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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Arte observada: A obra Dante e Virgílio no Inferno foi inspirada por uma breve cena do Oitavo Círculo do Inferno - Milenna Casseb Saraiva


William-Adolphe Bouguereau foi um pintor acadêmico que nasceu na cidade de La Rochelle, França, em 1825. Com um talento nato para as artes, recebeu treinamento em uma das mais prestigiadas escolas da época, a Escola de Belas Artes de Paris, onde veio a ser, mais tarde, professor muito requisitado. Sua carreira floresceu no período áureo do Academicismo, sistema de ensino do qual foi um ardente defensor e representante. Sua pintura se caracteriza pelo perfeito domínio da forma e da técnica, com um acabamento de alta qualidade, obtendo efeitos de grande realismo. Deixou uma vasta obra, centrada nos temas mitológicos, alegóricos, históricos e religiosos; nos retratos, nos nus e nas imagens de jovens camponesas. Acumulou fortuna e fama internacional em vida, recebendo inúmeros prêmios e condecorações, mas no fim de sua carreira começou a ser desacreditado pelos pré-modernistas. A partir do início do século 20, logo após sua morte, sua obra foi rapidamente esquecida, chegando a ser considerada vazia e artificial, um modelo de tudo o que a arte não deveria ser. Na década de 70, passou a ser novamente apreciada, e hoje é considerado um dos grandes pintores do século 19. Faleceu aos 80 anos por complicações cardíacas.

A obra Dante e Virgílio no Inferno foi inspirada por uma breve cena do Oitavo Círculo do Inferno, escrito pelo poeta Dante Alighieri, sendo parte de sua mais famosa obra. A Divina Comédia, escrita, aproximadamente, em 1320. Na cena, Dante, acompanhado por Virgílio, assiste a uma luta entre duas almas condenadas: Capocchio, um herege e alquimista, é atacado e mordido no pescoço por Gianni Schicchi, que havia falsificado a identidade de um homem morto a fim de reclamar sua herança de forma fraudulenta. Schicchi lança-se a Capocchio, seu rival, com uma fúria estranha e viciosa. O artista descreve a cena por meio de detalhes minuciosos, que impressionam por tamanha perfeição. São músculos, nervos, tendões, dentes e sangue que levam o espectador para dentro do que o pintor imaginava ser o inferno. Na verdade, Bouguereau ousou explorar os limites estéticos, como o exagero da estrutura muscular a ponto de distorcê-la, das poses, do contraste cromático, de luz e sombras, das figuras monstruosas e dos grupos de almas condenadas. Mesmo que a imagem remeta muito às histórias sobre vampiros da atualidade, esta pintura foi feita mais de 50 anos antes de Drácula, de Bram Stoker, ser escrito. Grandes pintores de diferentes épocas criaram inúmeras obras inspiradas na obra de Dante Alighieri, mas nunca na história se viu uma obra tão impactante como a de William. Muito conhecido por seu dom de pintar a pele humana perfeitamente, o artista obteve grande êxito em retratar a cena canibalesca de uma forma repugnante e, ao mesmo tempo, sensual. Apesar de o foco da obra ser a luta entre as almas penadas, os personagens principais que intitulam a obra, Dante e Virgílio, encontram-se no fundo, do lado esquerdo, somente observando as atrocidades ao seu redor. Nota-se, também, mais ao centro, a imagem de um demônio com asas de morcego e braços cruzados, sorrindo e contemplando-os, como se estivesse se deliciando com todo o cenário de eterna angústia, sofrimento e terror que ali presenciam. Tudo nessa pintura sublinha o sentimento de drama e horror, um tema decorrente da época, em que a Igreja impunha suas regras e oprimia a população pela doutrina do medo. Bouguereau utilizou outra obra para inspirar a criação de seu quadro, com tintas e cores fortes e quentes, delineando uma das muitas e intermináveis visões dos Infernos, que sempre vão surgir dos mais heterogêneos pincéis, nas mais heterogêneas escolas de pintura, antigas, modernas e contemporâneas.


(texto publicado na revista Circuito edição 196 - ano 16 - abril de 2016)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A tradição por testemunha - J. A. Dias Lopes


Radicada desde a Idade Média no Vêneto, na Itália, onde faz bom vinho e ótima comida, só agora a família de Dante Alighieri, o autor de A Divina Comédia, volta a ter negócios na Toscana, terra de seu glorioso ancestral

Sete séculos depois, os Alighieri estão retornando à Toscana, a região italiana da qual seu ascendente Dante, o genial autor de A Divina Comédia, teve de fugir após ser condenado à morte por razões políticas, em 1300. Desde a Idade Média vivem na localidade de Gargagnago di Valpolicella, vizinha de Verona, na Região do Vêneto. Ali o grande poeta ficou exilado durante alguns anos. Só agora os Alighieri voltam a ter negócios na Toscana. Adquiriram 75 hectares em Cinigiano, entre Val d'Orcia e Montalcino, em parceria com Sandro Boscaini, presidente da Masi, um dos mais prestigiados grupos vinhateiros italianos. Já plantaram 18 hectares da uva Sangiovese e esperam ter a primeira safra em 2004.

Uma mágoa de vinte gerações os impedia de reatar com a região de origem, apesar dos acenos de títulos honoríficos chegados da  terra arrependida. A briga era, na verdade, com a cidade natal do poeta, Florença. O partido de Dante foi derrotado e ele era inimigo dos vitoriosos. Teve de passar o resto da vida foragido para escapar à execução. Converteu-se no protótipo do exilado e transmitiu seus ressentimentos à descendência. Em 1320, trocou Verona por Ravenna, na Emilia-Romanha, onde morreu e foi sepultado no ano seguinte. Apesar dos esforços seculares, os florentinos sempre tiveram dificuldades em receber os restos mortais do poeta.

Após a morte de Dante, o juiz  Pietro, um de seus três filhos, retornou a Verona e comprou, em 1353, a propriedade Casal dei Ronchi, em Gargagnago. Nela teria vivido com o pai. Até hoje a família reside ali, na antiga sede, cultivando seus 130 hectares de terras. Produz uvas, vinho, grappa, azeitonas, mel, castanhas, frutas, conservas e dois tipos de arroz, vialone nano e carnaroli. Deve ser o mais antigo vinhedo em exploração contínua do mundo. Seus tintos e brancos são agora elaborados sob a direção técnica de Sandro Boscaini, da Masi, sócia majoritária dos Alighieri e consagrada pela qualidade dos tintos, especialmente pelo Amarone della Valpolicella, seco, e o Recioto della Valpolicella, doce.

Não por acaso, o sobrenome Alighieri também se associa a esses dois vinhos famosos. No caso do Amarone, uvas lentamente "apassite", ou seja, transformadas em passa, produzem um vinho exclusivo, concentrado, complexo, equilibrado, aveludado, alcoólico e longevo. Chama-se Vaio Amaron. A Divina Comédia se compõe de 14 233 versos e está dividida em três partes: o Inferno, com 34 cantos; o Purgatório, com 33; e o Paraíso, também com 33. A forma métrica é a "terza rima". Acredita-se que o Paraíso tenha sido escrito em Casal dei Ronchi. O atual patriarca da família se chama conde Pieralvise Serego Alighieri. Os italianos o conhecem como vinhateiro, agricultor, intelectual e colecionador de antiguidades.

O sobrenome Alighieri quase desapareceu no século XVI, quando o último descendente masculino do poeta, Francesco, ingressou na vida religiosa. Mas, consciente do problema criado pelo voto de castidade que fizera, tratou de desrespeitá-lo. Convenceu uma mulher de Verona a ter um filho com ele - e foi à luta. A empreitada não teve sucesso. Do relacionamento nasceram três meninas - e nenhum menino. Após reconhecer as filhas e conceder a cada uma o dote de 1 000 ducados, Francesco redigiu seu testamento. Destinou t udo o que tinha - inclusive a parte em Casal dei Ronchi - ao primeiro filho homem da sobrinha Ginevra.



(texto publicado na revista Gula nº 120 - ano 10 - outubro 2002)

domingo, 9 de agosto de 2015

Dante Alighieri e la lingua „Espressioni e parole inventate da Dante che usiamo ancora oggi - Deborah Macchiavelli (Firenze Today)



Dante Alighieri e la lingua



Padre della lingua italiana, il sommo poeta ha lasciato un'impronta indelebile nella storia della letteratura, creando delle espressioni divenute proverbiali. Ecco quelle più famose, che molti utilizzano senza saperlo

Fertile

Un aggettivo oggi diffusissimo, ma che nel '300 non era ancora entrato nell'uso comune. Fu proprio grazie alla Divina Commedia che questo latinismo venne introdotto per la prima volta. Dal verbo latino ferre, ovvero “portare, produrre”,  Dante utilizza questo termine nel canto XI del Paradiso: siamo nel celebre canto  di San Francesco, e la “fertile costa” (verso 45) descritta dal poeta indica il luogo dove nacque il santo.  

Gabbo/gabbare

Il verbo “gabbare” compare per ben 4 volte in un'altra celebre opera dantesca, Vita Nova, dove il poeta ripercorre le tappe fondamentali del suo amore per Beatrice. La parola deriva dal francese antico “gaber”, tratto a sua volta dall'antico nordico “gabb”, ovvero “scherzo, beffa”. Il verbo è già presente nella lingua fin dai primi anni del XIII secolo con il significato di “ingannare, prendersi gioco”, anche se la fortuna del termine, insieme al sostantivo “gabbo”, è certamente attribuibile agli scritti del poeta. Si pensi, ad esempio, al celebre proverbio “ fatta la grazia/finita la festa, gabbato lo santo”.

Mesto

Un termine che compare per la prima volta proprio nella Divina Commedia, ricorrendo per ben tre volte nella cantica infernale. Dal latino “maestus”, participio passato del verbo “maerere”, ovvero “essere addolorato”, il sommo utilizza questo termine per descrivere la triste condizione dei dannati.  

Molesto

Dal latino “moles”, ovvero “peso, fardello”, questo termine è presente in tre canti infernali e in uno del Paradiso. Gli episodi in cui è ricorre sono famosissimi, da quello di Farinata degli Uberti fino al canto di Cacciaguida, che usa il termine per annunciare al poeta il triste futuro che lo attende. Anche in questo caso il termine era già in uso, ma fu certamente il poeta a decretarne la diffusione capillare. 

Quisquilia

Altro termine latino, traducibile con “rifiuti, immondezze” e con il significato di “bazzecola, inezia, piccolezza”. Sebbene l'uso sia attestato già nel 1321, è ancora una volta Dante a diffonderne il significato moderno, così come lo conosciamo oggi, nel XVI canto del Paradiso.

Far tremare le vene e i polsi

Ancora oggi la usiamo per riferirci a qualcosa che ci terrorizza profondamente. Dante la utilizza nel canto I dell'inferno, quando nei versi 87-90 chiede a Virgilio di salvarlo dalla Lupa, una delle tre fiere che ha incontrato nella selva oscura, dove “la dritta via era smarrita” (v.3, canto I).

Non mi tange

Ovvero “non mi sfiora neppure, non mi interessa”. E' Beatrice a pronunciare queste parole nel canto II dell'Inferno, quando spiega a a Virgilio di non temere affatto il regno di Lucifero, poiché lei è una creatura di Dio, ormai tra i beati del Paradiso, e quindi l'infelicità di quel luogo non ha alcun effetto su di lei. 

Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate

Sicuramente avrete letto questa frase sul portone di qualche scuola. Si tratta dei terribili versi incisi sulla porta dell'inferno (v. 9, canto III), che ammoniscono chi entra a lasciarsi alle spalle ogni speranza di salvezza dall'eterna dannazione. 

Il gran rifiuto

Colui che “fece per viltade il “gran rifiuto” (v.60) nel canto III dell'inferno altri non è che Celestino V, il papa che rinunciò al pontificato (dove gli successe Bonifacio VIII, tra i promotori dell'esilio di Dante), in favore di una vita eremitica. Questo dannato si trova fra coloro che vissero “sanza 'nfamia e sanza lodo” (v.38). Si tratta degli ignavi, coloro che in vita non ebbero il coraggio di prendere una posizione tra bene e male, evitando di assumersi le proprie responsabilità.

Non ragioniam di lor, ma guarda e passa

Nel canto III ha origine un altro famosissimo proverbio. Con queste parole (spesso riportate con la variante "non ti curar di loro") Virgilio esorta Dante a non parlare con gli ignavi, rivolgendo loro la stessa indifferenza e apatia che essi ebbero nei confronti del mondo quando erano in vita. Perché certe volte, l'indifferenza è più forte dell'odio.

Galeotto fu…

Nella versione originale la frase termina con “'l libro e chi lo scrisse”, oggi invece siamo soliti completarla con le espressioni più variegate. Ci troviamo nel famosissimo canto V dell'Inferno, dove Francesca racconta al poeta il suo infelice amore per Paolo. I due amanti infatti si innamorarono leggendo un libro sulle imprese di Lancillotto e i cavalieri della Tavola Rotonda, dove fu proprio Galehaut, siniscalco di Ginevra, a spingere la regina tra le braccia del bel cavaliere, tradendo così re Artù. Il libro che la coppia di Rimini leggeva (prima di abbandonarsi ad un peccaminoso bacio) ha dunque assolto lo stesso compito che nel racconto cavalleresco fu di Galeotto: spingere l'uno tra le braccia dell'altra. 

Fatti non foste a viver come bruti...

...ma per seguir virtute e canoscenza” (vv.119-120,canto XXVI ). E' con queste parole che il personaggio di Ulisse incita i suoi compagni a seguirlo nella folle impresa di attraversare le colonne d'Ercole (lo stretto di Gibilterra), un tempo ritenute i confini del mondo. Oggi è un'espressione proverbiale, usata per incitare a vivere come uomini e non come bestie, seguendo la virtù e e la scienza come grandi ideali.

Cosa fatta, capo ha

Proverbio che più toscano non si può, che Dante cita nel canto XXVIII dell'inferno con le parole "capo ha cosa fatta" (v.107). Il poeta riporta la frase attribuita a Mosca dei Lamberti, che pronunciò il celebre motto durante una riunione indetta per uccidere Buondelmonte dei  Buondelmonti. La frase risoluta significa che una cosa, quando viene fatta, ha sempre un capo, ovvero un fine, uno scopo preciso, mentre l'indugiare non porta a nulla. 

Stai fresco

Un'espressione comunissima, che deriva dalla struttura stessa dell'Inferno dantesco. Secondo il poeta il regno di Lucifero avrebbe la forma di un cono rovesciato, il cui vertice coinciderebbe col centro della Terra. E' proprio nel nono cerchio, il punto più basso della struttura, che si trovano i traditori, ovvero coloro che si sono macchiati del peccato più grave agli occhi di Dio e che, a seconda della gravità della colpa, sono più o meno immersi nel Cocito, un enorme lago ghiacciato. Nel XXXII canto con l'espressione “i peccatori stanno freschi” (verso 117), il poeta si riferisce proprio a questa zona, dove i dannati vengono colpiti da gelide raffiche di vento prodotte dalle ali di Lucifero. Grazie alle potenti immagini del poeta, l'espressione viene ancora usata per indicare qualcosa che andrà a finire male. 

Il fiero pasto

Un pasto bestiale, ovvero quello che il Conte Ugolino sta consumando nel canto XXXIII dell'Inferno. Quando Dante e Virgilio arrivano al suo cospetto, il dannato imprigionato nel ghiaccio sta letteralmente divorando il cranio dell'arcivescovo Ruggieri, colui che in vita fu la causa di tutte le sue sventure che lo portarono all'Inferno. Un vero e proprio atto di cannibalismo, con cui il Conte cerca invano di vendicarsi. 

Il bel paese

Sempre nel canto del Conte Ugolino, Dante si abbandona ad un'invettiva contro la città di Pisa, definendola “vituperio de le genti” di quel “bel paese là dove 'l sì suona” (vv.79-80). Dante definisce la Penisola un “bel paese” dove si parla il volgare del sì, ovvero l'italiano volgare.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Massimo Cacciari racconta Dante Alighieri e la Divina Commedia


A Divina Comédia de Salvador Dalì








Dalì: la Divina Commedia



"Dalì. La Divina Commedia", prende il nome dall'omonima serie di xilografie nate dal genio dell'estroso artista spagnolo e ispirate al capolavoro dantesco.

Composta da cento opere a colori, firmate, numerate e pubblicate da Les Heures Claires a Parigi nel 1960, La Divina Commedia riunisce trentatre trittici, ognuno dei quali è composto di tre tavole riferite rispettivamente al Paradiso, al Purgatorio e all'Inferno danteschi. Fondendo in sé simboli, allusioni, esotismo, magia e allegorie in un connubio perfetto, l'opera è una delle maggiori espressioni del metodo pittorico "paranoico-critico" caratteristico dell'artista surrealista.
Dalì creò questi capolavori nel suo periodo illustrativo migliore e lavorò per quasi nove anni alla realizzazione dei cento acquerelli che, in seguito all'esposizione nel 1960 al Musée Galliera di Parigi, furono trasposti, dopo quattro anni di assiduo lavoro con il maestro stampatore Raymond Jacquet, in altrettante xilografie.

Nell'uso del colore ci si trova davanti ad una vera e propria antologia di modi, dal tratto fragile e guizzante all'uso plastico, come nei panneggi pesanti e materici.



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Uma viagem infernal - Renato Domith Godinho

Entre os séculos 13 e 14, o poeta italiano Dante Alighieri escreveu A Divina Comédia. "Essa obra é a síntese mais perfeita do pensamento medieval", diz o literato Carmelo Distante, da Universidade de São Paulo (USP). Dividida em três livros, A Divina Comédia narra uma viagem de Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. A mais famosa das três obras é o Inferno, que o autor conhece guiado pelo espírito de Virgílio, poeta da Roma antiga. O assustador local é dividido por Dante em nove círculos: do 1 ao 5, são punidos os pecados emocionais; nos círculos 6 a 9, os pecados de quem atentou contra alguém. Que tal você também embarcar nessa jornada infernal?

1) Ponto de partida - aqui o poeta Dante Alighieri começa sua viagem pelo Inferno, narrada em A Divina Comédia. Perdido em uma floresta escura, ele encontra o espírito do poeta romano Virgílio, que lhe servirá de guia no tenebroso passeio.

2) Mensagem assustadora - Na alta porta que leva ao Inferno, uma terrível inscrição diz: "Abandonai toda esperança, ó vós que entrais".

3) Vestíbulo doloroso - Nessa espécie de hall do Inferno, milhões de almas penadas, que não fizeram nem o mal nem o bem, correm nus, de lá para cá, numa planície vazia, picados por vespas.

4) Rio diabólico - Para chegar ao primeiro círculo do Inferno é preciso atravessar o rio Aqueronte. Caronte, um velho barqueiro demoníaco, leva as almas que devem ir para lá em seu barco.

5) 1º círculo: Os sem-esperança - No chamado limbo, em castelos e campos verdes, vivem os que foram virtuosos, mas que nunca foram batizados e não podem chegar ao Paraíso. Eles não sofrem, mas também não têm esperança.

6) Julgamento final - Os pecadores propriamente ditos são julgados por um horrendo demônio, Minos, na entrada do segundo círculo. A cada alma que chega, Minos enrola a cauda o número de vezes equivalente ao círculo e que o condenado deve descer.

7) 2º círculo: Furacão da luxúria - Num antro cavernoso e sem luz, vivem os que pecaram por luxúria, ou seja, que se entregaram á devassidão. Eles são eternamente atirados de lá para cá por fortes vendavais.

8) 3º círculo: Da gula à lama - aqui ficam os gulosos, que têm uma das penas mais terríveis: vivem enterrados numa lama fétida, embaixo de chuva e, de vez em quando, pisoteados por Cérbero, um cão de três cabeças.

9) 4º círculo: Avarentos x esbanjadores - Os que pouparam demais e os que gostaram em excesso vivem no quarto círculo. Arrastando uma grande pedra no peito, eles se jogam incessantemente uns contra os outros, machucando-se.

10) 5º círculo: Eternamente furiosos - Nus na lama, os que se deixaram vencer pela ira se atracam uns contra os outros com fúria. Abaixo deles, no fundo do lodaçal, os que viveram tristes e mal-humorados suspiram eternamente afogados.

11) 6º círculo: A fogueira dos hereges - Aqui ficam as muralhas da cidade de Dis, que é um dos nomes de Lúcifer (o diabo). Do outro lado das muralhas, em sepulturas ardentes, vivem as almas dos hereges.

12) 7º círculo: Violência punida com sangue - Num rio de sangue fervente, ficam imersos assaltantes, homicidas e tiranos. Centauros atiram flechas nos pecadores. Suicidas viram plantas que servem de comida para monstros. Já os blasfemos, usurários e sodomitas penam em um areal ardente sob uma chuva de fogo.

13) 8º círculo: Lava para os enganadores - tem dez valas, uma para cada enganador: sedutores, puxa-sacos, hipócritas, simoníacos (que vendem coisas sagradas), falsos profetas, traficantes, ladrões, falsários, intriguentos e maus-conselheiros. Eles fervem na lava, espetados, picados por cobras e com sarna.

14) 9º círculo: Traidores numa fria - No fundo do Inferno, o nono círculo é uma planície gelada onde estão os culpados pelo pior dos pecados: a traição aos amigos, aos parentes ou à terra natal. Imersos no gelo, choram de remorso e suas lágrimas congelam.

15) O rei do Inferno - No centro do nono círculo está Lúcifer. Gigantesco, tem seis asas e três cabeças, que simbolizam a impotência, a ignorãncia e o ódio. Cada cabeça mastiga um traidor: Judas, Brutus e Cássio, que atraiçoaram seus benfeitores - Jesus (no caso de Judas) e o imperador romano César (Brutus e Cássio).


(texto publicado na revista Mundo Estranho)



domingo, 13 de maio de 2012

Um inferno cheio de esperança - José Francisco Botelho

A obra do poeta italiano reflete a grandeza sombria da alma humana: é a força da culpa, dos pecados, da angústia, mas também da crença na redenção.

Alguns escritores são tão poderosos que acabam se transformando em palavras ou conceitos que evocam visões do mundo e inquietações humanas universais. Como entender o século 20 - e toda a desarvorada modernidade em que ainda estamos mergulhados - sem passar pelo adjetivo kafkiano? Como descrever o espírito da Grécia antiga sem usar a palavra homérico? Também o italiano Dante Alighieri (1265-1321) converteu-se em um termo de significados formidáveis. Mas a grandeza evocada pelo adjetivo dantesco nada tem de olímpica. É uma grandeza sombria, aflitiva. É a grandeza da culpa, do pecado, da inevitável e eterna punição. É a grandeza do inferno,.

Essa herança póstuma não deixa de conter certa ironia. Ao escrever sua obra-prima, A Divina Comédia - composta entre 1308 e 1321 -, Dante pretendia criar uma ode cósmica à redenção e à esperança. O nome original do livro, aliás, era apenas Comédia (foi o comentador Boccaccio quem a chamou de Divina, décadas após a morte de Dante). É que o maior dos poetas italianos quis produzir o extremo oposto de uma tragédia: sua viagem pelos três patamares do além-túmulo (Inferno, Purgatório e Paraíso) foi concebida como uma ascensão do desespero à glória, do abismo à redenção. No entanto, gerações consecutivas de leitores ignoraram o final feliz, preferindo deliciar-se na descrição das mais sinistras profundezas humanas. O Purgatório e o Paraíso contêm passagens cheias de fina poesia e comoventes sutilezas dramáticas. Contudo, o traço mais marcante dessa divina e diabólica Comédia são os 34 cantos iniciais, que narram a descida do poeta aos nove círculos do Inferno, por onde desfilam gigantes, harpias, demônios, centauros e outros monstros menos classificáveis - além de uma espetacular legião de mortos danados e eloquentes, que encarnam, na infinita variedade de suas punições e pecados, o terror e a abundância da alma humana.

Dante Alighieri nasceu em Florença, no seio de uma família profundamente envolvida nos conflitos políticos e religiosos do período. A Itália dos séculos 13 e 14 era um tumultuado campo de batalha entre cidades poderosas e independentes. Patriotismo e lealdade eram sentimentos dirigidos não ao país, mas à cidade natal de cada um, e Dante amou sua Florença com um amor violento, possessivo e inflexível.

Amor florentino

Aos 9 anos, contudo, Dante conheceu um tipo bem diferente de amor. Certa vez, passeando pela cidade, deparou com a figura angelical de Beatriz Portinari, filha de um rico burguês. Dante apaixonou-se de imediato - e para sempre. Começava ali o mais célebre caso de amor platônico na história. Dante jamais cortejou Beatriz, que já estava prometida a outro homem. Beatriz morreu aos 24 anos, vítima de uma doença súbita e indeterminada, e Dante passou as décadas seguintes dedicando seus sonhos e seus versos àquela semidesconhecida, com a qual não chegou a trocar, ao longo da vida, mais que um par de palavras.

Já com Florença, Dante teve um caso bem mais carnal e agitado. Havia décadas, a cidade era ensaguentada pelo conflito entre duas facções irreconciliáveis: os guelfos (partido dos Alighieri), favoráveis à influência do Vaticano na Itália, e os gibelinos, que apoiavam o Sacro Império Romano - a potência expansionista da época, que abrangia Alemanha, Áustria e fragmentos de outros países. Os gibelinos foram derrotados em 1294, em uma batalha da qual Dante participou. Vitoriosos, os guelfos se dividiram em dois partidos e, à boa e velha maneira florentina, logo começaram a trocar punhaladas pelas costas. Na guerra civil dos guelfos, Dante escolheu o lado mais fraco. Tombou em desgraça, teve suas propriedades confiscadas e foi condenado ao exílio perpétuo: se voltasse a sua terra natal, seria queimado em praça pública.

O poeta passou o resto da vida vagando pela Itália, lembrando-se de Beatriz e tecendo juras de ódio a sua desleal e amada Florença. No amargor do exílio, tornou-se um homem irascível e orgulhoso. Tendo fracassado na política e no amor, dedicou-se furiosamente à literatura. Nas letras, seu grande guia era o romano Virgílio, autor do épico A Eneida, cujos versos Dante lia e relia com admiração filial. Decidido a igualar ou superar o mestre, Dante concebeu um objetivo de formidável e quase pecaminosa ambição: escrever, em italiano, o livro dos livros, um poema que contivesse as profundezas da terra, as alturas do céu e todos os estágios intermediários.

Além de ser um grande poema - talvez o maior do Ocidente - A Divina Comédia é um relato. Sua força descomunal só se revela por inteiro quando a lemos como narrativa fantástica - a história de um personagem, o próprio Dante,m que é arrancado de seu próprio mundo e lançado numa maravilhosa e apavorante jornada por universos sobrepostos, hipnoticametne diferentes e interligados. A história começa quando Dante se encontra "no meio do caminho da vida", perdido em uma "selva selvagem" e cercado por animais ferozes. A selva, o caminho e as feras podem ser apenas alegorias; mas A Divina Comédia tem essa propriedade quase mágica: seus símbolos parecem tão sólidos e reais que a nossa vida, aqui fora, torna-se um pálido reflexo de seus versos. No meio da selva selvagem, Dante encontra o fantasma de seu mestre, Virgílio, que vem dos mortos para convocã-lo a um tour pelos reinos do além. Beatriz, que está no Paraíso, deseja que Dante conheça o Inferno e o Purgatório antes de reencontrá-la nos campos do Senhor.

Tolstói escreveu que todas as famílias felizes se parecem entre si, enquanto as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. É que a felicidade e a virtude a tudo igualam, e a tudo diluem: por isso, delas há bem pouco a dizer. Os Paraísos mais convincentes da literatura são os mais simples - por exemplo, o Éden bíblico, que é apenas um jardim em cujas tardes Deus passeia. Já as visões do inferno, para serem verossímeis, precisam multiplicar mecanismos e geografias. Ao criar seu Inferno, o mais veemente de todos, Dante juntou a filosofia medieval e fragmentos das mitologias antigas - e conferiu vida aor reino dos mortos com um sopro de assustadora imaginação.

O Inferno de Dante está dividido em círculos concêntricos; por eles, distribuem-se os pecadores, minuciosamente classificados e punidos. Ali, nenhum tormento, nenhum horror está fora de lugar. É um caos impiedosamente ordenado: os que pecaram pela luxúria são arrastados num furacão subterrâneo; os que pecaram pela ira passam a eternidade estraçalhando uns aos outros nas águas do Estige; os suicidas, transformados em árvores secas, formam uma floresta quebradiça e lamuriosa, cujos galhos se partem sob o voo das harpias.

Mas a descrição desse monstruoso calabouço divino é perpassada por uma brisa de ternura e simpatia. De acordo com a filosofia de Dante, os habitantes do Inferno foram justamente condenados. Jamais sairão de lá; sua desgraça é perfeitamente racional, e definitiva. Apesar de si mesmo, contudo, Dante não consegue esconder sua piedade e às vezes até sua admiração por alguns dos danados. No círculo dos adúlteros, comove-se ao ouvir a história de amor de Francesca de Rimini e Paolo Malatesta; no círculo dos hereges, dialoga com o majestoso Farinata, um pecador tão heroicamente maligno que diz desprezar o próprio Inferno; e, no abismo dos traidores, conversa com Ulisses, o inesquecível viajante grego, que lhe faz o relato de sua última jornada aos confins do mundo.

Nesses pecadores de pungente humanidade, nós nos reconhecemos infinitamente: como eles, vivemos à beira do abismo, e esse abismo nos fascina e nos atrai. A culpa existencial não é invenção da civlização cristã - já está presente nas tragédias gregas e nas lendas do antigo Egito. Outro tema imortal é a esperança na redenção: e por isso não se pode compreender a Comédia de Dante apenas através do Inferno.

À medida que avança, passo a passo, rumo ao coração das trevas, onde o próprio Lúcifer está acorrentado numa horrenda geleira subterrãnea, Dante tem o pensamento constantemente fixo em seu iminente encontro com Beatriz - o único Paraíso concebível. Essa é a grande metáfora da Comédia: como Dante Alighieri, caminhamos na sombra, mas com os olhos fixos no céu estrelado. E por isso compartilhamos seu fantástico alívio quando, após encarar o Diabo em pessoa, ele se esgueira pela saída do Inferno e volta à superfície da terra, coberta pela simples beleza da noite:

Subimos, Virgílio à frente, eu atrás; pela boca da caverna, espiei as coisas belas que giram pelo céu. E então saímos, finalmente, para ver as estrelas.


(texto publicado na revista Vida Simples)