Mostrando postagens com marcador Star Wars. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Star Wars. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Luke Skywalker (o herói de todos os heróis)


O herói de Guerra nas estrelas, filme de ação e aventura intergalática, Luke, é um garoto comum da área rural que, por acaso, intercepta um pedido de ajuda de uma bela princesa. Logo, Luke sai em uma jornada para resgatar a garota, gerando três dos filmes mais populares jamais produzidos. Guerra nas estrelas (1977) tinha os mais incríveis efeitos visuais da época e fez de George Lucas um gigante de Hollywood. A trilogia de Guerra nas estrelas alimentou a imaginação de duas gerações. No mundo do entretenimento, Guerra nas estrelas consiste na trilogia e nos três episódios anteriores, mais dezenas de romances derivados e milhares de brinquedos, álbuns de figurinhas, paródias e lancheiras. A fábula dominou de tal forma o panorama cultural que seu vocabulário e imaginário invadiram até a política internacional.

Vivenciamos tanto a aventura do herói quando a expectativa do final da história, enquanto acompanhamos o jovem Luke (interpretado por Mark Hamill) em sua busca pela aprovação do pai. A essência do enredo é que Luke é ajudado por um velho sábio a resgatar a princesa e salvar a galáxia do Império do mal e de seu principal servidor - o pai de Luke, o perigoso Darth Vader. Luke tem de escolher entre lutar contra seu pai ou se unir a ele. O tema psicológico da história é o conflito essencial entre pai e filho, descrito por Freud. "Todo garoto deve entrar em confronto com algum tipo de figura paterna se quiser realmente atingir a maturidade." Mas a história não trata de uma simples sessão de psicodrama. Inspirada pelo trabalho do renomado estudioso de mitologia Joseph Campbell, a história segue o caminho clássico comum a contos populares de todo o mundo. Luke não é simplesmente um personagem substituível, ele é todos os heróis.

A fórmula é universal: Primeiro, alguma coisa motiva a aventura - uma razão para deixar o mundo com o qual o herói está acostumado. Depois, há a ajuda sobrenatural. Então, várias provações e novos amigos pelo caminho. Finalmente, um confronto face a face com o inimigo... e a vitória. O herói volta para casa triunfante, trazendo algum tipo de recompensa - comida, riquezas, mágica, um presente de casamento ou uma princesa.

Os filmes ainda têm um segundo tema: a viagem espiritual de Skywalker. Em termos religiosos, a jornada do herói é deixar o mundo cotidiano, entrar no domínio dos deuses e retornar com um poder mágico. Luke aprende a usar a "Força", uma energia criada por seres vivos e um aliado poderoso. Revelada por Obi-Wan Kenobi, um mestre das artes místicas, ela conduzirá Luke com segurança pelos perigos, permitirá que ele fale com os mortos e o guiará nos combates.

Na cena apoteótica do primeiro filme, Guerra nas estrelas, o computador de Luke era o alvo mais crucial. Luke não pode mais contar com o computador e deve usar sua intuição - a Força - para dar o tiro que leva à vitória.

Mas o inimigo é persistente e, no segundo filme, O império contra-ataca, Luke é treinado por um Mestre ainda mais velho, Yoda, para dominar completamente a Força e suas outras utilidades: levitar objetos, voar e telepatia.

No último filme da trilogia, O retorno de Jedi, Luke confronta o chefe de seu pai, o imperador do mal. O Lorde Vader precisa se sacrificar para salvar seu filho e Luke emerge como um adulto formado, em harmonia com o mundo espiritual e seguro de seu próprio destino.

No mundo real da década de 1980, o presidente Ronald Reagan referiu-se à União Soviética como o "Império do Mal" e gastou bilhões de dólares em um sofisticado sistema defensivo chamado "Guerra nas Estrelas", que pode pelo menos levar os créditos pelo fim da Guerra Fria. Guerra nas estrelas, por meio dos programas militares que inspirou, derrotou a União Soviética, não pelo combate, mas empurrando-a para a falência.

Intuição, no sentido de Guerra nas estrelas, pode ser a faceta mais importante e, ao mesmo tempo, mais ignorada de nosso mundo orientado para máquinas. Quando é que você tem tempo de olhar além do racional, do dia-a-dia, para ver o que realmente o cerca? Confie em seus sentimentos, em seus "instintos". Mesmo no âmbito da ciência, você precisa saber quando seu equipamento não está funcionando direito. Somos obcecados pela alta tecnologia, mas alguns poucos sensores disfuncionais podem causar o derretimento de um gerador nuclear, e um pedaço de material isolante pode destruir um ônibus espacial de bilhões de dólares e seus tripulantes.

Skywalker, com o poder da Força, sabia quando podia usar seu computador e quando deveria ignorá-lo. E nós, sabemos disso?

Talvez você não saiba...

Em pesquisa em três livrarias de Nova Jersey em 2005, um dos autores descobriu que os livros de Guerra nas Estrelas ganhavam mais espaço nas prateleiras do que escritores de ficção científica já famosos, mais espaço até que os livros de Asimov, Bradbury e Heinlein juntos.

Para saber mais, leia:

O herói de mil faces, de Joseph Campbell
Manual de intuição prática, de Laura Day.
As máscaras de Deus: mitologia ocidental, de Joseph Campbell.
Star Wars: The Magic of Myth, de Mary Henderson.
A trilogia da Fundação, de Isaac Asimov.



(texto publicado no livro As pessoas mais importantes do mundo que nunca viveram de Allan Lazar, Dan Karlan, Jeremy Salter)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Star Wars: a amizade de Joseph Campbell e George Lucas


É difícil falar sobre Star Wars de forma objetiva, mas é um fato que George Lucas em seu inicio fez algo extraordinário e é importante lembrar uma de suas maiores influencias ao criar este universo que nos remonta a emoção do natal quando crianças. A relação de George Lucas com o renomado mitólogo e escritor Joseph Campbell é de conhecimento público. Autor de vários livros e vasto conhecimento étnico e cultural, Joseph Campbell desenvolve o conceito “Monomito”.

O Monomito pode ser definido como a repetição de temas mitológicos a través do tempo se utilizando dos mesmos “elementos narrativos” e como o próprio Campbell nos diz “esses mitos têm sido a viva inspiração de todos os demais produtos possíveis das atividades do corpo de da mente humanos”.

Um bom amigo não teve contato com a trilogia original me disse pouco depois de ver o Episódio IV: Uma nova esperança; “Parece um conto de fada” observação que me pareceu interessante, pois os mitos e os contos de fada a pesar de suas diferenças bebem da mesma fonte sendo esta a psique, porém existe uma diferença entre ambos como nos diz Von Franz:

“Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, consequentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique” (Franz, 1990).

Isto pode ser observado com facilidade no primeiro filme (Episódio IV) que já que nos apresenta alusões históricas, sociais e visuais difíceis de serem ignoradas. Tais alusões nos mantêm ancorados a um “passado distante e ao mesmo tempo não tão distante” que conseguimos identificar, enquanto a fantasia nos transporta a um “Há muito tempo em uma galáxia muito distante…”. A pesar que esta frase inicial nos remeta a um conto de fadas.

O relacionamento entre Joseph Campbell e George Lucas foi posterior a elaboração da trilogia original, sendo que o primeiro jamais havia visto a saga até que George Lucas insistiu.

“Alguns anos depois de seu primeiro encontro, o tempo finalmentete chegou para que Lucas mostrasse a Campbell seu trabalho. Lucas conta aos biógrafos de Campbell: “[…] Em algum momento falei sobre Star Wars, e ele ouvira falar sobre Star Wars”. Disse-lhe “Você tem algum interesse em assisti-las?” Nesse tempo já tinha concluído os três filmes. Ele disse “Assistirei as três”. Eu disse “Você gostaria de assistir uma por dia?” porque ele ficaria uma semana mais ou menos. “Não, não, quero assistir todas de uma vez”” (O.Seastrom, 2015).

O contato inicial de Lucas com Campbell foi a través de seu livro mais famoso “O Herói das mil Faces” o qual foi produto de seus estudos sobre antropologia na universidade. Assim temos a aventura do Herói da qual Campbell escreveu de forma extensa retratada com clareza na trilogia original.

Se Campbell tinha razão sobre a maneira como os mitos nos falam de forma tão intima podemos ver na explosão que surge de Star Wars trás sua estreia em 1977, tendo uma legião de fãs fiéis e entusiastas casuais.

A estreia do novo filme (Star Wars Episódio VII) percebe-se o renascimento deste fenômeno assim como também uma atualização do mito se adequando ao momento específico no qual vivemos, mas também observamos que os escritores, seja por respeito ao espírito da historia ou por medo, repetem vários elementos notáveis do Episódio IV.

Isto é algo que já foi observado nos filmes anteriores (Episódio I, II, III) se referenciando a trilogia original de forma notável na direção e argumentação, situação da qual Lucas fala abertamente, se referindo à Saga como música e posteriormente como poesia por seu ritmo e variações (Klimo, 2014).

Campbell nos deu um modelo com vários elementos importantes que compõem a narrativa do mito do Herói e considerando Star Wars um mito criado de forma “consciente” nos permite ver o Episódio VII com olhos mais contemporâneos além de apresentar o Universo para uma geração que precisa de tal contextualização para compreender a historia que vem sendo contada.

Além disto, Star Wars propõe que o espaço é o cenário perfeito para que novos mitos e historias se desenvolvam. Sendo o espaço o novo “Grande Desconhecido” de nosso século. Entendendo o caráter mítico em Star Wars podemos nos distanciar das tecnicidades cientificas e abraçar a linguagem Simbólica coisa que também parecia estar claro para Campbell:

“Contemplar o céu estrelado é se contemplar a nível mítico. Enquanto o avance continuo da ciência redefine nosso entendimento do cosmos certamente nossa perspectiva mítica também deve mudar” (Campbell, Joseph apud O.Seastrom, 2015)

A amizade entre George Lucas e Joseph Campbell me parece de respeito mutuo. Posteriormente sabemos que Lucas apoiou financeiramente os documentários “O Poder do Mito”, além de ceder o Rancho Skywalker para a filmagem. Vemos cenas e comentários de Campbell sobre Star Wars em alguns momentos do documentário como exemplo mais claro deste relacionamento.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A longevidade de Star Wars: um mito moderno? - Christiane Tavares Ferreira da Silva


Em maio de 1977, estreava nos cinemas estadunidenses Star Wars, ou Guerra nas Estrelas, como foi chamado no Brasil. Ele não era a aposta principal daquela temporada de cinema, e seu criador, George Lucas, lançou o filme sem a certeza de que conseguiria financiar continuações onde pudesse contar a história principal da saga: a jornada do icônico Darth Vader. Esse primeiro filme tem inclusive um fechamento claro, que se dá com o fim da mortífera arma do Império denominada Estrela da Morte e a consagração de Luke Skywalker e seus companheiros como heróis.

Apesar das baixas expectativas, filas enormes de adultos e crianças se formaram em frente aos cinemas, criando fãs de uma saga que continuou nos bem-sucedidos O Império contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983). Os efeitos especiais inovadores da trilogia mudaram a história do cinema, deixando o público espantado com as possibilidades visuais e sonoras apresentadas.

Era razoável se e sperar que os filmes se tornassem clássicos, mas Star Wars fez mais do que isso, e continuou a repercutir por através das décadas. Hoje podemos observar ao menos três gerações que levaram seus familiares não apenas para assistir aos filmes da nova trilogia (1999-2005) ou ao recente O Despertar da Força, mas sim que os apresentaram para a chamada trilogia clássica. O que torna esses filmes ainda tão relevantes?

George Lucas sempre deixou claro que seus filmes eram permeados de simbolismo e que bebeu de diversas mitologias. O herói Luke Skywalker passa por um episódio de tentação nas mãos de Darth Vader, análogo às tentações de Cristo e Buda. A filosofia dos cavaleiros que lutam em nome da justiça na galáxia, os Jedi, tem características claras do budismo. A Força, energia mística utilizada por esses cavaleiros, pode ser entendida como equivalente ao conceito de energia cósmica denominado prana pelos hindus.

Sua história é centrada em valores como amizade, lealdade e fé, e Darth Vader só pôde ser redimido pela fé de seu filho no bem que existia nele; ao longo dos seis primeiros filmes acompanhamos a origem, tentação, queda e redenção desse personagem. Para Lucas, é isso que possibilita o mundo de continuar em equilíbrio: não necessariamente a fé em um sistema religioso, mas sim em algo maior do que nós.

Há quem considere a saga como uma mitologia moderna. Lucas discorda, acreditando que ele adotou o papel de recontar os mitos antigos de uma forma nova. Joseph Campbell, conhecido por seus trabalhos no campo da mitologia comparada exposto em livros como O Herói das Mil Faces, atuou como mentor de Lucas, que observou fielmente a "jornada do herói" descrita pelo autor ao escrever os roteiros dos filmes.

Desde tempo imemoriais, se narra a jornada de um herói que sai em uma aventura e se torna a peça decisiva da vitória em uma crise. Luke Skywalker, um rapaz com uma vida ordinária, é "chamado para a aventura" quando dois simpáticos androides trazem um pedido de ajuda de uma princesa. O herói é relutante e tem medo, mas seu mentor, dotado de poderes mágicos, aqui expressos pela Força, o auxilia a seguir em frente. Ele deve então deixar tudo o que tinha para trás e partir com o novo amigo Han Solo para o resgate da princesa Leia.

O grupo passa por várias provações, e Darth Vader finalmente encontra Luke Skywalker, e o tenta para que esse use seus poderes para o mal, abandonando a jornada, mas Luke se recusa. Depois de um ano de treinamento, o herói pode finalmente enfrentar novamente o vilão que agora sabe que é seu pai, tendo a fé e a crença na piedade deste. Seu pai é subordinado à verdadeira figura do mal, o Imperador. Juntos, eliminam essa figura sombria, e Luke se torna um verdadeiro Jedi - o último - e o fundador do Império e seu representante está destruído e seu pai foi redimido das trevas. A jornada se encerra.

Tanto Lucas quanto Campbell acreditam que o mito é um parâmetro para a vida, algo que mostra nosso lugar no mundo. A mitologia comparada mostra que os povos, em lugares e tempos diversos, contam sempre as mesmas histórias. Assim, uma narrativa concebida nessa estrutura pode ser compreendida por todos, pois elas são imediatamente humanas. Essa é a verdadeira razão da permanência de Star Wars durante 40 anos e, aparentemente, muitos mais em nossa cultura. A mitologia pode sempre ser recontada, e Star Wars o faz brilhantemente.


(texto publicado no Jornalzen - nº 152 - ano 13 - outubro/2017)