Mostrando postagens com marcador deficiência visual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador deficiência visual. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de agosto de 2016

Quanto vale um olhar? - Graciela Zabotto


Para que deficientes visuais possam ter um cão-guia, o Instituto Iris lança campanha de financiamento coletivo. Somente com doações será possível repor os animais que precisam se aposentar e atender a fila de espera de quem ainda não tem o auxílio desse fiel companheiro.

Para quem conhece o prazer de ser independente e caminhar sozinho pelas ruas pode levar algum tempo até aceitar que não verá mais o mundo da mesma forma que antes. Foi o que aconteceu com o advogado Genival Santos quando, aos 17 anos, caiu de uma árvore. O acidente causou deslocamento da retina, afetou o nervo óptico e o deixou cego. Ele conta que, na época, viveu alguns momentos de revolta. Além disso, não se adaptou muito bem ao uso da bengala. "Eu não aceitava, em hipótese alguma, usar a bengala. Eu me machucava demais. Eu batia o rosto no orelhão, caia em buraco, usava um sapato apenas três meses porque andava raspando na lateral das calçadas. Era coisa de louco. A minha dificuldade com a bengala era tão grande que cheguei a pensar em usar capacete de motoqueiro de tanto que eu esbarrava em coisas aéreas como, por exemplo, andaimes utilizados para realização de obras em construção civil. A bengala era um instrumento bom, mas não era fundamental", lembrou Genival. Sua vida mudou quando, em novembro de 2006, recebeu a cadela Layla, uma encantadora mestiça de Golden Retriever com Labrador. "Quando eu peguei a Layla, no dia 22 de novembro, eu disse: a partir de hoje voltei a enxergar. Tudo mudou. Eu ando com muita segurança, independência, não piso em buraco, não esbarro em nada, não piso em lixo nem em cocô de cachorro porque ela desvia de tudo. Ela me acompanha em tudo. Quando está em casa a gente tira o equipamento e ela tem vida como um cão normal. Em casa ela não precisa exercer seu trabalho de cão-guia".

A fiel companheira vai trabalhar com ele todos os dias. O percurso entre a casa, no Butantã, e o trabalho, em Itapevi, não é simples. São cerca de 40 quilômetros para ir e 40 para voltar. Durante esse trajeto a dupla utiliza o transporte público que somam, durante toda a viagem, um ônibus e três trens.

O cão-guia também proporciona a inclusão social pelo simples fato de cativar e aproximar as pessoas. Exemplo disso é a própria Layla. "Eu já perdi todos os meus amigos para ela porque eles querem saber só do meu cão-guia. Eu fico feliz porque eles gostam dela", falou Genival.

Mas não foi fácil ter a fiel companheira. "Ter um cão-guia é tão complicado que eu sempre comparo a um processo de adoção. É muito mais fácil adotar uma criança no Brasil do que receber um cão-guia vindo dos Estados Unidos", comparou.

Ele ganhou a Layla por meio do Instituto Iris (Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social). A entidade sem fins lucrativos tem parceria com uma escola de treinamento de cães-guia que fica em Michigan, nos Estados Unidos, e depende de doações para que os deficientes possam buscar os cães. Para isso, eles precisam ficar cerca de um mês na escola para se adaptar ao cão. "Fiz minha inscrição em uma escola americana de treinamento para cães-guia por meio do Instituto Iris e somente após três anos fui selecionado para buscar a Layla". Um cão-guia tem, em média, nove anos de trabalho. Como Layla já vai fazer 11 anos de idade, o advogado, hoje com 37 anos, precisa de um novo animal para poder aposentar sua companheira. "Infelizmente, o deficiente que teve cão-guia e fica sem ele volta a ser cego porque a independência e os benefícios são tão grandes que o usuário volta a ficar cego totalmente. A Layla já tem 10 anos e deveria estar aposentada. Mas é muito difícil fazer a substituição. Meu pedido de reposição já dura dois anos." Para que um novo cão-guia possa orientar os passos de Genival, o Instituto precisa ter recursos para pagar as despesas de viagem até os Estados Unidos.

De acordo com Daniela Ferrari Kovacs, Diretora de Relações Institucionais do IRIS, uma das maiores dificuldades do Instituto é a captação de recursos para garantir a substituição dos animais e também possibilitar que mais pessoas tenham acesso a cães-guia.

Para captar recursos o Instituto Iris criou a campanha de financiamento coletivo 'Cão-guia: quanto vale o seu olhar?'. Precisamos aposentar alguns cães com urgência. O objetivo da campanha é arrecadar dinheiro para fazer a reposição desses cães", explicou. O crowdfunding está aberto no site kickante.com.br e tem até o dia 25 de junho e a meta é arrecadar R$ 140 mil. Para fazer a viagem até a escola nos Estados Unidos, o custo por pessoa fica entre R$ 30 a R$ 40 mil.

Mesmo que o deficiente visual tenha condições financeiras para comprar um cão-guia a venda não é realizada pela entidade. "O Instituto não aceita que o deficiente pague pelo seu próprio cachorro porque seria uma forma muito desigual. Se fosse assim, só quem tem dinheiro teria um cão-guia e o estatuto do Instituto diz que os deficientes devem ser tratados da mesma forma", explicou Genival.

Segundo ele, é uma grande alegria olhar para trás e ver as coisas que conquistou ao lado de Layla. "Ela está muito bem de saúde e vive com alegria, mas tem uma hora que precisa parar. Vou dar a ela uma aposentadoria digna. A Layla vai ficar em casa brincando com o Sam". Sam é o cão-guia da cientista de dados Katia Antunes, esposa de Genival. Ele tem a mesma idade de Layla e também está com um pezinho na aposentadoria. "Tenho grande esperança de que, até o final do ano, eu consiga ir para os Estados Unidos, fazer a substituição do meu cão-guia", finalizou Genival.

Atualmente, a fila de espera do Instituto Iris conta com cerca de 3 mil deficientes visuais que aguardam um cão-guia. Mesmo após o término da campanha 'Cão guia: quanto vale o seu olhar?' a entidade sem fins lucrativos, continuará recebendo doações pois, quanto mais valor o Instituto arrecadar, mais deficientes visuais terão acesso a um cão-guia.

Formando um cão-guia

Conforme o Instituto Iris, a escolha das raças dos cães-guia depende muito da cultura de cada país, e mesmo entre essas raças mais indicadas somente 1 de cada 4 podem servir para desempenhar as tarefas necessárias. No Brasil, são indicadas por exemplo o Labrador, Golden Retriever e Retriever com Labrador, devido a docilidade e não passar medo a outras pessoas, mas isso não significa que apenas estas raças tenham aptidão para serem treinadas. Temperamento, espírito de liderança, tamanho, tipo de pelagem, inteligência e facilidade em aprender, calmo, dócil, obediente e saúde são as principais características indicadas para ser um cão-guia. A triagem inicial acontece nos primeiros 45 dias de vida, quando os treinadores selecionam os filhotes que têm porte, resistência, temperamento, capacidade de concentrar-se por períodos longos de tempo, atenção a toques e sons, boa memória e excelente saúde. Durante os próximos 18 meses, os cães-guia são criados por uma família socializadora que é voluntária e se dispõem a abrigar o animal, ensinar as noções básicas de obediência e, principalmente, expô-lo ao maior número de experiências possíveis. Nesse período, o futuro cão-guia terá os mesmos direitos que um animal profissional já treinado, entre eles estão entrar em shoppings e supermercados, acompanhar o dono ao local de trabalho, usar o transporte público e viajar de aviões. Terminado os 18 meses, o animal volta para a escola para o início do treinamento que vai transformá-lo em um cão-guia profissional. Na escola ele vai aprender a andar em linha reta, ignorar atrativos como odores, outros animais e e pessoas, parar nas esquinas, reconhecer e driblar obstáculos, manter o passo á esquerda e ligeiramente à frente do acompanhante, virar à esquerda e à direita quando ordenado, levar o acompanhante aos botões do elevador e ajudá-lo a subir e a movimentar-se em ônibus e no metrô.


(texto publicado na revista Viver grande oeste São Paulo nº 37 - junho/julho de 2016)

domingo, 16 de agosto de 2015

São Paulo pelos olhos de quem não vê - Lucas de Abreu Maia com a colaboração de Alessandra Freitas


O repórter Lucas de Abreu Maia, cego desde a infância, conta como ele e outros deficientes visuais constroem uma relação particular com uma metrópole muitas vezes hostil a pessoas nessa condição, mas também cheia de sons, cheiros e outras sensações surpreendentes

Desvendar a alma de uma cidade se você não pode vê-la é um exercício de abstração. A partir do desenho das calçadas, do som dos carros reverberando no concreto, do tom de voz dos moradores, do sol (ou da falta dele) na pele, do cheiro - de lixo, de gente, de mato e, aqui, de forma proeminente, de fumaça - e da opinião de quem enxerga, aprendemos a criar uma relação individual e única com o lugar em que moramos. É assim que eu e cerca de 53.000 habitantes cegos (0,44% da população, fora os 292.000 com "grande dificuldade" de enxergar, segundo o Censo de 2010) lidamos com a capital todos os dias: vivenciando-a com os demais sentidos. Quando VEJA SÃO PAULO me convidou para falar sobre a metrópole vista por quem não pode descrevê-la com os olhos, aceitei sabendo que minhas histórias não seriam suficientes. Fui conversar com outros deficientes visuais, que me relataram cenas de independência e diversão, de irritação e perigo. Descobri personagens como um mecânico de automóveis que tem precisão invejável no manejo das peças e uma jovem fashionista ligadíssima na aparência, que vasculha shoppings em busca de roupas descoladas.

Tenho 29 anos, nasci em Vitória, no Espírito Santo, mas cresci no interior do Rio. Na infância, São Paulo significava para mim vir a consultas regulares ao oftalmologista com o objetivo de acompanhar a evolução da minha doença. Aos 7 meses, um profissional daqui fez o diagnóstico: eu nascera com amaurose de Leber, um problema genético encontrado em um em cada 80.000 nascidos vivos. As células da retina das pessoas que possuem a doença param de se reproduzir e, com isso, o mundo ao redor vai ficando mais escuro. Aos 8 anos, as visitas à capital tornaram-se desnecessárias. Os cerca de 10% de visão que eu tinha esvaíram-se sem que eu sequer notasse.

As memórias gráficas que me acompanham são poucas e pitorescas: meu reflexo no espelho, com o cabelo liso parecendo o de um índio com corte de cuia: uma foto da apresentadora Xuxa usando boina; a atriz Claudia Ohana na capa da fita cassete da trilha sonora da novela Vamp. Graduado em jornalismo  aos 23 anos, pela PUC-RJ, eu me mudei para cá a fim de fazer um curso no jornal O Estado de S. Paulo, no qual me empreguei como repórter de política há seis anos. No fim de 2014, ingressei na revista EXAME, da Editora Abril, mas acabo de deixar o cargo para cursar doutorado na Universidade da Califórnia - já havia feito mestrado em Chicago. Escrevo esse texto com  a ajuda de um programa que lê, em áudio, tudo o que digitei.

A relação entre os cegos e São Paulo é bem paradoxal. Existem locais como o Museu do Futebol, com profusão de recursos táteis (incluindo o rosto de Pelé), mas há poucas peças teatrais com audiodescrição. Pelas ruas, raramente um município muda tão súbita e completamente de um bairro para outro. Na Avenida Paulista, o passeio é largo, com piso tátil bem cuidado. A dois quarteirões, porém, começam as ladeiras dos Jardins e suas dezenas de degraus. Em muitos trechos da Zona Norte, por exemplo, o lixo e os buracos ocupam o espaço que deveria ser de quem caminha. Em toda a cidade, os quarteirões tortuosos transformam os bairros em labirintos. "Mas o pior, para mim, é a qualidade das calçadas", contou-me Luiz Alberto de Carvalho e Silva, de 59 anos, economista. "São tão irregulares que até os cães-guia se desorientam."

Encontrei Silva no início de maio em seu apartamento na região da Vila Mariana. Ele é conhecido como o primeiro usuário de cão-guia no Brasil ao treinar seu animal, por conta própria, nos anos 70. Com memória ímpar, conhece nomes de ruas dos quatro cantos. "Imagino São Paulo como se eu voasse por ela, projetando grandes mapas na minha cabeça e percorrendo-os aos poucos."

Andar sozinho por aqui se tornou bem mais fácil nos últimos anos com o auxílio de aplicativos de localização com orientação em áudio, como o Blind Square. Ele informa sobre os lugares por onde o usuário passa, a exemplo de lojas, lanchonetes e estações. Há também o TapTapSee, que descreve o que você fotografa, indicando se está diante de um cachorro, um bosque... Apesar dessas ferramentas, porém, os perigos continuam. "Há alguns anos, na Zona Leste, caí em um bueiro que estava fechado com uma tábua", relata o psicólogo Everton Oliveira, de 25 anos. "Uma perna inteira entrou no buraco, e me agarrei no asfalto para não ir até o fundo."

Com Pedro Gabriel Cruz, de 10 anos, houve um susto maior. Ele perdeu a visão aos 5, em consequência de uma meningite. Aos 7, ao entrar em um vagão na Estação Santo Amaro da CPTM, ao lado da mãe, caiu no vão entre o trem e a plataforma. Foram momentos de desespero, temendo que o maquinista desse a partida. "Um passageiro me ajudou a sair de lá e, no fim, só ralei a perna e ganhei alguns roxos", lembra. O garoto faz de tudo para levar uma vida normal: adora andar de bicicleta no Parque Villa-Lobos e cursa o 2º ano do ensino fundamental no Colégio Vicentino Padre Chico, no Ipiranga, especializado em deficientes visuais. Do transporte público, no entanto, ficou o medo (reforçado pelo caso de um cego que morreu em abril ao cair na Estação Sé do metrô), e sua mãe tirou carta de motorista para conduzi-lo de automóvel. "Consigo reconhecer os caminhos que faço pela mudança no balanço do carro, pelas passagens nos quebra-molas", diz. "E também através dos cheiros. Se farejo pastel frito, sei que estamos perto da feira."

Há um tipo de local campeão de confusão: os shoppings. Trata-se de prédios onde fica quase impossível estabelecer pontos de referência (obviamente, para nós, as vitrines serão sempre idênticas). Além disso, como são ambientes fechados, os sons reverberam e prejudicam nossa orientação. Fazer compras on-line é a opção preferencial da maioria, graças aos leitores de tela em computadores e celulares (que nos permitem usar ativamente Facebook, Twitter, WhatsApp...). Aficionada de moda, a psicóloga Maria Rita de Paiva gosta de encarar os grandes centros de varejo, mas pede ajuda a um funcionário (eu faço o mesmo quando vou ao supermercado, solicitando que me descrevam o que há em cada prateleira enquanto passo com o carrinho).

No fim do mês passado, eu a acompanhei no Iguatemi. Chegamos para almoçar no Ritz e a medida imediata dos garçons foi nos trazer dois cardápios em braille. Nós os dispensamos e pedimos que narrassem para nós as opções. Primeiro porque nem eu nem ela dominamos bem a linguagem. Além disso, com frequência, os estabelecimentos não atualizam variações de preços e itens dos menus, tornando-os peças inúteis. Por vontade de Maria Rita, seguimos pra a C&A. Seu cão-guia, Milo, ficava deitado aos seus pés enquanto uma vendedora lhe entregava as peças, uma a uma, para que as tocasse. Depois de apalpar e ouvir a descrição de umas três dezenas delas, experimentou oito e comprou quatro. A moda, para ela, é uma maneira de se afirmar diante de um mundo cheio de expectativas preconcebidas sobre uma mulher cega. "As pessoas se surpreendem por eu me vestir bem", diz.

Pedro de Carvalho e Silva, de 54 anos, também costuma deixar as pessoas de queixo caído. Ele é mecânico em uma oficina da Aclimação. Sem ver nada desde os 3 anos, sempre foi louco por carros e começou no ramo aos 25. Reconhece rapidamente as peças ao manuseá-las e contabiliza um único acidente - em 2003, perdeu a ponta do dedo médio da mão direita ao tentar consertar o motor de uma Kombi. Rejeição, recorda, sofreu uma única vez, quando uma cliente disse que não queria que pusesse a mão no seu bem. "O chefe falou que a empresa era dele e que eu era o melhor funcionário", orgulha-se. Pedro fez, então, o serviço e não houve reclamação.


"O primeiro passo para entender o problema do veículo é usar a minha audição, que ficou bem aguçada ao longo da profissão. Depois, recorro ao tato", descreve. Não há, afirma, um tipo de automóvel em que o desafio seja maior. "Ao longo do tempo, a eletrônica passou a ser mais utilizada em outros modelos, mas me adaptei bem. Obviamente, eu só não poderia lidar com pintura."

Ter a capacidade subestimada é algo chatíssimo. Aguentar a pena alheia é cruz mais difícil de carregar que a própria cegueira. Diferentemente do que reza o clichê, o paulistano - mais que o morador de qualquer outra cidade que eu conheça - oferece ajuda o tempo todo. Mas, achando que estamos perdidos, alguns nos puxam pelo braço e nos levam por um caminho que julgam ser o correto. Não se passa um dia sequer sem que eu ouça: "Rapaz, está indo pelo lugar errado!". Uma dica: prontifique-se a colaborar, sim, por favor. Mas não seja inconveniente.

O voluntarismo dos "enxergantes" (é como nós chamamos você, leitor) mostra-se idêntico com bengaleiros e usuários de cão-guia. Quem tem um cachorro em vez de olhos, porém, é obrigado a lidar ainda com a curiosidade das outras pessoas. "Muitos adoram o lado social que eles trazem, mas eu dispenso", diz Maria Rita. "A toda hora, preciso chamar a atenção do animal por algo que fez de errado e alguém me interrompe atrapalhando o processo." Eu entendo a irritação dela. Certa vez me abordaram no meio de um término de namoro, ambos os lados chorando copiosamente depois da famosa DR, para virem com a bateria de perguntas, como "de que raça ele é?".

O orientador de coleira não é uma possibilidade para qualquer um, uma vez que há pouquíssimos treinadores de guias no Brasil. Prepará-los chega a custar mais de 100.000 reais. E o pet especial pode simplesmente não se encaixar na rotina da pessoa. Everton, por exemplo, desistiu desse auxílio por não gostar de ser restringido pelos cuidados que o bicho demandaria. A telefonista Esvana Leandro, de 39 anos, moradora de Jandira, na Grande São Paulo, tem verdadeira devoção ao bicho do marido, também não "enxergante", mas dispensa um para si: "Vivemos numa região em que as pessoas não respeitam os cachorros". Usuária de bengala, ela já se deu mal ao seguir confiante pelo piso tátil da Avenida Paulista: trombou com um ambulante que havia montado sua barraquinha em cima da faixa. "E fui xingada por ele."

A experiência de Esvana mostra que a vida de um casal de cegos é menos complicada do que pode parecer. Morei sozinho no passado e acho mais fácil do que ter no dia a dia a companhia de alguém sem a deficiência, como é meu caso hoje. Individualmente,crio um mapa mental do imóvel, separo as roupas entre as que uso em casa e as de sair, cozinho, faço faxina, e tudo funciona bem. Quando o espaço é dividido com alguém, invariavelmente as coisas são  tiradas do lugar onde deixei.

Ainda na área de relacionamentos: o sexo, o amor e a beleza interagem de forma peculiar na vida de quem não enxerga. Um corpo definido, claro, é especialmente valorizado. Um abraço ou um tapinha no ombro são os truques mais comuns para entender se o alvo de interesse é mais musculoso, cheinho, magricelo. Por ego, boa parte dos deficientes visuais recorre aos amigos para avaliar a beleza do pretendente. Além disso, a autoimagem é formada em base nos comentários alheios. Para alguns, desconhecer a própria aparência é uma eterna causa de insegurança. Outros, porém, reagem com indiferença a isso - a obesidade é endêmica entre nós.

Temos de lidar com as falsas expectativas: é comum as pessoas acharem que somos criaturas de pura bondade, indefesos e assexuados. "Muitas mulheres nos veem como coitados", queixa-se o psicólogo Everton Oliveira. É que, embora pensemos na falta de visão como uma condição que nos t orna iguais, somos um grupo tão diverso quanto qualquer outro. Há jovens e velhos, gordos e atletas, gays e héteros, tímidos e descontraídos, dependentes e autônomos. Gostam de chamar nossas necessidades de especiais. A principal delas, no entanto, é universal: o respeito à individualidade.

Maneiras de tirar do sério alguém que não enxerga

Atitudes desagradáveis, comuns no cotidiano, segundo os cegos

1 Sem oferecer ajuda para atravessar a rua, agarrar o cego pelo braço e arrastá-lo pelo caminho.

2 O mesmo vale para ajudá-lo a se sentar sem que ele solicite. Uma coisa é não enxergar, outra é ter dificuldade motora.

3 Fazer comentários em voz alta sobre o cego ao passar por ele. É deficiente visual, não auditivo.

4 Em vez de fazer perguntas diretamente a ele, como seu nome ou o que gostaria de comer, dirigir-se sempre a seu acompanhante.

5 Decidir, sem consultá-lo, que determinada atividade física (como corrida) é muito perigosa para ele. Cada pessoa conhece os próprios limites.

6 Tomar cuidado excessivo, o tempo todo, para não usar verbos como "ver" e "olhar". Por exemplo, pedir desculpas por ter indagado se o deficiente "viu um filme".

7 Repetir o tempo todo a surpresa por ele trabalhar, divertir-se, namorar, ter filhos. O cego não quer necessariamente ser tratado como uma lição ambulante de superação.

8 A mais irritante: mover, sem avisar, algum objeto de sua casa ou mesa de trabalho.

Revolução digital

Aplicativos que mudaram a vida dessas pessoas

Google Maps - Com ele é possível formular trajetos a pé e de transporte público. As orientações para o trajeto a pé são excelentes e permitem que o usuário chegue sozinho a qualquer lugar.

BlindSquare - Uma espécie de FourSquare para cegos. O aplicativo lê em voz alta tudo o que está ao redor do usuário, à medida em que ele vai andando. As descrições incluem restaurantes, edifícios comerciais, escolas e parques.

TapTapSee - Descreve, de forma genérica, qualquer foto que o usuário inserir no aplicativo. Assim, é possível para a pessoa cega saber a cor da roupa que está usando ou qual a vista de uma janela.

Voice Dream Reader - Facilita a leitura de livros no celular. O aplicativo aceita arquivos de texto nos mais diversos formatos e permite regulagem da velocidade da leitura.




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 10 de junho de 2015)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Rompendo tabus: Na cartilha da inclusão - Paulo Cabral


Os direitos dos deficientes ganham repercussão com a teledramaturgia, que mostra que todos merecem um lugar ao sol

Com a função de retratar a realidade, a teledramaturgia, ao buscar a identificação brasileira após a mexicanização das tramas, deu uma olhada especial aos deficientes físicos com a personagem Bianca, interpretada por Aracy Balabanian, 74 anos, em Nino, o Italianinho (Tupi, 1969). Na pele de uma manca apaixonada pelo protagonista, vivido por Juca de Oliveira, 79, Aracy ganhou a preferência do público no triângulo amoroso completado por Bibi Vogel, morta em 2004, que fazia a ambiciosa Natália. Mas esse foi um caso isolado. Quando aparecia alguém de muletas ou de cadeira de rodas, certamente era por um motivo dramatúrgico e não por uma questão de inclusão social.

Juca de Oliveira e Aracy Balabanian em Nino, o Italianinho


Em Mulheres de Areia, exibida originalmente pela Tupi em 1973 e refeita pela Globo em 1993, Tonho da Lua, interpretado por Gianfrancesco Guarnieri, morto em 2006, e por Marcos Frota, 57, respectivamente, ganhou destaque. Tratava-se de um personagem com deficiência mental que, apesar de sabe o segredo que poderia resolver a trama, foi desacreditado por ser um excluído social. Com o Emanoel de A Indomada (Globo, 1997), Selton Melo, 41, fez um papel semelhante, mas foi além do olhar piedoso do público, que torceu para seu sucesso amoroso ao lado de Grampola, vivida por Karla Muga, 38.

Gianfrancesco Guarnieri como Tonho da Lua em Mulheres de Areia


Marcos Frota como Tonho da Lua em Mulheres de Areia


Selton Melo como Emanuel em A Indomada


Craque em atuar contra os tabus da exclusão com suas novelas, Manoel Carlos, 81, trouxe para a trama central de Páginas da Vida (Globo, 2006) a questão da síndrome de Down, quando a Helena da vez, interpretada por Regina Duarte, 67, adota Clara, vivida por Joana Mocarzel, 14, que é portadora da síndrome na vida real. O drama da personagem mirim que é rejeitada pela avó, Marta, papel de Lilia Cabral, 56, foi a espinha dorsal da trama e ajudou na discussão sobre a inclusão de pessoas especiais na sociedade e no sistema de ensino.

Joana Mocarzel em Páginas da Vida


Somando forças com Manoel Carlos no combate aos preconceitos, Walcyr Carrasco, 62, sempre coloca um elemento pró-inclusão em sua obra. Em Caras e Bocas (Globo, 2009), por exemplo, escalou Daniele Haloten, 34, para o papel da deficiente visual Anita, tornando-a a primeira atriz cega a atuar em uma novela. Em Amor à Vida (Globo, 2013), também de Carrasco, várias questões ganharam foco, com destaque para o autismo de Linda, interpretada por Bruna Linzmeyer, 21, que termina a história se casando, mostrando que o sol é para todos. Ah, teve o beijo gay, mas este é tema do próximo capítulo desta série.

Daniele Haloten em Caras e Bocas


Bruna Linzmeyer em Amor à Vida



(texto publicado na revista Contigo nº 2023 - 26 de junho de 2014)