ao par” somente para equivalência cambial. Ex: “Há muito tempo, o dólar e o real estiveram quase ao par.”

7- “Quite” / “quites”

Errado: O contribuinte está quites com a Receita Federal.

Certo: O contribuinte está quite com a Receita Federal.

Por quê? “Quite” deve concordar com o substantivo a que se refere. 

8- “Media” / “Medeia”

Errado: Ele sempre media os debates.

Certo: Ele sempre medeia os debates.

Por quê? Há quatro verbos irregulares com final –iar: mediar, ansiar, incendiar e odiar. Todos se conjugam como “odiar”: medeio, anseio, incendeio e odeio.

9- “Através” / “por meio”

Errado: Os senadores sugerem que, através de lei complementar, os convênios sejam firmados com os estados.

Certo: Os senadores sugerem que, por meio de lei complementar, os convênios sejam firmados com os estados.

Por quê? Por meio significa “por intermédio”. Através de, por outro lado, expressa a ideia de atravessar. Ex: Olhava através da janela.

10- “Ao meu ver” / “A meu ver”

Errado: Ao meu ver, o evento foi um sucesso.

Certo: A meu ver, o evento foi um sucesso.

Por quê? “Ao meu ver” não existe.

11- “A princípio” / “Em princípio” 

Errado: Achamos, em princípio, que ele estava falando a verdade. 

Certo: Achamos, a princípio, que ele estava falando a verdade. 

Por quê? A princípio equivale a “no início”. Em princípio significa “em tese”. Ex: Em princípio, todo homem é igual perante a lei.

12- “Senão” / “Se não”

Errado: Nada fazia se não reclamar.

Certo: Nada fazia senão reclamar.

Por quê? Senão significa “a não ser”, “caso contrário”. Se não é usado nas orações subordinadas condicionais. Ex: Se não chover, poderemos sair.

13- “Onde” / “Aonde”

Errado: Aonde coloquei minhas chaves?

Certo: Onde coloquei minhas chaves?

Por quê? Onde se refere a um lugar em que alguém ou alguma coisa está. Indica permanência. Aonde se refere ao lugar para onde alguém ou alguma coisa vai. Indica movimento. Ex: Ainda não sabemos aonde iremos.

14- “Visar” / “Visar a”

Errado: Ele visava o cargo de gerente.

Certo: Ele visava ao cargo de gerente.

Por quê? O verbo visar, no sentido de almejar, pede a preposição a. 

Obs: Quando anteceder um verbo, dispensa-se a preposição “a”. Ex: Elas visavam viajar para o exterior.

15- "A" / "há"

Errado: Atuo no setor de controladoria a 15 anos.

Certo: Atuo no setor de controladoria há 15 anos.

Por quê? Para indicar tempo passado, usa-se o verbo haver. O “a”, como expressão de tempo, é usado para indicar futuro ou distância. Exs: Falarei com o diretor daqui a cinco dias. Ele mora a duas horas do escritório.

16- “Aceita-se” / “Aceitam-se”

Errado: Aceita-se encomendas para festas.

Certo: Aceitam-se encomendas para festas.

Por quê? A presença da partícula apassivadora “se” exige que o verbo transitivo direto concorde com o sujeito.

17- “Precisa-se” / “Precisam-se”

Errado: Precisam-se de estagiários.

Certo: Precisa-se de estagiários.

Por quê? Nesse caso, a partícula “se” tem a função de tornar o sujeito indeterminado. Quando isso ocorre, o verbo permanece no singular. 

18- “Há dois anos” / “Há dois anos atrás”

Errado: Há dois anos atrás, iniciei meu mestrado.

Certo: Há duas formas corretas: “Há dois anos, iniciei meu mestrado” ou “Dois anos atrás, iniciei meu mestrado.”

Por quê? É redundante dizer “Há dois anos atrás”.

19- “Implicar” / “Implicar com” / “Implicar em”

Errado: O acidente implicou em várias vítimas.

Certo: O acidente implicou várias vítimas.

Por quê? No sentido de acarretar, o verbo implicar não admite preposição. No sentido de ter implicância, a preposição exigida é com. Quando se refere a comprometimento, deve-se usar a preposição em. Exs: Ele sempre implicava com os filhos. Ela implicou-se nos estudos e passou no concurso.

20- “Retificar” / “Ratificar”

Errado: Estávamos corretos. Os fatos retificaram nossas previsões.

Certo: Estávamos corretos. Os fatos ratificaram nossas previsões.

Por quê? Ratificar significa confirmar, comprovar. Retificar refere-se ao ato de corrigir, emendar. Ex: Vou retificar os dados da empresa.

21- “Somos” / “Somos em”

Errado: Somos em cinco auditores na empresa.

Certo: Somos cinco auditores na empresa.

Por quê? Não se deve empregar a preposição “em” nessa expressão.

22- “Entre eu e você” / “Entre mim e você”

Errado: Não há nada entre eu e você, só amizade.

Certo: Não há nada entre mim e você, só amizade.

Por quê? Eu é pronome pessoal do caso reto e só pode ser usado na função de sujeito, ou seja, antes de um verbo no infinitivo, como no caso: “Não há nada entre eu pagar e você usufruir também.”

23- “A fim” / “Afim”

Errado: Nós viemos afim de discutir o projeto. 

Certo: Nós viemos a fim de discutir o projeto. 

Por quê? A locução a fim de indica ideia de finalidade. Afim é um adjetivo e significa semelhança. Ex: Eles têm ideias afins.

24- “Despercebido” / “Desapercebido”

Errado: As mudanças passaram desapercebidas.

Certo: As mudanças passaram despercebidas.

Por quê? Despercebido significa sem atenção. Desapercebido significa desprovido, desprevenido. Ex: Ele estava totalmente desapercebido de dinheiro.

25- “Tem” / “Têm”

Errado: Eles tem feito o que podem nesta empresa.

Certo: Eles têm feito o que podem nesta empresa.

Por quê? Tem refere-se à 3ª pessoa do singular do verbo “ter” no Presente do Indicativo. Têm refere-se ao mesmo tempo verbal, porém na 3ª pessoa do plural. 

26- “Chegar em” / “Chegar a”

Errado: Os atletas chegaram em Curitiba na noite passada. 

Certo: Os atletas chegaram a Curitiba na noite passada. 

Por quê? Verbos de movimento exigem a preposição “a”.

27- “Prefiro... do que” / “Prefiro... a”

Errado: Prefiro carne branca do que carne vermelha.

Certo: Prefiro carne branca a carne vermelha.

Por quê? A regência do verbo preferir é a seguinte: “Preferir algo a alguma outra coisa.” 

28- “De mais” / “demais”

Errado: Você trabalha de mais!

Certo: Você trabalha demais!

Por quê? Demais significa excessivamente; também pode significar “os outros”. De mais opõe-se a “de menos”. Ex: Alguns possuem regalias de mais; outros de menos.

29- “Fim de semana” / “final de semana”

Errado: Bom final de semana!

Certo: Bom fim de semana!

Por quê? Fim é o contrário de início. Final é o contrário de inicial. Portanto: fim de semana; fim de jogo; parte final.

30- “Existe” / “Existem”

Errado: Existe muitos problemas nesta empresa.

Certo: Existem muitos problemas nesta empresa. 

Por quê? O verbo existir admite plural, diferentemente do verbo haver, que é impessoal.

31- “Assistir o” / “Assistir ao”

Errado: Ele assistiu o filme “A teoria do nada”.

Certo: Ele assistiu ao filme “A teoria do nada”.

Por quê? O verbo assistir, no sentido de ver, exige a preposição “a”. 

32- “Responder o” / “Responde ao”

Errado: Ele não respondeu o meu e-mail. 

Certo: Ele não respondeu ao meu e-mail. 

Por quê? A regência do verbo responder, no sentido de dar a resposta a alguém, é sempre indireta, ou seja, exige a preposição “a”. 

33- “Tão pouco” / “Tampouco”

Errado: Não compareceu ao trabalho, tão pouco justificou sua ausência. 

Certo: Não compareceu ao trabalho, tampouco justificou sua ausência. 

Por quê? Tampouco corresponde a “também não”, “nem sequer”. Tão pouco corresponde a “muito pouco”. Ex: Trabalhamos muito e ganhamos tão pouco”. 

34- “A nível de” / “Em nível de”

Errado: A pesquisa será realizada a nível de direção.

Certo: A pesquisa será realizada em nível de direção.

Por quê? A expressão “Em nível de” deve ser usada quando se refere a “âmbito”. O uso de “a nível de” significa “à mesma altura”. Ex: Estava ao nível do mar. 

35- “Chego” / “Chegado”

Errado: O candidato havia chego atrasado para a entrevista.

Certo: O candidato havia chegado atrasado para a entrevista.

Por quê? Embora alguns verbos tenham dupla forma de particípio (Exs: imprimido/impresso, frito/fritado, acendido/aceso), o único particípio do verbo chegar é chegado. Chego é 1ª pessoa do Presente do Indicativo. Ex: Eu sempre chego cedo.

36- “Meio” / “Meia”

Errado: Ela estava meia nervosa na reunião.

Certo: Ela estava meio nervosa na reunião.

Por quê? No sentido de “um pouco”, a palavra “meio” é invariável. Como numeral, concorda com o substantivo. Ex: Ele comeu meia maçã.

37- “Viagem” / “Viajem”

Errado: Espero que eles viagem amanhã. 

Certo: Espero que eles viajem amanhã. 

Por quê? Viajem é a flexão do verbo “viajar” no Presente do Subjuntivo e no Imperativo. Viagem é substantivo. Ex: Fiz uma linda viagem. 

38- “Mal” / “Mau”

Errado: O jogador estava mau posicionado.

Certo: O jogador estava mal posicionado.

Por quê? Mal opõe-se a bem. Mau opõe-se a bom. Assim: mal-humorado, mal-intencionado, mal-estar, homem mau.

39- “Na medida em que” / “À medida que”

Errado: É melhor comprar à vista à medida em os juros estão altos.

Certo: É melhor comprar à vista na medida em que os juros estão altos.

Por quê? Na medida em que equivale a “porque”. À medida que estabelece relação de proporção. Ex: O nível dos jogos melhora à medida que o time fica entrosado.

40- “Para mim” / “Para eu” fazer

Errado: Era para mim fazer a apresentação, mas tive de me ausentar.

Certo: Era para eu fazer a apresentação, mas tive de me ausentar.

Por quê? “Para eu” deve ser usado quando se referir ao sujeito da frase e for seguido de um verbo no infinitivo. 

41- “Mas” / “Mais” 

Errado: Gostaria de ter viajado, mais tive um imprevisto.

Certo: Gostaria de ter viajado, mas tive um imprevisto.

Por quê? Mas é conjunção adversativa e significa “porém”. Mais é advérbio de intensidade. Ex: Adicione mais açúcar se quiser.

42- “Perca” / “perda”

Errado: Há muita perca de tempo com banalidades.

Certo: Há muita perda de tempo com banalidades.

Por quê? Perca é verbo e perda é substantivo. Exs: Não perca as esperanças! Essa perda foi irreparável.

43- “Deu” / “Deram” tantas horas

Errado: Deu dez da noite e ele ainda não chegou.

Certo: Deram dez da noite e ele ainda não chegou.

Por quê? Os verbos dar, bater e soar concordam com as horas. Porém, se houver sujeito, deve-se fazer a concordância: “O sino bateu dez horas.”

44- “Traz” / “Trás”

Errado: Ele olhou para traz e viu o vulto.

Certo: Ele olhou para trás e viu o vulto.

Por quê? Trás significa parte posterior. Traz é a conjugação do verbo “trazer” na 3ª pessoa do singular do Presente do Indicativo. Ex: Ela sempre traz os relatórios para a gerência.

45- “Namorar alguém” / “Namorar com alguém”

Errado: Maria namora com Paulo.

Certo: Maria namora Paulo.

Por quê? A regência do verbo namorar não admite preposição. 

46- “Obrigado” / “Obrigada”

Errado: Muito obrigado! – disse a funcionária.

Certo: Muito obrigada! – disse a funcionária.

Por quê? Homens devem dizer "obrigado". Mulheres dizem "obrigada". A flexão também ocorre no plural: “Muito obrigadas! – disseram as garotas ao professor.”

47- “Menos” ou “Menas”

Errado: Os atendentes fizeram menas tarefas hoje.

Certo: Os atendentes fizeram menos tarefas hoje.

Por quê? “Menas” não existe. Mesmo referindo-se a palavras femininas, use sempre menos. Ex: Havia menos pessoas naquele departamento.

48- “Descriminar” / “Discriminar”

Errado: Os produtos estão descriminados na nota fiscal.

Certo: Os produtos estão discriminados na nota fiscal.

Por quê? Discriminar significa separar, diferenciar. Descriminar significa absolver, inocentar. Ex: O juiz descriminou o jovem acusado.

49- “Acerca de” / “a cerca de”

Errado: Estavam discutindo a cerca de política. 

Certo: Estavam discutindo acerca de política.

Por quê? Acerca de significa “a respeito de”. A cerca de indica aproximação. Ex: Eu trabalho a cerca de 5 km daqui.

50- “Meio-dia e meio” / “Meio-dia e meia”

Errado: Nesta empresa, o horário de almoço inicia ao meio-dia e meio.

Certo: Nesta empresa, o horário de almoço inicia ao meio-dia e meia.

Por quê? O correto é meio-dia e meia, pois o numeral fracionário concorda em gênero com a palavra hora. 




quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O sabor da língua - Ivan Angelo


Um dos encantos de Portugal para um brasileiro que tem a língua portuguesa como instrumento de trabalho é o uso que se faz dela no nome dos lugares, nos cardápios, nas conversas, nas ruas. Não pensem que me refiro a sotaques, prosódias, vocabulário diferente para itens comuns de cá e de lá. O encanto de que falo é o modo conceitual de nomear, de pôr nos nomes ideias e maneiras de ser, combinando humor e informação, e conservá-los ao longo dos anos.

É uma qualidade que perdemos quando abandonamos a sensibilidade de chamar uma via de Estrada das Lágrimas, uma praça de Largo da Batata, um largo de Praça da Árvore, uma rua de Alegria, ou Sinceridade, uma comida de vaca atolada. Denominações de sabor antigo vão desaparecendo, com o que se perde um pouco de história.

Enquanto isso, em Portugal...

Lisboa. Passo por uma Rua da Achada. Sigo por um Caminho das Necessidades, que vai dar no Largo das Necessidades, que fica em frente ao Palácio das Necessidades. E olhe que isso não está muito longe da Rua do Alívio. No bairro do Chiado há a Rua Fresca; perto, na Travessa da Espera, fica o concorrido restaurante Farta Brutos, a desafiar os glutões que transpõem o dístico "Aqui, mastiga-se". Do outro lado da cidade, distraio-me em suposições diante de uma placa: quem terá originado este nome, Rua da Bempostinha? Bem-posta, sabe-se bem o que é: elegante, alinhada, bem-vestida; mas, assim, com esse diminutivo, essa intimidade? Alguma queridinha do bairro, uma lindinha, uma menina? Há uma Rua do Cotovelo, em forma mesmo de cotovelo, que cruza com a Rua Arco das Águas Livres. A Rua Dois cruza com a Três. Perto do aeroporto fica a Rua Junto aos Eucaliptos.

No Porto, descendo a ladeira da Sé para a Ribeira, chego à Travessa das Verdades e almoço no Postigo do Carvão. Por aqui, o bilhete recarregável do metrô chama-se Andante, pois sem ele não se anda: a multa é de 800 euros. Na belíssima Livraria Lello, do século XIX, encontro o livro didático Sebenta de Matemáticas Gerais. Sebenta tem a mesma raiz de sebo, denominação que usamos para casa de livros usados, e carrega o sentido de anotações de classe, matéria passada e repassada, "sebenta".

Nas comidas, esbalda-se. Tanto pela qualidade e quantidade quanto - eis o assunto desta crônica - pelos nomes. Arroz malandrinho é um com mais caldo ou molho, não vem seco e soltinho como aqui. Arroz de afogado é para aproveitar os miúdos do cabrito, com caldo, claro. Súplicas são umas bolachas de farinha e ovos, 500 gramas para oito ovos. Batatas bêbadas são cozidas no vinho, junto com carne previamente frita. Batatas ao murro levam um soco mesmo, e voltam ao forno para ser finalizadas. Esquecidos são biscoitos cuja massa se coloca em pelotas no tabuleiro e, depois, deixa-se a forma cair sobre a mesa para achatar a massa. Gargantas de freira são uns canudos de massa fina, chamada hóstia, recheados com fios de ovos. Barriga de freira é um tipo de pudim de pão e ovos, lisinho. Comer e chorar por mais é um doce de amêndoas e ovos, muitos ovos, como é o costume. Percebes são um tipo de marisco.

Há bons nomes para todo lado, como o de um vinho do Alentejo, o Inevitável, ou o de uma cozinheira da televisão, Filipa Vacondeus, que morreu em janeiro, ou o de uma cidade do norte, Freixo de Espada à Cinta (freixo é uma árvore poderosa), batizada bem antes dos descobrimentos. Pouco depois, polêmicas à parte, por causa de um pau de tinta vermelha como brasa, inventaram o Brasil. Não está mal.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 1º de julho de 2015)

sábado, 12 de setembro de 2015

Etimologia: Êxito - Sérgio Rodrigues, escritor e jornalista


Sinônimo de triunfo, ele pode ser menos auspicioso do que parece. Às vezes é o fim

Êxito, todos sabem, é sinônimo de sucesso, triunfo. Não foi sempre assim. É ilustrativo - não só da vivacidade mutante das palavras, mas também do quanto há de relativo nos sucessos e fracasso - pensar que o seu sentido hoje dominante nasceu como forma reduzida de "bom êxito". A princípio êxito queria dizer apenas resultado, consequência, termo, sem qualificação. Designava o lugar ou estado a que se chegou ao fim de determinado processo. O êxito podia - e ainda pode, pois não se trata de modo nenhum de uma acepção arcaica - ser bom ou mau, péssimo ou excelente, dependendo da situação.

A própria palavra sucesso, que de início designava apenas um fato, uma ocorrência, passou por processo semelhante. Que está longe de ser incomum. A qualidade está aí parra provar. Em sua primeira acepção o termo é neutro, mas diz-se informalmente, o tempo todo, que algo é "de qualidade" - e ninguém tem a menor dúvida sobre o caráter elogioso da expressão.

No latim exitus o sentido original é ainda mais estrito. A palavra significa saída ou ação de sair. A medicina antiga usava o termo preferencialmente para funções fisiológicas, para tratar das "fluxões que fazem êxito para fora do corpo por alguma parte dele", nas palavras do Vocabulário Português e Latino, dicionário do início do século 18.

No próprio latim, o sentido de êxito se ampliou para abarcar as acepções de resultado, consequência, conclusão, termo, fim e - mais distante ainda do êxito como normalmente o concebemos - morte. Curiosamente, cabe ao inglês, no qual exitus foi dar em exit, que se manteve colado à matriz latina com o sentido de saída, nos traz de volta um pouco do espírito original do vocábulo. Artigos e livros especializados têm traduzido literalmente a expressão médica lethal exit, eufemismo para morte, como "èxito letal".




(texto publicado na Revista da Semana edição 93 - ano 3 - nº 24 - 25 de junho de 2009)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Diário de vida: Traduttore, traditore (tradutor, traidor)


Uma das coisas que mais amo na língua italiana são as expressões idiomáticas (modi di dire). E muitas vezes, é difícil traduzi-las.

Mas hoje eu gostaria mesmo é de falar das palavras que em italiano e também em outras línguas não significam nada de mais, mas que fazem rir quando pronunciadas em português.

Por exemplo, em todos os grupos de Básico 1 peço que cada aluno pense em uma palavra em português para que depois possa fazer a seguinte pergunta: Come si dice (tal palavra) in italiano? Estabeleço que deve ser um substantivo concreto para facilitar e geralmente se trata de objetos presentes na sala de aula. Quando algum aluno pensa na palavra “bolsa” não perco a oportunidade de perguntar como se diz “bolsinha” em italiano. E ao ensinar que se diz borsetta todos começam a rir. No que digo borsetta foderata, riem mais ainda. Borsetta foderata não é nada mais nada menos do que “bolsinha forrada”.

Em compensação a palavra “fica” que para nós é um verbo, em italiano é o modo vulgar de se referir a uma parte da anatomia feminina, justamente o que nos faz quando ouvimos a palavra borsetta.

Como uma brasileira de origem nipônica, quase sempre tenho que soletrar o meu nome do meio e também o sobrenome e achei ruim quando uma colega tirou sarro do sobrenome Kagueyama. O sobrenome de casada de minha prima, por exemplo, é Kubota. Hoje em dia fala-se tanto de bullying e quem tem nome estrangeiro geralmente não escapa disso principalmente nos tempos de escola.

 Por isso, prefiro brincar com as palavras, mas não com os nomes das pessoas porque é bem desagradável. Imagine se o Arnold Schwarzenegger morasse aqui no Brasil!!


domingo, 23 de agosto de 2015

Etimologia: Amazônia - Sérgio Rodrigues


A etimologia é uma selva, mas o mito grego das amazonas é de longe o preferido dos estudiosos

É possível que as ferozes guerreiras que o espanhol Orellana enfrentou em 1542 às margens do grande rio fosse na verdade mancebos cabeludos, mas já não importa. O nome pegou

Assim como o estado da federação, a floresta que alguns gringos gostariam de internacionalizar deve seu nome ao rio. Tudo começou com um potamônimo, palavrão que quer dizer "nome de rio". Coube ao explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a descer o Amazonas de ponta a ponta, rebatizar em 1542 aquele marzão doce - a princípio chamado pelos colonizadores justamente de rio Santa Maria de la Mar Dulce  - de rio (das) Amazonas, após enfrentar uma tribo de ferozes guerreiras armadas de arco e flecha.

A preposição foi tragada pelo tempo, e as certezas também. Seriam tapuias? Segundo uma tese, as "guerreiras" de Orellana eram na verdade mancebos cabeludos. De uma forma ou de outra, a maioria dos estudiosos é firme ao sustentar que o mito grego das amazonas está por trás de tudo, tratando como mera curiosidade a tese alternativa de que a palavra teria vindo de amassunu, termo indígena para "águas ruidosas" (e não "águias", erro reproduzido em muitos sites brasileiros).

Como a etimologia é um campo de batalha em que pululam versões, a palavra amazona também carrega um quiproquó de origem. O vocábulo foi provavelmente importado do iraniano ha-mazan ("guerreiras"), mas, adotado no grego, ganhou o apoio da chamada etimologia popular, aquela que parte de uma ideia falsa ou de uma aproximação sonora para alterar o curso de uma palavra: amazona foi interpretada como a + mazos, isto é, "sem seios". Espalhou-se então a crença de que tais guerreiras se mutilavam para mais bem manejar o arco. Em todas as representações artísticas da Antiguidade, porém, as amazonas aparecem, digamos, inteiraças. Fica faltando explicar o porquê de Amazônia, mas isso é o mais simples. Basta aplicar às amazonas o sufixo latino indicativo de lugar que é usado em Itália, Lusitânia, Brasília etc.




(texto publicado na Revista da Semana edição 39 - ano 2 - nº 21 - 2 de junho de 2008)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Por que "pepino" e "abacaxi" são gírias para "problema"? - Felipe B. Cruz (P&R)


Porque abacaxi é difícil de descascar e pepino é difícil de digerir. Hoje em dia, esses problemas são facilmente contornáveis, mas antigamente os dois vegetais eram famosos por essas características. De acordo com Celso Ferrarezi Junior, pós-doutor em semântica e professor da Unifal (MG), falar essas palavras para se referir a "problema" é usar metáforas, ou seja, comparações que fazemos por analogia. "Uma analogia se dá pelo cruzamento de elementos em campos culturais diferentes. "Problema" é uma palavra genérica. Então procuramos exemplos para ilustrá-la. Quando você diz que tem um abacaxi ou um pepino, é possível dar uma dimensão específica à questão", explica o especialista. Só que toda analogia está ligada a um contexto histórico - que, no caso de pepino e abacaxi, já está ultrapassado. Por isso, cada geração cria suas próprias metáforas. Um exemplo atual para "problema"? "O forninho caiu."




(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 166 - maio de 2015)

domingo, 23 de novembro de 2014

A xacina do testo - Roberto Pompeu de Toledo


Apezar da xuva, muita jente esteve prezente ao ezersisio de jinastica qe teve lugar no colejio. Omens, mulheres e criansas no fim cantaram o Ino Nasional. Ouve pesoas qe ate xoraram de emosão cuando a festa terminou. Oje qem qiser pode asistir a nova aprezentasão.

A impressão é de escombros do que foi outrora a língua portuguesa em sua forma escrita. Como se tivesse sido atingida por uma bomba e alguns destroços irreconhecíveis houvessem sido resgatados da hecatombe. A comparação não é absurda. Tem o efeito de uma bomba a radical reforma ortográfica defendida pelo site Simplificando a Ortografia (simplificandoaortografia.com), criado pelo professor de português Ernani Pimentel. Sua proposta é acabar com letras que não se pronunciam, como o "H" no início de certas palavras e o "U" que se segue ao "Q" em "quintal" e "querido", assim como a duplicidade de representação do mesmo som em "S" e "Z", "SS" e "Ç" ou "G" e "J". Não é uma proposta inovadora. Para citar uma das que já se apresentaram com espírito semelhante no passado, o general Bertoldo Klinger, figura proeminente da Era Vargas, não só formulou a sua como a praticou - ele grafava seus textos segundo as regras que inventou. O general (aliás, jeneral) Klinger, em quem o reformador da língua escrita se misturava ao reformador do povo brasileiro, explicava: "Ortografia é lojica. Lojica é ordem. Sem ordem não a nasão. Logo, não a nasão sem ortografia lojica".

O site do professor Ernani Pimentel podia passar por uma excêntrica curiosidade, tal qual a reforma de Klinger, não fossem duas circunstãncias. Primeira: a de Pimentel ter sido nomeado um dos dois coordenadores (o outro é o professor Pasquale Cipro Neto) do Grupo Técnico criado na Comissão de Educação do Senado para discutir o Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa. Segunda: a de vivermos tempos propícios aos populismos/paternalismo. A "simplificação" da ortografia tem sido enfeitada com o charme mais do que discutível de facilitador da alfabetização e fator de "inclusão social".

Essa história tem origem nas discórdias que se seguiram à assinatura, em 1990, do Acordo Ortográfico pelo qual os países de língua portuguesa se comprometeram a unificar suas regras ortográficas. Restrições surgiram em todos os países signatários. No Brasil o acordo deveria entrar em vigor em 2009, e na prática realmente entrou, com sua adoção nas escolas, na imprensa e nas editoras de livros. Oficialmente, no entanto, dadas as divergências com os outros países, a presidente Dilma Rousseff adiou a entrada em vigor para 2016. Nesse vácuo entrou a Comissão de Educação do Senado. Decidiu rediscutir o acordo e criou um grupo de trabalho que tanto pode acabar por confirmá-lo ou rejeitá-lo quanto - o que é pior - propor uma reforma de sua própria iniciativa. Segundo o presidente da comissão, senador Cyro Miranda (PSDB-GO), o acordo teria sido feito "sem ouvir ninguém". A comissão resolveu então "botar ordem na casa", convocando o debate.

Daí o encanto com a proposta do professor Ernani Pimentel foi um passo. "Estou totalmente de acordo com o professor Ernani", declara o senador Cristovam Buarque, membro da Comissão de Educação, segundo se lê no site do professor. Duas audiências públicas serão realizadas pelo Grupo de Trabalho da Comissão de Educação na primeira quinzena de outubro. Espera-se que, nelas, falem mais alto as palavras da professora Marília Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Linguística, em carta ao senador Cristovam Buarque: "A ortografia não existe para representar a fala, mas é uma representação abstrata e convencional da língua. Para poder ser de fato funcional, a ortografia deve necessariamente afastar-se da diversidade da fala. Só assim se poderá garantir um sistema ortográfico estável e perene em que haja uma única representação gráfica para cada palavra. É essa representação única que torna possível que a palavra seja reconhecida em qualquer texto, independentemente de suas inúmeras pronúncias no espaço e no tempo."

A alternativa é a xacina do testo em língua portugueza. A anarqia. A ecatombe.




(texto publicado na revista Veja edição 2391 - ano 47 - nº 38 - 17 de setembro de 2014)