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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
O que é ? Constelação Familiar Sistêmica - Regina Inez Gonçalves
Uma definição de Constelação que nos leva ao conceito de Constelação Familiar Sistêmica é a que a define como um grupo de estrelas próximas uma das outras, tais como as vemos da Terra, e que, ligadas por linhas imaginárias, formam diferentes figuras e se distinguem por nomes especiais. O grupo de estrelas são os grupos de pessoas brilhantes e notáveis que, quando próximas uma das outras, formam as famílias e as diferentes figuras são as diversas famílias nos diversos países no planeta Terra, no Sistema Solar, na Via Láctea e no Universo.
Por que familiar?
Porque as famílias são grupos de pessoas com ancestralidade comum e é essa ancestralidade que será mostrada no campo morfogenético na Constelação.
Por que sistêmica?
Segundo a definição na medicina, sistêmico é o que afeta todo o organismo ou o que é relativo à grande circulação. É exatamente o que é mostrado em uma constelação: o que afeta cada célula familiar afeta todo o organismo familiar e a circulação dos membros da família no sistema.
Segundo a agricultura, sistêmico é o que se diz de um produto Fitossanitário (relativo à preservação e defesa das plantas ou da flora em geral) que age sobre toda a planta, passando pela selva (líquido que circula pelas diversas partes dos vegetais). Os movimentos que acontecem em um sistema familiar são para preservar e defender os valores do sistema. As Constelações podem ser feitas individualmente com bonecos ou abertas com pessoas representando o sistema familiar.
As constelações são para pessoas ou organizações (públicas ou privadas) nas diversas áreas onde se constituem sistemas como no Direito, na Medicina, na Pedagogia etc.
A Constelação Familiar Sistêmica é uma abordagem terapêutica breve e eficaz que mostra ao cliente um caminho de solução.
A Constelação tem aplicação prática na melhoria das relações familiares, nas relações interpessoais nas empresas, nas relações de conflito dentro do Direito, nas exclusões sociais em Educação, na escolha de diagnóstico da Medicina e continua ampliando e ajudando a melhorar as relações onde há conflitos ou emaranhamentos que impedem a continuidade e harmonia das relações. Atua onde há desordens nas forças que movem as pessoas e os grupos e que se apresentam muitas vezes em forma de doenças e sofrimentos, sem que tenham consciência do que está impedindo-as de ter êxito e equilíbrio em determinadas situações.
A Constelação Familiar Sistêmica deve ser solicitada nas seguintes situações:
- Em qualquer situação de conflito (divórcio, inventário, em condomínios, em pais e filhos, entre casais);
- Nas perdas (falência, luto, aborto, doença, problemas financeiros);
- Quando há dificuldades de comunicação (timidez, pânico, depressão, agressividade, emoções em desequilíbrio com a comunicação):
- Diante de grandes decisões;
- Na busca de êxito profissional:
- Na necessidade de superação de conflitos internos e externos.
A Constelação Familiar Sistêmica é vivencial com conteúdos trazidos pelo cliente e revela o que está oculto por trás dos problemas, levando à solução dos mesmos. Uma única constelação pode fazer uma grande diferença em sua vida!
É um trabalho regido por três leis que são chamadas por Bert Hellinger de Ordens Arcaicas, a saber: ordem ou hierarquia; vínculo ou pertencimento e equilíbrio entre o dar e tomar.
A Constelação Familiar Sistêmica ocorre no campo da consciência da família de forma fenomenológica. "As ordens do amor quando desrespeitadas causam emaranhamentos e sofrimentos e quando restabelecidas nos causam a sensação de estarmos encaixados no mundo".
Os benefícios da Constelação Familiar Sistêmica surgem pelo fato de sua abordagem trazer à consciência a dinâmica que está oculta e que vem causando desequilíbrios e sofrimentos através da repetição inconsciente da história familiar.
Os acontecimentos trágicos ocorridos em uma família podem ter efeitos nas gerações posteriores. Os membros de uma família podem manter uma lealdade oculta invisível e imitar inconscientemente o destino difícil dos antepassados ou sofrer as consequências por eles.
(texto publicado na revista Leve & Leia nº 149 - ano 11 - dezembro 2017/janeiro 2018)
domingo, 20 de agosto de 2017
12 razões para escrever um diário - Heloísa Iaconis
Mantenho um diário há cerca de 6 anos e posso garantir que é uma verdadeira terapia: é um amigo com quem posso contar em todas as horas.
1) Acalmar-se
Não é incomum encontrar quem, por meio da escrita, afirma obter paz. Manter um diário é uma forma de exteriorizar angústias e criar uma rotina para lidar com os próprios sentimentos - e esses dois hábitos ajudam a aliviar a ansiedade.
2) Organizar o pensamento
A mente é uma profusão de ideias. O raciocínio começa em um ponto, vai para outro, pula para mais longe e, quando percebemos, as peças estão embaralhadas. Escrever ajuda a ordenar esse fluxo, possibilitando um melhor entendimento.
3) Exercer a privacidade
Na era das redes sociais, somos estimulados a nos manter constantemente conectados ao mundo exterior. Ter um diário é uma boa maneira de recolher-se do barulho que vem de fora, permitindo um encontro com nossa individualidade.
4) Ressignificar vivências
Num diário, podemos escrever não só sobre fatos recentes, mas também sobre o passado. Ao fazermos isso, temos a chance de encontrar novos significados para antigas memórias, o que contribui para o autoconhecimento.
5) Superar traumas
Escrever sobre experiências difíceis pode ajudar a superá-las - é o que diz um estudo publicado no Journal of Palliative Medicine feito com pessoas que perderam cônjuges. Gradualmente, os efeitos dos baques vão sendo aliviados.
6) Cultivar a empatia
Escrever um diário é mergulhar nas profundezas dos sentimentos. Assim, pode ser uma ótima chance para perceber que cada pessoa é igualmente complexa. Ao escutarmos a nós mesmos, treinamos nossa capacidade de ouvir os outros.
7) Ser mais saudável
Segundo estudos da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, quem mantém um diário precisa ir menos ao médico. A conclusão é que expressas emoções combate o estresse, melhorando o funcionamento do organismo.
8) Estimular a criatividade
Mais do que um registro, o diário é como uma obra de arte. Brincar com a caligrafia, fazer ilustrações, montar colagens, enfeitar a capa, testar estilos de escrita. Tudo isso pode se revelar uma deliciosa e estimulante experimentação.
9) Cumprir metas
Anotar pequenos passos é um procedimento eficaz para atingir uma conquista maior. Se a ideia é economizar dinheiro, por exemplo, registrar os valores parciais poupados funciona como incentivo, tornando a meta mais palpável.
10) Treinar a concentração
Escrever pede foco. Se você não tem esse costume, pode ser difícil no começo. Mas, com a prática, vai se sentir mais blindado contra as distrações. E poderá usar essa habilidade em outras tarefas que exijam semelhante imersão.
11) Redescobrir-se
Ler páginas escritas anos atrás é como ter acesso à pessoa que você foi no passado. Que sonhos você tinha? O que valorizava? Perceber o que mudou permite avaliar essas transformações e, se preciso, alterar a rota.
12) Imortalizar-se
Você pode escrever um diário secreto, só para si mesmo. Mas também pode decidir transformar esses registros numa biografia. Assim, mesmo pessoas que nasceram após sua morte poderão saber quem você foi.
(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 56 jul/ago de 2017)
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Os benefícios da crise
Pesquisas recentes sobre traumas têm incluído um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, principalmente no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.
Alguns dos sintomas e sinais de uma crise e de uma trauma são semelhantes - por exemplo, tristeza, isolamento, confusão, oscilações de humor podem estar presentes nos dois casos. No entanto, a direção que uma ou outra situação toma não o é. Por isso, é de grande importância distinguir o enfrentamento de uma crise, em que se mantém viva a possibilidade de superação, transformação e crescimento, de um processo de traumatização, em que, ao contrário, a pessoa passa a viver a paralisia e o congelamento internos que a imobilizam em torno do evento que não foi possível elaborar.
Elisabeth Kübler-Ross (1983) trabalhou, por longos anos, com pacientes terminais e distinguiu cinco diferentes etapas possíveis de serem atravessadas no processo de enfrentamento da proximidade da morte, bem como do luto enfrentado pelas pessoas que perdem entes queridos. Se tonarmos o luto como a elaboração de perdas, quaisquer que sejam elas, podemos reconhecer essas etapas na base de várias diferentes crises a que estamos sujeitos em nossa vida humana.
De forma bastante resumida, a primeira fase é a da não aceitação e do isolamento. Em geral, num primeiro momento as pessoas ficam entorpecidas pelo choque ou pela dor. Podem surgir atitudes como negação e recusa de enfrentar a situação, que funcionam como um mecanismo de defesa contra aquilo que ainda não é possível suportar. Numa segunda fase, podem surgir raiva e tristeza pela perda sofrida. Nessa etapa, é comum que se manifestem sentimentos de vazio, irritabilidade e agressividade, questionamentos sobre o sentido da vida, desapontamento, preocupação, assim como a busca por culpados e perguntas do tipo: "Por que ele (a) se foi?". A raiva, nessa fase, é um sentimento natural de externalização da revolta e uma reação contra o sofrimento impingido. A terceira etapa do processo de luto é designada como fase da negociação ou barganha. Por vezes, está ligada a fortes sentimentos de culpa ou ao arrependimento por ações feitas, bem como por aquilo que não foi realizado. É possível que surjam fantasias, especialmente nas crianças, de que essas ações ou omissões foram determinantes para o que ocorreu - "minha avó se foi porque eu era malcriado com ela", "se eu tivesse sido mais amoroso, minha esposa não teria adoecido". Se a pessoa está doente e vê a proximidade da própria morte tenta fazer promessas ou negociações - com os profissionais que cuidam dela e até com Deus - com o objetivo de manter as coisas como eram até então.
Um possível quarto estágio do processo de luto é a depressão. Ela tanto pode ser reativa como preparatória. A depressão reativa ocorre quando surgem outras perdas devido à morte, por exemplo, prejuízos financeiros, mudanças de status e de padrão de vida, bem como a perda de papéis no âmbito do grupo familiar. Já a depressão preparatória é o momento em que a aceitação está mais próxima, porque há processos retrospectivos, de balanço e de reflexão que, embora possam produzir abatimento e tristeza, já significam a elaboração do ocorrido. O último estágio é, por fim, o da aceitação. Quando se chega a ele, surge uma maior serenidade frente à morte, à perda e à separação. É o momento em que é possível expressar de forma mais livre os sentimentos, emoções, frustrações e dificuldades enfrentados e com isso de fato elaborá-los. Esses estágios não são regulares e podem ser vividos ou não de acordo, mais uma vez, com as características pessoais de cada indivíduo.
Todas essas etapas precisam ser adequadamente atravessadas para que uma pessoa supere a vivência difícil e a vida para prosseguir. Os recursos e suportes necessários para as diferentes etapas devem ser propiciados, a fim de facilitar a evolução do processo. Às vezes, são coisas bem simples, como haver liberdade de expressar a raiva e todos os sentimentos experienciados, por mais difíceis e negativos que eles possam parecer. Também a presença de uma rede de apoio, como familiares, amigos e profissionais bem preparados vinculados à pessoa ou à situação enfrentada, é de grande e fundamental importância.
Sintomas
Caso as etapas de elaboração de uma perda ou da confrontação com uma realidade difícil não transcorram de tal forma satisfatória, um trauma pode se instalar. BerndRuf (2014) aponta para quatro etapas de desenvolvimento e efetiva instalação de um trauma. Ele diz que depois de um evento potencialmente estressor e que representa uma sobrecarga para o indivíduo, segue-se uma fase de choque com duração de um a dois dias. Aí podem se manifestar sintomas diversos, como uma experiência distorcida do tempo e do espaço, distúrbios perceptivos e diversas reações psicossomáticas (alergias, cefaleias, problemas digestivos, queda da imunidade etc.). Amnésias ou, ao contrário flashbacks recorrentes podem ocorrer. Atendi uma senhora que perdera o marido repentinamente por conta de um câncer agressivo que já havia evoluído muito quando foi descoberto. O único filho do casal, que tinha então 12 anos de idade e era extremamente apegado ao pai, reagiu aos poucos à perda de forma positiva, no entanto não se lembra de absolutamente nada do período que compreende a internação do pai, sua morte dez dias depois e as duas semanas seguintes. Aparentemente, ele elaborou bem o ocorrido depois disso, mas todas as lembranças desse período se perderam, sendo parcialmente reconstituídas em função dos relatos das pessoas próximas.
As oito semanas seguintes (aproximadamente) costumam ser decisivas para um bom encaminhamento do processo de elaboração. Começa a haver uma confrontação com a realidade e uma tentativa de integrar o que ocorreu. No entanto, sintomas relativos ao choque podem continuar se manifestando, embora de forma cada vez mais intensa. São eles: paralisias ou hiperatividade, depressão ou agressividade, medos e preocupações, pesadelos ou sonhos com o que aconteceu, problemas de concentração, isolamento, distúrbios do sono e da alimentação. É comum que as pessoas passem a evitar tudo o que pode lembrar o evento impactante, sejam locais, objetos, outras pessoas ou mesmo pensamentos e sentimentos. Para muitos, a experiência é de um certo congelamento interno, um amortecimento, e de vazio. Esses sintomas podem desparecer paulatinamente e se perder no período de quatro a oito semanas. Caso persistam além desse tempo, é possível que a pessoa desenvolva um distúrbio traumático. Nessas situações, cada sintoma pode se transformar em uma doença independente. O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é uma das consequências mais comuns dos traumas e precisa de tratamento.
Mais a longo prazo ainda, no caso de persistirem e se repetirem as experiências traumáticas ou mesmo os sintomas desencadeados pelo evento estressor, indicando que a experiência não pôde ser transformada, a estrutura da personalidade como um todo fica ameaçada e é possível que sofra mudanças profundas e permanentes.
Vítimas que chegam a esse estágio crônico podem se sentir sob constante ameaça e tensão. Por causa disso, é comum que apresentem atitudes como hostilidade, agressividade, conformismo extremo, perda de sentido da vida, fracasso profissional ou nos relacionamentos, isolamento social e quadros depressivos. Outra consequência possível é um distorção nos valores e traços de caráter. É frequente que vítimas se tornem algozes. De forma incontrolável essas pessoas repetem o que ocorreu, seja sofrendo novamente a mesma situação seja infligindo sofrimento aos outros.
Luto ou reação traumática?
Para que um evento traumático seja superado, deveria se seguir a fase inicial de choque, em que se fazem presentes um certo atordoamento e atitudes caóticas, uma fase de reação, na qual a pessoa já consegue confrontar com a realidade, na tentativa de integrar o que ocorreu. Então, tem lugar uma fase de adaptação, em que se procuram compreender e esclarecer o que foi vivido, o que, se for um processo bem-sucedido, implica na dissolução do trauma. Todos esses estágios encaminham-se para uma fase de reorientação, quando a vida é reorganizada e surgem novas potencialidades e possibilidades. Esses estágios são semelhantes à fase de elaboração do luto.
Apesar da grande semelhança entre os processos de luto e de trauma, há também diferenças marcantes. Segundo Levine e Kline (2010), ao passo que o luto nem sempre está relacionado a um trauma, todo trauma compreende um processo de luto.
Vejamos algumas diferenças marcantes entre um e outro. Enquanto que na reação de luto se manifestam sentimentos de tristeza sem que estes agridam a autoimagem e a autoconfiança da pessoa, a reação traumática conduz a sentimentos de impotência e perda de segurança e confiança no mundo e em si mesmo. Ao passo que o luto leva à tristeza, mas essa pode se expressar, é comum que no trauma as pessoas sofram em silêncio.
Os sonhos podem ser observados na fase que se segue a um evento difícil e trazem informações importantes sobre o processamento do ocorrido. Enquanto que nos casos de luto é comum que principalmente as crianças sonhem com os falecidos, nos sonhos que emergem em meio a processos de traumatização o que é frequente é que elas sonhem consigo mesmas como sendo as possíveis vítimas dos acontecimentos.
Finalmente, um importante traço a ser observado é que os sinais e sintomas que se apresentam ao longo de uma vivência de luto vão sendo amenizados e desaparecem com o tempo, ao contrário do que ocorre nas vivências traumáticas que não são elaboradas, nas quais, com o passar do tempo, se apresentam um aumento e a intensificação dos sintomas provenientes do choque.
Situações limitadoras
Ora, não são apenas situações extremas, de grave comprometimento psíquico, que afetam a vida das pessoas, limitando suas possibilidades e experiências. Muitos pacientes chegam ao consultório se perguntando qual é o seu trama, o que teve um poder tão forte de paralisar áreas inteiras da sua vida. Suas histórias de vida carregam, sem dúvida alguma, dificuldades, mas algumas áreas funcionam bem, enquanto outras estão comprometidas - por exemplo, é possível que alguém se realize profissionalmente, mas perceba uma enorme desordem em sua vida afetiva; ou pode ser que embora com uma vida familiar razoavelmente equilibrada, se desespere em não conseguir se expressar em outras áreas, como do trabalho, da sexualidade ou socialmente.
Muitas vezes essas pessoas já associam certos sofrimentos vividos aos bloqueios que experimentam no momento presente e vêm em busca de se certificar disso, entender melhor seus impedimentos e desatar nós, de modo a poderem viver de forma mais plena.
De fato, não são apenas traumas que paralisam ou tolhem nossas vidas. Em outros níveis mais brandos, as rupturas ocorridas no aparato psíquico que não tiverem sido completamente superadas podem continuar manifestando seus efeitos, principalmente sob a forma de bloqueios de energia psíquica e da criatividade, para viver de forma satisfatória e que corresponda às aspirações internas pessoais. O caminho para essa realização pessoal encontra-se repleto de obstáculos.
Tal como na teoria psicanalítica, Jung, discípulo de Freud, que depois se afastou dele, criando sua própria teoria, a Psicologia Analítica, estudou com especial interesse as situações traumáticas, chegando, então, a um conceito que hoje já faz parte de nosso vocabulário, a noção de complexos. Segundo Jung, os complexos são grupos de conteúdos psíquicos que se separam da consciência devido a situações traumáticas ou não elaboradas. Uma vez que a consciência não consegue lidar com tais conteúdos, precisa retirá-los do seu campo de ação.
Segundo Stein (2006), Jung descreve a estrutura do complexo como sendo composta por um núcleo formado por esses conteúdos que foram retirados da consciência - imagens associadas ao evento traumático e memórias congeladas e reprimidas -ao qual vão, então, se associando novas experiências de teor emocional idêntico. Por exemplo, à emoção decorrente da experiência de abandono paterno é possível que uma pessoa vá associando ao longo da vida outras experiências - e suas respectivas imagens e emoções - de abandono ou ruptura com outras figuras de autoridade e apego, sejam elas um chefe, o marido, amigos e assim por diante.
O efeito disso é que os complexos vão se fortalecendo e passam a restringir cada vez mais a liberdade de atuação da pessoa, roubando sua possibilidade de escolha e de decisão. Os conteúdos encapsulados e apartados da consciência irão determinar que a pessoa não disponha de seus recursos internos para lidar com determinadas situações. A simples suposição de um abandono, por exemplo, pode disparar certas atitudes defensivas, que além de estarem repletas de ansiedade, medos e sofrimento, não são eficazes e talvez até desencadeiem de fato aquilo quer mais se deseja evitar.
Tal como os sintomas, os complexos são indicativos de bloqueios no curso de energia psíquica, são sinais de alarme de que algo essencial não está indo bem no campo da psique. Suspender o bloqueio e ampliar a consciência é de fundamental importância para lidar com as restrições e a falta de liberdade que sintomas e complexos impõem.
Amadurecimento
Se existe um ponto de confluência para todas essas diferentes situações é o potencial que elas carregam de, uma vez atravessadas, representarem uma transformação indescritível na vida, um divisor de águas que representa um enorme crescimento, um ponto a partir do qual a vida realmente ganha sentido.
Retomando a analogia inicial da psique com o corpo físico, podemos dizer que assim como o organismo pode sair fortalecido de uma doença ou trauma que superou, também podemos amadurecer internamente e nos fortalecer ao atravessarmos uma crise. Muitas pessoas relatam mudanças realmente significativas em suas vidas depois que superaram experiências difíceis ou traumáticas. É possível que todos nós saibamos por experiência própria que crises existenciais e golpes do destino, quando elaborados positivamente, nos ajudam a crescer.
Por muito tempo, as pesquisas sobre traumas concentraram-se quase que exclusivamente nos efeitos psicopatológicos de tais experiências. Mais recentemente, no entanto, tem-se incluído nesses estados um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.
O que se tem verificado nos estudos científicos recentes é que o risco de distúrbios psíquicos guarda uma relação equitativa com a configuração de oportunidades e chances de desenvolvimento na vida das pessoas atingidas por situações indesejadas e impactantes. Isso significa que um choque ou trauma também pode mudar a vida positivamente.
Segundo Viktor Frankl (1998), o fator essencialmente impulsionador para o ser humano é a busca de sentido para a vida. No momento em que uma pessoa se pergunta sobre o sentido da vida, ela expressa o que há de mais essencialmente humano em si mesma.
Semelhante à noção de individuação de Jung, essa busca pelo sentido da vida diz respeito à tentativa de encontrar aquilo que exprime a própria unicidade e integralidade, a realização como indivíduo singular, capaz de viver da forma mais plena e autêntica possível.
Ora, um dos fatores essenciais da resiliência é justamente a possibilidade de constituir novos sentidos. É apenas quando a pessoa integra o ocorrido, simbolizando e interpretando o que ocorreu numa perspectiva de crescimento pessoal, é que ela volta a encontrar motivação para seguir vivendo.
Sendo assim, entendemos que tudo que propiciar e favorecer a retomada do sentido, incluindo aí uma revisão total de valores e a construção de novos significados e de entendimentos da vida, propiciará a retomada do equilíbrio psíquico e poderá significar até mesmo uma condição de mais saúde mental. Como muitas pessoas acabam descobrindo, a desconstrução e reconstrução desses sentidos podem ser fatores essenciais para a descoberta de uma real direção para a vida pessoal. Nesse caso, os perigos de ruptura interna e os sofrimentos enfrentados passam a representar uma verdadeira possibilidade de considerar a própria experiência de forma profunda e reformulá-la.
Crises e traumas, quando enfim elaborados e integrados, são uma oportunidade única na vida - difíceis, mas com um potencial incomparável de crescimento e evolução.
Consequências da superação
O amadurecimento produzido pela superação de situações reflete-se em novas possibilidades de via, que implicam num relacionamento diferente consigo próprio, com as outras pessoas, com o mundo e com os próprios fatos e condições de vida. Os efeitos biográficos positivos de psicotraumas vencidos estão relacionados a pelo menos quatgro dimensões da vida:
Relacionamentos humanos - após uma bem-sucedida superação de estresse intenso, com frequência, nota-se maior sensibilidade no trato com os outros e um aprofundamento nas relações com a família e com os amigos, valorizando-se essas relações e havendo uma maior abertura nas formas de comunicação e de vínculo.
Perspectivas de vida - após a superação positiva de experiências de vida difíceis, também pode haver uma ampliação da perspectiva de vida, com a descoberta de novos interesses e a elaboração de novas metas e planos. A própria vida é reconfigurada, incluindo-se aí valores e projetos mais significativos, positivos e de crescimento. Isso pode envolver a abertura, questionamentos e interesse mais profundo a respeito de temas existenciais, incluindo ou não interesses relativos à espiritualidade e à religiosidade.
Amadurecimento da personalidade - em geral, como resultado, da superação positiva de uma situação traumática, segue-se também um aumento de fatores pessoais positivos, como autoconfiança, autoconhecimento, força e segurança emocional, ou seja, um amadurecimento da personalidade como um todo. Lidar de forma bem-sucedida com uma situação difícil constrói uma sensação de segurança para enfrentar desafios futuros. A superação dá confiança de que será possível enfrentar outras situações da maneira igualmente positiva e construtiva.
Valorização da própria vida - é comum que depois da superação de uma crise ou situação traumática, as pessoas estabeleçam com mais facilidade aquilo que é prioritário para elas e diferenciem o que é importante daquilo que não tem importância. Com frequência se ouve nos relatos dessas pessoas que elas começaram a viver de forma mais consciente e a valorizar mais a vida, dando mais importância àquilo que antes não reconheciam como valioso em suas vidas. Esse redimensionamento dos fatos e circunstâncias é um dos efeitos mais significativos do enfrentamento de uma condição de impacto inicialmente negativo.
Luto ou reação traumática?
Para que um evento traumático seja superado, deveria se seguir a fase inicial de choque, em que se fazem presentes um certo atordoamento e atitudes caóticas, uma fase de reação, na qual a pessoa já consegue confrontar com a realidade, na tentativa de integrar o que ocorreu. Então, tem lugar uma fase de adaptação, em que se procuram compreender e esclarecer o que foi vivido, o que, se for um processo bem-sucedido, implica na dissolução do trauma. Todos esses estágios encaminham-se para uma fase de reorientação, quando a vida é reorganizada e surgem novas potencialidades e possibilidades. Esses estágios são semelhantes à fase de elaboração do luto.
Apesar da grande semelhança entre os processos de luto e de trauma, há também diferenças marcantes. Segundo Levine e Kline (2010), ao passo que o luto nem sempre está relacionado a um trauma, todo trauma compreende um processo de luto.
Vejamos algumas diferenças marcantes entre um e outro. Enquanto que na reação de luto se manifestam sentimentos de tristeza sem que estes agridam a autoimagem e a autoconfiança da pessoa, a reação traumática conduz a sentimentos de impotência e perda de segurança e confiança no mundo e em si mesmo. Ao passo que o luto leva à tristeza, mas essa pode se expressar, é comum que no trauma as pessoas sofram em silêncio.
Os sonhos podem ser observados na fase que se segue a um evento difícil e trazem informações importantes sobre o processamento do ocorrido. Enquanto que nos casos de luto é comum que principalmente as crianças sonhem com os falecidos, nos sonhos que emergem em meio a processos de traumatização o que é frequente é que elas sonhem consigo mesmas como sendo as possíveis vítimas dos acontecimentos.
Finalmente, um importante traço a ser observado é que os sinais e sintomas que se apresentam ao longo de uma vivência de luto vão sendo amenizados e desaparecem com o tempo, ao contrário do que ocorre nas vivências traumáticas que não são elaboradas, nas quais, com o passar do tempo, se apresentam um aumento e a intensificação dos sintomas provenientes do choque.
Situações limitadoras
Ora, não são apenas situações extremas, de grave comprometimento psíquico, que afetam a vida das pessoas, limitando suas possibilidades e experiências. Muitos pacientes chegam ao consultório se perguntando qual é o seu trama, o que teve um poder tão forte de paralisar áreas inteiras da sua vida. Suas histórias de vida carregam, sem dúvida alguma, dificuldades, mas algumas áreas funcionam bem, enquanto outras estão comprometidas - por exemplo, é possível que alguém se realize profissionalmente, mas perceba uma enorme desordem em sua vida afetiva; ou pode ser que embora com uma vida familiar razoavelmente equilibrada, se desespere em não conseguir se expressar em outras áreas, como do trabalho, da sexualidade ou socialmente.
Muitas vezes essas pessoas já associam certos sofrimentos vividos aos bloqueios que experimentam no momento presente e vêm em busca de se certificar disso, entender melhor seus impedimentos e desatar nós, de modo a poderem viver de forma mais plena.
De fato, não são apenas traumas que paralisam ou tolhem nossas vidas. Em outros níveis mais brandos, as rupturas ocorridas no aparato psíquico que não tiverem sido completamente superadas podem continuar manifestando seus efeitos, principalmente sob a forma de bloqueios de energia psíquica e da criatividade, para viver de forma satisfatória e que corresponda às aspirações internas pessoais. O caminho para essa realização pessoal encontra-se repleto de obstáculos.
Tal como na teoria psicanalítica, Jung, discípulo de Freud, que depois se afastou dele, criando sua própria teoria, a Psicologia Analítica, estudou com especial interesse as situações traumáticas, chegando, então, a um conceito que hoje já faz parte de nosso vocabulário, a noção de complexos. Segundo Jung, os complexos são grupos de conteúdos psíquicos que se separam da consciência devido a situações traumáticas ou não elaboradas. Uma vez que a consciência não consegue lidar com tais conteúdos, precisa retirá-los do seu campo de ação.
Segundo Stein (2006), Jung descreve a estrutura do complexo como sendo composta por um núcleo formado por esses conteúdos que foram retirados da consciência - imagens associadas ao evento traumático e memórias congeladas e reprimidas -ao qual vão, então, se associando novas experiências de teor emocional idêntico. Por exemplo, à emoção decorrente da experiência de abandono paterno é possível que uma pessoa vá associando ao longo da vida outras experiências - e suas respectivas imagens e emoções - de abandono ou ruptura com outras figuras de autoridade e apego, sejam elas um chefe, o marido, amigos e assim por diante.
O efeito disso é que os complexos vão se fortalecendo e passam a restringir cada vez mais a liberdade de atuação da pessoa, roubando sua possibilidade de escolha e de decisão. Os conteúdos encapsulados e apartados da consciência irão determinar que a pessoa não disponha de seus recursos internos para lidar com determinadas situações. A simples suposição de um abandono, por exemplo, pode disparar certas atitudes defensivas, que além de estarem repletas de ansiedade, medos e sofrimento, não são eficazes e talvez até desencadeiem de fato aquilo quer mais se deseja evitar.
Tal como os sintomas, os complexos são indicativos de bloqueios no curso de energia psíquica, são sinais de alarme de que algo essencial não está indo bem no campo da psique. Suspender o bloqueio e ampliar a consciência é de fundamental importância para lidar com as restrições e a falta de liberdade que sintomas e complexos impõem.
Amadurecimento
Se existe um ponto de confluência para todas essas diferentes situações é o potencial que elas carregam de, uma vez atravessadas, representarem uma transformação indescritível na vida, um divisor de águas que representa um enorme crescimento, um ponto a partir do qual a vida realmente ganha sentido.
Retomando a analogia inicial da psique com o corpo físico, podemos dizer que assim como o organismo pode sair fortalecido de uma doença ou trauma que superou, também podemos amadurecer internamente e nos fortalecer ao atravessarmos uma crise. Muitas pessoas relatam mudanças realmente significativas em suas vidas depois que superaram experiências difíceis ou traumáticas. É possível que todos nós saibamos por experiência própria que crises existenciais e golpes do destino, quando elaborados positivamente, nos ajudam a crescer.
Por muito tempo, as pesquisas sobre traumas concentraram-se quase que exclusivamente nos efeitos psicopatológicos de tais experiências. Mais recentemente, no entanto, tem-se incluído nesses estados um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.
O que se tem verificado nos estudos científicos recentes é que o risco de distúrbios psíquicos guarda uma relação equitativa com a configuração de oportunidades e chances de desenvolvimento na vida das pessoas atingidas por situações indesejadas e impactantes. Isso significa que um choque ou trauma também pode mudar a vida positivamente.
Segundo Viktor Frankl (1998), o fator essencialmente impulsionador para o ser humano é a busca de sentido para a vida. No momento em que uma pessoa se pergunta sobre o sentido da vida, ela expressa o que há de mais essencialmente humano em si mesma.
Semelhante à noção de individuação de Jung, essa busca pelo sentido da vida diz respeito à tentativa de encontrar aquilo que exprime a própria unicidade e integralidade, a realização como indivíduo singular, capaz de viver da forma mais plena e autêntica possível.
Ora, um dos fatores essenciais da resiliência é justamente a possibilidade de constituir novos sentidos. É apenas quando a pessoa integra o ocorrido, simbolizando e interpretando o que ocorreu numa perspectiva de crescimento pessoal, é que ela volta a encontrar motivação para seguir vivendo.
Sendo assim, entendemos que tudo que propiciar e favorecer a retomada do sentido, incluindo aí uma revisão total de valores e a construção de novos significados e de entendimentos da vida, propiciará a retomada do equilíbrio psíquico e poderá significar até mesmo uma condição de mais saúde mental. Como muitas pessoas acabam descobrindo, a desconstrução e reconstrução desses sentidos podem ser fatores essenciais para a descoberta de uma real direção para a vida pessoal. Nesse caso, os perigos de ruptura interna e os sofrimentos enfrentados passam a representar uma verdadeira possibilidade de considerar a própria experiência de forma profunda e reformulá-la.
Crises e traumas, quando enfim elaborados e integrados, são uma oportunidade única na vida - difíceis, mas com um potencial incomparável de crescimento e evolução.
Consequências da superação
O amadurecimento produzido pela superação de situações reflete-se em novas possibilidades de via, que implicam num relacionamento diferente consigo próprio, com as outras pessoas, com o mundo e com os próprios fatos e condições de vida. Os efeitos biográficos positivos de psicotraumas vencidos estão relacionados a pelo menos quatgro dimensões da vida:
Relacionamentos humanos - após uma bem-sucedida superação de estresse intenso, com frequência, nota-se maior sensibilidade no trato com os outros e um aprofundamento nas relações com a família e com os amigos, valorizando-se essas relações e havendo uma maior abertura nas formas de comunicação e de vínculo.
Perspectivas de vida - após a superação positiva de experiências de vida difíceis, também pode haver uma ampliação da perspectiva de vida, com a descoberta de novos interesses e a elaboração de novas metas e planos. A própria vida é reconfigurada, incluindo-se aí valores e projetos mais significativos, positivos e de crescimento. Isso pode envolver a abertura, questionamentos e interesse mais profundo a respeito de temas existenciais, incluindo ou não interesses relativos à espiritualidade e à religiosidade.
Amadurecimento da personalidade - em geral, como resultado, da superação positiva de uma situação traumática, segue-se também um aumento de fatores pessoais positivos, como autoconfiança, autoconhecimento, força e segurança emocional, ou seja, um amadurecimento da personalidade como um todo. Lidar de forma bem-sucedida com uma situação difícil constrói uma sensação de segurança para enfrentar desafios futuros. A superação dá confiança de que será possível enfrentar outras situações da maneira igualmente positiva e construtiva.
Valorização da própria vida - é comum que depois da superação de uma crise ou situação traumática, as pessoas estabeleçam com mais facilidade aquilo que é prioritário para elas e diferenciem o que é importante daquilo que não tem importância. Com frequência se ouve nos relatos dessas pessoas que elas começaram a viver de forma mais consciente e a valorizar mais a vida, dando mais importância àquilo que antes não reconheciam como valioso em suas vidas. Esse redimensionamento dos fatos e circunstâncias é um dos efeitos mais significativos do enfrentamento de uma condição de impacto inicialmente negativo.
(texto publicado na revista Psique nº 113 - ano IX)
quinta-feira, 5 de maio de 2016
Curar as feridas do pai ausente... (O Segredo)
Todos sabemos o quão difícil pode ser definir o termo família. Integramos nesta dimensão aqueles que compartilham o nosso mesmo sangue? Ou as pessoas que escolhemos livremente e com quem construímos vínculos positivos e significativos?
Falar de família às vezes cutuca certas feridas, frustrações e pequenos rancores. De fato, poderíamos dizer sem sombra de dúvida que uma das figuras mais complexas e que surgem com maior frequência é a do “pai ausente”.
O pai ausente não é só o vazio físico de uma figura que não tivemos; às vezes, é também alguém que “mesmo estando” não soube ou não quis exercer o seu papel. É uma ausência psicológica capaz de criar em uma criança diversas feridas emocionais.
É muito possível que esta situação lhe seja conhecida. Que você a tenha vivido na própria pele ou que a tenha observado no seu círculo social mais próximo.
Às vezes, quando pedimos para alguém falar da sua família, não vacilam em dar mil histórias das suas mães, avós, tios, entretanto, na hora de falar do seu pai, o sorriso fica forçado e aparece o silêncio. Os ombros se encolhem e titubeiam um…
“Não sei, meu pai era… era simplesmente ele. Estava ali, sem mais”.
Não queremos dizer que este tipo de vazio emocional seja característico exclusivamente da figura paterna, também pode acontecer com a figura materna, contudo, é muito comum que na hora de falar desse tipo de educação prejudicial, capaz de deixar marcas de amadurecimento, a figura do pai ausente esteja presente.
Convidamos você a se aprofundar um pouco mais nesta reflexão.
O pai ausente emocionalmente, mas presente na família
Crescer sem pai, sem mãe ou sem uma figura relevante na infância em função de um fato traumático é algo que sempre carregaremos, e que deixa cicatrizes internas que procuramos superar.
Contudo, o fato de crescer junto a uma figura paterna que, apesar de estar, é incapaz de contribuir com plenitude, carinho ou reconhecimento, deixa correntes de vazio no coração de uma criança que está aprendendo a construir o seu mundo.
Há quem diga que o peso da criação, do cuidado e da educação recai sobre a figura materna. Não se pode negar a sua importância na hora de criar esse carinho saudável com o qual dar segurança a cada um dos nossos passos.
Agora, o pai também é importante neste processo, e isso é algo que ninguém pode negar; mas… o que acontece quando no seio familiar existe um pai ausente que não estabelece vínculo algum com seus filhos?
– O cérebro de uma criança é um ávido processador de estímulos, e no seu dia a dia precisa de estímulos positivos para poder crescer de forma madura e segura.
– Um pai ausente produz incongruências, vazios e dificuldades no contato com os outros. A criança espera carinho, comunicação e uma interação diária com a qual se abrir ao mundo também através do seu pai. Contudo, só encontra muralhas.
– Um trato vazio e esquivo gera ansiedade nas crianças, não sabem “a que se apegar”, desenvolvem expectativas que não se cumprem, e tendem além disso, a comparar “pais alheios” aos que eles têm em casa. Sabem que os pais dos seus amigos agem de modo diferente do seu.
Que consequências a figura do pai ausente provoca na idade adulta?
Gera um desapego afetivo que torna a pessoa mais insegura na hora de estabelecer determinadas relações, podendo chegar a ser um tanto desconfiado. A ideia de projetar uma alta carga afetiva em alguém provoca medo, temor de ser traído ou não reconhecido. Ou ainda pior, ser ignorado.
A medida que crescemos, é muito provável que ganhemos consciência de muitas outras coisas. O esforço que a mãe fez para suprir as carências do pai ausente é reconhecido, e também se entende como mais de uma vez ela se desculpou com frases como…
“Você já sabe como é o seu pai”, “Não faça isso que você já sabe que o seu pai não gosta”, “É que você não o entende…”
A medida que amadurecemos, nossos olhos se abrem ao mundo e passam a ler as entrelinhas. Os gigantes viram anões porque já conhecemos os seus segredos. Contudo, uma parte de nós continua sendo vulnerável a esse passado.
Como superar as feridas do pai ausente
Você cresceu, paga suas contas, leva com orgulho a sua armadura inquebrável e sabe muito bem o que deve fazer atualmente para não cometer os mesmos erros que os seus pais cometeram com você.
Contudo, o vazio do pai ausente continua ali, e não importa se no presente você continua se relacionando com ele, ou se ele já se foi, ou se você se cala nas reuniões familiares e age como se o passado nunca tivesse existido.
A primeira coisa que deveríamos fazer é “entender”. Compreenda que o pai ausente é um homem que não soube exercer o seu papel de pai, porque nunca entendeu muito bem o seu papel como pessoa.
É muito provável que não tivesse as habilidades pessoais adequadas, uma boa autoestima, equilíbrio interior que lhe permitisse ver seus erros, seus medos e suas próprias carências.
Agora, isto justifica o que ele lhe causou? O vazio emocional que lhe deixou? Claro que não, mas a compreensão nos ajuda a nos adequar à realidade, a evitar armazenar mais emoções negativas.
– Você sabe que cresceu e amadureceu com muitos vazios por causa desse tipo de educação e dessas carências afetivas. Contudo, sempre chega o momento em que deveríamos cortar o vínculo com o sofrimento de ontem, para curar as feridas neste presente.
– Se você não teve a presença do seu pai, o mais provável é que a sua figura de carinho mais saudável e representativa fosse outra: a sua mãe, os seus avós ou inclusive os seus amigos ou companheiros conforme você crescia. Foram eles que se tornaram os seus pilares no dia a dia.
A sua família autêntica. A que importa de verdade.
Um pai não é apenas o que dá a vida, um pai é aquele que está presente, que acolhe, cuida e guia em segurança construindo cada dia um caminho de momentos significativos na vida de uma criança.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
5 feridas emocionais da infância que persistem quando somos adultos (Melhor com Saúde)
É bastante comum, infelizmente, que a nossa saúde emocional esteja danificada desde a infância. Frequentemente, não somos conscientes do que é o que nos bloqueia, o que nos dá vertigem ou o que nos provoca temor.
Em grande parte desses casos, a origem está em situações que vivemos de crianças, essas feridas que nos ocasionaram nossas primeiras experiências com o mundo e que não pudemos curar.
Devemos ser conscientes delas e, portanto, evitar disfarçá-las, pois, quanto mais tempo esperamos para curá-las, mais profundas elas vão se tornar. O medo a reviver o sofrimento que nos causaram faz com que evitemos essas situações, mas isso só vai dificultar o nosso desenvolvimento e nos prejudicará.
Traição, humilhação, desconfiança, abandono, injustiça… São algumas das feridas que Lisa Bourbeau nos assinala no seu livro “As cinco feridas que impedem de ser nós mesmos”. Vejamos a seguir como podemos identificá-las:
1. O medo ao abandono
O desamparo é o pior inimigo de quem viveu o abandono em sua infância.Imaginem-se quão doloroso tem que ser para uma criança sentir o medo de estar sozinho, isolado e desprotegido diante de um mundo que não conhece.
Como consequência, quando a criança desamparada for adulta, tentará prevenir o fato de voltar a sofrer o abandono. Portanto, quem já passou por isso, vai tender a abandonar tanto os seus companheiros, como os seus projetos de forma precoce. Isso responde, única e exclusivamente, ao temor que lhe ocasiona reviver aquele sofrimento.
É muito comum que estas pessoas falem ou pensem desta forma: “Deixo você antes que você me deixe”, “ninguém me apoia, não estou disposto a suportar isso”, “se for embora, não volte…”.
Essas pessoas vão ter que trabalhar seu medo à solidão, seu temor a serem abandonadas e a sua rejeição ao contato físico (abraços, beijos, contatos sexuais…). Essa ferida não é fácil de curar, mas um bom começo para cicatrizá-la é confrontar o temor a ficar a sós até que flua um diálogo interior positivo e esperançoso.
2. O medo da rejeição
Essa ferida nos impede de aceitar os nossos sentimentos, nossos pensamentos e nossas vivências.
Sua aparição na infância é ocasionada pela rejeição dos progenitores, da família ou dos seus pares. A dor que é gerada por essa ferida impede uma construção adequada da autoestima e do amor próprio da pessoa que o sofre.
Gera pensamentos de rejeição, de não ser desejado e de desqualificação com nós mesmos.
Essa criança rejeitada não se sente merecedora de afeto nem de compreensão e o que lhe faz se isolar por temor a voltar a experimentar esse sofrimento.
Se esse for seu caso, ocupe o seu lugar, arrisque e tome decisões por si mesmo. Cada vez, vai lhe incomodar menos que a pessoa se afaste e não vai tomar como uma questão pessoal que se esqueceram de você em algum momento. Você é a única pessoa que você precisa para viver.
3. A humilhação
Essa ferida é gerada quando sentimos que os outros nos desaprovam e nos criticam. Podemos criar esses problemas nas nossas crianças, dizendo a elas que são desajeitadas, más ou chatas, e também mostrando os seus problemas frente aos demais (uma coisa que é, tristemente, muito comum). Isso, sem dúvida, destrói a autoestima infantil e, portanto, dificulta a possibilidade de cultivar um amor próprio saudável.
O tipo de personalidade gerada, com frequência, é uma personalidade dependente. Além disso, podemos ter aprendido a ser “tiranos” e egoístas como um mecanismo de defesa, e inclusive a humilhar a outros como escudo protetor.
Ter sofrido esse tipo de experiências requer um trabalho pela nossa independência, nossa liberdade, a compreensão das nossas necessidades e temores, assim como as nossas prioridades.
4. A traição ou o medo de confiar
Essa ferida se abre quando pessoas próximas à criança não cumprem suas promessas, fazendo que ela se sinta traída e enganada. Como consequência, se gera uma desconfiança que pode ser transformada em inveja e em outros sentimentos negativos, por não se sentir merecedora do prometido e do que os demais têm.
Sofrer esses problemas na infância constrói personalidades controladoras e perfeccionistas. São pessoas que querem ter tudo pronto e arrumado, sem deixar nada ao azar.
Se você já sofreu esses problemas na infância, é provável que sinta a necessidade de exercer certo controle sobre outros. Isso se justifica, frequentemente, pela presença de um caráter forte; entretanto, digamos que obedeça a um mecanismo de defesa, um escudo de proteção diante do desengano.
Essas pessoas costumam confirmar seus enganos por sua forma de atuar, justificando seus prejuízos. É necessário trabalhar a paciência, a tolerância e o saber viver, assim como aprender a estar sozinhos e a delegar responsabilidades.
5. A injustiça
O sentimento de injustiça nasce nos lares nos quais os cuidadores principais são frios e autoritários. Uma exigência excessiva gera sentimentos de ineficácia e de inutilidade, tanto na infância como na idade adulta.
Albert Einstein sintetizou esta ideia muito bem na sua frase, mais do que famosa“Todos somos gênios. Mas se julgarmos um peixe por sua habilidade de subir em uma árvore, viveremos a vida toda acreditando que ele é estúpido”.
Como consequência, quem experimenta essa dor, pode chegar a ser uma pessoa rígida que não admite meias nuances em nenhuma ordem da sua vida. Costumam ser pessoas que tentam ser muito importantes e alcançar um grande poder.
É provável que seja criado um fanatismo pela ordem, pelo perfeccionismo ou, inclusive, pelo caos. A questão é que são pessoas que radicalizam suas ideias e, por isso, têm dificuldades para tomar decisões com segurança.
Para fazer frente a esses problemas, é preciso trabalhar a suspicácia e a rigidez mental, com objetivo de gerar uma maior flexibilidade e permitir a confiança nos outros.
Agora que já conhecemos as cinco feridas da alma que podem afetar nosso bem-estar, a nossa saúde e a nossa capacidade para nos desenvolver como pessoas, podemos começar a curá-las.
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