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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O luto e o poder da vida - Cádio Siqueira (We Mystic)


Como podes encontrar vida num coração que foi destruído pela dor da morte? Como podes encontrar esperança se ela foi levada junto?

Que sentimento devastador este, que até hoje ninguém pode evitar ou amenizar?

Você sempre via esta dor nos outros, naqueles e nestes e agora se tornou um deles, sentindo talvez, a pior dor que existe, a dor da perda, a dor da morte. Quisera poder mudar o tempo, as coisas, como se pudesse tirar com as mãos, mas não posso fazer isso.

Ficamos blindados e inatingíveis, nenhuma palavra, nenhum abraço, nada pode consolar nossa alma, consolar nossa aflição. Há quem diz que se pudesse mudar de lugar com quem se foi, o faria imediatamente, mas nem isso pode mudar a situação.

Alguém me contou, que quando recebeu essa notícia, entrou num sonho, onde parecia estar flutuando, por que foi tirado sua metade, sentindo-se anestesiada, desmaiou. A dor foi insuportável e tirou-lhe as forças.

Cada coração tem sua reação e não se pode conter, mas acredite, o tempo é o maior aliado nesta situação. Um dia após o outro, semana após semana, mês após mês e como um rio congelado no início da primavera, as águas vão se movimentando.

A palavra-chave para a superação, que em alguns casos levam-se anos, se chama recomeçar. Você precisa recomeçar, precisa continuar vivendo e existem muitos fatores que comprovam isso, que afirmam que você está vivo. Você não morreu.

Na maioria dos casos, queremos morrer junto, mas a vida nos impede disso, e por mais que você queira isso, ela se torna mais poderosa. Não se pode enganar a vida, por onde você for ela vai estar, ela vai denunciar você, ela vai te fortalecer para se revoltar, para brigar, para chorar, ou seja, dizer que você está vivo.

Assim como a morte, nada e ninguém pode conter o poder da vida, que neste caso, está a seu favor, viva, você não morreu.

Viva porque te amam, viva porque querem te ver feliz, viva porque é tão lindo ver as crianças brincando, viva pelas ondas do mar, viva pelas flores, pela chuva, viva por seus filhos, viva por seus irmãos, ninguém quer mais nada de você, apenas que você viva.

A força da vida é bem maior do que a morte, e acredite, que você tem muitos motivos para viver e para recomeçar.

Então, viva e recomece!

sábado, 23 de julho de 2016

Como a vida muda com a morte dos pais... (O Segredo)


Depois da morte dos pais, a vida muda muito. Enfrentar a orfandade, inclusive para pessoas adultas, é uma experiência surpreendente. No fundo de todas as pessoas sempre continua vivendo aquela criança que pode correr para a mãe ou o pai para se sentir protegido. Mas quando eles vão embora, essa opção desaparece para sempre.

Você irá deixar de vê-los, não por uma semana, nem por um mês, e sim pelo resto da vida. Os pais foram as pessoas que nos trouxeram ao mundo e com quem você compartilhou o mais intimo e frágil. Já não estarão presentes aqueles seres pelos quais, em grande parte, chegamos a ser o que somos.

“Quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, este fica preso para sempre.”-Gabriel García Márquez-

A morte dos pais: entre falar dela e vivê-la, existe um grande abismo…

Nunca estamos plenamente preparados para enfrentar a morte, ainda mais quando se trata da morte dos pais. É uma grande adversidade que dificilmente pode ser superada totalmente. Normalmente, o máximo que se consegue é assumi-la e conviver com ela. Para superá-la, pelo menos em teoria, deveríamos entendê-la, mas a morte, no sentido estrito, é totalmente incompreensível. É um dos grandes mistérios da existência: talvez o maior.

Obviamente, a forma como assimilamos as perdas tem muito a ver com a forma como aconteceram.Uma morte das chamadas por “causas naturais” é dolorosa, mas um acidente ou um assassinato é muito mais. Se a morte tiver sido precedida por uma longa doença, a situação é muito diferente de quando acontece de forma súbita.

Também influencia o tempo entre a morte de um de outro: se houve pouco tempo, o luto será mais complexo. Se ao contrário, o lapso for mais extenso, certamente a pessoa estará um pouco melhor para aceitá-lo.

Não apenas é o corpo que se vai, e sim todo um universo. Um mundo feito de palavras, de carícias, de gestos. Inclusive, de repetidos conselhos que às vezes irritavam um pouco e de “manias” que nos faziam sorrir ou esfregar a cabeça porque os reconhecemos nelas. Agora começam a se fazer sentir ausentes de uma forma difícil de lidar.

A morte não avisa. Pode ser presumida, mas nunca anuncia exatamente quando irá chegar. Tudo se sintetiza em um instante e esse instante é categórico e determinante: irreversível. Tantas experiências vividas ao lado deles, boas e ruins, se estremecem de repente e ficam somente em lembranças. O ciclo se cumpriu e é hora de dizer adeus.
“O que está, sem estar”…

Em geral, pensamos que esse dia nunca chegará, até que chega e se faz real. Ficamos em estado de choque e vemos apenas uma caixão, com o corpo rígido e quieto, que não fala e não se move. Que está ali, sem estar ali…

Porque com a morte começam a ser compreendidos muitos aspectos da vida das pessoas falecidas. Aparece uma compreensão mais profunda. Talvez o fato de não ter as pessoas queridas presentes suscita em nós o entendimento sobre o porquê de muitas atitudes até então incompreensíveis,contraditórias ou mesmo repulsivas.

Por isso, a morte pode trazer consigo um sentimento de culpa frente a aquele que morreu. É preciso lutar contra esse sentimento, já que não acrescenta nada e afunda em mais tristeza, sem poder remediar nada. Para que se culpar se você não cometeu nenhum erro? Somos seres humanos e acompanhando essa despedida, precisa existir um perdão: do que se vai para com aquele que fica ou do que fica para com aquele que se vai.
Aproveite-os enquanto puder: não estarão aí para sempre…

Quando os pais morrem, independentemente da idade, as pessoas costumam experimentar um sentimento de abandono. É uma morte diferente das outras. Por sua vez, algumas pessoas se negam a dar a importância que o fato merece, como mecanismo de defesa, em forma de uma negação encoberta. Mas esses lutos não resolvidos retornam em forma de doença, de fadiga, de irritabilidade ou sintomas de depressão.

Os pais são o primeiro amor. Não importa quantos conflitos ou diferenças tenham existido com eles: são seres únicos e insubstituíveis no mundo emocional. Mesmo sendo autônomos e independentes, mesmo que o nosso relacionamento com eles tenha sido tortuoso. Quando já não estão, passa a existir uma sensação de “nunca mais” para uma forma de proteção e de apoio que, de uma forma ou de outra, sempre esteve ali.

domingo, 26 de junho de 2016

É necessário viver o luto para se recuperar da perda de um amor - Maria Vilela Nakasu

Separar-se de alguém que se ama é uma das situações mais doloridas na vida humana. Fica o tormento dos bons momentos vividos juntos, ficam a saudade e um "vazio" difícil de preencher. A recuperação sempre é demorada, claro, e alguns nem a conseguem. A única alternativa é viver o luto, que em geral torna a dor suportável. Também se pode buscar o auxílio de um especialista.

Toda separação dói, seja pelo fim da paquera, da "ficada" ou do namoro, seja pelo divórcio ou por falecimento. Em sua música Pedaço de Mim, o cantor e compositor carioca Chico Buarque (71) fala da dor da perda e da saudade. Ele diz: "A saudade é o pior tormento,/é pior do que o esquecimento,/é pior do que se entrevar". Tormento doloroso esse afeto que arrebata a todos que já  tiveram relações importantes. Desejar voltar no tempo, desejar a pessoa de volta, desejar sentir aquela alegria que ficou marcada no passado. Sim, como diz Chico, "(...) a saudade é o revés de um parto,/a saudade é arrumar o quarto./do filho que já morreu (...)"

Sentir saudade dói. As lembranças são vivas, têm cheiro, cor, emoção, mas a pessoa não está mais lá. Na vida real, não está mais, porém no plano do afeto aparece nas paisagens, em cada esquina, em cada imagem vista.

Por que dói a saudade? Como lidar com essa dor sem se despedaçar? Como habitar essa emoção sem se desintegrar ou se desestruturar? Ora, não há receita. Todo processo de luto implica dor, e além disso, um investimento libidinal maciço sobre o objeto perdido. Isso significa que "tudo" faz lembrar a pessoa. Na memória, ela está viva, mas na realidade não. Os sentimentos vividos internamente nada têm a ver com o que a realidade mostra. Nesse caso, a passagem do tempo é relativa.

Há pessoas que levam só um mês para se refazer, mas outas precisam de toda a vida para esquecer o amor que perderam, ou nunca esquecem. O tempo cumpre muitas vezes a função de amenizar a dor da perda, a dor bruta, incomensurável. Mas, se o processo de luto não ocorrer por dentro, não é possível superá-la, não é possível transformar a dor insuportável em suportável. O que isso significa? Bem, significa dizer que a exteriorização da emoção é crucial para o alívio da dor. Conversar sobre a pessoa, chorar, orar, escrever sobre o sentimento, desenhar. Muitas vezes um livro que se lê, um filme que se vê ativa o processo de luto também. Sim, em outros termos, é importante "colocar para fora" o sentimento, não guardar. Ainda em Pedaço de Mim "(...) A saudade dói latejada,/é assim como uma fisgada,/no membro que já perdi (...)". A dor pulsa, incomoda. Há pessoas que insistem em olhar as fotos, ler as cartas. Há outras que não querem ouvir o nome do "falecido" ou da "falecida". Há ainda aquelas que logo põem outra no lugar. Um senhor de 74 anos perdeu a esposa, com quem ficou casado por 30 anos, e um ano depois namorava outra mulher. Todos se indignaram. Mas não se pode julgar, uma vez que cada um lida com suas perdas à sua maneira.

O luto não tem tempo certo. A Psicoterapia também pode ajudar nesse processo. Muitas vezes a pessoa precisa até recorrer a um psiquiatra, tomar antidepressivo por um tempo. Quanto estrago faz uma separação na vida de alguém! Sim, o rompimento pode traumatizar a ponto de a pessoa não querer mais se relacionar com ninguém. Por isso, diante de uma perda é necessário atenção com a própria saúde mental, observar-se para ver se não há uma depressão no processo de luto. Mas se quer viver não é possível se furtar ou correr o risco de viver a dor da perda. Como diz o escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), "Viver é perigoso".


(texto publicado na revista Caras edição 1165 - ano 23 - nº 10 - 4 de março de 2016)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

9 coisas que você nunca deve dizer para quem perdeu alguém - Cynthia de Almeida (Vamos falar sobre o luto?)


Você convive com alguém que perdeu uma pessoa querida e não sabe o que fazer? Especialistas em luto falam sobre o que NÃO dizer e dão dicas preciosas para fugir das frases protocolares e trazer acolhimento

Quando alguém morre, temos todos uma noção clara do que fazer: vamos ao funeral, enviamos flores ou cartões de pêsames, fazemos visitas aos familiares. Passado o primeiro momento, o roteiro se torna menos claro e então passamos a improvisar, nem sempre com o resultado que imaginamos. Nesta matéria publicada pela revista americana Real Simple, especialistas em luto dão 9 dicas sobre o que NÃO dizer (e as sugestões do que seria melhor em seu lugar ) para quem perdeu uma pessoa querida.

1- O que NÃO dizer: “Como você está?”

Quando você diz essa frase protocolar é como se você estivesse dizendo: “Por favor, diga que está bem, porque vou me sentir muito desconfortável se você disser que não está”. Por isso, diante dessa pergunta, a pessoa provavelmente responderá “estou bem” ou “estou ok” ao invés de realmente expressar os seus sentimentos.

Melhor dizer: “Deve ser realmente difícil para você neste momento”. Assim, você reconhece que a pessoa está passando por um momento doloroso. E não subestima seus sentimentos, dando a ela a chance de sofrer seu luto sem cobranças.

2- O que NÃO dizer: ‘Ele/ela está em um lugar melhor”- Neste momento tão perturbador, é melhor tomar cuidado antes de assumir que o enlutado tem ou não algum tipo de crença pós-morte. Esta frase pode desvalorizar a dor que a pessoa está sentindo. O ente querido se foi e não está mais ao seu lado: é isso que é o mais difícil sobre as perdas.

Melhor dizer: “Sinto pelo seu sofrimento”. Quem perdeu alguém que estava doente pode gostar que seu ente querido não sofra mais, mas isso não torna sua dor menor. Foque em quem está sofrendo naquele momento.

3- O que NÃO dizer: “Diga se há algo que eu possa fazer por você”. Receber muitas ofertas de ajuda pode ser opressor. E coloca sobre o enlutado a responsabilidade de escolher o que pedir a quem.

Melhor dizer: “Eu vou ajudar fazendo suas compras de supermercado, levando as crianças para a escola, trazendo o jantar hoje.. As pessoas tendem a aceitar ajudas específicas mais facilmente do que ofertas genéricas.

4- O que NÃO dizer : “Você ainda pode…” Se alguém perdeu um parceiro ou um filho, dizer que você ainda pode casar outra vez ou ter outro filho pretende fazer com que a pessoa veja algum horizonte melhor mais adiante. No entanto, o que a pessoa entende com essa frase é que a pessoa que se foi é substituível e isso toca em um dos seus maiores medos: o de pensar que um dia aquela pessoa amada que se foi não terá a mesma importância.

Melhor dizer: “Fale sobre o seu amor”. Ao invés de focar no futuro, permita que a pessoa compartilhe memórias do ente amado e seja um ouvinte ativo.

5- O que NÃO dizer: “Eu sei o que você está sentindo”. Embora todos nós em algum momento tenhamos uma experiência de perda, ela é sempre absolutamente pessoal. Você nunca sabe o que a pessoa enlutada está sentindo e sugerir isso pode fazê-la sentir que sua dor é subestimada.

Melhor dizer: “Eu posso imaginar o que você está sentindo”. É melhor dar ao enlutado a chance de dizer como ela de fato se sente do que falar por ela.

6- O que NÃO dizer: “Isto acontece com todos nós em algum momento”. Sim, a morte é parte da vida e vai nos atingir em determinado ponto. Mas essa frase apenas minimiza a dor da perda que a pessoa está sofrendo naquela hora e não ajuda em nada.

Melhor dizer: “Você deve sentir muita falta dele”. A perda de uma pessoa é a fonte da dor. Foque nela, ao invés de varrê-la para o lado como se ela fosse apenas um aspecto não negociável da nossa existência.

7- O que NÃO dizer: “Ele (ou ela) ia preferir que fosse assim”. A não ser que a pessoa que partiu tenha deixado instruções claras sobre como desejava o seu funeral, não há como saber as suas preferências. Falar pelo falecido pode gerar discussões desnecessárias entre amigos e familiares que tem diferentes pontos de vista sobre o que a pessoa que partiu realmente queria.

Melhor dizer: “Eu gostaria de homenageá-la assim”. Use suas próprias memórias sobre a pessoa e prefira falar do relacionamento entre vocês do que falar como a pessoa era de forma absoluta.

8- O que NÃO dizer: “Você está lidando com isto melhor do que eu esperava”. O enlutado pode estar apenas vestindo “uma cara feliz” e sua afirmação pode reforçar a ideia de que ele ou ela não deveriam estar sofrendo tanto pela perda da pessoa amada.

Melhor dizer: “Você não deve estar bem, mas isso é OK” De à pessoa a liberdade de se sentir como quiser – mesmo se já houver passado algum tempo desde a morte da pessoa amada, é reconfortante reconhecer que cada momento sem eles pode ser difícil.

9- O que NUNCA dizer: Nada

Muitas pessoas não dizem nada ao enlutado e nunca mencionam o nome da pessoa que morreu porque se sentem desconfortáveis.

Muito Melhor: “Lembra quando?” Uma das coisas que mais ajudam uma pessoa enlutada é dividir a memória de seu ente querido, mesmo quando você não faz parte de seu círculo mais íntimo. Ao falar algo que vivenciou com aquele que partiu você dá ao enlutado uma perspectiva sobre seu amado que ele não poderia ter de outra maneira. E isso é muito bom.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os benefícios da crise


Pesquisas recentes sobre traumas têm incluído um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, principalmente no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.

Alguns dos sintomas e sinais de uma crise e de uma trauma são semelhantes - por exemplo, tristeza, isolamento, confusão, oscilações de humor podem estar presentes nos dois casos. No entanto, a direção que uma ou outra situação toma não o é. Por isso, é de grande importância distinguir o enfrentamento de uma crise, em que se mantém viva a possibilidade de superação, transformação e crescimento, de um processo de traumatização, em que, ao contrário, a pessoa passa a viver a paralisia e o congelamento internos que a imobilizam em torno do evento que não foi possível elaborar.

Elisabeth Kübler-Ross (1983) trabalhou, por longos anos, com pacientes terminais e distinguiu cinco diferentes etapas possíveis de serem atravessadas no processo de enfrentamento da proximidade da morte, bem como do luto enfrentado pelas pessoas que perdem entes queridos. Se tonarmos o luto como a elaboração de perdas, quaisquer que sejam elas, podemos reconhecer essas etapas na base de várias diferentes crises a que estamos sujeitos em nossa vida humana.

De forma bastante resumida, a primeira fase é a da não aceitação e do isolamento. Em geral, num primeiro momento as pessoas ficam entorpecidas pelo choque ou pela dor. Podem surgir atitudes como negação e recusa de enfrentar a situação, que funcionam como um mecanismo de defesa contra aquilo que ainda não é possível suportar. Numa segunda fase, podem surgir raiva e tristeza pela perda sofrida. Nessa etapa, é comum que se manifestem sentimentos de vazio, irritabilidade e agressividade, questionamentos sobre o sentido da vida, desapontamento, preocupação, assim como a busca por culpados e perguntas do tipo: "Por que ele (a) se foi?". A raiva, nessa fase, é um sentimento natural de externalização da revolta e uma reação contra o sofrimento impingido. A terceira etapa do processo de luto é designada como fase da negociação ou barganha. Por vezes, está ligada a fortes sentimentos de culpa ou ao arrependimento por ações feitas, bem como por aquilo que não foi realizado. É possível que surjam fantasias, especialmente nas crianças, de que essas ações ou omissões foram determinantes para o que ocorreu - "minha avó se foi porque eu era malcriado com ela", "se eu tivesse sido mais amoroso, minha esposa não teria adoecido". Se a pessoa está doente e vê a proximidade da própria morte tenta fazer promessas ou negociações - com os profissionais que cuidam dela e até com Deus - com o objetivo de manter as coisas como eram até então.

Um possível quarto estágio do processo de luto é a depressão. Ela tanto pode ser reativa como preparatória. A depressão reativa ocorre quando surgem outras perdas devido à morte, por exemplo, prejuízos financeiros, mudanças de status e de padrão de vida, bem como a perda de papéis no âmbito do grupo familiar. Já a depressão preparatória é o momento em que a aceitação está mais próxima, porque há processos retrospectivos, de balanço e de reflexão que, embora possam produzir abatimento e tristeza, já significam a elaboração do ocorrido. O último estágio é, por fim, o da aceitação. Quando se chega a ele, surge uma maior serenidade frente à morte, à perda e à separação. É o momento em que é possível expressar de forma mais livre os sentimentos, emoções, frustrações e dificuldades enfrentados e com isso de fato elaborá-los. Esses estágios não são regulares e podem ser vividos ou não de acordo,  mais uma vez, com as características pessoais de cada indivíduo.

Todas essas etapas precisam ser adequadamente atravessadas para que uma pessoa supere a vivência difícil e a vida para prosseguir. Os recursos e suportes necessários para as diferentes etapas devem ser propiciados, a fim de facilitar a evolução do processo. Às vezes, são coisas bem simples, como haver liberdade de expressar a raiva e todos os sentimentos experienciados, por mais difíceis e negativos que eles possam parecer. Também a presença de uma rede de apoio, como familiares, amigos e profissionais bem preparados vinculados à pessoa ou à situação enfrentada, é de grande e fundamental importância.

Sintomas

Caso as etapas de elaboração de uma perda ou da confrontação com uma realidade difícil não transcorram de tal forma satisfatória, um trauma pode se instalar. BerndRuf (2014) aponta para quatro etapas de desenvolvimento e efetiva instalação de um trauma. Ele diz que depois de um evento potencialmente estressor e que representa uma sobrecarga para o indivíduo, segue-se uma fase de choque com duração de um a dois dias. Aí podem se manifestar sintomas diversos, como uma experiência distorcida do tempo e do espaço, distúrbios perceptivos e diversas reações psicossomáticas (alergias, cefaleias, problemas digestivos, queda da imunidade etc.). Amnésias ou, ao contrário flashbacks recorrentes podem ocorrer. Atendi uma senhora que perdera o marido repentinamente por conta de um câncer agressivo que já havia evoluído muito quando foi descoberto. O único filho do casal, que tinha então 12 anos de idade e era extremamente apegado ao pai, reagiu aos poucos à perda de forma positiva, no entanto não se lembra de absolutamente nada do período que compreende a internação do pai, sua morte dez dias depois e as duas semanas seguintes. Aparentemente, ele elaborou bem o ocorrido depois disso, mas todas as lembranças desse período se perderam, sendo parcialmente reconstituídas em função dos relatos das pessoas próximas.

As oito semanas seguintes (aproximadamente) costumam ser decisivas para um bom encaminhamento do processo de elaboração. Começa a haver uma confrontação com a realidade e uma tentativa de integrar o que ocorreu. No entanto, sintomas relativos ao choque podem continuar se manifestando, embora de forma cada vez mais intensa. São eles: paralisias ou hiperatividade, depressão ou agressividade, medos e preocupações, pesadelos ou sonhos com o que aconteceu, problemas de concentração, isolamento, distúrbios do sono e da alimentação. É comum que as pessoas passem a evitar tudo o que pode lembrar o evento impactante, sejam locais, objetos, outras pessoas ou mesmo pensamentos e sentimentos. Para muitos, a experiência é de um certo congelamento interno, um amortecimento, e de vazio. Esses sintomas podem desparecer paulatinamente e se perder no período de quatro a oito semanas. Caso persistam além desse tempo, é possível que a pessoa desenvolva um distúrbio traumático. Nessas situações, cada sintoma pode se transformar em uma doença independente. O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é uma das consequências mais comuns dos traumas e precisa de tratamento.

Mais a longo prazo ainda, no caso de persistirem e se repetirem as experiências traumáticas ou mesmo os sintomas desencadeados pelo evento estressor, indicando que a experiência não pôde ser transformada, a estrutura da personalidade como um  todo fica ameaçada e é possível que sofra mudanças profundas e permanentes.

Vítimas que chegam a esse estágio crônico podem se sentir sob constante ameaça e tensão. Por causa disso, é comum que apresentem atitudes como hostilidade, agressividade, conformismo extremo, perda de sentido da vida, fracasso profissional ou nos relacionamentos, isolamento social e quadros depressivos. Outra consequência possível é um distorção nos valores e traços de caráter. É frequente que vítimas se tornem algozes. De forma incontrolável essas pessoas repetem o que ocorreu, seja sofrendo novamente a mesma situação seja infligindo sofrimento aos outros.

Luto ou reação traumática?

Para que um evento traumático seja superado, deveria se seguir a fase inicial de choque, em que se fazem presentes um certo atordoamento e atitudes caóticas, uma fase de reação, na qual a pessoa já consegue confrontar com a realidade, na tentativa de integrar o que ocorreu. Então, tem lugar uma fase de adaptação, em que se procuram compreender e esclarecer o que foi vivido, o que, se for um processo bem-sucedido, implica na dissolução do trauma. Todos esses estágios encaminham-se para uma fase de reorientação, quando a vida é reorganizada e surgem novas potencialidades e possibilidades. Esses estágios são semelhantes à fase de elaboração do luto.

Apesar da grande semelhança entre os processos de luto e de trauma, há também diferenças marcantes. Segundo Levine e Kline (2010), ao passo que o luto nem sempre está relacionado a um trauma, todo trauma compreende um processo de luto.

Vejamos algumas diferenças marcantes entre um e outro. Enquanto que na reação de luto se manifestam sentimentos de tristeza sem que estes agridam a autoimagem e a autoconfiança da pessoa, a reação traumática conduz a sentimentos de impotência e perda de segurança e confiança no mundo e em si mesmo. Ao passo que o luto leva à tristeza, mas essa pode se expressar, é comum que no trauma as pessoas sofram em silêncio.

Os sonhos podem ser observados na fase que se segue a um evento difícil e trazem informações importantes sobre o processamento do ocorrido. Enquanto que nos casos de luto é comum que principalmente as crianças sonhem com os falecidos, nos sonhos que emergem em meio a processos de traumatização o que é frequente é que elas sonhem consigo mesmas como sendo as possíveis vítimas dos acontecimentos.

Finalmente, um importante traço a ser observado é que os sinais e sintomas que se apresentam ao longo de uma vivência de luto vão sendo amenizados e desaparecem com o tempo, ao contrário do que ocorre nas vivências traumáticas que não são elaboradas, nas quais, com o passar do tempo, se apresentam um aumento e a intensificação dos sintomas provenientes do choque.

Situações limitadoras

Ora, não são apenas situações extremas, de grave comprometimento psíquico, que afetam a vida das pessoas, limitando suas possibilidades e experiências. Muitos pacientes chegam ao consultório se perguntando qual é o seu trama, o que teve um poder tão forte de paralisar áreas inteiras da sua vida. Suas histórias de vida carregam, sem dúvida alguma, dificuldades, mas algumas áreas funcionam bem, enquanto outras estão comprometidas - por exemplo, é possível que alguém se realize profissionalmente, mas perceba uma enorme desordem em sua vida afetiva; ou pode ser que embora com uma vida familiar razoavelmente equilibrada, se desespere em não conseguir se expressar em outras áreas, como do trabalho, da sexualidade ou socialmente.

Muitas vezes essas pessoas já associam certos sofrimentos vividos aos bloqueios que experimentam no momento presente e vêm em busca de se certificar disso, entender melhor seus impedimentos e desatar nós, de modo a poderem viver de forma mais plena.

De fato, não são apenas traumas que paralisam ou tolhem nossas vidas. Em outros níveis mais brandos, as rupturas ocorridas no aparato psíquico que não tiverem sido completamente superadas podem continuar manifestando seus efeitos, principalmente sob a forma de bloqueios de energia psíquica e da criatividade, para viver de forma satisfatória e que corresponda às aspirações internas pessoais. O caminho para essa realização pessoal encontra-se repleto de obstáculos.

Tal como na teoria psicanalítica, Jung, discípulo de Freud, que depois se afastou dele, criando sua própria teoria, a Psicologia Analítica, estudou com especial interesse as situações traumáticas, chegando, então, a um conceito que hoje já faz parte de nosso vocabulário, a noção de complexos. Segundo Jung, os complexos são grupos de conteúdos psíquicos que se separam da consciência devido a situações traumáticas ou não elaboradas. Uma vez que a consciência não consegue lidar com tais conteúdos, precisa retirá-los do seu campo de ação.

Segundo Stein (2006), Jung descreve a estrutura do complexo como sendo composta por um núcleo formado por esses conteúdos que foram retirados da consciência - imagens associadas ao evento traumático e memórias congeladas e reprimidas -ao qual vão, então, se associando novas experiências de teor emocional idêntico. Por exemplo, à emoção decorrente da experiência de abandono paterno é possível que uma pessoa vá associando ao longo da vida outras experiências - e suas respectivas imagens e emoções - de abandono ou ruptura com outras figuras de autoridade e apego, sejam elas um chefe, o marido, amigos e assim por diante.

O efeito disso é que os complexos vão se fortalecendo e passam a restringir cada vez mais a liberdade de atuação da pessoa, roubando sua possibilidade de escolha e de decisão. Os conteúdos encapsulados e apartados da consciência irão determinar que a pessoa não disponha de seus recursos internos para lidar com determinadas  situações. A simples suposição de um abandono, por exemplo, pode disparar certas atitudes defensivas, que além de estarem repletas de ansiedade, medos e sofrimento, não são eficazes e talvez até desencadeiem de fato aquilo quer mais se deseja evitar.

Tal como os sintomas, os complexos são indicativos de bloqueios no curso de energia psíquica, são sinais de alarme de que algo essencial não está indo bem no campo da psique. Suspender o bloqueio e ampliar a consciência é de fundamental importância para lidar com as restrições e a falta de liberdade que sintomas e complexos impõem.

Amadurecimento

Se existe um ponto de confluência para todas essas diferentes situações é o potencial que  elas carregam de, uma vez atravessadas, representarem uma transformação indescritível na vida, um divisor de águas que representa um enorme crescimento, um ponto a partir do qual a vida realmente ganha sentido.

Retomando a analogia inicial da psique com o corpo físico, podemos dizer que assim como o organismo pode sair fortalecido de uma doença ou trauma que superou, também podemos amadurecer internamente e nos fortalecer ao atravessarmos uma crise. Muitas pessoas relatam mudanças realmente significativas em suas vidas depois que superaram experiências difíceis ou traumáticas. É possível que todos nós saibamos por experiência própria que crises existenciais e golpes do destino, quando elaborados positivamente, nos ajudam a crescer.

Por muito tempo, as pesquisas sobre traumas concentraram-se quase que exclusivamente nos efeitos psicopatológicos de tais experiências. Mais recentemente, no entanto, tem-se incluído nesses estados um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.

O que se tem verificado nos estudos científicos recentes é que o risco de distúrbios psíquicos guarda uma relação equitativa com a configuração de oportunidades e chances de desenvolvimento na vida das pessoas atingidas por situações indesejadas e impactantes. Isso significa que um choque ou trauma também pode mudar a vida positivamente.

Segundo Viktor Frankl (1998), o fator essencialmente impulsionador para o ser humano é a busca de sentido para a vida. No momento em que uma pessoa se pergunta sobre o sentido da vida, ela expressa o que há de mais essencialmente humano em si mesma.

Semelhante à noção de individuação de Jung, essa busca pelo sentido da vida diz respeito à tentativa de encontrar aquilo que exprime a própria unicidade e integralidade, a realização como indivíduo singular, capaz de viver da forma mais plena e autêntica possível.

Ora, um dos fatores essenciais da resiliência é justamente a possibilidade de constituir novos sentidos. É apenas quando a pessoa integra o ocorrido, simbolizando e interpretando o que ocorreu numa perspectiva de crescimento pessoal, é que ela volta a encontrar motivação para seguir vivendo.

Sendo assim, entendemos que tudo que propiciar e favorecer a retomada do sentido, incluindo aí uma revisão total de valores e a construção de novos significados e de entendimentos da vida, propiciará a retomada do equilíbrio psíquico e poderá significar até mesmo uma condição de mais saúde mental. Como muitas pessoas acabam descobrindo, a desconstrução e reconstrução desses sentidos podem ser fatores essenciais para a descoberta de uma real direção para a vida pessoal. Nesse caso, os perigos de ruptura interna e os sofrimentos enfrentados passam a representar uma verdadeira possibilidade de considerar a própria experiência de forma profunda e reformulá-la.

Crises e traumas, quando enfim elaborados e integrados, são uma oportunidade única na vida - difíceis, mas com um potencial incomparável de crescimento e evolução.

Consequências da superação

O amadurecimento produzido pela superação de situações reflete-se em novas possibilidades de via, que implicam num relacionamento diferente consigo próprio, com as outras pessoas, com o mundo e com os próprios fatos e condições de vida. Os efeitos biográficos positivos de psicotraumas vencidos estão relacionados a pelo menos quatgro dimensões da vida:

Relacionamentos humanos - após uma bem-sucedida superação de estresse intenso, com frequência, nota-se maior sensibilidade no trato com os outros e um aprofundamento nas relações com a família e com os amigos, valorizando-se essas relações e havendo uma maior abertura nas formas de comunicação e de vínculo.

Perspectivas de vida - após a superação positiva de experiências de vida difíceis, também pode haver uma ampliação da perspectiva de vida, com a descoberta de novos interesses e a elaboração de novas metas e planos. A própria vida é reconfigurada, incluindo-se aí valores e projetos mais significativos, positivos e de crescimento. Isso pode envolver a abertura, questionamentos e interesse mais profundo a respeito de temas existenciais, incluindo ou não interesses relativos à espiritualidade e à religiosidade.

Amadurecimento da personalidade - em geral, como resultado, da superação positiva de uma situação traumática, segue-se também um aumento de fatores pessoais positivos, como autoconfiança, autoconhecimento, força e segurança emocional, ou seja, um amadurecimento da personalidade como um todo. Lidar de forma bem-sucedida com uma situação difícil constrói uma sensação de segurança para enfrentar desafios futuros. A superação dá confiança de que será possível enfrentar outras situações da maneira igualmente positiva e construtiva.

Valorização da própria vida - é comum que depois da superação de uma crise ou situação traumática, as pessoas estabeleçam com mais facilidade aquilo que é prioritário para elas e diferenciem o que é importante daquilo que não tem importância. Com frequência se ouve nos relatos dessas pessoas que elas começaram a viver de forma mais consciente e a valorizar mais a vida, dando mais importância àquilo que antes não reconheciam como valioso em suas vidas. Esse redimensionamento dos fatos e circunstâncias é um dos efeitos mais significativos do enfrentamento de uma condição de impacto inicialmente negativo.



(texto publicado na revista Psique nº 113 - ano IX)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O clube de que ninguém quer ser sócio - Cynthia de Almeida (Vamos falar sobre o luto?)


Em um post no blog coletivo Medium, a novaiorquina Janine Gianfredi escreve sobre seu ingresso no clube dos que perderam os pais, para o qual ninguém quer entrar , mas cujos membros se apóiam e acolhem com carinho e sabedoria os “novos sócios”. Baseada em sua experiência, dá dicas sobre como agir para ajudar quem está passando por esse momento difícil de perda de um dos pais

“Durante o velório do meu pai, no ano passado, uma amiga de longa data me puxou de lado. Ela havia perdido seu pai dez anos antes, aos 20, um momento em que amigos não estão em forma para ajudar com coisas sérias. Eu ainda penso se a ajudei de alguma forma. Ela me deu um abraço e disse: “Bem-vinda ao Clube dos Pais Mortos. Ninguém quer ser um membro, mas ao menos temos uns aos outros”.

Divida suas lembranças : Sua experiência com seu pai ou sua mãe era única, com muitos momentos vividos na privacidade. Nos dias que se seguiram à morte do meu pai, tantas pessoas que o amavam mandaram emails e textos com pequenas histórias e pensamentos sobre ele. “Seu doce favorito era sfogliatella; todos ao seu lado se sentiam especiais e amados; ele nunca ficava bravo. Pequenos mistérios da vida do meu pai foram revelados nessas notas e eu as consumi avidamente.

Faça contato: Mande mensagens de texto, telefone, ponha emojis de coraçãozinho no facebook. Faz muita diferença. E por favor, não tente comparar a perda do amigo à alguma experiência própria de perda: “quando minha avó faleceu…” Não é o seu momento.

Escreva cartões: Eu recebi um cartão manuscrito de cada membro do Clube dos Pais Mortos que eu conhecia. De agora em diante, eu nunca vou pular este passo tão simples de encontrar tempo para escrever meu amor e pensamentos em um pedaço de papel.

Mande comida: Um amigo querido do meu pai encomendou um bufet de seu restaurante favorito para oferecer depois do funeral. Outro mandou uma cesta de “confort food”, no meio do dia. Outro trouxe pacotes de bagels. Nos dias em que ninguém mandou comida, minha mãe e eu passamos a donuts e Chadonnay.

Nao se desculpe: Alguns amigos mandaram cartões e flores algumas semanas depois do falecimento do meu pai e eles sempre começavam com uma desculpa. “”Sinto muito por estar atrasado”. Nós não fazemos um inventário de quem mandou o que, quando. As flores que chegam meses depois me lembram do amor dele, a coisa mais importante que os membros do Clube dos Pais Mortos tenta preservar.

Seja compreensivo: Novos membros do Clube dos Pais Mortos podem ser péssimos amigos durante um tempo. Alguns podem ser pouco aplicados no trabalho, outros se lançam totalmente a ele. Alguns querem festejar, muitos querem se enfiar em um buraco. Ele podem mudar, às vezes para sempre. Perdoe-os, e fiquem firmes do seu lado.

Lembre-se : Alguns meses depois, uma amiga me levou para almoçar e perguntou: “Como você está agora? Eu sei que não passa fácil”. Ela me pegou com a guarda baixa e percebi que eu não estava indo tão bem. Para mim, um ano depois parecia muito pior do que um mês depois. Por isso, significa muito para mim quando as pessoas me lembram de lembrar dele.

sábado, 4 de julho de 2015

Antes que a morte te leve, mãe - Leticia Flores Montalvão (O Segredo)

Uma carta aberta às mães que viveram pelos filhos e agora buscam um novo sentido à vida. Um desabafo aos filhos cujo maior desejo é vê-las felizes.

Mãe, a vida é linda. Do jeitinho que você disse que ela seria.

A gente nunca sabe qual vai ser o último abraço, a última briga, o último "eu te amo". Por isso, no dia a dia, engolimos o nosso amor em nome do orgulho, da impaciência, daquela famosa "correria". A gente vive correndo atrás sabe-se lá do quê para, no final das contas, investir nosso tempo escrevendo todos os arrependimentos do nosso epitáfio.

Tá tudo ao contrário, né mãe? Podíamos ter amado mais, chorado mais, visto o sol se por. Podíamos ter viajado juntas, feito mais compras, trocado fofocas, cozinhado o almoço de domingo. Você podia ter me dado mais tapas na bunda e eu podia ter sido mais agradecida às suas noites em claro de preocupação enquanto eu me divertia com os amigos. Nós podíamos ter calado tantas ofensas, evitado tantas brigas e retardado o afastamento.

Nós podíamos ter sido a dupla dinâmica dos filmes, dos romances e sido aquelas melhores amigas que algumas filhas postam nas redes sociais. Nós podíamos, mas nós não fomos. Nós seríamos, mas nós não somos. Você e eu, mãe, somos tão diferentes de todas e tão diferentes entre nós que seriam precisos ainda menos dos meus 25 anos para percebermos que os nossos gênios não batem, nossas personalidades não se encaixam e alguns dos nossos valores se chocam.

Você, explosiva e desconfiada como uma boa escorpiana: eu, sentimental e boca suja como uma perfeita pisciana, falhamos na rotina de fazer dar certo a convivência que o destino nos impôs. Por outro lado, mãe, sabemos que a vida nos prega peças e, se não fomos capazes de nos "ensinar" aquilo que acreditávamos ser o certo, aprendemos com as nossas próprias diferenças a respeitar o nosso espaço, o nosso jeito, nossos altos e, sobretudo, os nossos baixos. Eu posso não ter me tornado a católica apostólica romana que você imaginou nem ter me casado virgem. Eu posso ter saído de casa, batido a porta, morrido por dentro e, depois, comprado flores para me redimir. Eu posso ter falado da boca para fora e depois escrito milhares de cartas para me desculpar. Eu posso ter errado e é fato: eu errei. Errei como filha, como amiga, como companheira. Mas mesmo que você não se faça perceber, foi com você que aprendi a me amar. Todos os dias, antes de dormir, ainda consigo sentir sua mão na minha cabeça, rezando baixinho aquela oração que eu tanto gostava "Será uma grande mulher, terá um futuro brilhante". O meu futuro chegou, mãe, e ele é brilhante - como você cantava nas suas orações diárias. Tornei-me mulher, uma grande mulher, não graças a suas palavras, mas sim devido aos exemplos que você me deu do que é ser uma puta mulher foda: como não admirar uma mulher que - criada para cuidar da casa e dos filhos - vê-se sozinha na luta para criar dois filhos, sem experiência, com um diploma indesejado nas mãos, o amargo da rejeição na boca e uma única motivação: dar de si o melhor às crias que, ingratas, quase nunca viam o seu real valor.

Sua história não é diferente da de muitas mulheres brasileiras, mãe, mas o modo como ela me tornou mulher é essencial para quem eu sou hoje: feliz, realizada e grata. Quantas foram as vezes que, mesmo machucada, eu te vi sorrir? Quantas foram as vezes que, mesmo cansada, eu acordei de manhã com você lavando o banheiro? E quantas foram as vezes que, mesmo sem criatividade, sem vontade e sem carinho, a comida estava prontinha e quentinha nas panelas, em cima do fogão?

Eu sei, mãe, eu não fui nem sou a melhor filha. Eu sei que falhei. Mas você, depois de vencer a maior luta da sua vida, parece que enfraqueceu. Sabe quando o super herói escolhe passar seus super poderes para o oprimido e acaba morrendo? Foi isso o que te aconteceu?

Mãe, eu preciso te dizer, antes que a morte te leve, que eu não quero mais te ver assim. Eu preciso contar que nossas brigas, nossas  ofensa e nossos desencontros foram esquecidos e que só restou o amor. Preciso gritar para o mundo o quão importante você ainda é para mim, mesmo que eu já não dependa inteiramente de você. Preciso falar que eu preciso, sim, do seu amor: aquele amor grato, sincero e até agressivo que você sempre esbravejou como um trovão para quem quisesse ouvir. "Eu faço o que for preciso pelas minhas crias, sim, e se for preciso faço de novo".

As crias cresceram, eu sei, mãe. Mas a luta... a luta não acabou. Não deixe que a morte te leve, não deixe que ela te sugue, não deixe que ela se instale enquanto seu coração ainda bater. Reabra a cartilha de onde você tirou o maior ensinamento que me deu em vida: "eu hei de vencer" e vença de novo. Esqueça o leito daquela cama fria e vazia e redescubra a luz de todos os dias que você mesma me apresentou quando eu nem sabia falar. Levante-se e dê de novo aqueles primeiros passos que você me ajudou a dar quando eu nem imaginava o quão importante aquele novo aprendizado seria para o restante da minha vida. Esqueça aquele meu conselho de arrumar um namorado para afastar a solidão, mãe, a única coisa que você precisa é se amar: amar como eu me amo, amar como eu amo a vida, amar como eu te amo -tanto!

Antes que a morte te leve - dessa vida ou nessa vida - olhe-se no espelho e lembre-se que todas as conquistas que a sua filha poderia alcançar já o fez por si mesma. No entanto, a conquista de te ver sorrir de novo, hoje, só depende de você.

Antes que a morte te leve, sorria. Brigue comigo de novo. Me ensine um novo palavrão. Antes que a morte te leve, me conte uma história da sua infância, me leve para passear no bosque, me irrite de novo dizendo como o dia está lindo, mesmo quando tudo estiver feio. Antes que a morte te leve, me deite no seu colo, coe um café e me console por ter sido demitida sem justa causa e de repente. Antes que a morte te leve, lembre-se de que a luta não acabou e que a vitória não é nem nunca foi ver os seus filhos felizes, mas sim, ser feliz você, porque quando a morte chegar de nada vai adiantar dizer que mereceu viver.

Antes que a morte te leve, acredite: a vida é linda, sim, do mesmo jeitinho que você me ensinou a acreditar que ela é.

Antes que a morte te leve, lembre-se: apesar de todos os erros, mãe... eu amo você.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Morrer de véspera - Diana Corso


A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo

Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infãncia, na sua trajetória canina é o fim da via. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e 30% da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só pode ter piorado. Na ocasião lhe receitaram remédios, ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum buldogue francês amadurece, eles só ficam mais lentos. Os tratamentos o tornaram magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe dávamos uma pastilha. Por isso decidimos deixá-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente, teria uns 80 anos.

Se fosse humano talvez já estivesse morto, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde, é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas décadas nos restam. Aliás, o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.

Convivi com amigos que, em vez de morrer de véspera, fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV era um prenúncio de morte. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça de morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Pressionados, efetivaram-se no emprego da existência. A medicação, que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: "benigno". Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão.



(texto publicado na revista Vida Simples nº 114 - janeiro de 2012)






terça-feira, 4 de novembro de 2014

Detalhes da saudade - Walcyr Carrasco (para a revista Época)


Quando a gente perde alguém, doem os detalhes do cotidiano que ainda permanecem a nosso redor. Não é a simples presença física, nem o lado da cama vazio. São as pequenas rotinas a que a gente se acostumou. Um amigo meu recentemente chorou ao ver a tampa do vaso abaixada. Ele nunca abaixava, ela brigava. E, claro, sempre abaixava, porque mulher tem esse hábito, e homem só raramente. Ela saiu do apartamento, até deixou roupas. Foi ao entrar no lavabo, ao ver a tampa abaixadinha, como ela havia deixado, que ele se deu conta de que tudo acabara. Hesitou, como se erguê-la implicasse um ritual de separação. Lágrimas correram, enquanto ele simplesmente olhava para baixo. Quase urinou nas calças, então respirou fundo, ergueu.
– Parece idiota, mas significou mais um gesto de adeus – ele me disse.
Entendi. Pouca gente sabe, mas há muitos anos tive um filho. Quando ele partiu, após uma série de confusões com a mãe, fui a seu quarto e vi um pequeno par de tênis sujos, velhos. Durante o breve tempo em que ficou comigo, eu comprara novos. Só fiquei olhando para aqueles tênis – um deles rasgado na ponta – e sentindo dor, uma dor enorme. A convivência diária, o sorriso, esperá-lo voltar da escola, isso não aconteceria mais.  A separação foi mais dolorosa e  concreta do que eu podia supor. Algum tempo depois, ele partiu, desta vez para sempre, numa tragédia. A perda de um filho não tem tamanho. A de um amor também é grande demais, principalmente quando a gente descobre que está ficando velho e que os sonhos para o futuro já não podem permanecer no futuro. Lembro que há muitos anos, numa separação, a última chamada que recebi ainda estava na tela do celular. À medida que os dias passavam, o nome desaparecia, substituído pelos incontáveis telefonemas da vida cotidiana. Ah, que dor, eu olhava o celular só para ver seu nome! Senti falta, era o último laço que ainda, pelo menos em minha imaginação, nos ligava.
São esses pequenos detalhes que doem, porque constatam a mudança. Vão desde uma xícara suja deixada na pia, que dá vontade de nunca mais lavar, até a casa próxima, vendida e pintada de outra cor. Digo para mim mesmo:
– Antes, aquela casa era azul. Antes.
E vem a consciência:
– Estou sozinho.
Pior é quando a pessoa parte para sempre. Depois que meu pai morreu, encontrei uma de suas camisas, esquecida. Peguei nas minhas mãos, abracei, cheirei profundamente. Queria recuperar a existência de meu pai por meio de seu cheiro de perfume, desodorante, pele. Minha mãe bordava toalhas, e guardo todas que ela me deu, assim como as blusas de lã que tricotava. As blusas ainda uso nos dias de muito frio. As toalhas ficam no armário, intocadas, não deixo ninguém usar. Porque me trazem a lembrança de minha mãe bordando, de agulha na mão, e de mim mesmo, já adulto, roubando a agulha e fingindo que a espetaria. Essas lembranças me fazem reviver sua alegria, sua eterna criancice, que me fazia querer brincar como um menino. Sorrio e murmuro:
– Mãe, que falta você me faz!
Sei que é impossível recuperar alguém por meio dos  detalhes do cotidiano. E daí? Dá vontade de pegar o telefone, ligar. Mas também sinto vontade de esquecer. Como? Até mesmo o presente que nunca dei se torna uma recordação. Pelo menos, daquele momento em que acreditei haver uma chance. Estranho. O simples ato de ter comprado um presente me dá saudades de um momento feliz que poderíamos ter vivido e não existiu.  Meu grande amigo, Júlio, aconselha.
– Sai dessa!
Impossível. Os detalhes ainda estão por toda parte. Quando minha mãe morreu, nós, os três filhos, fomos num sábado e desmontamos sua casa, demos os móveis, as roupas. Tudo num único dia. Lá no fundo, sentia como um gesto de traição. Como desfazer tudo, de forma tão rápida e prática? Depois, entendi que meu irmão mais velho, Airton, estava certo. Por que guardar tudo aquilo, remoer a saudade? Se a separação é entre duas vidas, muitas vezes não sobra uma casa inteira para desmontar. Só rastros. Vestígios. Uma mensagem de celular lembrando algo esquecido ou levado por engano. Um nome num envelope ainda enviado para meu endereço. Dá vontade de olhar o nome mil vezes, como se houvesse uma força magnética para mudar tudo.
Perder, seja para sempre, ou numa separação, é difícil e doloroso. É a presença dos detalhes do cotidiano que nos aprisiona numa teia de saudades.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Diário de vida: Nicete Bruno - Lya Luft e o luto


A atriz Nicete Bruno retoma a carreira artística e volta aos palcos sob a direção da filha, Beth Goulart. Ela participou do programa "Encontro com Fátima Bernardes" na última segunda-feira, dia 27, e citou uma frase de Lya Luft, que é a autora da peça na qual Nicete trabalha: "Quando se perde a pessoa amada, a gente ganha a si mesmo". Se no início queremos viver o luto e queremos ficar sozinhos, depois de um tempo é preciso retomar a vida. O luto tem um tempo para acabar, porque senão vira uma neurose, uma doença. 



 
Entrevista com Nicete Bruno e Paulo Goulart



terça-feira, 28 de outubro de 2014

Laços que são eternos - Mel Aitak


O Dia de Finados é uma data importante para lembrarmos que somos espíritos imortais...

Sofremos quando um ente querido parte para o "andar superior", como algumas pessoas costumam dizer (eu prefiro chamar de "plano ou pátria espiritual"). Sentimos saudade e, de forma egoísta, desejamos tê-lo sempre perto de nós. Nos momentos de dor, esquecemos que a morte é uma ilusão. Ela dá fim apenas ao corpo físico.

Quem tem fé sabe que o espírito sobrevive. E é nele que se concentra a essência de todos os seres. Vestimos nosso corpo quando encarnamos (literalmente, entramos na carne). E nos despedimos dele quando desencarnamos (saímos da carne). Portanto, quando acreditamos em Deus, temos que ter confiança de que nossos laços com outras pessoas - parents, amigos, amores - e mesmo com os animais, nossos companheirinhos nesta jornada, nunca se rompem!

Essa separação temporária não altera o amor que sentimos - nem diminui, é verdade, a saudade que a ausência traz. Ao nascermos, temos "um prazo de validade" ou, como dizem os espiritualistas, um princípio vital, que se esgota com o passar dos anos por causa de nossos hábitos, dos cuidados ou excessos que temos no dia a dia e, claro, de nossa missão aqui. A morte é a oportunidade de evoluirmos e vivermos outras experiências no plano astral. 

A partir de hoje, nada de chorar (muito) pelos que partem! Quando se lembrar de alguém querido, emane amor. Pode acreditar que um dia, embalados pelo doce olhar de Jesus, vocês se encontrarão para aplacar a saudade. Paz e luz!




(texto publicado na revista AnaMaria nº 942 - 31 de outubro de 2014)


Abra a janela do quarto escuro - Pe. Fábio de Melo - Programa Direção Espiritual 06/08/2014


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ferida invisível - Adriana Serrano


Experiências de luto e perda trazem grande sofrimento e podem desequilibrar intensamente a vida das pessoas. Mas é possível (e necessário) superar a tristeza e recomeçar. Veja como

Perder algo ou alguém significativo nunca é fácil: de modo geral, a falta emocional vem acompanhada de muito sofrimento, medo e até culpa - sentimentos que, juntos, podem desequilibrar a rotina de qualquer pessoa. O luto, no entanto, não é exclusivo de momentos de morte de pessoas próximas: ele acontece no dia a dia, sempre que nos vemos diante da obrigação de abrir mão do que é importante para nós, mas não pode ser alcançado. Lidar com essa frustração é fundamental para ter uma vida mais feliz e psicologicamente saudável.

Bom ou ruim?

Para a psicóloga Gabriela Casellato, especialista em luto, ficar confuso, triste e abatido a partir de uma perda não pode ser considerado bom nem ruim: trata-se de um processo normal - e até esperado - de reação frente a uma situação difícil. "O que pode torná-lo ruim são os fatores de risco com potencial de agravar essa vivência, como as dificuldades secundárias à perda (por exemplo, as financeiras), problemas de saúde associados, isolamento social, entre outros", comenta.

Ela explica que o luto promove uma situação de crise, pois mobiliza mudanças importantes e definitivas na vida, na rotina e na identidade do indivíduo, sem que, necessariamente, ele esteja preparado para elas. Por isso, pode ser vivido de forma estressante ou com períodos de estresse agudo, que refletem a adaptação à nova conjuntura. A qualidade desse processo varia bastante conforme o caso, mas uma coisa é certa: o luto precisa ser encarado de frente.

Fugir é o pior remédio

Superar uma perda é um processo bastante pessoal, que só quem está vivendo a situação pode gerenciar. O tempo que isso irá levar é incerto e depende das condições emocionais da pessoa enlutada (ligadas, inclusive, á sua história de vida), de como ocorreu a perda e do impacto dessa ausência para o dia a dia de quem ficou.

O que não é, de forma alguma, recomendado, é a esquiva do problema: afinal, a dor continuará lá mesmo que ninguém olhe para ela, e poderá causar danos cada vez maiores para as emoções se não for expressa e efetivamente vivida. "O enlutado precisa respeitar o seu tempo e a sua forma de reagir, sem se comparar aos outros, sem se forçar a fazer coisas para as quais não se sente preparado", diz a especialista. "Mas, ao mesmo tempo, deve se esforçar para dar novos passos e recomeçar", completa.

O tempo de cada um

Nesse sentido, o respeito da família e dos amigos ao tempo psicológico de quem está sofrendo por um processo de luto é mais do que essencial. Esse apoio envolve paciência, confiança e abertura para lidar com os sentimentos da pessoa enlutada, prezando sempre pelo seu bem-estar real, além, é claro, do próprio controle das emoções.

Não há dúvidas de que é difícil ver quem se ama em profundo sofrimento: o problema é que essa angústia dos familiares (e da cultura ocidental, que não valoriza o enfrentamento da dor) os leva, muitas vezes, a encorajarem uma superação rápida do luto. A pressa pode ser danosa ao processo como um todo, refletindo-se no isolamento de quem sofre ou no abandono precoce dos esforços no enfrentamento da situação. "A melhor forma de superar o luto é vivê-lo dentro dos próprios limites pessoais e com os recursos emocionais que se tem disponíveis", resume Gabriela.

Quando a perda vira doença

Quando a morte de alguém próximo é absolutamente inesperada, ou associada a eventos extremamente ameaçadores (como violência ou catástrofes naturais), pode levar a uma reação mais específica e grave: o Transtorno do Stress Pós-Traumático. Esse tipo de resposta à morte geralmente aparece após um período de latência (pelo menos um mês após o evento) e traz um impacto considerável sobre a vida da pessoa enlutada: ela tem constantes pensamentos invasivos a respeito do trauma vivido (revivências), apresenta retraimento social e fuga de situações semelhantes ao trauma e fica em extremo estado de alerta (hipervigilância). O transtorno precisa ser tratado por psiquiatras e psicólogos e contar com o apoio da família no intuito de recuperar o bem-estar de quem perdeu alguém importante.

Um dia apos o outro: as cinco fases do luto

Elas não são obrigatórias nem têm um tempo definido para começarem ou acabarem. Inclusive, nem todas as pessoas passam por todas as fases num processo de luto. Mas podem orientar o caminho da recuperação saudável de quem perdeu alguém muito importante. E vale a pena lembrar: é completamente normal sentir tudo o que está listado a seguir!

1) Choque

Tomar conhecimento da morte, mesmo que ela seja esperada, gera uma sensação de atordoamento, como se fosse uma flutuação emocional. Trata-se de uma reação fisiológica, mas que pode se tornar problemática se permanecer por muito tempo. Em geral, rituais de despedida, como velório e enterro, ajudam as pessoas a tomarem pé da realidade, até por verem a pessoa falecida e terem a chance de dizer adeus.

2) Negação

Superadas as questões práticas da morte, uma sensação de inquietação pode invadir a vida de quem ficou. Fica uma vontade irresistível de ver a pessoa de novo, que pode inclusive prejudicar o sono.

3) Raiva

Como consequência dessa agitação psicológica, o enlutado pode sentir raiva da equipe médica ou até de parentes e amigos, que (na fantasia de quem sofre) não fizeram o possível para evitar o pior. Também pode haver culpa: por coisas que não foram ditas, por atitudes que não evitaram a morte e até por sentir alívio após a perda.

4) Depressão

Quando a ansiedade diminui, a pessoa enlutada procura ficar sozinha e em silêncio. É o momento de sentir a tristeza da falta, da angústia, da perda de controle, e o sofrimento pode aparecer abruptamente. Nessa fase, respeito, compreensão e conforto são essenciais.

5) Aceitação

À medida em que se expressam as emoções de luto e se lida com elas, o sofrimento começa a se dissipar, abrindo espaço para a possibilidade de recomeçar. A pessoa começa, então, a olhar novamente para o futuro, embora a ferida invisível que traz no peito ainda demore bastante para cicatrizar.

Previna-se!

O título acima pode parecer estranho: seria possível se prevenir contra situações de luto? Na realidade, qualquer vivência que represente aprendizado serve para se fortalecer para momentos difíceis. Veja algumas dias para amenizar a dor: 

- Viva bem: resolver pendências e vivenciar relações interpessoais de forma plena, sem alimentar mágoas, são boas formas de passar pelo luto sem grandes problemas. "Dói mais quando sentimos que não vivemos como queríamos com quem amamos", explica Gabriela.

- Busque se fortalecer: sabe aquela história de fazer do limão uma limonada? É exatamente isso! Enfrentar situações difíceis com o objetivo de aprender com elas fará de você alguém muito mais forte. "Usar todos os recursos disponíveis para lidar com o sofrimento ensina a controlar a dor e se fortalecer emocionalmente", diz.

- Respeite sua dor: permita-se sentir a perda, sem se recriminar nem estacionar no sofrimento.

- Não queira controlar tudo: aceite que algumas coisas simplesmente não dependem de você. Isso gera frustração, sim, mas é um fato imutável da vida. Entendê-lo ajuda a suportar o que não tem jeito.


Consultoria: Gabriela Casellato, psicóloga especialista em luto do Instituto Quatro Estações, de São Paulo (SP)




(texto publicado na revista Você Saudável nº 11 -ano 2 - ano de 2012)




























quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Entrevista com a psicóloga Maíra Simeão sobre o luto e a perda de um cachorro - Samantha Kelly (Portal do Dog)


O falecimento de um ente querido, independente da espécie, pode ter um efeito devastador na vida do enlutado. No caso de perda de um pet, ainda há o agravante que os donos precisam lidar com o preconceito de ter sua dor por vezes menosprezada pela sociedade.

Mesmo sendo um período muito pessoal no qual cada indivíduo lida de maneira que sabe e pode, se conhecer e entender o processo do luto pode ajudar a compreender o turbilhão de emoções inerentes à perda.

Em conversa com a psicóloga Maíra Simeão, através de sua sensibilidade ímpar, podemos olhar com mais clareza um dos momentos mais complexos e dolorosos da vida: a morte.

Confira abaixo a entrevista:

1 - O que é o luto?

O luto é uma reação esperada diante da perda de algo significativo para o indivíduo, onde estão presentes diversas reações emocionais e fisiológicas, geralmente repercutindo nos mais diversos âmbitos da vida do enlutado. De modo geral, pode ser uma experiência bastante dolorosa e desorganizadora, mas é necessária para a superação da perda, e é fundamental que durante esta fase o enlutado possa manifestar seus sentimentos como forma de ir se organizando e se adaptando às mudanças ocorridas.

2 - Quais sentimentos são comuns em pessoas que experienciam o luto (ex.: culpa, negação, raiva e depressão)

São inúmeros os sentimentos que podem eclodir diante de uma perda. Há a negação, onde a pessoa tenta evitar o contato com a perda, não aceitando; há a raiva ou revolta, onde a pessoa se questiona porque isso aconteceu com ela, se ela merecia, etc.; há saudade e a necessidade de buscar e recuperar a figura perdida; há o choque, a depressão e desorganização, culpa, ansiedade, irritabilidade, solidão, desamparo, fadiga, pode vir também o alívio, etc.

3 - Quem procurar nesse momento para auxiliar na perda?

Este auxílio pode vir de um profissional, grupos de apoio, amigos e familiares.

4 - Quando seria a hora de procurar um profissional.

Quando a pessoa sentir necessidade. Pode ser logo após a perda ou tempos depois. Muitas pessoas só vêem necessidade de procurar um profissional quando sentem que o seu processo de luto está muito prolongado ou vem se desenvolvendo de forma "atípica" ou "patológica", porém, trabalhar a sua dor pode auxiliar na elaboração da mesma em qualquer que seja o tempo, mas claro que o quanto antes, melhor.

5 - Por que há tanto preconceito com a dor sofrida na perda de um pet? Muitos escutam "Ah, era só um cachorro" ou "Compra outro".

Mesmo com o conhecimento de toda a existência e expressão do vínculo afetivo entre homem e animal, a sociedade não aceita o pesar causado pela morte de animais de estimação, minimizando e menosprezando este luto. Há um preconceito em aceitar que alguém chore pela morte do seu bicho como se fosse por uma pessoa. Sendo assim, estas pessoas se sentem incompreendidas, muitas vezes suprimindo o seu luto. A morte de um ente amado é uma das dores mais intensas que o indivíduo pode experimentar e os sentimentos causados pela morte de um animal de estimação podem gerar sofrimento comparável à morte de uma pessoa querida. Há estudos que apresentam esse paralelo, evidenciando que pessoas ficam tão perturbadas que são incapazes de realizar suas atividades rotineiras, sentem angústia, choro fácil e intenso, insônia, outras reações fisiológicas, depressão, etc, reações comumente encontradas em enlutados pela morte de outras pessoas.

A citação a seguir exemplifica as questões referentes a este tipo de preconceito: "Toda sociedade possui um conjunto de normas sociais de comportamento baseadas na cultura dessa própria sociedade.

Dentre estas regras, estão as referentes ao luto. Elas definem determinados padrões de comportamento, como, por exemplo, quais são as perdas passíveis de luto, quem tem legitimidade de enlutar-se e quais os comportamentos adequados para a vivência dessa realidade. No entanto, essas regras sociais que têm caráter coletivo podem não corresponder aos valores e sentimentos inerentes aos integrantes dessa mesma sociedade." Carolina Alves de Sousa Lima - Aborto e anencefalia.

6 - Existe o grupo de apoio Association for Pet Loss and Bereavement para pessoas que estão em luto pelo pet que morreu. O que você acha dessa iniciativa?

Acho fantástica. A postura que devemos ter diante de uma pessoa que sofre a morte do seu animal não tem que ser diferente da que temos perante uma pessoa enlutada pela morte de uma pessoa querida. Essas pessoas estão fragilizadas e precisam de acolhimento e respeito a sua dor. Criar espaços para que elas se expressem, que discutam a vivência do seu luto, é um passo bastante importante, pois esta vivência necessita ser verbalizada e trabalhada. Preparar os profissionais da veterinária também é fundamental, pois são geralmente estas pessoas que acompanham as famílias e todo o processo de morte do animal, e o atendimento necessita ser diferenciado. Tenho conhecimento que existem clínicas veterinárias no Brasil, embora muito restritas, que já contam com serviços especializados de psicologia justamente para trabalhar com proprietários que vivenciam o luto.

7 - Em casos de eutanásia, como lidar com a culpa?

A culpa é um sentimento quase que inerente à prática da eutanásia, mesmo diante de uma doença grave do animal. É importante que para a elaboração deste sentimento diante dessas situações, a pessoa possa refletir sobre o que levou à decisão da eutanásia, como estava a vida do seu animalzinho, que por mais gostoso que seja ter ele ao seu lado, o animal vinha sentindo dor, sofrimento e total perda da qualidade de vida, e além disso, que a pessoa fale sobre este sentimento, pois muitas vezes essa conscientização não é suficiente.

8 - Alguns escolhem ter um novo pet logo após a perda. Essa prática ajuda ou é mais um subterfúgio para não viver o luto?

Pode ajudar ou ser uma fuga do sofrimento, não existe uma regra para isto, vai depender de cada caso e é importante analisar qual a verdadeira intenção em ter um novo animal. Ocorre muitas vezes de "oferecerem" um novo bichinho para a pessoa que perdeu seu animal, ou ela própria opta por isto, pensando que assim não sofrerá ou sofrerá menos. Então, se a pessoa vai ou não ter um novo animalzinho, o importante mesmo é ter consciência que rejeitar ou suprimir o luto não auxilia em sua elaboração.

9 - Qual a importância de vivenciar o período do luto.

Como citei anteriormente, a experiência do luto é necessária para a superação da perda e para a reorganização psíquica e social do enlutado, ainda que seja dolorosa e muitas vezes dilacerante.

10 - O que fazer para amenizar a dor da perda.

Se utilizar de mecanismos para evitar a dor pode complicar o processo de elaboração da perda. O ideal é que a pessoa possa se expressar e chorar se assim o quiser, pois estas atitudes podem contribuir para a elaboração da perda. Com o tempo podem ir retomando suas atividades, sair com amigos e familiares, etc. Se a pessoa não quiser falar, interagir ou sair de casa, não force, mas se coloque a disposição para escutá-la e acolhê-la e esteja atento às suas reações.

Didaticamente falando, mas sabemos que na prática não é tão linear ou simples assim, as "tarefas" na elaboração do luto são as seguintes: aceitar a perda, ter consciência do falecimento, expressar seus sentimentos, tentar se ajustar às mudanças e retomar suas atividades, guardar boas lembranças e se permitir fazer planos e olhar para o futuro.