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sábado, 10 de fevereiro de 2018

Paciente, discípula e amante - Nelson Blecher


Como Sabina Spielrein seduziu Carl Jung e influenciou a criação da psicanálise

Genebra, outubro de 1977. Um maço de documentos resgatados nos porões do Palácio Wilson, que no passado abrigara o Instituto de Psicologia, trouxe à luz detalhes de uma das tramas mais fascinantes do período nascente da psicanálise. Foram encontradas 46 correspondências do psicólogo suíço Carl Jung, 21 do vienense Sigmund Freud e 12 da até então pouco conhecida Sabina Spielrein - além de partes de seu diário íntimo entre 19091 e 1912. Sabina era uma espevitada morena de porte mignon, que viria a participar do palco da nascente disciplina ao lado de seus dois principais expoentes.

Neta e bisneta de rabinos e filha de um bem-sucedido comerciante de Rostov-On-Don, Sabina, aos 19 anos, viajara para Zurique em 1904 para inscrever-se na faculdade de medicina. Em vez disso, foi internada no dia 17 de agosto no Hospital Burgholzli, acometida de um surto de histeria aguda. Passou a ser submetida a tratamento ministrado pelo jovem médico Carl Jung, de 29 anos, que a essa altura já se correspondia com Freud, então com 48. Num relatório a Freud, Jung afirmou que, quando criança, a paciente, que era assistida por medos noturnos, se excitava sexualmente com as surras aplicadas pelo pai - um homem de humor instável, tirânico e depressivo, que em alguns momentos ameaçava suicidar-se. Bastava olhar para uma mão que lembrasse a do pai para que Sabina se masturbasse. Jung não deixou de notar a aguçada inteligência da paciente, que aos 7 anos já era fluente em francês e alemão e, mais tarde, inglês.

A relação entre Jung e Sabina evoluiu à medida que o tratamento avançava. Primeiro, ela o ajudou a monitorar os testes de associação de palavras, um dos experimentos iniciais de Jung no campo de sua futura psicologia analítica. "É difícil formular um parecer sobre o estado mental de Sabina Spielrein", escreveu o psicólogo italiano Aldo Carotenuto, autor de Diário de uma secreta simetria, obra em que se debruça sobre a correspondência. "A hipótese mais provável é que ela tenha tido um surto psicótico rapidamente controlado pela intervenção de Jung."

Ao entrar para a faculdade de medicina, Sabina mudou-se para um apartamento nas proximidades. A relação com seu terapeuta converteu-se em amizade com colaboração romântica até se tornarem amantes. Em passeios de barco e longas caminhadas pelos jardins de Zurique, Jung lhe confidenciava seus temores e expectativas em relação às metas de sua vida e às oportunidades que se descortinavam à comunidade internacional de analistas."Naquela época, não haviam sido dados limites ainda", afirma Deirdre Bair, biógrafa de Jung. "Os maridos analisavam as mulheres, analistas e pacientes se envolviam livremente em relações sociais e sexuais." Qualquer apressado julgamento moralista desses "affaires" deve considerar que, àquela altura, a psique ainda era um território desconhecido para os próprios pioneiros da psicanálise.

Ao contrário de Freud,que aos 40 anos já se conformara em "esperar a morte", Jung, casado com uma herdeira milionária, ansiava por uma amante que pudesse aceitar que o amor "fosse seu próprio fim, em vez de um meio para um fim". Paul Stern, outro biógrafo, relatou o magnetismo de Jung por todo tipo de mulheres neuróticas, que se sentiam incompreendidas. Não demorou muito para que o caso com Sabina viesse a público, na forma de um escândalo amplificado pelas fofocas dos estudantes de medicina.

Sabina proclamava seus sentimentos a quem quisesse ouvir e, provavelmente após uma briga com Jung ou durante uma de suas crises, acusava-o de se recusar a ser pai de seu futuro filho, embora não estivesse grávida. Como se não bastasse, chegou à senhora Spielrein, a mãe de Sabina, uma carta anônima pedindo que viesse resgatar a filha antes que Jung a arruinasse. Segundo a biógrafa Deirdre, as suspeitas a respeito de quem enviou a carta recaem sobre Emma, mulher e Jung, que sempre recusou uma aproximação com Sabina e em várias ocasiões esteve perto de pedir o divórcio ao marido infiel. A senhora Spielrein cobrou satisfação de Jung, a quem considerava o salvador da filha. Por carta, ele se limitou a explicar que, na relação de amizade entre homem e mulher, existia sempre a possibilidade de algo mais ocorrer.

Esse enredo que associa um folhetim de paixão, traição e escândalo à nascente psicanálise e seus protagonistas foi explorado pelo cineasta canadense David Cronenberg em Um método perigoso, que estreia no Brasil nesta semana. Com Keira Knightley encarnando uma histriônica Sabina, Viggo Mortensen no papel de Freud e Michael Fassbinder como um charmoso Jung, o roteiro segue com fidelidade biográfica os passos de seus personagens. Os lances que se desdobram à descoberta do romance formam uma cadeia de reações perfeitamente humanas, o que confere ao caso ensinamentos preciosos sobre o fenômeno da transferência e contratransferência envolvendo analisando e analista, e que Freud dizia ser um dos perigos da atividade psicanalítica. Por transferência, entendam-se as imagens e os afetos inconscientes que o paciente projeta no analista ao longo da análise, capazes de gerar vínculos emocionais positivos ou negativos. Contratransferência é o mesmo fenômeno que ocorre com o analista em relação ao paciente.

Numa carta a Freud, sem citar o nome de Sabina, Jung se queixa de uma paciente que "acabara de profanar a amizade da maneira mais mortificante". Sabina passa a escrever cartas a Freud em que expõe sua versão do tumultuado relacionamento. Freud foi informado que certa vez, numa discussão, Sabina agarrou uma faca, Jung a desarmou e ela o esbofeteou. Desde o início, ele se recusou a atuar como mediador das desavenças do casal. Aconselhou Sabina a suprimir sentimentos negativos a respeito de seu relacionamento próximo com Jung. Naquele período, Freud ainda via Jung como um promissor colaborador, espécie de futuro príncipe da psicanálise. Anos depois os dois romperiam, um tanto por divergências científicas, outro por incompatibilidade de gênios. Jung não queria encarnar o papel de discípulo conformado. É interessante observar que, enquanto Freud viveu cercado por uma confraria de discípulos vienenses, a maioria de ascendência judaica, Jung encontrou nas mulheres companhia para sua viagem ao inconsciente. Toni Wolff, a amante que sucedeu Sabina, Barbara Hannah, Aniela Jaffe, Yolanda Jaccobi, Marie-Louise von Franz e Emma Jung, com quem se casou, perfilam-se na linha de frente da corte junguiana.

A aproximação de Sabina com Freud deu-se depois que ela se graduou na faculdade de medicina, em 1911, com uma tese intitulada O conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia, sob orientação de Jung. Sabina se mudou de Zurique para Viena, onde conheceu Freud e passou a participar dos seminários de quarta-feira, debates em que impressionou o mestre e seus discípulos. O segundo trabalho de Sabina, A destruição como causa do nascimento, influenciou um dos focos centrais de Freud e fez Sabina ser lembrada como precursora do instinto de morte. "Nesse segundo texto, ela antecipava, quase palavra por palavra, os princípios de Freud em Para além do princípio do prazer, afirma Carotenuto. Sua influência sobre Jung foi muito além da teoria. Em suas memórias, Jung descreve seu confronto com o inconsciente e a certa altura refere-se à voz de uma paciente, "uma inteligente psicopata que tinha por mim uma forte transferência e que estava impressa em minha mente como uma figura viva". O caso também é citado em A psicologia da transferência. 

No início da década de 1920, casada com um médico, Sabina retornou a sua cidade natal na Rússia. Ali, se juntou ao movimento da psicanálise, ajudando a difundir a nova disciplina até 1936, quando ela foi posta na ilegalidade pelos bolcheviques. Entre as poucas informações obtidas sobre Sabina no período há o fato de que ela organizou um jardim de infância com a intenção de oferecer uma vida melhor às crianças com problemas em seus lares. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, Sabina e suas duas filhas foram mortas por nazistas. O psicólogo e escritor austríaco Bruno Bettelheim foi quem provavelmente melhor sintetizou o papel exercido por Sabina Spielrein em relação à dupla de monstros sagrados da psicologia do século XX: "Enquanto Freud e Jung permitiram que seus impulsos destrutivos os afastassem um do outro, Spielrein defendeu até o fim o impulso criativo que, ela esperava, uniria os dois em um empreendimento comum".

O doutor J. e as mulheres

Quem foram as discípulas que fizeram parte da corte do fundador da psicologia analítica

Emma Jung (1882-1955)

Nascida Rauschenbach, herdeira de uma fortuna na Suíça, foi mulher e mãe dos cinco filhos de CArl Jung. Tornou-se analista, pesquisadora e escritora, autora de Anima e animus

Sabina Spielrein (1885-1942)

Judia russa formada em medicina em Zurique, foi paciente, discípula e amante de Jung e também exerceu influência na psicanálise, como precursora do instinto da morte

Antonia (toni) Wolff (1888-1953)

Foi durante três décadas amante de Jung, que a considerava a "segunda mulher". Cofundadora do Clube de Psicologia de Zurique

Marie-Louise von Franz (1915-1998)

A mais prolífica das discípulas e a melhor intérprete do mestre. Escreveu mais de 20 livros, a maioria de análise de contos de fadas. É autora de C. G. Jung: seu mito em nossa época

Aniella Jaffe (1903-1991)

Nascida na Alemanha, foi secretária pessoal de Jung entre 1955 e 1961, ano de sua morte. Gravou e editou as reminiscências de Jung contidas em Memórias: sonhos e reflexões

Barbara Hannah (1891-1986)

Analista junguiana, teve uma convivência intelectual com o mestre a partir de 1929 até sua morte. É autora da biografia Jung, sua vida e sua obra


(texto publicado na revista Época nº 723 de 26 de março de 2012)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A sexualidade e a invenção do "vibrador" - Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps


A comédia Hysteria toca sem nenhum pudor em fatos históricos pitorescos e que vistos hojes nos parecem inacreditáveis

Em tempos de acalorados debates em torno do fenômeno editorial 50 tons de cinza, surge no cenário cinematográfico, como um azarão, o filme Hysteria, da diretora americana Tanya Wexler, que fez até então, segundo informações da crítica especializada, apenas outros dois longas de pouco destaque (no Brasil temos como conhecido apenas Ovelha negra). A diretora vem roubando a cena com o filme Hysteria, conforme notícias sobre os acontecimentos do Festival de Toronto. A obra também esteve presente no Festival do Rio 2012. Entre atônitos, sorridentes ou indignados, seguem a crítica e espectadores. Protagonizado pela atriz sempre magistral Maggie Gyllenhaal, que em sua trajetória já nos havia brindado com, no mínimo, outro filme bem polêmico, mas muito divertido, Secretária, dirigido por Steven Spielberg, que aborda de forma singular as práticas conhecidas pela sigla BDSM (BD = Bondade e Disciplina); DS = Dominação e Submissão; SM = Sadomasoquismo), tema abordado pelo livro citado que vem agitando homens e mulheres e lançando novamente a pergunta: "afinal, o que querem as mulheres?"

Assinam o roteiro de Hysteria Jonah Lisa Dyer, Stephen Dyer e Howard Gensler, trazendo no elenco principal, além de Gyllenhaal, os atores Hugh Dancy, Jonathan Pryce, Rupert Everett, Felicity Jones e Gemma Jones.


Época "vitoriana"

Todo o enredo se passa em épocas inscritas um pouco antes do aparecimento da Psicanálise e narra a invenção desse aparelhinho voltado primeiramente ao público feminino, descoberto por acaso, como decorrência de um tratamento prescrito para o que então se pensava como uma doença que acometia as mulheres, seu diagnóstico ligado a distúrbios no útero e que provocariam dores abdominais e reações de nervosismo, desânimo ou enlouquecimento. Tudo que estava fora da compreensão da Medicina marcada pela mão do masculino dominador, época conhecida como "vitoriana", em que a moral ditava estreitos padrões de comportamento e onde sequer se pensava que as mulheres pudessem ter desejos sexuais. Sigmund Freud ainda não havia chegado trazendo "a peste", tudo fora do esperado para uma mulher, diga-se que na verdade muito pouco, era então compreendido como histeria, uma alteração fisiológica no aparelho reprodutivo feminino. Esse diagnóstico em termos fisiológicos só será retirado dos manuais de diagnóstico lá por meados dos anos 50 do século XX. Estava longe ainda da transformação em psiconeurose sem gênero determinante, que esse conceito ganharia a partir da formulação dos constructos psicanalíticos, as "bocas de ouro" ainda gritavam como "loucas" (vale muito assistir também ao chocante Ópio - Diário de uma louca). Freud já "no outono de 1886, ao discorrer sobre a histeria masculina e propor etiologias psicológicas para ela, perante a associação médica de Viena, encontrou uma audiência variada" (GAY, P.).

Acompanharemos nessa obra, a trajetória do médico idealista, que queria realmente minimizar o sofrimento de suas pacientes, o Dr. Mortimer Granville (Hugh Dancy), no início do século XIX, um seguidor atento das, à época, recentes descobertas científicas sobre a existência de micro-organismos e a consequente formulação da necessidade de assepsia para paciente e ambiente. Interessante notar e traçar um paralelo irônico com os dias atuais na questão dos xaropes milagrosos que eram vendidos à larga com o nome de médicos que prescreviam as fórmulas para o alívio de sintomas. Desentende-se com o chefe da clínica onde trabalhava, que prescrevia seu xarope para tudo, é demitido e, desanimado, procura refúgio junto ao amigo e protetor, Edmund St. John-Smythe (Rupert Everett), um jovem muito rico e aficionado por inventos e pela geração de energia que movimente geringonças. Nesse encontro, o personagem Edmund faz comentários a respeito do telefone recém-instalado em sua casa, que provocam risos quando pensamos nos dias atuais e a facilidade de comunicação não com o outro lado da cidade, mas com o outro lado do mundo, pequenos detalhes que ao longo do filme são como uma fala ao espectador: "Ei, psiu, isso aí foi há muito tempo, há muitas descobertas atrás!" Entre elas o conceito de libido que Freud ainda na virada do século irá trazer para o debate no mundo científico, sofrendo com isso, como nos conta suas biografias, o desprezo por grande parte do meio onde circulava com suas ousadas descobertas.


Paroxismos e alívios

Se o filme não se pretende uma grande obra para constar das prateleiras dos cinéfilos mais exigentes, traz, entretanto, um grande interesse como o de olhar de bem mais perto, de forma muito direta, para a cultura que desembocou na formulação da Psicanálise, tornando-se, assim, muito interessante para o público do campo psi e interessados no tema. Chega a ser risivelmente chocante verificar que não se pensava a mulher como sujeito investido de desejo, os orgasmos que aliviavam aquelas mulheres sofredoras da tal histeria eram nomeados pomposamente pelo Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce) como "paroxismos", como ele explica ao seu novo assistente, Dr. Mortimer Granville (Hugh Dancy). Contratato para trabalhar para o Dr. Dalrymple, Mortimer inicia suas atividades de massagens pélvicas nas pacientes que lotavam o consultório à procura de alívio para suas angústias, pesadelos, dores do corpo e da alma.

Dr. Mortimer Granville logo se encantará pela doce e prendada filha do seu empregador, a encantadora Emily Dalrymple, e, ao mesmo tempo, ficará surpreso com a fúria e rebeldia da irmã, a impetuosa Charlotte Dalrymple. Ao sermos apresentados a essas duas mulheres, de certa maneira somos conduzidos a pensar em todas as transformações ao mundo da mulher que já começavam a se manifestar enquanto reivindicações que vieram a tomar efetivo vulto e realidade ao longo do século XX. Temos ainda a pitada abertamente erótica da personagem Fannie (Ashley Jensen), que testará pela primeira vez a engenhoca que inventarão, trazida aos nossos dias como um brinquedo erótico, mas que já foi vendida em catálogos e lojas de departamento como um massageador feminino, como um aparelho médico ou eleetrodoméstico em lojas como Sears, ou através de revistas como Good Housekeeping. Entra em cena o reconhecimento da mulher também como um sujeito do gozo, e o aparelhinho vai parar em sexshops, provocando a partir disso, para muitas mulheres, o pudor em comprá-lo. A diretora Tanya Wexler conta, em entrevista, que levou muitos aparelhos para dar de lembrança a toda a equipe, e foi parada na alfândega londrina. Quando perguntada por que tantos dispositivos eletrônicos na bagagem, explicou do que se tratava e rapidamente foi dispensada de abrir suas valises para verificação. Os pudores ainda persistem, ainda mais quando se fala do mundo da mulher, da mulher que goza, que encontra na atividade sexual também o caminho da sua construção no mundo. Certo desconforto trazido por esse filme talvez remeta a essa questão. Charlotte grita tudo isso a todos, recusa-se a aceitar os apertados "espartilhos sociais" que lhe estão destinados, busca, indaga, enfrenta, questiona. Transforma-se em uma histérica que poderá ser confinada em um asilo e ter seu útero retirado para que possa ser curada de ousar ser sujeito.

"Os destinos da mulher nos tempos originários nos são ocultos por uma obscuridade especial" (FREUD, S.).


Questão de gênero

É fato que o papel da mulher ao longo da história da cultura se assenta em silêncios, o tal "continente negro" ao qual Freud se refere e que também o cega, que o lança à indagação do que desejariam as mulheres como se houvesse aí um sujeito diferenciado por gênero. E o que desejam os homens hoje? E como se desejam os gêneros? Então voltemos ao nosso filme aqui tratado, porque assistiremos nosso protagonista Mortimer balançar entre duas figuras do feminino, completamente opostas, Emily e Charlotte, as duas irmãs que escolhem seu papel social de forma absolutamente diferenciada uma da outra, a doce Emily cordata e feminina e a impetuosa Charlotte, que olha para o mundo de um patamar muito mais abrangente do que apenas o gênero que o biológico e a cultura a colocaram. O que escolhe Mortimer? O que desejam os homens? Unidos pelo ideal de um mundo mais justo e melhor, se espantam com o mútuo reconhecimento os futuros cunhados. Em seu novo status, encanta-se Mortimer pela possibilidade de união com Emily oferecida pelo pai Robert Dalrymple, seu empregador. Afinal, o que desejam os homens quando amam? Vale ainda ler Freud em seu texto "Contribuições à Psicologia do amor". Que fratura ainda é preciso remeter o feminino ao silêncio e a tons obscuros e fragmentados? O discurso oficial fálico sempre se apressa em assumir as conclusões finais.

O filme tem mesmo um traçado jocoso, mas como sabemos o chiste em Psicanálise traz muito do recalcado, uma forma de expor o inconfessável, e assistimos ao longo do que nos é contado uma sucessão de boas cutucadas nem tão datadas assim como poderíamos supor por seu foco histórico. No mínimo, além do entretenimento e boas risadas, poderá investir de energia um bom debate, atualizando tudo que se esconde hoje por detrás de um liberação em torno do que se fala da sexualidade feminina, ainda marcada pelo discurso dominante masculino. Ao tocar o sexo feminino e suas insatisfações, a Psicanálise abre também as portas para o masculino em sua busca de prazer e felicidade. Talvez a irreverência de Tania Wexler possa desarrumar um pouco a Psicanálise bem-comportada que vemos crescer no Brasil, quase que evangelizada.

Ainda há uma proximidade sutil com o que há quase dois séculos se pensava sobre o corpo feminino e seu lugar na construção da relação entre os gêneros, lugar onde a dor e a submissão marcavam tudo, gemidos e discursos. Em entrevista, Hugh Dancy disse que o que mais achou engraçado foi "o fato de que os médicos (em 1880) diagnosticavam a sério uma doença não existente (a histeria) e faziam o que faziam sem nenhuma preocupação e sem ver nada de sexual nisso". Podemos então refletir que se o movimento feminista foi uma construção histórica necessária, talvez hoje haja necessidade de se pensar mais na relação entre os gêneros para que encontremos um pouco da tal felicidade. Mortimer e Charlotte encerram a história contada pelo filme nos dando alguma esperança nesse sentido. E nos atestam que, antes de sermos um gênero, somos um ser social, unido por expectativas e visão de mundo onde os papéis de gênero pouco ou nada deveriam importar.



(texto publicado na revista Psique nº 83)


Trailer do filme Hysteria



domingo, 15 de setembro de 2013

Sigmund Freud - A Invenção da Psicanálise (1997) - áudio em francês e legendas em português


Comportamento obsessivo - Roberta de Medeiros


O transtorno obsessivo-compulsivo é mais comum do que doenças como asma e diabetes e se caracteriza pela presença de pensamentos intrusivos e rituais que comprometem decisivamente o estilo de vida dos pacientes

Em Melhor Impossível, Jack Nicholson interpreta o sarcástico e preconceituoso escritor de romances Melvin Udall, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator em 1998. Isolado em um apartamento em Manhattan, o personagem obsessivo-compulsivo tem um intenso medo de ser contaminado. Ele sempre usa luvas para não tocar em nada, lava as mãos com água quente e usa dois sabonetes a cada lavada. Ao sair, leva talheres descartáveis de casa. Ao pegar o táxi, não toca no puxador da porta. Quando entra em casa, vira a maçaneta quatro vezes para cada lado e desliga a luz o mesmo número de vezes. Ele é viciado em seu trabalho sem óbvia necessidade econômica e evita envolvimento emocional, inclusive não admite depender de alguém. É sempre pontual ao ir ao restaurante e a única pessoa que parece tolerar o seu comportamento é a garçonete, interpretada por Helen Hurt, que o ajuda a se tornar mais flexível e com quem ele acaba vivendo um romance.


Cenas do filme Melhor Impossível com Jack Nicholson


Como o personagem, quase 4% da população sofre de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), segundo estimativa do psiquiatra americano John Ratey, professor da Harvard Medical School. Especialistas falam em uma "epidemia oculta', devido à alta presença da doença, que atinge homens e mulheres de diferentes culturas e níveis socioeconômicos. O TOC está entre as dez principais condições médicas mais incapacitantes no mundo. Esse é um dos transtornos mentais mais comuns nos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, quase 3 milhões de pessoas sofrem de TOC. E calcula-se que 7,45 milhões desenvolverão a doença em alguma fase da vida, de acordo com dados da Associação Americana de Psiquiatria. Ainda assim, o tempo para reconhecer a doença é longo - uma pessoa com TOC leva, em média, sete anos para receber tratamento, ou isso pode jamais ocorrer.

Mas o que é transtorno obsessivo-compulsivo? Como o próprio nome diz, a desordem é marcada pela presença de obsessões e compulsões. Uma obsessão é um pensamento recorrente, intrusivo, indesejado, que causa ansiedade e desconforto. As obsessões podem ser pensamentos, envolver imagens, sons, ruminações, convicções, medos ou impulsos - e geralmente têm um conteúdo absurdo, são quase sempre constrangedoras e preocupantes. Por essa razão, a pessoa tenta reprimi-las. O paciente se considera como seus próprios pensamentos, apesar de serem involuntárias e, frequentemente, contrárias aos próprios sentimentos. Elas são acompanhadas de medo, repugnância, dúvida ou sensação de que as coisas devem ser  feitas apenas de uma maneira. E por mais que a pessoa tente resistir, a ansiedade aumenta. Para afastar esse sentimento, a pessoa usa uma estratégia de fuga e se entrega a comportamentos repetitivos que despertam, temporariamente, uma sensação de alívio - essas são as compulsões ou rituais, que servem para restabelecer a segurança e impedir que algo ruim ocorra (doença, acidente, perda). A pessoa pode lavar as mãos vinte vezes após defecar, usando uma série de produtos de limpeza e antissépticos a ponto de irritar ou ferir a pele, devido a uma preocupação constante com germes e bactérias, por exemplo; ou para garantir que não haja sêmen em suas mãos, que poderia engravidar acidentalmente uma mulher.


Genética

Especialistas defendem que o TOC está relacionado a fatores genéticos. Estudo feito pelos pesquisadores Steven Allan Rasmussen, da Universidade de Brown, e Ming Tsuang, da Universidade da Califórnia, com gêmeos idênticos com o transtorno mostrou que 65% deles apresentaram pensamentos obsessivos comuns no TOC, mas as compulsões eram diferentes entre os irmãos ou irmãs. Cerca de 40% dos obsessivos-compulsivos também têm algum parente biológico com TOC. A doença teria uma base genética semelhante aos demais transtornos de ansiedade, como fobia social, transtorno do pânico e ansiedade generalizada. Haveria, ainda, uma ligação genética entre a síndrome de Tourette e o TOC, especialmente as compulsões de simetria e ordenamento, por exemplo. Pacientes com TOC teriam probabilidade quatro vezes maior de ter um familiar com tiques em relação àqueles que não têm o transtorno.

Pesquisas indicam que o funcionamento anormal dos gânglios de base estaria envolvido na presença de sintomas do transtorno. A função dessa área do cérebro é transmitir e modular impulsos nervosos responsáveis pelo início das ações e também pelo controle dos movimentos. Estudos de animais que tiveram os gânglios basais lesados mostram que eles executam movimentos repetitivos semelhantes aos rituais obsessivos. Alguns autores consideram que haveria uma falha na interligação dessa estrutura do cérebro com os lobos temporais, que incluem as regiões pré-frontal e órbito-frontal. Essas regiões do cérebro são responsáveis pela coordenação das demais regiões cerebrais, inclusive a filtragem dos nossos pensamentos, o adiamento de respostas a estímulos sem consequência e a aplicação de princípios lógicos. Exames de neuroimagem ainda mostram que pacientes com TOC têm hiperatividade nos gânglios basais e nos lobos temporais, o que reforça a tese de que essas regiões estão envolvidas com a manifestação de pensamentos ilógicos e repetitivos no transtorno.

Essa atividade excessiva, porém, pode ser normalizada quando o paciente passa por um tratamento eficaz, mostra um estudo feito pela equipe da psicóloga Paula Stoessel, da Universidade da Califórnia. Os pesquisadores avaliaram a atividade cerebral a partir de tomografia por emissão de pósitron de pacientes com TOC antes e depois de receberem sessões de terapia cognitiva comportamental. Depois de dez semanas de tratamento, houve redução do consumo de glicose no núcleo caudado.


Delírio ou obsessão?

Às vezes é difícil distinguir um obsessão (a ideia de que a pessoa será contaminada, por exemplo) do delírio (o envenenamento). O que pode ajudar a distingui-los é o fato de que, no caso da obsessão, o paciente a reconhece como um produto de seu próprio processo de pensamento e quer se ver livre dela. Enquanto no delírio a pessoa acredita que o pensamento é real e não oferece resistência a ele. Em alguns casos, as obsessões podem ser bastante bizarras, como a crença de que a pessoa pode acidentalmente selar a si mesma dentro de um envelope e ser depositada na caixa de correio, como relata a professora de Psicologia Clínica Edna Foa, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Mas, diferentemente de uma pessoa com delírio esquizofrênico, por exemplo, as pessoas com TOC, na maioria das vezes, reconhecem que seus temores são absurdos, embora não saibam como evitá-los. Há quadros, porém, em que a pessoa pode apresentar simultaneamente obsessões e delírios. O medo de ser contaminado, por exemplo, pode dar lugar à culpa de ter contaminado algo ou a pessoa pode acreditar que está sendo perseguida por ter cometido algo repreensível. Pesquisas mostram que té 20% dos pacientes com o transtorno podem evoluir para um quadro psicótico, com perda da crítica em relação aos pensamentos obsessivos.

O mais notável em um paciente com TOC - e justamente o que está por trás do transtorno - é a importância exagerada que ele dá aos seus pensamentos. A pessoa sente culpa ou medo de que seus pensamentos causem danos aos outros ou façam com que algo terrível aconteça, porque ela acredita que ter um pensamento é o mesmo que concretizá-lo. Uma pessoa com obsessões agressivas, que se imagina atacando outra, por exemplo, sofre justamente porque reprova a agressão e o conflito.

Além disso, o paciente repete exaustivamente seus rituais, porque acredita que falhar "em corrigir" um problema é o mesmo que causá-lo. Ele acha que, se não retirar uma pedra da estrada, algo temerário pode ocorrer, o carro seguinte poderá bater na pedra e provocar um acidente. E o pior: ele será culpado pela morte de alguém. A pessoa com TOC parte do princípio de que o mundo é um lugar perigoso, que algo ruim sempre está para acontecer e que os resultados podem ser catastróficos. A consequência disso é que ela passa a evitar situações temidas, ou qualquer coisa que a lembre desse temor, fazendo com que altere radicalmente o seu estilo de vida.

O psicólogo Albert Ellis, fundador da Psicologia Cognitiva-Comportamental, em seu artigo "Rational emotive behavior therapy approaches to obsessive-compulsive disorder", diz que, provavelmente, todos nós temos algumas dessas tendências "loucas". Quando estamos apaixonados por alguém, por exemplo, e temos dúvidas, precisamos nos certificar a cada momento se os nossos sentimentos por ele ou ela estão sendo intensamente correspondidos. Nos desdobramos em cuidados, gestos e tarefas repetitivas à pessoa amad. "Esse tipo de comportamento obsessivo-compulsivo é algo normal - e muitas vezes temporário. Uma vez que deixamos de estar apaixonados, ele desaparece", diz. Mas Ellis deixa claro que o TOC é diferente. "Ele assume muitas formas e disfarces. Em geral, os pacientes que sofrem do transtorno acreditam que precisam ser completamente competentes em todos os seus esforços e que, portanto, não podem cometer erro algum. Por isso são perfeccionistas e conscienciosos".


Menos rituais

Mas o que será que os obsessivos compulsivos pensam sobre si mesmos? Algumas pessoas têm consciência de que seus pensamentos obsessivos são irreais e exagerados (os especialistas chamam de insight), enquanto outras não. Cerca de 5% estão convencidos de que suas obsessões e compulsões são razoáveis. Observações clínicas sugerem que o insight dos obsessivos-compulsivos sobre suas próprias dificuldades pode variar ao longo do tempo e situações. "Assim, os pacientes podem reconhecer a insensatez de seus sintomas ao discuti-los como parte de um processo de avaliação, mas quando confrontados com a situação temida perdem esse insight", lembra Edna Foa. A renomada pesquisadora em psicopatologia e ansiedade diz que existem outros fatores, como humor, presença de outras pessoas e estresse que podem trazer impacto sobre a consciência que os pacientes possuem sobre seu comportamento. Esse é um dado importante, porque as pessoas com um insight pobre podem ser menos sensíveis ao tratamento, que tem por objetivo prevenir rituais.

Mais de 90% das pessoas com TOC têm características tanto de obsessões quanto de compulsões; cerca de 20% a 30% são incomodadas apenas por obsessões; 20% apenas por compulsões e 50% por ambas, segundo dados levantados por Stanley Lack Rachman, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Columbia, no Canadá. Em seu estudo "Cognitive theory of obsessions", o pesquisador propõe que as obsessões são causadas por más interpretações catastróficas sobre a importância dos pensamentos, sejam imagens ou impulsos. "As obsessões persistirão enquanto essas interpretações continuarem e tendem a diminuir quando as interpretações são enfraquecidas", defende.

O TOC é provavelmente o transtorno de ansiedade mais estudado pela Psiquiatria. Os seus sintomas são conhecidos há mais de um século e forma descritos pela primeira vez pela Psiquiatria por Jean-Étienne Esquirol, em 1838. Os pensamentos obsessivos foram definidos pelo neurologista alemão Karl Westphal como "ideias que ocorrem em uma inteligência intacta, não causadas por estado afetivo, contrárias à vontade da pessoa e que aparecem no primeiro plano da consciência". O transtorno foi chamado por Sigmund Freud de neurose obsessiva em O homem dos ratos (1925), que relata o caso de um jovem que é acossado por pensamentos intrusivos de que seu pai era prejudicado por ratos. Para Freud, essas obsessões eram fruto de pensamentos agressivos reprimidos e deslocados. Assim, o pensamento "se eu não fizer tal e tal, meu pai irá me punir e eu ficarei tão furioso que irei matá-lo" era substituído por "se eu não fizer tal e tal, algo terrível acontecerá co meu pai". É verdade que, hoje, os cientistas encaram com desconfiança a capacidade de a Psicanálise explicar os transtornos mentais.


Filme O homem dos ratos


Embora algumas atividades como comer, fazer sexo, jogar e beber possam ser consideradas compulsivas quando realizadas em excesso, elas são diferentes das compulsões encontradas no TOC porque são consideradas agradáveis, pelo menos no momento em que estão sendo praticadas. Enquanto alguns transtornos levam as pessoas a procurar o risco, outros remetem ao sentido oposto. Assim, um paciente com TOC que repete um comportamento diversas vezes, para aplacar o medo de algo terrível aconteça, está evitando compulsivamente o risco, fugindo do sofrimento. O jogador patológico que, por exemplo, arrisca todas as finanças e as perde no cassino, também age compulsivamente, mas ele vai ao encontro do risco em busca de prazer.



(texto publicado na revista Psique nº 85)