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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

As quatro pontes para se libertar do medo - Roberto Shinyashiki


Para que você se veja livre da espada que paira sobre sua cabeça e viva de maneira mais leve e criativa, observe, confie, tenha alto astral e deixe a vida fluir.

Dando prosseguimento à matéria sobre o medo que tomou conta de Dâmocles (e toma conta de muitos de nós) diante das responsabilidades que nos levam à preocupação e à infelicidade por falta de fé, vamos construir as quatro pontes que aumentam a confiança e nos fazem perder o medo de sofrer.

Primeira ponte: observação

Antes de reagir ao medo que está sentindo, você deve observar: o que está acontecendo? Existe uma ameaça?

Não aja precipitadamente, pois pessoas com medo machucam quem está por perto, fogem ou atacam, e seus surtos de irritação quase sempre decorrem da insegurança.

A consciência é a melhor forma de sair do círculo vicioso medo-ataque-medo.

Portanto, não procure relaxar a respiração, pois isso aumentará a tensão. A palavra "angústia" vem do termo "contração". Simplesmente observe e fique em contato consigo mesmo por alguns minutos.

A seguir, comece a verificar seus pensamentos: o que está acontecendo em sua mente? Nossas reações nascem de nossos pensamentos; se eles forem negativos, produzirão ações que, depois, provocarão arrependimento.

Seus pensamentos irão se realizar. Portanto, esteja atento a eles: se neles existirem desgraças, elas acontecerão; se neles existir felicidade, é a felicidade que brotará.

Observe suas ações. A maioria das pessoas age sem consciência e somente tem noção dos seus atos depois que não restou outra saída senão o arrependimento. Arrepender-se e desculpar-se são atitudes generosas, mas o melhor é evitar que sua impulsividade provoque estragos.

Segunda ponte: confiança e fé. Acredite!

Quando você deixar que a vida tome conta, começará a perceber o quanto tem sido abençoado. Libertar-se do medo é como pular de um trampolim. Quando você se entrega, salta em direção à vida. Esse é o salto da fé.

Viver a ilusão de ter uma espada sobre a cabeça é como estar à beira do trampolim, mas não ter coragem de mergulhar. Adquirir essa coragem significa encarar a vida com todos os seus riscos, desfazer a assustadora visão de perigo por todos os lados.

A fé é a mais intensa ligação entre o plano espiritual e o material. Ela fornece uma força maior, capaz de nos levar à realização, à criação e à superação de nós mesmos.

Fé é diferente de esperança. A segunda convida a uma passividade que nos mantém presos a uma sensação de sermos vítimas do destino. A fé nos confere energia para agir, e é a certeza de que a vitória virá que nos dá força para batalharmos todos os dias.

Perceba que Deus o protege em todos os setores da sua vida. Quando ocorre a integração com o divino, você relaxa as tensões, se descontrai e aproveita melhor os momentos da vida.

Concentre-se inteiramente no que você faz, pois viver sem dúvida é a melhor de todas as metas, é abandonar o medo.

Não procure o sofrimento, mas, se ele fizer parte da conquista, enfrente-o e supere-o.

Terceira ponte: alto astral

Alto astral é energia positiva. É a capacidade de transcender aos acontecimentos dolorosos da vida.

Quem tem uma postura muito séria e carrancuda não deixa fluir a criatividade. A atitude positiva consegue transformar o pântano em jardim.

O pessimista acredita que eventos negativos têm origem em condições definitivas. Se perde a hora do voo é porque sempre dá azar com avião. Se o chefe elogiou, é porque queria que fizesse hora extra. Esse pessimista permite que uma decepção em determinada área de sua vida invada o restante dela.

O otimista, ao contrário, atribui uma falha a um motivo circunstancial. Para ele, as situações favoráveis são causadas por fatos permanentes: "Meu marido trouxe flores para mim porque me ama". Eles não permitem que um problema específico contamine as demais áreas de sua vida.

Comece a cultivar dentro de você o alto astral, o comportamento positivo; brinque com os reveses da vida, enfrente com bom humor até as situações mais complicadas.

O alto astral é uma forma de ver a vida. Portanto, é diferente do prazer. Quando falamos de prazer, inevitavelmente pensamos em sexo, comida, lazer. O alto astral é bem mais que isso. É um gesto de generosidade para com a vida, com os erros, com as dificuldades.

A seriedade leva ao julgamento; o alto astral à compreensão. Quando alguém está feliz, não perde tempo nem energia julgando os outros.

Quarta ponte: fluidez

Fluidez é uma característica relacionada à sua capacidade de ser espontâneo e levar a vida com facilidade, deixando tudo transcorrer naturalmente, como a água cristalina de um riacho.

Fluir é atravessar espaços vazios para realizar encontros. Muita gente quer ser dona da vida alheia e acaba provocando tensão ao seu redor.

Não existe uma verdade única, mas muitos caminhos, diversos pontos de vista para a mesma questão.

Quando os Dâmocles fluem, percebem, por exemplo, que a pessoa amada não os está rejeitando, que o distanciamento é apenas aparente. Notam então que é timidez, dificuldade de expor sentimentos. Cabe a eles brincar com o mal-entendido, fluir ao encontro do outro.

No sexo, o outro é a porta da vida. Flua através dele.

Você precisa aprender a terça a força da água, que, como não é dura como a pedra, sempre chega aonde quer pelos caminhos alternativos que encontra, amoldando-se às situações sem perder sua natureza e suas características.

O medo é uma cortina que impede a pessoa de enxergar o arco-íris da vida! Rasgue essa cortina e veja quantas maravilhas existem ao seu redor. Observe quantas pessoas o admiram e quantas são mais felizes porque você as ajudou.

Lembre-se: você é sensacional e eu sou seu fã!



(texto publicado na revista Sempre Jovem nº 16 - Ano V - 2015)

domingo, 3 de setembro de 2017

Acredite em você


A autoconfiança, esse sentimento íntimo de fé em si mesmo, é o que coloca todos nós em movimento. Se você acredita que pode fazer, pronto, você vai lá e faz. Se não sabe como fazer, sente que pode aprender. Se não tem tempo ou recursos suficientes, então fará o melhor possível. E, se falhar, compreende que ao menos terá crescido com o processo. Ou seja: é essa força interior, chamada de autoconfiança, que permite que se viva verdadeiramente sem hesitações, sem perda de tempo. É ela que permeia suas ações para seguir com mais sabedoria. No entanto, a falta dessa convicção pode deixá-lo imobilizado.

A boa notícia é que a autoconfiança pode realmente ser apreendida e construída. E, se você estiver trabalhando na sua própria autoconfiança ou a construir a confiança das pessoas ao seu redor, esse esforço será certamente recompensado. Todos nós enquanto seremos humanos, necessitamos de nos sentirmos competentes, eficazes e confiantes. Estes sentimentos permitem que nos coloquemos num estado de elevados recursos - corpo e mente ficam sintonizados para construir uma resposta adequada ao desafio a enfrentar ou a resolver. Como conseguiríamos atingir ou fazer algo em nossa vida, se constantemente tivéssemos alguém nos nossos ouvidos a transmitir ideias de incapacidade, palavras depreciativas acerca de nós e das nossas capacidades e habilidades?

Bem, não seremos nós próprios na maioria das vezes a ser esse "sabotador" daquilo que queremos realizar?

A autoconfiança possui um significado muito individual para cada pessoa. Um dos motivos que explicam isso é o fato de que as dificuldades e fraquezas encontradas nos indivíduos se alteram conforme suas personalidades e contexto em que estão inseridos. Alguns se sentem inseguros, pois não conseguem se comunicar com eficiência, e outros não estão satisfeitos com a própria aparência porque idealizam outra imagem para si mesmos. Independentemente do motivo de sua insegurança, algumas experiências podem ajudar a desenvolver autoconfiança.

Não há nenhuma receita mágica para desenvolver a autoconfiança, mas certamente existem alguns hábitos diários que podem colocá-la no nosso caminho com mais facilidade.

Se você está estressada, sobrecarregada, entediada ou simplesmente insegura, vai gostar de saber que existem, pelo menos, cinco atitudes que podem mudar essa percepção de si mesma. O site americano "Learn Vest", que dá dicas de carreira e finanças para mulheres, recomenda alguns hábitos. Veja abaixo.

Cerque-se de pessoas positivas

Humores e atitudes são contagiantes, por isso, se você precisa dar novos ares à forma como enxerga a si mesma. Evite contato com pessoas que transmitem sentimentos negativos. Isso porque quem está sempre falando das próprias inseguranças e dificuldades acaba fazendo com que pensemos com mais frequência sobre os nossos problemas. Vale a pena esse esforço?

Tenha organização

Ela é a chave do dia-a-dia para evitar estresses que minam nossa confiança e autoestima. Substitua a confusão de horários, os atrasos e as perdas de prazo por uma boa planilha de despesas e uma agenda de afazeres. Anote cada passo essencial da rotina e organize-se! Temos certeza de que o tempo vai acabar rendendo mais e o dinheiro, quem sabe, não acompanha a tendência.

Faça o que dá prazer

Para mostrar o melhor de si, você também precisa sentir-se bem por dentro. É por isso que reservar tempo para hobbies e atividades prazerosas passa longe de ser uma frescura qualquer. Falta coragem (ou ânimo) para retomar aquela aula de dança, convidar as amigas para uma happy hour, viajar no fim de semana? Pense no quanto esses compromissos leves podem ajudar você a ter uma visão mais positiva das coisas... Viu só?

Movimente a agenda

Ok, sabemos que relaxar em casa e ter boas horas de sono por noite é fundamental para a saúde física e mental de qualquer pessoa. Mas é na interação com os outros - e não estamos falando aqui das redes sociais - que colocamos nossos sentimentos em prática. A dica é simples: deixe o computador e o smartphone em casa e parta para um barzinho com seus amigos sem hora para sair de lá. Visite pessoas, marque reuniões em casa, aceite mais convites. A lista é interminável.

Quando puder viaje

Sair de sua zona de conforto ajuda você a exercitar sua autoconfiança de maneira mais eficiente, pois alarga suas experiências de vida, conhecimento e flexibilidade de convivência com pessoas diferentes.

Experimente coisas diferentes

Pular de paraquedas, cortar e mudar a cor do cabelo, participar de palestras motivacionais. Seja lá o que for que você escolher, é importante que sejam desafios e experiências novas, que possam mostrar para si mesmo o quanto você é capaz.

Expresse-se

Você já deve ter ouvido a seguinte frase: "As coisas que são difíceis de falar são normalmente as mais importantes." É importante que você conte para as pessoas - ou para um amigo (a) - o que sente, o que espera e simplesmente converse para  que não guarde o desnecessário dentro de si mesmo.

Busque mais aprendizado

Não se satisfaça com aquilo que sabe, mas busque sempre aprimorar suas capacidades e conhecimento. Talvez você não precise aprender algo completamente novo, mas sim aprofundar aquilo que já sabe de determinada coisa.

Mude a sua auto-imagem mental

A nossa autoimagem significa muito para nós, mais do que muitas vezes percebemos. Temos uma imagem mental de nós mesmos, que determina o modo como nos sentimos confiantes (ou não). Mas essa imagem não é fixa e imutável. Podemos mudá-la. Use as suas capacidades mentais e trabalhe a sua autoimagem. Se não gostar dela, mude-a. Descubra porque se vê desse modo e faça o que for preciso para mudar.

Ajude, sem esperar nada em troca

Oferecer um pouco de si a uma causa ou a quem precisa traz quase que instantaneamente uma sensação de bem estar. É claro que ninguém deve fazer isso apenas para querer sentir-se bem consigo mesmo, mas não é bom poder fazer a diferença na vida de alguém e receber como recompensa a satisfação de ajudar?

Aproveite estas dicas e faça uma lista de pontos que você quer melhorar. Procure ser bem objetiva e honesta consigo e mãos à obra!!!




(texto publicado na revista Leve & Leia nº 146 - ano 10 - junho/julho de 2017)

domingo, 21 de setembro de 2014

O valor da confiança - Helaine Martins


No mundo de hoje, parece cada vez mais difícil confiar nas pessoas mas acredite: o maior risco que você corre ao estender a mão e botar fé no outro é o de mudar o mundo - e a sua própria vida

Aos 42 anos, Aline Fagundes decidiu reacender um sonho que não tinha realizado na adolescência: fazer intercâmbio. O desejo de juventude, no entanto, deu de cara com marido, dois filhos, emprego, casa própria, uma vida completamente estável. Foi quando a juíza do trabalho teve uma ideia: por que não hospedar estudantes intercambistas em casa?" Todos ficaram empolgados e logo começamos a pesquisar diversos programas que cadastrassem famílias voluntárias", conta a gaúcha. A procura deu certo e, desde 2009, Aline, o marido Renato e os filhos, Artur e Martina, abrem a casa e a vida, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para jovens completamente desconhecidos, estudantes estrangeiros que vêm fazer intercâmbio no Brasil.

Entre a expectativa do primeiro encontro e os receios e constrangimentos no processo de adaptação, Aline vive a experiência de peito aberto, sem medo, pronta para o novo. E garante: vale a pena. O que não quer dizer que seja fácil. Confiar em pessoas que, de início, são apenas nomes em um formulário exige esforço de ambas as partes: só assim se constrói, dia após dia, uma relação de comprometimento com o outro. "É algo que está em construção e precisa de cuidado para não se deixar destruir pelas dificuldades", conta. "O saldo, asseguro, é positivo. Mas demanda envolvimento", afirma, otimista, mas com os pés no chão.

Foi por causa dessa crença de que tudo pode dar certo que o casal conseguiu fazer da americana Rebecca, 23 anos, e dos alemães Paulina, 15, e Fynn, 16, seus "filhos com sotaque". Como qualquer filho, eles tinham seus direitos - as chaves da casa e a liberdade para receber os amigos, por exemplo -, mas também seus deveres: nada de sair sem avisar e sem hora para voltar. Dar esse voto de confiança, diz Aline, cria um compromisso: "Eles se sentem mais responsáveis e querem provar que são dignos de confiança que recebem". A estratégia funcionou e poucos foram os deslizes: uma vez, Fynn se aproximou dos embates com a polícia em uma das manifestações que ocuparam as ruas de Porto Alegre, em 2013, apesar de todas as advertências da família; outra vez, Paulina passou do ponto na primeira (e última) festa que deu na casa dos pais brasileiros. Mas, nada que os fizesse perder a confiança já conquistada. Não seriam esses pequenos desvios do caminho que podariam em Aline o desejo genuíno de cultivar a confiança no outro. "Desconfiar é um sentimento sofrido, frustrante, que deriva do medo. E quem gosta de ter medo?", questiona. "Se eu não partisse do pressuposto de que as pessoas estão de boa-fé, teria que desistir da vida."

Confiar é preciso

Na vida da família Fagundes, acreditar no outro já faz parte do cotidiano. Eles parecem viver plenamente esse sentimento antigo e fundamental para as relações entre seres humanos. É a confiança - do latim con fides, ou seja, com fé - que coloca o mundo em movimento. É ela que faz você contar um segredo para o seu melhor amigo, mergulhar com tudo numa história sem garantias de final feliz, dormir na estrada enquanto o outro dirige, entregar o joelho para o médico na sala de cirurgia, deixar seu filho sair para passear com a tia, acreditar que amanhã vai ser melhor que hoje. Tudo isso só é possível porque nós, mesmo sem perceber, praticamos diariamente o exercício da coragem de acreditar - no outro, nas instituições, no futuro. "Se todos esses atos e laços de confiança não acontecessem, a vida seria praticamente impossível", diz a psicóloga Camila Campanhã, do Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade Mackenzie, em São Paulo. "Nós, seres humanos, somos sociáveis e precisamos do outro para sobreviver. Então, não há possibilidade de não estabelecer nenhum grau de confiança com nada ou ninguém."

E é assim desde a pré-história, quando nossos antepassados começaram a viver em comunidade e sentiram a necessidade de compreender quem era o outro e de estabelecer uma comunicação. Enquanto ficavam cuidando da prole na caverna, as mulheres acabaram por desenvolver não só a linguagem, mas também habilidades empáticas: tornaram-se capazes de simpatizar, entender e compartilhar os sentimentos dos membros do grupo. Já os homens, responsáveis pela proteção e o sustento das famílias, passaram a estabelecer laços de confiança para protegerem-se uns aos outros nas caçadas. "Assim como os animais desenvolveram garras para se defender, desenvolvemos habilidades sociais, como cooperação, confiança e reciprocidade, para que pudéssemos sobreviver e prosperar como espécie", explica Campanhã.

Mas hoje, milênios depois, a gente sabe e sente que as coisas já não são bem assim. Vivemos cada vez mais sozinhos e arredios. Essa sensação crescente de desconfiança foi comprovada pelos resultados da pesquisa Retratos da Vida Brasileira, de 2012. Os dados do Ibope apontaram que 62% de nós, brasileiros, afirmamos não ter nenhuma ou quase nenhuma confiança na maioria das pessoas. Nem nos amigos, nem nos vizinhos e muito menos nos colegas de trabalho. A crença geral é a de que boa parte das pessoas quer apenas tirar vantagem, em vez de agir da maneira correta. Só que, sem confiança, o medo vira rotina, o outro se torna apenas mais uma fonte de ameaça. E isso custa caro.

As pessoas não param mais para dar informações a um desconhecido na rua. Enchem a casa de grades e cadeados, com medo da visita indesejada do ladrão. Trabalham nervosos, temendo que o colega lhes passe a perna. Ficam preocupadas quando têm de deixar o carro na rua, imaginando que não vão mais encontrá-lo. Nem entram mais no mar quando estão sozinhas, porque acham que alguém vai passar na areia e levar seus chinelos. E acreditam que não adianta fazer a sua parte, porque o país não tem mais jeito mesmo. Uma triste falta de confiança generalizada que nos leva a pensar: será que ainda dá para confiar em alguém nos dias de hoje? Será que ainda tem alguém que confia em alguma coisa nesse mundo? Bom, parece que nem tudo está perdido. Apesar de tudo, diz a mesma pesquisa, ainda acreditamos que há remédio para essa "síndrome de desconfiança". E a cura começa bem perto: na família.

"O medo e a desconfiança não só reforçam o individualismo, como também corroem os laços de solidariedade, em todas as esferas da vida. A família passa a ser nosso último nicho de segurança e, por isso, continua central", aponta Igor Valentim, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor em sociologia econômica e das organizações."Mas não há confiança sem risco, mesmo em relações intermediadas por valores fortemente respeitados, como a família. Confiar em uma pessoa significa acreditar que, quando ela tiver a chance, não irá agir de uma maneira que nos trará algum dano. Confiar é assumir o risco de ser desapontado."

Um dia de cada vez

Alda e Eli Larizzatti conhecem bem esse risco. Há 25 anos, eles deram início a uma dura batalha contra as drogas dentro de casa e se viram obrigados a suspeitar daquilo que tinham de mais próximo: seus filhos. "O problema nos pegou de surpresa, porque não existe família preparada par ter um dependente químico em casa", conta Alda, que, junto com o marido, coordena há 17 anos um grupo que faz parte de uma das mais tradicionais entidades de poio aos parentes de dependentes químicos, a Amor Exigente. "É muito complicado, desestrutura o lar, tudo desaba."

A descoberta do vício foi só o começo de uma longa jornada de dor e culpa - mas também de superação. De maconha a crack, Marcos e Gabriel (nomes fictícios) consumiam de tudo pelas ruas de São Paulo. Os problemas típicos de adolescentes da classe média foram se agravando e trouxeram anos de mentiras, chantagens, manipulações e quebras de promessas. Os rapazes nunca estavam onde diziam estar, raramente cumpriam os horários combinados, prometiam uma coisa e faziam outra. "O que o dependente químico mais faz é mentir. E com tamanha perfeição que acredita na própria mentira", diz Eli. "Só que, com o tempo, você aprende a distinguir a verdade da falsidade. É quando ele perde totalmente a credibilidade, mesmo sendo um filho."

Assim aconteceu. Quanto mais os dois se envolviam com as drogas, mais se enraizava nos familiares o sentimento de desconfiança e desesperança. Os pais tiveram de viver décadas de provação para, enfim, conseguirem reconstruir, com muito cuidado, os laços mútuos de respeito e afeto. Aprenderam que confiança não é só sobre o outro, também tem a ver com a gente. "A traição foi profunda e a dor, grande demais. Mas demos um jeito de juntar os cacos", conta Alda. "A droga não podia ser maior do que o amor que sentimos por eles."

Marcos foi internado em uma clínica de recuperação, está limpo há uma década e hoje coordena um grupo dos narcóticos anônimos. Gabriel, o caçula da família Larizzatti, teve uma internação involuntária, depois que o vício o levou a sair da casa dos pais para morar na favela Paraisópolis, a segunda maior da capital paulista. "Ele ficou me jurando de morte", lembra a mãe, emocionada. "Dizia que a internação não ia durar para sempre e que, quando saísse, eu seria a primeira pessoa que ele ia matar." Felizmente, Gabriel respondeu bem ao tratamento e, há cinco anos, pode dizer, orgulhoso, que é um dependente em recuperação. Mas a guerra ainda não foi vencida. Após a internação, iniciou-se uma das fases mais difíceis de todo o processo: o resgate da confiança em si mesmo e, sobretudo, da confiança dos outros. Foi - ainda é - um processo lento, feito muito mais com atitudes do que com palavras, baseado na certeza de que a confiança é também uma cobrança.

E é assim - sem nenhuma recaída e com carteira de trabalho assinada - que a família vem se reconstruindo. Com nova vida, Marcos e Gabriel tentam fortalecer, cada um a seu tempo, as relações com os pais e irmãos. Uma certa desconfiança ainda existe, é verdade, mas isso é até positivo. Em certo grau, é ela que deixa todos em alerta. "Aprendemos a não amolecer, a não dar mais mordomias, não facilitar. Acredito na recuperação dos nossos filhos e, hoje, confiamos neles. Mas nossa confiança é exercida com autoridade e se renova a cada dia", dizem os pais. Para a família Larizzatti, todo dia é sempre um novo começo.

De peito aberto

Chinaider Pinheiro, 40 anos, jamais imaginou que, um dia, essa mesma possibilidade de recomeço viraria a sua rotina. Para quem vivia na mira da polícia, qualquer minuto poderia ser o último: ele foi, entre 2006 e 2007, o chefe do tráfico de cinco favelas dominadas pelo Comando Vermelho e se tornou um dos bandidos mais procurados do Rio de Janeiro.

Nascido e criado em Vigário Geral, uma das principais comunidades da zona norte carioca, ele entrou para o crime com um único objetivo: proteger o irmão. Mas o poder e o dinheiro fácil rapidamente o seduziram, e ele ficou no tráfico, mesmo depois da morte do protegido. A vida de traficante, porém, cobrou seu preço: em 1997, ele foi parar atrás das grades, aos 21 anos. Entre fugas e recapturas, passou uma década preso no que chama de mundo da desconfiança. "Lá dentro, você tem que desconfiar até da verdade mais absoluta. É fundamental para sobreviver."

Talvez por isso Chinaider tenha se mostrado tão reticente quando recebeu de José Júnior, coordenador do grupo cultural AfroReggae, a inesperada proposta que mudou a sua vida: largar o crime e se preparar para ser uma liderança social. "Foi uma confiança que recebi com desconfiança", diz ele. "Por outro lado, vi que todo o lucro no mundo do tráfico não valia o preço de voltar para a cadeia, parar numa cadeira de rodas ou no cemitério."

Segundo o professor Valentim, a reação é natural. Uma pessoa muito desconfiada estranha quando alguém confia sem precisar de provas ou de um histórico. "Essa pessoa já naturalizou tanto a desconfiança que acha chocante e até suspeito que se confie em um desconhecido", avalia.

Mesmo conhecendo o ex-traficante apenas de vista, José Júnior enxergou a possibilidade de transformar a liderança de Chinaider no crime em algo positivo. As pessoas poderiam ver seu exemplo e, então, passar a acreditar que vale a pena mudar de vida e reconquistar a confiança da socieadade. Ele estava certo. Em 2009, Chinaider entrou no projeto Empregabilidade e, desde 2011, coordena este que é um dos principais programas do AfroReggae. De lá para cá, cerca de 3 mil ex-detentos já foram atendidos e, pelas suas mãos, mais de 1.500 têm um registro na carteira de trabalho. "Embora meu passado tenha me tornado uma pessoa desconfiada", diz ele, "acredito plenamente na capacidade de um egresso se regenerar e agir de forma correta na sociedade, assim como eu faço há cinco anos." Agora, Chinaider faz pelos outros o mesmo que fizeram por ele. Doando-se todos os dias, sem medo, virou uma peça fundamental dessa corrente de confiança que não está estampada nos jornais.

Quando a família Fagundes abre as portas de sua casa para o desconhecido, quando Alda e Eli se esforçam para, todos os dias, renovar sua esperança, quando Chinaider prova o valor de seu exemplo, eles nos mostram que ainda podemos reconstruir nossa maneira de viver, sentir, trabalhar, agir e compartilhar. Só que ninguém consegue fazer isso sozinho. "A confiança", garante Valentim, "é a força que pode nos unir para enfrentarmos a construção de um mundo novo e melhor." O segredo é ousar viver.



(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 38 - jun/jul de 2014)








segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Para dar e vender - Roberta Faria, editora-chefe


Minha avó costumava dizer: "Confiança, a gente só tem uma no estoque". Se acabar, acabou. Se usar tudo, se perder, se jogar fora, se estragar... não tem mais. Não dá para comprar, alugar, emprestar, esticar, substituir, pôr de molho. É uma e única, sem história, sem promessa, sem "isso passa". Simples assim.

É uma ideia muito dura essa de que certas coisas não têm conserto. Mas também é cheia de verdade. Quantas vezes a gente não teve a confiança perdida, e nunca mais a encontrou de volta? Eu mesma tive umas tantas. Amigos que partiram meu coração, amores que não me queriam bem, projetos que nunca decolaram, produtos que não cumpriram suas promessas. Essas coisas da vida que todo mundo passa, por sorte ou azar. Que vão nos deixando com a casca mais grossa e os reflexos mais ligeiros, que é para a gente cair menos - e, se tropeçar, o tombo não doer tanto.

Pela ideia da minha avó, a gente começa, lá na infância, com a vendinha cheia. As prateleiras vêm lotadas de confiança e suas variações: a esperança na vida, a fé na humanidade, o otimismo no amanhã, a certeza de final feliz. Com o passar do tempo, as decepções vão roubando nosso estoque, as frustrações deixando buracos que abalam até as estruturas da despensa. E fazer o que com esses espaços vazios?

Realmente gostaria de poder dizer: ah, é só preencher com perdão e segundas chances, com paciência e a crença de que vai dar tudo certo. Mas sabemos que não é bem assim. Tem perdas irremediáveis, tem pessoas que merecem ficar para trás, tem histórias que é melhor deixar pra lá. O problema é que, ainda que a gente não queira mais, o buraco na prateleira fica. E o buraco na prateleira é um buraco na gente.

Bom, não sei o que fazer com isso. Mas sei o que não fazer: deixar esses buracos se encherem de ressentimento e amargura. De medo de perder a angústia de acreditar de novo. Eu sei, o estoque está baixo, vamos ficar gastando nossa boa vontade assim? Ahá! Mas aí é que está. O que minha avó não sabia, mas tenho descoberto por aí, é que, assim como podemos perder a confiança que tínhamos estocada, também podemos ganhar fé em coisas que nem imaginávamos. Com esses achados, não tapamos os buracos. Mas voltamos a nos sentir maiores e mais inteiros.

Quer ver? Pense na vendinha. O estoque, antes cheio, anda minado depois de uns calotes. Mas vem gente nova querer fazer negócio. Se a gente fecha a porta para proteger o pouco que nos sobrou, ok, até que fica resguardado. Mas a única maneira de crescer - e repovoar as prateleiras, ainda que seja com outras histórias - é justamente se abrindo.

É difícil, eu sei. A gente se pega desconfiando antes mesmo de confiar. É preciso ter truques. O meu é tentar contar, para cada coisa que me decepciona, ao menos uma que me surpreenda. Para cada pessoa que me frustrou, lembrar de uma que me fez bem. Para cada plano que deu errado, uma ideia que deu certo. Para cada dia ruim, um momento feliz. E daí, vó, eu vejo que é verdade: algumas confianças perdidas são irrecuperáveis. Mas, quando a gente se liberta delas, também pode ganhar muitas coisas no caminho.

Achar motivos e pessoas para acreditar é um exercício diário e infinito. É por isso também que fazemos essa revista: para ajudar você - e a nós mesmos - a recuperar a fé em um mundo melhor. Espero que esta edição também te encha de esperança. Boa leitura!




(editorial publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 38 - jun/jul de 2014)