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domingo, 7 de agosto de 2016

Como os médicos morrem? (No final do corredor)


Há alguns dias li um artigo emocionante, escrito pelo médico Ken Murray, da University of Southern California. No texto ele conta a história de um amigo, ortopedista, que alguns anos antes recebeu o diagnóstico de um câncer de pâncreas. Apesar de estar nas mãos de um grande cirurgião, especializado nesse tipo de câncer e extremamente capacitado para conduzir o caso, o ortopedista recusou o tratamento. Foi para sua casa, procurou ficar o máximo de tempo possível com sua família e otimizar sua qualidade de vida através do controle dos sintomas da doença. Alguns meses depois, ele faleceu em casa. Não recebeu quimioterapia, radioterapia ou tratamentos cirúrgicos. Nada.

O fato é que, por incrível que pareça e por mais incômodo que seja, médicos também morrem. E não gostam da ideia de morrer, tanto quanto qualquer outra pessoa. O que é diferente entre os médicos não é a quantos tratamentos eles têm acesso em comparação com os outros pacientes, e sim a quão menos tratamentos eles próprios se submetem. Médicos tendem a ser mais serenos e realistas quando encaram a possibilidade de morrer. Eles sabem exatamente o que vai acontecer, conhecem suas opções, e geralmente têm acesso a todos os tratamentos disponíveis. Mas partem suavemente, de forma quase que submissa.

É claro que médicos não desejam morrer. Eles querem viver. Mas eles sabem o suficiente sobre a medicina moderna para conhecer seus limites, e compreendem de forma profunda o que as pessoas mais temem: morrer em grande sofrimento e sozinhas. Médicos costumam falar sobre isso com seus familiares. Deixam claro que, quando for sua hora, não querem ninguém quebrando suas costelas na tentativa improvável de ressucitá-los. Muitas vezes, falam sobre isso poucas horas após eles próprios terem feito exatamente isso com seus pacientes (eu mesma já fiz). A maioria dos médicos já viu (e praticou) demais o que chamam de “futilidade médica”, que acontece quando é usado todo o arsenal mais moderno disponível para uma pessoa gravemente doente, que está claramente no final de sua vida. Eles já viram pessoas sendo cortadas, perfuradas com tubos e agulhas, colocadas em máquinas barulhentas (e sedadas para suportar a tortura), além da infinidade de remédios correndo em suas veias. E morrendo poucos dias (até horas) depois. Eu já ouvi de colegas angustiados frases como: “Prometa-me que, se um dia eu estiver nessa situação, você vai me deixar partir. Não deixe que façam isso comigo.” E é assim mesmo.

Mas, então, por que é que eles fazem isso aos seus pacientes? Por que fazem com os outros o que abominam para si mesmos? O grande problema aqui é também a origem de praticamente todos os problemas do mundo: a má comunicação. Uma família que vê uma pessoa querida em grande sofrimento frequentemente faz pedidos do tipo “Doutor, faça tudo o que puder por ele”. O médico, por sua vez, escuta “Por favor, use todas as estratégias que você conhecer nesse caso”. E o pesadelo começa. Na verdade, a tradução do pedido angustiado da família possivelmente era “Doutor, faça o que puder para aliviar o sofrimento dele. Ele não merece viver dessa maneira.” A abordagem, provavelmente, seria bem outra. A mesma confusão pode acontecer quando o médico pergunta ao seu paciente se ele deseja continuar com o tratamento. O paciente pode entender que, se disser “não”, será abandonado pelo médico e morrerá exatamente do jeito que o apavora: sofrendo e sozinho. O mesmo paciente poderia responder com um grande e aliviado “sim” se ouvisse uma proposta do tipo “A sua doença não está respondendo aos tratamentos que temos tentado, e eles estão deixando você ainda mais debilitado do que o próprio câncer. O que você acha de pararmos de nos preocupar com sua doença e focar nossos esforços para melhorar ao máximo a sua convivência com ela?”.

O fato é que todos nós, pacientes, médicos e familiares, sofremos as pressões do sofrimento extremo, do tempo, do sistema de saúde, da própria formação médica e das crenças culturais na hora de tomar uma decisão drástica. Mas somente os médicos sabem o que acontece depois. Eles tendem a não aceitar tratamentos excessivos e com poucas chances de sucesso. Muitos buscam formas de morrer em suas próprias casas, esmerando-se no controle da dor e outros sintomas, buscando significado para suas próprias vidas e oferecendo o melhor de si às pessoas a quem amam. A própria literatura médica oferece base para esse tipo de decisão. Estudos têm demonstrado que pessoas com câncer hospedadas em hospices ou acompanhadas por serviços de Cuidados Paliativos vivem mais (e melhor) do que aquelas com o mesmo diagnóstico que recebem tratamentos oncológicos até o final da vida.

Cabe a nós, médicos, oferecer aos pacientes a informação que nos é disponível. Cabe a nós permitir que eles compreendam que a morte não é algo a ser evitado a todo custo, e sim um momento da vida, como qualquer outro. Em muitas situações, ela simplesmente não pode ser evitada, apenas adiada, e o custo disso pode ser um sofrimento intenso e desnecessário. O “prolongamento da vida” pode, na verdade, ser apenas o prolongamento do processo de morrer. Muitas vezes, com o paciente em grande sofrimento e sozinho. Um motivo e tanto para que os médicos não queiram passar por isso.

sábado, 7 de março de 2015

Por que alguns médicos são tão frios? - Juliana Conte (Dr. Drauzio Varella)



Médicos, enfermeiros e outros profissionais ligados à área da saúde são incentivados a não demonstrar os sentimentos e, se possível, se distanciar emocionalmente dos pacientes. De outra forma, como  lidar com o sofrimento humano, mortes, doenças e traumas e sair ileso? A tática utilizada para minimizar essas emoções é manter certo afastamento e partir da premissa de que o médico deve se preocupar somente em tratar a doença do paciente.

Isso virou algo tão inquestionável que os pacientes até se espantam quando o especialista fica mais de cinco minutos no consultório e conversa olhando em seu olhos, não para a tela do computador.

O médico e professor de emergências clínicas Marco Antônio de Carvalho Filho, da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), percebeu  há cinco anos essa ”deficiência” nos estudantes de medicina e desenvolveu um projeto de pesquisa que propõe recuperar a empatia dos futuros doutores, a fim de melhorar a relação médico/paciente. Ele, que ministra aulas para o sexto ano de medicina, notou que os alunos chegavam quase prontos para exercer a profissão nessa etapa do curso, com inúmeras habilidades técnicas, mas, na prática, não se sentiam à vontade ao atuar nos consultórios e lidar diretamente com o paciente. ”Faltava algo, então fomos entender o que era”, comenta o docente.

A primeira iniciativa foi alterar a grade horária de um dos cursos mais disputados do país (203 alunos por vaga, segundo o último vestibular). Além disso, os coordenadores passaram a convidar médicos renomados, que ”gostam de ser médicos e nasceram para isso” para dar palestras aos alunos do primeiro ano da faculdade e contar um pouco dos desafios da carreira. Os alunos também participam de palestras de pacientes, para estabelecer um contato inicial com eles.

Outra técnica adotada e que vem surtindo efeito é utilizar obras de artes e música para discutir e induzir à reflexão sobre temas espinhosos, como morte, perda e frustração. Na opinião de Marco Antônio, apesar da morte ser inerente à medicina, ninguém discute abertamente o assunto. ”É como se tivéssemos que ser infalíveis o tempo todo, ter respostas para tudo. Compartilhar os sentimentos que envolvem uma situação dessas pode ser considerado um sinal de ineficiência”, destaca.

No segundo ano, é estimulada a habilidade de comunicação dos futuros médico. ”Como devemos iniciar uma conversa com o paciente e como fazer com que ele se sinta à vontade? É importante ficar claro que não oferecemos verdades ou regras absolutas, somente uma oportunidade de o estudante refletir”, emenda.

Marco Antônio revela que sua equipe entrevistou durante três anos seguidos todos os estudantes que chegavam à universidade, a fim de saber os motivos que os levavam a escolher a carreira. ”Salvar vidas e conhecer a natureza do homem são as respostas campeãs”, explica. Mas o que acontece com o altruísmo, que simplesmente desaparece ao fim do curso?

”Todo calouro de medicina tem que estudar muito para conseguir entrar numa boa faculdade. Então, para isso, ele deixa de fazer outras atividades, se fecha. Logo, não tem uma vivência social muito rica. Além disso, dificilmente ele precisou trabalhar, já que os alunos normalmente são de classe econômica alta. Então, o aluno entra na faculdade totalmente protegido e de repente se depara com sofrimento de toda espécie: desigualdade social, falta de estrutura, de leitos, muita dor, gente que morre à toa. Eles até  chegam com vontade de mudar, mas o curso é extremamente massacrante”, destaca.

A empatia,  habilidade de importar-se com o outro,  dá lugar ao cinismo como forma de blindar-se emocionalmente. ”Tudo porque ele não consegue elaborar os sentimentos que vivencia durante o curso. Mas se blindar é uma armadilha, porque não conseguimos parar de sentir. Então o resultado é que o próprio médico fica frustrado e infeliz”, completa Marco Antônio.

O resgate da empatia perdida ao longo de tantos plantões e jornadas intermináveis ocorre no sexto ano, quando os alunos são induzidos a atender pacientes fictícios, representados por uma companhia de atores da própria universidade. ”Lidar com a doença traz uma carga emocional muito grande”, revela.

As consultas são gravadas e depois toda a turma assiste e discute com os professores sobre os erros e acertos e verificam se a abordagem estava correta. A experiência, que começou em 2010, já ensinou ”novos olhares” a mais de 400 alunos.

Durante esse período, segundo o especialista, os níveis de empatia foram avaliados antes e depois das atividades por meio de uma escala internacional de empatia médica. O resultado da avaliação dos alunos do sexto ano passou de 117 pontos para 123.

A pesquisa constatou também que 94% dos alunos consideraram que sua capacidade de ouvir o paciente havia evoluído; 91% acreditavam que a capacidade de ouvir outra pessoa também melhorara.

A experiência pedagógica foi publicada na revista “Academic Medicine” e tem sido apresentada em vários congressos médicos internacionais.

”Eles receberam muito bem as atividades, porque a gente explica que é legítimo se envolver, que o aluno pode chorar, sentir, e que a prática da medicina vai muito além do resultado imediato, já que estamos cuidando de um ser humano”, finaliza Marco Antônio.