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quinta-feira, 30 de agosto de 2018
sábado, 25 de março de 2017
Tragédia em meio à grande beleza - Rodrigo Turrer
O terremoto que devastou cidades no centro da Itália expõe a fragilidade aos abalos sísmicos do país que conserva muitos monumentos históricos da humanidade
"A cidade inteira está sob escombros, conhecidos meus morreram. Sobraram poucos prédios, será impossível reconstruir tudo isso." Em meio às lágrimas, foi assim que Sergio Perozzi, prefeito de Amatrice, definiu a destruição que atingiu sua cidade e outras vizinhas depois do terrível terremoto que arrasou cidades nas regiões de Lazio, Abruzzo, Marcas e Úmbria, no centro da Itália. O lugar é um dos mais belos cartões postais da Itália. Menos badalado que Toscana, Emilia Romagna e o Vêneto, fica a duas horas de carro ou trem de Roma, na idílica região do Parque Nacional do Gran Sasso, entre os mares Tirreno e Adriático. "O paraíso virou o inferno de Dante", resumiu Perozzi.
O inferno começou na madrugada da quarta-feira, dia 24 de agosto. O terremoto de magnitude 6.2 aconteceu 100 quilômetros a nordeste de Roma. A região já enfrentou uma série de terremotos nos últimos 40 anos e fica em um dos pontos mais suscetíveis a tremores no mundo. O abalo ocorreu a uma profundidade de 10 quilômetros, considerada rasa, o que amplificou o tamanho da tragédia e os danos a edificações. Até o fechamento desta edição, na sexta-feira, dia 2, 268 haviam morrido e 387 estavam feridas.
Abalos sísmicos de grande intensidade fazem parte da rotina de quem vive ao longo da Cordilheira dos Apeninos, que corta a Itália de Norte a Sul. Segundo dados da agência governamental americana que monitora desastres naturais, a Itália, desde 2000, registrou 12 terremotos de grande intensidade. Essa atividade sísmica na região mediterrânea é resultado do grande atrito entre as placas tectônicas da África e da Eurásia. Além disso, o Mar Tirreno, no oeste da Itália, enter o continente e as ilhas da Sardenha e da Córsega, está se abrindo aos poucos, cerca de 2 centímetros por ano. Segundo especialistas, essa pressão é agravada pelo movimento da crosta terrestre do lado leste, no Mar Adriático, que estaria se movendo para "debaixo" da Itália. O resultado é um grande sistema de falhas geológicas que percorre toda a extensão da cadeia montanhosa. Cidades como Perúgia e Áquila estão localizadas em cima dessas falhas.
O epicentro do terremoto da quarta-feira foi perto da cidade de Nórcia, na região da Úmbria, que também fica em cima dessas falhas geológicas e cujo centro histórico é um ponto turístico popular. "As estruturas antissísmicas da cidade se mantiveram. Há danos ao patrimônio histórico e a prédios, mas estávamos preparados para o pior", afirmou Nicola Alemanno, prefeito de Nórcia. Ao contrário de Nórcia, outras cidades da região não estavam - e não estão - preparadas para o pior. Era o caso de Amatrice, sem dúvida a cidade que mais sofreu com o tremor. A cidade é uma pérola do Lazio, a região cuja capital é Roma. Considerada um dos berços da gastronomia do local, com suas massas sem similar e o famoso molho à amatriciana, Amatrice é chamada de "cidade das 100 igrejas" ("la città delle cento chiese"), tantas são as relíquias arquitetônicas representantes do períodos Românico, Barroco e Renascentista.
Tudo isso desapareceu no período de menos de 60 segundos em que a terra tremeu e devastou a cidade. Assim como em Amatrice, moradores de outras cidades italianas estão em risco permanente - sem contar várias das maravilhas arquitetônicas da Itália. Desde 1861, quando o país foi unificado, houve 35 grandes terremotos e 86 menores. Por causa dos inúmeros tremores, a Itália tem um dos códigos de construção mais avançados do mundo - mas ele só vale para construções novas. Mais de 75% dos edifícios da Itália têm mais de 100 anos. Igrejas, museus e outras edificações beiram a casa dos 1.000 ou 2 mil anos. As leis de conservação do patrimônio histórico restringem a modernizações que poderiam afetar a beleza de monumentos - mas, em contrapartida, torná-los mais seguros. "O desafio da Itália é avaliar a segurança sísmica de edifícios antigos e dar prioridade a intervenções para adaptação e fortalecimento", afirmou à revista Time Carmine Galasso, professor de engenharia sísmica na University College London.
O custo de lidar com a tragédia pode ser muito maior que o custo da prevenção. Em 2009, a cidade de Áquila, localizada sobre uma falha geológica que provoca abalos constantes, sofreu um dos piores terremotos da história recente da Itália. Ao menos 300 pessoas morreram e seu vasto centro histórico ficou sob escombros. Passados sete anos e um investimento de 13 bilhões de euros, o centro histórico não foi completamente recuperado - e as vidas que se foram estão perdidas para sempre.
Em um país conhecido pela burocracia e pelos entraves a modernizações como é a Itália, reformar ou melhorar edificações antigas requer um esforço hercúleo. Obras realizadas em Roma, Pisa e outras cidades italianas para fortalecer estruturas de prédios e monumentos históricos - alguns deles patrimônios da humanidade - enfrentaram sérios obstáculos para ficar prontas. A própria lei que instituiu um código de construção moderno prevendo proteções antissísmicas demorou quase dez anos para ser aprovada no Parlamento.
O terremoto que destruiu Amatrice e outras cidades em uma das regiões do mundo mais suscetíveis a terremotos é um alerta para as autoridades italianas. Um sinal de que sob a beleza estonteante da paisagem e da arquitetura do Bel Paese, como a Itália é conhecida, estão estruturas antigas e frágeis, que podem não resistir a futuros impactos e tremores.
(texto publicado na revista Época de 29 de agosto de 2016)
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
sábado, 13 de agosto de 2016
La dolce villa - Eric Wilson
Há 35 anos, Roberto e Eva Cavalli vivem na mesma casa, em Florença. Em meio a peças de arte renascentistas e pinturas contemporâneas, a família, que não para de crescer, desponta como o bem mais valioso.
Não seria exagero afirmar que hoje, na Itália, ao menos geograficamente, um estilista ocupa o lugar que um dia foi do mais famoso e temido clã de mecenas da Itália, a família Medici, que nos séculos 14 e 15 dominou a Toscana. Do alto de uma colina, em Florença, Roberto Cavalli avista sua propriedade, de tirar o fôlego: 16 hectares, ornamentados por alamedas de oliveiras (são mais de 2 mil árvores, plantadas em caminhos perfeitamente simétricos). No topo do terreno, onde a luz dourada do amanhecer confere tons pastel ao céu, fica a construção, que começou sua história como uma fazenda no século 15 e, com o passar dos anos, tornou-se tão luxosa quanto um palácio. Piscina coberta e ao ar livre, sauna e heliporto são apenas alguns dos confortos modernos. Também chamam a atenção os irrequietos papagaios e araras - alguns mantidos dentro de casa, outros habitando uma estrutura de vidro, construída sob a orientação do arquiteto italiano Italo Rota em 2008. Como se pode ver, no lar em que divide com a mulher, Eva, desde 1975, não há nada que possa ser considerado pequeno ou pouco. Exatamente como as coleções de moda assinadas pelo casal (ela também é sua parceira criativa), o lugar é um tributo ao sucesso e ao excesso. "É possível ver a casa de longe. Quando localizo minha colina e minha torre, fico todo orgulhoso", diz Cavalli, sentado confortavelmente numa cadeira de diretor em uma das muitas salas da villa. "As pedras dessas paredes têm 600 anos de idade", frisa. Ele gosta de dizer que Florença, sua cidade natal, está presente em seu sangue. "Às vezes, quando estou sozinho, tarde da noite, fico ouvindo Beethoven e Chopin e gostaria que eles pudessem conversar comigo. Talvez me contassem histórias sobre a cidade e as pessoas que viveram antes de mim. E imagino, daqui a 500 anos, quem poderá morar aqui? Afinal, é meu espaço agaora."
Apesar de eclética, a decoração guarda um ponto em comum: todos os objetos têm uma história particular. Uma das camas, por exemplo, fez parte do cenário de um desfile do estilista inspirado em Luisa Casati, uma marquesa que chocou a sociedade de Veneza, na primeira metade do século 20, porque usava cobras no lugar de joias e passeava com uma dupla de guepardos presos por coleiras de diamantes. "Meus amigos costumam dizer: 'Roberto, você mistura peças de estilos muito diferentes'. Mas por que se importam tanto? Escolho objetos que façam me lembrar da minha vida." Cavalli conheceu Eva durante um concurso de Miss Universo. Ele fazia parte do júri e ela era a representante da Áustria. Passados os anos, ambos mantêm o amor pela propriedade e pela família. Os sete netos, com idade de 2 a 11 anos, são recebidos com mimos e regalias. "Dou a eles o que quiserem", conta Eva. "Deixo que mexam em tudo. Eles ficam surpresos porque são muito comportados quando estão com seus pais." Em tudo mesmo? Até nas coleções de talismãs, globos de vidro, obeliscos de pedras e outros símbolos de sorte que ela guarda com carinho? Ela sorri e afirma que hoje está quase minimalista, com a maioria dos enfeites guardada no sótão. "Sempre fui extravagante. Acho que uma casa precisa ter a estética de quem mora nela. Nunca poderia pedir a um arquiteto que cuidasse de tudo. É preciso haver uma relação com as coisas que nos rodeiam", diz.
Um móvel, extremamente útil na maioria dos lares, foi preterido pelos Cavalli: uma mesa de jantar convencional. Quase toda a mobília que há nas salas pode ser removida ou empurrada para os cantos quando o casal resolve receber mais de 200 pessoas de uma hora para outra. Nessas ocasiões, Eva prefere utilizar pequenas mesas desmontáveis, que cobre com tecidos de animal print, candelabros e correntes. Ela já chegou a usar joias para enfeitar as festas até que um dia seu filho mais novo, Roberto, rompeu um colar de pérolas sobre o chão de terracota. Atrás da enorme garagem, que fica na parte norte da propriedade e guarda o helicóptero da família, fica o estúdio de Cavalli, repleto de pinturas e estátuas. Lá também ficam Nero, uma cacatua negra, originária da Papua Nova Guiné, Oro e Bianca, duas cacatuas brancas, Verde e Marrone, dois papagaios, Rosa e Viola, cachorras da raça yorkshire, Lupo, o pastor alemão, e finalmente, Ciallis, o gato, cujo curioso nome é o mesmo de um remédio para disfunção erétil. "Não sei explicar, mas eu os amo demais", afirma o estilista. Por isso, quando ele voa para Milão, para um dia ou dois de trabalho, ou embarca em seu iate, para momentos de descanso, ele leva consigo parte da tribo. Para ele, a família nunca fica para trás.
(texto publicado na revista Estilo de vida - abril de 2015)
domingo, 27 de setembro de 2015
Michelangelo total - Antonio Gonçalves Filho
O biógrafo inglês Martin Gayford fala de seu livro monumental sobre o artista
O escultor e pintor renascentista Michelangelo Buonarrotti (1475-1564) não era das pessoas mais agradáveis de Florença. Seus contemporâneos, como o prior da igreja de San Lorenzo, Giovan Battista Figiovanni, amigo e protetor, dizia que nem mesmo a paciência de Jó seria suficiente para aguentar o homem. Contudo, um acadêmico inglês, o professor Martin Gayford, de 63 anos, não contente com as toneladas de papel já gastas para explicar a difícil personalidade do criador do David - a mais conhecida escultura da Renascença italiana - resolveu, como diz, "aumentar os Alpes Apuanos dos estudos já existentes sobre Michelangelo", fazendo da mulher Josephine sua primeira leitora e do filho Tom o compilador da bibliografia monumental (754 páginas) que acompanha a biografia Michelangelo - Uma Vida Épica, lançada pela editora Cosac Naify.
Gayford está de férias, mas concedeu uma entrevista, por telefone, ao Caderno 2, de Dubrovnik, a agradável cidade costeira da Croácia, para falar do desagradável Michelangelo, o mais celebrado de todos os artistas que pisaram sobre o planeta - e, no seu caso, também sobre as cabeças de papas e outros gênios como ele. Leonardo da Vinci, por exemplo. A rusga entre os dois ganha um capítulo (9) inteiro na biografia de Gayford.
Da Vinci era um rival mais sociável, simpático e bonito que Michelangelo, ainda que 23 anos mais velho. Cosmopolita e vocacionado cortesão, sempre andava com sua entourage caçoando de espíritos solitários como Michelangelo, que, fascinado por sua pintura, até ensaiou uma versão da Madona e o Menino com Sant'Ana, de Da Vinci, num bloco de desenho, aos 26 anos, justamente a idade em que começou a esculpir seu David, em 1501.
O biógrafo conta que Da Vinci passava um dia pela Piazza Santa Trinita quando reconheceu alguns amigos discutindo uma passagem de Dante, para a qual pediram sua opinião. Coincidentemente, Michelangelo passava pelo local, sendo interpelado por Da Vinci para elucidar o trecho dantesco. Furioso, por ser alvo de um cruel bullying intelectual, o escultor respondeu: "Explica-o tu,que fizeste o desenho de um cavalo para ser moldado em bronze mas foste incapaz de moldá-lo". A amizade entre os dois jamais voltaria a ser a mesma, se é que um dia foi sincera.
Da Vinci deu o troco quando o David de Michelangelo ficou pronto. Sugeriu que cobrissem sua nudez, que poderia ser "chocante para exibição pública". Seu conselho foi seguido pelos poderosos. Suas partes íntimas foram cobertas por uma guirlanda de flores douradas e assim permaneceu o gigantesco David por séculos, até que o bom senso prevalecesse. São passagens como essa que tornam a leitura da biografia escrita por Gayford recomendável para quem quiser saber como era a vida em Florença nos tempos de Maquiavel.
O acadêmico faz do tripé sexo-política-religião o sustentáculo de uma análise acurada e nada impressionista. Sua fonte principal, além da biografia de Condivi, contemporãneo de Michelangelo, foram os cinco volumes de cartas que o artista trocou com papas, amigos, poetas (Aretino, entre eles) e políticos poderosos, inclusive as mais íntimas, em que descreve, por exemplo, sua paixão por um adolescente aristocrata, o romano Tommaso de' Cavalieri, que deveria ter entre 12 e 20 anos quando conheceu o escultor (a essa altura já na casa dos 50).
O biógrafo não trata da questão de forma escandalosa, justificando essa atração como neoplatônica. Na corte de Lourenço, o Magnífico, amor à beleza era uma experiência do bem, o que, em termos cristãos, equivale a dizer, do divino. Michelangelo dizia nas cartas que contemplar o rosto de Tommaso era como fazer sua alma ascender a Deus.
Outros críticos e historiadores discordam dele. O falecido Leo Steinbeg (1920-2011), por exemplo, tentou explicar a mais enigmática das pinturas de Michelangelo, o Tondo Doni, como uma afirmação carnal de sua homossexualidade diante da Igreja. Isso numa época em que gays iam parar na fogueira do dominicano Savonarola. Em tempo: O Tondo Doni (cerca de 1507), uma pintura redonda como indica o título, mostra a Sagrada Família separada de cinco gays se agarrando ao fundo, intermediados pela figura de S. João Batista, talvez na esperança de que o batismo os redima.
"Florença era liberal com relação a homossexuais até a ascensão de Savonarola, mas sabe-se pouco da vida íntima de Michelangelo, embora algumas cartas de amigos o aconselhem contra as patrulhas da noite que perseguiam os gays." Em todo caso, a profusão de homens nus nos desenhos e na pintura da Capela Sistina - que levou um papa a compará-la a um bordel masculino - é justificada pelo biógrafo como uma obsessão de Michelangelo pelo corpo masculino como signo da perfeição. "Foi essa beleza, mais que o sexo, que o levou a interpretações eróticas como os desenhos do mito de Ganimedes."
Seja como for, os conflitos amorosos e as fantasias sexuais dos artistas sempre aparecem como elementos indutores da criação artística nas biografias de Gayford - e ele escreveu sobre a conflituosa relação entre Van Gogh e Gauguin e a paixão de Constable por sua musa Maria Bicknell. "Não diria que Michelangelo criou todas aquelas esculturas e pinturas repletas de corpos masculinos nus para provocar a igreja, mas por acreditar na beleza como elemento transcendental. Tanto assim, lembra o professor, que, na velhice, Michelangelo chamava aqueles homens de "bonecos", seres destituídos de alma.
Entrando no último período de sua vida, de fato, Michelangelo recomeça a pintar - ele gostava mais de esculpir. Em 1542, sua visão do gênero humano, segundo Gayford, se transforma. No afresco Conversão de São Paulo, na capela Paulina, ele "projeta Cristo como um míssil espiritual do alto para baixo, como um raio de luz dourada na estrada de Damasco" (e evoque-se, o rosto de São Paulo é quase um autorretrato de Michelangelo).
"Van Gogh foi crucificado na crença, mas Michelangelo não", observa o biógrafo. Exemplo disso pode ser sua escultura Cristo Ressurecto, objeto de uma reclamação de Metello Vari, que encomendou a obra para a igreja de Santa Maria sopra Minerva. Vari não gostou do Cristo nu. Muito menos de sua expressão de indiferença diante da ressurreição. "No fim, entendi sua personalidade, a de um homem de uma ambição sem limites que só pensava na arte e um artista a serviço do poder."
(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo - Caderno 2 - C3 - 12 de setembro de 2015)
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
A tradição por testemunha - J. A. Dias Lopes
Radicada desde a Idade Média no Vêneto, na Itália, onde faz bom vinho e ótima comida, só agora a família de Dante Alighieri, o autor de A Divina Comédia, volta a ter negócios na Toscana, terra de seu glorioso ancestral
Sete séculos depois, os Alighieri estão retornando à Toscana, a região italiana da qual seu ascendente Dante, o genial autor de A Divina Comédia, teve de fugir após ser condenado à morte por razões políticas, em 1300. Desde a Idade Média vivem na localidade de Gargagnago di Valpolicella, vizinha de Verona, na Região do Vêneto. Ali o grande poeta ficou exilado durante alguns anos. Só agora os Alighieri voltam a ter negócios na Toscana. Adquiriram 75 hectares em Cinigiano, entre Val d'Orcia e Montalcino, em parceria com Sandro Boscaini, presidente da Masi, um dos mais prestigiados grupos vinhateiros italianos. Já plantaram 18 hectares da uva Sangiovese e esperam ter a primeira safra em 2004.
Uma mágoa de vinte gerações os impedia de reatar com a região de origem, apesar dos acenos de títulos honoríficos chegados da terra arrependida. A briga era, na verdade, com a cidade natal do poeta, Florença. O partido de Dante foi derrotado e ele era inimigo dos vitoriosos. Teve de passar o resto da vida foragido para escapar à execução. Converteu-se no protótipo do exilado e transmitiu seus ressentimentos à descendência. Em 1320, trocou Verona por Ravenna, na Emilia-Romanha, onde morreu e foi sepultado no ano seguinte. Apesar dos esforços seculares, os florentinos sempre tiveram dificuldades em receber os restos mortais do poeta.
Após a morte de Dante, o juiz Pietro, um de seus três filhos, retornou a Verona e comprou, em 1353, a propriedade Casal dei Ronchi, em Gargagnago. Nela teria vivido com o pai. Até hoje a família reside ali, na antiga sede, cultivando seus 130 hectares de terras. Produz uvas, vinho, grappa, azeitonas, mel, castanhas, frutas, conservas e dois tipos de arroz, vialone nano e carnaroli. Deve ser o mais antigo vinhedo em exploração contínua do mundo. Seus tintos e brancos são agora elaborados sob a direção técnica de Sandro Boscaini, da Masi, sócia majoritária dos Alighieri e consagrada pela qualidade dos tintos, especialmente pelo Amarone della Valpolicella, seco, e o Recioto della Valpolicella, doce.
Não por acaso, o sobrenome Alighieri também se associa a esses dois vinhos famosos. No caso do Amarone, uvas lentamente "apassite", ou seja, transformadas em passa, produzem um vinho exclusivo, concentrado, complexo, equilibrado, aveludado, alcoólico e longevo. Chama-se Vaio Amaron. A Divina Comédia se compõe de 14 233 versos e está dividida em três partes: o Inferno, com 34 cantos; o Purgatório, com 33; e o Paraíso, também com 33. A forma métrica é a "terza rima". Acredita-se que o Paraíso tenha sido escrito em Casal dei Ronchi. O atual patriarca da família se chama conde Pieralvise Serego Alighieri. Os italianos o conhecem como vinhateiro, agricultor, intelectual e colecionador de antiguidades.
O sobrenome Alighieri quase desapareceu no século XVI, quando o último descendente masculino do poeta, Francesco, ingressou na vida religiosa. Mas, consciente do problema criado pelo voto de castidade que fizera, tratou de desrespeitá-lo. Convenceu uma mulher de Verona a ter um filho com ele - e foi à luta. A empreitada não teve sucesso. Do relacionamento nasceram três meninas - e nenhum menino. Após reconhecer as filhas e conceder a cada uma o dote de 1 000 ducados, Francesco redigiu seu testamento. Destinou t udo o que tinha - inclusive a parte em Casal dei Ronchi - ao primeiro filho homem da sobrinha Ginevra.
(texto publicado na revista Gula nº 120 - ano 10 - outubro 2002)
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Il complesso geotermico de Larderello
Complesso geotermico di Larderello
Storia della geotermia a Larderello
sábado, 15 de agosto de 2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
6 Gafes a se evitar durante o Palio de Siena - Babi Campanaro (Viva Toscana)
O Palio de Siena é uma das festas tradicionais italianas mais famosas no mundo! Para os seneses os dias do Palio são dias de muita festa mas também de grande tensão. Por isto, em certas situações é melhor ter um pouco de prudência. O site Il Palio adverte os visitantes que querem participar das festividades o que não se deve fazer:
1. Não tentar em algum modo se aproximar dos cavalos
Em proximidade das baias dos cavalos de cada contrada, você encontrará bloqueio de barras e pessoas. Não tente ultrapassá-los. Também não incomode os cavalos com gritos durante o dia ou noite.
2. Não incomodar os "contradaioli" nos momentos de maior tensão
Durante o acompanhamento dos cavalos às provas, nos minutos antes da corrida e depois (caso estiverem tristes e bravos por terem perdido). Antes do Palio, não diga à um "contradaioli" que a sua Contrada é a favorita ou que vencerá, pois as reações podem ser imprevisíveis.
3. Não atrapalhar a vista de quem se encontra em praça
Dentro da praça, não levante nada que possa atrapalhar a visão das pessoas ao redor: crianças sobre os ombros, bandeiras, lenços, tablets, entre outros...
4. Não reclamar
Não faça comentários sarcásticos sobre a tensão dos "contradaioli" quando estiverem próximos à corrida. Não protestar com gritos ou assovios caso a operação na "mossa" (largada) leve muito tempo.
5. Seguir as orientações dos "contradaioli"
Se um "contradaioli" te pede para se afastar de uma certa área, siga a sua instrução sem reclamar, seja no dia do Palio que nos dias de provas.
6. Não se envolver em brigas entre as "Contradas"
Caso presencie alguma discussão ou briga entre "contradaioli" rivais, afaste-se rapidamente. Não tente filmar ou tirar fotos, pois caso te vejam, é muito provável que te danifiquem o aparelho.
domingo, 9 de agosto de 2015
Dante Alighieri e la lingua „Espressioni e parole inventate da Dante che usiamo ancora oggi - Deborah Macchiavelli (Firenze Today)
Dante Alighieri e la lingua
Padre della lingua italiana, il sommo poeta ha lasciato un'impronta indelebile nella storia della letteratura, creando delle espressioni divenute proverbiali. Ecco quelle più famose, che molti utilizzano senza saperlo
Fertile
Un aggettivo oggi diffusissimo, ma che nel '300 non era ancora entrato nell'uso comune. Fu proprio grazie alla Divina Commedia che questo latinismo venne introdotto per la prima volta. Dal verbo latino ferre, ovvero “portare, produrre”, Dante utilizza questo termine nel canto XI del Paradiso: siamo nel celebre canto di San Francesco, e la “fertile costa” (verso 45) descritta dal poeta indica il luogo dove nacque il santo.
Gabbo/gabbare
Il verbo “gabbare” compare per ben 4 volte in un'altra celebre opera dantesca, Vita Nova, dove il poeta ripercorre le tappe fondamentali del suo amore per Beatrice. La parola deriva dal francese antico “gaber”, tratto a sua volta dall'antico nordico “gabb”, ovvero “scherzo, beffa”. Il verbo è già presente nella lingua fin dai primi anni del XIII secolo con il significato di “ingannare, prendersi gioco”, anche se la fortuna del termine, insieme al sostantivo “gabbo”, è certamente attribuibile agli scritti del poeta. Si pensi, ad esempio, al celebre proverbio “ fatta la grazia/finita la festa, gabbato lo santo”.
Mesto
Un termine che compare per la prima volta proprio nella Divina Commedia, ricorrendo per ben tre volte nella cantica infernale. Dal latino “maestus”, participio passato del verbo “maerere”, ovvero “essere addolorato”, il sommo utilizza questo termine per descrivere la triste condizione dei dannati.
Molesto
Dal latino “moles”, ovvero “peso, fardello”, questo termine è presente in tre canti infernali e in uno del Paradiso. Gli episodi in cui è ricorre sono famosissimi, da quello di Farinata degli Uberti fino al canto di Cacciaguida, che usa il termine per annunciare al poeta il triste futuro che lo attende. Anche in questo caso il termine era già in uso, ma fu certamente il poeta a decretarne la diffusione capillare.
Quisquilia
Altro termine latino, traducibile con “rifiuti, immondezze” e con il significato di “bazzecola, inezia, piccolezza”. Sebbene l'uso sia attestato già nel 1321, è ancora una volta Dante a diffonderne il significato moderno, così come lo conosciamo oggi, nel XVI canto del Paradiso.
Far tremare le vene e i polsi
Ancora oggi la usiamo per riferirci a qualcosa che ci terrorizza profondamente. Dante la utilizza nel canto I dell'inferno, quando nei versi 87-90 chiede a Virgilio di salvarlo dalla Lupa, una delle tre fiere che ha incontrato nella selva oscura, dove “la dritta via era smarrita” (v.3, canto I).
Non mi tange
Ovvero “non mi sfiora neppure, non mi interessa”. E' Beatrice a pronunciare queste parole nel canto II dell'Inferno, quando spiega a a Virgilio di non temere affatto il regno di Lucifero, poiché lei è una creatura di Dio, ormai tra i beati del Paradiso, e quindi l'infelicità di quel luogo non ha alcun effetto su di lei.
Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate
Sicuramente avrete letto questa frase sul portone di qualche scuola. Si tratta dei terribili versi incisi sulla porta dell'inferno (v. 9, canto III), che ammoniscono chi entra a lasciarsi alle spalle ogni speranza di salvezza dall'eterna dannazione.
Il gran rifiuto
Colui che “fece per viltade il “gran rifiuto” (v.60) nel canto III dell'inferno altri non è che Celestino V, il papa che rinunciò al pontificato (dove gli successe Bonifacio VIII, tra i promotori dell'esilio di Dante), in favore di una vita eremitica. Questo dannato si trova fra coloro che vissero “sanza 'nfamia e sanza lodo” (v.38). Si tratta degli ignavi, coloro che in vita non ebbero il coraggio di prendere una posizione tra bene e male, evitando di assumersi le proprie responsabilità.
Non ragioniam di lor, ma guarda e passa
Nel canto III ha origine un altro famosissimo proverbio. Con queste parole (spesso riportate con la variante "non ti curar di loro") Virgilio esorta Dante a non parlare con gli ignavi, rivolgendo loro la stessa indifferenza e apatia che essi ebbero nei confronti del mondo quando erano in vita. Perché certe volte, l'indifferenza è più forte dell'odio.
Galeotto fu…
Nella versione originale la frase termina con “'l libro e chi lo scrisse”, oggi invece siamo soliti completarla con le espressioni più variegate. Ci troviamo nel famosissimo canto V dell'Inferno, dove Francesca racconta al poeta il suo infelice amore per Paolo. I due amanti infatti si innamorarono leggendo un libro sulle imprese di Lancillotto e i cavalieri della Tavola Rotonda, dove fu proprio Galehaut, siniscalco di Ginevra, a spingere la regina tra le braccia del bel cavaliere, tradendo così re Artù. Il libro che la coppia di Rimini leggeva (prima di abbandonarsi ad un peccaminoso bacio) ha dunque assolto lo stesso compito che nel racconto cavalleresco fu di Galeotto: spingere l'uno tra le braccia dell'altra.
Fatti non foste a viver come bruti...
...ma per seguir virtute e canoscenza” (vv.119-120,canto XXVI ). E' con queste parole che il personaggio di Ulisse incita i suoi compagni a seguirlo nella folle impresa di attraversare le colonne d'Ercole (lo stretto di Gibilterra), un tempo ritenute i confini del mondo. Oggi è un'espressione proverbiale, usata per incitare a vivere come uomini e non come bestie, seguendo la virtù e e la scienza come grandi ideali.
Cosa fatta, capo ha
Proverbio che più toscano non si può, che Dante cita nel canto XXVIII dell'inferno con le parole "capo ha cosa fatta" (v.107). Il poeta riporta la frase attribuita a Mosca dei Lamberti, che pronunciò il celebre motto durante una riunione indetta per uccidere Buondelmonte dei Buondelmonti. La frase risoluta significa che una cosa, quando viene fatta, ha sempre un capo, ovvero un fine, uno scopo preciso, mentre l'indugiare non porta a nulla.
Stai fresco
Un'espressione comunissima, che deriva dalla struttura stessa dell'Inferno dantesco. Secondo il poeta il regno di Lucifero avrebbe la forma di un cono rovesciato, il cui vertice coinciderebbe col centro della Terra. E' proprio nel nono cerchio, il punto più basso della struttura, che si trovano i traditori, ovvero coloro che si sono macchiati del peccato più grave agli occhi di Dio e che, a seconda della gravità della colpa, sono più o meno immersi nel Cocito, un enorme lago ghiacciato. Nel XXXII canto con l'espressione “i peccatori stanno freschi” (verso 117), il poeta si riferisce proprio a questa zona, dove i dannati vengono colpiti da gelide raffiche di vento prodotte dalle ali di Lucifero. Grazie alle potenti immagini del poeta, l'espressione viene ancora usata per indicare qualcosa che andrà a finire male.
Il fiero pasto
Un pasto bestiale, ovvero quello che il Conte Ugolino sta consumando nel canto XXXIII dell'Inferno. Quando Dante e Virgilio arrivano al suo cospetto, il dannato imprigionato nel ghiaccio sta letteralmente divorando il cranio dell'arcivescovo Ruggieri, colui che in vita fu la causa di tutte le sue sventure che lo portarono all'Inferno. Un vero e proprio atto di cannibalismo, con cui il Conte cerca invano di vendicarsi.
Il bel paese
Sempre nel canto del Conte Ugolino, Dante si abbandona ad un'invettiva contro la città di Pisa, definendola “vituperio de le genti” di quel “bel paese là dove 'l sì suona” (vv.79-80). Dante definisce la Penisola un “bel paese” dove si parla il volgare del sì, ovvero l'italiano volgare.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Os caminhos da roça - Rachel Verano
Cidades medievais, vinhedos, campos de girassóis, obras de arte. Cinco roteiros de carro para se perder e encontrar os segredos bem guardados da TOSCANA
A luz do fim de tarde dourava os campos cobertos de vinhedos e, lá na frente, os enormes ciprestes eram naquela hora apenas silhuetas no alto da colina, envoltas numa fina névoa. Impecável em um terninho preto, Giovanna Romanzi rompe o silêncio com um longo suspiro, tira a cãmera do bolso e começa a fotografar. Até aí nada demais, não fosse o fato de que Giovanna mora exatamente ali - e estava a trabalho. Há dois anos ela foi contratada por um hotel de luxo e se mudou de Roma para a região de Grosseto, a pouco mais de duas horas de distância da capital. Não demorou muito para que incorporasse aos folders e cartões de visita do trabalho a tal cãmera, sempre a tiracolo. "Me surpreendo a todo momento", diz ela. "A cada hora do dia temos uma paisagem diferente, uma luz diferente, uma cena ainda mais mágica." É fácil entender o que ela está falando. A Toscana parece um cenário produzido - de qualquer ângulo, a qualquer hora e qualquer que seja a direção, vai ter sempre um cartão postal escancarado na nossa frente. Um campo de girassóis que sobe e desce suavemente as montanhas. Um caminho cheio de curvas, ladeado de ciprestes simétricos. Uma igrejinha de pedra isolada no alto da colina. Um castelo imponente que surge do nada no meio de uma estradinha de terra que parecia levar a lugar nenhum. Respire fundo, desacelere a alma, tire o relógio do pulso. Até porque o tempo por aqui é outro... A seguir, propomos cinco roteiros de carro pela região. Um conselho: não os siga à risca, apenas se oriente. O melhor da Toscana surge assim, quando menos se espera. E a surpresa faz parte do pacote.
Montepulciano/Pienza/Montalcino
Num pequeno trecho de menos de 30 quilômetros de estrada, a Toscana se entrega de bandeja com todas aquelas paisagens que você já viu nos livros e no cinema. É a região ideal para quem tem pouco tempo. Montepulciano tem um belo centro histórico que é uma sucessão de vielas imperfeitas e fachadas irregulares. Pienza, uma cidadela monocromática cercada de campos verdes de doer. E Montalcino, uma pequena vila de 5 mil habitantes erguida no topo de uma colina, cercada por alguns dos vinhedos mais afamados do mundo: os que dão origem ao vinho Brunello de Montalcino, uma das jóias italianas. Entre elas, campos dourados de feno, ilhas de ciprestes à beira da rodovia, campos de girassóis, casas singelas construídas no alto dos morros. Erre o caminho, busque as estradas secundárias. Não faça planos, mas não vá embora antes de conhecer alguns highlights: o Tempio de San Biaggio, nos arredores de Montepulciano, um belo exemplar da arquitetura renascentista, erguido no século 16; a pequenino vila de Monticiello, com suas casas de pedra, floreiras nas janelas e a sensação de que o tempo parou; as muitas enotecas de Montalcino, para fazer degustações com vista dos vinhedos (oque é ainda mais especial); e a Abbazia di Sant'Antimo, nos arredores da cidade, construída no meio de um vale de oliveiras centenárias, onde monges entoam cantos gregorianos várias vezes ao dia. A região é ainda famosa produtora do queijo pecorino, feito com leite de cabra, e é possível visitar diversas fábricas pelo caminho.
Siena/San Gimignano/Florença
O coração desta região tem um nome mágico: Chianti. Para apreciadores de vinho, não é preciso dizer muito mais. As terras localizadas entre Siena e Florença são cobertas de belos vinhedos. No meio deles, aqui e ali, pipocam castelos medievais, vilas minúsculas, abadias centenárias, muitas adegas e algumas curiosidades, como o fato de que Monalisa, a musa de Da Vinci, teria nascido por aqui, na villa Vignamaggio, em 1479. No meio de tudo isso serpenteia a S-222, uma estradinha secundária de cerca de 70 quilômetros de extensão, quase sempre vazia (apressados preferem a auto-estrada que corre paralela). Numa ponta fica Siena, com seu charmoso centro histórico de ruelas estreitas. No coração da cidade, a Piazza del Campo reina soberana como uma das mais belas praças do país, aos pés da Torre del Mangia, de onde se tem uma linda vista de toda a região. É ali que Siena se transforma nos dias 2 de julho e 16 de agosto para sediar a mais antiga e emocionante corrida de cavalos do mundo, o Palio. Na outra extremidade, Florença. Todos os caminhos levam ao Duomo, o grande cartão-postal da cidade desde o século 15. E, de lá, à Piazza della Signoria, às grandes obras da Accademia e da Galleria Uffizi, ao Palazzo Pitti, aos Jardins de Boboli, ao Rio Arno, à Ponte Vecchio... E também aos melhores gelatos do país. A 53 quilômetros dali (e a 40 de Siena) fica outra bela cidadezinha-cenário: San Gimignano, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Fundada no século 10, é famosa por suas torres medievais superbem preservadas - são ao todo 14.
Pisa/Lucca
Pisa é grande (tem cerca de 100 mil habitantes). É industrial. E, verdade seja dita, é feinha. Talvez não fosse em qualquer outro canto do mundo, mas na Toscana, onde cada vila parece ter sido esculpida à mão, ela é, sim. E é justamente por ser assim que ela precisa ser visitada. Ela não, a Piazza dei Miracoli. Percorrer as ruas sem graça dos arredores e de repente dar de cara com aquele descampado com o belo Duomo e, ao lado, a famosa torre inclinada, que começou a ser construída ainda no século 12, é um choque delicioso e imperdível. Mas que não demanda mais do que uma tarde. A menos de 40 quilômetros de distância fica a puco conhecida e badalada Lucca, um charme. No centro histórico, todo murado, o trânsito de pessoas divide espaço com o de bicicletas e, no final, tudo converge para a curiosíssima Piazza Anfiteatro, uma praça completamente oval no meio da cidadela. Nos arredores há vilinhas interessantes e uma concentração de cursos de culinária. Quem quiser aprender a fazer cantucci, o tradicional biscoito de amêndoas normalmente acompanhado por um cálice de vin santo, ou saber a diferença entre bresaola, pastrami e prosciutto, pode se hospedar em belos palacetes e passar uns dias de avental e gorro pela mais tradicional zona rural italiana, com direito a visitas a deliciosos mercados e feiras de rua, como a que acontece na pequenina Pistoia aos sábados pela manhã.
Cortona/Arezzo
Cena rum: um desajeitado Guido Orefici percorre as ruelas de um lindo centro histórico de bicicleta e sorriso escancarado, deixando ecoar pelos becos um sonoro "buongiorno principessa" para sua amada. Cena dois: uma escritora norte-americana recém-separada do marido embarca numa excursão para a Itália e, ao fazer um passeio pelo interior do país, se encanta com a região, manda o motorista parar, desce do ônibus, compra uma casa e nunca mais vai embora. Nos últimos tempos, essa região da Toscana foi elevada ao status de celebridade depois de ter servido de pano de fundo para sucessos de Hollywood. O primeiro, A Vida é Bela, protagonizado por Roberto Benigni, se passa no centro de Arezzo, um emaranhado de ruinhas calçadas recheadas de café, lojas de antiguidades e pequenos empórios que vendem massas e vinhos. O segundo, Sob o Sol da Toscana, narra a aventura real da escritora Frances Mayes em Cortona, uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes de origem etrusca, encarapitada no topo de um morro cercado de vinhedos. As duas foram feitas para ser saboreadas sem pressa. De preferência num café com vista. A estradinha que liga uma à outra tem menos de 30 quilômetros de extensão e os mais impressionantes campos de girassóis do país, durante os meses do verão. Reserve uma tarde para conhecer Il Borro, a 20 quilômetros de Arezzo, uma minúscula vila medieval do século 11 comprada e completamente recuperada pela tradicional família Ferragamo (leia-se Salvatore Ferragamo, uma das mais renomadas grifes italianas). As fachadas coloridas e gastas escondem segredos que quase já não existem mais - há um sapateiro que confecciona calçados à mão sob encomenda, um ourives, um marceneiro que faz brinquedos de madeira... Uma verdadeira viagem no tempo.
Maremma
Depois de meia hora andando numa trilha aberta na mata, com suaves descidas e subidas, a grande surpresa: uma faixa estreita de areia fina e branquinha e o mar azul, azul, tipo piscina. Pouca gente, nenhuma barraquinha, nenhum ambulante. Precisar, nem precisava. Mas a Toscana tem até praia. E a Cala Violina é maias um desses segredos que vão sendo revelados aos poucos. Maremma é a região onde a Toscana encontra o mar. Um Tirreno de águas tranquilas e transparentes que emoldura aquela mesma paisagem de cinema do interior. São 130 quilômetros de costa de frente para as ilhas do Arquipélago Toscano (Elba é a maior delas). A cidade mais encantadora dos arredores é Castiglione della Pescaia. Uma vilinha medieval que sobe o morro suavemente até encontrar o castelo e as muralhas lá no alto. Pelo caminho, se espalham cafés, mesas ao ar livre em pracinhas e um silêncio quase absoluto. Foi a poucos quilômetros dali que o chef Alain Ducasse resolveu abrir o seu primeiro country-inn italiano, instalado na antiga residência de caça de Leopoldo II de Lorena, o último duque da Toscana. Para chegar até o palacete de cor ocre é preciso percorrer uma estrada de 1 quilômetro de extensão em linha reta, ladeada por ciprestes - L'Andana, que emprestou o nome ao hotel. De um lado, oliveiras cobrem todo o morro. Do outro, os vinhedos seguem até onde a vista alcança. Foi ali que, naquele final de tarde da primavera, Giovanna suspirou. Poderia ter sido em Cortona, Siena, Montalcino, Florença ou na pequena Monticello. A Toscana é assim.
(texto publicado na revista Viagem e Turismo - O melhor da Itália - eidção 139-B)
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Il pane toscano: tra storia e leggenda (I Balsamic)
Firenze: Come mai prima nel capoluogo toscano e poi nel resto della regione si è diffusa l'usanza di mangiare pane senza sale? In merito si possono fare differenti ipotesi: a un occhio esterno la più plausibile è che un pane insipido sia l'accompagnamento più adatto per gustare al meglio una cucina tanto saporita come quella toscana.
Ma per chi è di Firenze il motivo per cui questo pane è entrato nel loro costume culinario è uno ed uno solo: la rivalità con Pisa. Infatti la leggenda narra che intorno al 1100 Pisa, allora fiorente repubblica marinara, bloccò la vendita di sale verso Firenze. Le due città erano in guerra e i pisani pensavano che senza sale i loro nemici si sarebbero arresi. È necessario ricordare che il sale all'epoca era importantissimo perché, oltre ad essere utilizzato nella preparazione dei cibi, aveva la funzione di conservare gli alimenti. E così i fiorentini, pur di non arrendersi, destinarono il poco sale a disposizione per preservare le scorte di cibo ed iniziarono a produrre pane insipido.
Questa è la storia che si tramanda. Ma è anche vero che il sale a Firenze era fortemente tassato ed è possibile che gran parte della popolazione abbia rinunciato ad utilizzarlo in cucina... quindi perché non dare la colpa dell'alto prezzo ai rivali pisani?... D'altronde a Firenze si usa ancora dire: "Meglio un morto in casa che un pisano all'uscio!".
In ogni caso, leggenda o verità, quella che sembrava una soluzione momentanea, si consolidò in brevissimo tempo e diventò un elemento caratteristico della cultura fiorentina; è per questo che Dante nel XVII Canto del Paradiso della Divina Commedia arriverà a dire "tu proverai sì come sa di sale lo pane altrui" per manifestare, dalla sua condizione di esule, la grande nostalgia per Firenze.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
sábado, 27 de setembro de 2014
Para sempre Toscana - Déborah de Paula Souza
Um roteiro amoroso, com mesa farta e lembranças maravilhosas, compõe o caderno de viagem da designer Vivian Calissi, que nasceu na Toscana e mantém uma casa em São Paulo e outra em Lucca
Meu avô materno era marceneiro, veio para o Brasil em 1951, prosperou, abriu uma fábrica de móveis e chamou meus pais. Eu tinha 7 anos quando cheguei a São Paulo, em 1973, vinda de Bagni di Lucca, na província de Lucca, na Toscana. Em casa, só se falava italiano. Eu e meu irmão, o Diego, aprendemos português em seis meses. Queria me livrar do sotaque porque na escola me chamavam de Rita Pavone (cantora italiana famosa na época). Eu me tornei designer de interiores. Meu irmão herdou o talento de comerciante do meu pai e do meu avô paterno, que eram sorveteiros, e voltou para Lucca, onde o seu bar, My Mel, é famoso pelo sorvete - adoro o de avelã.
Em qualquer lugar do mundo, você reconhece um italiano pelo sapato de couro feito à mão e pelo modo como ele pede café, curto, longo, com espuma de leite fria ou quente... Tudo o que diz respeito à cozinha, nós levamos a sério. Os italianos só consomem comida fresca, preparada na hora. Na Toscana, casas e restaurantes têm horta ou árvores frutíferas no quintal. As pessoas trocam figos, alcachofras... e declaram coisas do tipo: "Esta é a melhor abobrinha do muno!". Congelado? Somos contra. Todo italiano é hipocondríaco e tem certeza que congelado mata. Para dar ideia do que a cozinha representa para minha família, os momentos de tensão na infância eram aqueles em que minha mãe retirava o macarrão da panela. Ainda não havia importação no Brasil, e as marcas nacionais passavam do ponto al dente. A missão dos parentes que nos visitavam era trazer pasta Barilla, funghi secchi e uma farinha feita à base de castanha doce, típica da Toscana, que sempre dava confusão na alfândega. No meu primeiro idioma, não existe a palavra saudade. Aprendi aqui, sentada na porta de casa, esperando as cartas da minha avó. Hoje, toda a família de origem já voltou para a Itália. Eu me casei com um brasileiro e moro com ele, Rudge (Rodolfo Bittencourt), e meus filhos, Raul e André. Mas temos uma casa em Lucca e viajamos várias vezes ao ano. Serei sempre dividida no Brasil, sou a italiana, e lá, a brasileira.
Pintura ensolarada
A Toscana é verde-clara e cheia de amarelos. No verão, o sol brilha até 9 da noite. No inverno, neva nos montes, mas Lucca está no nível do mar e o clima é mais ameno. Em meia hora você chega às montanhas e em 20 minutos à praia. Meus amigos - se não viajam comigo - sempre me ligam quando vão para a região. Meu conselho: pare no aeroporto de Pisa e alugue um carro. A melhor coisa que pode acontecer é você se perder. A estrada do Chianti, por exemplo, parece pintada à mão. Fica na região de Firenze. O caminho está cheio de placas indicando pontos de agroturismo, pequenas fazendas que recebem hóspedes e visitantes para degustação de vinhos, queijos e presuntos. Pode entrar em qualquer uma, são todas ótimas. Para saborear uma bisteca fiorentina, em vez de ir para Firenze, eu e meu marido preferimos pegar essa estradinha até Panzano porque adoramos o restaurante de Dario Cecchini. Ele é criador de gado e conhecido, claro, como "o melhor açougueiro do mundo". A gente ria desses exageros, mas o Rudge me disse que agora o Dario saiu até no The New York Times... E por que não comer a famosa bisteca em Firenze, capital da Toscana? Porque lá você come mal e paga caro. No verão, lota, não é lugar para se hospedar, e sim para conhecer arte, visitar o Duomo (catedral local) e as obras dos grandes mestres. Berço da Renascença, a cidade é cenário para as obras de Botticelli, entre outros. Mas eu prefiro os vilarejos medievais, sem tanto business e por isso mais autênticos.
Amor e piquenique
Uma cena típica das minhas férias: eu e meus filhos, de maiô e bicicleta, voltando da praia e parando na porta da quitanda para nos lambuzarmos com os pêssegos - o delicioso pesca di moriano. As praias da minha infância e adolescência são as mais badaladas. A praia Forte dei Marmi (forte dos mármores) tem ótimos bares e restaurantes; sonho em passar minha velhice ali. Ao sair da orla, vale descobrir os pequenos restaurantes familiares, que não constam do guia Michelin, mas a mulher está na cozinha, o marido e os filhos servindo as mesas - e de vez em quando eles brigam. Adoro. Viareggio, porto de iates de luxo, é famosa por ser uma das raras praias de areia branca. Na temporada, as baladas fervem. Cuidado com os italianos! Eles fazem qualquer coisa para seduzir as mulheres e depois somem. Tenho vários amigas que quebraram a cara. Claro que existem exceções, mas eu dou graças a Deus de ter casado com um brasileiro.
Conheci Rudge aos 22 anos e foi amor à primeira vista. Ele conquistou toda a família, aprendeu a língua e também as receitas da minha mãe e hoje é mais italiano do que eu! Estamos casados há 21 anos. Na primeira vez que viajamos juntos para a Itália, ele ainda era meu namorado e fomos fazer piquenique em cima das muralhas históricas de Lucca. Dá para ir a pé ou de bicicleta alugada, esse é um de meus programas prediletos. Compramos queijos e presuntos no mercado, uma garrafa de vinho e estendemos a toalha na grama. Também o levei para a Trilha do Amor, rodeada pelo mar azul de Cinqueterre. Fica na Ligúria, mas até lá é só uma hora de carro ou de trem. As "cinco terras" na verdade são cinco praias de pedra perdidas no tempo, em aldeias de pescadores. No verão, não se acha uma pedra para colocar a toalha! A focaccia, típico sanduíche italiano, é uma ótima pedida para quem está na praia. Minha focacceria predileta é a Il Nicchio, na marina di Pietrasanta. Nunca resisto à sobremesa crema di nutella, servida com creme de baunilha quente por cima. Uma bomba de calorias, mas vale a pena. Pietrasanta foi a cidade adotada por Botero (artista colombiano, célebre por retratar gordinhos). Tem obras dele por todo lado e vernissages incríveis de artistas contemporâneos. Estive lá com vários amigos, recentemente, na Enoteca Marcucci. A adega é uma viagem, come-se divinamente e os preços são ótimos. Todos esses lugares são muito próximos de Lucca, você vai e volta no mesmo dia. Mas reserve dois dias para a Ilha de Elba. O acesso é por balsa, da cidade de Piombino. O mercado local é uma festa para os olhos, e a praia é a mais linda da Toscana, cenário um verão inesquecível em 1984, quando participei de um acampamento estudantil e me apaixonei por um jogador de futebol italiano (com quem terminei tudo no dia em que conheci o Rudge).
Montanhas e praças em festa
As cidades medievais incrustadas nas montanhas são comoventes. Um lugar a que volto sempre é Bolgheri, com uns 300 habitantes. O caminho, cheio de ciprestes, é uma poesia com vista para os vinhedos. Do lugar onde nasci, Bagni di Lucca, sai a estradinha com destino a Barga. Super florida e cheia de cafés, reina no topo da montanha. Em agosto, lá e em outras cidadezinhas são realizadas as sagras, festas para arrecadar fundos para a igreja. As donas de casa fazem bruschetta, massas, doces e vinhos caseiros e doam para a paróquia, que arma as barracas de comida na praça. Por 10 euros, participa-se de um banquete público. Vou sempre com meus filhos. Em julho, subimos de bondinho para Certaldo in Alto, a cidade do escritor Giovanni Boccaccio, onde todos os domingos tem a Mercantia, um festival de arte de rua. Minha casa fica em Lucca, onde vivem minha mãe e minha família. Tenho um retrato com todo mundo em volta da mesa, de quando meu pai ainda era vivo. Ele morreu do coração e descobri que eu também tenho um problema cardíaco - e que isso é muito comum em imigrantes. Será que é porque nosso coração é dividido entre dois países? Em Lucca, também fica o hotel La Romea, dos meus primos - um palazzo medieval restaurado no centro histórico. As muralhas são a referência - chamamos de Lucca dentro e Lucca fora. Em Lucca fora, os tios da atriz Lilia Cabral são os donos da Enoteca Giovanni, perfeita para quem quer conhecer a típica comida italiana. Tudo começa com bruschetta e espumantes e depois vêm a pasta, a carne, os doces, o sorvete, a grappa. Quem cozinha é a senhora Giovanni. Ela deve ter uns 70 anos, chique, enérgica. Passo todas as minhas férias em Lucca e, aos 45 anos, ainda não consegui me livrar de um comportamento da infância. Toda vez, na hora de me despedir dela, eu choro.
(texto publicado na revista Claudia nº 2 - ano 51 - fevereiro de 2012)
domingo, 7 de setembro de 2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
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