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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os esconderijos do HIV


Pela primeira vez, cientistas enxergam pontos do corpo onde o vírus causador da Aids pode estar escondido, imune aos remédios

Pesquisadores da Emory University, nos Estados Unidos, anunciaram na última semana um passo importante em direção ao melhor controle da Aids. Eles conseguiram, pela primeira vez no mundo, usar um exame de imagem para identificar os locais do corpo onde o HIV, o vírus responsável pela doença, pode continuar a se esconder mesmo depois de iniciado o tratamento com as drogas anti-retrovirais. Encontrar esses esconderijos é uma etapa fundamental rumo à cura da doença. Hoje, apesar da extrema eficácia do coquetel de drogas e de muitos pacientes apresentarem níveis de carga viral muito baixas, sabe-se que concentrações de vírus permanecem presentes em diversos pontos do organismo. São os chamados reservatórios. A grande dificuldade é mapeá-los e criar  formas de destruir o HIV dentro deles. 

O método testado foi o PET Scan, um dos exames de imagens mais modernos disponíveis. O experimento foi feito em macacos portadores do SIV submetidos à terapia antiviral. O SIV é um vírus considerado uma espécie de HIV de macacos por apresentar características muito semelhantes ao agente que ataca os seres humanos. É usado de forma padrão nos estudos sobre a Aids que antecedem a etapa das pesquisas em pessoas. O corpo todo das cobaias foi mapeado. O retrato revelou a presença de uma proteína associada ao vírus em pontos como o nariz, órgãos reprodutivos, rins e pulmões. "A técnica nos permitiu detectar áreas que até hoje haviam recebido pouca atenção", disse à ISTOÉ François Villinger, líder do trabalho. Análise feita após a morte dos animais comprovou a presença do vírus em células dos locais apontados pelo PET Scan.

O cientista está otimista em relação ao potencial do exame para contribuir com a cura. "Poderemos usá-lo para descobrir a presença residual do HIV em pacientes que tomam os remédios", acredita. "E tirar a medicação pouco a pouco quando for possível." Villinger e seu time já preparam o teste de eficácia do PET Scan para visualizar o HIV em seres humanos.



(texto publicado na revista Istoé nº 2363 - ano 38 - 18 de março de 2015)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

7 Graves efeitos de não dormir o suficiente (Melhor com Saúde)


Sabemos que, quando não dormimos bem, nos sentimos cansados, lentos e com dificuldade de concentração no dia seguinte. Além disso, também costumamos observar uma queda significativa na nossa produtividade. Entretanto, não dormir o suficiente pode causar vários outros efeitos em nosso organismo, que podem prejudicar seriamente a nossa saúde.

Uma noite mal dormida não vai causar grandes mudanças, mas estudos mostram que sete dias seguidos dormindo pouco (cerca de 6 horas ou menos de sono) já podem desencadear mudanças genéticas que aumentam o risco de desenvolvimento de algumas doenças.

A seguir, vamos falar sobre 7 dos principais efeitos graves que podem ser causados pela falta de sono. Para evitá-los, tente dormir entre 7 e 9 horas por noite, e se não conseguir dormir bem em um dia, compense no dia seguinte sempre que possível, ou então nos finais de semana.





Os perigos de não dormir o suficiente

1. Aumento do risco de sofrer um derrame

O risco de derrame está associado a fatores genéticos e à obesidade, mas também pode ser influenciado pela falta de sono. Um estudo recente mostrou que pessoas que dormem menos de 6 horas por noite regularmente possuem um risco 4 vezes maior de sofrer com os sintomas de um derrame. Isso provavelmente ocorre pois dormir pouco pode aumentar a pressão sanguínea e contribuir para a obesidade, dois fatores de risco para o derrame.

2. Aumento do risco de diabetes

A falta de sono pode ser um dos fatores determinantes para o risco de desenvolver o diabetes do tipo 2. Isso ocorre, pois esta condição aumenta a resistência à insulina, fazendo com que o organismo não consiga usá-la de forma adequada.  Além disso, quando estamos cansados e com sono, temos uma tendência a comer mais, principalmente alimentos ricos em açúcar que podem aumentar seu nível no sangue.

3. Aumenta o risco de doenças cardíacas

O sono possui um papel crucial na habilidade do organismo de reparar e curar as artérias e o coração. Com isso, as noites mal dormidas aumentam o risco de desenvolvermos doenças cardiovasculares crônicas, já que podem ser produzidos mais hormônios e substâncias químicas que levam ao incremento da pressão arterial.

Um estudo observou inclusive que, no caso de pessoas que sofrem com a hipertensão, uma noite sem dormir o suficiente pode causar um aumento relevante na pressão durante todo o dia seguinte.

4. Podem levar à obesidade

Foram encontradas evidências de que a falta de sono pode causar alterações hormonais que influenciam nossas escolhas alimentares, podendo nos direcionar no caminho do sobrepeso e da obesidade. Dormir 6 horas ou menos por noite aumenta a produção do hormônio grelina, que é responsável pela nossa sensação de fome, e diminui a produção de leptina, o hormônio da saciedade. Com mais fome e nos sentindo menos satisfeitos, temos uma tendência muito maior a comer mais e ganhar peso com o tempo.

5. Reduz os níveis de imunidade

Quando estamos dormindo, o sistema imunológico produz anticorpos que protegem nosso organismo e lutam contra infecções, vírus e bactérias. Dessa forma, se dormimos mal, não daremos ao corpo a chance de se fortalecer, e ficaremos mai suscetíveis a sofrer com este tipo de problema. Também teremos menos energia para nos recuperarmos quando efetivamente contrairmos alguma doença.

6. Aumenta o risco de câncer

Alguns estudos vêm investigando a relação entre o câncer e o sono. Foram encontradas evidências de que não dormir o suficiente pode aumentar o risco de alguns tipos desta terrível doença, como o câncer colorretal, já que os pólipos costumam aparecer com mais frequência em pessoas que dormem menos de 6 horas por noite regularmente.

Também foram encontradas possíveis associações da falta de sono com o risco de desenvolvimento do câncer de mama.

7. Reduz a longevidade

Pode até parecer um pouco radical, mas um estudo relacionado à mortalidade e às horas de sono dormidas por noite identificou que, em média, pessoas que dormem pouco (menos de 6 horas por dia) costumam morrer antes do que quem dorme cerca de 7 horas por noite, independentemente de qual for a causa. Este último efeito devastador provavelmente está muito relacionado com o fato de que a falta de sono aumenta o risco de diversas doenças, e pode causar todos os efeitos terríveis que listamos anteriormente.

Por isso, a partir de hoje, dedique um esforço extra para dormir bem durante a noite, já que estas horas extras de sono podem ser fundamentais para a saúde e o bem estar físico e mental.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A era dos mosquitos transgênicos - Sara Magalona


Depois das plantas geneticamente modificadas, a ciência dá o passo seguinte - e cria um animal transgênico. Seus inventores querem liberá-lo no Brasil. Será que isso é uma boa ideia?

Você nasce, cresce, chega à idade adulta. Em dado momento, sai por aí em busca da sua cara-metade - ou, colocando a questão menos romanticamente, atrás de alguém para satisfazer o impulso de fazer sexo (ah, os hormônios...). O problema, por assim dizer, é que você carrega um segredo dentro de si. Um segredo terrível, que vai destruir a sua própria espécie. Parece um conto bíblico, mas é real: é a história do OX513, um mosquito geneticamente modificado que foi criado pelo homem com a missão de extinguir o Aedes aegypti e acabar com a epidemia de dengue. Depois de criar versões transgênicas de plantas como o milho e a soja, agora a humanidade modifica o DNA de um bicho e se prepara para liberá-lo na natureza. Aqui mesmo no Brasil - onde fica a primeira fábrica de mosquitos transgênicos do mundo.

Peste alada

Mosquitos são criaturas terríveis. Estima-se que eles tenham sido responsáveis por metade de todas as mortes de seres humanos ao longo da história. Ou seja, mataram mais gente do que qualquer outra coisa. Isso acontece porque, como se multiplicam rápido e em enormes quantidades, são excelentes transmissores de doenças - como a dengue, que é causada por um vírus chamado DENV. O mosquito pica uma pessoa infectada, adquire o vírus, e o espalha para outras pessoas ao picá-las também. A dengue é uma doença séria, que pode matar, e um grande problema no Brasil: em 2013, o Ministério da Saúde registrou 1,4 milhão de casos, mais que o dobro do ano anterior. Tudo culpa do Aedes aegypti. Ele é um mosquito de origem africana, que chegou ao Brasil via navios negreiros, na época do comércio de escravos. E hoje, impulsionado pela globalização, levou a dengue a mais de cem países (na década de 1970, apenas nove tinham epidemias da doença). Os números mostram que, mesmo com todos os esforços de combate e campanhas de educação e prevenção, o mosquito está ganhando a guerra.

Entra em cena o OX513A, que foi criado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ele é idêntico ao Aedes aegypti - exceto por dois genes modificados, colocados pelo homem. Um deles faz as larvas do mosquito brilharem sob uma luz especial (para que elas possam ser identificadas pelos cientistas). O outro é uma espécie de bomba-relógio, que mata os filhotes do mosquito. A ideia é que ele seja solto na natureza, se reproduza com as fêmeas de Aedes e tenha filhotes defeituosos - que morre muito rápido, antes de chegar à idade adulta, e por isso não conseguem se reproduzir. Com o tempo, esse processo vai reduzindo a população da espécie, até extingui-la. Recentemente, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovou o mosquito. E o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a permitir a produção em grande escala do OX513A - que agora só depende de uma última liberação da Anvisa. A Oxitec, empresa criada pela Universidade de Oxford para explorar a tecnologia, acredita que isso vai ocorrer. Tanto que acaba de inaugurar uma fábrica de Campinas para produzir o mosquito.

O OX513A já foi utilizado em testes na Malásia, nas Ilhas Cayman (no Caribe) e em duas cidades brasileiras: Jacobina e Juazeiro, ambas na Bahia. Deu certo. Em Juazeiro, a população do Aedes aegypti caiu 94% após alguns meses de 'tratamento' com os mosquitos transgênicos. Em Jacobina, 92%. As outras formas de combate, como mutirões de limpeza, campanhas educativas e visitas de agentes de saúde, continuaram sendo realizadas. "Nós não paramos nenhuma ação de controle. Adicionamos mais uma técnica", diz a bióloga Margareth Capurro, da USP, coordenadora técnica das experiências. Há indícios de que o mosquito transgênico funciona. Mas ele também tem seu lado polêmico.

Vida artificial

Há quatro anos, quando os mosquitos da Oxitec chegaram à Malásia para uma das primeiras rodadas de teste, surgiu uma preocupação. Quando um organismo geneticamente modificado é introduzido na natureza, seja ele uma planta ou um animal, é complicado prever tudo o que pode acontecer - e muito difícil contê-lo se alguma coisa der errado. Em tese, os mosquitos transgênicos não têm como se espalhar. Três a quatro dias depois de serem soltos, e de fazer sexo com uma fêmea, eles simplesmente morrem. Seus filhotes não conseguem crescer, e também morrem. E a história acaba aí. Mas, e se o mosquito OX513A sofresse uma mutação, e se tornasse imune ao gene letal? Afinal, é assim que a evolução funciona. Mutações são inevitáveis. "Todas as espécies agem para burlar os fatores que tentam exterminá-las", afirma o biólogo Carlos Andrade, da Unicamp. Se o inseto transgênico conseguisse vencer o gene letal, ele poderia se reproduzir livremente - e se tornaria incontrolável. Foi essa a preocupação do grupo ambientalista inglês EcoNexus, que enviou uma carta às autoridades da Malásia. "os [insetos] transgênicos podem não ser completamente erradicados do ecossistema, com consequências perigosas." A Oxitec diz que não há risco. Ela estima que até 5% dos filhotes transgênicos poderão sobreviver ao gene letal, e chegar à idade adulta. Mas eles serão menores e mais fracos do que os mosquitos "selvagens", e por isso não conseguirão se reproduzir. Mesmo se conseguirem, em tese não terão nenhuma característica que os torne mais perigosos que o Aedes comum. Além disso, como eles são criados em laboratório, seu DNA pode ser monitorado. "Os dois genes [que foram] inseridos são muito estáveis. A linhagem OX6513A foi criada em 2002, e até agora teve mais de cem gerações em laboratório, sem nenhuma mudança nos genes inseridos", afirmou a empresa em nota enviada à SUPER.

Guerra dos sexos

Os mosquitos machos se alimentam de frutas, e por isso não picam. Quem pica é a fêmea, que precisa de sangue humano para nutrir seus ovinhos. É ela quem transmite a dengue. Por isso, as fêmeas de OX513A são separadas no próprio laboratório. Algumas são mantidas em cativeiro, para reproduzir a espécie, e as demais são mortas. Apenas os machos, que não picam, são liberados na natureza.

O processo de separação não é perfeito. Até 0,2% dos mosquitos liberados são fêmeas, que podem picar seres humanos. Não é uma quantidade insignificante. A fábrica da Oxitec em Campinas tem capacidade para produzir 500 mil mosquitos machos por semana, podendo ser ampliada para 2 milhões. Isso significa que, devido à margem de erro, mil a 4 mil fêmeas seriam liberadas a cada semana. E elas poderiam transmitir dengue. A Oxitec questiona essa possibilidade. "Para transmitir dengue, a fêmea primeiro tem de pegar dengue", diz Sofia Pinto, supervisora de produção dos mosquitos. O ciclo da dengue, em que o mosquito pega o vírus de uma pessoa e o transmite para outra, leva cerca de dez dias. Um estudo revelou que em condições ideais, de laboratório, as fêmeas de OX513A podem alcançar 16 dias de vida. Mas, segundo a Oxitec, isso não ocorre na natureza - onde os insetos transgênicos não sobrevivem mais de quatro dias. Ou seja: em tese, as fêmeas liberadas acidentalmente não teriam tempo de espalhar a doença.

O impacto ambiental é outra questão relevante. Uma eventual extinção do Aedes aegypti não poderia acabar criando um desequilíbrio ecológico? "Não acredito que vamos ter efeitos negativos, porque esse mosquito é uma espécie invasora", diz Glen Slade, diretor da Oxitec. O mosquito da dengue já chegou a ser erradicado no Brasil, na década de 1950, e só voltou nos anos 80 (vindo da Ásia). "Não existe animal que viva nos criadouros desse mosquito, como caixas d´água e vasos de plantas. E animais como lagartixa, sapo, pássaro comem qualquer inseto que voe, não só esse mosquito", explica Margareth Capurro, da USP. "Ele é uma praga. Não faz parte do ecossistema. É um mosquito que vive somente nas áreas urbanas, completamente associado ao homem", completa. Ou seja, os predadores naturais do Aedes não vão passar fome. Mas existe, sim, uma possibilidade de desequilíbrio ambiental: o nicho ecológico do Aedes aegypti ser ocupado por outra espécie. Um possível candidato é o Aedes albopictus, que também transmite dengue. Tanto que a Comissão nacional d Biossegurança condicionou a aprovação do mosquito transgênico a uma exigência: a Oxitec deverá monitorar a população de Aedes albopictus, para detectar com antecedência uma eventual proliferação dessa outra espécie.

Apesar de todos os poréns científicos, a crítica mais forte ao inseto transgênico está relacionada a algo trivial: a quantidade de mosquitos necessária. O OX513A é fisicamente mais fraco do que o mosquito natural, e por isso tem que ganhar em número. Para que a técnica dê certo, e o transgênico consiga acasalar com as fêmeas (para gerar descendentes inférteis e acabar com a espécie) é preciso liberar uma quantidade enorme dele: dez mosquitos transgênicos para cada mosquito selvagem. Na prática isso significa que, para tratar uma área bem pequena, com apenas 10 mil habitantes, seria preciso liberar 2 milhões de mosquitos por semana durante a fase inicial de tratamento, que dura de quatro a seis meses. Isso é alvo de críticas de alguns especialistas. "Liberar milhões de mosquitos numa área de alguns quarteirões urbanos é insano. É forçar para dar certo", diz o biólogo Carlos Fernando Andrade, da Unicamp. "Para tratar '1 milhão de pessoas, 10 milhões de pessoas, precisaríamos criar muitas fábricas", admite Glen Slade, da Oxitec. Ou seja: a quantidade necessária de mosquitos OX513A para erradicar a dengue, num país do tamanho do Brasil pode acabar sendo inviavelmente grande. "Criar mosquito para depois matar mosquito não é nada inteligente. E, no caso de se usar transgênicos, é caro", afirma Andrade. A Oxitec estima que, para tratar uma cidade pequena, de 50 mil pessoas, o custo fique entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões no primeiro ano (em seguida, R$ 1 milhão anual para manutenção). "Com boas práticas domésticas e do poder público, evitando água parada, não se cria o vetor [Aedes aegypti]", diz Andrade.

O OX513A pode acabar se mostrando uma solução sofisticada demais para um problema que pode ser atacado com medidas mais simples. Talvez a vacina contra o vírus da dengue acaba funcionando e torne desnecessário o uso de mosquitos transgênicos. Ou, quem sabe, o inseto geneticamente modificado venha a ser liberado em grande volume - e de fato consiga exterminar o Aedes aegypti. E a humanidade terá conseguido extinguir uma espécie usando outra espécie - que ela mesma criou.

E a vacina?

Seria muito mais fácil controlar a dengue com uma vacina. E ela pode estar perto de virar realidade. Num estudo feito na Ásia, 10 mil crianças receberam uma vacina experimental, fabricada pelo laboratório francês Sanofi Pasteur. Entre elas, houve 56,5% menos casos de dengue. Ou seja: a vacina não é perfeita, mas parece fazer efeito. O problema é que só imuniza contra três dos quatro subtipos de vírus da dengue - e os cientistas ainda não sabem o porquê. Há outro estudo em curso, com 20 mil voluntários espalhados por Brasil, Colômbia, Honduras, México e Porto Rico.





(texto publicado na revista Super Interessante nº 337 - setembro de 2014)













terça-feira, 25 de novembro de 2014

Doenças sem fronteiras - Gabriela Loureiro


A pior epidemia de ebola da história é só mais um exemplo de mazelas que pareciam sumidas ou extintas que voltaram para assombrar o mundo

Um passageiro de avião morre em pleno saguão do aeroporto de Lagos, cidade mais populosa da África e capital da Nigéria. Nos dias seguintes, duas pessoas que tiveram contato com ele também sucumbem à doença. Os três foram vítimas da pior epidemia de ebola da história. Na China, uma cidade inteira passou dias isolada por causa de um caso de peste bubônica. No século 14, a doença foi responsável por dizimar quase dois terços da população da Europa. E no Afeganistão a ação do grupo terrorista Talibã é apontada como a responsável pelo recrudescimento da poliomelite, que causa paralisia em crianças de até 5 anos.

Nos últimos meses, o mundo tem assistido á volta do ebola e de outras doenças que pareciam extintas. Alguns fatores explicam isso. O desmatamento, por exemplo, expulsa animais e insetos vetores de seu habitat natural para colocá-los em contato com os humanos. Além disso, a urbanização acelerada transformou as cidades em ambientes perfeitos para o contágio em massa. Sem falar nas guerras e conflitos, que forçaram o deslocamento de refugiados e tornaram grupos radicais ainda mais intolerantes à vacinação.

"Em tempos de constante movimento das pessoas, se não houver vigilância e monitoramento que diagnostiquem, tratem e previnam as possíveis situações de riscos das doenças, estas permanecem endêmicas, especialmente em países de extrema pobreza, sem controle ou recursos", afirma a infectologista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Sylvia Hinrichsen. Nas páginas a seguir, GALILEU mostra o que explica a volta de doenças que pareciam extintas.

Ebola

O vírus que assusta o mundo

Na pior epidemia da história, quase 2 mil pessoas foram infectadas e mais de mil morreram da doença que completa 38 anos

A morte do americano de origem liberiana Patrick Sawyer foi a primeira registrada por causa do ebola em Lagos, capital da Nigéria. Quando mais duas pessoas morreram da enfermidade no país mais populoso da África e o oitavo do mundo, um alarme foi disparado: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou situação de emergência sanitária internacional. Até o fechamento desta edição, em meados de agosto, o ebola havia infectado quase 2 mil pessoas em Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria, deixando mais de mil mortos. Apesar de ainda estar longe de acabar, esse já é tido como o pior surto da história do vírus.

Transmitida por primatas infectados por morcegos frutíferos, hospedeiros do vírus, a primeira notícia que se tem do ebola é de 1976. Ele teria aparecido no Sudão e na República Democrática do Congo (RDC), numa região próxima ao Rio Ebola, que emprestou o nome à doença. Naquele ano foram 318 casos da moléstia com 280 pessoas mortas na RDC - taxa de letalidade de 90%. Ao mesmo tempo, na região que hoje conhecemos como Sudão do Sul, 280 pessoas foram infectadas. O saldo final foi de 156 mortos.

Desde então, surtos esporádicos do ebola são comuns na África, mas nada comparado com o que testemunhamos hoje. O que explica a gravidade da situação é a precariedade do sistema de saúde dos países afetados, recém-saídos de guerras civis e castigados pela violência e pela pobreza. Para se ter ideia, a Libéria gasta US$ 18 per capita em seus sistema público de saúde. Serra Leoa US$ 13 e Guiné meros US$ 7. No Brasil, esse gasto é de US$ 466 dólares e nos EUA, quase US$ 4 mil.

Os cinco tipos

Ebola Zaire: o mais letal, já teve taxa de mortalidade de 90%. É o que mais faz vítimas hoje na África.

Ebola Sudão: um dos primeiros vírus a atingir o homem, mata cerca de metade dos infectados.

Ebola Bundibugyo: com 27% de mortalidade, surgiu em Uganda e se espalhou para o Congo.

Ebola Costa do Marfim: foi transmitido só para uma pesquisadora em 1994, sem causar sua morte.

Ebola Reston (Virginia, USA): o único que é transmitido pelo ar. Já matou centenas de macacos.

A tecnologia contra epidemias

A primeira declaração formal da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a atual epidemia de ebola foi divulgada em 23 de março. Nove dias antes, o site HealthMap já tinha identificado na região o surto de uma "misteriosa febre hemorrágica", e no dia 19 encontrou em sua base de dados menções ao ebola, lançando um alerta. O site, desenvolvido em 2006 por uma equipe do Boston Children's Hospital, é composto por algoritmos que vasculham milhares de sites, redes sociais, portais públicos e fóruns de infectologistas. As epidemias são categorizadas em cores diferentes, de acordo com sua intensidade, e é possível localizar as que estão mais próximas a você. Surtos como os de dengue e febre amarela podem ser vistos em nove línguas diferentes. (André Jorge)

Cobaias humanas

O médico norte-americano Kent Brantly foi infectado em julho na Libéria. Já com dificuldades para respirar, ele ligou para sua mulher para se despedir. Ante a morte, Brantly concordou em ser tratado com uma droga experimental chamada ZMapp, que até então só havia sido testada em macacos. Brantly estava infectado há nove dias quando tomou a droga. Após uma hora, já conseguia respirar bem e pouco depois voltou aos Estados Unidos, onde segue em recuperação. Apesar do resultado positivo no caso de Brantly, usar drogas ainda não aprovadas para uso humano é um risco restrito a poucas pessoas. O governo da Nigéria tentou, em vão, pedir lotes da ZMapp numa tentativa de controlar o surto, mas a ideia gerou uma enorme discussão no meio científico sobre o uso de drogas experimentais em humanos. A boa notícia é que, se o diagnóstico do ebola for rápido e o atendimento imediato, o corpo da vítima é capaz de desenvolver anticorpos para enfrentar o vírus. Os pacientes recebem fluídos de forma intravenosa para combater a desidratação e manter a pressão estável, analgésicos para as dores e antitérmicos para a febre, além de transfusões de sangue para repor as perdas em hemorragias e tratamento de infecções secundárias provocadas pelo vírus.

Perto da cura?

O pesquisador Thomas Geisbert crfia vacinas e medicamentos contra o ebola que funcionaram em macacos. Desafio é testá-los em seres humanos

P: Por que o vírus ebola é tão mortal?

Ainda não temos certeza absoluta. Sabemos que ele desarma ou reduz o nosso sistema de imunidade atingindo algumas das mais importantes células que são a primeira linha de defesa do corpo, como as células dendríticas. Fazendo isso, o vírus consegue crescer mais rápido e atingir outras partes do corpo.

P: Como você desenvolveu uma vacina que protege os macacos do vírus ebola?

Colocamos um pequeno fragmento do vírus no hospedeiros para que o sistema imunológico do corpo pense que está lidando com o verdadeiro ebola. O corpo do animal então desenvolve a habilidade de se defender contra o vírus porque foi ensinado a reconhecê-lo. Então usamos um vírus diferente que não atinge humanos como veículo de entrega, tiramos a glicoproteína dele e a substituímos pela glicoproteína do ebola e vacinamos alguns macacos com isso. Depois os colocamos em exposição ao ebola e todos sobreviveram.

P: Por que ainda não temos uma vacina contra o ebola para humanos?

Há vários motivos. Um dos principais é que o ebola é uma doença rara que só acontece em países de terceiro mundo. Diferentemente de desenvolver uma cura para o câncer, um remédio para doenças cardíacas ou até uma vacina para gripes, há poucos casos de ebola em uma escala global, então não há incentivos financeiros para a indústria farmacêutica desenvolver uma vacina.

P: Na mesma linha, por que ainda não existe medicação contra o ebola?

Temos três tratamentos capazes de proteger totalmente os macacos do ebola depois da exposição ao vírus. Mas a razão por que nenhum desses tratamentos foi licenciado é a mesma da vacina.



(texto publicado na revista Galileu nº 278 - setembro de 2014)









quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O frágil cerco ao Ebola - Cilene Pereira


A força com que o ebola se alastra pela África já havia demonstrado ao mundo como é preciso aprimorar muito mais as medidas de contenção de um dos vírus mais letais conhecidos. Na semana passada, porém, as falhas grotescas no atendimento do primeiro paciente com ebola diagnosticado nos Estados Unidos denunciaram de que forma enganos possivelmente cometidos por apenas uma ou duas pessoas podem colocar em risco toda a cadeia de detecção de casos montada por especialistas reconhecidos e experientes para impedir a instalação de epidemias.

No dia 25 de setembro, o liberiano Thomas Eric Duncan, 48 anos, estava hospedado no Ivy Apartments, em Dallas, quando procurou um hospital. Sentia febre e mal-estar. Foi levado por familiares ao Texas Health Presbyterian. Lá, contou à enfermeira que chegara havia poucos dias da Libéria, um dos países mais atingidos pela epidemia na África. Mesmo assim, foi liberado, com uma receita de antibiótico. Três dias depois retornou à instituição, em estado bem mais grave. Até a sexta-feira 3 permanecia internado, agora com o diagnóstico de ebola. Calcula-se que desde a chegada de Duncan até seu isolamento no hospital, mais de 100 pessoas tiveram contato direto ou indireto com ele. Ou seja, com maior ou menor risco, podem ter sido infectadas.

O erro primário cometido no primeiro atendimento deixou as autoridades de saúde perplexas. Afinal, Duncan contou que chegava da Libéria. Pelos manuais de contenção epidêmica, a informação preciosa deveria ter sido considerada e o liberiano, submetido a um teste para ebola. Mas o que se apurou é que a enfermeira não a repassou ao médico. Ele o submeteu a um exame sanguíneo padrão. "O hospital deixou a peteca cair", disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA.

Mas as falhas se estendem. Até a quinta-feira 2, o apartamento ocupado por Duncan não havia sido limpo. Lençóis e toalhas por ele usados ainda permaneciam lá simplesmente porque as autoridades não encontravam quem pudesse fazer a limpeza correta e o descarte dos utensílios que ele tocou. Esse tipo de problema pode até fazer sentido em regiões pobres e insalubres africanas, mas espanta saber que está ocorrendo nos EUA. Entre outras razões, porque lá estão alguns dos maiores especialistas do mundo em evitar epidemias, boa parte deles reunida no famoso Centro de Controle de Doenças, o CDC. Sempre que o planeta é ameaçado por micro-organismos perigosos, é a esse serviço que se costuma recorrer em busca de ajuda. Equipes de CDC foram enviadas a Dallas assim que saiu o diagnóstico, mas ao que parece são insuficientes para auxiliar na superação dos pequenos erros banais que podem destruir grandes esforços.

Esquema de proteção

Apesar das falhas no atendimento nos EUA, o risco de ocorrer uma epidemia naquele país, na Europa e no Brasil continua pequeno. Entre outras coisas porque:

- Estão circunscritas à África as espécies de morcegos que carregam o vírus;

- Não é tão intenso o trânsito de pessoas vindas dos países mais atingidos;

- O contágio existe pelo contato com fluidos corporais contaminados (sangue, por exemplo). Nos EUA e no Brasil, dificilmente um profissional de saúde faria o atendimento sem portar a proteção necessária, como luvas e máscara;

- Além disso, na África muitas famílias decidem cuidar dos doentes em suas próprias casas, o que facilita ainda mais o contágio.




(texto publicado na revista IstoÉ nº 2341 - ano 38 - 8 de outubro de 2014)