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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

As ondas dos nudes - Walcyr Carrasco



Tudo o que é fotografado ou filmado pode aparecer um dia. Mas ninguém acha que vai acontecer

Tudo o que é fotografado ou filmado pode aparecer um dia. Eis uma máxima em que todo mundo deveria acreditar. Ninguém acha que vai acontecer justamente com ele, ou ela. Na intimidade do amor, as pessoas fazem nudes. É uma grande e sexy brincadeira. Lamentavelmente, desde Cinderela e o Príncipe essa história de felizes para sempre não anda muito em moda. Acaba a paixão, muitas vezes em tormenta. Pronto. O nude é enviado para amigos. Cai nas redes sociais. Mais frequentemente a vítima é a mulher. Suas fotos, tão íntimas, viram uma festa na cidade. Ou bairro. Tem até de enfrentar críticas.

– Caída!

Acredito que os inventores dos nudes foram o filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir, franceses. Ninguém fala muito neles hoje em dia, pois começaram a relação em 1929. Num mundo em que poucos se lembram da época em que Xuxa fazia programa infantil, ambos são História. Viviam uma relação ousada para a época. Em uma foto famosa, Simone está de costas, nua, no banheiro. Poderia ser a ilustração de uma matéria clínica sobre celulite. Mas foi um nude que chocou o mundo e demonstrou os princípios libertários do casal. Um nude filosófico. Hoje os nudes não têm tanta teoria por baixo (ou por cima, não sei). São boa parte das vezes uma maneira de o casal se divertir. Principalmente a uma certa distância, ligados apenas pelo celular. E então começam a... melhor não detalhar. Também existe quem mande nudes para iniciar uma relação! Até há pouco tempo, no meu Instagram, minha assessora botava o telefone para contato. Além dos inúmeros pedidos para fazer novela, inclusive às 5 e 6 da manhã, ela recebeu uma montanha de nudes. Destinados a mim, óbvio. Finalmente, Camila deixou só um e-mail para contato. Como tento parecer um senhor respeitável, não insisti em vê-los. A curiosidade mata. Que tantos nudes eram esses? Sou menos respeitável do que ela pensa e poderia ter visto. Só não mandaria um nude meu de volta. Não por timidez. Mas há uma certa idade em que a barriga chega e fica. Para simplificar: se olho para baixo, só vejo meu umbigo. A barriga se sobrepõe a outras partes. Um nude do meu umbigo seria um vexame. A vida depois dos 50 não é para nudes. Depois dos 60, nem digo.

Mas aí entra uma outra razão pela qual as pessoas fazem nudes. Vaidade. Querem exibir o corpo. Há mulheres casadas que botam nudes na internet, escondidas do marido. Depois eles descobrem, mas a sequência da história fica por conta da imaginação. Há garotas criadas a leite Ninho, de classe média alta e ricas que espalham nudes para os coleguinhas verem. Há fotógrafos especializados em rapazes atléticos que divulgam as imagens em seu site com a desculpa de que é trabalho de modelo. Modelo de quê? De mau comportamento?

Um amigo andava insatisfeito com o número de seguidores no Instagram. Chamou mais dois modelos e os três fizeram nude num viaduto, em São Paulo, de noite. Postaram e estouraram.

– Eu só ganho seguidores quando posto fotos assim – explicou.

Ganhar seguidores é bom para fazer permutas: academias, restaurantes, shakes em pó. E sentir-se além da massa anônima. O número de seguidores equivale a um grau de fama. Muita gente não precisa de permuta nenhuma. Mas gosta de ser vista. Saber que um número X de pessoas aprecia seu corpo, como um enorme espelho, para refletir sua vaidade. Tenho um amigo que vive na Califórnia. Postou tantos nudes que a certa altura liguei para saber o que acontecia na sua vida, se precisava de ajuda. Surpreendeu-se.

– Mas são nudes!

O antiquado era eu. Houve uma época em que se alguém fosse convidado para posar nu – mulher ou homem – haveria dúvida, tensão. Muito pai deixou de falar com a filha diante de certas fotos em revistas. Atrizes, cantoras, modelos aceitavam sim. Mas pelo cachê, para comprar um apartamento.

– Eu fiz porque precisei – era o mantra.

As revistas de nus deram os últimos suspiros. Comprar para que, se basta entrar na internet? Lá estará o nude, às vezes de alguém famoso. Há hackers que se encarregam de arrancar as fotos dos computadores alheios. Alguns tentam chantagem, como já aconteceu com Carolina Dieckmann. Não teve problema algum em fazer o que é certo: chamou a polícia. Outros hackers só querem se divertir e jogar as fotos na internet, nem que seja para a pessoa famosa virar fofoca. Ninguém se assuste. Se um nude seu aparecer, nem se importe. Siga a vida. Já deixou de ser escândalo.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O nu se banalizou - Walcyr Carrasco


Basta abrir a internet e há um universo de peladas, de todos os tipos, para todos os gostos. Daqui a pouco, não haverá mais graça

Levei um susto quando soube que a principal revista de nus femininos brasileira vai sair de circulação. E que a Playboy americana abriu mão de publicar mulheres nuas. O nu não aumenta a venda de revistas nem atrai publicidade. É engraçado, porque venho de uma época em que o sonho de toda starlet era posar nua e comprar um apartamento. Ok, sou bem mais antigo que isso. Sou do tempo em que aparecer nua em revista ou filme era uma vergonha para a família. Durante a ditadura militar – não podemos esquecer que ela aconteceu –, as revistas eram duramente censuradas. Na capa, eu me lembro, podia mostrar o bico de um seio. Não dois. Qual a loucura da cabeça de quem criou essa regra não consigo imaginar. Porque dois bicos destruiriam a família brasileira e um só não? Mais tarde, o nu faturava no ramo editorial e no cinema (nas antigas pornochanchadas que, aos olhos de hoje, eram comportadíssimas). Havia programas na televisão que brincavam com uma sensualidade discreta, quase ali, mas nunca exatamente ali. Números na banheira em que moças apareciam de biquínis mínimos. Eu era jornalista e havia várias revistas de nu feminino. As fofocas circulavam. Uma certa atriz, já de idade, aceitou posar (está ainda por aí, sempre fazendo a ousada). O truque era cruzar as mãos embaixo da cabeça, para erguer os seios. Mas suas costas e seu rosto foram repuxados com fita-crepe. A pele, esticadíssima. Na época não existia Photoshop, mas examinavam-se as primeiras provas de imagem e marcava-se com a caneta cada ruguinha a ser tirada. E um profissional raspava com lâmina, corrigia a foto até o corpo da bonita ficar lisinho. Os leitores se admiravam.

– Nessa idade, ainda está inteiraça!

Pois é. Não estava. Nem ela nem outras que continuam estando. Milagre não existe.

Hoje, basta abrir a internet e há um universo de peladas, de todos os tipos, para todos os gostos. Existem sites específicos, de prostituição, mas não é deles que estou falando. Exibir-se faz parte da vida moderna, eis tudo. Ontem, entrei no Instagram. Entre as sugestões de pessoas para seguir, havia uma “gatinha” quase nua. Olhei suas fotos. Belíssima. Sensual. Milhares de curtidas. Está se tornando uma celebridade da internet. Simples assim.

Outro dia um amigo veio mostrar a foto da filha, de 6 anos. É uma garota bem bonita. Mas o que fazia de top de oncinha, bermuda jeans e perninha erguida? Perguntei:

– Está educando sua filha para ser periguete?

Ele ficou sem jeito, estava orgulhoso da foto. Os pais acham que aparecer é um caminho para ganhar bem, fazer sucesso, enriquecer. Qual é o jeito mais fácil? Arrancar a roupa, aparentemente. Não vi nenhum ganhador de Prêmio Nobel ter milhões de seguidores no Instagram. Peladas, sim. As filhas são educadas para arrancar a roupa o mais rápido possível. Só que são tantas que, simplesmente, isso se banalizou. Certa vez, uma atriz fora da mídia apareceu nua numa praia. Disse que fora assaltada, e os ladrões levaram... o biquíni! Fez escândalo, chorou. Assim como outra, na movimentada Praia do Leblon, no Rio de Janeiro, de tarde, fez topless. E depois reclamou dos paparazzi.

– Não tenho direito à intimidade!

Os pais tentam resguardar os filhos, controlando o acesso aos computadores. Mas adianta? O nu e até fantasias bizarras estão aí, para qualquer um ver. O adolescente esperto, que entende mais de tecnologia que seus pais, entra nos sites e vê. Na minha modesta opinião, já nem fica chocado. É normal. Pode achar uma garota mais bonita que a outra e só.

Soube que há uma “internet sombria”, onde estão as coisas mais proibidas. Fiquei curioso, perguntei a um amigo. Ele me aconselhou:

– Não entre. Eu visualizei dois minutos no máximo, havia umas fotos de pedofilia e fiquei com náuseas. É uma experiência horrível.

Meu amigo é descolado, vejam bem.

Daqui a pouco, não haverá mais graça em ver alguém pelado. Talvez, sim, seja curioso admirar gente vestida. Também é fato que o nu proliferou, aconteceu, e a família brasileira continua aí. Não foi destruída, como previa a ditadura militar.

A única coisa que me deixa curioso em toda essa história é por que o topless ainda continua proibido nas praias brasileiras. Mais ainda, por que o nudismo não se torna normal, cotidiano? Garanto, ninguém vai se assustar. Talvez só com minha barriga, se eu me atrever.


(texto publicado na revista Época de dezembro de 2015)