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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Casal pop - Eliane Trindade



Depois de fazer dos quatro anos à frente do Consulado da França em São Paulo uma festa e uma oportunidade para o debate da igualdade rcial, Damien e Alexandra Loras decidem ficar no Brasil

Na noite de terça-feira (30), Damien Loras, 46, começou a se despedir da residência consular da França em São Paulo com um brinde à babá Eliana Barbosa, 37. Ofereceu um champanhe rosé da Provença para a profissional que cuida do seu filho Raphäel, 4, que se preparava para dormir. "O cônsul me agradeceu pela dedicação e pelo carinho", conta a babá. No dia seguinte, o diplomata e a mulher, Alexandra, 39, despediram-se oficialmente com o mesmo ritual dos outros sete empregados da residência que ocuparam nos últimos quatro anos e transformaram em espaço festivo. Era o endereço de uma consulesa que virou referência no debate da igualdade racial e do empoderamento da mulher negra. A despedida do posto é uma interrupção na carreira diplomática, já que o agora ex-cônsul se licenciou, ao decidir ficar em São Paulo. "Uma parte importante da história do mundo vai ser escrita no Brasil. Fazer parte disso, com Alexandra e nosso filho, é muito entusiasmante", afirma.

O diplomata se diz surpreso com a falta de confiança do povo brasileiro no potencial do país. Ele e Alexandra viraram sócios da Loras D&A Consultoria. O nome reúne as iniciais de ambos, que ligadas pelo "E" comercial ganham a sonoridade em inglês de DNA, a molécula a vida. No caso, uma vida nova nos trópicos e na iniciativa privada. Enquanto ele passa a atuar como consultor de empresas que desejam investir no Brasil, ela vai dar sequência à bem sucedida carreira de palestrante e deslanchar projetos, como um programa de TV.

Ela proferiu mais de 150 palestras, a maioria gratuitamente, mas passou a ser convidada por bancos e multinacionais dispostos a pagar até R$ 15 mil para ouvi-la contar como se "tornou uma melhor versão de si mesma" e fugiu  do papel decorativo de consulesa.

"Alexandra ganhou protagonismo na luta contra a discriminação racial no Brasil, além de se expressar de uma forma que as pessoas querem ouvir", diz a juíza Mylene Ramos, única magistrada negra do Fórum Trabalhista da Zona Sul de SP.

As duas são parceiras em nova empreitada: um curso de pós-graduação em relações étnico-raciais da faculdade Campos Salles.

Filha de mãe francesa e pai africano, a ex-consulesa usa a trajetória de sucesso para aumentar a autoestima entre os afrodescendentes. Vai lançar um livro sobre grandes inventores negros da humanidade.

"Com opinião que se soma à própria história e ao seu carisma. Alexandra é uma espécie de terrorista do bem", define Mariana Barros, que a convidou para ser voluntária no projeto "Treinamento Intercultural para Imigrantes e Refugiados.

Uma vez por mês, Alexandra dá cursos para haitianos e africanos que buscam vida nova no Brasil. O ativismo também foi transformador para a francesa mestiça, que passou a valorizar seus fios crespos. "Durante 30 anos alisei meu cabelo até ter coragem de assumir minha beleza natural", diz. Mas precisa vencer a resistência do marido. "Damien não gosta do meu cabelo natural, quer que eu alise." Ao ouvir a conversa, ele brinca: "Quero que ela fique loura".

Não é verdade. "Ter uma família misturada é um 'assef' [um ativo]", afirma ele. "É uma riqueza enorme ter uma esposa negra, eu ser branco e termos um filho quase norueguês. O movimento da história é esse. Daqui a alguns anos não existirá um branco 100%. Seremos todos pardos, misturados. É matemático."

Ele faz graça com ofato de o herdeiro ser louríssimo. "Eu sempre falo: não sei se sou o pai, mas com certeza ela não é a mãe."




A piada é boa, mas o papo é sério. "Eu tenho uma origem social tradicional. Alexandra vem de uma família um pouco bagunçada. Traz esse olhar transgressivo, alargando meus horizontes. A vida é maior ao lado dela."

O bisneto de um aristocrata decapitado na Revolução Francesa encantou-se pela apresentadora que conheceu em um jantar na casa de um amigo em Paris, há oito anos. "Quando nos vimos, caiu um raio", conta ela, que seis meses depois seria pedida em casamento na Provença.

Alexandra desembarcou em São Paulo com um bebê de quatro meses no colo e tendo abdicado da carreira para seguir o marido. O jovem casal impôs seu estilo, abrindo as portas do consulado para diferentes tribos. Para quebrar barreiras, o cônsul comprou a ideia e articulou patrocínio para levar ao sambódromo o enredo "Je Suis Vai-Vai: Bem-vindos à França", um parceria com a escola de samba do Bexiga neste ano. Alexandra foi destaque no carro abre-alas e confirmou presença na passarela em 2017, embora admita que não tem samba no pé.

A veia festeira do casal se mostrou logo de cara, quando colocaram no calendário paulistano o Bailinho da Bastilha, em comemoração à data nacional da França, o 14 de julho, reunindo 11 mil pessoas em quatro edições.

Eles  tinham a opção de ir para um novo posto diplomático na ONU, em Nova York, ou no Canadá, mas escolheram convictos a qualidade de vida paulistana. "São Paulo não é uma cidade que você ama à primeira vista. O primeiro encontro com esse monstro urbano pode ser bastante violento. Mas quanto mais você mora, mais entende a riqueza de viver aqui. Poucas cidades no mundo têm essa energia", elogia Damien.

O casal francês elegeu alguns programas prediletos na Pauliceia, entre eles ver os grafites do Beco do Batman, na Vila Madalena, e o skyline do topo do hotel Unique. Escapam sempre que podem para Picinguaba ou Barra do Una, no litoral norte. Outra opção é a fazenda dos amigos Juliana e Marcelo Sabó, em Campinas.

A designer de joias é uma das amigas mais próximas de Alexandra, companheira do Clube Pinheiros, onde a consulesa já foi confundida com a babá. "Alexandra veio fazer diferença na nossa sociedade. Difícil alguém do nosso status e do nosso meio ter uma cabeça tão aberta", diz Juliana, que não tem outras amigas afrodescendentes. "Infelizmente, temos ainda poucos negros com maior poder aquisitivo no Brasil."

Para chamar a atenção para o fato, Alexandra convidou outra amiga, Paola de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira, para vestir um avental em um ensaio fotográfico da "Vogue", no qual a consulesa posa de aristocrata.

Alexandra, no entanto, não quis posar para a "Playboy" brasileira, recusando o convite para um ensaio sensual na publicação. Mas ousou ao participar de um ritual do Santo Daime, em Alto Paraíso (GO). Foi conhecer a manifestação religiosa que usa a erva ayahuasca como bebida sacramental na intenção de fazer um documentário para a TV francesa sobre o tema. "Tinha medo dessa planta sagrada, mas foi a melhor experiência da minha vida."

Esse olhar curioso é um dos trunfos de um reality show que ela pretende protagonizar e que está negociando com o canal pago E! Entertainment. Até lá, esperam desfazer as inúmeras caixas, livrar poltronas e objetos do plástico bolha e dispensar os operários que finalizam a reforma no imóvel de cinco quartos a 50 metros da antiga residência no Jardim Paulistano. 



(texto publicado na revista da Folha sãopaulo - 4 a 10 de setembro de 2016)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Preconceito faz mal à saúde - Marilia Marasciulo


Maioria de pesquisas para medicamentos e tratamentos é feita com pacientes brancos

Quando ainda fazia residência em Harvard, em 1997, o bioengenheiro Esteban Burchard viu um adolescente negro morrer de asma a poucas quadras do hospital, com o inalador na mão. No mesmo ano, ele identificou um gene que aumenta o risco de desenvolver uma variante mais forte da asma - e ele era 40% mais comum em pessoas negras. Pois que agora, quase 20 anos depois, um outro estudo feito por Burchard revelou que a maioria das pesquisas feitas nos Estados Unidos é focada em pessoas brancas e descendentes de europeus. O resultado é que muitos remédios no mercado não são os mais eficazes para pessoas de outras etnias. Diabetes e problemas no coração, por exemplo, são mais comuns em latinos e hispânicos.

O problema, segundo Burchard, é que as pequisas científicas tendem a buscar populações geneticamente homogêneas. É mais fácil realizar um estudo em indivíduos semelhantes do que realizar o mesmo projeto em populações diferentes. Os próprios médicos acabam preferindo estudar pacientes parecidos com eles. "Até as mulheres entrarem na medicina, não existiam pesquisas que incluíam mulheres", diz Burchard. Para completar, a principal agência que financia projetos médicos nos EUA também não costuma aceitar propostas que envolvam pesquisas com outras etnias. Um estudo de 2011 publicado na revista Science revelou que cientistas asiáticos e negros têm, respectivamente, 4% e 13% menos chance que brancos de receber financiamento. O argumento é que essas populações apresentam grande variação genética, o que as tornaria mais difíceis de analisar.



(texto publicado na revista Galileu nº 281 - dezembro de 2014)







sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Mussum, forévis Mussum - Bruno Ferrari



Um dos mais carismáticos personagens da história do humor no Brasil era vítima e agente do preconceito. Suas frases e tiradas - mesmo as racistas - ainda resistem na internet

"Crioulo, negão, fumê, grande pássaro, morcegão, fuscão preto, azulão, cromado, fumaça, galega azul, Kunta Kintê, urubu sem asa, Tia Anastácia e Veio Zuza." Chamar um negro por algum desses termos hoje não é apenas ofensivo - pode levar o autor para a cadeia por crime de injúria racial. Há pouco mais de duas décadas, milhões de brasileiros gargalhavam todas as vezes que os trapalhões Didi, Dedé ou Zacarias usavam precisamente esses nomes para escarnecer de Mussum, um dos mais lembrados personagens do humor brasileiro. Sem se abater, Mussum respondia, com seu linguajar característico: "É a sua mãezis!".

A história de Mussum, personagem de Os Trapalhões interpretado pelo carioca Antônio Carlos Bernardes Gomes, morto em 1994, é contada em detalhes na biografia Mussum Forévis - Samba, mé e Trapalhões, recém-lançada. O livro, escrito pelo jornalista Juliano Barreto, traz passagens que mostram como o humor popular e a sociedade daquela época eram mais tolerantes ao racismo. No filme O incrível monstro trapalhão, de 1980, Dedé, Mussum e Zacarias estão numa oficina. Dedé se agacha embaixo do carro e pergunta: "O macaco está aqui?". Mussum responde: "Tô! Mas macaco é a tua mãezis!" No programa dominical, Didi abusava dos apelidos, chamava Mussum de "ó grande pássaro" ou simplesmente "negão". "Negão é teu passadis", respondia Mussum.

Fora da TV, Gomes também sofria com o racismo. Certa vez, uma fã o abordou na rua, pôs a filha no colo dele e disse: "Não se preocupe. Pode abraçar que ele não solta tinta". Os homens costumavam tratá-lo como o personagem de Os Trapalhões. Era xingado de "negão" e tomava tapas na cabeça e nas costas na rua. "As piadas dos Trapalhões retratavam o cotidiano dos próprios atores naquela época", diz Barreto. Só que Mussum não ficava quieto ao ouvir os insultos. "Ele respondia, xingava no mesmo tom." Sempre que Didi o ofendia com algum apelido racista, Mumu da Mangueira, como gostava de ser chamado, retrucava com "cabecinha", "paraíba" ou "estrogonofe de carne-seca" (termos ofensivos para nordestinos, como Aragão). No documentário O mundo mágico dos Trapalhões, de 1981, Renato Aragão, o Didi, é questionado sobre as acusações de grupos que consideravam o humor de Os Trapalhões racista. Aragão se defende e diz que era uma brincadeira inocente. "Todo mundo tem um amigo que chama de negão, crioulo", afirma. "Os Trapalhões é o único programa da TV brasileira que tem um negro como protagonista."

É difícil encontrar no mundo um programa de humor que tenha feito tanto sucesso quanto Os Trapalhões. Foram 30 anos na TV aberta, entre os anos 1970 e 1990. No auge do sucesso, o grupo dominava 80% da audiência do domingo à tarde. Uma das teorias mais aceitas para a popularidade do programa é que seus protagonistas representavam com bom humor e leveza o caos ético e estético em que o Brasil estava nas décadas de 1970 e 1980. Havia o nordestino, o desempregado malandro, o negro e o afeminado. Eles se autossabotavam em situações do cotidiano: no bar, no mercado, na oficina mecânica etc. Passadas duas décadas, a sociedade brasileira não tolera mais o tipo de humor que Os Trapalhões faziam. Mesmo assim, pessoas de todas as idades, mesmo jovens que nasceram após a morte do humorista Gomes, continuam a venerá-lo. Vídeos no YouTube com programa e filmes de Os Trapalhões somam milhões de visualizações e curtidas.

Num contexto histórico, Os Trapalhões estão longe de ser os precursores do humor que joga com o preconceito. No livro, Barreto lembra que retratar o negro como ignorante, com dificuldades em falar de maneira correta, era uma tradição do humor antes da televisão. No início do século XIX, uma das diversões mais populares de teatros e circos nos Estados Unidos eram as apresentações dos atores cômicos brancos que pintavam o rosto com tinta preta para imitar os trejeitos dos escravos, conhecidos como blackfaces. Eles dançavam de forma aparvalhada e falavam "a língua dos negros". Mesmo o linguajar de Mussum, com expressões como "cacildis" e "só no forévis", data de peças cômicas do início do século XX no Brasil. Se Os Trapalhões não inventaram, foram talvez uma das últimas trupes de humor que puderam explorar abertamente o preconceito da sociedade. Depois, ainda foram ao ar quadros que flertavam com o preconceito racial no humorístico Casseta & planeta, mas de forma mais sutil. Um dos quadros mais relembrados é o "Chocolate cumprimenta", uma paródia da novela de época Chocolate com pimenta, exibida pela TV Globo em 2003. Nela o humorista Hélio de la Peña aparecia vestido com roupas de época e cumprimentava transeuntes com o bordão "Prazer, Chocolate".

Dificilmente um quadro como "Chocolate cumprimenta" passaria incólume a protestos dos grupos defensores de minorias atuais. O tipo de humor politicamente incorreto de Os Trapalhões, hoje, encontra lugar apenas em comunidades da internet. "O politicamente correto tomou proporções ridículas", diz Andre Carrico, pesquisador de humor popular e autor da tese de doutorado Os Trapalhões no reino da academia: revista, rádio e circo no poético trapalhônica. "A nova geração de humoristas quer ser genial no texto, mas esquece a atuação. Mussum era uma figura cômica por si só. As pessoas não se ofendiam porque era autêntico", diz.

Muitos humoristas contemporâneos não disfarçam sua admiração por Mussum e costumam se queixar de que a "patrulha do politicamente correto" tem feito mal à produção artística. O comediante Marcelo Marrom, que atua no espetáculo de teatro Comédia em preto e branco e no programa Altas horas, da TV Globo, conta que Mussum teve um papel fundamental em sua formação. "Eu não tinha referências negras na televisão naquela época. Eles sempre eram porteiros ou filhos de empregada na TV", diz. Marrom afirma que os apelidos com que Didi se referia a Mussum no domingo à tarde viravam motivo de brincadeira de seus amigos brancos na segunda-feira de manhã. Diz que sempre soube levar na brincadeira. "Fazia como o Mussum: xingava de volta." Hoje, em seus shows, Marrom brinca com piadas sobre negros. 'Sou um dos poucos que se arriscam a isso", diz.

Outro humorista que se inspirou em Mussum foi Márcio Lúcio, o Carioca, do programa Pânico noa Band. Um dos maiores imitadores da televisão brasileira, Carioca diz que reparava nos trejeitos e na interpretação de Gomes para compor o personagem Mussum. "O humor é assim. Alguém tem sempre de perder para ficar engraçado", diz. Carioca reclama da "patrulha" e diz que o preconceito está embutido na cabeça das pessoas. "Daqui a pouco estaremos pior que no tempo da ditadura. Não me tornei alcoólatra assistindo ao Mussum beber. O papel do humorista é fazer rir, e não servir de exemplo."

A mudança de valores que fez o humor de Mussum envelhecer atinge também outros setores da produção artística. Recentemente, um comercial que trazia o cantor Compadre Washington dizendo "Ordinária" para uma mulher foi retirado do ar, depois de receber reclamações de grupos feministas que atentavam para a forma ofensiva de se dirigir à mulher. "Ordinária" é uma expressão que fazia sucesso na década de 1990, com o grupo É o Tchan! É de imaginar a dificuldade que bandas como Raimundos ou Mamonas Assassinas teriam nos dias de hoje para fazer galhofa com mulheres ou nordestinos em suas canções.

Num mundo ideal, o humor, como arte, não deveria sofrer nenhum tipo de censura. Por isso, a vigilância sobre termos ofensivos incomoda os humoristas. Mas grupos que defendem a igualdade de direitos para mulheres, negros e gays afirmam que a sociedade ganha quando deixa de achar graça de piadas que ataquem grupos sociais. "As pessoas não veem o racismo ou a homofobia como um atentado à dignidade das pessoas", diz Adilson José Moreira, professor de Direito na Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Ele apresentou no ano passado uma tese de doutorado na Universidade Harvard afirmando que existe no Brasil um "racismo recreativo". "Acham que é engraçado, que posso chegar para qualquer pessoa e chamá-la de macaco, que isso não teria intenção de violência."

A organização feminista Think Olga, que liderou a campanha "Chega de Fiu Fiu", foi acusada de exagero ao condenar o hábito brasileiro de lançar um assobio para chamar a atenção de uma mulher. Gerou uma discussão sobre as origens e as consequências da agressão às mulheres. "A sociedade saiu mais consciente", diz a socióloga Bárbara Castro, uma das fundadoras da campanha. Também não se pode cair na armadilha de analisar um período histórico sob a lupa do pensamento atual. Mussum é fruto da sociedade em que o ator e músico Gomes se criou. Como ele mesmo dizia num de seus bordões: "Negão é teu passadis".




(texto publicado na revista Época nº 840 - 7 de julho de 2014)




Vídeo especial com os principais quadros do Mussum