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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Por que salvar as abelhas - Raquel Beer


A drástica redução, em todo o mundo, da quantidade desses insetos desperta preocupação porque, além da importância que têm para a biodiversidade, eles são responsáveis pela polinização que garante a existência de quase 40% dos alimentos consumidos por nós - muito mais que o mel, portanto

As picadas dolorosas e o zunido insistente  no ouvido fazem com que geralmente, as abelhas não sejam lembradas de maneira amistosa - a despeito das delícias do mel. E com uma ressalva fundamental: o mel está longe de ser a grande contribuição das abelhas para a humanidade. Sem elas, metade das gôndolas de alimentos dos supermercados estaria vazia. Por meio da polinização, esses insetos promovem o seu maior impacto na biodiversidade e na produção dos alimentos: 35% das lavouras e 94% das plantas silvestres dependem dessa atividade. A má notícia é que esse por assim dizer, "serviço ecológico" está em risco diante de um fenômeno batizado de desordem do colapso das colônias. De 1940 até hoje, o número de abelhas diminuiu de forma drástica no mundo - nos Estados Unidos, o país mais afetado pelo problema, caiu pela metade. Ainda é misteriosa a razão por trás desse sumiço, apear de existirem fortes hipóteses. Na segunda-feira 22, a ONU planeja chamar atenção para o assunto com a divulgação, em evento na Malásia, do relatório Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos. O documento, o primeiro fruto do órgão internacional Plataforma Intergovernamental para Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), procura identificar, entre outros pontos, os motivos que levaram à desordem que faz sumir as colônias e as possíveis soluções.

O trabalho é resultado do esforço conjunto de 75 pesquisadores, de diversas nações. VEJA teve acesso a informações presentes no documento. Ele combina o conhecimento acadêmico que se tem sobre as abelhas e os demais animais polinizadores (como outros insetos, aves e morcegos) e suas contribuições, traz exemplos de boas práticas para a proteção das espécies e propõe soluções para a situação adversa - como a adoção de políticas ambientalistas. "É um tópico de enorme importância política, visto que o desaparecimento das colônias pode afetar negativamente a economia, além da dieta de cidadãos, de um país", ressalta a bióloga Vera Lúcia Fonseca, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do IPBES, o órgão da ONU. "Antes de tudo, o relatório procura conscientizar a todos da importância dos polinizadores, além de promover a união de governos para protegê-los", completa Vera.

Não é por acaso que a pesquisadora faz referência aos danos econômicos potenciais da desordem. Estima-se que um mercado de 218 bilhões de dólares anuais depende do serviço de polinização prestado pelas abelhas. Os Estados Unidos, o maior exportador agrícola do mundo, perderiam 15 bilhões de dólares por ano com a intensificação do problema - no Brasil, o prejuízo seria de 12 bilhões de dólares. Isso explica por que, em junho de 2014, o presidente americano Barack Obama transformou o alarme em questão de Estado, ao anunciar a criação de uma força-tarefa, composta de cientistas e políticos, para ir atrás de respostas.

Os estudiosos ainda investigam qual seria a raiz do problema. Acredita-se que sejam dois os principais fatores: a disseminação do uso de pesticidas, que enfraquecem as colônias, e a ação de parasitas, como o varroa, ácaro que ataca o organismo do animal, e o Acarapis woodi, que afeta o sistema respiratório. Entretanto, há consenso de que não existe apenas uma razão (ou duas), e sim um somatório que acabou por construir um cenário cruel para os insetos. As abelhas estão perdendo seu habitat quando florestas e jardins dão lugar a construções ou mesmo a plantações de uma única cultura - a espécie necessita de alimentação variada para sobreviver. As intensas mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, em consequência do aumento da emissão de gases do efeito estufa pelo homem, também colaboram para o desaparecimento dos insetos. As estações menos definidas, além das elevações e quedas bruscas na temperatura e na umidade, acabam por bagunçar o ciclo de florescimento das flores, das quais as abelhas são dependentes.

Os Estados Unidos são tidos como o país que mais vem se movimentando para combater o ritmo da desordem. O comitê criado por Obama apresentou no ano passado o documento Estratégia Nacional para Promover a Saúde das Abelhas e Outros Polinizadores. Nele, estabeleceu-se como meta reduzir a baixa de abelhas durante o inverno e no máximo 15% em dez anos - hoje, a taxa é de 23%. Nas últimas décadas, após o inverno, as colônias não têm conseguido recuperar-se desses períodos de perda. Caso a diminuição das colônias seja menor nas estações de frio, o efeito esperado é que elas consigam se restabelecer na primavera e no verão. Também se planeja aumentar a presença de outros polinizadores, como a borboleta-monarca. O governo americano calcula que haja atualmente 30 milhões de exemplares dessa espécie colorida na América do Norte, diante dos 970 milhões que existiam em 1996. O que se espera é reverter a queda, alcançando ao menos o número de 225 milhões. Entre as estratégias para proteger os polinizadores está, por exemplo, a restauração de 28 000 quilômetros quadrados (o equivalente ao território do Havaí) de seus habitats nos próximos cinco anos.

Por que o lado ocidental do Hemisfério Norte tem sido mais prejudicado que o restante do planeta? O motivo é a dependência das plantações americanas e europeias de apenas um tipo de abelha, a apis mellifera. Importada da África e da Ásia para a polinização de plantações comerciais, a espécie ganhou a preferência de apicultores por não ser agressiva e manter colônias enormes e resistentes. Agora, porém, ela é a maior vítima da amedrontada desordem.

Na França, por exemplo, 100 000 colônias de Apis mellifera foram perdidas desde 1995, e a taxa de mortalidade das abelhas triplicou. Diante disso, Paris é uma das cidades que mais têm adotado medidas conservacionalistas. Em junho do ano passado, o município assinou o protocolo Abelha: a Sentinela do Meio Ambiente. Nele, a capital francesa se comprometeu a proibir a venda de uma série de pesticidas, além de ampliar o apoio à apicultura. Até 2020, planeja-se o plantio de 20 000 árvores em jardins parisienses, além de 300 000 novos metros quadrados de espaços verdes - em torno de um quinto da dimensão do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Paris ainda é o centro urbano com a maior presença de criadouros de abelhas da Europa, com um total de 600, ocupando uma área de 4,6 quilômetros quadrados - parte deles instalada em tetos de edifícios e casas.

Há indícios de que a redução no número de abelhas esteja se repetindo, em ritmo acelerado, em outros locais, incluindo países pobres. No entanto, muitas  vezes os dados coletados não são suficientes para corroborar a tese. É o caso do Brasil, que não conta com um histórico do número de abelhas em território nacional, de forma que os pesquisadores não têm como comparar o número atual com os anteriores. Assim, ficam sem saber se a redução é alarmante por aqui. "Mas há sinais de que também sofremos do mesmo mal", afirma a bióloga Tereza Cristina Giannini, do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável. "Em pesquisas de campo, descobrimos que existem regiões nas quais as plantações apresentam déficit de polinização, refletido na baixa produção de frutas, flores e alimentos", relata Tereza.

A favor do Brasil, contudo, pesa um ponto que nos deixa em posição de vantagem ante a desordem. O país não é dependente de apenas uma espécie, como ocorre com os Estados Unidos e a Europa. Uma pesquisa da revista científica Apidologie, especializada em apicultura, estima a existência de pelo menos 250 tipos de polinizadores em todo o território brasileiro, dos quais 87% são de abelhas.

Por que, então, mundo afora, apesar da essencialidade desses insetos para o equilíbrio do meio ambiente, as campanhas de proteção a eles não recebem tanta atenção quanto as destinadas aos ursos-polares ou aos elefantes-africanos, por exemplo? Explicou a VEJA a bióloga americana Heather Mattila, do Wellesley College: "O modo de funcionar do nosso sentimento de empatia está no centro desse dilema. Sentimo-nos próximos de animais parecidos conosco, grandes mamíferos que vivem em grupos e interagem socialmente. Devíamos, porém, olhar direito para as abelhas. Elas trabalham duro para alimentar suas crias, organizam-se em colônias e até se preocupam com a higiene e a segurança de suas casas. Não devia ser tão difícil para o homem identificar-se com esses elementos". O.k., se o fator da empatia não funcionar com as abelhas, lembre-se então de quanto elas são fundamentais para garantir a existência de grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa. Perto disso, um zumbido chato não é nada.




(texto publicado na revista Veja edição 2466 - ano 49 - nº 8 - 24 de fevereiro de 2016)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Abelhas: preservação para garantia de alimento - Ana Maria de Andrade Mitidiero


O Brasil registrou produção de mais de 35 mil toneladas de mel no último ano e há uma profissionalização do setor, porém o papel das abelhas no ecossistema vai muito além. Elas são responsáveis pela polinização e consequente produção de alimentos

As abelhas estão morrendo e sumindo em todo o mundo e alguns questionamentos precisam ser feitos: elas estão sendo acometidas por doenças? Os envenenamentos estão causando uma queda na imunidade e, por isso, elas ficam suscetíveis?

As pesquisas têm demonstrado que o uso de agrotóxicos e, principalmente, de neonicotinoides produz nas abelhas um quadro que poderíamos comparar com o do Alzheimer. Elas ficam desmemoriadas, perdem o rumo e não sabem voltar para casa. Também os transgênicos têm sido uma preocupação, pois mostram problemas para as abelhas que visitam essas flores mesmo assim, vêm sendo aprovados para plantio.

Cabe aos médicos veterinários e zootecnistas da sua contribuição para que as abelhas possam viver com saúde e, com isso, externar seu potencial tanto na produção de mel, pólen, própolis, geleia real, cerca e apitoxina quanto na polinização, que proporciona a abundância de alimentos.

A maior parte da vegetação existente no planeta depende das abelhas total ou parcialmente para se reproduzir, para aumentar sua produção e até para dar melhor forma aos frutos. Entre as espécies mais importantes, destacamos a Apis para exploração comercial (apiários) e as nativas, também conhecidas como sem ferrão, cuja exploração vem aumentando, sendo muito importantes para a manutenção da biodiversidade.

Para os profissionais que se preocupam somente com a produção de bovinos, aves, suínos e equinos, faz-se o alerta de que os grãos e pastagens também são visitados pelas abelhas e muito beneficiados pela sua presença, aumentando significativamente a produção desses alimentos. Nesse sentido, Milfont (2012) demonstra que, com a introdução da Apis mellifera na lavoura de soja, houve um acréscimo de 36% na produção.

Colmeia deve ser vista como um organismo

A organização das abelhas é denominada colônia quando o enxame está completo, com rainha, zangões (machos) e operárias, já a  colmeia refere-se à habitação em uma caixa de produção, sendo a ordem social estabelecida pelo fenômeno da rainha. Quando olhamos para uma colmeia, temos que considerar um único organismo, um animal, sendo cada abelha uma célula daquele organismo, compreendendo isso, fica mais fácil estudá-la.

Como no organismo de um mamífero, que tem células com diferentes funções, na colmeia, abelhas de diferentes idades (castas) desempenham funções específicas: fazem limpeza, produzem cera, alimentam as crias, buscam o néctar, o pólen e a água ou são nutrizes, acompanhando e produzindo geleia real para alimentar a rainha, que é a única que nasce e morre com a mesma função. A vida das operárias tem um ciclo de até 40 dias, já a rainha pode passar de dois anos.

Conhecer o comportamento desse animal e cada fase (idade), desde o ovo, é importante para o profissional saber se há a instalação de uma doença, qual é essa enfermidade e se é uma infestação ou infecção. A doença decorre de um desequilíbrio na tríade epidemiológica: hospedeiro, ambiente e agente, e pode provocar manifestações clínicas que resultam em reflexos na produção, como também se apresentar de forma subclínica, podendo causar a disseminação entre colmeias.

Movimentação de colmeias e seus impactos

Para ter o controle sanitário da movimentação das colmeias entre apiários e/ou meliponários, é necessária a Guia de Trânsito Animal (GTA). Sua emissão é possível a partir do cadastro, no qual consta, principalmente, onde está localizada a exploração; essas informações ficam armazenadas e, no caso de uma enfermidade, pode-se rastrear sua origem e aplicar as medidas necessárias para controle e/ou erradicação da doença.

Existe um tipo de exploração na criação de abelhas - migratória - em que as colmeias são alugadas para os produtores, principalmente de frutas, para fazer a polinização. Elas  ficam no local por um período e depois retornam para o apiário; por isso, é fundamental interagir com a área vegetal, saber o que e como utilizam a lavoura e compreender a importância da GTA, para verificar se a colmeia foi ou voltou doente da produção.

Os cuidados com o transporte são importantes, por isso a necessidade de conhecer o comportamento das abelhas. O melhor horário para o transporte é a partir do pôr do sol, pois elas têm hábitos diurnos. Para proteger quem manipula as colmeias, deve-se fechar a abertura na caixa (alvado) com uma espuma.

No Brasil, várias raças da mesma espécie de abelha europeia foram trazidas a partir do ano de 1839 e, principalmente, em 1956 para aumentar a produtividade de mel. Da África, foi trazida a Apis mellifera scutellata, mais adaptada ao clima e com genética marcante para higiene, a qual contribuiu muito para a formação da abelha que temos em todo o território brasileiro, que, desde 1974, é oficialmente reconhecida como "abelha africanizada".

Diferencial da produção brasileira está na genética e no manejo sanitário

Os pesquisadores brasileiros produziram muita informação sobre o comportamento e a genética das abelhas africanizadas, apesar de poucos recursos. É extremamente importante que as ações de manejo sanitário e controle das doenças sejam realizadas segundo as pesquisas locais, uma vez que elas apontam, muitas vezes, a presença de infestações/infecções, que podem não causar prejuízo produtivo/reprodutivo.

É necessário empenho dos órgãos oficiais para estruturar suas equipes de sanidade das abelhas nos estados, com o intuito de mapear a real situação sanitária do país, para que, com o apoio das instituições de pesquisas, se tenham subsídios para encaminhar uma proposta à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), com normas adequadas às abelhas africanizadas, uma vez que as vigentes são baseadas em estudos de comportamento e infestação/infecção com as raças europeias.

O mel do Brasil é muito procurado e valorizado, porque, além das suas características organolépticas, é isento de medicamentos, pela proibição de uso, o que o torna muito disputado no mercado. De fato, pesquisas têm mostrado que não necessitamos de medicamentos, pelo comportamento e resistência das nossas abelhas. Ademais, a profissionalização da produção, pelo melhoramento genético na produção de rainhas e pela utilização de técnicas disponíveis, começando por um bom manejo sanitário, dispensa o uso desse recurso.

O país é um grande produtor de mel orgânico e, com mais profissionais com conhecimento e dedicação na área, poderá elevar sua produção, não só de mel, mas de todos os produtos das abelhas.



(texto publicado na revista CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) - ano XXI - outubro a dezembro de 2015)

sábado, 29 de outubro de 2016

Projeto educacional mostra às crianças a importância da abelha para a vida humana - Graciela Zabotto


Na Cidade das Abelhas, em Embu das Artes, as crianças aprendem de forma divertida, que a principal função desse inseto não é produzir o mel, mas sim ser a principal polinizadora de várias espécies de vegetais.

No início desse mês, o Fish and Wildlife Service (FWS), órgão norte-americano com funções semelhantes ás do Ibama aqui no Brasil, anunciou que, pela primeira vez, as abelhas entraram para a lista de espécies em extinção nos EUA. E não é só o mel que faltaria com a ausência desse simpático inseto listrado em preto e amarelo. As abelhas são essenciais para a vida humana, pois são responsáveis pela polinização das plantas. Quando buscam seu alimento nas flores, elas levam junto ao corpo o pólen para outras plantas, possibilitando assim a reprodução. Sem sua principal polinizadora muitas espécies vegetais deixariam de existir.

Como toda essa infeliz realidade em torno de um inseto pequeno no tamanho - cerca de 2 centímetros - mas de extrema importância para a humanidade, quem poderia imaginar que, há pouco mais de 27 km de Osasco, existe um local com, aproximadamente, 80 colmeias com cerca de 60 mil abelhas cada uma? Criada em 1980, em Embu das Artes, a Cidade das Abelhas tem 100 mil metros quadrados de muito verde com reserva florestal da Mata Atlântica e milhares de plantas melíferas, que produzem pólen e néctar em abundância em vários meses do ano. Mentora e realizadora das principais atrações que existem hoje no local, foi Vera Ferraz Donnini quem fundou a Cidade das Abelhas, hoje considerada um Parque Ecológico, Cultura e de Lazer. Conhecida também como professora "Veruska", o objetivo era conscientizar a população, principalmente as crianças, sobre a importância das abelhas para a vida no planeta.

"Ela queria mostrar que sem as abelhas e a polinização cruzada nas flores, nós, seres humanos, não teríamos alimentos. Esta é a principal função das abelhas e de todos os insetos polinizadores", disse Wilson Donnini, diretor da Cidade das Abelhas, ao lado da também diretora, Idely Lopes Donnini. Pensado para ser uma sala de aula ao ar livre para as crianças, na Cidade das Abelhas todos os ambientes são temáticos. As cores preto e amarelo predominam e em cada canto há boneco ou desenho desse inseto que trabalha em prol da vida.

Com palestras e teatro interativo com o biólogo e 'abelha rainha', as crianças aprendem a importância das abelhas no transporte de pólen de uma flor para a outra, a chamada polinização, processo onde as flores são fecundadas, iniciando o desenvolvimento de frutos e sementes. Por ser mais rápida, a abelha é o animal que melhor faz a polinização, isso porque ela consegue voar em ziguezague e, após um tempo com a colônia instalada em certo local, consegue saber qual o melhor horário para coletar pólen. Para envolver as crianças no mundo das abelhas, o Parque conta com várias atividades que falam a mesma língua dos pequenos. No Abelhão - um boneco com 3 metros de altura e 18 de comprimento - a criançada aprende sobre a anatomia do inseto. Com paredes de vidro, no Apiário Modelo elas podem ver as abelhas produzindo. No Museu de Apicultura e Mel, os visitantes mirins aprendem sobre a história desse delicioso doce natural e batem um papo com os técnicos apicultores. Já na Casa do Mel, eles podem degustar os méis das floradas da Cidade e ainda conferir pratos, meleiras, canecas e outras pelas exclusivas com abelhinhas.

As crianças também podem brincar no 'LaBEErinto'; se aventurar no 'Arbelhismo' - arvorismo não radical com desafios com vários graus de dificuldade - e nos tobogãs fechados no alto da 'Abelha Gigante'. A diversão continua no 'pula-pula da abelhinha', na cama elástica e na "Colmeia Gigante', que reproduz o som original das abelhas.

As crianças ainda têm contato mais próximo com a natureza durante o passeio pelas trilhas do parque ecológico e conhecem as minas d'água. "A Cidade das Abelhas tem três nascentes que desaguam no rio Embu Mirim e seguem para a Bacia Hidrográfica do Guarapiranga", lembrou Donnini. Tudo isso para mostrar aos pequenos cidadãos a importância das abelhas para a vida humana.

Donnini afirma que a maioria das crianças chega ao Parque com medo das abelhas, mas, segundo ele, a situação muda até o final do passeio. "Quando elas saem, após as palestras e a aproximação com as abelhas, as crianças geralmente perdem o medo e se tornam defensoras das abelhas". Já são 36 anos de vida. Segundo Donnini, por ano, cerca de 15 mil crianças e adultos visitam o Parque Ecológico, Cultura e de Lazer Cidade das Abelhas, certificado oficialmente pelo Projeto Oásis de conservação de mananciais e reconhecida pelos órgãos estaduais e entidade internacionais. Seu Museu de Apicultura e Mel, com biblioteca e a história do mel, das abelhas e dos apicultores no mundo, foi oficializado e faz parte do Cadastro Nacional de Museus do IBRAN-Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura/Governo Federal.

Mel in natura

Donnini explica que todo mel 'in natura' provem de plantas, onde as abelhas recolhem o néctar, transformam em seu pré estômago e depois regurgitam pela boca. Assim o mel é um produto do organismo da abelha. Todo mel, conforme a florada original, deverá cristalizar (açúcarar na linguagem popular). Alguns demoram muito e outros mais rapidamente, conforme a época do ano e principalmente no inverno. "Todo mel tem um odor da florada que o originou, um perfume característico. Ele deve ser comercializado em potes ou vidros de boca larga, para ser retirado mais fácil quando começa o processo de cristalização". Donnini ainda faz um alerta. "Para o mel voltar ao estado natural, nunca deve-se utilizar o microondas, mas derretê-lo em banho-maria leve". Ele ainda avisa que na embalagem do mel deve constar o Serviço de Inspeção Federal (SIF) - responsável por assegurar a qualidade de produtos de origem animal comestíveis e não comestíveis destinados ao mercado interno e externo - ou o Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Estado de São Paulo (SISP).



(texto publicado na revista Viver nº 39 - outubro/novembro de 2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Abelhas a serviço da saúde - Paulo Martinho



Mel, própolis e geleia real, produtos 100% naturais que fazem bem à saúde

Primeiro adoçante conhecido pela humanidade, desde a Antiguidade, o mel é um alimento amplamente utilizado - e reverenciado - por muitas culturas diferentes. Da Grécia ao antigo Egito, passando pelo Império Romano, China, Índia, povos árabes e da Babilônia, este produto das abelhas repleto de indicações sobre o seu uso é sinônimo de energia, saúde e longevidade, tanto pelas suas qualidades nutritivas quanto pela sua capacidade de cura e prevenção de muitas doenças.

Há inúmeros fatos relacionados ao mel ao longo da História. Os egípcios tinham o costume de conservar a carne embebida em mel durante suas longas viagens, assim como os romanos, que também aplicavam o produto em peixes e frutas com o mesmo objetivo. Voltando ao presente, a ciência estuda e reconhece seus benefícios. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que ele possui mais de 70 substâncias benéficas ao organismo humano, como água, carboidratos, ferro, sódio, potássio, cobre, zinco, fósforo, enxofre, selênio, cálcio, magnésio, vitaminas A, C, E e do complexo B, assim como alguns aminoácidos.

No tratamento de doenças, o mel é forte aliado no combate às infecções, gripe, asma e amigdalite, assim como na restauração dos músculos e circulação sanguínea - pesquisas demonstram que age como estimulante na formação de glóbulos vermelhos no sangue, devido à presença de ácido fólico. Com ação desintoxicante e antisséptica, de rápida digestão, também é benéfico ao sistema nervoso, além de ajudar na cicatrização de feridas e queimaduras.

Para a dra. Gabriela Paschoal, nutricionista do Departamento Científico da VP Consultoria, na capital paulista, o mel, por conter altas concentrações de sacarose e frutose, deve ser evitado por pacientes diabéticos ou com resistência periférica à insulina, principalmente quando constumido de maneira isolada. No entanto, ressalta seus pontos positivos.

"O mel possui propriedades antibacterianas e reconhecida atividade anti-inflamatória, antiviral e antiparasitária. Também pode ser considerado um alimento antioxidante devido à presença de flavonoides e ácidos fenólicos. Além disso, um estudo mostrou que os efeitos anti-inflamatórios do mel exerceram grande eficácia sobre um modelo experimental de colite (inflamação intestinal)", argumenta.

Esse alimento pode ser considerado um bom substituto do açúcar refinado, pois contém nutrientes e benefícios, o que não se aplica ao açúcar. Vale lembrar que, como tudo na vida, é preciso manter o equilíbrio, pois o seu uso exagerado pode predispor à diabetes do tipo 2 e ocasionar ganho de peso.

A nutricionista Izabela Cunningham Pimenta, da Clínica Trinutrix, em Belo Horizonte (MG), explica que diversas doenças, como as cardiovasculares, reumáticas, neurológicas e psiquiátricas, assim como o envelhecimento precoce, osteoporose, inflamação e mesmo o câncer, podem ocorrer devido aos altos níveis de radicais livres produzidos em nosso organismo.

"O mel é rico em substâncias antioxidantes que irão combater tais radicais livres, seja controlando, seja prevenindo essas doenças", comenta a nutricionista, esclarecendo que, popularmente, o alimento é utilizado em casos de dores e infecções de garganta, na maioria das vezes causadas pela bactéria Streptococcus pyogenes.

De acordo com a nutricionista, o mel não deve ser consumido por crianças menores de 2 anos. Até essa idade, o aparelho digestivo da criança ainda está em fase de maturação e não se apresenta completamente preparado para se defender de bactérias como Clostridium botulinum, causadora do botulismo. "O botulismo infantil é uma doença que atinge o sistema nervoso, prejudicando a contração muscular e levando à paralisia dos músculos, podendo causar a morte por parada respiratória, caso atinja a musculatura do diafragma, responsável pela respiração. Dessa forma, é mais seguro adiar a introdução do mel na alimentação da criança", enfatiza Izabela Pimenta.

Própolis, antibiótico natural - Uma das muitas tarefas das abelhas na sua complexa organização de trabalho é coletar substâncias resinosas em brotos e cascas de árvores, as quais misturadas com cera e enzimas salivares geram a própolis. Na colmeia, esse produto tem a função de vedar pequenas fissuras para mantê-la aquecida e, ao mesmo tempo, manter o ambiente interno livre de qualquer tipo de agentes infecciosos. No uso em seres humanos, a própolis também atua como poderoso elemento antibacteriano contra infecções do organismo e amplia a capacidade de defesa do sistema imunológico.

"Na própolis existem numerosos compostos químicos. Observam-se propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, além de exercer importante atividade antioxidante, sendo importante na prevenção de uma série de doenças, como o câncer. Contudo, deve-se observar o tempo de uso, no caso não muito prolongado, pois a utilização em longo prazo e em quantidades elevadas pode levar à hepatotoxicidade (sobrecarga tóxica no fígado)", explica a dra. Gabriela Paschoal.

Geleia real, da rainha - Produzida pelas glândulas das abelhas jovens, a geleia real é uma substância clara, de consistência pastosa e feita apenas para alimentar a abelha-rainha durante o seu ciclo de vida. Para se ter uma ideia, o tamanho da abelha-rainha é cerca de quatro vezes maior do que o de uma abelha operária, que vive de 45 a 60 dias, enquanto a que se alimenta com a geleia real pode chegar a cinco anos.

Na utilização para alimentação humana, a dra. Gabriela Paschoal explica que há evidências de que a geleia real exerça importante ação antimicrobiana e cicatrizante. Até o momento, não foram descritas contraindicações para o uso desse alimento, a não ser que o indivíduo apresente hipersensibilidade aos seus componentes.

"Ela traz diversos benefícios à saúde, pois promove a ação antibacteriana, hipocolesterolemiante (na redução do LDL, considerado como o mau colesterol), antialérgica e antifadiga. Um estudo mostrou que a geleia real foi eficaz na redução dos níveis totais de colesterol com normalização dos níveis de HDL (bom colesterol) e do LDL, em indivíduos portadores de aterosclerose. É mostrado que a geleia real exerce ação sobre o metabolismo lipídico e pressão arterial, sugerindo-se que o seu consumo possa ser uma armá útil na prevenção e no tratamento da hipertensão e hipercolesterolemia (elevação do colesterol)", diz.

Na opinião da nutricionista Izabela Pimenta, a redução dos níveis do LDL é muito importante. "A aterosclerose é uma  doença na qual os vasos sanguíneos são progressivamente obstruídos por placas gordurosas. Quando a aterosclerose afeta artérias de órgãos nobres, como coração ou cérebro, geralmente é fatal. Ao reduzir o LDL, há redução da formação dessas placas, afastando, portanto, o risco de doenças do coração", conclui.



(texto publicado na revista Família Cristã nº 922 - ano 78 - outubro de 2012)

sábado, 11 de junho de 2016

E se... as abelhas sumirem? - Emiliano Urbim

Sem sua polinização, um terço dos vegetais desaparece, empobrecendo gôndolas e paisagens. O sumiço leva à criação de um santuário, onde as últimas abelhas zunem em paz. Que tal uma visita guiada?

Bom dia! Bom dia a todos. Vieram bem no barco? É normal ter um pouco de enjoo, não se preocupem. Vocês conseguem me ouvir aí atrás? Sejam muito bem-vindos à Primeira Reserva Apiária do Atlântico Sul, mais conhecida como Ilha das Abelhas, menos conhecida como Abilha - é, o apelido não pegou.

Assim como é uma honra para nós recebê-los, é um privilégio para vocês estar aqui, não é mesmo? Vocês fazem parte de um clube seleto: são pouquíssimos os candidatos que recebem o visto para conhecer este santuário da natureza, um dos lugares mais vigiados do mundo. Não sei o que vocês fizeram para estar aqui, nem me interessa. Só me resta lhes dar os parabéns.

Bem, nunca é demais lembrar que vocês acabam de desembarcar no último local do planeta Terra onde ainda é possível encontrar abelhas que produzem mel. Sim, senhora, vai haver degustação de mel e você pode comprar o quanto quiser na lojinha. Mas vamos aproveitar o passeio, não é mesmo? Me acompanhem até o vestiário, por favor.

Pendurados nos cabides, com os nomes de vocês, estão seus uniformes de apicuristas. Sim, é um antigo uniforme de apicultor, mas acharam que chamar de apiculturista agregaria valor. Peço que todos vocês se besuntem abundantemente de repelente e só depois comecem a vestir as roupas, absolutamente imprescindíveis para a realização do passeio. Ela existe para proteger vocês das abelhas, mas principalmente para proteger as abelhas de vocês. 

Como vocês sabem, ou deveriam saber, as abelhas começaram a desaparecer em 2006. Nunca se soube com certeza a causa do Distúrbio do Colapso de Colônias. Muitos falaram em um tipo específico de pesticida. Alguns apostaram em ácaros nas colmeias. Pode ter sido fungos, vírus, destruição do habitat natural. Provavelmente uma soma de todos esses fatores. O fato é que nunca se chegou a uma solução. E as abelhas desapareceram do mundo inteiro, a não ser por esta pequena ilha. Desculpem o tom melancólico, somos obrigados por lei a passar esse conteúdo.

Quem tiver dificuldade é só chamar que eu ajudo a fechar o zíper. Primeiro aviso: os kits foram montados com base em medidas que vocês me passaram. Se vocês engordaram, emagreceram ou mentiram, sinto muito. Segundo: essa é a última oportunidade que vocês têm para ir ao banheiro sem serem incomodados pelas nossas anfitriãs. Aproveitem.

Todo mundo pronto? Por favor, me sigam por este longo corredor. Vejo que hoje temos gente de todo o mundo. Bem: não interessa de onde vocês vieram, com certeza é uma paisagem muito diferente do que vocês vão ver aqui. As paisagens que vocês estão acostumados a ver são, por assim dizer, meio monótonas, certo? Que plantas vocês conhecem? Soja. Milho. Isso mesmo, arroz. Tudo bege. Aqui, se preparem: vocês vão encontrar um arco-íris. Um mosaico. Um caleidoscópio. Sua metáfora favorita não será suficiente.

De tirar o fôlego, não é ? Toda essa diversidade - para ser correto, essa biodiversidade - só é possível graças à polinização que as abelhas fazem, levando o pólen de planta em planta. Tenho impressão de que vocês estão com dificuldade em identificar algumas espécies, me permitam ajudar. Aquilo ali é café. Ali, uma laranjeira, cheia de laranjas. Aquilo ali tem a cor parecida, mas é uma cenoura. Temos também abóboras, melões, chuchus, pepinos, quiabos, cebolas. Essa se chama melancia. É vermelha por dentro, uma delícia. Sim, está tudo à venda na lojinha. Melancia também, mas atenção ao excesso de bagagem, senhora.

Gente, gente. Aqui, por favor. Chegou o grande momento. Tudo muito exuberante, muito deslumbrante, mas está faltando alguma coisa, não é mesmo? Faltam as estrelas da festa! Para chamar as abelhas, vou usar este spray especial. Vou poupá-los dos detalhes sórdidos, mas ele atiça os hormônios sexuais dos insetos. Peço que vocês não realizem movimentos bruscos e permaneçam em seus lugares para não atrair picadas. Assim que eu espalhar o líquido no ar, elas devem ser atraídas. Em três, dois...zum.

Calma. Esse barulho vem delas mesmo, é o zumbido do enxame. É natural que elas cerquem vocês, cheguem perto. Estão curiosas, não estão acostumadas a humanos de fora. Reparem nos tons de preto, de amarelo. Reparem nos olhos. Sempre reparo nos olhos.

E pronto. Passeio encerrado, deem adeus a essa maravilha. Sim, senhora, agora é a degustação de mel. Tem na lojinha. Mais barato que no freeshopping.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 327 - dezembro de 2013)



terça-feira, 2 de junho de 2015

Campanha pede fim de pesticidas que dizimam abelhas - José Eduardo Mendonça (Planeta Sustentável)


Governo Obama estabelece força tarefa

Em 2013. a União Europeia decretou uma proibição temporária dos pesticidas neotocinóides, por serem "risco agudo" para a vida das abelhas. Uma organização ambiental pede a proibição total. O fato de os pesticidas causarem danos está claramente determinado por 29 academias de ciências da Europa.

Os neocotinóides são inseticidas neuroativos com estrutura semelhante à da nicotina. E podem ser também a causa da perda de populações de pássaros.

Abelhas polinizam um terço das safras do mundo e sua perda leva a problemas ecológicos e à crise alimentar. O controle do uso dos pesticidas será discutido pelos governos europeus no final deste ano.

Mas a organização Friends of the Earth fez uma petição a Liz Truss, secretária britânica do ambiente, e promete ampliar sua campanha, já ativa nos Estados Unidos. Há algum progresso. Grandes varejistas dos EUA já se comprometeram a não vender mais o produto.

Enquanto isso, a Casa Branca anunciou na semana passada uma estratégia para tratar do problema, inclusive um exame mais amplo dos efeitos da substância química e o plantio sem eles em terras federais.

Abelhas morrem rotineiramente durante os meses de inverno, mas a taxa tem crescido, e os criadores começam a perder grandes quantidades também no verão. O governo americano pretende reduzir a perda das colônias nos meses frios para 15% nos próximos 10 anos, em comparação aos 23% do inverno passado, informa o Wall Street Journal.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

EUA fazem do sumiço de abelhas uma questão de Estado - Raquel Beer (Planeta Sustentável)



As abelhas começaram a sumir nos Estados Unidos. E isso preocupou a Casa Branca. Um estudo divulgado pelo consórcio Bee Informed Partnership, financiado pelo governo e por universidades americanas, destacou que apenas no ano passado 42% das colônias americanas desse inseto desapareceram. 

Por que isso dá dor de cabeça até no presidente Barack Obama? As abelhas são as principais polinizadoras do hemisfério norte, associadas ao florescimento da flora e à maior parte do cultivo agrícola. Só nos Estados Unidos, um mercado de 15 bilhões de dólares depende diretamente desse trabalho de polinização. Com menos abelhas, menor é a produção. A gravidade do problema econômico fez a Casa Branca montar uma força-tarefa de cientistas para resolver o assunto. Na última terça-feira (19) começaram a aparecer os primeiros resultados.

Para poupar os insetos, as estratégias governamentais são aumentar o tamanho dos habitats polinizadores, encorajar o treinamento de cientistas especializados em abelhas e estabelecer bancos de sementes de plantas atrativas para o inseto. "Buscamos engajar todos os segmentos da nossa sociedade para que, trabalhando juntos, possamos dar passos significativos e importantes para reverter o declínio dos polinizadores", disse o Secretário da Agricultura dos Estados Unidos, Tom Vilsack, em carta oficial.

O sumiço das abelhas começou a ser notado por apicultores americanos há dez anos. Como de costume, os insetos saíam das colônias à procura de pólen e, de tabela, polinizavam plantações de frutas, legumes e grãos. O problema é que elas começaram a não voltar mais, deixando para trás apenas a rainha com poucas operárias remanescentes. Fenômeno que ganhou o nome de colony colapse disorder (em inglês, síndrome do colapso da colônia, ou CCD). 

Pesquisadores então indicaram que essas abelhas morriam antes de conseguir retornar. É um enorme problema que ultrapassa as preocupações conservacionistas. Sem as abelhas, não há plantações. Sem essas, diminui a produção local de comida, e a economia sofre.

O novo levantamento confirma que a crise não só continua, como piora. A taxa de desaparecimento de 42% é maior que a de 2013 e 2012 somados, quando se registrou uma baixa de 34,2%. A taxa atual é quatro vezes acima do que a baixa considerada "normal" pelos apicultores. Nos estados de Oklahoma, Illinois, Iowa e Pensilvânia, o dano foi ainda maior: bateu os 60%.

O inseto, que muitas vezes é lembrado apenas pelas picadas dolorosas, é essencial para a agricultura. Dois terços de todos os alimentos ingeridos no planeta dependem das abelhas. Estima-se que elas rendam 15 bilhões de dólares por ano apenas à economia americana, graças a sua ajuda à agricultura. Como existem 2,5 milhões de colônias de abelhas em cativeiro no país (e são essas as que são usadas na agricultura), o valor estimado de cada uma delas, em uma conta simples, seria de 6 000 dólares. Para piorar, diferentemente do Brasil, que têm ao menos 3 000 espécies de abelhas selvagens, nos Estados Unidos há só a Apis melífera, inseto de origem europeia que está sendo afetado por essa crise. Como só tem um tipo, qualquer ameaça é urgente.

É preciso ressaltar que é natural que as abelhas se afastem por até três quilômetros de suas colônias em busca de alimentos, mas a baixa de insetos considerada "normal" é de 10%, quantidade muito menor do que a que vem sendo perdida e facilmente reposta pela reprodução dos animais. Aliás, o que chocou os pesquisadores não foi somente a quantidade de abelhas desaparecidas, mas sim o fato de que, pela primeira vez na história, a baixa foi maior durante o verão, época (em teoria) mais favorável a elas do que o inverno.

Em países de clima temperado, as colmeias ficam cobertas por neve durante a estação, e cerca de 20% das abelhas naturalmente não resiste ao frio. "Nós esperávamos que as colônias morressem durante o inverno, porque é uma estação estressante. É amedrontador notar as perdas no verão, que deveria ser como um paraíso para as abelhas", disse Dennis van Engelsdorp, professor da Universidade de Maryland e um dos autores do estudo. Ou seja, se no verão está ruim, imagina no inverno.

Para piorar, apesar de o fenômeno não ser novidade, pesquisadores ainda não conseguiram identificar qual é a causa do sumiço. Os autores do estudo indicaram que os motivos prováveis são uma combinação de ácaros, má alimentação e pesticidas, mas existem outras hipóteses, como o aumento de predadores e os efeitos negativos das mudanças climáticas. A teoria mais aceita é aquela que aponta para os pesticidas, já que muitos desses produtos contêm uma substância chamada neonicotinóide, que age diretamente no cérebro do inseto, fazendo com que ele esqueça de onde veio e, consequentemente, o caminho de volta para a colmeia. "Temos indícios de que essa é a principal causa, mas existem muitos interesses econômicos e conservacionistas nesse debate, por isso não se bate o martelo", disse o biólogo Lionel Segui Gonçalves, professor aposentado da USP e pesquisador da genética das abelhas com 50 anos de experiência.

Apesar de os Estados Unidos estarem na situação mais crítica, o fenômeno acomete quase toda a parte ocidental do hemisfério norte há um bom tempo. Estima-se que algumas regiões da Europa tenham perdido até 53% das colônias nos últimos anos. Os impactos foram sentidos no preço de produtos agrícolas. Na Espanha, o quilo de vegetais oleaginosos bateu os oito euros, valor mais alto desde 2005. As cerejas que eram cultivadas em território francês foram transferidas para a Austrália, onde ainda não se tem sinal de baixas de abelhas. Já nos Estados Unidos as amêndoas tiveram uma inflação de 43%.

Recentemente, países fora desse eixo começaram a também detectar indícios do fenômeno, como Japão, China e mesmo o Brasil. Por aqui, tanto as abelhas de ferrão, que produzem mel, quanto aquelas sem ferrão estão sendo prejudicadas. Para abordar o problema, a organização nacional Sem Abelha, Sem Alimento lançou há um ano o aplicativo Bee Alert, em que apicultores registram casos de desaparecimento. Até agora, foi registrada a perda de 12 000 colônias em 13 estados brasileiros, entre os quais São Paulo é o mais afetado. "É fácil de entender por que São Paulo lidera: no Estado, o uso de pesticidas é intenso", definiu o biólogo Lionel Segui Gonçalves.

Mas o que aconteceria se as abelhas sumissem da Terra? O genial físico Albert Einstein, que gostava de palpitar sobre diversas áreas do conhecimento, dizia que "se as abelhas desaparecessem, o homem só sobreviveria por quatro anos". A linha de raciocínio aqui é o fato de que sem abelhas não teríamos 70% dos alimentos que consumimos e também haveria uma redução na parcela verde do planeta, o que levaria a uma diminuição do oxigênio disponível. Não é preciso enxergar tão longe para saber que o extermínio acarretaria um desastre ambiental, com o colapso da agricultura e da flora global.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Bombas coloridas de sementes espalham flores (e salvam abelhas) (Planeta Sustentável)


Você já ouviu falar em bombas de sementes? São pequenas bolinhas - feitas de materiais diversos - recheadas com sementes, adubo e argila e muito usadas por atividades americanos na década de 70 como estratégia de reflorestamento. Quando são arremessadas e ficam expostas ao sol e à chuva germinam até mesmo em solo pouco fértil. Além de ser uma diversão lançar essas bombas por aí, é uma tática fácil e muito interessante para aumentar o verde em praças e terrenos baldios.

Em São Francisco, na Califórnia (EUA), por exemplo, elas têm sido usadas para combater o desaparecimento das abelhas. Com o intuito de espalhar flores silvestres por todos os cantos do país, o casal Chris Burley e Ei Ei Khin criou o projeto Grow the Rainbow ("Cresça o arco-íris", em tradução livre). O nome se deve às cores das bolinhas - feitas com sementes nativas dos Estados Unidos, composto orgânico para ajudar na fertilização e um pó não tóxico - que remetem ao arco-íris em tons pastel.

Mas não é só para enfeitar as cidades que eles disparam bombas de sementes. Chris e Ei Ei querem que as abelhas voltem a voar pela Califórnia, pelos Estados Unidos, pelo mundo. Como sabemos, sua população está em declínio em várias regiões, inclusive no Brasil. Os cientistas acreditam que vários fatores contribuem para o colapso de suas colônias como a proliferação de pesticidas e parasitas, além da maior frequência de eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Tudo isso causa o declínio dos habitats naturais da espécie. E isso atinge a nossa vida diretamente.

As abelhas são indispensáveis para a produção dos alimentos porque polinizam cerca de 70% das frutas e vegetais que consumimos. Ao transportar o pólen de uma flor para outra, polinizam maçãs, morangos, amêndoas, melões, tomate, feijão, entre outros.

Criar abelhas num mundo complexo e contaminado como o de hoje, não é fácil, mas todos podem fazer sua parte para ajudar a proteger essa prática. E é por isso que Chris e Ei Ei estão na "batalha", com seu projeto, para incentivar o plantio de flores.

Um pacote da Grown the Rainbow, com 20 bolinhas, custa cerca de nove dólares no site do projeto. Mas fabricá-las em casa é possível e pode ser ainda mais divertido. A jornalista Giuliana Capelo, autora do blog Gaiatos e Gaianos (aqui no Planeta Sustentável),em post recente, ensinou seus leitores a produzir bombas de sementes, mostrando as que ela fez como lembrancinhas para o chá de bebê da filha que vai nascer em fevereiro.

Que tal espalhar essa ideia e ajudar a colorir as terras do Brasil, também? De quebra, com certeza as abelhas virão participar dessa festa.



domingo, 25 de janeiro de 2015

37 milhões de abelhas morrem após o plantio de milho transgênico no Canadá (Notícias Naturais)


Dezenas de milhares de abelhas morreram em Ontário desde que o milho transgênico foi plantado há algumas semanas. Um dos produtores locais de mel, Dave Schuit, denunciou ao site 'Organic Health' que somente a sua granja perdeu 600 colmeias, o que equivale a 37 milhões de abelhas.

Os criadores de abelhas culpam a morte de suas colônias aos neonicotinoides, especialmente o Imidacloprid e a Clotianidina (ambos da Bayer), que são inseticidas geralmente aplicados tanto em sementes como em tratamentos foliares e que penetram no pólen e no néctar.

Enquanto a metade dos países da União Europeia, incluindo a Alemanha, limitam legalmente o uso dos neonicotinoides por preocupações ambientais depois que a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos definiu os riscos relacionados, nos EUA continuam sendo um dos mais usados.

No passado, muitos cientistas se esforçaram para encontrar a causa exata da enorme mortandade, um fenômeno que eles chama de "desordem de colapso de colônia" (DCC). Nos Estados Unidos, por sete anos consecutivos, as abelhas estão em declínio terminal.

O colapso na população mundial de abelhas é uma grande ameaça para as culturas. Estima-se que um terço de tudo o que comemos depende da polinização das abelhas, o que significa que as abelhas contribuem com mais de 30 bilhões de dólares para a economia global.

Um novo estudo publicado na revista Proceedings, da Academia Nacional de Ciências, revelou que os pesticidas neonicotinoides matam as abelhas por danificar o seu sistema imunitário e as tornam incapazes de combater doenças e bactérias.

Após relatar grandes perdas de abelhas após a exposição ao Imidacloprid, foi proibido o seu uso em plantações de milho e girassol, apesar dos protestos da Bayer. Em outra jogada inteligente, a França também rejeitou a aplicação da Clotianidina pela Bayer, e outros países, como a Itália, também proibiram certos neonicotinoides.

Após o recorde de mortes de abelhas no Reino Unido, a União Europeia proibiu vários pesticidas, incluindo os pesticidas neonicotinoides.