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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O jeito é racionar - Roberta Paduan


Um estudo conclui que o país tem quase 50% de chances de apagão de energia até o fim do ano. Ou seja, não faltam razões técnicas para um racionamento já. Mas o governo, às voltas com a eleição, prefere ignorar o alerta, adiar as medidas mais duras - e torcer pela chuva

O risco de ter de impor um racionamento de energia ao país antes das eleições é provavelmente o fantasma que mais assombra a presidente Dilma Rousseff. E deverá continuar assombrando até o fechamento das urnas. Um diagnóstico elaborado pela PSR, uma das consultorias mais respeitadas no setor elétrico, a ser divulgado nos próximos dias, mostra que chegaram a 46% as chances de que o estoque de água dos reservatórios brasileiros caia abaixo de um décimo de sua capacidade até o fim do ano. Se isso ocorrer, não haverá outra saída: o país terá de iniciar um racionamento às pressas. O limite de 10% de estoque de água é considerado o mínimo para que as hidrelétricas operem com segurança. "Pelos nossos cálculos, deveríamos iniciar já um programa para cortar 6% o consumo de energia", afirma Mário Veiga, fundador da PSR. Essa seria a maneira mais prudente de tratar a questão. Assim, seria possível afastar o risco de apagões, e os reservatórios seriam poupados para 2015.

Dilma sabe que a situação é grave. Mesmo assim, tem emitido sinais de que deve ir para o tudo ou nada. Um deles foi a recente recondução de Hermes Chipp ao cargo de diretor-geral do Operador Nacional do Sistema, órgão que administra o abastecimento de energia em todo o país. Pela regra, Chipp teria de sair em maio, depois de ter passado oito anos no posto, em dois mandatos. No fim de abril, Dilma editou uma Medida Provisória, instrumento incomum para este tipo de caso, que estende a permanência do fiel escudeiro por mais dois anos. O governo precisa de alguém que acate a presidente, mesmo contra os pareceres dos técnicos, já histéricos com o aumento dos riscos. Se não acontecer o pior - e o estoque de água ficar acima de 10% -, será possível evitar o racionamento em 2014. Mesmo assim, os reservatórios vão virar o ano pedindo água. Mas aí, a eleição já terá passado. Um racionamento sairia caro demais para Dilma, que, quando candidata em 2010, prometeu que não faltaria energia elétrica em seu governo.

Numa área de infraestrutura, como é a de energia, decisões tomadas hoje continuam repercutindo por anos ou décadas à frente - para o bem e para o mal. A atual crise de abastecimento que o país enfrenta é fruto de uma escolha feita nos últimos 20 anos. Apesar de mais de 70% da energia brasileira ser gerada graças aos rios, deixamos de construir hidrelétricas com bons reservatórios de água. A função das represas é armazenar água no período de chuva para garantir a produção de eletricidade quando chegam as estações secas. Nos anos 70, as hidrelétricas brasileiras eram capazes de trabalhar 20 meses sem que caísse uma gota de chuva. Hoje, aguentam apenas quatro meses e meio. O jeito foi apelar para usinas térmicas, que funcionam com gás, carvão ou óleo. São elas que estão segurando as pontas desde o fim de 2012, diante da estiagem persistente, que tem secado até as represas profundas, como a de Furnas, em Minas Gerais. O problema é que abandonamos os grandes reservatórios, mas não montamos um parque térmico adequado para funcionar por longos períodos. Resultado: o sistema elétrico perdeu confiabilidade, porque ficou mais dependente de São Pedro a cada ano - o racionamento de 2001 foi adotado após dois anos consecutivos de secura. Além do risco de uma falta prolongada de água, outro problema que mina a confiabilidade é a sequência de apagões de variados portes com que o país vem convivendo por problemas nas linhas de transmissão e distribuição. De janeiro de 2011 a fevereiro deste ano, foram registradas 181 falhas no fornecimento de energia, segundo um levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura. Listando apenas os de grande impacto, houve dez apagões no governo Dilma.

A rejeição às represas vem dos anos 80, quando as hidrelétricas passaram a ser consideradas vilãs ambientais. Embora gere energia com um recurso renovável (a água) e não emita carbono (como as térmicas movidas a óle), esse tipo de usina provoca outros impactos ambientais. Seus lagos inundam áreas relativamente extensas e chegam a alterar a vazão de alguns rios, o que põe em risco a reprodução da fauna e da flora. No Brasil, onde o maior potencial hidrelétrico está na Amazônia, tornou-se muito difícil construir qualquer hidrelétrica e praticamente impossível erguer uma que tenha reservatório de grande capacidade. O movimento anti-hidrelétricas ganhou dimensão internacional. Em 1989, o cantor inglês Sting foi ao Pará protestar, com o índio Raoni, contra a construção de usinas no Rio Xingu. Belo Monte, hoje em obras no Xingu, teve o projeto original todo alterado para reduzir o impacto. Para desviar de terras indígenas, está sendo rasgado um canal maior do que o do Panamá. Mais de 60% da área ocupada pela usina era de pastagem. Mesmo assim, em 2010, o cineasta americano James Cameron e dezenas de artistas brasileiros se mobilizaram contra a obra, que virou um tabu.

Subutilização

Atualmente, o governo se prepara para licenciar a primeira usina que será construída no Rio Tapajós, considerado a próxima fronteira hidrelétrica do país. Dos 13 cenários de exploração do rio estudados pela Empresa de Pesquisas Energéticas, nenhum considera a formação de um grande reservatório. Pressionado para aumentar o suprimento de energia, o governo vem escolhendo planos que reduzem os problemas para licenciar as usinas, mas que desperdiçam o potencial energético dos rios. "Vamos subutilizar o potencial hidrelétrico de mais um rio brasileiro, sem quantificar os custos e os benefícios dessa escolha de forma transparente", afirma Rafael Kelman, sócio da PSR. A pedido de EXAME, a consultoria analisou os estudos do governo e fez um plano alternativo. Trata-se de uma opção com um reservatório para acumular até 20 bilhões de metros cúbicos de água na época de chuva. A usina geraria energia adicional suficiente para abastecer uma cidade com 3 milhões de residências. O benefício econômico somaria 5 bilhões de reais. E o reservatório seria capaz de evitar a emissão de 3 milhões de toneladas de carbono por ano de usinas térmicas.




(texto publicado na revista Exame edição 1065 - ano 48 - nº 9 - 14 de maio de 2014)




quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A era dos extremos - Jennifer Ann Thomas e Raquel Beer, com reportagem de Gabriela Neri


As mudanças climáticas criam um descompasso no planeta. Enquanto em alguns lugares ocorre seca recorde, em outros nunca choveu tanto

Há uma constatação incontornável: o planeta passa por drásticas mudanças climáticas que fazem proliferar cenários extremos, de áreas com secas persistentes a outras com tempestades intensas. Desde o início dos registros históricos, em 1880, a temperatura na Terra subiu 0,85 grau e aumentou a uma taxa de 0,05 grau ao ano na última década. Parece pouco, mas é o suficiente para criar um trágico descompasso no clima global. No Ártico, onde o aquecimento ocorre em ritmo duas vezes maior, o volume de mar congelado diminuiu 80% desde 1979, pondo em risco espécies endêmicas, a exemplo do urso-polar. Condições climáticas improváveis se espalham. No mês passado, enquanto Índia e Paquistão eram alagados por chuvas torrenciais, deixando mais de 400 mortos, a Inglaterra teve o setembro mais seco de sua história, com precipitação equivalente a 20% do total esperado. No Brasil, com suas dimensões continentais, os extremos são sentidos à exaustão. Em São Paulo, o índice de chuvas até agosto ficou 42% mais baixo que o esperado, na maior seca da história do estado. Já o Sul, o Nordeste e o Norte registram recordes de chuvas. Mas, se as anormalidades são inevitáveis, são também inescapáveis suas consequências, a exemplo da falta de água em regiões secas, como São Paulo, e inundações onde chove demais?

O impacto das mudanças climáticas é evidente. No Brasil, é fácil associar o aquecimento global à massa de ar quente e seco que permaneceu por três meses estacionada sobre as regiões Sudeste e Centro-Oeste, dificultando a formação de chuvas. O resultado é o esvaziamento de reservas e o racionamento de água em quase setenta municípios paulistas e mineiros, no que ficou conhecido como o "cinturão da seca". O extremo climático era inevitável, só que previsível. Climatologistas, por meio de projeções matemáticas, já haviam estimado que a região passaria por um intenso período de estiagem nos anos 2010. Diz Susana Kahn, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas: "Sabemos que as alterações no clima global aumentaram a incidência e a intensidade de eventos extremos, o que terá consequências socioeconômicas, como o racionamento de água e o aumento do preço de alimentos, por problemas na agricultura". Se temos ciência, podemos nos preparar.

Mesmo assim, continuou o desperdício na captação de água, e não se investiu para aprimorar a estrutura precária de distribuição. No Brasil, a cada 10 litros de água limpa retirados de represas para consumo, 4 vazam em encanamentos deteriorados e desvios ilegais ou durante o transporte. Em São Paulo e Minas Gerais, o desperdício é de 3 em 10 - o caso brasileiro mais preocupante é o do Amapá, com mais de 7 litros jogados fora a cada 10 captados. Apenas em 2012, 1 trilhão de litros de água foram perdidos em ligações clandestinas, os "gatos", que afetam a infraestrutura da Sabesp, a companhia de saneamento de São Paulo. Para efeito de comparação, a taxa de desperdício de água limpa é de 15% na Europa, 3% no Japão e se aproxima de zero em países acostumados à estiagem, a exemplo de Israel.

Vêm de fora os bons exemplos de como lidar com secas agudas, e todos envolvem um planejamento adequado da administração pública. A Califórnia, nos Estados Unidos, adaptou-se para enfrentar secas recorrentes - a atual já dura quatro anos. Por efeito das mudanças climáticas e do uso excessivo de sua água pelo homem, o Rio Colorado, o sétimo mais longo do país, que abastece cidades americanas e mexicanas, e que deságua no golfo californiano, teve seu nível reduzido em 40 metros desde 1920 e deve perder mais 10% de seu volume atual nas próximas quatro décadas. Para lidar com a situação trágica, o estado californiano importa água de outras regiões, recicla o que usa e passou a investir na dessalinização de água do oceano. "Só temos água para nossa população porque começamos a nos planejar há vinte anos", pontuou o americano David Sedlak, professor de engenharia mineral da Universidade da Califórnia em Berkeley. Países acostumados às secas se preparam. Singapura, por exemplo, importa 40% de sua água da Malásia, vizinho com recursos hídricos abundantes. Quase 40% do abastecimento potável de israel, que tem 60% de seu território tomado por desertos, é feito por água dessalinizada dentro do país. Em porcentagem deve chegar a 70% até 2050, com mais investimentos em infraestrutura de dessalinização.

Em uma extrapolação, a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), casa de astronautas de várias nacionalidades posicionada a 300 quilômetros de altitude, é exemplo máximo de como se pode adaptar um ambiente para situações radicais. Ela conta com um aparelho capaz de condensar a umidade do ar e transformá-la em água - incluindo o suor de seus residentes. Desde 2010, a ISS possui uma máquina de 250 milhões de dólares, desenvolvida pela Nasa, a agência espacial americana, para reciclar toda sorte de líquido, da água usada para lavar as mãos a moléculas de combustível. Quase a totalidade dos líquidos que circulam pela IS é reutilizada. Sem esse sistema, seria necessário gastar 564 000 dólares ao ano para enviar mais suprimentos à equipe de astronautas. Na estação, a água de torneiras e duchas ainda sai com a metade de pressão comum na Terra. Enquanto no planeta desperdiçamos 100 litros de água em um banho de dez minutos, lá são usados somente 4.

O caso da ISS pode parecer distante, mas é exemplo máximo de como o homem precisa se adaptar a ambientes criados por ele mesmo. Segundo o mais recente relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, é de 95% a probabilidade de o homem ter sido o principal responsável por intensificar as mudanças climáticas que afetam o planeta. Fizemos isso ao emitir, principalmente pela queima de combustíveis fósseis, mais de 375 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial, no século XVIII, aumentando em 40% o que o planeta estava naturalmente acostumado a receber. Isso criou uma redoma de calor ao redor da Terra. A situação piora pela falta de cuidado do homem com um de seus recursos mais valiosos. Por exemplo: um levantamento recente da ONU aponta que 70% do lixo industrial de países subdesenvolvidos é descartado em lagos, rios e oceanos. Utilizamos água limpa sem cuidado, pelo costume de ter acesso em abundância, principalmente no Brasil, que concentra 12% de todos os recursos hídricos do mundo. A situação no planeta só se agravará daqui para a frente. O IPCC estima que a temperatura global deve subir ao menos 1,3 grau até 2100. Em efeito contínuo, tempestades e inundações seriam mais frequentes em áreas que já sofrem com isso, e regiões áridas ou que começaram recentemente a sofrer com secas anormais, a exemplo de São Paulo, teriam os períodos de estiagem intensificados. Resta-nos aprender a lidar com as consequências de nossas atitudes desmedidas.

O paradoxo da Antártica

Uma área do planeta parece imune ao fenômeno do aquecimento global: a Antártica. Nos últimos trinta anos, 95% dos modelos climáticos publicados previam uma drástica diminuição do mar congelado e o aumento de temperaturas na região. O que ocorreu foi surpreendente. No mês passado, o mar congelado da Antártica registrou a maior extensão de sua história, batendo o recorde pelo terceiro ano consecutivo. São mais de 20 milhões de quilômetros quadrados de gelo, ou 6,6% acima da média para o continente. O polo é ponto fora da curva também no quesito temperatura. Lá foi registrada, no ano passado, a temperatura mais baixa já captada pelo homem na Terra, de 94,7 graus negativos.

O comportamento do Polo Sul ainda não é completamente compreendido. A teoria mais aceita para explicar a anomalia diz que o responsável por resfriar a região é, ironicamente, o buraco na camada de ozônio. As emissões de gases estufa no último século destruíram 21,2 milhões de quilômetros quadrados da camada acima da Antártica. Esperava-se que o efeito seria a elevação da temperatura e o derretimento das geleiras. Ocorreu o contrário. O buraco possibilitou que a Antártica refletisse para o espaço o calor irradiado. A falta de ozônio na atmosfera ainda teria aumentado em até 20% os ventos que levam o ar frio do centro do continente para o Mar de Ross, a oeste, onde ocorreu 80% da expansão de área congelada. O El Niño, fenômeno climático que deve se estabelecer até o fim do ano, pode intensificar esses ventos e colaborar ainda mais para o aumento da superfície gelada. Conclui a climatologista Julienne Stroeve, do University College of London: "O Polo Sul está sendo afetado, mas de forma diferente do previsto".




(texto publicado na revista Veja edição 2397 - ano 47 - nº 44 - 29 de outubro de 2014)






Tudo é água - Raquel Beer e Jennifer Ann Thomas, com reportagem de Gabriel Neri


Com os reservatórios em seus patamares historicamente mais baixos, o Brasil começa a conviver com a assustadora sombra da escassez do líquido insubstituível, sem o qual não há vida e a economia para

O Brasil tem a maior reserva de água doce do planeta. Concentram-se aqui 12% de todos os recursos hídricos globais. O que explica, então, a crise de abastecimento pela qual passa o Estado de São Paulo, o mais populoso e rico do país? A seca histórica que atinge o Sudeste há dois anos, a maior dos últimos 84 anos, efeito contínuo de uma massa de ar quente que estacionou na região, justifica parte do problema. Mas não é prudente atribuir o baixo nível de água apenas às mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, e que fazem proliferar climas extremos. O Brasil é exemplo de descaso na administração de seus recursos hídricos. Em todo o país, desperdiçam-se 40% da água captada, que vaza por encanamentos precários, de manutenção quase inexistente. Em São Paulo, a perda é de 31,2%. É falha que poderia ser corrigida com melhorias anunciadas desde 2004, quando o estado passou por crise similar. Muito pouco foi feito. Sem o desperdício, haveria água de sobra. O descaso, porém, não é exclusividade brasileira. Países como China e Índia descuidam de suas reservas, usando-as sem critério. Com isso, o planeta vê dezenas de trilhões de litros indo pelo ralo. É assustador observar como tratamos o elemento essencial à vida, limitado e insubstituível. Se gastarmos todo o petróleo que existe, teremos outras fontes energéticas, como a solar e a eólica. Vivemos dezenas de milhares de anos sem combustíveis fósseis. Sobrevivemos, e sobreviveríamos sem eles. Mas, se dermos cabo dos estoques de água, não haverá alternativa. Água é tudo.

Estima-se o valor do atual mercado global de água doce em 425 bilhões de dólares. Se o estoque um dia acabar, o que é muito improvável, ou for seriamente comprometido, o que é possível, entrará em risco a sobrevivência da humanidade. Tomem-se os atuais exemplos de São Paulo e Minas Gerais para entender que danos, ainda plenamente administráveis, a falta d'água pode provocar.

Na capital paulista, pesquisa Datafolha divulgada na semana passada revelou que 60% dos moradores ficaram sem água nos últimos trinta dias. No interior, o cenário se agrava. Alguns municípios, a exemplo de Cristais Paulista, multam quem desperdiça água. Em Itu, há protestos de rua, e cminhões-pipa precisam de escolta para não ser atacados. Ao prejudicar a economia e o abastecimento, a seca dá início a perigosos conflitos.

Desde 1990, a disputa por água foi motivo de 2 200 conflitos diplomáticos, econômicos ou militares pelo planeta. A tensão deve se intensificar. A ONU calcula que faltará água limpa para 47% da população global até 2030. Diz o urbanista americano Michael Klare, autor do livro The Race for What's Left (em inglês, A Corrida pelo que Sobrou), sobre disputas por recursos naturais: "A água virou o novo petróleo, causa de batalhas ferrenhas. Guerras que aumentarão em número e dimensão, já que a demanda cresce, enquanto a oferta diminui".

A resposta para crise hídrica parece simples: temos de consumir menos e diminuir drasticamente o desperdício. Mas são atitudes difíceis de ser implantadas, já que dependem de uma mudança radical de costumes. A demanda de água per capita nos Estados Unidos ultrapassa os 500 litros, dez vezes o recomendado pela ONU. Enquanto isso, áreas pobres quase não têm acesso ao recurso. Moçambique é dono de um dos piores cenários, onde há apenas 4 litros de água limpa por morador.

Para controlar o gasto, todo cidadão precisa rever seus hábitos cotidianos, como deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes ou tomar longos banhos. Mas soa injusto cobrar exclusivamente uma nova postura individual. São essenciais também políticas públicas que repreendam o desperdício. A Califórnia é exemplo mundial nesse aspecto. São Paulo vê secar seu principal reservatório, o da Cantareira, cujo nível está em 3%. Seu primeiro estoque de volume morto, cota que repousa no fundo das represas, abaixo do túnel que costuma drenar a água, e, por isso, mais suja que o usual, deve desaparecer no próximo mês. A segunda parcela segurará o abastecimento por poucos meses. Enquanto isso, o governo promete entregar obras que aumentarão a captação de água, e já se cogitou importar recursos hídricos de outros estados. São apenas paliativos, que em nada ajudarão a longo prazo se o desperdício não for controlado. Para o Brasil e para o mundo, a crise de água serve como alerta. Se não cuidarmos dos escassos recursos que temos, desenharemos um futuro cada vez mais árido.



(texto publicado na revista Veja edição 2397 - ano 47 - nº 44 - 29 de outubro de 2014)






quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A crise da água - Felício Pontes Jr, procurador da República no Pará


O ano de 2014 vai ficar marcado não apenas pela derrota da seleção brasileira em nossa Copa do Mundo, mas também pela mais grave crise de água que já tivemos. A nascente do Rio São Francisco secou; a maior cidade do Brasil entrou em racionamento de água; o desmatamento da Amazônia aumentou, e, para completar o pacote, foi o ano mais quente do planeta desde o início das medições em 1880.

Parece que só agora percebemos que a água é um recurso finito e que o seu uso deve ser, no mínimo, cuidadoso. Vários documentos internacionais já advertiam para o fato de que há regiões no planeta sofrendo com sua escassez, que pessoas morrem de sede e que uma das consequências do aquecimento global é a diminuição do volume de água dos rios amazônicos. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu os anos de 2005 a 2015 como a Década da Água.

O governo brasileiro fez o mesmo, instituindo em 2005 o início da Década Brasileira da Água, com objetivos de promover e intensificar políticas, programas e projetos para o gerenciamento e uso sustentável da água, assegurando a participação das comunidades. Ficou mais no papel.

Falta de seriedade

Na Amazônia, hoje comprovadamente uma região fundamental para abastecer de chuvas as demais regiões do País, não houve nem projetos para o gerenciamento da água, nem tampouco participação popular na gestão da mesma. É que a Lei das Águas, de 1997, determina que cada bacia hidrográfica tenha seu comitê formado por representantes do Poder Público, dos usuários e da sociedade civil local, para elaborar o plano de recursos hídricos da bacia. Nada foi feito.

O governo ainda tentou uma maquiagem. Elaborou o pomposo Plano Estratégico de Recursos Hídricos dos Afluentes da Margem Direita do Rio Amazonas. Colocou Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira num só pacote - o que é impossível de gerenciar - e não criou o comitê gestor. Portanto, a crise da água é também ocasionada pela falta de seriedade no tratamento do principal recurso natural para a nossa existência.

Nesta época em que brotam tantas "profecias", como olhos-d'água, é preciso agir agora para que não se torne uma delas o que disse o vice-presidente do Banco Mundial em 1995, Ismail Serageldin: "Se as guerras deste século foram disputadas por petróleo, as guerras do próximo século serão travadas por água".




(texto publicado na revista Família Cristã nº 948 - ano 81 - dezembro de 2014)




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Nível crítico - Angela Pinho


Sim, São Pedro é o maior responsável pelo risco de a cidade enfrentar um racionamento de água, mas décadas de f alta de investimento em infraestrutura no setor hídrico só agravaram o quadro

É certo que a natureza tem sido cruel, castigando-nos com a pior estiagem dos últimos 84 anos. Um dos melhores retratos da situação é a mudança de comportamento dos profissionais que monitoram o Radar Meteorológico de São Paulo, instalado na divisa entre Salesópolis e Biritiba Mirim, onde nasce o Rio Tietê, a 94 quilômetros da capital. Trata-se de uma das principais ferramentas do sistema de alerta contra inundações, particularmente útil durante o verão, quando tempestades provocam enchentes e desabamentos na metrópole. Neste ano, as imagens do aparelho continuam sendo aguardadas com ansiedade pelos operadores, mas por motivos diferentes. "Quando o tempo fecha, a gente sai correndo para olhar se está caindo água nos reservatórios da Cantareira", conta a engenharia Monica Porto, coordenadora do trabalho, referindo-se ao sistema responsável por 61% do abastecimento da capital.

Apesar da torcida dos técnicos nesses momentos, não chove nas seis represas que formam a Cantareira. Os meses de dezembro e janeiro registraram os piores índices desde 1930, quando a medição começou a ser feita. Para piorar, o calor também ficou além do esperado, o que aumentou a evaporação da água nos reservatórios. "A causa foi a presença de uma massa de ar de alta pressão sobre São Paulo, que impediu a chegada de umidade", explica o meteorologista Alexandre Nascimento, da Climatempo. Caso esse fenômeno tivesse acontecido entre abril e outubro, período tradicionalmente seco, não haveria grandes transtornos. Mas ocorreu justamente nos meses em que se espera que chova o suficiente para encher os reservatórios.

A situação levou o governo do estado a decretar uma série de medidas para tentar evitar o pior. Elas vão de desconto de 30% na conta para quem economizar nas torneiras a obras de emergência destinadas a bombear da Cantareira o volume morto, como é chamada a água que fica no fundo das represas. No último dia 18, o governador Geraldo Alckmin foi a Brasília pedir à presidente Dilma Rousseff permissão para usar parte da água do Rio Paraíba do Sul, que abastece o Rio de Janeiro. A ideia enfrenta resistência do estado vizinho. Apesar dos esforços, há um sério risco de racionamento num futuro próximo caso a seca se prolongue por mais algum tempo. "Estamos diante de um fato excepcional, pois é a maior seca dos últimos 84 anos", afirmou o governador Geraldo Alckmin.

Uma metrópole que tem 12 milhões de habitantes e responde por 11,5% do PIB do país, entretanto, não pode ficar à mercê dos caprichos da natureza na questão do abastecimento de água. Com tecnologia e planejamento, cidades com muito menos recursos hídricos e clima muito mais adverso conseguem garantir o abastecimento. É o caso de Jerusalém, em Israel, que tem um índice pluviométrico anual de cerca de 500 milímetros, o equivalente a quase um terço do registrado normalmente em São Paulo.

A gestão dessa área, a exemplo do todas as questões que envolvem infraestrutura, demanda investimentos pesados e contínuos para prevenir situações que só irão se materializar décadas depois. Do ponto de vista da contabilidade política mais rasteira, implica enterrar recursos significativos em obras invisíveis, cujos resultados só serão notados num futuro distante. Em resumo, é verba que não rende voto imediato. "Em São Paulo, ficou claro que a capacidade dos reservatórios se mostrou insuficiente diante de uma situação de intensa dificuldade climática", afirma Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial de Água, organização que reúne os principais especialistas e autoridades ligadas ao tema de mais de cinquenta países. Peritos como ele têm opinião unânime: os efeitos da estiagem na capital para o abastecimento de água foram agravados pela inoperância de décadas do poder público.

Um dos últimos investimentos ambiciosos feitos na área ocorreu há quarenta anos. Ele envolveu justamente a construção do Cantareira para amenizar na época o problema crônico da escassez em São Paulo, que tem poucos mananciais em seu território. A obra é composta de seis reservatórios, o mais distante localizado em Vargem, a 98 quilômetros de São Paulo, na divisa com Minas Gerais. De lá, a água percorre um sistema formado por túneis e outras represas até chegar à estação de tratamento em Caieiras, na região metropolitana. Depois disso, é distribuída para a capital e outros municípios vizinhos. Cerca de um sexto volume é enviado a cidades do interior, principalmente Campinas.

Do início dos anos 70 até hoje, a população da capital dobrou e o uso de água aumentou na mesma proporção (atualmente, o consumo per capita é de 140 litros diários). A partir de 2004, o Palácio dos Bandeirantes recebeu pelo menos quatro alertas sobre a fragilidade da política hídrica, sendo que o mais recente deles, de 2013, partiu de um estudo encomendado pelo próprio governo estadual. Em resposta, a Sabesp aumentou em 50% a capacidade de tratamento de água do Alto Tietê numa obra realizada em 2009. Entre 2008 e 2014, a empresa também conseguiu reduzir de 33% para 25% o índice de perdas por vazamentos, provocados por falhas de infraestrutura, como canos velhos e malconservados.

A reação das autoridades diante do problema, no entanto, mostrou-se insuficiente para proteger a cidade. "Investiram, é verdade, mas não o bastante", afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Segundo ele, a possibilidade de enfrentar situações climáticas adversas precisa entrar na conta dos governos. "Não dá para fazer planejamento quando a crise já está instalada", complementa. Um passo fundamental, a construção de um novo reservatório para abastecer a cidade, só começou a sair do papel no ano passado - ou seja, quase uma década depois dos primeiros alertas de colapso. Em agosto passado, a Sabesp fechou uma parceria público-privada com empreiteiros para construir a obra em Ibiúna. Quando ficar pronta, em 2018, ela tratá para a capital e região metropolitana 4700 litros de água por segundo, o equivalente a 14% do volume da Cantareira.

Na visão otimista dos técnicos da Sabesp, o pior será evitado graças às ações emergenciais adotadas desde o começo do ano. "Não trabalhamos com a hipótese de fazer um racionamento", afirma Edson Giriboni, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo. Esse plano, porém, depende da boa vontade de São Pedro. A conta só fechará se o regime de chuvas nos próximos meses voltar à média histórica dos últimos anos. Caso contrário, a adoção de um esquema de rodízio será inevitável a partir de outubro.

A população da capital vem dando sua parcela de contribuição para amenizar o problema. Desde que o governo ofereceu um desconto de 30% a quem economiza na torneira, o nível de consumo está caindo. Os paulistanos chegaram a poupar 6 200 litros por segundo, volume suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Curitiba. Mas é possível fazer ainda mais nessa questão. O consumo diário per capita de água na capital é de 140 litros, contra os 110 litros da média recomendada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a necessária para que as pessoas se hidratem, mantenham a higiene em dia e a casa em ordem. Países mais avançados nesse tipo de conscientização do uso do recurso consomem 115 litros por dia, como a Bélgica.

O reúso da água ainda ocorre com pouca frequência por aqui. Uma das exceções é o projeto Aquapolo, parceria entre a Sabesp e Odebrecht Ambiental, que recicla água para cinco indústrias petroquímicas do ABC paulista. A economia é suficiente para abastecer uma cidade de 350 000 habitantes todo dia. A companhia de transporte Metra, de São Bernardo do Campo, que é responsável também pela manutenção de 100 paradas de ônibus na cidade, mantém limpos sua frota e os pontos com água reciclada. O Hospital Sírio-Libanês instalou uma estação de tratamento no seu subsolo no começo do ano. Ela garante hoje quase um terço do consumo do local. No acirramento da crise, iniciativas semelhantes vêm se ampliando. Sindico de um prédio na Vila Olímpia, Luciano Pacces chamou recentemente um engenheiro para orçar o aumento da capacidade de armazenamento de água da chuva do reservatório do condomínio. "A obra será uma de nossas prioridades", diz. Tudo isso ajuda e deve ser feito não só em época de crise. O governo, entretanto, tem de realizar a sua parte, fazendo o planejamento e os investimentos adequados para não precisar depois acender vela para São Pedro.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 2 de abril de 2014)






domingo, 7 de dezembro de 2014

Economize água


A escassez desse líquido tão essencial já é realidade em diversas cidades por todo o país. Por isso, nunca foi tão importante colocar em prática, no dia a dia, hábitos que poupem esse bem tão precioso - que pode acabar

Não é de hoje que as notícias a respeito da água não são boas. Vários estados do país estão sofrendo uma série crise de abastecimento - e os que já não estão passando por um racionamento irão enfrentar esse problema a partir de 2015. Um levantamento feito pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que mais da metade dos municípios brasileiros (55%) terá déficit de água. A situação mais crítica é a de São Paulo, com o Sistema Cantareira funcionando com apenas 8% de sua capacidade. Apesar de as pessoas estarem economizando, infelizmente ainda não é o suficiente. De acordo com Roberta Baptista Rodrigues, professora do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da Anhembi Morumbi (SP), a população tem a falsa sensação de que esse líquido é um recurso infinito. "Tanto nos grandes centros como nas regiões mais remotas, é fácil encontrar pessoas lavando calçadas com a mangueira em vez de utilizar a vassoura", comenta.

Mude de atitude!

Para enfrentar a crise, temos que nos readaptar à nova realidade e aprender a economizar radicalmente. Confira a seguir diversas formas de poupar água no cotidiano

No banho

Cronometre o tempo que fica embaixo do chuveiro. Especialistas garantem que cinco minutos são suficientes para a higiene pessoal diária. E mais: livre-se de qualquer distração. Se você costuma ouvir música neste momento, por exemplo, é melhor parar e concentrar-se em fazer tudo o mais rápido possível. E lembre-se: enquanto estiver se ensaboando, nada de deixar a água correndo.

Desta forma, em vez de gastar 180 litros, você usará apenas 48.

Ao escovar os dentes

Mantenha a torneira desligada durante toda a higienização. Na hora de enxaguar a boca, pegue um copo de vidro, encha-o e use apenas essa quantidade de água. Se você tem homens em casa, certifique-e de que eles também economizem na hora de fazer a barba.

Na cozinha

Ensaboe a louça com a torneira fechada. Também é recomendável deixar os itens acumularem para lavá-los apenas uma vez por dia, e não a cada refeição. Procure ainda não exagerar na quantidade de água para cozinhar. Além de economizar, você reterá mais nutrientes no alimento.

Vazamento

Sabe aquele conserto da pia ou do chuveiro que você está adiando há tempos? Chegou a hora de fazer! Os reparos costumam ser simples e a economia, grande.

O vazamento de uma torneira gasta cerca de 46 litros por dia ou 1380 litros por mês

Área de serviço

Reaproveite a água de enxague da máquina de lavar para lavagens de pisos, quintal e demais ambientes.

Calçada e carro

Use água de chuva ou reuso para esse tipo de limpeza. Quanto aos automóveis, se você os leva para lavar fora, certifique-se de fazer a lavagem a seco.

Jardim

Regue as plantas após as 18h. Isso ajuda a diminuir a taxa de evaporação e, dessa forma, elas assimilam melhor a água. Se for comprar espécies novas, opte por aquelas que precisam de menos irrigação.

Deixe a roupa acumular para lavar t udo de uma vez. Só use a máquina com a capacidade total!

No banheiro

É controverso, mas necessário: não é preciso dar descarga toda vez que fizer xixi. Espere algumas idas ao banheiro para fazer isso. E quando usar esse recurso, se o seu vaso sanitário tiver este mecanismo, use o botãozinho menor, pois ele gasta menos água do que o botão maior. Outra opção é reutilizar a água que sobra da máquina de lavar para esta finalidade.

Ajuda tecnológica

O Instituto Akatu e a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) lançaram o aplicativo Nossa Água para auxiliar na redução do consumo de água. Além de dicas de economia, ele contabiliza a quantidade gasta em cada banho e lhe mostra um ranking dos banhos anteriores, para você se superar na rapidez. O app está disponível para download gratuito na loja Google Play, para smartphones com sistema operacional Android.



(texto publicado na revista 7 dias com você nº 593 - 29 de outubro de 2014)








sábado, 6 de dezembro de 2014

Seca faz a Califórnia subir - Fernando Reinach, biólogo


Imagine um navio cargueiro no oceano. Quando ele está carregado, grande parte de seu casco está submerso. Mas, se você retirar parte da carga, ele sobe, e um parte do casco vai aparecer acima da linha d'água. O inverso ocorre quando você aumenta a carga, o navio afunda um pouco. A crosta da Terra pode ser imaginada como um enorme cargueiro flutuando sobre um mar de lava quente. Se o peso da crosta aumenta, ela afunda um pouco; se diminui, ela flutua um pouco mais.

O que os cientistas descobriram é que a Califórnia ficou mais leve desde 2013, quando começou a grande seca por lá. Tal como um lutador de MMA que fica horas na sauna para perder água e reduzir sua massa antes da pesagem, a Califórnia desidratou e ficou mais leve. E subiu um pouco.

Admito, isso parece história para boi dormir, mas o fato é que os cientistas conseguiram medir essa ligeira subida da Califórnia e, a partir dessa medida, calcular quanto de água o Estado emagreceu nos últimos anos. Para acreditar nesse resultado é necessário entender como foram feitas as medidas, afinal, não é possível colocar a Califórnia em uma balança.

Para estudar os terremotos na Costa Oeste dos Estados Unidos, os cientistas montaram um sofisticado sistema de monitoramento na região. Parte desse sistema consiste em centenas de estações de georreferenciamento espalhadas pela Califórnia e nos Estados vizinhos. Em cada um desses locais, os cientistas fixam em grandes blocos de rocha aparelhos capazes de captar os sinais de GPS. Mas, como cada um desses equipamentos está firmemente preso a uma montanha, se parte deles muda de lugar isso significa que a montanha inteira mudou de lugar, e é exatamente isso que acontece durante um terremoto.

Dados de 771 dessas estações de GPS foram analisados. E, para surpresa dos cientistas, eles observaram que toda a área do Oeste dos Estados Unidos sobe ou desce ao longo do tempo. Entre 2003 e 2005, a região afundou 5 milímetros depois passou 8 anos estável. Mas, no início de 2013, quando se iniciou a grande seca, a região como um todo começou a subir, e não somente já recuperou os 5  milímetros perdidos, mas em alguns lugares chegou a subir 15 milímetros.

Mas, da mesma maneira que é possível calcular o peso que retiramos de um navio sabendo quanto ele subiu após ser descarregado, os cientistas puderam calcular quanto de água os rios, os lagos, os aquíferos, o solo e o subsolo da Califórnia perderam de água desde que começou a seca. Os cientistas calcularam que essa região perdeu 240 gigatoneladas de água, quantidade suficiente para cobrir toda a região com 10 centímetros de água. Essa descoberta não somente vai permitir o monitoramento da quantidade total de água ao longo do tempo, mas promete ajudar a monitorarmos as mudanças climáticas.



(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo - caderno Metrópole - E4 - 29 de novembro de 2014)


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"As cidades tratam a água da chuva como lixo" - Marcelo Moura


O arquiteto da ONG Make it Right, dedicada a projetos ambientais, diz que as cidades têm de consumir água de chuva e não depender de represas

São Paulo enfrentou transtornos contraditórios na semana passada. Cidades como Itu sofreram, ao mesmo tempo, alagamento por causa das chuvas fortes e seca nas torneiras devido ao baixo nível nas represas que abastecem o Estado. No modelo atual das cidades, drenamos para longe a água da chuva, que chega a todas as casas, grátis e com razoável qualidade. E trazemos de longe, a alto custo, água de reservatórios, filtrada e bombeada por dezenas de quilômetros. "O consumo de água nas grandes cidades segue um padrão de 100 anos atrás, insustentável nas próximas décadas", afirma Tim Duggan, arquiteto da ONG Make it Right. Fundada pelo ator Brad Pitt, ela desenvolve técnicas e ergue estruturas mais amigas do meio ambiente. Esse conhecimento já foi usado na reconstrução de Nova Orleans, devastada em 2005 pelos furacões Rita e Katrina, que deixaram 80% da cidade debaixo d'água. Nove anos após a tragédia, Nova Orleans tornou-se exemplo de área urbana sustentável. Além de erguer casas eficientes, a Make it Right reconstruiu ruas e calçadas com concreto poroso, capaz de absorver chuva. Além de evitar enchentes, o piso filtra a água, para aproveitamento em jardins e reservatórios. No Brasil, a onda de construção de edifícios dos últimos anos foi, em grande parte, desperdiçada - poucos deles captam e reusam água. Duggan veio ao Brasil a convite do ciclo de palestras Arq. Futuro e contou como incentivas a construção de edifícios e casas mais modernos.

Época - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três Estados mais ricos e desenvolvidos do Brasil, enfrentam risco de ficar sem água. A crise de abastecimento é um problema local? 

Tim Duggan - A falta d'água nos grandes centros urbanos é um problema mundial. Veio para ficar. Em Phoenix, no Arizona, ou em Los Angeles, Califórnia, enfrentamos situação parecida. As duas cidades têm mais habitantes do que recursos hídricos. Bombeamos água de toda a região sudoeste dos Estados Unidos para essas áreas. Cidades que excederam a capacidade do ecossistema representam um problema. São insustentáveis.

Época - O que há de errado no sistema de abastecimento d'água dos grandes centros urbanos?

Duggan - As cidades exploram recursos hídricos da mesma maneira há mais de 100 anos. Nesse período, a população urbana foi multiplicada por 20, de 160 milhões de habitantes para mais de 3 bilhões. Os centros urbanos são meros consumidores de água, com participação mínima na captação. A água das chuvas escorre pelo ralo, descartada como se fosse lixo. Água é como petróleo: um recurso natural hoje valioso, mas por muito  tempo desprezado. Se não mudarmos nossos hábitos e a infraestrutura das cidades, veremos conflitos globais pela posse da água, não mais por petróleo, no próximo século.

Época - O que os governantes podem fazer para afastar o risco de falta d'água?

Duggan - As cidades precisam capturar a água para o consumo de suas comunidades. Em vez de investir em sistemas caros de captação, tratamento e bombeamento até as torneiras, nossa ONG encara cada gota d'água como um recurso, e a capturamos quando ela cai. Para isso, temos "jardins fluviais", biorreservatórios e cisternas. Usamos cada gota d'água de acordo com as possibilidades previstas em cada projeto. Precisamos estudar como reaproveitar a mesma gota d'água várias vezes, como se faz hoje com a reciclagem de plásticos.

Época - Formas de captar e reaproveitar água tornam as cidades e seus edifícios necessariamente mais caros?

Duggan - A resposta a essa pergunta é relativa. Se você não começar a pensar proativamente, em captar e reaproveitar água nas cidades, terá custos mais altos para bombear e tratar a água, cada vez mais poluída, de fontes mais distantes. Temos de buscar métricas para avaliar os custos de curto e de longo prazo. Só assim você terá uma métrica adequada. Olhar apenas para o investimento inicial é uma forma imprecisa de avaliar uma iniciativa sustentável. Temos de ponderar o custo do investimento e os impactos sociais, ambientais e econômicos.

Época - Grande parte da população sabe da escassez de água. Mesmo assim, nem sempre se sente responsável pela solução. Como mobilizar os consumidores?

Duggan - A falta de engajamento é, infelizmente, um problema em muitos lugares no mundo. É importante começar uma campanha agressiva de conscientização popular. Os líderes políticos têm papel fundamental para informar suas comunidades sobre a gravidade do problema e defender investimentos em reformas.

Época - A maioria dos edifícios no Brasil tem apenas um hidrômetro. Como pedir consumo responsável a moradores que nem sabem quanto gastam?

Duggan - Isso é um problema. Esforços individuais passam despercebidos numa conta unificada. Poder acompanhar o consumo individual é o primeiro passo no esforço pelo consumo consciente. A escassez de água deixa de ser um problema difuso, sem dono, quando se  torna possível enxergá-lo nas questões cotidianas.

Época - Adotar medidores individuais demanda uma reforma dos apartamentos cuja despesa, para o morador, raramente é compensada pela economia trazida pela redução no consumo. O principal ganho é coletivo. Como o Estado poderá incentivar o investimento em casas mais eficientes?

Duggan - Vários governos investem em diferentes formas de estimular o desenvolvimento e a adoção de soluções para reduzir o consumo de água. Os Estados Unidos incentivam o setor imobiliário com redução de impostos e privilégios na concessão de licenças de construção. Estimulado, o mercado apresenta resultados concretos e já começa a andar por conta própria.

Época - Qual o papel de uma ONG, como a Make it Right, no desenvolvimento de casas de menor impacto ambiental?

Duggan - Os objetivos de nossa organização não são os mesmos de uma construtora comum. Nossa missão é aplicar os princípios do desenvolvimento sustentável e mudar as comunidades, em vez de auferir lucro. Procuramos erguer casas "verdes" e economicamente viáveis no longo prazo, mesmo que não no curto. As primeiras casas que construímos em Nova Orleans não foram baratas. Custou caro chegar a um produto barato. Com fins lucrativos, certas inovações são impossíveis. Tivemos de encontrar formas de baixar o custo a cada nova construção. Finalmente, hoje temos partes principais das casas padronizadas em kits, de forma a fazer habitações com desenho sofisticado, capazes de atingir altos níveis de sustentabilidade, sem estourar o orçamento. Desenvolvemos diferentes projetos em diferentes lugares da América, todos com o objetivo de custar menos e respeitar mais o meio ambiente.

Época - A construção civil não pareceu evoluir, nas últimas décadas, no mesmo ritmo de setores da manufatura, como fábricas de componentes eletrônicos ou automóveis. Por quê?

Duggan - Não precisa ser assim. Cada edifício é único, mas seus princípios podem ser reproduzidos. Uma equipe pode adaptar técnicas padronizadas de construção à realidade local. A melhor forma de multiplicar inovação é formar uma equipe de designers, arquitetos, planejadores e engenheiros que entendem de projeto sustentável e sabem como aplicá-los ao terreno, qualquer que ele seja.

Época - A transformação de Nova Orleans numa cidade verde foi facilitada pela tragédia do furação Katrina, que desabrigou cerca de 80% da população. A necessidade de modernizar as casas tornou-se indiscutível e urgente, uma vez que já estavam destruídas. O governo federal investiu na reconstrução. Gente inovadora e influente do mundo inteiro dedicou-se a ajudar. Sem a tragédia, a ONG Make it Right nem existiria. Como transformar cidades sem depender de uma circunstância tão extrema?

Duggan - Muitas comunidades enfrentam desastres econômicos, não apenas desastres naturais como o Furacão Katrina. Podem, da mesma forma, transformar a crise em oportunidade. Em Nova Orleans, concluímos que a mudança não viria no primeiro dia. Teríamos de formar uma equipe persistente em torno de uma grande ideia, capaz de resistir até haver massa crítica e mobilização. Começamos com um projeto pequeno, até que as comunidades se engajaram. Não apenas um setor da sociedade é dono desse movimento. Os moradores de Nova Orleans pressionaram as autoridades a apoiar uma política diferente.

Época - Como é trabalhar com Brad Pitt?

Duggan - Ele é um líder feroz, que nos encorajou a inovar em cada passo do projeto. É maravilhoso fazer parte de uma equipe que realmente quer fazer o bem e mudar o mundo, em termos de urbanismo.



(texto publicado na revista Época nº 858 - 10 de novembro de 2014)












quarta-feira, 19 de novembro de 2014

As boas lições da Califórnia - Felipe Carneiro, com reportagem de Paula Pauli


O estado mais rico dos Estados Unidos está em seu quarto ano seguido de seca. Entre as soluções tomadas por lá está tratar o esgoto e multar quem desperdiça, ideias que podem ser imitadas no Brasil

Hollywood projetou a Califórnia no imaginário coletivo como o estado dos campos de golfe e dos casarões rodeados de gramados impecáveis e com cerca branca. Quatro anos seguidos de estiagem racharam essa imagem. Mais de 80% do território do estado americano está em situação de seca severa, e cientistas já temem que isso perdure até o fim do século. Para lidarem com a falta de água, as autoridades californianas estão fazendo de tudo, com graus variados de sucesso. Entre as medidas que não vingaram está a proibição de piscinas, pois se constatou que, quando mantidas cobertas, elas gastam menos água que a manutenção de um gramado com área equivalente. Em anos normais, chovia na Califórnia um terço do que em São Paulo. Apesar do clima diferente, podem-se extrair da experiência californiana algumas lições para o Brasil.

Multar quem desperdiça

Ao constatar que uma campanha de conscientização para economizar água não surtia efeito, há três meses o governo da Califórnia permitiu que os seus distritos multassem os esbanjadores. Os valores não poderiam ultrapassar 500 dólares. Então, cada localidade decidiu quais seriam as infrações e o rigor a ser aplicado. Em San Diego, quem é pego regando o jardim com mangueira paga a multa máxima, a mesma penalidade reservada para quem encher uma banheira de hidromassagem em Los Angeles. Se houver reincidência, o valor será dobrado. Em Santa Barbara, quem usar água corrente, em fontes decorativas pagará 350 dólares. Em San Jose, moradores de casas onde são encontrados vazamentos precisam pagar 380 dólares. No Brasil, algumas prefeituras já punem os que usam água para outros fins que não o consumo humano, como beber ou tomar banho. Em Monte Carmelo, Minas Gerais, os fiscais recebem denúncias de moradores cujos vizinhos estão lavando a calçada, por exemplo, e vão até o local. Não há punição imediata, mas o infrator é obrigado a assinar uma notificação. Em caso de reincidência, a multa é de 627 reais.

Criar cursos obrigatórios para quem gasta demais

A cidade costeira de Santa Cruz, a 100 quilômetros de São Francisco, estabeleceu um teto mensal de 28 000 litros de água por família. Quem passa do limite ou é pego burlando alguma norma é multado, mas pode abater parte do valor participando de um curso de duas horas. Aquele que acumula duas multas é obrigado a comparecer. No curso, os professores explicam a situação dos recursos hídricos no estado e ensinam técnicas para reduzir o consumo. "Até agora, não vi nenhum aluno repetente, ou seja, que tenha saído daqui e voltado a desperdiçar", diz o engenheiro americano Nik Martinelli, coordenador do curso.

Priorizar o consumo humano

A Califórnia produz quase a metade dos legumes, verduras e nozes consumidos nos Estados Unidos. Apesar de usarem 80% da água, as colheitas só representam 3% do PIB do estado. Isso levou os moradores a questionar o programa federal que fornece água aos fazendeiros. Eles pagam pela água, pelo transporte e pelo investimento público para a construção dos canais de irrigação, que no Vale Central do estado chegam a ter 800 quilômetros de extensão. Mesmo assim, o governo cortou a irrigação de 8 milhões de acres cultiváveis nessa região agrícola. Os alimentos então passaram a ser comprados de outros países. Isso é o que se chama de "importação de água virtual", aquela embutida em produtos agrícolas ou industriais. No Brasil, não se cobra pela água em si, apenas pelo seu tratamento e transporte. Os produtores rurais podem coletar livremente o recurso não tratado em lagos, lençóis ou rios, sem ter de pagar nada. "Caso começassem a cobrar por isso, certamente haveria uma maior preocupação e um uso mais eficiente por parte dos agricultores", diz Samuel Barreto, coordenador do Movimento Água para São Paulo.

Premiar quem troca o gramado por plantas que exigem menos água

A rega dos quintais californianos responde por mais da metade da conta de água dos moradores das casas. Diversas cidades já estipulam dias, horários e equipamentos específicos para molhar o quintal. Entre os apetrechos indicados estão timer para esguichos e irrigação por gotejamento. As empresas fornecedoras de água também passaram a oferecer dinheiro a quem troca a grama por plantas nativas, menos "sedentas". Os moradores recebem até 10 dólares por metro quadrado de grama substituído. Algumas empresas de água da Califórnia também subsidiam a compra de máquinas de lavar louça e roupa mais eficientes. Os descontos variam de 50 a 200 dólares.

Evitar vazamentos nas tubulações

Na Califórnia, cerca de 10% do volume bombeado pelas tubulações subterrâneas é perdido em vazamentos. Para localizá-los, os funcionários colocam sobre o asfalto dispositivos que detectam o som da vazão no subsolo. O processo é realizado de madrugada, quando há menos barulho. Descoberto o ponto, eles cavam um buraco e fazem os reparos necessários. No Brasil também existem técnicas para detectar falhas. A diferença é que os defeitos em tubulações respondem por perdas muito maiores, de até 28%. Considerando as ligações irregulares, os "gatos", o desperdício chega a 37%. Uma fiscalização maior reduziria isso.

Valorizar a sujeira

Na cidade de Ventura, as autoridades do departamento de água, em parceria com uma rádio local, criaram o desafio "Don't wash your car" (Não lave seu carro, em inglês). Os moradores são incitados a ficar ao menos um mês sem limpar o automóvel e postar fotos dele no Facebook do departamento. Os donos das imagens que recebem mais curtidas ganham serviço completo em lava-rápidos locais que reciclam a água. Circular com o carro todo empoeirado virou sinal de status politicamente correto entre as celebridades de Hollywood. No Brasil, a ONG The Nature Conservancy tem a campanha. "Não chove, não lavo", que estimula as pessoas a postar fotos de seus veículos no Instagram com a hashtag #naochovenaolavo, mas a campanha ainda não conseguiu mudar os hábitos da maioria dos motoristas.

Distribuir gratuitamente medidores individuais, os hidrômetros

Uma pesquisa realizada pela Agência de Proteção Ambiental americana concluiu que famílias que têm relógio para medir o uso da água gastam em média 28% menos que as que não têm. Por isso, o governo da cidade de Santa Clara passou a oferecer hidrômetros eletrônicos gratuitamente. Como resultado, a vazão dos reservatórios que abastecem o condado já caiu em um quarto desde janeiro. No Brasil, edifícios mais antigos costumam ter um único hidrômetro. Como a conta total é dividida entre todos os apartamentos, muitos moradores não enxergam incentivos para economizar. O custo para fazer a "individualização" da conta de água passa dos 300 reais e pode chegar a 3 000 reais, o que leva muitos condomínios a protelar a mudança.

Reaproveitar a água do ralo

Sem grande acesso a aquíferos nem rios, San Diego sempre foi muito castigada pelas estiagens. Na cidade, a água que vai pelos ralos e pias e pode ser reaproveitada, chamada de gray water (água cinza), é separada do esgoto, black water (água escura). Agora, San Diego está investindo em uma usina para tratar a água cinza e torná-la potável. Em vinte anos, espera-se que 40% da água consumida seja reciclada. Os prédios e shoppings no Brasil com encanamentos distintos para a água dos ralos e das privadas são muito raros.

Tratar o esgoto e usá-lo para abastecer os lençóis freáticos

Repulsiva para muitos, essa ideia já está em pleno vigor no condado de Orange, um dos mais ricos da Califórnia, desde 2008. O esgoto passa por vários processos, como uma microfiltração para tirar as partículas sólidas e o uso de luz ultravioleta, que mata germes e bactérias. Em seguida, o produto final, potável, é devolvido aos lençóis freáticos. No Brasil, essa técnica não existe, apesar do uso cada vez mais intenso dos poços artesianos, dos quais cerca de 85% são clandestinos. A superexploração dos lençóis freáticos, por estarem interligados com rios e lagos, também pode secar a água da superfície. Além disso, os aquíferos dependem igualmente da chuva para se reabastecer e, é óbvio, sofrem com as secas. Por fim, muitos deles foram contaminados por esgoto, metais pesados ou outras substâncias.

Tirar o sal da água do mar

Por ser um processo muito caro, as unidades que retiram sal da água do mar só prosperam em lugares onde praticamente não existe alternativa, como em Singapura ou Israel. A seca na Califórnia, contudo, levou ao investimento de 1 bilhão de dólares na Planta de Dessalinização Carlsbad. A obra ficará pronta em um ano e meio. O objetivo é produzir 190 milhões de litros de água doce por dia, o equivalente a 5% do consumo da Grande São Paulo. "Se Carlsbad der certo, a técnica poderia ser reproduzida em cidades litorâneas do Brasil, para aliviar o uso dos mananciais que abastecem a capital de São Paulo", diz Tim Quinn, diretor executivo da Associação das Agências de Água da Califórnia.




(texto publicado na revista Veja edição 2397 - ano 47 - nº 44 - 29 de outubro de 2014)