Mostrando postagens com marcador Adolf Hitler. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adolf Hitler. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Livros: Páginas da discórdia - Nataly Costa


O relançamento de Minha Luta, do nazista Adolf Hitler, provoca polêmica entre editoras e livrarias paulistanas

Na segunda-feira passada (15), uma obra que está entre as mais controversas de todos os tempos figurava em uma das principais prateleiras da Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista: Minha Luta (Mein Kampf, no original alemão), a autobiografia do ditador Adolf Hitler, escrita nos anos 20 e considerada a bíblia do nazismo. No dia seguinte, o diretor executivo Alexandre Martins Fontes passou por ali e não gostou do que viu. Mandou retirar o título do destaque - apesar de defender seu direito de vendê-lo (por 75 reais). "Não vou julgar o conteúdo de cada livro da loja, mas posso fazer uma curadoria do que é exposto", afirma.

O relançamento de Minha Luta é o assunto do momento entre livreiros e editores paulistanos desde que a obra entrou em domínio público, no último 1º de janeiro. O compêndio incendeia polêmicas há quase um século por sustentar ideias como a superioridade da raça ariana - com uma tentativa de trazer embasamento científico à tresloucada teoria - e o extermínio de minorias, incluindo crianças deficientes, negros e homossexuais. Nos últimos setenta anos, o volume esteve sob a batuta do Estado da Baviera, na Alemanha, que tratava o material com máxima ressalva, quase sempre vetando sua reprodução. Em 2005, recomendou à editora paulistana centauro, que havia publicado 2 000 exemplares sem autorização, o recolhimento dos livros, de 508 páginas. No mês passado, quando a necessidade do aval alemão caducou, a Centauro reimprimiu mais 5 000 cópias. Sofreu outro revés, desta vez da Justiça do Rio de Janeiro, que proibiu a comercialização naquele estado. "É um absurdo essa censura, vamos recorrer até o fim", diz o editor Adalmir Caparros. O imbróglio pegou de surpresa outro selo de São Paulo, a Geração, que prepara uma versão crítica - prevista para sair em março - com cerca de 400 páginas de comentários de historiadores brasileiros e norte-americanos. "As notas não estarão nos rodapés, e sim entremeando o texto de Hitler, contestando mentiras e erros históricos", explica o sócio Luiz Fernando Emediato. Uma terceira casa, a Edipro, da Bela Vista, chegou a anunciar Minha Luta, mas desistiu.

Apesar de não haver veto na capital, a obra está longe de ser consenso. As livrarias Cultura e Saraiva, por exemplo, recusaram o título. O site Estante Virtual, que comercializa o acervo de 1 350 sebos ao redor do país, orientou os parceiros a não disponibilizar o produto. "É pura incitação ao ódio contra as minorias, algo vedado pela nossa Constituição", diz o secretário da Confederação Israelita do Brasil, Rony Vainzof, que discorda até do valor documental da escrita de Hitler. "A história já é muito bem ensinada sem o auxílio da obra." O professor de direito Flávio de Leão Bastos Pereira, do Mackenzie, faz ressalvas à publicação do "texto seco" (como o da Centauro), mas é a favor da edição crítica, formato lançado na Alemanha - lá, as 2 000 páginas figuram na lista dos mais vendidos. "A proibição só cria curiosidade em torno desse livro, quando precisamos contestá-lo e desmistificá-lo".


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 24 de fevereiro de 2016)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O gênio do Fusca - Álvaro Oppermann


O publicitário Bill Bernbach tinha pela frente um problema e tanto naquele ano de 1959. Sua agência acabara de ser contratada para fazer a propaganda do Fusca nos Estados Unidos. Os americanos não gostavam do carro, insensíveis ao seu arrojado design, criado pelo austríaco Ferdinand Porsche, inspirado numa  gota d'água, o achavam feio e pouco prático. Deram a ele o apelido pejorativo de beetle, besouro em inglês. Além disso, carregava a pecha de ser "o carro de Hitler", o veículo que o ditador nazista sonhara para o povo alemão. Lançado nos Estados Unidos em 1949, foi logo um fracasso. Em 1950, dos 6,6 milhões de veículos novos do país, apenas 330 eram da marca Volkswagen.

Bill Bernbach, um nova-iorquino nascido em 1911, resolveu mudar esse cenário e engatou uma nova marcha na história dos negócios do século 20. O anúncio que criou para o pequeno besouro alterou o curso do automóvel no país e, de quebra, mudou o jeito de se fazer propaganda no mundo. O seu título era "Think small" (pense pequeno). Seu humor provocativo ia contra o pensamento corrente nos EUA do "pense grande". Um fenômeno curioso se registrou: os consumidores chegavam às lojas de automóveis repetindo aos vendedores quase literalmente os textos de campanha publicitária que tinham ouvido.

Os anúncios de Bill tinham humor e falavam com o consumidor como se fosse um amigo próximo. Além disso, o publicitário colocou um ingrediente inédito nos anúncios americanos: a malandragem de quem nasceu no Bronx.

Para a então obscura locadora de automóveis Avis, que no ano de 1962 se encontrava bem distante da líder e rival Hertz, criou a campanha "Nós somos o número dois". Ser vice, argumentava Bernbach, era um estímulo para a Avis atender melhor o cliente e assim bater a líder. O que de fato aconteceu.

Por trás do malandro, porém, escondia-se um erudito que estudava literatura inglesa e filosofia. O passado imerso nos clássicos o ajudou. Vendo em retrospecto, os melhores anúncios de Bernbach se apoiavam num velho truque de retórica, cujo artifício consistia em, de início, concordar com a opinião contrária de uma platéia hostil, a fim de ganhar sua simpatia e confiança, para só então expor os argumentos que faziam o público mudar de opinião.

A erudição não era sua única marca distintiva. Organizado, nunca saía do escritório depois das 5 da tarde. De gosto apurado, estava sempre de paletó e gravata. Foi o primeiro a dar um lugar ao sol na publicidade a judeus, italianos e negros, antes rigorosamente excluídos da avenida Madison (rua das agências em Nova York).

Polêmicas também cercavam o nome de William Bernbach. Era considerado arrogante. "Sem arrogância não dá para fazer propaganda", afirmava categoricamente. Rendeu-lhe críticas também o fato de ser judeu e ter transformado o sinistro carro de Hitler no simpático Fusca (ou Beetle e Carocha, alguns dos nomes que recebeu mundo afora). Aos críticos, respondia: "Nada é mais danoso a um mau produto que a boa propaganda".

Bernbach morreu em 1982, de leucemia. Recentemente, foi eleito o maior publicitário da história. Criar um dos ícones do século 20 foi só uma de suas façanhas. Persuasão era a arte de Bill.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 205 - outubro de 2004)






segunda-feira, 27 de junho de 2016

Você sabia que Hitler... - Eduardo Cosomano

Além de artista frustrado, racista e megalomaníaco, ele era esquisito para caramba.

... era fã do Mickey Mouse?

Hitler adorava um ícone da cultura americana: desenhos animados. Se fosse do Mickey, então, o Holocausto podia esperar. No Natal de 1937 o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, lhe deu 12 desenhos de camundongo da Disney e anotou em seu diário: "Ele está absolutamente feliz com seu tesouro!".

... tinha estômago delicado?

Cólicas estomacais e crises de flatulência acompanharam Adolf desde a infância. Após consultas com uma nutricionista vienense chamada Marlene Von Exner, seu cardápio passou a priorizar suco de laranja com mingau de linhaça, pudim de arroz com molho de ervas e biscoitos com nozes e pasta de manteiga.

... ainda é best-seller?

O estado da Baviera adquiriu os direitos autorais sobre Mein Kampf (Minha Luta), que Hitler concluiu na cadeia em 1924, para impedir sua republicação - mas traduções piratas vendem bem no Oriente Médio e na Índia e seus vizinhos. Em tempo: Mein Kampf vira domínio público em 2016.

... adorava cruzeiros?

Para o ditador, lazer era direito de todos (os arianos): criou cursos de férias, centros de recreação e câmaras de cultura (nazista, claro). Curioso era o incentivo para que os trabalhadores desfrutassem de cruzeiros marítimos: para Hitler, todos deveriam fazer uma viagem dessas uma vez na vida.

... admirava um judeu?

Sua parte favorita da revista automotiva Motor-Kritik eram os artigos do engenheiro judeu Joseph Ganz. Há quem diga que ele foi o verdadeiro invetor do Fusca e teve a honra usurpada pelo alemão Ferdinand Porsche. Ganz chegou a ser preso pela Gestapo, mas escapou com vida do Terceiro Reich.

...mudava planos por causa de uma cadela?

Era Blondi, uma pastora alemã. Hitler interrompia reuniões para mostrar os truques que a cadela havia aprendido. O problema é que, se ela errava algo, Hitler ficava insuportável. Um de seus generais disse: "Parecia que a campanha na Rússia dependia mais de Blondi do que de nós".


(texto publicado na revista Super Interessante edição 291 - maio de 2011)





domingo, 19 de junho de 2016

Nazistas contra o papa - Rita Loiola

Invadir o Vaticano, sequestrar o papa Pio 12 e levá-lo para o norte. Foi por muito pouco que os nazistas não cumpriram essa missão.

O telefone acordou Karl Wolff bem cedo na manhã de 13 de setembro de 1943. Do outro lado da linha, o aviso de que Adolf Hitler queria vê-lo imediatamente. O general vestiu o uniforme com pressa e tomou o caminho que separava seu quarto do bunker do führer. Enquanto percorria os extensos corredores, imaginava o que estava por vir. Três dias antes, as tropas alemãs haviam entrado em Roma. Hitler tinha sede de vingança contra os italianos desde junho, quando eles depuseram seu aliado Benito Mussolini. Quando Wolff chegou ao bunker, o ditador foi direto:
"Tenho uma missão especial para você, Wolff", teria dito Hitler, conforme o depoimento de Karl Wolff anos depois. "Suas tropas devem ocupar o Vaticano o mais rápido possível, proteger seus bens e levar o papa e a cúria para o norte. Não quero o pontífice nas mãos dos Aliados. O Vaticano já é um ninho de espiões e um centro de propaganda anti-nazista. Arranje os detalhes mais importantes e dê notícias a cada duas semanas."

Comandante da SS na Itália, Karl Wolff saiu da sala decidido não a executar o plano de que Hitler lhe havia incumbido, mas a sabotá-lo. Essa é a tese do jornalista americano Dan Kurzman, especializado na 2ª Guerra Mundial e autor do livro Conspiração contra o Papa, recém-lançado no Brasil. Kurzman foi o primeiro jornalista a entrevistar o general Wolff logo depois de ele sair da prisão, em 1969. Baseado nessa e em outras entrevistas com embaixadores e generais nazistas, Kurzman tentou reconstituir os meses em que o führer quase invadiu o Vaticano. "O papa sempre soube que Hitler queria acabar com o cristianismo", diz Kurzman. "Mas o perigo se tornou real apenas no fim de 1943, quando o ditador italiano Benito Mussolini foi deposto. "Para Hitler, era preciso acabar com a dupla ameaça que o papa representava. Ele temia, por um lado, uma declaração pública de Pio 12 contra o massacra dos judeus, que poderia levar quase metade dos soldados, alemães católicos, a se voltarem contra o führer. Por outro, o ditador sabia que o papa era um forte líder espiritual - que poderia influenciar as almas.

Para o general Karl Wolff, porém, raptar o papa era loucura. A invasão do Vaticano poderia causar um levante da Itália e de todos os católicos do mundo contra a Alemanha. Incumbir-se dessa missão era ainda pior. Ocupando um cargo no alto escalão da SS, organização por trás do Holocausto, Wolff temia ter seu nome associado ao rapto e, possivelmente, ao assassinato de Pio 12. A única maneira de esse plano insano ser útil era sabotá-lo. Se a Alemanha perdesse a guerra, a bênção de sua Santidade poderia salvar a vida dele, que já tinha seu nome ligado à deportação e morte de milhões de judeus. Por isso, naquela manhã em que Hitler lhe passou a ordem, Wolff sabia exatamente com quem deveria falar.

Os sabotadores

A primeira atitude do general foi pedir ajuda aos colegas "anti-Hitler" de Roma. O primeiro a saber do projeto que deveria continuar em segredo foi Rudolf Rahn, o embaixador alemão na Itália. Os dois logo entraram em contato com Ernst von Weizsäcker, o embaixador alemão para o Vaticano. Todos concordavam que a invasão deveria ser cancelada. Mas, para isso, o próprio papa precisaria ajudar.

Em setembro de 1943, o Vaticano estava nas mãos dos nazistas. As saídas da sede da Igreja estavam frechadas pelo Exército alemão. No início do mês seguinte, Hitler ordenou a prisão dos judeus romanos. Os nazistas que tentavam salvar a vida de Pio 12 achavam que, se se prisões ocorressem, o papa não teria alternativa senão falar publicamente contra o massacre, provocando o próprio rapto. Por isso, para salvá-lo, era preciso mantê-lo quietinho.

A melhor forma de fazer isso era metendo medo no pontífice. Segundo Kurzman, o primeiro artifício que os nazistas da Itália usaram foi uma notícia sem muitos detalhes em uma rádio pirata fascista avisando sobre um suposto sequestro do papa. A mensagem pipocou em alguns jornais e chegou até Pio 12. No dia seguinte, o secretário dele chamou o embaixador Weizsäcker para uma audiência. Sua Santidade havia mordido a isca.

Anos depois, o diplomata escreveria que, assim que entrou no escritório do líder católico, a primeira coisa que notou foi seu olhar sereno. Quando tocou no assunto do sequestro, sua expressão não se alterou. "Ouvi rumores", teria dito Pio 12. "Mas permanecerei em Roma a qualquer custo." Weizsäcker, segundo instruções recebidas de Berlim, perguntou se ele faria um elogio público à boa conduta alemã. O papa teria garantido que sim, se os nazistas prometessem não tomar nenhuma atitude hostil contra o Vaticano. Em outras palavras, se o sequestro fosse cancelado, o papa confirmaria o "bom tratamento" alemão.

O embaixador deixou o Vaticano com a promessa de que entraria em contato com Berlim sobre a troca de favores. E o pontífice entendeu que a ameaça alemã era real e próxima - mas não passaria disso se ele honrasse seu voto de silêncio. Mas mandou esconder todos os arquivos pessoais e documentos do Vaticano sob pisos falsos. Membros da cúria prepararam as malas para acompanhar seu líder em caso de uma fuga de emergência. Ele precisaria dessas garantias para os próximos dias. O chefão da SS, Heinrich Himmler, já havia ordenado que os cerca de 8 mil judeus de Roma fossem presos em 16 de outubro de 1943.

O dilema

O bairro judeu de Roma ainda dormia quando a SS tomou as ruas naquele 16 de outubro de 1943. A chuva desabava enquanto 365 soldados da polícia alemã abriram portas aos chutes, gritando o nome dos procurados. Antes das 6 horas, homens, mulheres e crianças estavam enfileirados e jogados em caminhões, sob a chuva sem trégua. Ao fim, 1.256 dos 8 mil judeus de Roma foram presos e 1.002 foram deportados naquele dia. Uma semana depois, morreram em Auschwitz. Pio 12, como nunca se pronunciou publicamente sobre a prisão dos judeus, entraria para a história como "o papa de Hitler". Entre outros temores que o levaram a silenciar o massacre, estavam seu sequestro e a aniquilação do Vaticano. "Além dos mais, ninguém podia ter certeza de que o pronunciamento teria ajudado a salvar algum judeu", diz Antônio Marchionni, professor de teologia da PUC-SP. "O mais provável é que não somente ninguém fosse salvo como também as instituições católicas que abrigavam milhares de judeus fossem retaliadas."

Na época, esse também era o raciocínio da embaixada alemã no Vaticano. Em 1963, o embaixador alemão Albrecht von Kessel escreveu: "Estávamos convencidos de que um protesto do papa contra a perseguição dos judeus não terai salvado ninguém. Hitler reagiria com violência a qualquer ameaça que fosse enviada diretamente a ele". Existe ainda a possibilidade de que mais judeus fossem mortos se o papa se pronunciasse. Sabe-se hoje que, dos cerca de 8 mil judeus que restavam em Roma, entre 4 mil e 7 mil foram abrigados em 180 edifícios católicos, entre igrejas, monastérios, instituições de assistência e também no próprio Vaticano.

No entanto, o dever moral de lutar contra o assassinato de milhares colocava o líder da Igreja em um dilema. "Pelo lado prático, o papa Pio 12 sabia que seu pronunciamento não apenas não barraria o assassínio dos judeus mas somaria ao Holocausto o ataque aos católicos e o provável fim da instituição que defendia", afirma o jornalista Dan Kurzman. "Na verdade, Pio 12 não tinha escolha. Olhando pelo lado moral, porém, ele tinha a obrigação de se colocar contra o massacre."

De um lado, atemorizado pelas próprias inseguranças, de outro, pela chantagem alemã, Pio 12 permaneceu mudo. Duas semanas depois daquele sangrento 16 de outubro, o papa cumpriu sua promessa ao embaixador alemão. Publicou no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, um comunicado expressando sua gratidão às tropas alemãs por terem respeitado a Igreja. O artifício do embaixador Weinsäcker havia funcionado. Mas o papa ainda teria que passar por cima de seus interesses mais uma vez até o fim da guerra para garantir sua segurança.

O encontro final

Em março de 1944, o Exército russo chegou a Roma. Uma bomba dos comunistas atingiu o exército alemão que marchava pela Via Rasella, em Roma. Os estilhaços mataram 32 soldados alemães. As ordens do führer foram expressas: para cada morto, 10 italianos deveriam ser sumariamente executados. Weizsäcker e Wolff haviam conseguido silenciar o papa durante a prisão dos judeus. Mas ele permaneceria calado frente a um massacre italiano? O plano do rapto, que estava dormente, voltou a assombrar a embaixada alemã.

Wolff havia chegado à cidade na noite do massacre com ordens expressas para levar a cabo a deportação dos romanos. E, diante desses fatos, tinha certeza, o papa não continuaria impassível. O único modo de evitar uma tragédia no Vaticano - e salvar o futuro de Wolff - era conversar pessoalmente com o pontífice.Como apenas o embaixador Weinzsäcker estava autorizad a entrar no Estado da Igreja, a reunião teve que ser secreta. O encontro clandestino entre o líder da Igreja e o comandante da SS na Itália aconteceu no dia 10 de maio de 1944.

O general Karl Wolff reservou ao papa a mesma deferência que tinha para Adolf Hitler. Recebeu seus protestos em silêncio e garantiu que faria o possível para impedir prisões e deportações, acalmando os ânimos do führer. No entanto, ainda temendo seu sequestro, o pontífice deixou claro que não sairia do Vaticano de jeito nenhum, nem deixaria de lutar pelos princípios cristãos de sua Igreja. Wolff assegurou com veemência que tentaria cancelar qualquer projeto de sequestro ou sabotagem de Roma. Acreditando no compromisso do general, o líder da Igreja Católica deu sua bênção ao amigo íntimo de Heinrich Himmler, e um dos executores do Holocausto. Wolff se despediu juntando os joelhos e erguendo o braço - o cumprimento nazista. Pouco mais de um mês depois do encontro, as tropas americanas entraram em Roma, expulsando os nazistas. A missão secreta de Karl Wolff nunca chegou a ser cumprida. Pio 12 deixou o Vaticano apenas em 1958, quando morreu.

Karl Wolff

Depois de evitar o sequestro do papa Pio 12, Wolff foi um dos principais negociadores da Operação Sunrise, que articulou a rendição completa dos nazistas que ocupavam a Itália. Preso pelos aliados em 1945, foi condenado a 5 anos de prisão em 1947 acusado de ser membro da SS. Em 1962, foi condenado mais uma vez, por ter contribuído para mandar 300 mil judeus para o campo de Treblinka. Em 1969, foi posto em liberdade por causa de problemas de saúde. Morreu em 1984.

Ernst von Weizsäcker

Preso em 1947, foi condenado a 5 anos de prisão, morrendo em 1951. Sua condenação ocorreu sob protestos - alguns políticos, entre eles Winston Churchill, eram contrários à prisão de Weizsäcker porque ele teria trabalhado contra a vontade de Hitler. Seu filho Richard von Weizsäcker foi chanceler da Alemanha entre 1984 e 1994.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 225 - agosto de 2008)




quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Israel, o bem e o mal - Denis Russo Burgierman


Enquanto o país fundado pelas vítimas do Holocausto transformou-se em vilão, a pátria de Hitler virou exemplo de fofura. Afinal, os israelenses são bons ou maus? E os alemães? A resposta não está neles: está no ambiente.

Se um viajante do tempo saísse de 1950 e viesse bater em 2014, e calhasse de lhe cair em mãos a pesquisa da BBC que mede a popularidade dos países, talvez achasse que os dados estavam de cabeça para baixo. Segundo a pesquisa, realizada com 25 mil pessoas de 24 países, a nação mais popular que existe, vista por 60% das pessoas como "uma influência positiva" para o planeta, é a Alemanha. Já os países mais malvistos, considerados por mais da metade dos terráqueos como uma "influência negativa", são Irã, Paquistão, Coreia do Norte e... Israel.

O viajante do tempo não entenderia nada. Os alemães, portadores da mesma carga genética da nação que elegeu e apoiou Hitler no mais horripilante projeto de genocídio industrial da história, transformaram-se nos fofos do mundo (e olha que a pesquisa foi realizada antes da Copa de 2014). E Israel, fundado em 1948 em nome da liberdade, da justiça e da paz, pelas próprias vítimas do nazismo, com amplo apoio dos progressistas, disputa hoje a lanterna da vilania global apenas com ditaduras fundamentalistas (e olha que a pesquisa foi realizada antes que bombardeios israelenses matassem crianças palestinas brincando em Gaza). 

Se as pessoas que vivem em Israel e na Alemanha possuem os mesmos genes e as mesmas tradições de seus avós, que passaram pela guerra encarnando respectivamente "o bem" e "o mal", o que mudou em meros 70 anos? Nosso viajante, se quisesse descobrir a resposta, poderia ajustar sua máquina do tempo para as 10 horas do dia 14 de agosto de 1971.

Naquela manhã de sol, a tranquilidade da rica cidadezinha californiana de Palo Alto foi subitamente quebrada por um visão rara: policiais algemando um estudante branco e firmemente conduzindo-o ao banco de trás da viatura, sob o olhar assustado dos vizinhos. Aquele seria o primeiro de nove jovens levados presos.

Nenhum dos nove tinha cometido crime algum - eram estudantes saudáveis e comuns que tinham se voluntariado para uma pena de duas semanas numa prisão simulada, montada num porão da Universidade Stanford, em troca de US$ 15 por dia. Os guardas dessa prisão seriam 15 rapazes tão saudáveis e comuns quanto os prisioneiros, contratados pelo mesmo salário. o autor da pesquisa, o psicólogo Philip Zimbardo, definiu por sorteio quem seria guarda e quem seria prisioneiro. A partir daí, os prisioneiros seriam tratados apenas por números, e foram obrigados a referir-se aos guardas como "senhor oficial correcional". Nada de nomes.

Apenas seis dias depois, o Stanford Prison Experiment teve que ser encerrado prematuramente, após vários prisioneiros sofrerem colapsos nervosos. A convivência entre os dois grupos de rapazes comuns tinha degringolado para a hostilidade aberta. Os guardas abusaram de torturas, humilhações e atos de crueldade gratuita. Já os prisioneiros sentiam-se impotentes, deprimidos e se tornaram dissimulados e amargos.

Ao fim do experimento, havia desaparecido qualquer sinal de empatia entre um lado e outro. Um guarda resumiu como uns viam os outros: "esqueci que os prisioneiros eram gente". Esse fenômeno é conhecido pelos psicólogos como "desumanização".

Segundo Zimbardo, a desumanização desliga nosso senso moral. Em seu livro O Efeito Lúcifer, ele explica que, quando isso acontece, pessoas comuns tornam-se capazes de cometer atrocidades.

Para que a desumanização ocorra, é importante apagar a individualidade de quem está do outro lado. É o que revelou um outro experimento clássico, realizado em 1963 por Stanley Milgram, na Universidade Yale. Nesse estudo, os sujeitos de pesquisa tinham a tarefa de administrar choques elétricos em voluntários vistos através de um vidro (os voluntários na verdade eram atores fingindo estrebuchar). Em alguns dos testes, uma pessoa na sala comentava de passagem que os sujeitos tomando choques eram "legais". Em outros, o comentário era: "eles parecem animais". Embora os atores fingindo levar choque fossem sempre os mesmos, os sujeitos da pesquisa estavam muito mais dispostos a eletrocutar o outro quando ele era descrito como "animal".

É que o primeiro passo para a desumanização é rotular o sujeito do outro lado. A partir do momento em que acreditamos que o outro não é um ser humano, mas um animal tornamo-nos capazes de basicamente tudo. Um ambiente onde há uma grande desigualdade de poder - como uma prisão - é o lugar perfeito para que ocorra rotulagem e, portanto, desumanização. É exatamente o que existe hoje no Oriente Médio, onde, na prática, todo um povo (os palestinos) virou prisioneiro de um país (Israel).

O que as pesquisas mostram é que, nessas situações, não adianta procurar culpados. Não interessa saber quem começou a briga ou quem tem mais razão - o que interessa é o ambiente. Enquanto os dois povos se relacionarem como se estivessem em uma prisão, é inevitável que um não enxergue a humanidade do outro. Os mais poderosos tendem a perder a compaixão pelo outro lado, e acabam achando normal ser brutal. Os menos poderosos tendem a acreditar que seus rivais são todos maus e precisam ser destruídos. A única solução para uma situação assim é mudar o ambiente. Foi o que a Alemanha fez nas últimas três décadas, quando uma sociedade tolerante, igualitária e largamente desmilitarizada foi instituída.

Nós humanos fomos geneticamente programados para acreditar que há pessoas boas e más, e que um abismo separa uma das outras. A realidade é que o mal mora em cada um de nós. O primeiro passo para liberá-lo é acreditar que os inimigos são animais - ou algum outro rótulo, como "reacionários", "comunistas", "petralhas", "tucanalhas", "macacos", "argentinos", "feminazis", "falocratas", "talibikers", "burgueses", "judeus", "terroristas".

Isso dito, nosso viajante do tempo depois de ter presenciado a carnificina da Segunda Guerra Mundial, talvez se assustasse ao ver o tom desumanizador dos comentários no Facebook de 2014.



(texto publicado na revista Super Interessante nº 337 - setembro de 2014)









sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Carisma total - Tatiana Bonumá


Sim, todos podem desenvolver aquele  tipo de poder pessoal capaz de abrir portas e conquistar aliados para resolver tudo - de pequenos problemas a grandes metas. É observando suas atitudes que você vai gerar gentileza e desatar nós

Todo mundo tem uma amiga que, com um sorriso singelo ou um jeito especial de falar, consegue tudo: de admiradores por onde passa a um robusto desconto na mensalidade da escola dos filhos. Mas o que é isso? Dom divino? Código genético privilegiado? Anos de estudo sobre gestão de pessoas? Não, pura e simplesmente autoconhecimento. Ou seja, nada mágico, mas algo que pode ser aprendido e, diga-se de passagem, a melhor coisa que você faz por si mesma e pelos outros, na conquista de ótimos resultados na vida. "Primeiro, você precisa se olhar e se entender para depois conseguir fazer assim com o outro", ensina Deborah Epelman, psicóloga especializada em neurolinguística e coordenadora da Programação em Autoconhecimento e Comunicação (PAHC), de São Paulo. Especialistas de diferentes áreas são unânimes sobre isso. "Atualmente, tudo depende da habilidade para interagir com as pessoas. É isso que garante o alcance de qualquer resultado, do ambiente doméstico ao profissional", reforça Fatima Motta, socióloga e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo, de disciplinas como Fator Humano como Diferencial Competitivo. "Mas, para se dar bem com o outro, antes é preciso lidar bem consigo mesma, entender seus anseios mais profundos, desejos, necessidades, forças e fraquezas. Esse movimento interno permite perceber empaticamente quem está ao seu redor e compreender o contexto, o código, a ética das relações, construindo assim um vínculo positivo para todos." Fica claro por onde começar: olhando para o próprio umbigo com paciência, calma e persistência. Sabemos que esse é um processo longo que exige tempo e coragem. Então, enquanto você trilha esse caminho, listamos algumas atitudes para ajudá-la a ser mais carismática, causar boas impressões investindo na gentileza e aproximar-se dos seus objetivos.

Saber ouvir

Parar o que está fazendo, desligar-se dos próprios problemas e escutar o outro com real interesse e olhar focado em quem fala é uma atitude poderosa. A pessoa se sente importante, acolhida, e abre um espaço emocional enorme para quem consegue fazer isso. O resultado é o início de uma relação bem estruturada. "Ao ouvir com real atenção o que os outros falam, sentem ou querem, desenvolve-se a capacidade de relacionar-se de forma verdadeira, não necessariamente fazendo o que o amigo quer, mas entendendo aquela pessoa. Esse é o essencial, ressalta Fatima.

Acertar o tom do discurso

No dia a dia, temos que conversar com as mais diversas pessoas, do amigo adolescente do seu filho ao executivo no trabalho. Ao falar com cada um, é natural que você busque adequar o discurso. "Não se trata de usar gírias com o adolescente ou economês com o executivo. Mudanças bruscas ficam artificiais e pouco ajudam. O fundamental é ajustar o tom e utilizar diferentes exemplos para completar sua fala que combinem com o universo de quem a ouve", esclarece Rogério Martins, psicólogo especializado em motivação pessoal, de São Paulo.

Criar empatia

É preciso colocar-se no lugar do outro e entender profundamente a dor, ansiedade, aflição e alegria dele, com base nas crenças e nos valores de quem fala", explica Fatima. Fácil? Não, claro que não. O primeiro passo para conseguir é deixar de lado, por alguns minutos, o seu modelo de pensar e mergulhar na forma como o outro vê e compreende o mundo. Com inteligência, sensibilidade, boa vontade e esforço, é possível cumprir essa etapa.

Acionar a sensibilidade

Quer que o outro realmente a escute ou torne-se mais sensível aos seus apelos? Então, primeiro você precisa perceber o que é relevante para ele, o que toca a pessoa com a qual você fala. Entendida essa etapa, você poderá ajustar seu comportamento e seu discurso aos valores do outro sem perder sua identidade. "Isso supõe observar e entender o interlocutor, com seus defeitos e qualidades. É algo complexo, e portanto quem consegue se destaca", comenta Rogério Martins.

Acolher-se para equilibrar-se

Todos nós temos nossos dias de irritação, de hipersensibilidade ou de angústia e preocupação. Nada errado. O problema é se você não conseguiu filtrar, dosar e se acalmar e acabar jogando sobre o outro toda essa confusão emocional. "Quando uma pessoa cuida das suas emoções e as equilibra, tende a cultivar o bom humor e desenvolve um olhar compreensivo, o que facilita o relacionamento e o poder de influência sobre amigos, familiares e colegas profissionais", diz Fatima Motta.

Ser coerente

Eis uma qualidade admirada e reconhecida por todos no campo pessoal ou profissional. Seus valores e suas crenças devem ser os guias para suas atitudes, discurso e comportamento. Sim, flexibilizar, ajustar as ações e falas para ser compreendida pelo outro é importante, mas sem perder o foco em quem você é e no que você acredita. Isso ajuda, inclusive, os outros a se relacionarem com você de maneira saudável e respeitosa. "Pessoas coerentes conquistam credibilidade e admiração no meio em que vivem", destaca Rogério.

Envolver-se com causas

Pessoas carismáticas normalmente se engajam em algo maior. Pode ser o problema de uma pessoa, de uma cidade, de um país ou até mesmo do planeta. Isso, quando feito com sinceridade, traz um retorno muito bom. "Faz com que os outros vejam essa pessoa como alguém comprometido, solidário, que se importa com algo ou alguém com afinco, o que é muito positivo", acrescenta Rogério.

Manter o brilho no olho

Procurar motivos para amar a vida, gostar de si mesma e manter uma postura positiva perante os desafios é uma forma de inspirar-se para o dia a dia, o que traz um magnetismo singular. "Encantar-se com o que vive traz força pessoal. E todos gostam de ficar ao lado de pessoas assim, que geralmente são assim porque acreditam na própria força e na beleza que há em tudo e em todos. Consequentemente, "o encantado" tem um brilho no olhar que atrai, fascina e contagia quem está por perto", finaliza Fatima Motta.




(texto publicado na revista Claudia nº 2 - ano 51 - fevereiro de 2012)















sábado, 28 de junho de 2014

Que fim levou? O diário de Anne Frank - Fred Linardi


Obra é considerada um dos mais importantes relatos da Segunda Guerra

Na manhã do dia 12 de junho de 1942, ao completar 13 anos, Annelise Marie Frank desceu as escadas de sua casa e desembrulhou os presentes. Entre eles, havia um diário. Nele, ela deixaria os escritos de seu cotidiano em Amsterdã, na Holanda, para onde se mudou com a família. Os Frank, judeus, haviam deixado a Alemanha natal em 1933, após a ascensão de Adolf Hitler. Em seus relatos, Anne contou como a vida da família mudou radicalmente com uma carta do partido nazista convocando Margot, sua irmã mais velha, de 16 anos, para trabalhar. Em 7 de julho de 1942, a família se viu obrigada a se mudar para um esconderijo, o "anexo secreto", no escritório dos holandeses Bep Voskuijil e Miep Gies, casal de amigos de Otto Frank, pai de Anne.

O anexo ficava atrás de uma prateleira móvel do escritório e serviria de cenário para a maioria dos relatos da jovem. Foi graças aos amigos que os Frank tiveram comida, roupa e notícias da guerra durante os dois anos de confinamento. Além de Anne e dos parentes dela, moravam no esconderijo outra família e um senhor - um total de oito judeus.

O último escrito de Anne data de 1º de agosto de 1944, três dias antes de a Gestapo, a polícia secreta de Hitler, invadir o esconderijo e enviar todos a campos de concentração. Anne foi levada com a família  Auschwitz, na Polônia, e depois, com Margot, ao campo de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde morreu de tifo em março de 1945.

Quando foi ao anexo recém-saqueado, Miep Gies guardou o diário, as fotos da família e outros escritos de Anne, espalhados pelo chão, para entregá-los à família depois da guerra. Em 1945, Otto retornou a Amsterdã e constatou ser o único sobrevivente. Ao ler o diário, ficou surpreso com a profundidade dele e decidiu editá-lo e prepará-lo para publicação, que aconteceu em 25 de junho de 1947. Até hoje, foram vendidas mais de 25 milhões de cópias em mais de 50 línguas.

Anne escreveu e reescreveu as páginas do que viria a ser o famoso livro, o que aumentou o volume de folhas soltas. O primeiro diário, no entanto, de capa xadrez vermelha e branca, é o mais conhecido. Ele e todo o material de Anne estão arquivados no Instituto Holandês de Documentação da Guerra, em Amsterdã, desde 1980, quando Otto Frank morreu. Outras páginas originais estão emprestadas á Casa de Anne Frank, museu situado no prédio do esconderijo, onde também há réplicas do diário.




(texto publicado na revista Aventuras na História nº 52 - dezembro de 2007)




sábado, 9 de novembro de 2013

Outras sátiras com cenas do filme "A queda"


Hitler não passou na MedUSP


Hitler irritado com as paródias que fazem dele


Hitler fala sobre Avatar

Nos bastidores da Bolha Imobiliária do Brasil (com cenas do filme "A queda")


Não é a primeira vez que usam cenas do filme "A queda" com o ótimo ator austríaco Bruno Ganz no papel de Hitler para fazer sátiras, porém de coisas muito sérias como neste caso em que o Führer discute com seus colaboradores sobre os efeitos da bolha imobiliária no Brasil.





Já postei outros 2 vídeos em que foram usadas as mesmas cenas:

Hitler e o gato de Schrodinger

Hitler projetor