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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eles que se amavam tanto - Ruan de Sousa Gabriel


Quando Truman Capote viu Harper Lee pela primeira vez, pensou que ela fosse um menino. No início do verão de 1932, Capote, um garotinho de 7 anos, havia sido abandonado pelos pais num casarão habitado pelos primos solteirões de sua mãe em Monroeville, uma cidadezinha do Alabama, no sul dos Estados Unidos. Nelle Harper Lee morava na casa ao lado. Ela era uma moleca de cabelo joãozinho e pés descalços, metida num macacão surrado. Quando ela viu aquele loirinho de voz fininha, num traje de marinheiro, sapatos brancos e cheirando a sabonete caro, pensou que ele fosse uma menina.

Naquela cidadezinha poeirenta, cresceram, lado a lado, dois dos maiores escritores americanos. A amizade floresceu para além de Monroeville, e as aventuras infantis serviram de inspiração para os livros que escreveriam no futuro. Harper, que morreu no dia 19 de fevereiro, aos 89 anos, tomou as memórias da infância compartilhada com Capote, morto em 1986, para compor O sol é para todos, um romance sobre a segregação racial narrado por uma criança. O livro se  tornou um dos mais amados clássicos americanos. Scout, a menina narradora, e seu irmão Jem são versões ficcionalizadas de Harper e Capote. A fictícia Maycomb, onde se passa a história, foi inspirada em Monroeville. Outros lugares, outras vozes, o primeiro romance de Capote, conta a história de Joel, um garoto afeminado como o autor, que fazia amizade com Idabel Thompkins, uma moça masculinizada e muito parecida com Harper. A sangue frio, o romance de não ficção que o consagrou, jamais teria sido publicado sem a ajuda de Harper.

Na infância, nenhum dos dois se adequava bem a Monroeville, uma cidadezinha imersa na depressão econômica dos anos 1930. Ambos tinham mães ausentes. A de Harper sofria dos nervos, a de Capote não tinha paciência com a afetação do menino. Harper era brigona, batia nos garotos e não tinha amizades femininas. Capote desfilava com roupas extravagantes, ternos brancos e gravatas, numa comunidade pobre onde as crianças usavam roupas feitas de velhos sacos de farinha. O jeito com as palavras e o gosto pelas aventuras de Sherlock Holmes os aproximaram. Eles passavam tardes inteiras lendo histórias de detetives. Um dia, o pai de Harper, o advogado que inspirou o Atticus Finch de O sol é para todos, presenteou-os com uma máquina de escrever. Eles começaram a se revezar para pôr no papel as histórias que criavam. Enquanto um ditava, o outro datilografava. E assim nasceram as primeiras tentativas literárias de dois autores monumentais.

Capote afirmou que, na infância, ele e Harper viviam "uma angústia comum" e passavam a maior parte do tempo perdidos em devaneios e inventando histórias. Capote foi viver com a mãe em Nova York e incentivou Harper a seguir seus passos e tentar a vida como escritora na cidade grande. E ela foi. Em 1959, quando ele quis ao Kansas investigar o crime que deu origem a A sangue frio, lá estava Harper a seu lado. Quando Greg Neri, um escritor de livros infanto-juvenis, assistiu ao filme Capote, de 2006, que conta os bastidores da confecção de A sangue frio, ficou surpreso com quão pouco se sabia sobre o tempo em que eles viveram em Monroeville. Neri decidiu que contaria essa história. Ele narra a amizade infantil dos dois escritores em Tru & Nelle, um livro a ser lançado nas próximas semanas nos Estados Unidos. "A história real deles é ainda mais divertida do que as histórias que eles escreveram", afirma Neri. "Ambos eram crianças deslocadas, mas se sentiam confortáveis um com o outro."

Um livro em particular ajudou Neri a reconstituir os anos de aprendizado de Capote e Harper: Truman Capote's Southern years (Os anos sulistas de Truman Capote, em português), de Marianne Moates. A autora registrou a histórias contadas por Jennings Faulk Carter era conhecido pelo apelido de Big Boy e foi personagem coadjuvante das aventuras infantis de Capote e Harper. "Tru & Nelle é uma estranha combinação de ficção e biografia", afirma Neri, que é bastante fiel aos fatos. "É um romance, mas todos os personagens, assim como a maioria dos eventos, são reais. Recorri à ficção para moldar todos esses incidentes maravilhosos numa narrativa."

"A realidade é tão chata!", exclama o pequeno Tru, o Capote ficcionalizado no livro de Neri. "Eu queria que alguma coisa acontecesse nessa cidade." Além de ataques da Ku Klux Klan, a seita supremacista branca que também infestava a fictícia Maycomb, quase nada acontecia em Monroeville. Até que, um dia, a cidade amanheceu coberta de mistério. Na madrugada, alguém invadiu a farmácia onde Tru e Nelle costumavam ir atrás de Coca-Cola gelada. A escola que eles frequentavam também foi arrombada. Fizeram uma bagunça na sala do diretor, quebraram as vidraças e desenharam, num quadro-negro, uma serpente de olhos vermelhos. Parecia um caso para Sherlock Holmes e seu comparsa, o dr. Watson, mas os únicos detetives de Monroeville eram Tru e Nelle. Ao lado de Big Boy, que nunca entendia nada, eles gerenciavam a única agência de detetives da cidade, que funcionava numa casa na árvore. Tru era o cérebro, fazia pose de Sherlock Holmes e usava um chapéu parecido com aquele do detetive de Baker Street. Nelle era dr. Watson, os músculos.

"A sangue frio é uma história de detetive como aquelas em que eles se envolviam quando eram crianças", afirma Neri. No livro, Harper fez o grosso da reportagem e Capote escreveu o texto. Capote e Harper recorreram às habilidades detetivescas que aprenderam com Holmes e Watson para investigar o assassinato da família Clutter na poeirenta Holcomb, no Kansas. Os simplórios moradores não confiavam naquele afetado jornalista de Nova York, mas se sentiam confortáveis na presença de sua simpática assistente e, por causa dela, contavam tudo o que sabiam. "O povo daquela cidadezinha estranhava gente como Capote, mas Harper tinha jeito com as pessoas e fez amizade com todo mundo para ajudá-lo." Os detetives de Monroeville estavam de volta à ativa. Ele, o cérebro; ela, os músculos.

A sangue frio só foi publicado em 1966, quando Harper, antes à sombra do amigo, já era uma autora consagrada. Ela recebera o prestigioso Prêmio Pulitzer por O sol é para todos. A adaptação cinematográfica do livro ganhou Oscars de Melhor Ator (Gregory Peck) e Melhor Roteiro Adaptado. Cheio de orgulho, Capote contava a todos que o menino Jem era uma versão ficcionalizada da criança que ele foi em Monroeville. A sangue frio não alcançou, de imediato, o sucesso retumbante de O sol é para todos. Não ganhou Pulitzer e sua versão cinematográfica não levou nenhum Oscar. Os músculos haviam batido o cérebro. Capote também nunca deu a Harper o devido crédito por A sangue frio. Além de ajudá-lo nas pesquisas, ela conduziu uma rigorosa edição do livro. Mesmo com as mãos queimadas num acidente, Harper ainda fez comentários no manuscrito. O único agradecimento que recebeu foi uma dedicatória. Os dois amigos se distanciaram.

Capote insistiu na vida louca nova-iorquina e fez de tudo para se manter sob os holofotes. Harper optou por um silencioso exílio longe dos olhos do público e voltou a Monroeville, onde viveu até a morte. Os livros, que um dia aproximaram duas crianças deslocadas, afastaram os escritores. "O poder das palavras pode causar guerras ou trazer a paz. Use-as com sabedoria", dizia a dedicatória de um antigo dicionário que o pai de Harper deu aos dois amigos que brincavam de detetive em Monroeville.




(texto publicado na revista Época edição 924 - 29 de fevereiro de 2016)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Leia com Prazer: Um novo Sol - Vivian Masutti


Obra "Vá, Coloque um Vigia", da americana Harper Lee, a mesma de "O Sol É para Todos", é lançada no Brasil após sucesso nos EUA

Um livro que se passa em plenos anos 1950 está prestes a desbancar "Grey", nova produção da badalada série erótica do momento, "Cinquenta Tons de Cinza".

Além disso, a obra já se prepara para bater o recorde de vendas para uma história de ficção adulta, que era de "O Símbolo Perdido" (2009), de Dan Brown.

Trata-se de "Vá, Coloque um Vigia" (R$ 45, 350 págs.), o "romance perdido" da escritora americana Harper Lee, conhecida por "O Sol É para Todos", clássico de 1960 que virou filme.

Após virar best-seller lá fora, o livro será lançado no Brasil em outubro, pela José Olympio (Grupo Record), e está sendo traduzido por Beatriz Horta, que dá sequência ao trabalho de tradução da nova edição de "O Sol É para Todos".

Por Harper ser uma escritora pouco conhecida no Brasil (principalmente por causa do número limitado de obras que produziu), o livro não deve obter o mesmo sucesso do que nas livrarias americanas.

Mas a história é uma garantia de qualidade, em meio a vampiros e pornôs. Protagonizada por Scout, heroína do primeiro livro, a temática é semelhante à de "O Sol...", mas não está nem de longe desatualizada.

Sensível e polêmica para a época, a narrativa fala da luta pela igualdade racial, pelos direitos civis e contra o racismo incrustado na sociedade americana. Certamente muito mais recomendada do que toda a série de "Cinquenta Tons" junta.

Sucesso dos anos 1960 ganha nova tradução no Brasil

Com a boa aceitação de "Vá, Coloque um Vigia" no exterior, a editora José Olympio lançou uma nova tradução de "O Sol É para Todos" (R$ 45, 364 págs.), de 1960, que estava esgotado no país. Entre 2006 e 2013, a obra vendeu cerca de 5.000 exemplares. A edição deste ano, lançada em maio, já vendeu 10 mil. Clássico, o livro rendeu o importante Prêmio Pulitzer a Harper Lee em 1961. A recente tradução é assinada por Beatriz Horta, a mesma responsável pela tradução do novo "Vá, Coloque um Vigia".

Embora seja ambientada no começo da década de 1930, a história de "O Sol É para Todos" retrata uma questão ainda atual.

Na trama, que se passa em uma cidade americana do interior do Alabama, um advogado defende um homem negro, que vira alvo de racismo após ser acusado de estuprar uma mulher branca.

Considerada uma referência na luta pela igualdade, a obra é narrada pela filha do advogado, a sensível Scout.



(texto publicado na Revista da Hora de 2 de agosto de 2015)