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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Na ponta do lápis: 13º salário: aplicar, gastar ou quitar dívidas? - Magnus de Carvalho


Estamos mais uma vez em dezembro e com ele chega o tão esperado 13º salário. Um dinheiro extra que é bem-vindo num mês tão especial: Natal, Réveillon, férias, final de ano. É o mês das festas, das viagens, das trocas de presentes, dos "amigos secretos", confraternizações de todos os tipos... são muitas as ocasiões de gastos. E aí, o que fazer? Gastar todo o 13º nas festas? Quitar dívidas? Aplicar?

O 13º salário surgiu a partir da ideia de algumas empresas de pagar, em dezembro, uma gratificação de Natal para ajudar os funcionários nos festejos de fim de ano. Passou a ser obrigatório em 13 de julho de 1962, através da Lei 4.090, regulamentada pelo Decreto 57.155, de 3/11/1965. Apesar de, na sua origem, ser destinado para as compras do período natalino, isso não implica em dizer que deva ser usado somente para esse fim. É  claro que dar presentes, viajar, festejar, é muito bom, desde que seja feito com responsabilidade financeira. De que adianta curtir alguns dias e padecer um ano inteiro?

Quando se tem dívidas a pagar não se pode desprezar esse dinheiro extra. É muito mai sensato reservá-lo para quitar as dívidas do que gastar com presentes, festas e viagens. Isso não quer dizer que não se deva comemorar datas tão significativas. Pode-se usar a criatividade e procurar meios econômicos para gastar menos, como promover uma ceia de Natal compartilhada com a família e os amigos, troca de cartões ao invés de presentes no amigo oculto, viagens para lugares próximos, hospedagem em pousadas em vez de hotéis... São muitas as possibilidades de festejar e gastar menos. O que não dá é empurrar a ciranda do endividamento para mais um ano.

Para quem está com a vida financeira equilibrada existe a possibilidade de uma pequena extravagância, pontual, nesse período. Não significa torrar tudo com futilidades, deve-se aproveitar o momento e reservar uma parte para ser aplicada: poupança, aplicações de curto prazo, Títulos da Dívida Pública, ações... não importa, o importante é aplicar de acordo com o seu perfil investidor e manter a saúde financeira.

Mesmo podendo ir às compras não se deve deixar de pesquisar preços, procurar bens que respeitem o meio-ambiente e, antes de comprar, fazer as três famosas perguntas que os especialistas recomendam. Eu preciso? Eu posso? Tem que ser agora? Quando possível, uma boa alternativa é deixar para comprar nas liquidações de janeiro, com preços mais baixos.

Mas, muito além de gastar, quitar dívidas ou aplicar, o que realmente importa neste período tão significativo? Será que não seria oportuno gastar o nosso tempo em atos de amor ao próximo, quitar dívidas de perdão a quem nos magoou e aplicar a caridade em todas as ocasiões do nosso dia a dia? Agindo assim certamente o Natal será mais Natal e as festas de final de ano ganharão um sentido novo.



(texto publicado na revista Cidade Nova edição 584 - ano LVI - nº 12 - dezembro de 2014)

terça-feira, 5 de julho de 2016

E se...trocássemos a Amazônia pela dívida pública? - Walmir Storti e Rodrigo Vergara

A dívida pública brasileira é o novo inimigo nacional. Considerada a responsável pela fuga de dólares e pelo descrédito do país, a dívida - que é a soma das dívidas dos governos federal, estadual e municipal e das empresas estatais - estimada em 232 bilhões de dólares - parece uma ameaça à viabilidade econômica do país. Diante dessa visão, quem já não pensou em uma saída radical, como trocá-la por um patrimônio nacional? E se a trocássemos pela Amazônia?

A resposta é que sairíamos perdendo. Se o motivo para a troca fosse só financeiro, já seria um mau negócio. De acordo com Ademar Ribeiro Romeiro, professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas e chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélites, a maioria das riquezas amazônicas continua desconhecida. Mas mesmo os recursos já descobertos - madeira, minérios, turismo, medicamentos e cosméticos - já são mais valiosos que a nossa dívida. Só as jazidas minerais valem 7 trilhões de dólares. Detalhe: sem contar o petróleo. No entanto, o potencial da região é ainda maior. Estima-seque, se forem bem explorados seus variados recursos, a Amazônia poderá render ao Brasil, por ano, cerca de 1,3 trilhão de dólares.

Mas será que sobrará alguma floresta até lá? No atual ritmo de destruição, em 50 anos a mata terá desaparecido. Só nos últimos 20 anos, perderam-se 60 milhões de hectares, mais que a área de Minas Gerais. E o ritmo de destruição ainda é alto: cerca de 15 000 quilômetros quadrados de florestas são devastados todo ano. Ou seja, se alienar a Amazônia é desvantajoso, pior seria mantê-lo brasileira para transformá-la em carvão.

Mas pouca gente acredita que isso vá acontecer. O ritmo da devastação está diminuindo. E a área desmatada poderia ser aproveitada. "Na Amazônia existem 10 milhões de hectares de solo de primeira. Para comparar, toda a produção agrícola brasileira vem de 50 milhões de hectares desse tipo", diz Romeiro.

Há outros aspectos a serem considerados, além do econômico. "A Amazônia tem importância ambiental e estratégica", diz Paulo Barreto, diretor da Imazon, uma ONG que pesquisa a região amazônica. De fato, a região concentra, entre outras riquezas, quase 20% do estoque mundial de água potável, uma mercadoria valiosa e estratégica para qualquer população.

Mas os benefícios da quitação não suplantariam eventuais prejuízos decorrentes da perda da região? Afinal, o governo federal pagará, este ano, mais de 90 bilhões de reais só em juros da dívida (incluída a correção monetária). Se a pendenga fosse quitada, o governo poderia investir essa dinheirama em infra-estrutura, por exemplo. Ou poderia diminuir a carga de impostos, que hoje é a maior do mundo - 34% do que se produz no país vira imposto.

Para Odair Abate, economista-chefe da Lloyds Bank TSB, a duração dessas vantagens dependeria muito de futuros governos. "Se um presidente começasse a gastar mais do que arrecada, voltaríamos a acumular dívida e, dessa vez, seríamos um país menos rico, porque não teríamos a Amazônia."

Além disso, para não acumularmos uma nova dívida seria preciso sanear algumas contas do país. Hoje, remetemos mais dólares ao exterior (para pagar importações e remunerar o lucro de multinacionais instaladas no Brasil) do que recebemos por nossas exportações, sem contar o pagamento de juros. Se essa conta não for revertida, o governo teria que continuar a oferecer juros para atrair dólares. E uma nova dívida nasceria.

Não bastasse isso, se alienássemos a Amazônia, teríamos um aumento nas importações. Cerca de 85% da madeira amazônica é consumida no Brasil. Outro exemplo: a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, é uma das principais fontes de energia para o Nordeste. Além do mais, o território brasileiro encolheria 60%. Seria melhor aumentar nossa exportação de produtos, não de terras.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 180 - setembro de 2002)

domingo, 22 de maio de 2016

E se... não pudéssemos fazer dívidas? - Otávio Cohen


Se você se sente pobre cada vez que faz uma compra em várias vezes no cartão de crédito ou pede dinheiro emprestado, repense. Não fosse a possibilidade de fazer dívidas, seríamos todos muito mais pobres. É que todo dinheiro emitido pelo Banco Central é uma dívida pública. Você só consegue sacar uma nota de R$ 50 no caixa eletrônico porque alguém deve essa quantidade de dinheiro ao banco. Se ninguém devesse, o banco viraria cofre e deixaria de render juros. Você não teria poupança e os banqueiros não enriqueceriam tanto.

Segundo Márcio Salvato, economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-MG), o crescimento de um país depende de sua capacidade de poupança - que pode vir pela contração de dívidas externas (como instituições como o FMI) ou internas (com empresas e bancos nacionais). No caso do Brasil, o hábito de o estado contrair grandes dívidas foi um aliado histórico. Foram elas que bancaram a industrialização nos anos 50, levando o país a investir em siderurgia e petroquímica. Sem dinheiro arrematado na forma de dívida externa, Brasília poderia nem ter sido construída e nossa capital ainda seria o Rio de Janeiro.

O fim das dívidas seria também o fim do crédito. Fazer compras no cartão pela internet ou dividir a TV de LCD e a geladeira em 12 vezes, nem pensar. Seria uma catástrofe para a economia nacional. Foi o crédito que salvou o Brasil durante a crise de 2008. Enquanto a indústria nacional sofria as consequências, o brasileiro continuou gastando o que não tinha e aquecendo o mercado.

Um dos setores mais abalados seria o imobiliário. Segundo estimativa do Conselho Federal de Corretores de Imóveis, menos da metade dos imóveis é comprada à vista no país. Apesar de tudo, não viveríamos assombrados pela inflação. "Menos crédito significa menos consumo, o que pode resultar num quadro inflacionário mais tranquilo", explica Bruno Rocha, do departamento de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Cinco anos em 50

Azar no jogo, sorte no amor. Sem dívidas, o Brasil seria menos desenvolvido, mas o casamentos durariam mais.

Dr. Ensino Médio

Quase um terço dos alunos brasileiros do ensino superior recorre ao financiamento estudantil ou a bolsas para cobrir os custos da educação. Por causa da inadimplência, muitas instituições particulares quebrariam. O diploma de faculdade seria para poucos.

Na tela da TV

A boa e velha televisão de tubo continuaria a ser a atração principal da sala. Produzidas no exterior, TVs de LCD e plasma, que hoje lideram a lista dos produtos mais comprados a prazo, seriam caríssimas. A parte boa é que, com pouca inflação, o preço não aumentaria demais.

Vale mais do que dinheiro

Sem poupanças, faríamos como nossos avós e guardaríamos dinheiro em casa. Mais do que isso: guardaríamos mais ouro em casa. Diferentemente do dinheiro de papel, o ouro não depende da dívida dos outros para existir e é mais resistente à inflação.

A grande família

Na falta de incentivo do governo, não daria para comprar imóveis a preços populares. Sem a opção de comprar a casa própria em parcelas a perder de vista por meio do financiamento imobiliário, os jovens sairiam bem mais tarde da casa dos pais.

Crédito para o amor

Os dados do IBGE comprovam: dívidas e divórcios andam lado a lado. Segundo o instituto, a taxa de casamentos desfeitos triplicou no país desde 2004, acompanhando o crescimento das compras a prazo no país. Como viveríamos sem grandes variações nos preços e sem dívidas, os casamentos seriam mais duradouros.

Comida caseira

O açougue da esquina e o mercado do bairro dificilmente conseguiriam abrir as portas sem dinheiro emprestado do banco. Menos concorrência no mercado significa preços mais altos nas grandes lojas de rede. Uma saída seria criarmos nossa própria comida dentro de casa.




(texto publicado na revista Super Interessante edição 298 - dezembro de 2011)