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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Entre queijos e lobos-guará - Marina Machado


Serra da Canastra. Nascente do rio São Francisco, cachoeiras, produtos típicos e o animal do cerrado atraem turistas à região mineira

Existe um pedaço do Brasil que reúne muitos tesouros naturais. É na Serra da Canastra, sudoeste de Minas Gerais, que fica a nascente do rio São Francisco e uma das maiores e mais belas cachoeiras do país, a Casca D'Anta. A região é a casa do lobo-guará, um animal que corre risco de extinção.

O solo contém uma das maiores reservas de diamantes do país. E com a união das propriedades, do pasto e da água, as vacas produzem um leite usado para fazer uma deliciosa iguaria, o queijo artesanal da Canastra.

São tantas as razões para visitar a região que o turismo tem sido um aliado para o desenvolvimento econômico de diversos pequenos municípios que circundam o Parque Nacional da Serra da Canastra, criado em 1972 para proteger as nascentes do Velho Chico. Se há 30 anos a principal atividade de Vargem Bonita era o garimpo predatório de diamantes, hoje é a agricultura, a pecuária e a produção de queijos.

A cidade de São Roque de Minas, coração dessa cultura queijeira, que tem quase dois séculos de tradição, é o principal reduto de turismo ecológico. Situada próximo à entrada do parque, ela reúne a maior quantidade de produtores com certificação de origem do queijo.

Mas são as belezas dos 71 mil hectares do Parque Nacional que mais atraem os visitantes. Os passeios, feitos em veículos 4 x 4, proporcionam  imagens inesquecíveis. Pastagens de cerrado, milhares de tipos de plantas e animais. E a grande atração: o lobo-guará.

Graças ao trabalho do Instituto Pró-Carnívoros com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o parque tem hoje a maior concentração de lobos-guará da América do Sul: cerca de 150. Pode parecer muito, mas para um animal solitário essa quantidade ainda é muito pequena para manter uma população que sobreviva a grandes incêndios, mortes por atropelamentos e problemas de saúde causados por contato com animais domésticos. O grupo de pesquisadores trabalha dentro e fora do parque para mapear e acompanhar os lobos, mas o grande desafio é educar os moradores e produtores rurais.

Com o avanço das pastagens e das plantações, o habitat dos lobos foi sendo drasticamente reduzido e as queimadas frequentes matam as plantas e outros animais que servem de alimento para os lobos-guará. Com o aumento do turismo, a população local tem melhorado a relação com o parque nacional e com os lobos.



(texto publicado no jornal Metrô - 24 de outubro de 2016)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Tão bons quanto os mineiros - Helena Galante


Lojas da capital oferecem laticínios de qualidade produzidos no interior de São Paulo

Parece Minas Gerais. Ao sair da Rodovia Fernão dias e seguir por um desvio de chão batido chamado Estrada da Terra Preta, as plaquinhas improvisadas de madeira com a indicação "vende-se queijo" começam a surgir. A associação direta com Minas Gerais ocorre pela fama (inegável, uai!) do Serra da Canastra e do Serra do Salitre, enter outros exemplares tradicionais provenientes daquele estado. Mas não se engane. A saída do quilômetro 3 dessa rodovia termina bem no interior de São Paulo, em Joanópolis, onde fica o Capril do Bosque - um dos melhores produtores de queijo de cabra do Brasil. Longe de ser bairrismo, o reconhecimento da qualidade é fruto de anos de um trabalho de pesquisa na fazenda. À frente da propriedade, Heloisa Collins começou a atividade de criação de animais quase duas décadas atrás, com apenas um casal de matrizes. Com o leite de sabor intenso, deu início à produção seguindo o protocolo de livros europeus. "No Brasil, não existia a tradição de elaborar queijos finos", conta dona Helô, enquanto caminha pelo pasto e faz carinho em alguns dos sessenta dóceis bichos (só 25 dão leite a cada temporada).

Após a aposentadoria da carreira acadêmica na PUC-SP, há quatro anos, a ex-professora de inglês e linguística investiu para transformar o hobby em negócio. Ela criou uma linha de sete produtos, inicialmente registrados numa licença municipal e, desde abril do ano passado, aptos a ser comercializados em todo o estado. Aqui na capital, restaurantes italianos conceituados, como o Attimo, na Vila Nova Conceição, a Casa Europa, no Jardim Paulistano, e o Piselli, no Jardim Paulista, incorporaram ao menu seus tipos azuis e os de mofo branco, como o camembert.

Desde o fim do mês passado, os paulistanos contam também com uma loja onde é possível encontrar os produtos do Capril do Bosque, entre outras variedades nacionais. Nascido como site para encomendas, o Mestre Queijeiro abriu as portas num salão de 70 metros quadrados, em Pinheiros. O sócio Bruno Cabral, especialista no assunto formado em Barcelona, na Espanha, selecionou trinta variedades para a mercearia. "Em escala comercial, somos os únicos a ter uma câmara aparente de maturação com temperatura e umidade controladas", explica. É lá que ele deixa cada peça descansar até atingir o ponto ideal para o consumo. Há ainda nas prateleiras geleias, cachaças e pimentas caipiras, e um espaço para degustações guiadas, nas quais Cabral ensina como avaliar a cremosidade, a aparência da casca e a quantidade de sal dos laticínios.

No bairro vizinho da Vila Madalena, outro endereço do gênero, a Queijaria, vem apostando nos paulistas. "Atualmente, três dos queijos mais vendidos são daqui, feitos com leite de cabra, de búfala e de vaca", diz o proprietário Fernando Oliveira. "Por não terem a tradição dos mineiros, os produtores podem inovar mais, além de contar com mais facilidade de escoamento e acesso a investimento em São Paulo." Um exemplo disso é a Fazenda Santa Luzia, em Itapetininga, que era especializada em variedades frescas, mas começou a preparar curados de leite cru especialmente para A Queijaria. Completa o circuito do comércio especializado a La Bufalina, instalada em Higienópolis e Moema, que oferece mussarela de búfala feita em Guaratinguetá (SP). Recentemente, empresas maiores como Pão de Açúcar, St Marche, Empório Santa Maria e Casa Santa Luzia também incluíram queijos paulistas nos catálogos. É coar um cafezinho e aproveitar cada fatia.




(texto publicado na revista Veja São Paulo - 26 de março de 2014)