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domingo, 4 de agosto de 2019

Autoconhecimento e superação: Robert David Hall's story




Sobre o acidente de carro em que teve que amputar as duas pernas



CSI: Grissom e o dr. Robbins cantam na sala de autópsia - Robert David Hall unindo seus 2 talentos: a interpretação e o canto



quinta-feira, 24 de maio de 2018

Por maior que seja a saudade, não volte para quem despedaçou seu coração - Marcel Camargo (O Segredo)


A saudade e a vontade de reatar nunca poderão ser mais fortes do que a convicção de que o outro não vai mudar os comportamentos que ele repetiu durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos.

Geralmente, quem está enxergando um rompimento do lado de fora acha muito fácil a pessoa seguir adiante, de cabeça erguida, sem olhar para trás. Como se fosse simples a gente lidar com sentimentos que nos preencheram por tanto tempo os sonhos de vida. Seguir em frente, no terreno amoroso, após uma chuva de frustrações, é uma das decisões mais difíceis que existem, porque a decepção então ocorre em relação a alguém de quem menos esperávamos algo desse tipo.

Saímos derrotados, esgotados emocionalmente, com os sentimentos em desordem e em frangalhos, tentando encontrar algum sentido naquilo tudo, naquilo que não faz sentido algum. Ninguém, em sã consciência, fica esperando pelo pior, em nenhum setor de sua vida, ainda mais no âmbito amoroso. Porque a gente se doa, a gente se entrega, a gente quer que o amor dê certo e conta diariamente com isso. E, então, a vida joga na nossa cara uma decepção absurda, uma traição covarde, um vazio que vem de onde repousávamos nossas mais tenras esperanças.

Mesmo feridos, mesmo decepcionados, a saudade do parceiro será inevitável. A gente não tem onde se agarrar quando a tempestade cai sobre nossas cabeças e as lembranças daquele amor compartilhado, ainda que frágil e ilusório, parece ser o único leme ali na frente.

A gente se acostuma com a pessoa, com a rotina, com o estar junto, e tem a impressão de que não haverá mais aquilo, de que a felicidade não voltará, como se não houvesse outra forma de amor sem ser ao lado daquela pessoa – sim, aquela mesma que despedaçou o nosso coração.

É normal ter saudades. É normal ficar sem esperança momentaneamente. É normal chorar, varando madrugadas sob lágrimas. No entanto, ficar alimentando falsas esperanças em relação a quem nos machucou fundo e jogou o nosso melhor no lixo não é normal. A saudade e a vontade de reatar nunca poderão ser mais fortes do que a convicção de que o outro não vai mudar os comportamentos que ele repetiu durante todo o tempo em que vocês ainda estavam juntos.

Nenhum rompimento é fácil, seja ele de qual natureza for, porque a gente torna hábito muita coisa que é ruim, sem perceber. Então, quando a bomba explode, recompor-se será uma travessia lenta e dolorosa. Mesmo assim, por mais que estejamos sem forças, sem quaisquer perspectivas à nossa frente, precisaremos manter o pouco que nos sobra na direção do adiante, do em frente.

Revisitar em pensamento o que se foi será inevitável, porém, querer a dor de volta será uma das piores atitudes de nossas vidas.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

As quatro pontes para se libertar do medo - Roberto Shinyashiki


Para que você se veja livre da espada que paira sobre sua cabeça e viva de maneira mais leve e criativa, observe, confie, tenha alto astral e deixe a vida fluir.

Dando prosseguimento à matéria sobre o medo que tomou conta de Dâmocles (e toma conta de muitos de nós) diante das responsabilidades que nos levam à preocupação e à infelicidade por falta de fé, vamos construir as quatro pontes que aumentam a confiança e nos fazem perder o medo de sofrer.

Primeira ponte: observação

Antes de reagir ao medo que está sentindo, você deve observar: o que está acontecendo? Existe uma ameaça?

Não aja precipitadamente, pois pessoas com medo machucam quem está por perto, fogem ou atacam, e seus surtos de irritação quase sempre decorrem da insegurança.

A consciência é a melhor forma de sair do círculo vicioso medo-ataque-medo.

Portanto, não procure relaxar a respiração, pois isso aumentará a tensão. A palavra "angústia" vem do termo "contração". Simplesmente observe e fique em contato consigo mesmo por alguns minutos.

A seguir, comece a verificar seus pensamentos: o que está acontecendo em sua mente? Nossas reações nascem de nossos pensamentos; se eles forem negativos, produzirão ações que, depois, provocarão arrependimento.

Seus pensamentos irão se realizar. Portanto, esteja atento a eles: se neles existirem desgraças, elas acontecerão; se neles existir felicidade, é a felicidade que brotará.

Observe suas ações. A maioria das pessoas age sem consciência e somente tem noção dos seus atos depois que não restou outra saída senão o arrependimento. Arrepender-se e desculpar-se são atitudes generosas, mas o melhor é evitar que sua impulsividade provoque estragos.

Segunda ponte: confiança e fé. Acredite!

Quando você deixar que a vida tome conta, começará a perceber o quanto tem sido abençoado. Libertar-se do medo é como pular de um trampolim. Quando você se entrega, salta em direção à vida. Esse é o salto da fé.

Viver a ilusão de ter uma espada sobre a cabeça é como estar à beira do trampolim, mas não ter coragem de mergulhar. Adquirir essa coragem significa encarar a vida com todos os seus riscos, desfazer a assustadora visão de perigo por todos os lados.

A fé é a mais intensa ligação entre o plano espiritual e o material. Ela fornece uma força maior, capaz de nos levar à realização, à criação e à superação de nós mesmos.

Fé é diferente de esperança. A segunda convida a uma passividade que nos mantém presos a uma sensação de sermos vítimas do destino. A fé nos confere energia para agir, e é a certeza de que a vitória virá que nos dá força para batalharmos todos os dias.

Perceba que Deus o protege em todos os setores da sua vida. Quando ocorre a integração com o divino, você relaxa as tensões, se descontrai e aproveita melhor os momentos da vida.

Concentre-se inteiramente no que você faz, pois viver sem dúvida é a melhor de todas as metas, é abandonar o medo.

Não procure o sofrimento, mas, se ele fizer parte da conquista, enfrente-o e supere-o.

Terceira ponte: alto astral

Alto astral é energia positiva. É a capacidade de transcender aos acontecimentos dolorosos da vida.

Quem tem uma postura muito séria e carrancuda não deixa fluir a criatividade. A atitude positiva consegue transformar o pântano em jardim.

O pessimista acredita que eventos negativos têm origem em condições definitivas. Se perde a hora do voo é porque sempre dá azar com avião. Se o chefe elogiou, é porque queria que fizesse hora extra. Esse pessimista permite que uma decepção em determinada área de sua vida invada o restante dela.

O otimista, ao contrário, atribui uma falha a um motivo circunstancial. Para ele, as situações favoráveis são causadas por fatos permanentes: "Meu marido trouxe flores para mim porque me ama". Eles não permitem que um problema específico contamine as demais áreas de sua vida.

Comece a cultivar dentro de você o alto astral, o comportamento positivo; brinque com os reveses da vida, enfrente com bom humor até as situações mais complicadas.

O alto astral é uma forma de ver a vida. Portanto, é diferente do prazer. Quando falamos de prazer, inevitavelmente pensamos em sexo, comida, lazer. O alto astral é bem mais que isso. É um gesto de generosidade para com a vida, com os erros, com as dificuldades.

A seriedade leva ao julgamento; o alto astral à compreensão. Quando alguém está feliz, não perde tempo nem energia julgando os outros.

Quarta ponte: fluidez

Fluidez é uma característica relacionada à sua capacidade de ser espontâneo e levar a vida com facilidade, deixando tudo transcorrer naturalmente, como a água cristalina de um riacho.

Fluir é atravessar espaços vazios para realizar encontros. Muita gente quer ser dona da vida alheia e acaba provocando tensão ao seu redor.

Não existe uma verdade única, mas muitos caminhos, diversos pontos de vista para a mesma questão.

Quando os Dâmocles fluem, percebem, por exemplo, que a pessoa amada não os está rejeitando, que o distanciamento é apenas aparente. Notam então que é timidez, dificuldade de expor sentimentos. Cabe a eles brincar com o mal-entendido, fluir ao encontro do outro.

No sexo, o outro é a porta da vida. Flua através dele.

Você precisa aprender a terça a força da água, que, como não é dura como a pedra, sempre chega aonde quer pelos caminhos alternativos que encontra, amoldando-se às situações sem perder sua natureza e suas características.

O medo é uma cortina que impede a pessoa de enxergar o arco-íris da vida! Rasgue essa cortina e veja quantas maravilhas existem ao seu redor. Observe quantas pessoas o admiram e quantas são mais felizes porque você as ajudou.

Lembre-se: você é sensacional e eu sou seu fã!



(texto publicado na revista Sempre Jovem nº 16 - Ano V - 2015)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Dois exemplos de superação: Ed Sheeran e Andrea Bocelli


Ambos são exemplos de superação em relação à visão. Ed Sheeran sofreu bullying na escola por causa dos óculos e de uma operação mal sucedida em um dos olhos. Andrea Bocelli, por sua vez, nasceu com glaucoma congênito e perdeu totalmente a visão após um golpe na cabeça durante uma partida de futebol aos 12 anos. 


Perfect Symphony (Ed Sheeran e Andrea Bocelli)


Perfect (Official Video)


Il mare calmo della sera - Vincitore nella categoria Nuove Proposte al Festival di Sanremo 1994








terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A arte de reinventar-se - Tatiana Ferrador



"Nunca desista. Mesmo que o mundo te fale ao contrário, acredite sempre"

Sabe aquele ditado popular que diz que se avida lhe der limões, faça uma limonada? Então, foi isso mesmo que Susana Schnarndorf fez quando recebeu o diagnóstico de Múltipla Atrofia do Sistema, doença degenerativa.

A atleta paralímpica começou a nadar aos 11 anos de idade, ainda que a preferência de sua mãe fosse, na verdade, o balé. Determinada, fez valer sua vontade e começou a treinar duas vezes por semana na escola de natação Tibungo, em Porto Alegre (RS). Logo passou a ir todos os dias. Sua paixão era a água, assim como a de seus irmãos, que praticavam canoagem, e de onde tirava sua inspiração.

Seu desempenho melhorava progressivamente e logo vieram as competições. Aos 12 anos, já pela escola Mauri Fonseca, cujo proprietário homônimo era o ex-nadador olímpico e um dos técnicos de natação mais respeitados do Rio Grande do Sul, recebeu um convite dele para treiná-la.

Até hoje atribui aos seus ensinamentos o mérito de conhecer os verdadeiros princípios para conquistar suas metas na natação. "Ele sempre me dizia que treinar era como construir um muro, cada dia vai-se colocando um tijolinho e quando faltam tijolinhos, o muro cai", lembra.

Já aos 18 anos, Susana foi convidada a nadar pelo Minas Tênis Clube em Belo Horizonte (MG), onde ficou até os 21 anos. Durante esses três anos, teve posição de destaque na natação infanto-juvenil brasileira, mas devido ao excesso de esforço, lesionou seus joelhos e se afastou das piscinas.

De volta à casa dos pais, em Porto Alegre, não conseguiu ficar parada, e durante sua reabilitação, conheceu o triatlo. Começava, então, o aprendizado em uma nova modalidade aos 24 anos.

Graças ao apoio do pai, Ervino Schnarndorf, foi ao Paraguai comprar sua primeira bicicleta. A partir daí, começou a treinar e disputar algumas provas nacionais. Mudou-se para o Rio de Janeiro e teve em sua carreira 13 ironmans, sendo cinco vezes campeã brasileira durante 14 anos na prática esportiva. Casou-se, teve três filhos, separou-se em 2005 e foi acometida de uma grande depressão.

Sintomas 

Engasgos e falta de coordenação. Esses foram os primeiros sinais de que algo não estava bem com sua saúde. Não conseguia mais cuidar das crianças, tampouco prosseguir na sua carreira como triatleta.  Diagnósticos imprecisos e díspares a fizeram pensar que sua vida estivesse chegando ao fim e, por algumas vezes, ganhou a sentença de morte ao ouvir as mais variadas análises, como lúpus, esclerose múltipla, Parkinson, entre outros. "Foram anos muitos difíceis, principalmente por me separar dos meus filhos", conta ela.

Foi apenas em 2010 que veio um diagnóstico mais assertivo: Múltipla Atrofia do Sistema, doença degenerativa. O que seria motivo de conformismo e desânimo, tornou-se uma mola propulsora, e Susana foi incentivada a voltar a nadar. Assim, procurou o mesmo clube em que treinava triatlo e sem nenhuma pretensão, conheceu a equipe de natação paralímpica, que estava treinando ali.

Recebeu o convite do técnico da equipe para treinar com eles. Susana não hesitou e, mesmo se sentindo fora de forma, já com 40 anos, aceitou. Tentou a classificação e foi elegível na classe 58 para a natação paralímpica. Vale lembrar que quanto maior o número de classe (de 10 a 0) menor é o comprometimento da deficiência.

O que Susana não esperava era que bateria cinco recordes brasileiros logo na primeira competição. Passou a integrar a seleção brasileira de natação paralímpica e representou o País nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, conquistando o quarto lugar no nado peito.

Já em 2013, foi eleita a melhor atleta paralímpica do ano, pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), após bater o recorde mundial nos 100 metros nado peito - classe SB6, em Montreal, Canadá. "Tirei força nos meus filhos, nado por eles e para eles. A natação é meu remédio diário", diz a nadadora.

Os anos de 2014 e 2015, foram outra prova de superação para Susana, pois sua doença progrediu e seus resultados caíram drasticamente. Desistir? Não, essa palavra não faz parte de seu dicionário. Ela, no entanto, precisou passar por uma reclassificação e, atualmente, encontra-se na classe S5.

Determinada, hoje, aos 49 anos, atingiu o índice para os Jogos Rio 2016 em sua nova classe e comemora a alegria de poder competir "no quintal de casa", como diz.

"Ter meus filhos, minha família e meus amigos na arquibancada é algo que não tem preço. Vou realizar o maior sonho da minha vida e espero dar a vitória para eles", afirma, enquanto segue treinando rotineiramente com a equipe em São Caetano do Sul (SP). E deixa ainda uma dica a todos que estão passando por algum tipo de dificuldade. "Nunca desista. Mesmo que o mundo te fale ao contrário. Acredite sempre." E ela está certa, não?



(texto publicado na revista Ponto de Encontro nº 63 - ago/set de 2016)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A tática do mascarado - Melaine Martins


Roberto é motoboy. Após passar por um trauma, decidiu que o mundo precisava de uma lição. Desde então, toda madrugada, com o rosto coberto, arremessa objetos nas casas da periferia de São Paulo

Todos os dias, Roberto Barros atravessa labirintos de carros, asfalto e fumaça para fazer o seu trabalho. Sobre duas rodas, percorre uma média de 150 quilômetros diários entregando jornais e revistas. Ele é um dos mais de 200 mil motoboys da cidade de São Paulo. Há mais de duas décadas, seu cotidiano é marcado pelos olhares de reprovação dos motoristas, pelo estresse dos engarrafamentos e pelo risco constante de colisões - atualmente, 65% dos acidentes de trânsito ocorridos no Brasil envolvem motocicletas.

Essa rotina ficou ainda mais pesada em 2002. Naquele ano, Roberto sofreu dois duros golpes que o levaram à depressão: a morte da mãe e o término de um namoro de longa data. Desolado, fez terapia e entrou para um grupo de voluntários da igreja. Dois anos depois, tomou a atitude que transformaria sua vida, marcando a superação do trauma e o enchendo de motivação para levantar da cama diariamente. Nascia, assim, o Motoboy Abandonado. O que você acha que Roberto começou a fazer?

Às vésperas do Dia das Crianças, em 2004, Roberto teve uma ideia: entregar brinquedos aos pequenos moradores da região onde vive. Começou pedindo a parentes, amigos e vizinhos que doassem itens usados. Não deu certo: recebeu brinquedos velhos e quebrados. "Doados mais para esvaziar o armário que para fazer o bem", lamenta. Mesmo diante do descaso, não desistiu. Pelo contrário, percebeu que faltava conscientizar os adultos sobre a importância de cada um fazer a sua parte. Com dinheiro do próprio bolso, comprou bonecas, bichos de pelúcia, carrinhos, raquetes e aviões de plástico para arremessar no quintal das casas junto a uma cartinha dizendo "Entregue este brinquedo para uma criança que precisa de você".

A iniciativa lhe fez tão bem que virou rotina. Desde então, todos os dias, antes de começar o expediente, quando o sol ainda nem nasceu, Roberto já está nas ruas distribuindo embrulhos. Ele arremessa os pacotes em pelo menos dez casas na Vila Ema, onde mora, na Zona Leste de São Paulo, ou em bairros vizinhos, como Vila Matilde, Vila Formosa e São Mateus. Tudo anonimamente, o que gerou desconfiança entre os moradores. "Muitos acreditavam ser um político atrás de votos... Isso nunca passou pela minha cabeça! Mas se eu não era um político, era o quê?", questionou-se. E foi assim que Roberto, que na juventude sonhava seguir a carreira de ator, criou o seu personagem: o Motoboy Abandonado. Um super-herói cujos poderes são levar carinho para as crianças e, por meio do seu exemplo, transformar os adultos. "Muitas vezes, os moradores que recebem os presentes se sentem estimulados a comprar um brinquedo e levar para uma criança que precisa, formando um exército de pessoas trabalhando pelo próximo", conta.

Em 12 anos, Roberto calcula ter arremessado mais de 40 mil brinquedos. Em datas especiais, como Dia das Crianças e Natal, ele distribui 500 pacotes. O projeto já lhe rendeu, em 2014, o troféu do prêmio Paulistano Nota 10, que reconhece trabalhos voluntários das mais diversas áreas. Porém, mesmo aparecendo em programas de TV, ele não conseguiu nenhum apoio. Os brinquedos, que custam em média R$ 1 cada, comprometem mais da metade do seu salário. Ainda assim, o motoboy ampliou suas ações. Há alguns anos, manda envelopes pelos Correios para casas do seu bairro com uma moeda de R$ 1 e a seguinte mensagem: "Compre um brinquedo e entregue para uma criança". "Quando você ajuda alguém, pode esperar que outra pessoa vai te ajudar também".

Na calada da noite, o Motoboy Abandonado segue sua missão. E, mesmo que você more longe do raio de ação desse herói mascarado, já pode se considerar impactado por seus superpoderes. Afinal, a maior lição que Roberto ensina é universal: apesar dos obstáculos do dia a dia e das rasteiras da vida, sempre é possível fazer o bem para os outros, e esse é um caminho seguro para a felicidade.


(texto publicado na revista Todos - A vida é feita de histórias. Qual é a sua? - dez2016/jan 2017)

sábado, 15 de outubro de 2016

(Personagem da semana) Do lixo ao Oscar: Sebastião Carlos dos Santos - Mariana Shirai e Nelito Fernandes



O catador que criou uma cooperativa, virou obra de arte e agora está em filme indicado pela Academia

Ao ver seu retrato ser vendido por R$ 100 mil em um leilão londrino, o catador de lixo Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, não segura o choro. "Eu vejo que tudo na minha vida valeu a pena", diz o presidente da cooperativa de catadores de materiais recicláveis do Jardim Gramacho ao artista plástico Vik Muniz, autor da obra. O momento decisivo na vida de Tião é uma das cenas mais tocantes do documentário Lixo extraordinário, produção anglo-brasileira que foi indicada ao Oscar de Melhor Documentário na semana passada. O filme acompanha Vik durante o projeto social e artístico que ele promoveu na comunidade do maior lixão da América Latina. Depois de fotografar catadores, ele transformou as imagens em obras de arte, usando o lixo como uma espécie de tinta. No filme, diante do choro de Tião, Vik profetiza: "Isso é só o começo, cara, só o começo."


O começo foi lá atrás e não foi fácil. A profissão que hoje, aos 32 anos, dá orgulho a Tião já foi motivo de vergonha. Ele começou a catar lixo com 11 anos, com a família. "Para mim, catar lixo era natural", diz. Para os outros, não. Sua mãe deu uma entrevista para o Globo Repórter e ele passou a ser perseguido pelo colegas da escola. No dia seguinte à entrevista, chegou à sala de aula e viu escrito na lousa: "Tião, filho da xepeira", uma referência à xepa, prática de pegar os restos de feiras para levar para casa. Numa festa da escola, Tião dançava com a namoradinha quando um menino anunciou pelo microfone: "Olha, ela está dançando com o filho da xepeira". Humilhado, Tião saiu da festa correndo. Saiu também da escola. Ficou cinco anos sem estudar. Agora ,cursa o 2º ano do ensino médio. Seu sonho é fazer sociologia.

Tião parece um cantor de reggae. Magro, cerca de 1,75 metro, de calça jeans apertada e dreadlocks, é brincalhão e muito eloquente. A frase é preconceituosa, mas deve ser dita: você não imagina encontrar um sujeito como ele ali. Na assembléia dos catadores da última quarta-feira, era ouvido atentamente pelo companheiros. São 1.480 associados à ACAMJG e Tião é um de seus fundadores. Depois da indicação ao Oscar, ele acha que sua voz vai chegar muito mais longe que os 300 metros quadrados do galpão sufocante da associação dos catadores. "Quem nunca teve voz agora vai ter, agora vão nos ouvir", diz ele.

Os catadores estão em litígio com a prefeitura de Duque de Caxias. O lixão será desativado em 2012. Segundo Tião, o plano de desativação previa a formação de um fundo de R$ 1,2 milhão para a recolocação dos catadores no mercado de trabalho. O consórcio vencedor já foi escolhido, mas o fundo não saiu do papel. Na assembléia, os catadores decidiram fazer uma passeata de protesto até a sede da prefeitura. "O poder público é igual a feijão ruim: só funciona na pressão", diz ele, aplaudido por cerca de 200 catadores. O próprio Tião não cata mais lixo desde 2007, quando foi eleito presidente da cooperativa. Cada cooperado ganha cerca de R$ 50 por dia. Ele recebe R$ 700 mensais. "Perdi dinheiro", diz, rindo. 

No filme, Tião diz que gosta de Nietzsche e Maquiavel. Ele encontrou um exemplar de O príncipe, de Maquiavel, no meio do chorume do aterro. Depois de ler, ficou comparando os príncipes descritos por Maquiavel com líderes do tráfico. Ele conta que a obra foi fundamental quando estava começando sua própria liderança. "O que é bonito no Tião é que ele mantém o respeito pelo lugar de onde saiu. É carismático, interessante, engraçado. Está famoso e ainda me liga a cobrar", diz Vik Muniz.


A vida de Tião está mudando. A cooperativa recebeu R$ 200 mil da venda dos quadros, dinheiro que foi investido na compra de equipamentos e obras. Tião e outros seis trabalhadores retratados ganharam R$ 10 mil cada. Ele comprou uma casa num bairro próximo ao lixão, onde vive com a mulher e a filha de 9 anos. Agora se prepara para a entrega do Oscar - embora não vá ao cinema há 11 anos. Se o filme ganhar, Vik diz que é o astro e catador quem vai receber a estatueta. Tião quer ver Angelina Jolie de perto. "Dizem que ela é tão linda que a gente fica até mundo." E sua mulher, não ficaria com ciúmes?" Ela sabe que a Angelina Jolie nunca ia dar mole para mim. Vou trazer uma foto do Brad Pitt para ela. Se bem que ela gosta mais de um pretinho, o Will Smith acho que seria melhor." Esse é Tião.




(texto publicado na revista Época nº 663 - 31 de janeiro de 2011)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Legado da paralimpíada - Roberto Mattus - CIEE


Bastaram um planejamento de longo prazo, iniciado em 2009, e um aumento nos investimentos, de R$ 168 milhões a R$ 375 milhões, para que a delegação de 287 atletas iniciasse ontem a disputa pelo pódio alimentando o sonho de terminar a Paralimpíada do Rio em quinto lugar, entre os 176 países participantes. E, o que é melhor, com a confiança dos brasileiros de que tem tudo para chegar lá. Afinal, de 1972, em Heidelberg, a 2012, em Londres, houve o apreciável salto do 32º para o 7º lugar no ranking paraolimpíco. No intervalo, o Brasil colecionou resultados significativos, atingindo a liderança do Parapan de Toronto (mais ouro que os Estados Unidos e Canadá) e boas marcas no Parapan de Guadalajara.

O histórico de superação dos paratletas não é diferente daquele de seus colegas que acabaram de disputar os Jogos do Rio. Ambas as delegações enfrentam os mesmos problemas de falta de apoio, de verba e de infraestrutura para treinamento, entre outros obstáculos. Com um adicional: "A gente é coitado ou super-herói. Somos tão humanos quanto qualquer pessoa, podemos errar ou acertar. Infelizmente esse estereótipo é uma pressão." A declaração - dada em entrevista pela velocista Terezinha Guilhermina, deficiente visual que em três jogos olímpicos conquistou seis medalhas (três ouros, uma prata e dois bronzes) - é válida também para a árdua competição que as pessoas com deficiência enfrentam na busca pela inclusão no mercado de trabalho.

Alinhado a essa causa desde 1999, com um programa específico de estágio e aprendizagem, o CIEE é testemunha da teia de preconceito e incompreensão que esse segmento enfrenta para conquistar o pleno exercício dos direitos da cidadania. Mas o CIEE também é testemunha, até por experiência própria, dos bons dividendos que a inclusão de deficientes traz para o ambiente organizacional, a começar por surpreendentes produtividade e capacidade e adaptação. Nossa expectativa é que os Jogos Paralímpicos do Rio deixem como legado, além da merecida coleção de medalhas, uma nova visão - mais justa e mais humana - sobre a inclusão das pessoas com deficiência.



(texto publicado no Jornal Jaguaré nº 209 - ano 18 - setembro de 2016)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Da depressão ao pódio - Lucas Faraldo


Rafaela Silva, Diego Hypolito e Poliana Okimoto tiveram de superar o distúrbio para ganhar medalha na Rio 2016. São exemplos de superação que podem ajudar outros pacientes

Rafaela Silva, Diego Hypólito e Poliana Okimoto, além das medalhas conquistadas na Rio 2016, têm ao menos mais uma semelhança: superaram diagnósticos de depressão para chegar ao pódio no maior evento esportivo do planeta. E podem agora servir de inspiração - e salvação - para pacientes que sofrem do distúrbio.

Antes de mais nada, é importante enfatizar que depressão não é "frescura". Baixa autoestima, perda de interesse em muitas atividades e dores sem motivo aparente levam ao suicídio até 7% dos adultos diagnosticados, segundo estudo publicado em 2014 pela Universidade de Oxford, dos Estados Unidos.

Sempre que um atleta é confrontado com desafios, ele acaba sofrendo um bloqueio. Para superar as provas, tem de impedir que os acontecimentos ruins voltem à tona - explica Vinicius Hirota, professor de educação física com ênfase em desenvolvimento humano.

E bloqueios dos mais diversos foram superados por Rafaela, Diego e Poliana. A judoca, vítima de ataques nas redes sociais após ser derrotada em Londres 2012, se afastou dos tatames, pois só conseguia chorar ao pensar em judô. O ginasta foi demitido do Flamengo depois de falhar em Pequim 2008 e Londres, perdeu dez quilos e foi hospitalizado por conta de ansiedade elevada. A nadadora, que abandonou a prova da maratona aquática em 2012 com quadro de hipotermia, cogitou encerrar sua carreira antes da Rio 2016.

- A depressão ameaça não só a carreira esportiva de uma pessoa, mas a própria vida dela - sintetiza Eduardo Cillo, psicólogo esportivo.

- Esse exemplo dos medalhistas é fantástico. Quantas medalhas foram concorridas em mais de 100 anos de Olimpíadas? Pouquíssimas comparadas ao número de competidores. Isso é uma história de superação, mostra que os atletas sofreram, mas treinaram, se dedicaram e aí o resultado foi positivo - aponta Hirota.

E o que são esses atletas senão pessoas dando a volta por cima em algo no qual sentem prazer em praticar? É justamente nisso que pacientes diagnosticados com depressão podem se espelhar. Afinal, também são pessoas buscando superação.

- As medalhas desses atletas têm um valor muito grande para uma pessoa que está passando por dificuldade - diz Cillo, que complementa:

- O que mais emociona na história desses três esportistas é ver que o momento ruim ou o momento no qual não vemos saída ou esperança não é necessariamente o fim. É um momento. Se tiver paciência, cuidado, a gente pode sair dessa situação e voltar a ter momentos de felicidade plena na vida. Isso não só para o atleta, mas para qualquer pessoa. Isso é emocionante, dá esperança.


(texto publicado no jornal Lance! o diário da olimpíada de 18 de agosto de 2016)