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domingo, 26 de abril de 2015

"Sem pressa e sem pausa" - Valdir Reginato


O famoso ditado acima, atribuído à "filosofia do comportamento da tartaruga", da Fábula de Esopo, continua sendo um ponto de reflexão para nós todos: a conhecida corrida entre a lebre e a tartaruga, em que a primeira, com supervelocidade, deu-se ao luxo de dormir, esperando a tartaruga que vinha em ritmo lento e constante, mas acabou dormindo demais e acordou com a comemoração da vitória pela tartaruga. O tempo presente nos convida a lembrar da moral da história: "o trabalho com persistência e com zelo leva ao êxito".

A vida no cotidiano nos desafia em como nos comportamos nos inúmeros acontecimentos que ocorrem ao longo do tempo. Alguns que ocorrem todos os dias, outros com periodicidade própria. Fatos que acometem a família ou o emprego. Decisões que só dependem de você. Pendências que estão esperando pelos outros. Pequenos percalços que podem facilmente ser contornados... Imprevistos que podem nos forçar a mudar de programação, ou mesmo de estrada. Para caminhar bem na estrada é necessário se conhecer melhor a cada dia.

Somos todos diferentes uns dos outros, cada um com suas características e estilos próprios. Alguns ágeis para começar, mas que desanimam fácil pelo caminho. Outros que demoram a pegar, mas depois aceleram e vão longe. Aqueles que mantêm sempre o mesmo ritmo e às vezes irritam os apressados. Os que gostam de observar a paisagem e pensar a cada passo. E os que vão direto ao ponto, não param para nada, sequer para reavaliar o itinerário por algum fato imprevisto. Os que pensam em tantas possibilidades para não esquecer nada que possam precisar que acabam perdendo a hora. Aqueles que saem tão apressados e ficam sem gasolina numa estrada deserta. Os que dão preferência ao que gostam ou o que é mais fácil e deixam o mais importante sem atenção. Comportamentos entre extremos da preguiça e agitação, onde devemos buscar a virtude da laboriosidade com prudência. Como dar conta de tantas solicitações diferentes que crescem no dia a dia, com critério, hierarquia, ordem e velocidade adequadas?

Recordo-me de uma paciente, senhora idosa, da época em que se casava aos 18 anos. Dizia sobre seu pai, um "português analfabeto": "Filha, você vai se casar. Só digo isto: tenha sempre na vida este lema: primeiro Deus, segundo a família e terceiro o trabalho. Quando faltar isso, sua vida não estará bem". O "português analfabeto" era um sábio. Apresentou o critério da hierarquia das decisões para se manter no caminho seguro. É preciso, agora, encontrar a velocidade ideal para percorrê-lo. Meu filho caçula, num jogo de palavras, diz: "almacalma". A serenidade do espírito é o estado a ser preservado, em que nos comportaremos na ordem com a velocidade mais adequada.

Voltemos à tartaruga. Era consciente de seus limites nas pernas curtas e casco pesado, e das dificuldades que se impunham por isso na corrida. No entanto, não invejava a lebre pelo seu corpo esguio e pernas que superavam o vento. Não se queixou do peso do casco, e via nele um ponto de segurança. Não se lamentava do tempo de demora, porque sabia onde e como queria ir e chegar. Manteve-se no caminho, um passo seguido do outro, e não dormiu fora de hora como a lebre, tão confiante de si, que desperdiçou o tempo que a levou a perder.

"Almacalma" na presença de Deus, convivendo em família e santificando-se pelo trabalho ordenado. Uma reflexão para os próximos dias. Não espere ter um tempo em que você não terá nada para fazer para poder pensar nesse assunto. Não espere acabar tudo o que tem iniciado, para depois refletir a respeito. Não considere que isso não se aplica a você porque a "minha vida é muito complicada". Não desanime, considerando que já perdeu a corrida e não vale mais a pena pensar. "Nunc coepi!" - Agora começo! -, afirmava um sacerdote muito santo. E quando sabemos para aonde queremos ir, e acreditamos que não estamos sós, nunca será tarde demais! Avante: Sem pressa e sem pausa!




(texto publicado no jornal O São Paulo - edição 3048 - ano 60 - 23 a 28 de abril de 2015)




quarta-feira, 22 de abril de 2015

Entenda porque você deve tirar o guizo da coleira do seu gato (Gatinho Branco)


É praticamente impossível encontrar uma coleira de gato que venham sem um guizo pendurado. E por facilidade ou convenção a maioria das pessoas acaba deixando ele ali, algumas até acham legal o barulhinho para "saber onde o gato está".

Agora, do ponto de vista do gato... isso é a pior coisa do mundo! Como caçadores, eles não podem deixar a presa saber onde estão ou perdem o almoço. Como presa, não podem deixar o predador saber onde estão ou eles é que viram almoço. Por isso eles amam esconderijos, túneis, armários, gavetas, caixas e são tão bons nos famosos passos de ninja: porque são adaptados para serem "invisíveis".

O guizo vai totalmente contra toda essa natureza dos gatos e por mais que muitos não demonstrem, a coisa pode ir aos poucos transformando-os em animais frustrados e nervosos. Pense se fosse com você: cada passo seu faz um barulhinho bem perto da sua orelha, você pode até desistir de tentar tirar o guizo do próprio pescoço, mas não quer dizer que não incomoda, não é?

Então para que serve esse negócio?

Pois é, se está em todas as coleiras deve ter uma utilidade, não? Bom, ele tinha. A ideia do sino no pescoço do gato é tão antiga que está até numa fábula de Esopo, e ela dá uma boa dica da função original do guizo:

A ASSEMBLEIA DOS RATOS - Fábula de Esopo

Era uma vez uma colônia de ratos, que viviam com medo de um gato. Resolveram fazer uma assembleia para encontrar um jeito de acabar com aquele transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um jovem e esperto rato deu uma excelente ideia: - Vamos pendurar uma sineta no pescoço do gato e, assim, sempre que ele estiver por perto ouviremos a sineta tocar e poderemos fugir correndo.

Todos bateram palmas; o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um velho rato disse:

- O plano é inteligente e muito bom. Só falta uma coisa: quem vai pendurar a sineta no pescoço do gato?

Moral da história: Falar é fácil, fazer é difícil.

... e a moral do guizo é: ele salva animais inocentes das garras dos gatos que ficam soltos na rua (e evita "presentes" ensanguentados no seu lençol).

Ou salvava. Uma pesquisa da instituição britânica British Trust of Ornithologists (BTO) mostrou que com o tempo os gatos aprendem a caçar sem soar o guizo e que para ele continuar sendo eficiente o modelo precisaria ser trocado periodicamente.

Mas a BTO tem uma solução melhor para manter pássaros vivos e gatos menos irritados: coleiras chamativas (sem guizo!) de cores brilhantes: laranja forte, rosa neon, que vão se destacar na paisagem e alertar os pássaros do perigo de maneira eficiente.

Algumas coleiras até refletem a luz de faróis e ajudam a evitar atropelamentos, um dos muitos riscos frequentes na rua. E a melhor parte é: o gato não vai ver a cor brilhante no pescoço dele e vai continuar andando por aí da maneira como foi feito para andar, de maneira silenciosa. Todo mundo ganha :)

E claro que se seu gato vive seguro dentro de casa, não existe essa preocupação e você pode simplesmente tirar aquele guizo da coleira e usá-lo para fazer um brinquedinho!

domingo, 16 de novembro de 2014

Bendita frustração - Eugenio Mussak


Você já passou por uma situação em que alguma coisa que queria muito não deu certo, e depois chegou à conclusão que foi melhor que não tivesse dado? Tipo uma viagem com amigos que você perdeu, e depois soube que foi a maior gelada, que choveu e rolou o maior barraco no grupo? Ou ainda aquele amor que parecia ser para sempre, mas acabou por uma bobagem, e permitiu que você conhecesse outra pessoa, que lhe faz muito feliz até hoje? Eu já. Várias vezes.

O problema é que a gente só sabe que foi melhor não ter acontecido tempos depois. Às vezes muito depois. Na vigência da expectativa, rola um sentimento de frustração. Por definição, frustração é exatamente o estado psicológico decorrente de uma expectativa não atendida, e não dá para dizer que é agradável.

Sentir-se frustrado é o mesmo que ficar triste pela não realização de algo, e também pela perda da confiança e da esperança. Além da sensação, também desagradável, de injustiça. Afinal, não é justo que eu não tenha conseguido algo que eu queria tanto. Que decepção... E, o pior, acho que nunca mais vou conseguir. Estou condenado à tristeza e à infelicidade. Sinto-me impotente, fraco e solitário. Ó vida...

Mas o tempo passa, outras coisas acontecem, nos refazemos emocionalmente e seguimos em frente. E, com frequência, concluímos que foi bom algo não ter dado certo.

A (escritora) Martha Medeiros tem um ótimo texto sobre isso, ao qual ela deu um título maravilhoso: A Melhor Coisa que Não Me Aconteceu. Ela atribui o título ao ator inglês Clive Owen, que teria dito a frase quando não foi escolhido para o papel de James Bond, depois dado ao ator Daniel Craig. Em sua visão, se tivesse incorporado o agente secreto, teria ficado estigmatizado e perdido muitos outros papeis legais, que vieram depois.

Martha aproveita para comentar uma viagem que não fez à Disney com a família por causa de um súbito imposto compulsório criado pelo governo para os viajantes ao exterior. Em vez disso, seguiram para a Bahia, onde ela conheceu as melhores amigas que têm até os dias de hoje. Só que a Martha não é ingênua. Ela sabe que isso pode parecer apenas uma desculpa para se sentir melhor. Então aproveita para comentar que essa atitude de ar um crédito positivo aos "não acontecimentos" significa ter o espírito mais aberto, minimizar o peso da palavra derrota e dar mais leveza à alma. O que não é o mesmo que forçar uma teoria pessoal e improvisada sobre o estado das uvas.

As uvas verdes

Esse tema tão humano, como tantos outros que povoam e assombram nossa alma, já interessou a vários estudiosos, principalmente da psicologia. Mas o primeiro a abordá-lo foi o grego Esopo. Citado em obras de Platão e Aristóteles, Esopo foi o responsável pela criação de um estilo literário chamado fábula. Trata-se de histórias fáceis de reproduzir oralmente, e cujos personagens são, em geral, animais que têm fortes características humanas, como a dúvida, o medo, a preguiça, e também seus opostos.

Daí terem surgido os tipos eternos, como a cigarra e a formiga, os ratos em assembleia e tantos outros. Não podendo usar exemplos humanos sem ofender alguém, Esopo partiu para o reino da bicharada, e criou uma inesgotável literatura, com cunho didático e forte apelo moral.

Entre as mais conhecidas fábulas de Esopo está a da raposa e as uvas. Tendo encontrado um saboroso cacho de uvas maduras, a raposa, com fome, tratou de alcançar o manjar. Mas, apesar de seus melhores esforços, não conseguia saltar até o cacho e desistiu da empreitada. Enquanto se afastava, disse, para quem quisesse ouvir, mas principalmente para si mesma: "Foi melhor assim, afinal, as uvas estavam verdes".

O grego acertou em cheio. Costumamos desdenhar do que não conseguimos, como meio de nos proteger e, dessa forma, sofrer menos com a frustração. As uvas não estavam verdes, mas é melhor se convencer de que estavam, e partir para outra.

A psicologia chamaria isso de mecanismo de defesa, uma reação normal, que minimiza os fatos que estão colocando em perigo a integridade do ego. Esse mecanismo de defesa chama-se racionalização, por meio do qual a pessoa procura encontrar razões lógicas para justificar o que faz ou o que não fez. Como isso acontece no nível inconsciente, a pessoa não sabe se o que está pensando, ou dizendo, é verdadeiro ou não passa de um ilusionismo providencial.

Olhando de relance, pode parecer que tanto faz. Se foi melhor não ter acontecido o que eu queria, ótimo, se teria sido bom que acontecesse e eu estou negando o fato, pelo menos estou reduzindo meu sofrimento.

Visto por esse ângulo, parece lógico. Mas é melhor ajustar o foco. Será que não seria melhor reconhecer que você queria muito aquilo, e que seria ótimo que tivesse acontecido? E que isso não se realizou por motivos que poderiam ter sido controlados antes? Será que essa atitude, por mais que não esconda a dor e prolongue o sofrimento, não pode ser a mola propulsora que vai projetar o futuro por meio do preparo e da responsabilidade?

As uvas maduras

Felizmente a personalidade saudável elabora bem essas questões, absorve o choque e segue em frente. É impossível atravessar a vida sem experimentar a frustração. E, em geral, é até bom que isso aconteça, pois esses choques nos tornam mais fortes, e de certa forma resilientes.

Pediatras, professores e psicólogos infantis chegam a aconselhar aos pais que não satisfaçam todos os desejos dos pequenos, pois eles não têm que aprender a conviver com a frustração como treinamento para lidar com a vida. Sim, ela é frustrante. Não nos dá tudo o que pedimos e, quer saber, é bom que não dê mesmo, pois às vezes nem sabemos bem o que que estamos pedindo. Além de muitas vezes desejarmos algo que não nos faria bem.

O duro é elaborar o pensamento para evitar injustiças com o fato em si, que não tem nada a ver com nossas escolhas. Insistindo no assunto: será que foi mesmo melhor que não tivesse acontecido ou sou eu que estou tentando me convencer de que foi melhor assim? Talvez essa pergunta não faça sentido, pois, afinal, estamos falando de algo do passado, que é imutável. Mas talvez seja melhor tentar responder para evitar frustrações futuras. Está disposto?

Pensando bem, tenho o hábito de considerar como sorte um monte de coisas que não aconteceram, e tantas outras que deixaram de acontecer depois de um tempo. Mas acho que considero sorte porque acabei construindo uma vida que faz sentir-me inteiro, realizado, feliz. Não tenho porque me queixar, pondero. E olho para o passado com complacência e gratidão pelos "não acontecimentos". Mas, e se minha vida não tivesse tomado um rumo legal? Que sentimento eu estaria nutrindo sobre o que não aconteceu? Não sei. Também é difícil ponderar sobre o que não aconteceu quando o que se passou depois foi tão bom.

Confesso que comecei a escrever este texto com a intenção de explorar apenas o que ele propõe na abertura: que foi bom que não tenha acontecido o que não aconteceu. Entretanto, enquanto escrevia, meu pensamento foi desviando um pouco, depois me lembrei de Esopo, do Freud, da Martha. Agora acho que foi melhor que não tivesse escrito exatamente como tinha pensado no início, só enaltecendo os "não acontecimentos" para diminuir possíveis frustrações do leitor. Meu texto inicial foi um "não texto", veja só você como são as coisas.

E aproveito para propor uma releitura da história da raposa e suas uvas. Que tal criar uma versão em que ela, após saltar várias vezes sem sucesso, desiste, por hora? E, ao se afastar, pensa: "Já sei, vou voltar para a academia e caprichar nos exercícios para as pernas. Assim vou conseguir saltar mais alto, e da próxima vez essas uvas maduras não me escapam".




(texto publicado na revista Vida Simples nº 151 - outubro de 2014)