Mostrando postagens com marcador língua portuguesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador língua portuguesa. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de junho de 2016

Torre de Babel


Países não se entendem na hora de mexer com o português

Era pra gente começar 2008 escrevendo diferente. Arquitetada pela CPLP (Comissão de Países de Língua Portuguesa), a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa previa, entre outras alterações, o fim do trema e de alguns acentos e a incorporação das letras k, y e w ao alfabeto oficial.Mas as mudanças - criadas para padronizar o idioma e facilitar a comunicação entre os oitos países que o adotam - correm o risco de não vingar. De novo. A história registra que nunca houve consenso quando uma reforma foi proposta. "Desta vez, é Portugal quem resiste a abandonar as consoantes mudas [como as de 'contacto' e 'direcção'], diz o gramático Evanildo Bechara, presidente da Academia Brasileira de Letras.

Até o século 16 sequer existia um padrão na língua portuguesa. Cada escritor grafava as palavras da forma que lhe convinha. "É a fase fonética, em que se escrevia de acordo com o som. Uma mesma palavra era encontrada de modos diferentes: cinco e cinquo, algem e alguém, muyto e muito", exemplifica a professora Nelly Carvalho, linguista da Universidade Federal de Pernambuco. Do século 16 ao 20, influenciados pelo renascentismo e desejosos do status de "língua de cultura", intelectuais lusitanos abusavam das clássicas consoantes duplas e do y (pharmacia, collega, lyrio), herdado do latim.

Aquela do português

Desde o século 20, vive-se o período simplificado. Conheça as outras fases históricas da nossa língua

Período fonético

Até o Renascimento (metade do século 16) a escrita era pautada pelos sons das palavras. Não havia padrão, embora fosse comum que a duplicação das vogais indicasse sílaba tônica, como em ceeo (céu), consoantes aparecessem juntas (fficar), e o h indicasse hiatos (cahir).

Período pseudo-etimológico

Do século 16 até os primeiros anos do século 20, predomina a influência do latim e da cultura grega. A grafia respeitava, na medida do possível, sua origem etimológica. É o auge dos grafemas ph, th, ch, rh e y (philosophia, theatro, sepulchro, cysne).

O vira-não-vira

Reformas ortográficas são marcadas por reviravoltas

1904

O filólogo Gonçalves Viana propõe a simplificação para valorizar aspectos da fala e se distanciar do latim. A novidade é oficializada em 1911, em Portugal. Em 1915, o Brasil se ajusta aos padrões.

1919

Por influência do acadêmico Osório Duque Estrada, autor da letra do hino nacional, o Brasil cancela as mudanças. Voltamos a usar "ph" e "ch".

1931

Volta a simplificação com o primeiro acordo ortográfico entre Brasil e Portugal, iniciativa da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa.

1934

Getúlio Vargas anula o acordo de 1931. O Brasil volta com todas as consoantes duplas. Por pressão dos professores, a imposição tem fim quatro anos depois.

1943

Lisboa realiza a convenção ortográfica com a intenção de unificar o idioma. Mas só o Brasil faz mudanças como, por exemplo, o "s" em "casa", antes com "z".

1945

Nova convenção luso-brasileira. Dessa vez é o Brasil quem não aceita as consoantes mudas ("óptimo" e "direcção") e o fim do trema. Só Portugal faz as mudanças.

1971

Na era Médici, caem alguns acentos circunflexos diferenciais (almôço, enderêço) e graves (sòmente, últimamente), além de tremas em palavras como saüdade e vaïdade.

1986

O encontro dos países de língua portuguesa, no Rio, é o embrião das mudanças pleiteadas até hoje. Mas Portugal só aceita abrir mão das consoantes mudas a partir de 2017.

2007

Decide-se pressionar os outros países a realizar em 2008 o acordo ortográfico, já assinado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.


(texto publicado na revista Aventuras na História edição 54 - janeiro de 2008)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Por que se diz "xará" para quem tem o mesmo nome? - Rodrigo Cavalcante


Se, pela pronúncia, você está desconfiado de que a palavra surgiu de alguma expressão indígena, acertou. "Ela tem origem na palavra sa rara, um derivado de se rera, 'aquele que tem meu nome', em tupi", diz o etimologista Cláudio Moreno, colunista da revista MUNDO ESTRANHO. O escritor gaúcho Deonísio da Silva, autor do livro Aa Vida Íntima das Palavras, lembra que, no sul do país, usa-se também a palavra tocaio com o mesmo significado. "Vem do espanhol tocayo que, por sua vez, tem origem na frase ritual latina que a noiva dizia ao noivo no Direito romano, quando a comitiva nupcial vinha buscá-la em casa: "Ubi 'tu Caius', ibi ego Caia (onde fores chamado Caio, ali eu serei Caia)". Por transmitir a ideia de que a noiva, ao se casar, passa a ter o mesmo nome do noivo, a palavra passou a ser usada como sinônimo de xará.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 186 - março de 2003)


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Por que o Y não é vogal? - Julia Moióli (P&R)


Porque, em teoria, o fonema do Y equivale ao de uma consoante. É verdade que ele tem som de "i'", mas não é só isso que conta. Funciona assim: vogais são os fonemas em que o ar passa livremente pela boca, enquanto as consoantes são aquelas em que ele é interrompido por dentes, lábios ou língua. Antigamente, na ortografia da língua portuguesa, o Y estava na categoria de semivogal anterior (formada na parte da frente da boca). Esse tipo não ocupa a posição típica da vogal, no meio da sílaba, mas fica nas bordas, como fazem as consoantes. É o som que está, por exemplo, em "Iolanda" e "Niterói" (antigamente, "Yolanda" e "Nichteroy"). Por isso, hoje, os dicionários (menos o grego) não o classificam nem como consoante nem como vogal.




(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 166 - maio de 2015)




quarta-feira, 9 de julho de 2014

A luta vai estar continuando - Ricardo Freire


Foi, provavelmente, a primeira vez que você me leu. Algum amigo mandou para sua caixa postal eletrônica um texto que começava assim:

"Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o futuro do gerúndio".

Naquele tempo, nem todo mundo ainda tinha se dado conta de que o português do Brasil estava sendo contaminado por um tempo verbal esdrúxulo, contrabandeado por más traduções de livros de marketing. A situação era grave. Se nada fosse feito, em breve aquilo seria considerado correto e incorporado à gramática brasuca.

Tratava-se de uma campanha educativa: "Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo".

Em tom de manifesto, eu continuava: "Nós temos de estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito".

No fim do mês passado, esse texto fez cinco anos - o que significa que estamos já há meia década em guerra contra o terrível gerundismo. Será que temos algo a comemorar?

Acredito que sim. Pelo que sei, muitos bancos e operadores de telemarketing - os próprios laboratórios de onde essa doença escapou para as ruas - empenharam-se em campanhas para erradicar o gerundismo de seu ambiente (em alguns casos, usando até aquele texto como apostila).

Hoje, o gerundismo deixou de ser uma conspiração de grandes empresas contra nossos ouvidos e tornou-se um vício de caráter privado, como o cigarro, o álcool ou o bingo. Ainda não existem clínicas de reabilitação para gerundistas, mas é só uma questão de tempo. Só quem já se viu dominado sabe quanto é difícil largar o gerundismo. Às vezes, o "eu vou estar transferindo a sua ligação", é mais forte do que você.

Felizmente, o pior não aconteceu. Se nada tivesse sido feito há cinco anos, a que ponto teríamos chegado? Não custa nada imaginar.

A esta altura, o gerundismo já teria escapulido das relações de compra e venda e invadido outros territórios, como o dos ditados. De "ter é poder" para "estar tendo é estar podendo" é um pulo. O último que vai estar chegando é a mulher do padre. É estar pegando ou estar largando!

As crianças, graças aos céus, continuam imunes. Ainda não se canta "Ciranda, cirandinha, vamos todos estar cirandando". Pais e padrinhos não perguntam "O que você vai estar sendo quando vá estar crescendo?". Garotos brigões nõa ameaçam "Eu vou tá te pegando na saída!".

A poesia permanece a salvo do gerundismo. Dificilmente nosso próximo Vinícius escreverá "Eu sei que vou estar te amando/Por toda a minha vida vou estar te amando". Outra: os títulos dos livros continuam intactos. Ainda não soltaram nenhuma edição de "A insustentável leveza do estar sendo".

Enquanto o gerundismo permanecer fora dos estádios de futebol - e o "Vamuláááá! não se transformar em "Vamotaindolááááá!" - , saberemos que a situação está sob controle, e o gerundismo um dia passará, como um "a nível de" qualquer.

De todo modo, vencemos algumas batalhas, mas a guerra ainda não está ganha. O lema do movimento continua o mesmo: não vamos estar nos dispersando!




(texto publicado na revista Época nº 409 - 20 de março de 2014)




sexta-feira, 23 de maio de 2014

O uso correto do particípio - Cláudio Moreno (Sua Língua)


Alguns (poucos) verbos de nossa língua têm um particípio curto, irregular, ao lado do particípio normal que todo verbo tem (em -ado ou -ido). Esses verbos são os famosos abundantes: PAGAR, pagado e pago, ACENDER, acendido e aceso, IMPRIMIR, imprimido e impresso, e assim por diante. Qualquer gramática razoável tem uma lista desses verbos. Cuidado, contudo, com o poderoso efeito da analogia, que pode criar (ou tentar criar) novos verbos abundantes. Isso já aconteceu com o verbo pegar. Para a língua culta formal, só existe pegado: o povo, por analogia com pagar (pagar está par pagado e pago assim como pegar está para pegado e...) criou pego, que ainda é visto com desconfiança pelos acadêmicos (eu, particularmente, nem uso: aliás, nem sei como é a pronúncia do E da primeira sílaba - já ouvi aberto, como em prego, e fechado, como em preço).

Na esteira dessa analogia proporcional (X está para Y assim como A está para B), já me perguntaram se trazer, além de trazido, tem a forma trago (!); se cegar, além de cegado, tem a forma cego; se pregar, além de pregado, tem a forma prego; se chegar, além de chegado, tem a forma chego. A resposta é NÃO para todos eles. Ou melhor: não que eu saiba, afinal, a Linguística me ensinou que nada impede que venham a existir essas formas algum dia - quando espero estar debaixo de sete palmos de terra. O que diria um estudioso do século passado se lhe perguntassem se pegar tinha dois particípios? Claro que responderia que não, mal sabendo que o controvertido pego já vinha vindo a galope.

Pego ou pegado (Blog da professora Raquel)


Tinha pegado ou tinha pego?
Foi pego ou foi pegado?
Havia pego ou havia pegado?
Está salvo ou está salvado?

Os verbos pegar e salvar são abundantes, ou seja, possuem dois particípios.

1) O particípio regular, terminado em -ado ou em -ido, que deve ser usado na voz ativa, quando usar como auxiliar o verbo ter ou o verbo haver.

2) O particípio irregular, com várias terminações, que deve ser usado na voz passiva, quando usar como auxiliar o verbo ser ou o verbo estar.

Então o certo é:

- Tinha pegado.
- Foi pego.
- Havia pegado.
- Está salvo.
- Tinha salvado. 





Trazido ou trago (Dúvidas de português)


Estas duas palavras existem na língua portuguesa e estão corretas. Contudo, devem ser usadas em situações diferentes. Trago é a forma verbal do verbo trazer conjugado na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo. Trazido é o particípio do verbo trazer. Este verbo se refere ao ato de dirigir, guiar, atrair, usar e causar, entre outros.

Verbo trazer - Presente do indicativo

(Eu) trago
(Tu) trazes
(Ele) traz
(Nós) trazemos
(Vós) trazeis
(Eles) trazem

Exemplos:

- Hoje eu trago o livro que você tinha me pedido.
- Eu trago um bolo de chocolate para a festa.

Verbo trazer - particípio: trazido

Exemplos:

- Se você tivesse dito, eu teria trazido um casaco para você.
- Eu tenho trazido meu irmão todos os dias para trabalhar.

O verbo trazer não é um verbo abundante, ou seja, não tem duas formas equivalentes do particípio. Apenas aceita o particípio regular. Assim, a frase "Se você tivesse dito, eu teria trago um casaco para você" está errada.






sábado, 31 de dezembro de 2011

Risotto al burro di tartufo bianco (risotto com manteiga de trufa branca)

RISOTTO AL BURRO DI TARTUFO BIANCO

Per 4 persone

Ingredienti per il risotto:
280 grammi di riso, mezza cipolla tritata, 50 grammi di burro, 200 ml di vino bianco, 2 lt di brodo di carne, 70 grammi di burro di tartufo bianco freddo, 80 grammi di parmigiano grattugiato, tartufo bianco fresco a piacere

Ingredienti per il brodo:
1 cipolla, 1 carota, 1 sedano, 1 pomodoro, 500 grammi di carne, sale

Preparazione del brodo:
In una pentola grande mettete gli ingredienti e aggiungete 4 litri d'acqua, portate al fuoco, fate bollire moderatamente fino ad ottenere 2 litri di brodo

Preparazione del risotto:
In una padella sciogliete 50 grammi di burro e aggiungete la cipolla tritata, friggetela finché diventi trasparente. Versate il riso, friggete un altro po' e fiammate con 200 ml di vino bianco. Lasciate evaporare e iniziate la cottura del risotto versando poco a poco il brodo di carne, mescolando ogni tanto per circa 14 minuti. Togliete dal fuoco, aggiungete il burro di tartufo freddo, il parmigiano e mescolate fino ad ottenere una consistenza cremosa e servite subito. Se volete aggiungete tartufo bianco fresco per dare più sapore.


RISOTTO COM MANTEIGA DE TRUFA BRANCA

Para 4 pessoas

Ingredientes para o risotto:
280 g de arroz, meia cebola picada, 50 g de manteiga, 200 ml de vinho branco, 2 l de caldo de carne, 70 g de manteiga de trufa branca gelada, 80 g de queijo parmesão ralado, trufa branca fresca a gosto

Ingredientes para o caldo de carne:
1 cebola, 1 cenoura, 1 talo de salsão, 1 tomate maduro, 500 g de carne, sal

Modo de fazer o caldo:
Em uma panela alta coloque os ingredientes e junte 4 litros de água, leve ao fogo e deixe ferver moderadamente até obter 2 litros de caldo.

Modo de fazer o risotto:
Em uma caçarola derreta 50 g de manteiga e junte a cebola bem picada, deixe fritar até ficar transparente. Junte o arroz, deixe fritar mais um pouco e flambe com 200 ml de vinho branco. Deixe evaporar e em seguida comece o cozimento do risotto, juntando aos poucos o caldo de carne e mexendo de vez em quando por aproximadamente 14 minutos. Retire do fogo, junte a manteiga de trufa gelada, o queijo parmesão e misture bem até ficar bem cremoso e sirva imediatamente. Se quiser coloque trufa branca fresca por cima do risotto para dar mais sabor.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ver o circo pegar fogo ou como Nero continua influenciando o imaginário popular


Há alguns anos atrás quando surgiu o Nero que permitia fazer cópias de CDs e DVDs me perguntei porque tinha recebido essse nome. E só entendi quando fui usar o programa pela primeira vez. Ele faz o "burn" (queima, ou seja,  copia).

Voltemos ao imperador Nero. No ano 64 de nossa era, um terrível incêndio destrói parte de Roma. Milhares de pessoas, aterrorizadas e com o corpo em chamas, atiram-se às águas do rio Tibre e acabam morrendo afogadas. O episódio é magistralmente reconstituído no filme Quo Vadis.

Da sacada de seu palácio imperial, Nero aparece extasiado com a cena dantesca. Insano, toma ua lira e improvisa uma canção diante de atônitos auxiliares, dentre os quais o arquiteto Phaon, autor do projeto de uma nova Roma, "livre da gentalha e de tanta imundície".

Em meio ao tumulto, corre o boato de que fora o próprio Nero o mandante do incêndio. Nessa altura, a turba ululante parte para fazer justiça com as próprias mãos.

Em pânico,  Nero cinicamente se declara "pronto para punir exemplarmente os culpados".

É quando uma sádica imperatriz Popeia traz a sugestão de inimaginável monstruosidade: atribuir a culpa da tragédia aos cristãos, idéia que logo se transforma na versão oficial e o atira às garras de leões famintos no Coliseu.

Além desse pavoroso episódio histórico, a expressão "ver o circo pegar foco" traz também a lembrança da expressão "alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo".

A ninguém, evidentemente, teria ocorrido a expressão inteira, pois ela sempre é proferida em sentido totalmente oposto.

No caso, pegar fogo quer dizer que "a festa pegou fogo", que "todo mundo se esbaldou", e não passa pela cabeça de ninguém a mais mínima fagulha.


(Revista Língua Portuguesa - Março de 2011)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pitágoras (Pitagora)


Meditação do blog do Chris Allmeida do dia 4 de setembro de 2011

"Hoje quero aproveitar parte do meu dia para organizar certas coisas em minha vida. Afinal como disse o grande pensador Pitágoras, com organização e tempo acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito. Tijolo após tijolo estou transformando meus sonhos em realidade. Não há pressa, não há desespero de causa, mantenho a constância e a disciplina para fazer o que tem que ser feito, pois sei o que quero e estou disposto a fazer o que for preciso para realizar os meus desejos. Assim como a natureza trabalha em silêncio, não criarei alardes sobre minhas ações. Farei com que minha atividade seja realizada com amor, constância e confiança."


“Oggi voglio utilizzare parte della mia giornata per organizzare certe cose nella mia vita. Come ha detto il grande pensatore Pitagora, con organizzazione e tempo si riesce a fare tutto e bene. Mattone dopo mattone trasformo in realtà tutti i miei sogni. Senza fretta, senza disperazione, mantengo la costanza e la disciplina per fare quello che va fatto perché so quello che voglio e sono disposto a fare quello che occorre per far diventare realtà i miei desideri. Come la natura che lavora in silenzio, neanch’io mi vanterò delle mie azioni. Farò sì che esse siano realizzate con amore, perseveranza e fiducia.”


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Diário de vida - Um italiano em São Paulo

Como já disse em outras postagens,  sou professora de italiano há quase 25 anos (2012 é o ano do meu jubileu de prata!!!). Já fui à Itália 8 vezes, mas faz 10 anos que não viajo para lá. Sendo assim, quando encontro um italiano aproveito para me atualizar um pouco. Geralmente os encontro em feiras no Anhembi ou é algum cliente de tradução juramentada. Todos eles no início falam comigo em português mas acabo vencendo porque respondo sempre em italiano. Vários italianos me contatam e o último que conheci faz pós em Filosofia na USP e quando vou entregar algum trabalho para ele, acabamos batendo um papinho.

É interessante saber a visão de um estrangeiro a respeito de nosso país, de nossa cidade e principalmente de nosso idioma. Uma coisa que chamou a sua atenção é o nosso costume de usar muito o diminutivo e o aumentativo e ele já percebeu algumas nuances. Por exemplo, "aquela garota é bonitinha", "ele é tão bonzinho". Aproveitei para contar o ocorrido com uma ex-aluna que apresentou um italiano como "o meu amiguinho". Em português não tem nada demais, mas em italiano, se dissermos "il mio amico" tudo bem, mas em  "il mio amichetto" o significado muda (amichetto = amante). O "amiguinho" da minha aluna ficou roxo de vergonha ao ser apresentado, mas na ocasião ela não entendeu o motivo. Como coincidências não existem, ao ler a edição de abril da revista "Língua Portuguesa" achei o seguinte artigo que fala justamente do uso dos "ãos" e dos "inhos".

O uso generalizado dos sufixos -ão e -inho pode ser um sinal de quanto os falantes do idioma são passionais

Aldo Bizzocchi

"Faz um tempão que eu não como um pratão de feijoada, com aquele feijãozinho pretinho, aquele arrozinho esperto, uma linguicinha e um torresminho pra acompanhar, sem falar na indispensável caipirinha! Ou então uma cervejinha bem geladinha, que com esse calorão não tem coisa melhor." Talvez você nunca tenha se dado conta, mas a nossa língua, especialmente a língua falada, é repleta de palavras aumentativas e diminutivas.


Talvez seja essa uma das grandes diferenças do português: a sua facilidade em criar aumentativos e diminutivos a partir de qualquer palavra ("euzinho", "devagarinho", "rapidão" - o "poetinha" Vinicius de Moraes, que adorava diminutivos, chegou a cunhar "cartinhazinha" e "morrendinho"; Guimarães Rosa criou "amormeuzinho" e "assinzinho").


Derrubando mitos

Já que essas formas são tão caras ao português, é melhor antes de mais nada derrubar alguns mitos a respeito. Em primeiro lugar, ao contrário do que nos ensinaram na escola, o grau dos substantivos (normal, aumentativo ou diminutivo) ou o dos adjetivos (normal, comparativo e superlativo) não representa um fenômeno de flexão e sim de derivação. As categorias de flexão são obrigatórias, portanto todo substantivo possui número, e todo adjetivo, gênero e número. (A oposição masculino/feminino de alguns substantivos, como menino x menina, barco x barca, professor x professora, presidente x presidenta, rei x rainha, também constitui derivação e não flexão.) Tanto que a maioria dos substantivos não tem aumentativo nem diminutivo - a não ser poeticamente. Por isso, quem concorda em gênero, número e grau não entende de concordância.


Outro mito é o de que aumentativos representam coisas grandes, e diminutivos, coisas pequenas. "Fogão" não é um fogo grande; "balão" não é uma bala gigante. Além desses casos extremos de aumentativos e diminutivos puramente formais, existem muitos outros (a maioria) que revelam muito menos o tamanho do objeto do que nosso estado de espírito em relação a ele. Meu "filhinho" pode ter 1,90 m de altura, meu "brinquedinho" pode ser uma Ferrari, meu "cãozinho" pode ser um mastim napolitano. Em compensação, uma mulher não precisa ser alta nem gorda para ser um "mulherão". Às vezes, um diminutivo é aumentativo: "rapidinho" é muito rápido, "cedinho" é bem cedo, um sujeito "espertinho" é o mesmo que um "espertalhão".

Muitas línguas não têm sufixos formadores de diminutivos ou aumentativos. Em inglês, "cachorrinho" é little dog (literalmente, "cachorro pequeno") ou puppy dog ("cão filhote"). Os poucos diminutivos ingleses portadores de sufixos são formais e estão fossilizados na língua: booklet (livreto), leaflet (folheto), eyelet (ilhós), duckling (patinho), kitten (gatinho). Outros são nomes próprios: Yardley (jardinzinho), Brooklyn (riachinho), Beverly (castorzinho). Até a expressão idiomática "um pouquinho" se diz a little bit.


Prefixos e sufixos

O inglês não tem nenhum sufixo aumentativo. Daí "carrão" ser fast car (carro veloz) e "amigão" close friend ou best friend (amigo íntimo ou melhor amigo). O alemão usa os prefixos diminutivos -chen e -lein um pouco mais extensivamente que o inglês (Hündchen, "cãozinho"; "Büchlein", "livrinho"), mas também desconhece prefixos aumentativos.

Dentre as línguas românicas, a situação do francês é bem semelhante à do inglês: "pouquinho" é petit peu, "Joãozinho" é petit Jean, e assim por diante. Já o italiano e o espanhol se assemelham mais ao português. O italiano, por sinal, utiliza com frequência advérbios no aumentativo ou diminutivo: benino ("razoavelmente bem"), benone ("muito bem"), maluccio ("um pouquinho mal"), malaccio ("muito mal"). Mas nenhuma língua que eu conheça usa aumentativos e diminutivos tão abundantemente como o português. E, o que é mais interessante, com as mais variadas nuances de sentido, do apreço ("queridinho") ao desprezo ("mulherzinha"), do carinho ("filhão") ao ódio ("bandidão"). Parece que uma cervejinha é muito mais gostosa e refrescante do que uma simples cerveja. Uma comidinha caseira é sempre apetitosa. E um cochilinho depois do almoço é altamente relaxante e reparador. E nada é mais gratificante do que torcer para o Timão, o Verdão, o Mengão . Como diríamos tudo isso em inglês? Little beer, little food, Big Team, Big
Green? Essas expressões podem até ser pronunciadas, mas nada significam na língua de Shakespeare. Nem na de Racine, nem na de Dante, nem na de Goethe.


Enfim, se é verdade que as línguas podem revelar a visão de mundo de seus falantes, eu arriscaria dizer que vemos o mundo com olhos sentimentais e compassivos. Talvez seja a cordialidade de que falou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Cordialidade que não se confunde com gentileza ou polidez; somos cordiais no sentido etimológico do termo (do latim cor, cordis, "coração"). Nossa fala é impregnada de sentimento, mesmo quando pretendemos ser neutros e objetivos, e o uso generalizado dos sufixos -ão e -inho, que se agregam a praticamente qualquer classe gramatical, mostra o quanto somos passionais.


Aldo Bizzocchi é doutor em linguística pela USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental (Annablume)