Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Onde a França é mais italiana - Mari Campos


Um dos destinos vinícolas mais excitantes e inexplorados do mundo, a Córsega concentra vilarejos medievais, natureza de tirar o fôlego e vinhos cheios de personalidade

Entre as altas montanhas e o azul intenso do Mar Mediterrâneo, os vinhedos se esparramam a perder de vista, tomando a maior parte das sinuosas colinas cobertas de verde. Apesar do dia de sol e céu claro, o vento sopra forte, zunindo agudo e farfalhando as folhagens. Dois cães seguem logo á minha frente, como se estivessem conduzindo a visita à vinícola, percorrendo em zigue-zague o caminho entre as parreiras. Enquanto caminhamos pelos vinhedos, a norte-americana Sarah Imbert, nossa anfitriã na Domaine de Torraccia, faz uma analogia interessante com a história de seu octogenário sogro e proprietário do lugar, Christian Imbert: "Quase um roteiro hollywoodiano".

Considerado um dos pais da viticultura contemporânea na Córsega, Monsieur Imbert teve uma vida nômade no Chade, África Central, exportando produtos agrícolas. Casou-se com uma dançarina da Broadway, mudou-se para Paris e um belo dia resolveu navegar até as ilhas gregoas, quando lhe ocorreu desviar até a Córsega. Caiu de amores, comprou ali um pedaço de terra e, em pouco tempo, já sabia o que queria fazer: produzir vinho naquele lugar. Assim, há quase 50 anos, ele fundava, no sul da ilha, a Domaine de Torraccia. Os primeiros vinhedos eram de Garnacha e Syrah, mas ele logo percebeu que, se quisesse mesmo fazer vinhos de qualidade, teria que abrir mão de utilizar cepas importadas para se dedicar às variedades nativas. Hoje, mesclando Niellucciu, Sciaccarellu e Vermentino, por exemplo, ele produz alguns dos mais respeitados vinhos corsos, com destaque para a linha Oriu. Icônica a vinícola está sempre aberta para passeios a pé, por buggy ou a cavalo (domaine-de-torraccia.com).

Personalidade própria

Terra nativa de grandes nomes, como Napoleão Bonaparte (1769-1821) e Cristóvão Colombo (1451-1506), a Córsega pertenceu à Itália até 1768, quando foi invadida pela França. Ao longo de sua história, muitos povos cravaram passagem na ilha: mouros, pisanos, espanhóis, genoveses, entre outros, o que confere ao lugar um perfil muito diferente de qualquer outro território francês. Moldada por esse legado, a cultura da ilha influencia o modus operandi dos vinicultores locais e desenha a personalidade de seus vinhos. Hoje, são ao todo, nove Denominações de Origem Controlada e 40 variedades autóctones - várias outras em vias de serem descobertas. O cultivo é favorecido pela diversidade de tipos de solo associada aos climas marítimo e continental, fortemente influenciados pelas montanhas e ventos constantes.

Em meio aos produtores contemporâneos, Antoine Arena é outro grande nome, ao lado de Christian Imbert. Filho e neto de winemakers, ele transformou, com ajuda da biodinâmica, os antigos 3 hectares da família em uma das principais vinícolas corsas, a Domaine Antoine Arena (antoine-arena.fr), hoje distribuída em 14 hectares em Patrimônio, no norte da ilha. Arena também liderou o trabalho que culminaria no ressurgimento de uma antiga variedade local, a Bianco Gentile, que se destaca em seu deliciosamente informal vin-de-pays (vinho regional, não produzido de acordo com regulamentações da Denominação de Origem). Ali a colheita ainda é feita de modo inteiramente manual. Desde que seus filhos, Antoine-Marie e Jean-Baptiste, assumiram a produção, os vinhos ganharam mais elegância, apesar de concentrados, a exemplo dos melhores rótulos corsos.

Mais ao sul da ilha, a bela Clos d'Alzeto (closdalzeto.com) tem os mais altos vinhedos da Córsega, chegando a quase 600 metros médios. A paisagem impressiona já desde a estrada, com belas vinhas escalando picos rochosos, preservadas ali desde o início do século 19 pela família Albertini, que há gerações comanda a vinícola. A produção atual inclui rótulos diversos, entre eles um rosé excelente, com boa relação custo-benefício.

Já os vinhos da Clos Canarelli (vinho.me/ClosCanarelli) ganharam cara nova desde que Yves Canarelli assumiu os vinhedos da família, na década de 1990. O intrépido produtor substituiu, sem dó, as variedades internacionais cultivadas por anos 1960 e 1970 por castas endêmicas da Córsega, utilizando o plantio biodinâmico. Seus Cuvée Amphora 100% Niellucciu e o Bianco Gentile 2014, cheios de frescor cítrico, são louváveis, resultado da união magistral de métodos tradicionais e ousadas novas tecnologias. 



(texto publicado na revista wine.com.br nº 76 - abril de 2016)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Casal pop - Eliane Trindade



Depois de fazer dos quatro anos à frente do Consulado da França em São Paulo uma festa e uma oportunidade para o debate da igualdade rcial, Damien e Alexandra Loras decidem ficar no Brasil

Na noite de terça-feira (30), Damien Loras, 46, começou a se despedir da residência consular da França em São Paulo com um brinde à babá Eliana Barbosa, 37. Ofereceu um champanhe rosé da Provença para a profissional que cuida do seu filho Raphäel, 4, que se preparava para dormir. "O cônsul me agradeceu pela dedicação e pelo carinho", conta a babá. No dia seguinte, o diplomata e a mulher, Alexandra, 39, despediram-se oficialmente com o mesmo ritual dos outros sete empregados da residência que ocuparam nos últimos quatro anos e transformaram em espaço festivo. Era o endereço de uma consulesa que virou referência no debate da igualdade racial e do empoderamento da mulher negra. A despedida do posto é uma interrupção na carreira diplomática, já que o agora ex-cônsul se licenciou, ao decidir ficar em São Paulo. "Uma parte importante da história do mundo vai ser escrita no Brasil. Fazer parte disso, com Alexandra e nosso filho, é muito entusiasmante", afirma.

O diplomata se diz surpreso com a falta de confiança do povo brasileiro no potencial do país. Ele e Alexandra viraram sócios da Loras D&A Consultoria. O nome reúne as iniciais de ambos, que ligadas pelo "E" comercial ganham a sonoridade em inglês de DNA, a molécula a vida. No caso, uma vida nova nos trópicos e na iniciativa privada. Enquanto ele passa a atuar como consultor de empresas que desejam investir no Brasil, ela vai dar sequência à bem sucedida carreira de palestrante e deslanchar projetos, como um programa de TV.

Ela proferiu mais de 150 palestras, a maioria gratuitamente, mas passou a ser convidada por bancos e multinacionais dispostos a pagar até R$ 15 mil para ouvi-la contar como se "tornou uma melhor versão de si mesma" e fugiu  do papel decorativo de consulesa.

"Alexandra ganhou protagonismo na luta contra a discriminação racial no Brasil, além de se expressar de uma forma que as pessoas querem ouvir", diz a juíza Mylene Ramos, única magistrada negra do Fórum Trabalhista da Zona Sul de SP.

As duas são parceiras em nova empreitada: um curso de pós-graduação em relações étnico-raciais da faculdade Campos Salles.

Filha de mãe francesa e pai africano, a ex-consulesa usa a trajetória de sucesso para aumentar a autoestima entre os afrodescendentes. Vai lançar um livro sobre grandes inventores negros da humanidade.

"Com opinião que se soma à própria história e ao seu carisma. Alexandra é uma espécie de terrorista do bem", define Mariana Barros, que a convidou para ser voluntária no projeto "Treinamento Intercultural para Imigrantes e Refugiados.

Uma vez por mês, Alexandra dá cursos para haitianos e africanos que buscam vida nova no Brasil. O ativismo também foi transformador para a francesa mestiça, que passou a valorizar seus fios crespos. "Durante 30 anos alisei meu cabelo até ter coragem de assumir minha beleza natural", diz. Mas precisa vencer a resistência do marido. "Damien não gosta do meu cabelo natural, quer que eu alise." Ao ouvir a conversa, ele brinca: "Quero que ela fique loura".

Não é verdade. "Ter uma família misturada é um 'assef' [um ativo]", afirma ele. "É uma riqueza enorme ter uma esposa negra, eu ser branco e termos um filho quase norueguês. O movimento da história é esse. Daqui a alguns anos não existirá um branco 100%. Seremos todos pardos, misturados. É matemático."

Ele faz graça com ofato de o herdeiro ser louríssimo. "Eu sempre falo: não sei se sou o pai, mas com certeza ela não é a mãe."




A piada é boa, mas o papo é sério. "Eu tenho uma origem social tradicional. Alexandra vem de uma família um pouco bagunçada. Traz esse olhar transgressivo, alargando meus horizontes. A vida é maior ao lado dela."

O bisneto de um aristocrata decapitado na Revolução Francesa encantou-se pela apresentadora que conheceu em um jantar na casa de um amigo em Paris, há oito anos. "Quando nos vimos, caiu um raio", conta ela, que seis meses depois seria pedida em casamento na Provença.

Alexandra desembarcou em São Paulo com um bebê de quatro meses no colo e tendo abdicado da carreira para seguir o marido. O jovem casal impôs seu estilo, abrindo as portas do consulado para diferentes tribos. Para quebrar barreiras, o cônsul comprou a ideia e articulou patrocínio para levar ao sambódromo o enredo "Je Suis Vai-Vai: Bem-vindos à França", um parceria com a escola de samba do Bexiga neste ano. Alexandra foi destaque no carro abre-alas e confirmou presença na passarela em 2017, embora admita que não tem samba no pé.

A veia festeira do casal se mostrou logo de cara, quando colocaram no calendário paulistano o Bailinho da Bastilha, em comemoração à data nacional da França, o 14 de julho, reunindo 11 mil pessoas em quatro edições.

Eles  tinham a opção de ir para um novo posto diplomático na ONU, em Nova York, ou no Canadá, mas escolheram convictos a qualidade de vida paulistana. "São Paulo não é uma cidade que você ama à primeira vista. O primeiro encontro com esse monstro urbano pode ser bastante violento. Mas quanto mais você mora, mais entende a riqueza de viver aqui. Poucas cidades no mundo têm essa energia", elogia Damien.

O casal francês elegeu alguns programas prediletos na Pauliceia, entre eles ver os grafites do Beco do Batman, na Vila Madalena, e o skyline do topo do hotel Unique. Escapam sempre que podem para Picinguaba ou Barra do Una, no litoral norte. Outra opção é a fazenda dos amigos Juliana e Marcelo Sabó, em Campinas.

A designer de joias é uma das amigas mais próximas de Alexandra, companheira do Clube Pinheiros, onde a consulesa já foi confundida com a babá. "Alexandra veio fazer diferença na nossa sociedade. Difícil alguém do nosso status e do nosso meio ter uma cabeça tão aberta", diz Juliana, que não tem outras amigas afrodescendentes. "Infelizmente, temos ainda poucos negros com maior poder aquisitivo no Brasil."

Para chamar a atenção para o fato, Alexandra convidou outra amiga, Paola de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira, para vestir um avental em um ensaio fotográfico da "Vogue", no qual a consulesa posa de aristocrata.

Alexandra, no entanto, não quis posar para a "Playboy" brasileira, recusando o convite para um ensaio sensual na publicação. Mas ousou ao participar de um ritual do Santo Daime, em Alto Paraíso (GO). Foi conhecer a manifestação religiosa que usa a erva ayahuasca como bebida sacramental na intenção de fazer um documentário para a TV francesa sobre o tema. "Tinha medo dessa planta sagrada, mas foi a melhor experiência da minha vida."

Esse olhar curioso é um dos trunfos de um reality show que ela pretende protagonizar e que está negociando com o canal pago E! Entertainment. Até lá, esperam desfazer as inúmeras caixas, livrar poltronas e objetos do plástico bolha e dispensar os operários que finalizam a reforma no imóvel de cinco quartos a 50 metros da antiga residência no Jardim Paulistano. 



(texto publicado na revista da Folha sãopaulo - 4 a 10 de setembro de 2016)

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Quando foi construído o Arco do Triunfo?


Em 1805, a cidade de Austerlitz, República Tcheca, foi palco de uma das mais importantes vitórias militares de Napoleão. Os seus 68.000 soldados derrotaram 90.000 combatentes da Rússia e da Áustria, que formavam uma coalizão contra seu império. A vitória deixou Napoleão eufórico a ponto de prometer aos seus soldados a mesma glória dada aos exércitos romanos: voltar para casa sob arcos triunfais. No ano seguinte, em Paris, foi lançada a primeira pedra do monumento, mas o império do francês não durou a ponto de vê-lo terminado. As obras foram concluídas em 1836, no reinado de Luís Filipe, Napoleão, ironicamente, passou sob seu monumento triunfal apenas uma vez: no seu cortejo fúnebre, em 1840.

O arco ganhou novo significado quando a Primeira Guerra Mundial acabou e o vitorioso exército francês marchou debaixo dele. Para homenagear os heróis da guerra, o corpo de um soldado foi enterrado no subsolo. A marcha vitoriosa se repetiu em 1944, liderada pelo general De Gaulle, para comemorar a libertação de Paris do controle alemão na Segunda Guerra Mundial.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 1 - ano 15 - janeiro de 2001)


domingo, 22 de março de 2015

Paris e Madri vão banir carros do centro e investir em bicicletas (Mistura Urbana)



Nada como pensar no meio ambiente e na mobilidade urbana de forma diferenciada. Cidades que adotam cada vez mais o uso das bicicletas estão à frente, como é o caso de Paris, quando a prefeita Anne Hidalgo estabeleceu que até 2020 o centro da cidade estará livre de carros, isso significa que nas áreas centrais, onde normalmente os carros invadem todos os espaços, pedestres, ciclistas, táxis e ônibus terão liberdade de circulação.

Essa medida vem ao encontro de se tentar diminuir os níveis de poluição, dessa forma a prefeitura oferece alternativas para a população como transporte público, bicicletas e compartilhamento de carros elétricos gratuitamente. A ideia é que o projeto inicie aos finais de semana até se tornar permanente. Vale ressaltar que a prefeita quer investir cerca de 100 milhões de euros para duplicar os quilômetros das ciclovias até 2020.

Atualmente, 60% dos moradores de Paris não possuem carros.

Já em Madri, será proibida a circulação de carros a partir desse mês em uma área de 352 hectares. Quem desobedecer será multado em 90 euros. Além disso, por lá também é forte o Sistema BiciMad, com aluguel de bicicletas e o incentivo ao uso do transporte público.




















segunda-feira, 3 de março de 2014

Diário de vida: passeios e livros


Desde que levei o Hachiko ao veterinário para desencravar uma unha o tenho levado para passear praticamente todos os dias. Hoje, por exemplo, saímos juntos 2 vezes. Tento mudar o itinerário todos os dias na medida do possível para que ele conheça lugares e cheiros diferentes. 

Como tem muito tráfego na rua em que moro o levo para passear pelas ruas de um condomínio que é bem mais tranquilo onde várias pessoas levam seus cães. Tem um parque muito legal para fazer caminhadas e o Hachiko já foi lá 2 vezes. Ano passado fiz minhas caminhadas sozinha e aproveitava para tirar várias fotos.

O interessante nesse parque é que há cerca de um mês começaram a deixar revistas e livros sobre um banco que as pessoas podem ler no local ou então levar para casa com o compromisso de devolver quando acabarem de ler. Eu não pretendia trazer nada para casa, ainda mais que estou em um processo de vender, escambar e doar livros e revistas que não me quero mais, mas fiquei interessada em um volume em perfeito estado com o título de "Um livro por dia" do canadense Jeremy Mercer. É uma obra autobiográfica na qual o autor, repórter policial, conta a sua experiência de leitor e morador da livraria Shakespeare and Company na capital francesa.

O que me chamou a atenção foi a capa. Achei a livraria muito familiar e logo me lembrei que era a mesma em que o personagem de Ethan Hawke, Jesse, no filme "Antes do por-do-sol" lançava sua obra autobiográfica sobre seu encontro em Viena 9 anos antes com Céline, personagem de Julie Delpy. 

Nada como unir o útil ao saudável e agradável. Passeios com o cão e descoberta de livros. O Hachiko está cada vez mais calmo depois que começou a fazer essas caminhadas diárias. E sempre dou uma passada na revistaria para bater um papo com a Louise. No início fiquei receosa em deixar o Hachiko entrar lá, mas ele se deita e fica quietinho. 




Jesse e Céline na frente da livraria Shakespeare and Company





O parque em que faço minhas caminhadas com o Hachiko




Trailer do filme "Antes do por-do-sol" (Before sunset)