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quinta-feira, 18 de junho de 2020
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Entre o monge e o super-herói - Jerônimo Teixeira
Autor do best-seller O Nome da Rosa, o italiano Umberto Eco conjugava o estudo detido da arte, da filosofia e da literatura com o interesse vivo pelo barulho da cultura de massa
"Quando terminei O Nome da Rosa, pensei em fazer uma pequena edição caprichada de 3000 ou 4000 exemplares. Aí meu editor leu o romance e percebeu que o livro poderia ter outro alcance - e o resto é história", relatou Umberto Eco em entrevista a VEJA, no ano passado. Eis, resumidamente, o resto da história, publicado em 1980, esse improvável romance de detetive ambientado em um mosteiro no século XIV tornou-se um best-seller internacional, com milhões de exemplares vendidos. Eco, professor da Universidade de Bolonha e já então um intelectual reputado nos campos da crítica cultural, da semiologia e do medievalismo, viu-se convertido em um escritor de fama mundial. Publicaria outros seis romances, mas é no ensaio - sobre temas que vão de São Tomás de Aquino à turma de Snoopy - que ele foi mais prolífico, com mais de trinta títulos publicados. Embora tenha se definido certa feita como um acadêmico que escreve romances no fim de semana, Eco não foi jamais um diletante. A facilidade com que se movia entre James Joyce e o Super-Homem (não o de Nietzsche, mas o dos quadrinhos) era embasada no estudo sério desses temas. Umberto Eco morreu em decorrência de câncer na sexta-feira 19 de fevereiro, aos 84 anos, na casa que dividia com a mulher e 30 000 livros, em Milão.
Nascido em 1932, em Alessandria, no noroeste da Itália, Eco viveu a primeira infância sob a sombra do fascismo. Quando contava inocentes 10 anos, foi vencedor, em sua província, de um concurso de redação. O tema proposto: "Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?". "Minha resposta foi positiva. Eu era um garoto esperto", lembrou o autor em um ensaio publicado em 1995 no The New York Review of Books. A anedota biográfica servia como introdução a um ensaio em que Eco elencava características fundamentais do fascismo - entre elas, a "obsessão pela trama": a ideia de que todos os eventos históricos são conduzidos por conluios secretos. O estranho poder de convencimento das teorias conspiratórias foi um interesse de longo curso de Umberto Eco. Em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, por exemplo, ele examina os possíveis antepassados literários dos Protocolos dos Sábios de Sião, a famosa falsificação que ajudou a atiçar o antissemitismo europeu - incluindo sua versão mais monstruosa, o nazismo. Na ficção, o tema das sociedades secretas domina O Pêndulo de Foucault; O Cemitério de Praga também trata dos Protocolos; e Número Zero, o último romance de Eco, põe em cena um jornalista italiano que tenta provar a tese de que Mussolini não foi morto em 1945. Eco, por vias sinuosas, foi um antecessor do Dan Brown de O Código Da Vinci. Chegou a dizer, como fino humor, que Brown era um personagem seu. Diferença fundamental: o autor americano leva suas teorias conspiratórias a sério.
A ficção de Eco, inclusive nessa exploração de irmandades secretas, e sociedades arcanas, é tributária da obra do argentino Jorge Luís Borges, homenageado (com certo toque sinistro) na figura do monge cego Jorge de Burgos, em O Nome da Rosa. Seu modo de compor histórias a partir do cruzamento de uma profusão de alusões e citações literárias obscuras (e eventualmente fajutas) é muito calcado nos contos de Borges. Eco usou esses recursos em prol de um formato talvez não mais acessível, mas, de certo modo, mais leve: seus livros são diversão de alta qualidade.
Em 2015, ao receber um título na Universidade de Torino, Eco levantou um estardalhaço ao dizer que a internet deu voz a multidões de imbecis. Como o próprio autor explicaria em entrevista a VEJA, ele limitou-se a pontuar o fato inegável de que, nas redes sociais, muitos falam livremente de assuntos que desconhecem. Eco pedia apenas critério e discernimento no uso dos novos meios. O autor, afinal, sempre demonstrou um vivo e inquieto interesse pela cultura de massa, que observava sem afetação nem esnobismo. Nunca foi, porém, um promotor da indistinção pós-moderna entre todas as formas de cultura. Nada, em sua obra, sugere que Flash Gordon ombreia com a Divina Comédia. Eco apenas ensina que a apreciação dos clássicos sai enriquecida, e não esvaziada, do diálogo com obras de consumo ligeiro. "Uma das primeiras e mais nobres funções das coisas pouco sérias é lançar uma sombra de desconfiança sobre as coisas demasiado sérias", dizia o escritor na introdução de Diário Mínimo. O mundo fica mais sério sem Umberto Eco.
(texto publicado na revista Veja edição 2467 - ano 49 - nº 9 - 2 de março de 2016)
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
domingo, 24 de abril de 2016
domingo, 16 de agosto de 2015
Entrevista com Umberto Eco: A conspiração dos imbecis - Eduardo Wolf, de Milão
O escritor italiano diz que a internet dá voz a todo tipo de opinião desqualificada - e que o jornalismo, tema de seu novo romance, deve atuar como um filtro para o que se lê na rede
O Castello Sforzesco, em Milão, preserva tesouro da arte italiana, como a Pietà Rondanini, de Michelangelo. Um dos sóbrios edifícios residenciais em frente ao castelo abriga outro tesouro italiano: Umberto Eco, filósofo, crítico literário e romancista traduzido em mais de quarenta idiomas. O autor de O Nome da Rosa, romance ambientado na Idade Média que vendeu mais de 30 milhões de exemplares, lançou neste ano Número Zero - que chega ao Brasil nesta semana, pela Record - , um retrato crítico do jornalismo subordinado a interesses políticos. Na casa milanesa, onde conserva uma biblioteca de 30 000 livros (há outros 20 000 em sua residência em Urbino), Eco, 83 anos, recebeu VEJA para falar de jornalismo, internet, conspirações e, claro, literatura.
Foi um estrondo a sua declaração, em uma cerimônia na Universidade de Torino, de que a internet dá voz a uma multidão de imbecis. O que o senhor achou da dimensão que o assunto tomou?
As pessoas fizeram um grande estardalhaço por eu ter dito que multidões de imbecis têm agora como divulgar suas opiniões. Ora, veja bem, num mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, você não concordaria que há muitos imbecis? Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas. O sujeito pode ser um excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende.
Mas a internet tem seu valor, não?
A internet é como Funes, o memorioso, o personagem de Jorge Luís Borges: lembra tudo, não esquece nada. É preciso filtrar, distinguir. Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso. Foi nesse sentido que defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornar vítimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que é fraude. Será que os jornais estão prontos para isso? A crítica da internet exige um novo tipo de expertise, mesmo para os jornais. E isso é muito importante para os jovens, pois eles não têm, aos 15, 16 anos, os conhecimentos necessários para filtrar as informações a que têm acesso na rede. Ora, assim como quem lê diversos jornais acaba aprendendo a distinguir as abordagens distintas de cada um deles, os jovens hoje precisam aprender a buscar essa variedade de abordagens nos sites que frequentam.
O jornalismo - que é tema de seu novo romance, Número Zero - conseguia desempenhar melhor essa tarefa crítica antes da internet?
A crise do jornalismo começa nos anos 50, com a televisão. Antes disso, os jornais diziam, pela manhã, o que havia acontecido no dia anterior, ou até mesmo na noite anterior. Os próprios nomes indicavam um pouco isso: o italiano Corriere della Sera, o francês Le Soir, o inglês Evening Post. Depois da televisão, os jornais passaram a dizer, pela manhã, o que as pessoas já sabiam. Eles deveriam ter mudado - e não mudaram. Mudar, naquele contexto, significaria reduzir o número de páginas, mas, em vez disso, os jornais ampliaram o tamanho, sobretudo por razões de publicidade. Ora, como preencher esse espaço? Três possibilidades. Primeira: aprofundar a informação através de análises e comentários. Alguns jornais foram por esse caminho, com maior ou menor êxito, como o New York Times. Segunda possibilidade: a pura fofoca, que foi o caminho de certos jornais britânicos. Terceira: a repetição das mesmas notícias. Há dois dias, um garoto sul-americano atacou um controlador de trem aqui em Milão com um machado. É uma informação que pode ser dada em uma pequenas coluna. No entanto, você olha os jornais e lá estão páginas inteiras sobre o assunto. Pode até ser divertido, enquanto tomo o café, ler mais detalhadamente uma matéria mais longa. Acredito que Hegel estava certo: a leitura dos jornais de manhã é a oração do homem moderno.
Em alguns de seus romances anteriores, como O Pêndulo de Foucault, as teorias da conspiração estavam no centro da trama. Em Número Zero, no entanto, o senhor faz um uso diverso das conspirações. Por quê?
Há um personagem paranoico, Braggadocio, que constrói a sua própria conspiração, com um elemento inventado: Mussolini não teria sido executado. Fora isso, todos os fatos que relato em Número Zero pertencem à categoria das conspirações reais. A característica de uma conspiração verdadeira é que ela é invariavelmente descoberta. Houve uma conspiração para matar Júlio César, e todos sabemos. O perigo está nas conspirações falsas, pois você não consegue desmenti-las - mas elas se prestam à manipulação: quem quiser tirar proveito delas poderá montar contra-conspirações muito reais. Foi o que Hitler fez, propaganda a falsa conspiração dos judeus, dos Protocolos dos Sábios de Sião.
As conspirações de Número Zero, então, são fatos históricos?
Todos perfeitamente descobertos. Ainda é difícil saber quem era culpado, mas ninguém nega hoje, por exemplo, o plano do Golpe Borghese (golpe de direita desbaratado na Itália nos anos 70). O que me surpreende nos fatos todos que eu relato no livro não é que eles tenham realmente acontecido, mas sim o modo como o país inteiro aceitou tudo passivamente. Essas informações entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Ficamos sabendo de todas essas coisas e ninguém se desesperou.
"Somos um povo de punhais e venenos, estamos vacinados", diz uma das personagens a certa altura. O problema está nessa resignação, então?
Sim, essa é a tragédia. No meu livro, falo da tragédia da história recente da Itália, mas acho que consegui sugerir que é um problema que diz respeito a outros países também. É, de cerra forma, a memória da mídia e o modo como ela funciona: o que é publicado com escândalo hoje dissolve-se nos próximos dias. Pegue um exemplo célebre: durante algum tempo, os jornais exploram continuamente escândalos que envolvem pedofilia. Depois de certo tempo, o assunto começa a desaparecer, até que nenhum veículo tem mais nada a noticiar sobre o assunto. Os pedófilos deixaram de existir? Certamente não, mas nenhum jornal pode insistir nas mesmas notícias por muito tempo. Então, os jornais são obrigados a produzir a perda da memória, criando, assim, um presente eterno em que o passado é constantemente esquecido.
O personagem do comendador Vimercate, o dono do jornal usado para escusos fins políticos em Número Zero, é baseado no ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi?
Essa é uma pergunta que me foi feita em todas as entrevistas. Veja bem, o mundo está repleto de tipos como o comendador Vimercate. Rupert Murdoch, por exemplo? Obviamente, é possível encontrar certas analogias com Berlusconi, ainda que ele seja muito mais importante e mais esperto que o comendador Vimercate. O problema é que, sempre que se têm, como é o caso da Itália, jornais que não pertencem a um grupo exclusivamente dedicado à área de comunicação - a exemplo da família Ochs Sulzberger, do New York Times -, o jornalismo e a informação saem prejudicados. Tomemos um episódio recente: acabaram de revelar que na direção do Corriere della Sera há industriais da Fiat. É quando percebemos que o mundo está cheio de comendadores.
A internet é um meio propício à divulgação de teorias conspiratórias. Isso muda algo na consideração do tema em suas obras de ficção?
Sempre tive a convicção de que escrever um livro - um romance, em particular, mas qualquer livro, na verdade - é construir seu próprio leitor, é dizer "você deve se tornar isto". Mesmo que isso seja, como é de fato, impossível. Depois de ter escrito O Pêndulo de Foucault, que era uma representação grotesca desses planos conspiratórios e de supostas sociedades secretas, recebi inúmeras cartas de pessoas apresentando-se como "Grão-Mestre Templário". Ou seja, você terá sempre alguns leitores malucos. Não há como evitar: você pode escrever sobre conspirações falsas de um modo paródico ou grotesco, e mesmo assim certos leitores pensarão que elas de fato existem, e dizem: "É exatamente assim, eu sempre soube". A internet não alterou isso substancialmente. No fundo, o que o escritor pode fazer é preparar bem seu livro, oferecer sua crítica, e o resto está nas mãos de Alá.
Número Zero tem pouco mais de 200 páginas. O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault ficam ao redor de 600. Um romance curto o obriga a mudar seu estilo e sua estratégia narrativa?
Gosto de dizer que todos os meus romances anteriores poderiam ser comparados a uma sinfonia de Mahler, ao passo que este agora é uma composição de jazz de Charlie Parker. Tento criar um estilo adequado ao tema e à ambientação histórica de cada romance. Por exemplo, em A Ilha do Dia Anterior, ambientado no século XVII, tentei criar uma linguagem barroca, elaborada. Já em Número Zero, eu estava tentando assimilar o ritmo rápido e sincopado do jornalismo. Fui como que instado pelo próprio tema do romance a adaptar o estilo a suas exigências: diálogos curtos, sem descrições. Repare que até as referências à linguagem, no romance, são referências ao estilo jornalístico, às frases feitas, ao modo de induzir ou enganar sutilmente o leitor. A virtude de um romance é que é ele que decide quando chegou o momento de parar. Chega um instante em que, apesar de você querer continuar a contar a história, desenvolvê-la ou desdobrá-la, o romance faz o serviço de se impor e dizer: 'Chega, pare por aqui". Número Zero me disse para parar onde parei.
No livro, o fascismo de Mussolini é uma sombra sobre a história italiana do pós-guerra. Qual é a cara atual do fascismo?
O fascismo clássico, representado por Mussolini, desapareceu. Mas Número Zero é dominado pelo sentimento do retorno do que eu chamei de "fascismo eterno". E isso está associado a diversos aspectos da política contemporânea. A atitude política da Liga Norte, discriminatória e racista, é uma nova forma de fascismo. Trata-se de uma questão de atitude política mais ampla do que a experiência histórica de Mussolini, e podemos encontrá-la em diferentes contextos históricos. Veja o Estado Islâmico, que eu chamo de o novo nazismo: querem aniquilar outras etnias, impor um credo, conquistar o mundo. Nunca nos livramos permanentemente dessa atitude.
Pela natureza dos temas que o motivam, o volume perdido da Poética de Aristóteles em O Nome da Rosa, ou a discussão sobre a doutrina filosófica conhecida por nominalismo, o senhor teria tudo para ser considerado um "escritor para escritores". No entanto, mesmo excessivamente intelectualizado, seu primeiro romance passou dos 30 milhões de cópias vendidas. Como o senhor explica esse fato?
Quando terminei O Nome da Rosa, eu pensei em fazer uma pequena edição caprichada de 3 000 ou 4 000 exemplares. Aí meu editor leu o romance e percebeu que o livro poderia ter outro alcance - e o resto é história. Bem, há, de fato, escritores que escrevem para outros escritores. Digamos, Finnegans Wake, de James Joyce, é claramente um livro para escritores ou fanáticos por literatura. Hoje, Julian Barnes, entre outros, é um escritor para escritores. Mas há escritores que escrevem para todas as pessoas. Dante Alighieri escreveu para ser lido por todos. Há essa famosa história, relatada por Giovanni Boccaccio, segundo o qual Dante teria ouvido um ferreiro que, enquanto trabalhava, recitava seus versos. Esse ferreiro era certamente iletrado. No entanto, a Divina Comédia o alcançou. Balzac escrevia para todo tipo de leitor. Tolstoi, a mesma coisa. Encontrei-me, então, em muito boa companhia quando descobri que eu também estava escrevendo para todas as pessoas.
(texto publicado na revista Veja edição 2432 ano 48 - nº 26 - 1º de julho de 2015)
domingo, 3 de agosto de 2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Pesquisas espíritas de Ernesto Bozzano - Ana Elizabeth Cavalcanti
As obras do pesquisador espírita Ernesto Bozzano têm um valor incontestável devido ao seu rigor científico. O seu livro Os Animais têm Alma é fundamental para aqueles que desejam esclarecer os poderes supranormais e a espiritualidade dos animais.
Diversas questões e dúvidas sobre a relação do animal com o ser humano, assim como a sua espiritualidade, têm sido discutidas há anos por diversos setores do conhecimento. É possível encontrar teorias na filosofia, na ciência, assim como em diversas religiões.
De maneira geral, todas essas questões têm como fundamento o valor que deve ser dado ou não aos animais. Diversos estudos têm comprovado que, assim como o ser humano, os animais têm emoções, são inteligentes e possuem capacidades supranormais.
Um dos pesquisadores espíritas mais famosos e eruditos dos últimos tempos foi Ernesto Bozzano. Ele foi um estudioso sério e cuidadoso dos fenômenos relacionados à metapsíquica de sua época e um dos pioneiros no campo dos fenômenos associados aos animais.
Bozzano nasceu em Genova em 1862 e faleceu na mesma cidade em 1943. Devido ao seu profundo interesse pelo estudo do Espiritismo, os estudiosos o chamavam de "Grão Mestre da Alma Humana". Desde jovem, demonstrou interesse por temas ligados à filosofia, à psicologia, à astronomia, às ciências naturais e à paleontologia. Ele também sentia atração pelos problemas da personalidade humana, principalmente os relacionados às causas do sofrimento e à razão da vida humana.
Até a morte, Bozzano tentou dar ao espiritismo um caráter científico. Durante suas investigações, ele contou com o apoio e colaboração de 76 médiuns. Seus biógrafos contam que ele trabalhou mais de 50 anos, 14 horas por dia no aprofundamento de suas pesquisas. Ele publicou 52 obras que tratavam de cada área e de cada aspecto da metapsíquica: telepatia, clarividência, psicocinese, aparição de espíritos, espiritismo (manifestações dos mortos).
Conta-se que, em 1981, ele recebeu de um professor informações sobre o lançamento da revista Annals of Science Psychic, chefiada pelo Dr. Darieux, sob o patrocínio de Charles Richet. Bozzano não levou muito a sério o seu conteúdo, pois julgava impossível que os homens da ciência pudessem acreditar na transmissão de pensamento entre pessoas. Entretanto, na edição subsequente, ele apreciou as ideias do Dr. Charles Richet, que apresentou conclusões lógicas sobre o estudo. Nesse período, ele também leu o famoso livro de Gurney, Podmore e Myers, Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos), com a exposição de casos sobre mediunidade, aparições, clarividência, etc.
A partir dessas leituras, Bozzano passou a pesquisar com profundidade os fenômenos espíritas, estudando grandes autores como Allan Kardec, Denis Leon, Gabriel Delanne, Gibier Paulo, William Crookes, Wallace Russel, Du Prel e Aksakof Alexander.
O estudioso passou praticamente uma década pesquisando, comparando, analisando, antes de escrever qualquer comentário ou conclusão. Seu primeiro artigo foi publicado em 1899, na Rivista di Studi Psichici, intitulado "Espiritualismo e crítica científica".
Todas as suas obras têm um valor incontestável devido ao seu rigor científico. O livro Os Animais têm Alma é fundamental para aqueles que desejam esclarecer os poderes e a espiritualidade dos animais. Estruturando sua pesquisa em duas diretrizes - a atividade paranormal dos animais e casos de aparição após a morte de fantasmas de animais, ele consegue comprovar a existência da alma dos animais e, neste aspecto, sua obra é considerada ainda hoje insuperável.
No livro, Bozzano apresenta 130 casos de visão, identificação de espíritos de animais mortos, materialização de animais, alucinações telepáticas percebidas ao mesmo tempo pelo homem e pelo animal, bem como várias aparições de animais com revelações premonitórias. Todos os casos são devidamente documentados, analisados e comentados. Cada um apresenta também a conclusão de Bozzano sobre os fatos.
Sobre a obra Os Animais têm Alma, Bozzano diz que "ela consiste em um primeiro ensaio para demonstrar, por um método científico, a sobrevivência da psique animal. É preciso voltarmos ao nosso assunto e concluirmos salientando que a existência de faculdades supranormais na subconsciência animal, existência suficientemente comprovada pelos casos que expusemos, constitui uma boa prova em favor da psique animal. Para o homem, deve-se inferir que as faculdades em questão representam, em sua subconsciência, os sentidos espirituais pré-formados esperando se exercerem em um meio espiritual (como as faculdades dos sentidos estavam pré-formadas no embrião esperando se exercerem no meio terrestre). Se assim é, como as mesmas faculdades se encontram na subconsciência animal, deve-se inferir daí, logicamente, que os animais possuem, por sua vez, um espírito que sobrevive à morte do corpo".
Na conclusão do livro, ele apresenta resumidamente os resultados de suas pesquisas sobre os animais:
"A principal inferência que se deve tirar dele é a seguinte: os casos, nos quais os animais percebem, antes do homem, manifestações supranormais ou as percebem quando elas são despercebidas pelo homem, apresentam um valor decisivo em favor de nossa hipótese, pois que provam que não existe qualquer hipótese racional a opor à que considera os animais como sendo dotados de faculdades supranormais subconscientes como o homem."
Bozzano conclui que os animais possuem dons premonitórios e cita como exemplo os casos apresentados em que cães anunciavam, por meio de uivos, a morte iminente de uma pessoa da família. Este fato veio comprovar as ideias universais de que os animis conseguem prever catástrofes naturais, como erupções vulcânicas ou tremores de terra.
O estudioso afirma que a futura ciência provavelmente poderia comprovar a existência da subconsciência animal. Sobre a hipótese da existência nos animais de uma psique que sobrevive à morte física, seria natural que houvesse aparições de fantasmas de animais após a sua morte. Neste sentido, Bozzano conseguiu apresentar "um número suficiente de fatos desta espécie, onde encontramos os mesmos traços característicos que servem como provas de identificação espírita nos casos correspondentes de fantasmas humanos."
Em seus estudos, ele demonstrou que, na subconsciência animal, encontram-se as mesmas faculdades supranormais que existem na subconsciência humana. Além disso, concluiu que os fantasmas de animis se manifestam da mesma forma que os fantasmas humanos.
Bozzano insiste que "a escala infinita dos seres vivos só pode ser a expressão das manifestações da alma nas suas etapas progressivas de elevação espiritual. O que se tornou atual no homem, graças a uma longa evolução, fica potencial nos seres inferiores. A involução precede à evolução. Não é, pertanto, a matéria que faz evoluir o espírito, é o espírito que, para evoluir sozinho, precisa de todas as fases de experiência que ele poderá obter na Terra e, por consequência, tem necessidade de se revestir de todas as formas sucessivamente mais refinadas que lhe pode oferecer a matéria organizada. As leis biológicas da seleção natural, da sobrevivência do mais capaz, da influência do meio não são senão os acessórios mais indispensáveis para essa evolução, mas a verdadeira causa da evolução dos organismos vivos é interior e se chama espírito."
(texto publicado na revista Animais Doutrina & Espiritualidade nº 07)
sábado, 9 de novembro de 2013
sábado, 20 de outubro de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Intervista con Anna Marchesini per occasione della presentazione del suo primo libro (Che tempo che fa)
Anna Marchesini parla del suo primo libro "Il terrazzino dei gerani timidi"
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Uma viagem infernal - Renato Domith Godinho
Entre os séculos 13 e 14, o poeta italiano Dante Alighieri escreveu A Divina Comédia. "Essa obra é a síntese mais perfeita do pensamento medieval", diz o literato Carmelo Distante, da Universidade de São Paulo (USP). Dividida em três livros, A Divina Comédia narra uma viagem de Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. A mais famosa das três obras é o Inferno, que o autor conhece guiado pelo espírito de Virgílio, poeta da Roma antiga. O assustador local é dividido por Dante em nove círculos: do 1 ao 5, são punidos os pecados emocionais; nos círculos 6 a 9, os pecados de quem atentou contra alguém. Que tal você também embarcar nessa jornada infernal?
1) Ponto de partida - aqui o poeta Dante Alighieri começa sua viagem pelo Inferno, narrada em A Divina Comédia. Perdido em uma floresta escura, ele encontra o espírito do poeta romano Virgílio, que lhe servirá de guia no tenebroso passeio.
2) Mensagem assustadora - Na alta porta que leva ao Inferno, uma terrível inscrição diz: "Abandonai toda esperança, ó vós que entrais".
3) Vestíbulo doloroso - Nessa espécie de hall do Inferno, milhões de almas penadas, que não fizeram nem o mal nem o bem, correm nus, de lá para cá, numa planície vazia, picados por vespas.
4) Rio diabólico - Para chegar ao primeiro círculo do Inferno é preciso atravessar o rio Aqueronte. Caronte, um velho barqueiro demoníaco, leva as almas que devem ir para lá em seu barco.
5) 1º círculo: Os sem-esperança - No chamado limbo, em castelos e campos verdes, vivem os que foram virtuosos, mas que nunca foram batizados e não podem chegar ao Paraíso. Eles não sofrem, mas também não têm esperança.
6) Julgamento final - Os pecadores propriamente ditos são julgados por um horrendo demônio, Minos, na entrada do segundo círculo. A cada alma que chega, Minos enrola a cauda o número de vezes equivalente ao círculo e que o condenado deve descer.
7) 2º círculo: Furacão da luxúria - Num antro cavernoso e sem luz, vivem os que pecaram por luxúria, ou seja, que se entregaram á devassidão. Eles são eternamente atirados de lá para cá por fortes vendavais.
8) 3º círculo: Da gula à lama - aqui ficam os gulosos, que têm uma das penas mais terríveis: vivem enterrados numa lama fétida, embaixo de chuva e, de vez em quando, pisoteados por Cérbero, um cão de três cabeças.
9) 4º círculo: Avarentos x esbanjadores - Os que pouparam demais e os que gostaram em excesso vivem no quarto círculo. Arrastando uma grande pedra no peito, eles se jogam incessantemente uns contra os outros, machucando-se.
10) 5º círculo: Eternamente furiosos - Nus na lama, os que se deixaram vencer pela ira se atracam uns contra os outros com fúria. Abaixo deles, no fundo do lodaçal, os que viveram tristes e mal-humorados suspiram eternamente afogados.
11) 6º círculo: A fogueira dos hereges - Aqui ficam as muralhas da cidade de Dis, que é um dos nomes de Lúcifer (o diabo). Do outro lado das muralhas, em sepulturas ardentes, vivem as almas dos hereges.
12) 7º círculo: Violência punida com sangue - Num rio de sangue fervente, ficam imersos assaltantes, homicidas e tiranos. Centauros atiram flechas nos pecadores. Suicidas viram plantas que servem de comida para monstros. Já os blasfemos, usurários e sodomitas penam em um areal ardente sob uma chuva de fogo.
13) 8º círculo: Lava para os enganadores - tem dez valas, uma para cada enganador: sedutores, puxa-sacos, hipócritas, simoníacos (que vendem coisas sagradas), falsos profetas, traficantes, ladrões, falsários, intriguentos e maus-conselheiros. Eles fervem na lava, espetados, picados por cobras e com sarna.
14) 9º círculo: Traidores numa fria - No fundo do Inferno, o nono círculo é uma planície gelada onde estão os culpados pelo pior dos pecados: a traição aos amigos, aos parentes ou à terra natal. Imersos no gelo, choram de remorso e suas lágrimas congelam.
15) O rei do Inferno - No centro do nono círculo está Lúcifer. Gigantesco, tem seis asas e três cabeças, que simbolizam a impotência, a ignorãncia e o ódio. Cada cabeça mastiga um traidor: Judas, Brutus e Cássio, que atraiçoaram seus benfeitores - Jesus (no caso de Judas) e o imperador romano César (Brutus e Cássio).
(texto publicado na revista Mundo Estranho)
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