Mostrando postagens com marcador aventura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aventura. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de outubro de 2018

A assustadora história da mochila, em Londres - Concília Ortona (jornalista do Centro de Bioética do Cremesp)


Qual é a situação mais apavorante em uma viagem ao exterior ? A bagagem extraviar ? Fichinha. Passar mal e não saber como se explicar ao médico turco, grego... norte-americano ? ... argentino ? Dá-se um jeito. Perder o cartão de crédito ? Está ficando quente, mas multiplique isso por quinze: que tal perder "a mochila" ? Não uma caríssima, vagabunda mesmo.

Como assim ?

Filosofando como faz quem descreve uma pessoa... assim... sem atributos físicos: o valor está no  conteúdo. No caso, nos passaportes de todos os viajantes, além dos (parcos" euros, e das (minguadas) libras.

Explicando do começo. Como sempre, minha pequena família tira férias do tipo "pague por dois e leve três". Com o dinheiro pra lá de contado, pareceu boa ideia percorrer de trem, o trajeto até o aeroporto secundário de onde saem voos low cost de Londres até Edimburgo, rumo à nossa pousada já paga pela internet e, depois, para Paris.

Sejamos francos: até então, o paizão havia protegido com a própria vida "a mochila" do nosso destino. Mas, por estar distraído com a (costumeira) mala enorme, ou por culpa daquela loira que lhe deu uma piscada britânica - melhor esquecer -, ao descer do trem, nem notou estar mais leve.

Milésimos de segundos depois, meu espírito sinalizou algo errado - Cadê a mochila ? (grito). Três pares de olhos em direção às portas semicerrando do trem e, em seguida, o doloroso aviso sonoro em beep - que, se traduzido, significaria "ferrou". 

- Mãe, o que houve ? Silêncio. O pai, quase um metro e noventa, desabado no chão, em lágrimas.

A mim coube enviar ao cérebro os comandos: respire fundo. Pense. Pernas, controlem o tremor... Procure agora algum funcionário da estação disposto a nos ajudar a encontrar a mochila e a vossa fluência em inglês - aliás, a primeira a sumir.

Foi quando o conheci. Ele. Saint David, para quem, aliás, até hoje dirijo minhas orações. Tá bem: não sei bem qual era o cargo do moreno de bigodes e uniforme da estação. Devia ser importante, pois, rápido, passou a mexer seus pauzinhos (sorry, é um Santo!) para socorrer os brasileiros apavorados. Fez isso, porém, não sem antes soltar um compreensível e incrédulo "uau"! Passports, as well ? Oh, no!

Pragmático, David disparou: relax. Let's forget the fly, ok ? Continuou: "em que vagão estavam?". - Se os canhotos das passagens não estivessem na mochila, seria mais fácil responder. "Frente, meio, atrás" - Well...

Quando nada parecia funcionar, nosso David traçou sua estratégia sombria: como o trem era intermunicipal, nada poderia ser feito até que chegasse à próxima cidade, ou na outra, right ? "Ainda que sua bag esteja no lugar que nem sabemos qual, nada garante que as coisas estejam lá dentro". Alright ?

A essa altura, já estávamos todos em estado de inércia mental, pós-grandes sustos. Em - eterna - meia-hora, David voltou animadinho, well, para o padrão londoner de ser. "Acharam a mochila em um bagageiro para bolsas".

Sem energia para comemorar, fizemos menção de nos levantar do chão, mas, após olhar para a filha, com cara de "não, ainda não entendi" e para o marido, ainda em prantos (se aprume, homem!), sugeriu: "que tal só a senhora ir buscar ?".

E lá fui eu, rezando, até ver de longe o colega carrancudo do David, duas estações depois, com a mochila entre as pernas - e jeito de poucos amigos. No melhor estilo Scotland Yard, perguntou tudo o que havia dentro dela, inclusive, as frutas acondicionadas - no caso, uvas. "Orange ? Banana ? Apple ? Hello, não é mais simples confirmar se sou eu, no passaporte ?"

Enfim. Nem vou me prolongar no fato de que, para irmos a Edimburgo (ou dormir na Trafalgar Square e forget Paris), precisamos retornar à Victória Station e ir em pé, por seis horas, no último trem de linha da sexta-feira, recheado por alcoolizados torcedores de futebol americano (juro!) do Newcastle.

Basta dizer que, ao abrir a mochila, tudo estava lá: os passaportes e o restante dos documentos, bem como, as libras e os euros, contados e enrolados em papel celofane.

A última coisa que disse a São David foi um irônico "se fosse no Brasil...", ao que ele riu alto e respondeu "não esquenta, não roubaram sua mochila porque imaginaram que tivesse uma bomba dentro".

É... cada um com seus problemas...


(texto publicado na revista Ser Médico nº 84 - Ano XXI - jul/ago/set 2018)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Aventura sem fronteiras - Fabricio Pellegrino


O casal Max Fercondini e Amanda Richter revela os bastidores do tour de 180 dias que fez por seis países da América do Sul a bordo de um motor-home

Jornalismo, reality e aventura. Eis a combinação do América do Sul Sobre Rodas, quadro que tem no comando Max Fercondini, 30 anos, e Amanda Richter, 26, dentro do programa Como Será?, apresentado por Sandra Annenberg, 48, aos sábados, a partir das 7h, na Globo.  Para as gravações, realizadas durante 180 dias entre janeiro e junho deste ano, o casal de atores percorreu sozinho, a bordo de um motor-home, 21 mil quilômetros distribuídos por seis países: Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai. O resultado da expedição, que inclui passagens por geleiras, vulcões, desertos, lagos e ilhas, foi compilado em dez episódios, que começaram a ser exibidos há uma semana. "Assim como o Nas Asas do Brasil (quadro exibido no mesmo programa, em 2015, em que Max e Amanda, em um monomotor pilotado por ele, voaram pelos quatro extremos do Brasil), apresentamos a ideia à Globo, pois tínhamos vontade de seguir com esse tipo de atração", revela o ator. A dupla, dona da Amax Filmes, que produziu o quadro, acumulou funções. Mas foi responsável pela edição e roteiro final. Já Amanda, formada em Cinema, assumiu as pesquisas e as pautas.

Descobertas e surpresas

"A gente viveu seis anos em seis meses. Todos os dias estávamos em lugares novos e com pessoas diferentes", conta a atriz. Entre os momentos marcantes está a escalada de um dos vulcões mais ativos da América do Sul, o Vilarrica (Chile). "A subida foi muito difícil, pois carregávamos equipamentos e drones para filmar tudo. No fim do dia estávamos acabados", entrega Max. Na Patagônia (Argentina), eles escavaram um dinossauro, em Machu Pichu (Peru) foram a Andanes Orientales, um ponto turístico ainda fechado ao público em que era possível visitar fontes naturais de água, e em Medelin (Colômbia) se hospedaram no topo de uma montanha. Algum perrengue? "Sentimos um pouco de medo quando, depois de dirigir por horas, estacionávamos em postos de gasolina para dormir. Alguns deles eram macabros, sem iluminação... Nesses dias, não conseguia dormir direito nem relaxar", conta Amanda.

Amor fortalecido

A convivência tão próxima durante a viagem consolidou os laços do casal, junto há oito anos. "Tínhamos um objetivo comum muito forte: realizar essa viagem. Se nosso relacionamento não fosse bom, não conseguiríamos fazer o trabalho", confessa a atriz. "Eu e a Amanda fortalecemos ainda mais a nossa relação. Ela é superparceira e uma pessoa superpositiva", reafirma o galã.

Próxima "viagem"

No momento, Max, longe das novelas desde a global Flor do Caribe (2013), e Amanda, sem atuar desde a série Meu Amigo Encosto (2014), do canal Viva, estão focados na produção do livro que contará os detalhes do tour pela América do Sul. "A obra terá detalhes que ficaram fora da edição para a TV, além de fotos inéditas, histórias de bastidores e dicas de viagens", explica o ator. Para tanto, iniciaram uma campanha de financiamento coletivo, antecipando a venda da obra pela internet (www.americadosulsobrerodas.com.br).




(texto publicado na revista Contigo edição 2137 - 5 de setembro de 2016)

sábado, 25 de outubro de 2014

Viciados em aventura - Raul Montenegro



Com planejamento, foco e organização, eles conseguiram transformar seus hobbies em modo de vida e ensinam como as pessoas podem superar seus limites e realizar seus sonhos

Neste ano, a família Schurmann, que ficou conhecida pelas suas aventuras de veleiro ao redor do mundo, decidiu ir mais longe - e também mais fundo - do que de costume. No segundo semestre ela começará sua terceira circum-navegação da Terra e, antes disso, em março, explorará uma fronteira até agora desconhecida pelo clã, o fundo do mar. A família vai atrás do naufrágio do submarino nazista U-513, afundado no litoral de Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial. Após Vilfredo Schurmann, 65 anos, o pai, ouvir a história sobre a embarcação alemã de um de seus companheiros de viagem, foram anos de estudo e buscas ao lado de uma equipe de pesquisa para encontrar o encouraçado em 2011, a cerca de 90 km de Florianópolis. Agora, com uma autorização da Marinha para filmar a relíquia, eles pretendem produzir um longa-metragem com as imagens coletadas - o lançamento está previsto para a segunda metade de 2014. Logo depois dessa empreitada, o clã se lançará ao oceano novamente, agora para velejar pela terceira vez aos confins do planeta. A desculpa para mais uma jornada, como dizem os próprios aventureiros, é achar pistas que ajudem a esclarecer uma teoria polêmica: a de que os chineses cruzaram os sete mares um século antes dos europeus. A ideia ganhou força com o livro "1421: O Ano em que os Chineses Descobriram o Mundo", do oficial aposentado da Marinha britânica Gavin Menzies. A hipótese é rechaçada por acadêmicos, mas transformou o inglês num best-seller. "Queremos buscar evidências para um cientista pesquisar mais a fundo e comprovar a história", afirma David Schurmann, 39 anos, o filho do meio.

A família - a primeira brasileira a girar o planeta num veleiro - faz parte de um grupo de pessoas viciadas em desafios. Diferentemente do que alguns imaginam, esses aventureiros da vida real estão longe da acepção de "irresponsável" que às vezes acompanha a palavra. Pelo contrário, são metódicos e planejam muito bem cada passo de suas jornadas. Quando saíram para sua primeira grande viagem, em 1984, com três filhos a tiracolo - de 7, 10 e 15 anos -, os Schurmann já acumulavam dez anos de preparação, desde que se apaixonaram pelo mar durante um passeio de barco no Caribe. "Fizemos curso de navegação, ficamos em cima das cartas náuticas, aprendemos mesmo", diz Heloísa Schurmann, 65 anos, a mãe. Para a maioria das expedições, é claro, condicionamento físico também é fundamental, mas os conhecimentos técnicos podem ser até mais importantes. O alpinista Thomaz Brandolin, 54 anos, primeiro brasileiro a chegar ao Polo Norte, resume: "O que te leva não são só as pernas, mas também a cabeça. Que combustível funciona no Ártico? Quantos litros carregar? Tudo que você leva pode congelar, são muitos detalhes. O aventureiro despreparado morre no caminho. "O infeliz exemplo do viajante americano Christopher McCandless, que morreu sozinho no Alasca, foi narrado no filme "Na Natureza Selvagem", de 2007.

Viciados em adrenalina

"Certas pessoas têm um espírito empreendedor e conseguem se estruturar, por isso suas aventuras têm mais chance de dar certo", afirma a professora Katia Rubio, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em psicologia do esporte. Segundo ela, esses viciados em adrenalina não se dão por satisfeitos com as emoções do cotidiano. "Alguns têm prazer em acompanhar o crescimento do filho, outros precisam ir para a Antártica." Para a maior parte dos aventureiros, o gosto pelo desafio é a maior motivação - mas nem sempre do jeito que a maioria imagina. Famoso pelas travessias oceânicas solitárias, Amyr Klink gosta mais de colocar projetos de pé do que da viagem em si. "A aventura não é para ir para a Antártica sozinho, mas fabricar o barco", diz. Para a nova expedição intercontinental, a família Schurmann também projeta pela primeira vez sua própria embarcação, o veleiro Kat - que leva o nome da filha adotiva que morreu em 2006, aos 13 anos, em decorrência de Aids.

Os propulsores do espírito aventureiro, porém, variam bastante. Brandolin já correu atrás das metas ambiciosas, como a conquista do Polo Norte, mas hoje prefere estabelecer uma conexão com a natureza. Numa viagem recente a uma cadeia de montanhas isolada no Alasca, levou equipamentos diferentes do habitual: telas e pincéis. Se alguns buscam transcendência, outros querem superar limites. É o caso de recordistas e pioneiros, como os que cruzaram oceanos no período dos descobrimentos e chegaram ao espaço no século passado. O gosto pela sensação do perigo real também acompanha vários deles. Em sua última viagem ao Alasca, o próprio Brandolin preferiu não levar armas de fogo, apesar do risco de encontrar animais selvagens - o que, aliás, aconteceu (nessa expedição ele deu de frente com um lobo e um urso). Todos os aventureiros, mais ou menos precavidos, sabem qu correm o risco de se machucar gravemente ou até morrer durante as jornadas. A médica de áreas remotas Karina Oliani, 31 anos, já praticou dezenas de esportes radicais, escalou quatro dos sete picos mais altos de cada continente e quase perdeu um olho ao subir o Everest, a montanha mais alta do mundo. "Minha lanterna apagou e eu tirei a máscara por 20 minutos, mesmo sabendo que corria sérios riscos. Meu olho esquerdo congelou, e o quadro só não piorou porque o guia nepalês que subia comigo teve a ideia de lambê-lo." Situações como essa não são raras, independentemente do local. Os Schurmann já perderam o mastro numa tempestade e quase foram atacados por piratas. Sozinho no oceano, Amyr Klink por pouco não atingiu um iceberg.

Herança genética

Especialista em psicobiologia e psicologia esportiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mara Raboni aponta que o vício pela adrenalina pode também ser uma característica biológica. "Algumas pessoas têm resistência maior ao estresse e outras até um gosto por encarar esse tipo de situação. É uma característica genética que afeta o funcionamento neuroquímico", afirma. A professora também diz que, além dos genes, a cultura e o ambiente são fatores importantes na construção do espírito de aventura. Pierre Schurmann, 45 anos, o primogênito da família, brinca: "Está no DNA, mas meus pais também fizeram uma lavagem cerebral. Todos os livros em casa eram sobre piratas e expedições." Segundo Mara Raboni, o cérebro de uma criança é mais moldável, e isso pode ajudar a explicar por que o filho mais novo, Wilhelm Schurmann, 37 anos, que saiu para dar a volta ao mundo com apenas 7 anos, vive hoje em constante movimento. "A minha vida foi no mar, tanto que eu não consegui ficar parado e fui girar o mundo em campeonatos", diz ele, que pratica windsurfe profissionalmente. "Se passo mais de um mês e meio num lugar, fico agoniado." Na nova viagem rumo ao Oriente, mais uma geração pode ser fisgada pelo vício da família: Emmanuel, 22 anos, filho de Pierre, é o primeiro neto Schurmann a embarcar numa jornada mundial.

A maioria dos aventureiros vem de uma linhagem de pessoas que ousavam mais do que a média. "Meu pai era um empresário maluco, um visionário", conta Amyr Klink. "Muitos dos negócios dele deram certo, outros não, mas ele conhecia o mundo muito bem e morou em mais de 80 países." O avô de Alessandro Matero, 39 anos, que faz travessias oceânicas com pranchas de surfe, caiaques e canoas, foi nadador de águas abertas, canoísta e velejador. "Ele me influenciou muito", reconhece. O gosto pela emoção é  tão forte nessas pessoas que ninguém fala em aposentadoria. No máximo, cogitam diminuir o ritmo. "Nunca vou parar, talvez pegar mais leve", diz Matero.

Profissionalização

Pagar por esses desafios pode parecer um luxo, mas nem sempre os aventureiros têm vida fácil. Alguns, como a família Schurmann, se profissionalizaram e buscam patrocínios para bancar suas expedições. Outros tentam aliar o espírito desbravador à rotina profissional. A médica Karina Oliani aprendeu a pilotar um helicóptero para fazer resgates em regiões inóspitas. Além disso, já apresentou programas de esportes radicais e tem uma produtora que faz filmes sobre suas aventuras. "Dane-se que não tiro férias há cinco anos. Penso no que faria se tirasse e é exatamente o mesmo o que eu faço trabalhando", diz. O alpinista Thomaz Brandolin adotou uma solução que é comum a muitos aventureiros. Ele financia suas jornadas proferindo palestras e realizando workshops em que traça paralelos entre os desafios dos esportes na natureza e o cotidiano empresarial. Mas, no começo, dependeu da ajuda do pai e entregou pizzas para se sustentar na Califórnia, onde morou na juventude em busca de emoções radicais. Principalmente no início, é preciso persistência e muitos gastam fortunas. Há também os que nunca tentaram transformar a paixão num negócio. É o caso de Lea Zogbi, 51 anos, que explora cavernas pelo menos uma vez por mês desde 1992, aprendeu a fazer mapas desses locais e, desde então, já desenhou 250 deles. "Eu me separei aos 27 anos e comecei a ir para cavernas com 29. E aí foi um casamento, porque acabo dedicando muito do meu tempo livre para essa atividade", diz ela, que viaja pelo Brasil para abrir concessionárias de uma empresa automotiva.

Heróis modernos

Segundo a psicóloga Mara Raboni, da Unifesp, pessoas como Leda e os outros aventureiros citados nesta reportagem encarnam modelos ideais e são vistos como heróis. "São admirados porque têm mais coragem, força ou ousadia, e assim vão até onde outros seres humanos não chegam", afirma. Esses ídolos, no entanto, costumam sair do pedestal quando questionados sobre o segredo do seu sucesso. "Nós não somos especiais, fizemos coisas simples que qualquer um pode fazer. O que falta a muitas pessoas é a perseverança, foco e planejamento", diz Vilfredo Schurmann. Para especialistas, as pessoas não se conhecem bem, por isso não vão em busca de seus reais desejos. "Muitos não se mexem porque não sabem o que é efetivamente importante para eles. Quando você descobre o que é fundamental em sua vida, não tem quem pare", diz Katia Rubio, da USP. Os aventureiros concordam. "Todo mundo tem um Everest. Seu sonho não precisa ser chegar à montanha mais alta do mundo, mas uma coisa muito mais simples", afirma Karina Oliani. O segredo dela? "Você veio para a Terra e tem só uma vida, que pode acabar amanhã. Vai ficar sentado no sofá com preguiça de fazer as coisas?"





(texto publicado na revista Isto É nº 2310 - ano 38 - 5 de março de 2014)





terça-feira, 28 de maio de 2013

Entrevista com o casal Schurmann (Programa Sempre um Papo)

Entrevista com Vilfredo Schurmann


Entrevista com Vilfredo e Heloisa Schurmann

Navegar é preciso - Verônica Bareicha


Heloisa Schurmann ouviu o sábio conselho de um médico a respeito de sua filha, Kat, então com 5 anos de idade. "Deixe que ela tenha uma vida cheia de coisas para fazer, que tenha sonhos e que seja amada". A menina era HIV positivo e vivia sem sintomas, nessa época. Não conseguiu ter uma longa existência, mas a intensidade com que degustou todos os seus dias fez a diferença. O conselho médico foi milimetricamente seguido. Heloisa conta essa história em "Pequeno Segredo - a lição de vida de Kat para a famíli Schurmann" (Editora Agir). A autora é a matriarca do clã que se tornou conhecido na década de 1990 como a primeira família brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro. O casal e seus três filhos passaram 10 anos no mar.

Foi neste barco amoroso e pouco convencional que a pequena Kat teve a sorte de viver aventuras incríveis. A menina era filha de um casal amigo, também velejadores, que os Schurmann conheceram na Nova Zelândia. Jeanne, a mãe biológica de Kat, contraiu o vírus antes da gravidez em transfusões de sangue por ter sido vítima de um atropelamento. Sem saber, transmitiu a doença ao marido e à filha. Após a morte de Jeanne, Robert, o pai, pediu aos amigos que adotassem Kat, com três anos á época, para que tivesse a oportunidade de viver em uma família.

A rotina dos Schurmann foi totalmente modificada, e para sempre marcada pela convivência com a garotinha especial - não só por enfrentar a morte tão cedo, mas também pela alegria e brilho próprio. A narrativa de Heloisa é entremeada com os diários de Kat convidando à reflexão sobre as relações familiares, a  adoção, a Aids e o preconceito. Em seu diário, ela escreveu: "A mommy me contou a coisa mais terrível da minha vida. Eu tenho HIV. Não acredito, Diário, que triste. Ai, Diário, estou com muita vergonha. Foi assim: eu reclamei que eu sempre fico doente, tomo um monte de vitaminas, sempre fico com herpes, não posso ir pra aula quando tenho catapora, montes de exames, essa tosse que tenho sempre, bronquite, sei lá, uma doença atrás da outra e agora caxumba. Mommy me sentou no colo, me abraçou bem juntinho dela e começou a falar bem calminha. Ai, Diário, por que eu nasci com essa doença?" 

O que Kat nunca soube é que dar essa notícia para ela não foi um momento de calma. Heloisa descreve: "Enfrentar uma tempestade requer coragem. Enfrentar sua filha de 12 anos quando ela te pergunta sobre a sua doença, se ela vai morrer, demanda mais do que coragem." Um ano depois, aos 13 anos, Kat faleceu justamente por complicações decorrentes de uma bronquite.


(texto publicado na revista SimplesMente de janeiro de 2013)



Kat, a pequena grande marinheira



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Diário de vida - A alma da cidade, ou seja, os taxistas

Na incessante busca de autoconhecimento, tenho visto muitos filmes, lido alguns livros (vou precisar de anos para ler todos que estão em minha estante) e inúmeras revistas. Além do prazer em escrever no blog, ele está servindo como triagem principalmente em relação às revistas. Seleciono o que me interessa e depois as passo para outras pessoas porque senão teria publicações até o teto e como digo sempre, a minha casa não é elástica, não se expande :-).

Antes de  transcrever o texto escrito por Paulo Nogueira para a revista Viagem e Turismo,  gostaria de relatar a minha experiência com os tassisti italiani. Na verdade eu peguei táxi uma única vez na Itália. Eu já nem me lembro em que cidade isso aconteceu, mas estava indo do hotel para a estação ferroviária e tinha comprado um carrinho com rodinhas para ajudar a carregar a mala. O taxista colocou tudo junto no bagageiro, mas na hora de descarregar foi tão impaciente que acabou entortando o carrinho e foi bem desconfortável me locomover daquele jeito. Ainda bem que nas viagens seguintes todas as malas que comprei já vinham com rodinhas. Não fiquei com uma má impressão do povo porque não era a primeira vez que viajava para a Itália, senão teria brigado feio com ele.

No Brasil tomei táxi poucas vezes, mas me lembro da viagem que fiz até um banco que não existe mais,  onde tinha ido fazer um teste para trabalhar lá. Quando estava para descer do carro, percebi que tinha esquecido a carteira em casa. O taxista foi muito gentil, pegou o meu endereço e passou em minha casa no final da tarde para receber pela corrida.  

Peguei táxi algumas vezes no aeroporto de Cumbica ao voltar de viagem.  E nunca tive problemas.

Quando estive no Japão em 1994 pude constatar a gentileza dos taxistas. Por uma questão de etiqueta todos eles usam luvas (os motoristas de ônibus também). São eles que acomodam a bagagem, abrem e fecham a porta do veículo para o passageiro. E ninguém fura a fila para pegar um táxi na estação de trem. Eu me lembro de uma taxista muito gentil que nos levou da estação até o centro da cidade de Wakayama e quando dissemos que o meu pai tinha nascido naquela cidade, ela nos deu de presente um lenço com o mapa da cidade (souvenir típico para turistas).

A seguir  o artigo sobre a análise do comportamento dos taxistas em algumas cidades: Londres, Paris, Lisboa e Praga. Para um turista eles são geralmente o nosso primeiro contato logo que chegamos em um outro país.

É possível conhecer um lugar pelos humores de seus taxistas. Especialmente se você estiver em Londres, Paris, Lisboa e Praga.

Não entendi direito quando vi meu filho Pedro apanhar o iPhone no black cab que nos trazia de Picaddilly para casa, em Fulham, em Londres. Era uma noite fria e molhada de inverno. Não ganháramos tanto assim no Empire, o cassino em Leicester Square em que jogáramos Texas Hold'em, mas o lucro fora suficiente para voltarmos de táxi e não de metrô ou de ônibus, como de hábito.

Pedro simplesmente adora o black cab, com sua aparência de carro antigo e o espaço dos passageiros em que você pode fazer uma reunião com alguém, com os bancos em que uma pessoa pode ficar de frente para outra ou para as outras. Eu brinco dizendo que as mãos de Pedro se levantam automaticamente em sinal de chamada quando vê um black cab.

Não quis que eu deixasse gorjeta ao chegarmos, ele que é um jovem generoso. Depois me contou a razão. Com o GPS de seu celular, ele verificou que o motorista dera uma volta desnecessária. Nos enrolara, em suma.

Que os ciganos que dominam a praça de Praga façam isso, tudo bem. Mas os legendários black cab, um símbolo de Londres tão forte quanto o Big Ben, a Harrod's e os double deckers?

Sim. Até eles. O mesmo trajeto em outro dia, sem enrolações, provaria.

A conclusão é que os britânicos enfrentam uma crise de valores. Você até aceita que políticos sejam pilhados reembolsando com o dinheiro do contribuinte despesas como a construção de uma casa para patos ou a afinação de piano ou até o aluguel de fitas pornográficas, como aconteceu recentemente na Inglaterra.

Mas um black cab dar voltas desnecessárias?

O que aconteceu com a Inglaterra?

Você conhece um país pelos seus motoristas de táxi. O caráter nacional está grudado neles como um chiclete. Preste atenção neles e você conhecerá um povo. Londres sempre se orgulhou dos black cabs. Eles só conseguem a licença depois de provar, em concursos, que conhecem simplesmente todas as ruas da cidade. Você não tem de explicar nada. Eles costumam também guardar, no vidro que os separa dos passageiros, a tradicional reserva dos britânicos. Não falam nada a não ser se perguntados. Não são loucos, como os taxistas brasileiros, de palpitar sobre futebol, novelas ou mesmo política e economia.

Mas também eles, como Pedro solertemente notou em seu iPhone, já não são os que foram.

Se quiséssemos encrencar, poderíamos. Era só ligar para a associação que congrega os black cabs de Londres e relatar o ocorrido. Contar o trajeto e o preço cobrado. Receberíamos de volta o dinheiro. Um amigo nosso mais combativo fez isso, no ano passado. Pegou as libras cobradas a mais.

Não foi o meu caso. Simplesmente anotei mentalmente a crise moral britânica.

Quem morou na Inglaterra sofre com este relato de prevaricação de um black cab. Veja a dor deste depoimento de um brasileiro que experimentou uma prolongada temporada britânica. "Morei mais de oito anos na Inglaterra e me orgulhava de afirmar que os motoristas dos black cabs eram os mais eficientes e honestos do mundo. Em duas ocasiões, deixei pertences neles para logo depois encontrá-los sem problemas. Em uma dessas vezes, o motorista até foi ao meu apartamento, pois era a minha mochila que eu tinha deixado, com muita coisa importante. Para minha sorte, minha agenda estava dentro, com endereço e tudo. Eles eram infalíveis."

Poucas coisas machucam mais que verbos no passado.

Se tive uma decepção com os taxistas ingleses, os franceses jamais me surpreenderam negativamente porque sempre confirmaram minhas expectativas baixas. Os taxistas de Paris, como os parisienses, são arrogantes e preguiçosos. Um dispositivo nos carros impede que eles trabalhem mais de 11 horas por dia, mas mesmo sem nada seria difícil imaginar um motorista de táxi em Paris fazendo longas jornadas, como acontece em São Paulo.

Táxi em Paris é escasso. E é uma questão de sorte se, ao acenar para um motorista livre, ele parar o carro para você. Muitas vezes eles nem olham para a sua cara. Estão indo sempre para a folga, aparentemente. Às vezes gesticulam alguma coisa que você não consegue compreender senão pelo fato básico de que continuará a esperar um carro. Aprendi, depois de algumas idas a Paris, que a maneira mais fácil de pegar um táxi é indo a um ponto de alguma estação. Você enfrenta uma fila mas consegue um táxi.

O francês não nasceu para servir. Parece que está fazendo um favor para você. Uma vez, em um hotel, perguntei por que não conseguia conectar a internet em meu laptop. O hotel prometia internet. A recepcionista primeiro me disse que eu estava fazendo "muitas perguntas". Depois, finalmente, esclareceu que só o gerente - que nunca estava presente - poderia resolver o problema. Ela procurou o cartão dele para pegar o número de seu celular. Quando achou, em vez de ligar ela mesma, me passou o número para que eu me virasse.

Os motoristas de Paris são assim, mesmo quando nasceram em países como Portugal. Os estrangeiros assimilam os defeitos do francês rapidamente. As virtudes, nem tanto. Para sorte dos turistas, sempre existe o metrô em Paris - muito bom, embora menos conservado que o de Londres. E os ônibus.

Tão antipáticos quanto os taxistas de Paris são os de Praga. Adicionalmente, são frequentemente desonestos. A prefeitura de Praga sabe que eles são um problema para o turismo. Muitos ciganos búlgaros dirigem táxis na cidade. Dão voltas desnecessárias sem o menor pudor. Mesmo quem vai para Praga pela primeira vez logo percebe que o trajeto feito é um assalto.

Ma não há nada a fazer. Os ciganos búlgaros não falam inglês. Aliás, eles não falam. Em poucos dias de Praga desisti de cumprimentar os motoristas. A única boa notícia na praça de Praga é que as corridas são baratas mesmo com as voltas, se comparadas  às de Londres ou Paris.

Mas Praga é uma cidade tão interessante com seu teatro de sombras, tão bela em sua arquitetura clássica preservada, tão rica em seus museus em que você vê originais de artistas como Munchen, tão graciosa em seu ar que lhe valeu o apelido de Petit Paris - tão cheia de virtudes que compensa os aborrecimentos com os búlgaros dos táxis.

Sem em Praga os taxistas não falam, em Lisboa é o contrário. Os motoristas portugueses falam muito. Não é fácil compreendê-los. Quando notam que você é turista querem oferecer serviços extras de condução. Eles costumam provar que é mais fácil e barato viajar de táxi do que trem para ir a lugares turísticos nas imediações de Lisboa, como Estoril, por exemplo.

O sonho do taxista de Lisboa é ir trabalhar na praça de Paris porque o motorista trabalha menos e ganha mais. Anotei mentalmente uma queixa que o taxista que me conduziu fez dos parisienses. "Eles detestam falar outra língua." Percebi, com alguma surpresa, que aquele motorista gostaria sinceramente de poder usar o português no caso de tentar a vida em Paris.

Não passava pela cabeça dele Berlim, mas seria uma boa alternativa. Estive nessa cidade no aniversário de 20 anos da queda do muro. O motorista que me levou ao aeroporto, na volta, falava inglês o suficiente para eu conseguir me informar sobre a vida de um taxista na cidade. Ele me contou que trabalhava - em sua Mercedes - nove horas por dia, cinco ou no máximo seis dias por semana.

Contei essa história para um motorista de táxi em São Paulo que simplesmente comentou: "A gente jamais poderia viver desse jeito aqui. São Paulo não para." Ele também tinha as características básicas do lugar  em que trabalha.

Existem livros. Existem teses. Existem pesquisas. Existem muitas ferramentas para você conhecer um povo, um país, uma cultura. Uma delas não é das piores, dispensa rigores acadêmicos e precisões estatísticas. Mas é extremamente eficiente. Observe o motorista de táxi. Com calma e atenção. A alma de uma cidade, ou mesmo de um país, está contida nele.


 ************************


Para terminar o assunto sobre os taxistas, gostaria de comentar sobre a cena que inicia o 1º episódio da 3ª temporada da série Monk na qual o protagonista, juntamente com a sua assistente Sharona, o capitão Stottlemeyer e o tenente Disher, vai para Nova York atrás de uma pista a respeito do assassino de sua esposa, Trudy.

Todos descem e o taxista muito estressado diz que nunca mais pegaria Monk como passageiro porque ele, durante toda a viagem, ficou limpando o carro.

No artigo transcrito acima, foi feita uma crítica a respeito dos taxistas, mas muitas vezes é preciso muita paciência para aguentar certos passageiros, devemos reconhecer.

Quando os 4 estavam para pegar o táxi para a viagem de volta a San Francisco, o capitão Stottlemeyer teve que algemar Monk para que o motorista (sempre o mesmo) aceitasse levá-los ao aeroporto.








 










segunda-feira, 30 de abril de 2012

A lendária expedição de Shackleton à Antártida

A grande corrida ao fim do mundo - Peter Moon


Em 1911, o norueguês Roald Amundsen e o inglês Robert Scott disputaram a glória de ser o primeiro homem a pisar no Polo Sul. Cem anos depois, a saga ainda espanta.

Há 100 anos, dois exploradores europeus disputaram uma corrida de 1.700 quilômetros pelo deserto gelado da Antártica. O prêmio era o direito de botar os pés no fim do mundo antes de qualquer ser humano.

O vencedor foi o norueguês Roald Amundsen. Ele atingiu o Polo Sul em 14 de dezembro de 1911. O segundo lugar - e a tragédia - estava reservado à expedição liderada pelo capitão inglês Robert Falcon Scott. A disputa entre os dois foi a última grande saga dos exploradores europeus. Para comemorar o centenário da conquista, o Museu de História Natural, em Londres, publicou um livro com fotos inéditas da expedição de Scott. Elas serão expostas a partir de janeiro na exposição A última expedição de Scott.

A aventura na Antártica foi o ato final de uma odisséia iniciada mais de 400 anos antes, quando Vasco da Gama dobrou o Cabo da Boa Esperança. Colombo descobriu a América e Fernão de Magalhães circum-navegou o planeta. A corrida ao Polo Sul começou em 1909, quando o americano Robert Peary atingiu o Polo Norte. A façanha de Peary pegou Amundsen desprevenido. Com quase 40 anos, ele era um calejado explorador do Ártico, adepto das técnicas de sobrevivência no gelo aperfeiçoadas por gerações de esquimós. Ele preparava em segredo uma expedição para conquistar o Polo Norte quando soube do feito de Peary. Mudou seu objetivo em segredo: seria então o primeiro a atingir o Polo Sul. O navio Fram zarpou de Oslo em junho de 1910. A tripulação de Amundsen achava que o destino era o mar de Behring, no norte do Pacífico, onde usariam trenós puxados por cães para abrir uma nova rota para o Polo Norte. Só ao chegar à Ilha da Madeira Amundsen revelou que seu destino era a Antártica. Sua discrição tinha motivos. Em Londres, o capitão Scott ultimava os preparativos para ir ao Polo Sul. Scott era um herói. Em 1902, ele e Ernest Shackleton chegaram a 850 quilômetros do Polo, o ponto mais ao Sul até então atingido por um ser humano. Em outubro de 1910, Scott se preparava para zarpar da Austrália rumo à Antártica quando soube que Amundsen partira da América do Sul ao continente branco. A corrida começara.

O ponto de partida escolhido por Amundsen e Scott para disparar rumo ao Polo foi a Barreira Ross, uma banquisa de gelo flutuante com a área da França. Scott montou seu acampamento-base no Estreito de McMurdo. Amundsen optou pela Baía das Baleias, no outro extremo da Barreira, por ser 100 quilômetros mais próxima ao Polo, encurtando a rota para 1.700 quilômetros. As duas equipes gastaram o verão antártico de 1910 a 1911 montando bases com suprimentos ao longo da rota da corrida. Scott trouxe pôneis siberianos para puxar trenós. Amundsen optou por cães esquimós. Ele e quatro homens partiram em 20 de outubro de 1911, em quatro trenós com 52 cães. Scott, sete homens e cinco pôneis saíram em 1º de novembro.

Amundsen precisou de 55 dias de marcha forçada num terreno desconhecido sob temperaturas médias de 20 graus negativos. Em 14 de dezembro de 1911, coube a ele a glória de atingir o Polo Sul e fincar a bandeira da Noruega. Não se via na vastidão branca nem sinal da bandeira britânica. Amundsen acreditava que a expedição de Scott estaria a apenas dois dias de distância. Há um século, sem contar com a comunicação por rádio ou satélite, tão importante quanto ser o primeiro a atingir o Polo Sul era ser o primeiro a conseguir voltar para anunciar a conquista ao mundo - pelo telégrafo.

Amundsen não tinha como saber que, no dia em que venceu a corrida, Scott ainda estava a 500 quilômetros de distância, lutando para escalar uma geleira na cordilheira Transantártica. O atraso lhe seria fatal. Vencida a barreira, ele enviou três homens de volta à base (foram os únicos sobreviventes), decidiu abandonar os pôneis e forçou seus companheiros a puxar os trenó na marcha ao destino final. Scott chegaria ao Polo Sul em 17 de janeiro de 1912, quase cinco semanas após Amundsen.

Ao avistar a bandeira norueguesa, deu meia-volta. Derrotados, desmotivados, exaustos e famintos, os ingleses iniciaram um trágico retorno. Sem ajuda para puxar os trenós, perderam muito tempo. Os víveres foram escasseando. Scott foi obrigado a reduzir as rações diárias, com reflexos sobre a saúde e o discernimento do grupo. Um dos homens despencou de uma geleira. Um segundo, muito fraco, saiu da barraca e desapareceu. Em 29 de março, Scott e dois companheiros morreram de inanição faltando 300 quilômetros para chegar ao oceano. A barraca com os três cadáveres congelados foi achada oito meses depois, em outubro de 1912. Os corpos permaneceram lá até hoje. Com 100 anos de acúmulo de neve e o movimento da banquisa, estima-se que Scott esteja sepultado por 23 metros de gelo, a 48 quilômetros do local original de sua morte. Em 275 anos, ele e seus companheiros poderão estar flutuando no Atlântico Sul, dentro de um iceberg.


(texto extraído da revista Época)