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sábado, 1 de outubro de 2016

Instinto animal - Dagomir Marquezi


Como os animais de estimação conseguem adivinhar que seus donos estão chegando? Para um polêmico cientista inglês, os bichos têm um sexto sentido que lhes permite sentir coisas que nós não percebemos

Quem já não se deparou com uma coincidência incrível, daquelas que fazem a gente pensar se há alguma razão sobrenatural para aquilo ter acontecido? Algo como você ligar para um amigo e ouvir que ele estava pensando em ligar para você naquele momento, ou encontrar com uma pessoa que você não via há muito tempo bem no dia em que sonhou com ela. Para o biólogo inglês Rupert Sheldrake, essas ocasiões são mais que simples acasos. Ele defende que acontecimentos como esses ocorrem nos raros momentos em que nos conectamos a uma forma de consciência primitiva, que o processo civilizatório calou há muito tempo. Para Sheldrake, a forma mais fácil de comprovar a existência dessa outra inteligência é observar os animais, que ainda dominam e utilizam cotidianamente esse sexto sentido.

Antes de entrar nas teorias de Sheldrake, é bom apresentá-lo. Para grande parte dos cientistas suas ideias não passam de esoterismo. Mas o biólogo tem credenciais cunhadas nos casos mais nobres da ciência. Formado em Ciências Naturais pela Universidade de Cambridge e em Filosofia pela Universidade de Harvard, Sheldrake tem ainda o título de PhD em Bioquímica (também de Cambridge). Mas, decididamente, ele não segue os passos de seus mestres. Seus livros levam a sério temas banidos da academia, como fenômenos "paranormais" e espiritualidade. Para ter uma ideia do tipo de crítica que suas ideias geram, basta dizer que John Madox, ex-editor da revista Nature, propôs que os livros de Sheldrake deveriam ser sumariamente queimados. "Ele merece ser condenado pela exata mesma razão que o papa condenou Galileu: como um herege".

Para acirrar ainda mais a controvérsia, Sheldrake critica abertamente alguns dos pilares do método científico, como a necessidade de ambientes controlados para reduzir o número de variáveis em um experimento e a validação de um resultado somente se ele puder ser repetido nas mesmas condições. Para Sheldrake, isso gera um artificialismo que desmerece os resultados. "Essa visão", diz o controverso cientista, "data do século XVII e deriva da teoria de René Descartes de que o Universo é uma máquina. Animais e plantas são vistos como autômatos programados. A natureza precisa ser encarada de forma menos mecanicista e utilitária", afirma.

Foi com base nessas premissas que o biólogo pesquisou e escreveu o livro Cães Sabem Quando seus Donos Estão Chegando. O livro, um best-seller, é uma compilação de casos - alguns acompanhados mais de perto e outros mais à distância - de animais de estimação que demonstram poderes maiores do que a ciência tradicional seria capaz de admitir.

Seguindo sua linha polêmica, Sheldrake defende que animais têm habilidades que nós, humanos, perdemos. Por isso, têm muito a nos ensinar.

Para pesquisar os casos citados no livro, Sheldrake seguiu três passos. Primeiro, ele e sua equipe entrevistaram pessoas que têm experiência em lidar com animais: treinadores, veterinários, cegos com seus cães-guia, tratadores de zoos, proprietários de canis e gente que trabalha com cavalos. O segundo passo foi espalhar aleatoriamente questionários sobre comportamento animal em residências que possuíam animais de estimação nos Estados Unidos e nos países britânicos. Por fim, alguns casos foram separados para um estudo monitorado. O resultado é um apanhado de casos documentados que surpreende os mais céticos. Como o do cão Jaytee.

Cães que sabem

Jaytee foi adotado por uma secretária de Manchester, Inglaterra, chamada Pamela Smart. Os pais de Pamela percebiam que, meia hora antes de a filha voltar do trabalho para casa, Jaytee se postava em frente à posta de entrada e esperava por ela. Como ele sabia que ela estava chegando? Curiosa com o fato, Pamela entrou em contato com Rupert Sheldrake e se propôs a colaborar com sua pesquisa. Durante 100 dias, ela e seus pais mantiveram um diário duplo anotando detalhes das rotinas de Pam e do animal. Sob a orientação de Sheldrake, Pamela começou a inserir algumas variáveis em seu comportamento para testar a capacidade de Jaytee de antecipar sua chegada. Seria o cheiro? Dificilmente: a dona estava entre seis a 60 quilômetros de casa. Como sentir qualquer cheiro a essa distância no caos urbano? Será que o mascote reconhecia o motor do carro? Tampouco. Pamela começou a voltar para casa de táxi, de bicicleta ou a pé e o cão continuou antecipando sua chegada. Seria a rotina? Também não, pois variações aleatórias de horário não mudaram em nada o fenômeno.

Por fim, Sheldrake utilizou duas câmeras, com os cronômetros sincronizados, para registrar o comportamento de Jaytee e os movimentos de Pamela. Nada menos que 120 fitas foram registradas e analisadas. E revelaram algo ainda mais intrigante. Jaytee não ia para a porta esperar a dona no momento em que ela partia do trabalho, mas no momento em que ela decidia partir. Era como se lesse seus pensamentos. Submetidos ao crivo de outros cientistas, os dados foram considerados insuficientes e passíveis de erro, mas Sheldrake insiste: cães têm poderes extra-sensoriais. E não são só eles: gatos, papagaios, galinhas, gansos, répteis, peixes, macacos, cavalos e ovelhas também os possuem.

Animais que curam

Rupert Sheldrake afirma que, nos templos de cura da Grécia antiga, cães eram tratados como co-terapeutas. A mais importante divindade de cura entre os gregos, Asklépios, costumava manifestar-se por meio de "cães sagrados". Segundo Sheldrake, até Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, era acompanhado por sua cadela, uma chow, que não era apenas uma companhia ou um animal de estimação, mas parte do processo a que ele submetia os pacientes. Freud acreditava em uma "cura pelo animal de estimação", nas suas palavras. E, curiosamente, era o animal que avisava quando a sessão tinha terminado.

Sheldrake indica no livro uma série de trabalhos acadêmicos realizados em hospitais e clínicas demonstrando que pacientes que possuem animais de estimação se sentem menos sós, ansiosos e deprimidos. E o bem-estar emocional é um grande aliado de médicos na recuperação de pacientes, porque melhora a resposta imunológica, entre outros benefícios. Segundo o autor, essa interação acontece não por mágica, mas porque animais de estimação oferecem o que poucos humanos são capazes de oferecer: amor incondicional.

Mas o benefício da ligação entre o dono e o animal transcende o mero companheirismo. Segundo o biólogo, os animais cuidam de seus donos, conhecem suas doenças e os ajudam a se tratar, de forma deliberada, como mostram os relatos apresentados em seu livro. Uma mulher do norte da Inglaterra conta que, numa noite de profunda depressão, resolveu se matar tomando uma overdose de calmantes. Seu spaniel chamado William pela primeira e única vez em 15 anos de fidelidade total se colocou agressivamente entre ela e o vidro de remédio, rosnando com fúria e mostrando os dentes. Ela desistiu do suicídio e o cão voltou à mansidão habitual.

Christine Murray, que mora numa cidadezinha perto de Washington, capital dos Estados Unidos, tem uma mestiça de pitbull e beagle chamada Annie. Cerca de duas vezes por semana, Annie pula no colo de Christine e começa a lamber seu rosto furiosamente. Imediatamente, Annie pára o que estiver fazendo e se acomoda no chão. Em poucos minutos, tem um ataque epilético. A cadela não falha. Ela parece saber que a dona vai ter um ataque e a avisa. Há o caso também de uma epilética alemã de Hamburgo que possui um casal de vira-latas. Quando o ataque começa, os dois estão sempre por perto, e um deles tenta se colocar entre a doente e o chão, para amortecer-lhe a queda.

Senso de direção

Desde a década de 1930 o alemão Bastian Schmidt realiza detalhados estudos sobre orientação animal. Ele foi um pioneiro em testar teorias ao abandonar cães em lugares desconhecidos e observar seu comportamento. A observação mais importante colhida por Schmidt foi a de que nos primeiros cinco a 25 minutos o animal não "farejava" o caminho de volta. Ele levantava a cabeça, observava os arredores, como que estabelecendo sua localização. Em seguida, o cão simplesmente sabia a direção de casa - e seguia para lá.

Sheldrake não podia deixar de testar esse poder. O biólogo conheceu, em Leicester, uma collie-de-fronteira mesteiça chamada Pepsi que tinha um estranho costume: fugia de casa e reaparecia na residência de algum parente ou amigo do seu dono. No verão de 1996, Rupert Sheldrake instalou um receptor GPS (o sistema de posicionamento global) na coleira de Pepsi e a largou a 3 quilômetros de casa, às 4h55 da madrugada. Às 9 horas da manhã a cadela foi achada curtindo um sol tranquilamente na casa da irmã do seu dono. Cada um de seus movimentos foi registrado pelo GPS. Com a ajuda de um mapa da cidade, Sheldrake descobriu que, assim que foi largada, Pepsi procurou a casa mais próxima conhecida, depois foi para a seguinte e assim por diante. Em poucos menos de quatro horas, já havia passado por 17 lugares guardados em sua memória. Seguindo seu padrão de comportamento, logo ela estaria em casa, pronta para uma nova aventura.

Como animais se guiam? Pelas estrelas, por campos magnéticos? Sheldrake considera essas teorias mecanicistas e ultrapassadas. Cita vários casos de cães que descobriram o tímulo de seus donos sem nem sequer testemunhar a morte deles. E conta a epopeia de Prince, um Irish Terrier que, durante a Primeira Guerra Mundial, saiu de Londres para encontrar seu dono no caos das trincheiras da França (e se tornou uma espécie de mascote das forças britânicas). O que estrelas e campos magnéticos têm a ver com isso?

Telepatia

Rupert Sheldrake afirma que essa ligação entre homens e cães se deve ao longo tempo de convivência entre as duas espécies, que já dura 100 000 anos, quando os primeiros cachorros foram domesticados. Graças a essa conexão, os animais "leem os pensamentos das pessoas". Eles parecem sentir quando seus donos precisam de ajuda ou de apoio emocional. Algumas dessas manifestações se revelam em pequenos atos cotidianos. Gatos que desapareceram no dia de ir ao veterinário. Cães que tremem na hora de uma consulta, mesmo que seus donos simulem tratar-se de um simples "passeio".

Rupert Sheldrake coletou mais de 1 500 casos de supostos contatos telepáticos entre homens e animais. Histórias como a do gato Godzilla, que vive com o relações-públicas David White, em Oxford. Por obrigação profissional, White viaja muito por lugares tão diferentes quanto a África do Norte, o Oriente Médio e a Europa continental. Não importa de onde ou quando David White ligava, Godzilla subia à mesa e ficava ao lado do telefone antes que ele fosse atendido. Mas só nas ligações do dono. Todas as outras eram desprezadas pelo gato. Isso foi testado em várias condições e variações, e Godzilla não falhava. Se o dono liga, ele parece saber. Um caso semelhante ocorre com o cão Jack, de Gloucester: ele também só fica ao lado do telefone quando seu dono liga. Com um detalhe: Jack se manifesta uns dez minutos antes de a ligação acontecer.

A explicação, afinal

Sheldrake é o primeiro a esfriar os ânimos de seus leitores que procuram explicações para esses fenômenos. "Não existe uma conclusão para explicar tudo isso", diz ele. O que há são hipóteses. E a hipótese do biólogo baseia-se em uma controversa proposição: a teoria dos "campos mórficos". Segundo Sheldrake, os corpos têm uma espécie de extensão invisível e indetectável, que determina sua forma e seu comportamento. São os campos mórficos. A teoria não pára por aí. Esses campos, diz ele, atravessam o tempo - conectando as coisas entre si - e o espaço - conectando os corpos com outros corpos existentes no passado e no futuro, em um processo chamado ressonância mórfica. "O campo mórfico é um campo estendido no tempo-espaço, assim como o campo gravitacional do sistema solar não está meramente dentro do Sol e dos planetas, mas contém todos eles e coordena seus movimentos", diz.

A ideia básica é a de que todo ser possui uma marca própria, que se estende não apenas ao seu próprio organismo, mas a tudo com o que esse ser convive. E essa ligação se torna mais forte à medida que essa convivência se repete.

Segundo Sheldrake, a origem do campo mórfico pode estar em um fenômeno que inquietou Albert Einstein, chamado de não-localidade quântica, e que foi confirmado por experiências realizadas na década de 80. Nos experimentos, comprovou-se que duas partículas de luz, ou elétrons, emitidas pelo mesmo átomo continuam de certa forma ligadas entre si, mesmo separadas por uma grande distância. De tal forma que, quando os cientistas mediam alguma característica de uma das partículas, a outra imediatamente modificava a mesma característica.

Os campos mórficos explicam muitos mistérios que desafiam a ciência, como a morfogênese, ou seja, o desenvolvimento da forma e da estrutura de um organismo. Enquanto os biólogos continuam procurando a chave que faz uma perna desenvolver-se como uma perna e não como uma antena, Sheldrake já tem sua resposta. Como uma semente de cenoura se transforma em uma cenoura? Resposta: seu campo mórfico conecta a semente às cenouras passadas, que a precederam, e faz com que ela se desenvolva como uma cenoura. Esse não seria o papel dos genes? Em parte. Os genes seriam apenas um sintonizador de campos mórficos. Como o seletor de canais de uma televisão, o DNA conecta um ser ao seu respectivo campo mórfico. Por esse mesmo raciocínio, admite-se que um jogo de palavras cruzadas impresso em um exemplar de um jornal matutino fica mais fácil de resolver à medida que o dia passa, porque a ressonância mórfica emitida pelas pessoas que o resolveram facilita a tarefa.

Bem, e onde entram os animais? Em termos muito simplificados, esses campos mórficos formam ligações entre seres (e entre seres e objetos) invisíveis aos olhos e ao conhecimento. É como um campo magnético - que nada representa para nós se não tivermos uma bússola. Segundo essa teoria, animais criam campos mórficos, com seus donos e sabem como utilizá-los na prática. O gato que sabe que o telefonema é do seu dono está apenas usando seus "sensores de campos mórficos".

Quando um animal "adivinha" a hora exata em que seu dono vai chegar, estaria usando um recurso de inteligência que nós perdemos. Quando um cachorro quer voltar para casa, ele apenas localiza a extensão do seu campo mórfico e vai em frente. O mesmo princípio vale para o cãozinho Prince, que, de algum jeito, cruzou o Canal da Mancha para reencontrar seu dono no inferno das trincheiras.

Sheldrake acha que sua teoria faz parte de uma evolução natural do conhecimento. "Descartes acreditava que o único tipo de mente era a consciente. Então, Freud reinventou o inconsciente. Daí Jung disse que não existe apenas um inconsciente pessoal, mas um inconsciente coletivo. A ressonância mórfica nos mostra que nossas próprias almas estão conectadas com as almas dos outros e ligadas ao mundo que nos cerca."



(texto publicado na revista Super Interessante edição 180 - setembro de 2002)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Instinto, não. Investimento - Maria Fernanda Vomero


O instinto materno, aquela atitude generosa que acreditamos naturalmente programada, não existe. Segundo uma visão revolucionária da maternidade, o que há é uma predisposição biológica para o investimento no filho - determinada pela fria relação entre custo e benefício

Você, com certeza, se lembra de alguma campanha publicitária que tenha recorrido à imagem de um bebê e sua mamãe amorosa para vender fraldas ou amaciantes de roupas. A figura materna aparece também nos comerciais de margarina, de desinfetante, de pasta de dente. A mãe prepara a comida dos filhos, lava as roupas, deixa a casa em ordem, cuida da saúde da garotada, dá presentes e está sempre sorrindo, feliz por ser mãe. Como a natureza foi sábia ao dotar as mulheres de um instinto tão poderoso. Amor incondicional? Só o de mãe.

Mas, então, os intervalos comerciais acabam e vem o telejornal. Um garoto conta que foi espancado pela mãe. Você se revira na cadeira. Casos envolvendo agressões de mulheres contra os próprios filhos são chocantes. No entanto, acontecem com mais frequência do que você pode imaginar. Vão desde o abandono em cestos de lixo até queimar o bebê com pontas de cigarro ou castigá-lo privando-o de comida. Em geral, essas mães são classificadas como desnaturadas, "exceções à regra", e, rapidamente, a sociedade tenta encontrar motivos que justifiquem tamanha barbaridade - desequilíbrio mental, pobreza, desemprego, desespero. Afinal, mãe que é mãe carrega, escrito nos genes e inoculado pela evolução, o instinto materno - que jamais permitiria atrocidades desse tipo. Certo?

Não é bem assim, afirma a sociobióloga americana Sarah Blaffer Hrdy, da Universidade da Califórnia, em Davis, em seu livro Mãe Natureza - Maternidade, Filhos e Seleção Natural, recém-lançado no Brasil.  Depois de reunir farto material sobre a maternidade nas mais variadas espécies e culturas, Sarah chegou a uma conclusão surpreendente: as mulheres não amam instintivamente seus bebês. Como as outras fêmeas do reino animal, elas não se afeiçoam de maneira automática a cada filho que nasce. O instinto materno, tal como o concebemos - uma determinação genética inevitável -, não existe. Tampouco o amor incondicional de mãe para filho baseia-se numa exigência biológica.

As intrigantes pesquisas de Sarah, casada e mãe - amorosa, segundo ela mesma - de três filhos, mostram que a evolução não presenteou a espécie humana com um chip especial, instalado em cada cérebro materno, ordenando que todas as mães vivam em função dos filhos e ofereçam colo a cada vez que eles caem no choro. A genética apenas predispôs as fêmeas a gerar seus bebês e oferecer-lhes condições de um crescimento adequado - aí a mesma regra vale para uma aranha-mãe, para uma gestante primata ou para uma humana profissional de classe média.

"Existe, sim, uma prontidão biológica para o cuidado dos filhos", afirma a etóloga Suemi Tokumaru, da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. "A fisiologia, a anatomia e, provavelmente, alguns circuitos neurais preparam a mulher para gerar e amamentar o filho. Mas a maneira com que ela cuidará do bebê vai depender de fatores circunstanciais." Esses fatores resultam da interação com o ambiente, das influências culturais e do equilíbrio entre as ambições daquela mulher e as demandas da maternidade. No modo de zelar pelos filhos, portanto, não há nada de instintivo.

A dedicação ao filho, no fundo, é uma questão de investimento. Esta é a palavra que explica o zelo materno e que garante à prole de qualquer espécie condições de sobreviver até a independência. "A fêmea tenta, assim, passar seus genes adiante', diz o etólogo César Ades, da Universidade de São Paulo. Não que as mães humanas pensem conscientemente em investir no recém-nascido para preservar o próprio patrimônio genético. "Mas, quando uma mulher se dedica ao filho ao filho, desejando que ele cresça perfeito e saudável, que vá bem na escola, que tenha amigos, que se case e lhe dê netos, está traduzindo em linguagem social o propósito fundamental de perpetuar seu próprio DNA e, como consequência, manter viva a espécie", afirma César.

"A concepção de amor materno varia de cultura para cultura e recebe a influência do momento histórico e das circunstâncias sociais", diz o antropólogo Benedito Miguel Gil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Cada sociedade tem o seu modelo de mãe e os papéis que cabem a ela desempenhar - papéis que são, na verdade, as "regras culturais" de como investir na prole. As mães dos comerciais de margarina ou de fraldas revelam muita coisa daquilo que esperamos da figura materna. Por outro lado, as madrastas malvadas dos contos-de-fada personificam atitudes que execramos - por exemplo, a punição. "O amor materno pode ser entendido como uma forma culturalmente moldada de proteção à criança a fim de transformá-la num adulto apto", diz o antropólogo Mauro Cherobim, da Unesp. "Demonstra que a mulher está investindo na sobrevivência de seu grupo social, de sua parentela." Enfim, dela mesma.

Para ter ideia da dimensão do investimento da mãe no filho, para a espécie humana, basta pensar na fragilidade do bebê, que nasce totalmente imaturo e demora cerca de 15 anos par alcançar a independência. "Trata-se de uma tarefa pesada", afirma Ades. "Imagine se não houvesse motivação para isso." Mas não são só as mães que apresentam uma prontidão biológica para esse envolvimento. O médico e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990), criador da chamada Teoria do Apego, descobriu que os bebês nascem programados para formar um estreito vínculo emocional com a mãe ou com os primeiros adultos que tomam conta deles - em outras palavras, para apegar-se.

"A função biológica do sistema de apego é justamente aumentar as possibilidades de sobrevivência da criança, oferecendo-lhe proteção e segurança", diz a psicóloga e terapeuta familiar Gilda Franco Montoro, do Centro de Estudos e Assistência à Família, em São Paulo. A qualidade desses primeiros vínculos constitui a base emocional do futuro adulto. Sentimentos de desamparo e de perda não passam em branco. "A criança pode crescer segura, com boa auto-estima, ou ansiosa e insegura quanto às suas relações afetivas, ou ainda com extrema dificuldade de se ligar a alguém, a partir da relação que a mãe estabelece com ela", afirma. "Não podemos pensar somente na sobrevivência física. O bem-estar emocional garante o crescimento de um adulto mais auto-confiante e produtivo."

Como o mundo não é um eterno comercial de TV, pode surgir um conflito: às vezes o cuidado com o filho acaba prejudicando o projeto de perpetuação genética da mãe (quando os recursos são insuficientes para mãe e filho, por exemplo, ou quando há filhos demais). Entra em cena, então, o cálculo entre custos e benefícios. Ok, custo/benefício não é um raciocínio muito maternal. Mas essa equação garante a sobrevivência da espécie, mesmo que ela implique em atitudes radicais. "O infanticídio é muito comum entre grupos tribais que temem por um desequilíbrio demográfico. Entre os índios Tapirapé, por exemplo, que vivem na região do Rio Araguaia, se o casal tem dois filhos de um mesmo sexo, o terceiro é morto ao nascer", diz Mauro Cherobim. Há casos na natureza, inclusive entre os primatas, de mães que praticam o aborto seletivo, protegem alguns recém-nascidos em detrimento de outros ou descuidam da cria quando entram no cio e buscam um macho. Para nós, que somos seres simbólicos e reflexivos, essas atitudes são um absurdo. "Mas o comportamento materno não pode ser entendido como uma força determinada apenas pelos genes", afirma César Ades.

Para compreender os casos de negligência ou infanticídio, é preciso adicionar ao componente biológico o cultural e o emocional. "Cuidar do filho não é um imperativo absoluto. É uma atividade influenciada pelo contexto e pelos interesses de sobrevivência da mãe", diz César. "Isso não quer dizer que a tendência materna de zelar pela prole não seja relevante - pelo contrário." Mães que abandonam o filho em cestos de lixo, quando são descobertas, em geral alegam que não tinham condições de criar a criança e preferiam deixá-la para adoção. Essas mães aceitam o princípio de que cuidar do bebê é fundamental, mas acreditam não conseguir garantir o desenvolvimento dele (o que não quer dizer, é claro, que o ato delas seja justificável). Afinal, as imposições culturais que a proíbem de cometer esse crime não existem por acaso).

"Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado - porque ela foi criada assim", afirma o psicólogo paulista Alberto Pereira Lima. "Essa mulher tende a reproduzir, com os filhos, aquilo que ela, dentro da sua família, apreendeu como amor materno." Cada um faz uma leitura pessoal da relação com a mãe e a toma, inconscientemente, como modelo de relação com o filho. Em vez de nutrir e zelar, aquela mulher pode privar e punir. Mas, apesar desse comportamento, a prontidão biológica para o investimento na prole continua presente. Nada impede que uma mãe negligente, em outras condições sociais e em outro momento de sua vida, se torne amorosa e protetora.

Por que, então, fala-se tanto em instinto materno se ele nunca existiu? Para Sarah Hrdy, a ideia propagou-se devido à crença comum desde o século XIX de que o desejo sexual feminino servia apenas para a procriação. As emoções maternas eram vistas como imposições da natureza à mulher, fatores desvinculados da sua sexualidade e de suas ambições. Nesse contexto, a ideia do instinto materno fazia todo o sentido. Acreditava-se que a função biológica e natural de toda mulher era ter filhos, amamentá-los e cuidar deles - se possível, dedicando-se integralmente à tarefa. Caso contrário, ela não cumpriria seu papel evolutivo.

Os estudiosos do comportamento humano e animal - conhecidos como sociobiólogos - hoje sugerem que a sexualidade feminina é muito mais do que um simples impulso reprodutivo. Ao contrário do que rezava a biologia do século XIX, não por acaso inteiramente dominada por homens, as mulheres têm desejo sexual e mecanismos de prazer muito complexos. A partir daí, ficou claro que os papéis que os cientistas atribuíam às mulheres eram determinados pela cultura, não pela biologia ou por leis naturais e imutáveis.

Prova disso é que os homens também são programados geneticamente para cuidar dos filhos. "Não há uma lei biológica que determine que a mãe tenha que cuidar mais da criança do que o pai", diz Suemi. "O quanto cada um pode contribuir varia, dependendo da sociedade em que o casal vive. Há tribos em que o homem fica com o filho porque a mãe vai trabalhar." Suemi reconhece, no entanto, que o investimento materno acaba sendo, em média, maior que o paterno, uma condição provavelmente favorecida por fatores como a gestação e a amamentação.

Que o zelo materno é fundamental para a sobrevivência e a saúde psíquica do filho, todo mundo está de acordo. A pergunta é: e se entre os seres humanos não houvesse esse investimento materno, também chamado de amor ou apego, e conhecido erroneamente como instinto? "A espécie não iria adiante, ficaria entregue ao sabor das casualidades", diz César. Todos os filhos, dos recém-nascidos aos marmanjões, viveriam ao deus-dará. Muitos não sobreviveriam, outros cresceriam emocionalmente fragilizados. A taxa de mortalidade seria alta e aqueles que restassem comentariam, tristemente, como o Brás Cubas do escritor Machado de Assis: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa existência".


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)