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domingo, 21 de agosto de 2016

Inspiração napolitana - Jussara Soares


Servida em porções individuais, com bordas altas e menos ingredientes, a receita tradicional de pizza italiana ganha fãs na capital

A maciça colonização italiana no início do século passado levou São Paulo a tornar-se uma referência na produção de pizzas, tanto na quantidade como na qualidade. Principal associação do setor, a Pizzarias Unidas estima que cerca de 325 000 unidades são consumidas por dia nos 6 500 estabelecimentos especializados na capital. Tal fartura e a necessidade de agradar a diferentes paladares colaboraram para o surgimento de um mix de ingredientes que flertam com a bizarrice e arrepiam os cabelos de puristas, como cachorro-quente, estrogonofe e sushi. Para se destacarem em meio a tanta invencionice, algumas casas daqui têm apostado recentemente no resgate da pizza ao estilo de Nápoles, cidade do sul da Itália onde a receita teria surgido. Nessa variante, os ingredientes do topo — principalmente queijos, ervas e azeite — são usados com parcimônia, transformando- se em meros acompanhamentos da estrela original do prato, a massa, de aspecto mais macio e bordas bem altas. O molho de tomate, por outro lado, é espalhado em maior volume. Os discos são menores, servidos individualmente, e nunca há divisão de sabores na cobertura.

Dois espaços inaugurados neste ano dedicam-se a seguir estas regras: a Carlos Pizza, em funcionamento desde fevereiro na Vila Madalena, e o Rossopomodoro, localizado no shopping gastronômico Eataly, aberto em maio no Itaim. Em ambos, a massa tem apenas 26 centímetros de diâmetro (por aqui usualmente chega a 35 centímetros) e um só sabor, como a tradição exige. “Pizza é como o amor da nossa vida, não se divide com ninguém”, filosofa o italiano Luigi Testa, gerente geral do Eataly, que trouxe de Nápoles o pizzaiolo Rosario Minucci para garantir a autenticidade ao produto oferecido no megaempório. “A ideia não é mudar o costume do paulistano, mas mostrar o jeito original.” As pizzas mais pedidas entre as doze opções de cobertura são a marguerita (25 reais) e a napolitana (34 reais). Na Carlos, além da marguerita (28 reais), a versão de escarola, queijo, limão-siciliano e nozes (29 reais) tem conquistado fãs. “A massa é leve, e o conjunto, harmonioso”, diz a administradora Carolina Cruz, uma das clientes. Por ali, a volta às origens representa modernizar o negócio. “Queríamos trazer algo diferente a um mercado tão concorrido”, afirma o sócio Luciano Nardelli, ex-chef do Riviera Bar, na Consolação. Não se trata, porém, de missão simples. O processo para preparar a versão clássica é bem mais trabalhoso. A massa recebe ingredientes importados, como a farinha e o tomate pelado, e passa por um longo processo de fermentação de, no mínimo, 32 horas — o costumeiro levaria duas horas. Outra particularidade é que ela deve ser trabalhada a mão, e não com o rolo de macarrão, antes de ir ao forno a lenha com temperatura acima de 400 graus.

A receita já havia ganhado espaço em outros restaurantes, mas com algumas adaptações. É o caso do Dona Firmina, em Moema, que desde 2013 adota a fermentação mais longa, mantendo a tradição local de lotar o disco com ingredientes. “Não fazemos exatamente como na Itália, nossa cobertura é generosa”, explica um dos sócios, Maurício Ribeiro de Sá. No mesmo bairro, a Pizzaria Nacional até cria tipos menos carregados, ainda que sem reduzir o tamanho da massa. “Nosso diâmetro é o da pizza brasileira, com seis ou oito pedaços”, diz o chef Eduardo Talarico. O estilo já ronda as casas paulistanas desde 2010, quando a Speranza e a Bráz conquistaram o cerficado da Associazione Verace Pizza Napoletana, entidade que regulamenta o patrimônio gastronômico pelo mundo. Em 2012, foi a vez de a Maremonti obter o selo da Associazione Pizzaiuoli Napoletani. Curiosamente, só nessa casa os discos continuam com o certificado de autenticidade no cardápio. “Nós o tiramos temporariamente, mas voltará em breve”, garante Paola Tarallo, sócia da Speranza.


(texto publicado na Veja São Paulo de 24 de junho de 2015)

sábado, 1 de novembro de 2014

Mito alimentar: a pizza tem origem italiana


O copyright pode ser italiano, mas a receita do disco de massa assada no forno a lenha, com cobertura a gosto, é muito mais antiga. "As misturas de farinha e água são alimentos básicos de vários povos desde os primórdios da civilização", afirma Henrique Carneiro, professor de história da USP e autor do livro Comida e Sociedade, uma História da Alimentação (Ed. Elsevier). Alguns estudiosos acreditam que foram os egípcios, há maias de 5 mil anos, os primeiros a fazer massa com farinha e água. Outra ala defende serem os gregos os pais da matéria, mas babilônios, fenícios e hebreus já tinham o costume de assar massas em fornos rústicos.

Descobrir quando a coisa ficou redonda e recheada é um outro desafio histórico. Os hebreus consumiam o piscea, um tipo de pão parecido com o pitta, árabe. Pitta, piscea, pizza... Segundo alguns linguistas, pode ter sido um pulo, mesmo que de muitos séculos. Como os italianos se apropriaram da ideia? Provavelmente a emprestaram dos turcos otomanos, que, ainda na Idade Média, comiam uma massa coberta de carne e cebola (alguém reconheceu a esfiha?). Por causa das Cruzadas, o costume entrou na Itália via porto de Nápoles - cidade que levou a fama de berço da pizza. O disco de massa com cobertura começou a ser vendido na rua por ambulantes e caiu no gosto do povão. O resto é história, como se diz por aí.



(texto publicado na revista 73 mitos alimentares da Super Interessante nª 5-A - junho de 2010)


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

La prima pizza - Danielle Nagase


Restaurantes investem em redondas à moda de Nápoles, berço das pizzas; com muitas regras, preparo é certificado por entidade italiana

Com fama de capital gastronômica do país, São Paulo alimenta também certo orgulho acerca de suas pizzas - há quem diga que nenhum outro lugar no mundo consegue fazer o prato tão bem como o paulistano. Bairrismo à parte, restaurantes da cidade têm investido em um outro tipo de redonda, feita como em Nápoles (Itália), onde nasceu a pizza, por volta do século 18.

O estilo é bem diferente do que se conhece por aqui. Esqueça os oito pedaços. A pizza napolitana é individual, com diâmetro semelhante ao de um prato. Massas grossas ou crocantes tampouco têm vez: a receita pede que elas sejam macias e elásticas, de base fina e borda fofa, cheia de alvéolos. E, para as coberturas, permitem-se poucas variações de ingredientes, preferencialmente italianos.

As regras são muitas, ditadas pela AVPN (Associazione Verace Pizza Napoletana), criada em meados de 1984, "com a missão de preservar e difundir essa tradição pelo mundo", como define o italiano Antonio Pace, 69, presidente e um dos fundadores da entidade.

Além de elencar os mandamentos, a associação certifica pizzarias que preparam suas redondas de acordo com os preceitos da AVPN.

A Speranza, no Bexiga, foi a primeira certificada em São Paulo, em 2010. Atualmente, outras duas casas são reconhecidas: a Grazie Napoli, em Santo André, no ABC, e a Leggera Pizza Napoletana, em Perdizes, cujo sócio André Guidon é representante da AVPN no Brasil.

"A intenção da entidade não é pregar que a pizza napolitana é melhor do que outras, mas que tem uma identidade própria", afirma Guidon.

O movimento ainda engatinha na cidade. As casas paulistanas - quatro no total, se considerarmos a filial da Speranza em Moema - integram um time de 500 pizzarias no mundo, em países como Austrália, Alemanha e Coreia do Sul. Há 120 em Nápoles, 77 nos EUA e 54 no Japão.

À margem desse grupo, existem pizzarias que, mesmo sem o certificado, se definem napolitanas, caso da Maremonti, com três unidades em São Paulo, e da recém-aberta Graça di Napoli, em Santana.

Certificado

Para obter a certificação, é preciso contatar a entidade e encaminhar à Itália documentos e mais três vídeos com o passo a passo do feitio. Além disso, um delegado da associação é enviado à pizzaria para realizar eventuais ajustes.

Caso desrespeite a receita ou o preparo, a casa pode ter o certificado suspenso. Foi o que aconteceu com a Bráz, que por dois anos ostentou o título da AVPN e o perdeu em 2013.

Dos restaurantes paulistanos certificados, só o Leggera tem menu 100% dedicado às pizzarias verdadeiramente napolitanas", que custam entre R$ 29 e R$ 36 cada uma. Os demais reservam apenas dois ou três sabores do cardápio a essas redondas. 

A rotina no Leggera - que recebeu o certificado logo em sua abertura, no fim de 2013 - dá o exemplo do que prega a associação.

Antes das cinco da tarde, o pizzaiolo pega a farinha (italiana), o jarro de água e o sal. Os ingredientes são despejados na masseira, inclusive um naco da massa do dia anterior, que dará impulso à fermentação.

Após atingir o ponto, a massa repousa por cerca de seis horas. Às 23h, quando a casa encerra o expediente, o pizzaiolo volta à massa, porciona as bolinhas (com 200 g) e as coloca no gaveteiro. A mistura só será usada no dia seguinte, 26 horas depois "para ficar leve e não pesar no estômago", explica Guidon.

O molho é feito com tomates pelados (colhidas aos pés do vulcão Vesúvio, no sul da Itália) e sal, apenas. A fruta é amassada com as mãos, para que as sementes não se rompam.

Aberto manualmente, sem a ajuda do rolo (que é proibido), o disco é coberto por 13 combinações de ingredientes - todas finalizadas com um fio de azeite antes de irem ao forno, que chega aos 400ºC.

E tem de assar rapidinho, por no máximo 90 segundos, direto na pedra, sob o calor da brasa de lenha.

Expansão

Existem planos de expansão à espreita. A Speranza quer reforçar a promoção de pizzas napolitanas, mas os detalhes são mantidos em segredo. A princípio, a rede deve somar novas coberturas às já disponíveis marguerita (molho de tomate, mozzarella de búfala e manjerição; R$ 44) e marinara (molho de tomate, orégano e lâminas de alho, sem queijo; R$ 42).

"É um mercado em potencial", diz Francesco Tarallo, neto de dona Speranza e um dos donos da pizzaria.

As regras de Nápoles

Diâmetro: tem até 15 cm

Borda: tem de 1 cm a 2 cm de altura; é aerada e fofa

Molho: é feito de tomate pelado, amassado à mão

Espessura: tem no máximo 4 mm na base

Massa: é macia e elástica, deve ser aberta à mão e precisa fermentar por ao menos 8h

Queijo: deve ser de mozzarella de búfala ou fior di latte (feita com leite de vaca e búfala)



(texto publicado na revista São Paulo da Folha de São Paulo -  10 a 16 de agosto de 2014)