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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
sábado, 17 de dezembro de 2016
sábado, 15 de outubro de 2016
7 situações para conhecer realmente uma pessoa (Conti Outra)
Muitos de nós temos amigos de uma vida inteira; alguns continuam nos surpreendendo positivamente e, em outras ocasiões, nos decepcionam. Também vamos conhecendo pessoas novas que nos mostram ser adoráveis, e queremos continuar a conhecer e a compartilhar coisas com elas, pois a companhia é bem agradável.
Mas conhecer uma pessoa em profundidade, com toda sua parte positiva e negativa, é algo que implica mais intimidade, muitas horas, muitas situações distintas e compartilhar mais do que apenas um jantar ou uma noite de festa.
Ainda assim, mesmo tendo compartilhado muito tempo e muitas experiências boas e ruins, existem situações concretas nas quais se conhece realmente uma pessoa. Vamos repassá-las, algumas mais sérias e outras mais banais, mas todas elas nos permitem ver aspectos internos dessa pessoa que desconhecíamos.
Situações de estresse
Quando uma pessoa se encontra em uma situação estressante, ainda que não seja grave, podemos saber muitíssimas coisas sobre ela pela forma como ela aborda essa situação.
Ela pode ficar nervosa, agressiva, incapaz de pensar com clareza, não buscar soluções ou até mesmo apenas reclamar (pessoas menos indicadas) ou inclusiveculpar os outros pelo que aconteceu.
“Aprendi que se pode conhecer bastante bem uma pessoa a partir da forma como ele ou ela reage em três situações: num dia de chuva, com bagagem perdida e na forma como desembaraça as luzes de Natal.”
-Maya Angelou-
Também podemos ver uma atitude de evitação, delegando responsabilidades para os outros porque considera que não é capaz de fazer algo ou porque não tem motivos para fazê-lo.
Essas situações são do tipo menos importante, mas a forma como uma pessoa se comporta perante os estresses menores nos vão dar uma ideia de como ela pode lidar com situações de maior estresse por assuntos mais sérios.
Situações nas quais a pessoa precisa de você e outras em que não precisa
Não se trata de uma pessoa só falar com você para pedir um favor e deixar de falar quando você já o tiver feito (o que acontece). Trata-se dessas relações em que uma das partes se relaciona com outra, mas quando já não lhe interessa por vários motivos, deixa de lembrar de você.
Por exemplo, uma colega de faculdade com quem você fazia todos os trabalhos e compartilhava tempo livre, e quando termina a faculdade se mostra fria e distante. Aquela amiga com quem você saía e depois de começar a namorar você sabe pouco ou nada sobre ela. Aquela pessoa a quem você ofereceu ajuda para mudar para outro país e de repente te ignora quando já está instalada…
Saber quando o seu amigo ou amiga precisa de você e quando não precisa lhe dará uma pista de como essa pessoa realmente é. Apesar do que ela lhe disser, o mais importante é observar seus atos.
Situações de convivência
A convivência é a prova definitiva se você quiser saber como uma pessoa realmente se comporta. A maneira de respeitar o seu espaço, de respeitar suas coisas, de não discutir por coisas absurdas… Você percebe se a pessoa é capaz de compartilhar ou simplesmente seguir a sua vida na sua casa, que muitas vezes parece qualquer coisa, menos algo compartilhado.
Você percebe se ela é capaz de separar um tempo para falar um pouco sobre as coisas que lhes preocupam, se ela te ajuda se você ficar doente, se não se compromete em assuntos de contas, reuniões ou uma falha simples na casa de vocês.
Dá para perceber se ela é independente de forma saudável ou se é egoísta de forma clara e evidente em tudo que faz, e também se a pessoa se mostra simpática na rua e trata os outros de forma hostil na convivência.
Situações em que ela fala dos outros para você
Comentar sobre os outros é algo normal, principalmente quando duas pessoas compartilham o mesmo grupo de amigos ou se desenvolvem em um ambiente comum (profissional, esportivo, social…). Mas falar dos outros não implica faltar o respeito.
Em vez disso, julgar continuamente o que ela faz, considerar se a vida dela é melhor ou pior do que a sua ou contar coisas íntimas dessa pessoa pode dar alguma pista sobre quem está do seu lado.
Situações de dificuldade econômica
É difícil saber quando um amigo é realmente egoísta. É preciso perceber quando uma pessoa te faz um favor só porque você já fez outros para ela e porque sabe que, talvez, você irá recompensar o favor mais tarde. Mas essa generosidade é falsa, isso não deixa de ser interesse.
Quando passamos por uma dificuldade econômica e essa pessoa não leva em conta a nossa situação e, além de não oferecer ajuda, ainda reclama de algo injusto do passado, nos damos conta de que tipo de pessoa temos como amiga.
Ela inclusive pode chegar a nos emprestar algum dinheiro, mas vai fazer isso com relutância, nos perguntando sempre quando vamos devolver (sem que esteja precisando neste momento) ou falando com os outros sobre o quanto fez por nós, deixando-nos em uma posição bastante desagradável.
Situações relacionadas com as suas alegrias
Um amigo deve estar presente nas horas de alegria e de tristeza. Diz-se frequentemente que as pessoas que não são amigas de verdade te deixam sozinho quando você está passando por um mau momento e só se lembram de você quando trata-se de algo divertido.
Mas pode acontecer o contrário: o amigo que parece te ouvir e que está do seu lado quando tudo dá errado e ainda assim te desvaloriza e te boicota emocionalmente quando as coisas vão bem. Se a sua vida começa a entrar nos trilhos e a pessoa sente inveja ou uma falsa alegria, ela não é para você.
As pessoas vivem situações estressantes em suas vidas, e é extremamente importante contar com um apoio social que, para nós, pareça válido e caloroso.
“É nos momentos difíceis que a amizade passa por um teste decisivo.”
Surpreendentemente, naqueles momentos em que precisamos mais da atenção e do carinho de alguém, podemos encontrar indiferença, palavras de baixo calão ou subvalorização do nosso humor. Podemos até notar uma atitude fria, em que os problemas da outra pessoa continuam acima dos nossos, ainda que estejamos passando por uma situação realmente difícil.
Por isso, cerque-se das melhores pessoas e seja você também uma delas. E nunca se esqueça, trate os outros como gostaria de ser tratado. Uma forte rede de amigos é um tesouro muito valioso que se deve saber construir, manter e apreciar.
segunda-feira, 28 de março de 2016
São Paulo é a cidade com o maior índice de perturbações mentais do mundo (Psicologias do Brasil)
O relatório São Paulo Megacity Mental Health Survey mostrou que a região metropolitana de São Paulo possui a maior incidência de perturbações mentais no mundo. O estudo feito pela OMS (Organização Mundial de Saúde) revela que 29,6% dos paulistanos e moradores da região metropolitana, sofrem de algum tipo de perturbação mental. O levantamento pesquisou 24 grandes cidades em diferentes países.
Entre os problemas mais comuns apontados no estudo estão a ansiedade, mudanças comportamentais e abuso de substâncias químicas. Dentre eles, a ansiedade é o mais comum, afetando 19,9% das 5.037 pessoas pesquisadas.
Depois de São Paulo, cidade que representa o Brasil no estudo, os EUA aparece em segundo lugar, com aproximadamente 25% de incidência de perturbações mentais. A cidade norte-americana utilizada no levantamento da OMS não foi revelada.
Além de ser a cidade com maior incidência de perturbações mentais, São Paulo também aparece na liderança do ranking de casos graves, com 10% da população afetada. Neste ponto, a capital paulista também é seguida pelos EUA, que possui uma incidência de casos graves de 5,7%
De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, a alta incidência de perturbações mentais é causada pela alta urbanização associada com privações sociais. Segundo eles, os grupos mais vulneráveis são homens migrantes e mulheres que residem em regiões de alta vulnerabilidade social.
Em São Paulo, a pesquisa da OMS foi financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), sob a coordenação da Profª Laura Helena Andrade, professora do Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, e da Profª Maria Carmen Viana, professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Erra o parceiro que não procura o outro por receio de se sentir inferior - Dr. Nahman Armony
Reprimir o desejo de telefonar ou de escrever par alguém com quem nos relacionamos só por achar que isso nos leva a uma condição de inferioridade é pura disputa de poder. Atitudes como essa, regidas pelo medo de nos tornarmos aquele que cede e não o que dita as regras da vida do casal, devem ser evitadas, pois levam à situação de dominador/dominado, que não faz bem às relações.
Quem procura quem é uma questão que costuma aparecer nas relações amorosas - e na maior parte das vezes trata-se de uma disputa de poder. Acredita-se que aquele que toma a iniciativa de procurar o outro o faz porque precisa mais do parceiro e isso o deixa em posição de inferioridade para discutir o estilo de vida e os valores do casal, tendo que ceder frequentemente.
Ter poder, estar em uma posição superior, é uma vantagem que todos nós desejamos, pois dá uma sensação de segurança, de intocabilidade e de que se pode impor o próprio jeito de ser. Por isso, algumas pessoas reprimem o impulso de procurar o parceiro. Não querem ficar "por baixo". Pensamentos como "eu é que não vou telefonar primeiro" fazem parte dessa síndrome. Muitas vezes uma relação promissora não vai adiante em razão dessa espécie de orgulho que não leva a lugar nenhum.
Numa relação assim, que já começa com uma disputa de poder, sempre haverá um dominador e um submetido, mesmo que o casal não perceba. O dominado sentir-se-á desvalorizado e sofrerá com isso, podendo vir a adoecer psíquica e fisicamente, que recairá sobre o dominador, que terá um problema em suas mãos. Outra possibilidade é o submetido, ressentido com a situação, vingar-se de seu opressor de muitos modos sutis, podendo tornar a vida do casal permanentemente desagradável.
Vários são os motivos que nos levam a desejar o poder. Um deles - e esse interessa particularmente à situação de casal - tem a ver com a tendência de sermos influenciados. A imposição de valores é uma forma de defesa de identidade: convencendo o outro e trazendo-o para o nosso sistema de valores somos nós que o influenciamos, ficando a salvo de sua influência. Acreditamos que se não formos pró-ativos corremos um risco maior de sermos sugestionados e de, desse modo, perdermos a nossa identidade.
O que fazer? Devemos trabalhar este medo, diminuindo-o ou neutralizando-o, para evitar certas situações de disputa, de orgulho, de teimosia. A questão sobre quem procura quem deixa de ser um termômetro de poder e passa a ser sinal de interesse: se eu o procuro é porque o amo e espero que ele retribua meu amor procurando-me sempre que sentir falta de mim. Estamos aí no registro da troca, da mutualidade, do amor, da confiança, da reciprocidade e não no do orgulho, da teimosia, da competição, da luta por um poder duvidoso.
O esforço para não se enfraquecer diante do companheiro também leva a outros comportamentos, como o de esconder aspectos de nossa personalidade ou de nossa vida que que, acreditamos, poderiam nos desvalorizar. Em geral isso é feito em nome do direito à privacidade. Este realmente é importante, mas quando usado a serviço da manutenção da superioridade e do poder psicológico pode levar a uma relação afetiva problemática. Portanto, vale a pena se perguntar: "Por que estou escondendo isso dele ou dela?" Se a resposta for "porque quero me manter poderoso", então algum trabalho psíquico deverá ser realizado.
Numa relação ideal, as diferenças inevitáveis nos modos de ser e agir nunca são usadas para criar uma relação de superioridade/inferioridade. Elas são negociadas, cada um cedendo um pouco, em busca da harmonia na relação.
(texto publicado na revista Caras edição 1010 - ano 20 - nº 11 - 15 de março de 2013)
domingo, 11 de janeiro de 2015
Esquizofrenia pode ser mantida sob controle - Maura de Albanesi, psicóloga
Distúrbio crônico que atinge partes muito sofisticadas de nosso cérebro, a esquizofrenia é uma doença que tem causas que envolvem fatores genéticos e ambientais/sociais, como a perda de um ente querido, catástrofes ou uso de drogas. Nesse sentido, aqueles que tiverem uma predisposição genética aliada a fatores ambientais são mais vulneráveis ao transtorno. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a patologia atinja pouco mais de 1% da população mundial.
Mais comum na adolescência e no início da idade adulta, a doença atinge ambos os sexos de maneira igual. No entanto, nas mulheres ela é mais branda por causa, principalmente, da questão hormonal. O estrogênio (hormônio feminino) promove nas células nervosas um efeito semelhante ao dos medicamentos antipsicóticos, o que faz dele um remédio natural contra a manifestação da esquizofrenia.
Hoje, os sintomas são classificados em dois grupos, os produtivos e os negativos. No início a doença, o paciente apresenta os sintomas negativos. Ele tem delírios que distorcem a percepção da realidade e, em alguns casos, acha que está sendo seguido ou que tem alguém armando contra sua integridade. Alucinações também são muito recorrentes nessa fase e o indivíduo ouve vozes, muitas vezes imperativas, que o estimulam a tomar certas atitudes. No período mais crônico surgem os sintomas que chamamos de negativos. Neste momento, a pessoa sofre uma diminuição da vontade de fazer certas coisas, isolando-se dos amigos, da família e de todos os entes queridos.
Não existe uma forma específica de prevenir a doença, pois muitos dos fatores 'gatilho' estão relacionados à imprevisibilidade da vida. Mas evitar cigarro, álcool e outras drogas são atitudes importantes, além de manter uma rotina saudável, livre do sedentarismo e com uma alimentação equilibrada. Caso a pessoa já tenha o diagnóstico da esquizofrenia, é fundamental iniciar de imediato o tratamento, pois ele abranda a incidência e impede que ela provoque danos mais profundos na personalidade. Essa é uma segurança de que o indivíduo não vai abandonar a rotina da vida, os estudos, o trabalho, o contato com os entes queridos, garantindo sua qualidade de vida. Vale lembrar que os remédios também evoluíram muito. Hoje, os antipsicóticos, utilizados para tratar problemas psicológicos, causam pouquíssimos efeitos colaterais, algo que não acontecia anteriormente e era um dos principais motivos pelos quais o paciente abandonava o tratamento no meio, o que facilitava a recaída da doença.
Um tratamento só é eficiente quando existe apoio incondicional da família, aliado fundamental. A aceitação da doença tem impacto na melhora ou na piora clínica do paciente. É importante que a família esteja orientada para que possa compreender os sintomas e as atitudes do paciente, o que evita interpretações erradas. A informação é a principal ajuda aos familiares, pois os livra de preconceitos, medos, dúvidas e inseguranças.
(texto publicado na revista Contigo! nº 2042 - 6 de novembro de 2014)
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
O poder de cura do amor - Dr. José Ângelo Gaiarsa
Na obra Amores Perfeitos, o psiquiatra e psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, pioneiro da psicoterapia corporal no Brasil, defende que só o estado amoroso desmancha o adulto que somos e nos faz voltar a ser criança, flexível para começar tudo de novo
"Vamos falar sobre o poder de cura do amor. O amor como terapia ideal; ou, mais ainda, como a única força capaz de nos humanizar. Terapia no melhor significado da palavra: como alcançar altos níveis de consciência, de percepção, de sensação - de vida. Porque só o estado amoroso é capaz de nos fazer crianças outra vez, de apagar instantaneamente todos os condicionamentos sociais, de realizar o que nos disseram todos os iluminados: 'Se não fores como crianças, não entrareis no Reino de Deus...'.
Nos momentos de contato profundo ou de comunhão emocional, temos sentimentos de adolescente e sensações de criança. São momentos altíssimos da vida. Ter sensações de criança quer dizer sentir muito prazer sem culpa, sem vergonha e sem medo, na mais completa inocência. Ter sentimentos ou emoções de adolescente quer dizer reviver o eterno tema Romeu e Julieta - a revolução que nunca permitimos que aconteça, porque nosso mundo persegue e reprime o amor mais do que qualquer outro sentimento.
Muitos usam essas duas declarações com sentido contrário ao que elas têm. A inveja da felicidade amorosa é a pior inveja do mundo, e a mais frequente. Ninguém pode ver alguém feliz amorosamente, pois essa visão faz perceber, no ato, o vazio e o sem sentido da vida sem amor. E logo se ouve: 'Você parece criança', 'Você parece um adolescente'.
Tornar-se criança é a essência da força curativa do amor, a maior mágica do estado amoroso. Minha criança é o melhor de mim, é o mais vivo, o mais plástico, o que ainda pode ver as coisas de outro jeito. Então, vou preservar essa criança o mais que eu puder, e se o amor faz esse milagre, vou agradecer de joelhos o poder de me sentir criança de novo para recomeçar tudo em outra base. É o que se espera de uma psicoterapia perfeita. Desmanche todo o adulto, que ele é a soma de condicionamentos incorporados. Volte a ser criança e comece tudo de novo. 'Se não vos fizerdes crianças de novo, não entrareis no Reino de Deus...'
Mais uma qualidade mágica do encontro amoroso é a individualização. Quando duas pessoas se olham amorosamente, saem ambas da multidão anônima. Você sai do uniforme, eu saio do uniforme. Você está sendo você e eu estou sendo eu. Uma das poucas ocasiões da vida em que se experimenta esse encontro tipo "olhos nos olhos". Alguém me reconhece d forma profunda como eu mesmo, não como irmão, tio, oficial, médico. Atenuam-se as máscaras, desaparecem as categorias. Encantamento é o que sentimos ao perceber até que ponto o outro é vivo e até que ponto sou - estou - vivo. Amor não é cego - é lúcido.
Nós vivemos o dia inteiro tendo desejos, dos quais muitos poucos são realizados, e quanto mais erótico ou fora da nossa rotina, pior para ele, porque vai ser excluído, negado, reprimido. As pessoas sabem o que precisam fazer - o que lhe falta. O que precisam é de coragem e decisão para enfrentar os outros."
(texto publicado na revista Bons Fluídos nº 183 - junho de 2014)
domingo, 7 de dezembro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Entrevista com a psicóloga Maíra Simeão sobre o luto e a perda de um cachorro - Samantha Kelly (Portal do Dog)
O falecimento de um ente querido, independente da espécie, pode ter um efeito devastador na vida do enlutado. No caso de perda de um pet, ainda há o agravante que os donos precisam lidar com o preconceito de ter sua dor por vezes menosprezada pela sociedade.
Mesmo sendo um período muito pessoal no qual cada indivíduo lida de maneira que sabe e pode, se conhecer e entender o processo do luto pode ajudar a compreender o turbilhão de emoções inerentes à perda.
Em conversa com a psicóloga Maíra Simeão, através de sua sensibilidade ímpar, podemos olhar com mais clareza um dos momentos mais complexos e dolorosos da vida: a morte.
Confira abaixo a entrevista:
1 - O que é o luto?
O luto é uma reação esperada diante da perda de algo significativo para o indivíduo, onde estão presentes diversas reações emocionais e fisiológicas, geralmente repercutindo nos mais diversos âmbitos da vida do enlutado. De modo geral, pode ser uma experiência bastante dolorosa e desorganizadora, mas é necessária para a superação da perda, e é fundamental que durante esta fase o enlutado possa manifestar seus sentimentos como forma de ir se organizando e se adaptando às mudanças ocorridas.
2 - Quais sentimentos são comuns em pessoas que experienciam o luto (ex.: culpa, negação, raiva e depressão)
São inúmeros os sentimentos que podem eclodir diante de uma perda. Há a negação, onde a pessoa tenta evitar o contato com a perda, não aceitando; há a raiva ou revolta, onde a pessoa se questiona porque isso aconteceu com ela, se ela merecia, etc.; há saudade e a necessidade de buscar e recuperar a figura perdida; há o choque, a depressão e desorganização, culpa, ansiedade, irritabilidade, solidão, desamparo, fadiga, pode vir também o alívio, etc.
3 - Quem procurar nesse momento para auxiliar na perda?
Este auxílio pode vir de um profissional, grupos de apoio, amigos e familiares.
4 - Quando seria a hora de procurar um profissional.
Quando a pessoa sentir necessidade. Pode ser logo após a perda ou tempos depois. Muitas pessoas só vêem necessidade de procurar um profissional quando sentem que o seu processo de luto está muito prolongado ou vem se desenvolvendo de forma "atípica" ou "patológica", porém, trabalhar a sua dor pode auxiliar na elaboração da mesma em qualquer que seja o tempo, mas claro que o quanto antes, melhor.
5 - Por que há tanto preconceito com a dor sofrida na perda de um pet? Muitos escutam "Ah, era só um cachorro" ou "Compra outro".
Mesmo com o conhecimento de toda a existência e expressão do vínculo afetivo entre homem e animal, a sociedade não aceita o pesar causado pela morte de animais de estimação, minimizando e menosprezando este luto. Há um preconceito em aceitar que alguém chore pela morte do seu bicho como se fosse por uma pessoa. Sendo assim, estas pessoas se sentem incompreendidas, muitas vezes suprimindo o seu luto. A morte de um ente amado é uma das dores mais intensas que o indivíduo pode experimentar e os sentimentos causados pela morte de um animal de estimação podem gerar sofrimento comparável à morte de uma pessoa querida. Há estudos que apresentam esse paralelo, evidenciando que pessoas ficam tão perturbadas que são incapazes de realizar suas atividades rotineiras, sentem angústia, choro fácil e intenso, insônia, outras reações fisiológicas, depressão, etc, reações comumente encontradas em enlutados pela morte de outras pessoas.
A citação a seguir exemplifica as questões referentes a este tipo de preconceito: "Toda sociedade possui um conjunto de normas sociais de comportamento baseadas na cultura dessa própria sociedade.
Dentre estas regras, estão as referentes ao luto. Elas definem determinados padrões de comportamento, como, por exemplo, quais são as perdas passíveis de luto, quem tem legitimidade de enlutar-se e quais os comportamentos adequados para a vivência dessa realidade. No entanto, essas regras sociais que têm caráter coletivo podem não corresponder aos valores e sentimentos inerentes aos integrantes dessa mesma sociedade." Carolina Alves de Sousa Lima - Aborto e anencefalia.
6 - Existe o grupo de apoio Association for Pet Loss and Bereavement para pessoas que estão em luto pelo pet que morreu. O que você acha dessa iniciativa?
Acho fantástica. A postura que devemos ter diante de uma pessoa que sofre a morte do seu animal não tem que ser diferente da que temos perante uma pessoa enlutada pela morte de uma pessoa querida. Essas pessoas estão fragilizadas e precisam de acolhimento e respeito a sua dor. Criar espaços para que elas se expressem, que discutam a vivência do seu luto, é um passo bastante importante, pois esta vivência necessita ser verbalizada e trabalhada. Preparar os profissionais da veterinária também é fundamental, pois são geralmente estas pessoas que acompanham as famílias e todo o processo de morte do animal, e o atendimento necessita ser diferenciado. Tenho conhecimento que existem clínicas veterinárias no Brasil, embora muito restritas, que já contam com serviços especializados de psicologia justamente para trabalhar com proprietários que vivenciam o luto.
7 - Em casos de eutanásia, como lidar com a culpa?
A culpa é um sentimento quase que inerente à prática da eutanásia, mesmo diante de uma doença grave do animal. É importante que para a elaboração deste sentimento diante dessas situações, a pessoa possa refletir sobre o que levou à decisão da eutanásia, como estava a vida do seu animalzinho, que por mais gostoso que seja ter ele ao seu lado, o animal vinha sentindo dor, sofrimento e total perda da qualidade de vida, e além disso, que a pessoa fale sobre este sentimento, pois muitas vezes essa conscientização não é suficiente.
8 - Alguns escolhem ter um novo pet logo após a perda. Essa prática ajuda ou é mais um subterfúgio para não viver o luto?
Pode ajudar ou ser uma fuga do sofrimento, não existe uma regra para isto, vai depender de cada caso e é importante analisar qual a verdadeira intenção em ter um novo animal. Ocorre muitas vezes de "oferecerem" um novo bichinho para a pessoa que perdeu seu animal, ou ela própria opta por isto, pensando que assim não sofrerá ou sofrerá menos. Então, se a pessoa vai ou não ter um novo animalzinho, o importante mesmo é ter consciência que rejeitar ou suprimir o luto não auxilia em sua elaboração.
9 - Qual a importância de vivenciar o período do luto.
Como citei anteriormente, a experiência do luto é necessária para a superação da perda e para a reorganização psíquica e social do enlutado, ainda que seja dolorosa e muitas vezes dilacerante.
10 - O que fazer para amenizar a dor da perda.
Se utilizar de mecanismos para evitar a dor pode complicar o processo de elaboração da perda. O ideal é que a pessoa possa se expressar e chorar se assim o quiser, pois estas atitudes podem contribuir para a elaboração da perda. Com o tempo podem ir retomando suas atividades, sair com amigos e familiares, etc. Se a pessoa não quiser falar, interagir ou sair de casa, não force, mas se coloque a disposição para escutá-la e acolhê-la e esteja atento às suas reações.
Didaticamente falando, mas sabemos que na prática não é tão linear ou simples assim, as "tarefas" na elaboração do luto são as seguintes: aceitar a perda, ter consciência do falecimento, expressar seus sentimentos, tentar se ajustar às mudanças e retomar suas atividades, guardar boas lembranças e se permitir fazer planos e olhar para o futuro.
Acho fantástica. A postura que devemos ter diante de uma pessoa que sofre a morte do seu animal não tem que ser diferente da que temos perante uma pessoa enlutada pela morte de uma pessoa querida. Essas pessoas estão fragilizadas e precisam de acolhimento e respeito a sua dor. Criar espaços para que elas se expressem, que discutam a vivência do seu luto, é um passo bastante importante, pois esta vivência necessita ser verbalizada e trabalhada. Preparar os profissionais da veterinária também é fundamental, pois são geralmente estas pessoas que acompanham as famílias e todo o processo de morte do animal, e o atendimento necessita ser diferenciado. Tenho conhecimento que existem clínicas veterinárias no Brasil, embora muito restritas, que já contam com serviços especializados de psicologia justamente para trabalhar com proprietários que vivenciam o luto.
7 - Em casos de eutanásia, como lidar com a culpa?
A culpa é um sentimento quase que inerente à prática da eutanásia, mesmo diante de uma doença grave do animal. É importante que para a elaboração deste sentimento diante dessas situações, a pessoa possa refletir sobre o que levou à decisão da eutanásia, como estava a vida do seu animalzinho, que por mais gostoso que seja ter ele ao seu lado, o animal vinha sentindo dor, sofrimento e total perda da qualidade de vida, e além disso, que a pessoa fale sobre este sentimento, pois muitas vezes essa conscientização não é suficiente.
8 - Alguns escolhem ter um novo pet logo após a perda. Essa prática ajuda ou é mais um subterfúgio para não viver o luto?
Pode ajudar ou ser uma fuga do sofrimento, não existe uma regra para isto, vai depender de cada caso e é importante analisar qual a verdadeira intenção em ter um novo animal. Ocorre muitas vezes de "oferecerem" um novo bichinho para a pessoa que perdeu seu animal, ou ela própria opta por isto, pensando que assim não sofrerá ou sofrerá menos. Então, se a pessoa vai ou não ter um novo animalzinho, o importante mesmo é ter consciência que rejeitar ou suprimir o luto não auxilia em sua elaboração.
9 - Qual a importância de vivenciar o período do luto.
Como citei anteriormente, a experiência do luto é necessária para a superação da perda e para a reorganização psíquica e social do enlutado, ainda que seja dolorosa e muitas vezes dilacerante.
10 - O que fazer para amenizar a dor da perda.
Se utilizar de mecanismos para evitar a dor pode complicar o processo de elaboração da perda. O ideal é que a pessoa possa se expressar e chorar se assim o quiser, pois estas atitudes podem contribuir para a elaboração da perda. Com o tempo podem ir retomando suas atividades, sair com amigos e familiares, etc. Se a pessoa não quiser falar, interagir ou sair de casa, não force, mas se coloque a disposição para escutá-la e acolhê-la e esteja atento às suas reações.
Didaticamente falando, mas sabemos que na prática não é tão linear ou simples assim, as "tarefas" na elaboração do luto são as seguintes: aceitar a perda, ter consciência do falecimento, expressar seus sentimentos, tentar se ajustar às mudanças e retomar suas atividades, guardar boas lembranças e se permitir fazer planos e olhar para o futuro.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
sábado, 7 de dezembro de 2013
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Dormir bem, comer melhor - Manfred Hallschmid e Jan Born
Há uma forte e estreita relação entre insônia e excesso de peso; estudos recentes confirmam que quanto pior é a qualidade (e a quantidade) do sono, mais aumenta a probabilidade de acumularmos quilos indesejáveis
"Posso passar às 10h ou nesse horário você ainda está dormindo?" José ouve muitas vezes esse tipo de pergunta. Sabe bem que, por estar acima do peso, muitas pessoas o consideram um dorminhoco. A verdade, porém, é que ele passa boa parte da noite virando-se inquieto, de um lado para outro na cama e olhando os números luminosos no despertador. O que o rapaz não sabe é que seus quilos a mais podem estar ligados a sua dificuldade de dormir.
Para muitos insones o problema é simplesmente não conseguir "se desligar"; para outros o desafio é não ter tempo para um repouso noturno eficiente. Na realidade, nos últimos 60 anos, moradores de países industrializados sofreram redução de uma a duas horas do tempo de sono, que hoje é de cerca de sete horas por noite. Ao mesmo tempo cresceu muito o número de pessoas com sobrepeso e obesidade mórbida; vários especialistas falam até em uma "epidemia de obesidade". Dezenas de estudos epidemiológicos que associam os dois fenômenos indicam que entre eles há uma relação estatística. Quanto menos dormimos, mais aumenta a probabilidade de ganharmos alguns quilos a mais - um fato confirmado também por muitos estudos longitudinais.
Mas quais são os mecanismos biológicos da relação entre insônia e obesidade? Céticos ressaltam que a maior parte dos estudos sobre o assunto se baseia apenas nas autoavaliações dos participantes, sem se ater a dados confiáveis e objetivos sobre qualidade do sono obtidos somente com base em avaliações aprofundadas conduzidas nos laboratórios do sono. Por esse motivo são cada vez mais numerosos os pesquisadores que procuram compreender melhor a relação entre qualidade do sono e alimentação por meio de estudos experimentais controlados.
Uma dessas pesquisadoras é a endocrinologista Eve Van Cauter, da Universidade de Chicago. Em 2004 ela e seus colaboradores pediram a um grupo de rapazes que dormissem, por duas noites, apenas quatro horas, enquanto o outro grupo podia ficar na cama por nove horas. Em seguida, os pesquisadores aplicaram exames em todos os voluntários para avaliar índices hematoquímicos e constataram que a falta de sono fez aumentar a concentração de grelina em cerca de 30%. Esse hormônio, produzido principalmente no estômago, é responsável pela sensação de fome. Seriam talvez as noites "breves" as responsáveis pelo aumento do apetite?
Famintos e preguiçosos
Em 2011, o bioquímico Peter Jones, doutor em nutrição, e sua equipe da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, no Canadá, também procuraram entender se é mesmo verdade que comemos mais quando dormimos pouco. Os especialistas em alimentação acordaram os voluntários que participavam do teste após quatro horas de sono, por cinco dias, enquanto o grupo de controle repousava nove horas. Os cientistas documentaram em detalhes os alimentos consumidos pelos participantes durante o café da manhã. Descobriram que quem ainda sentia sono consumia em média 300 calorias a mais do que os indivíduos mais descansados - na prática, a energia correspondente a meio tablete de chocolate. Além disso, quem havia dormido pouco consumia cerca de 30% a mais de gorduras saturadas, particularmente nocivas à saúde.
Além dos hábitos alimentares, também a atividade física incide sobre o peso. Por isso, em 2009, na Universidade de Lübeck, na Alemanha, registramos a intensidade da atividade física de alguns voluntários depois de um sono noturno, longo ou breve. Para isso, colocamos em seus pulsos equipamentos chamados acelerômetros, que os participantes mantiveram por todo o dia durante suas atividades cotidianas. Avaliando as medições foi constatado que as pessoas com carência de sono se moviam menos e muito mais lentamente do que as que haviam tido uma noite inteira dedicada ao repouso. Isso demonstra que a falta de sono induz à preguiça.
Mais: quando os participantes submetidos ao teste ficavam de pé a noite toda, no dia seguinte emitiam menos calor corpóreo, indício de que após uma noite insone, o organismo "prefere" manter para si as reservas armazenando-as na gordura, em vez de queimá-las. Quando precisamos de energia, parte dela é liberada sob a forma de clor e, se essa "emissão" diminui, as calorias são depositadas principalmente em nossos quadris. Por meio de um teste chamado calorimetria indireta, medimos a termogênese, ou seja, a produção de calor pelo corpo. Os participantes respiram em um aparelho que registra a quantidade de oxigênio que se transforma em anidrido carbônico. Usando uma fórmula complexa calculamos a quantidade de energia consumida.
Não sabemos ainda se o efeito se manifesta também depois de uma carência prolongada de sono. Entretanto, muitos estudos indicam que os pacientes com distúrbios crônicos do sono consomem mais reservas durante a noite: é provável que esse processo seja compensado no dia seguinte pelo organismo para fazê-lo "reduzir a marcha".
Dormir pouco também altera a taxa glicêmica. Essa reação foi demonstrada pela equipe de Eve Van Cauter. Os pesquisadores pediram a alguns rapazes que dormissem apenas quatro horas por seis noites seguidas e nas seis noites sucessivas podiam ficar na cama por até 12 horas. No quinto dia de cada período foi realizado um teste no qual os participantes receberam uma solução açucarada.
Após o aumento considerável da concentração de glicose no sangue, os níveis voltaram a diminuir pouco a pouco. Mas os pesquisadores perceberam que os valores de glicemia desciam mais lentamente depois de noites "breves", em comparação aos das pessoas que tinham dormido. O motivo? O organismo produzia menos insulina, hormônio que tem a tarefa de concentrar no fígado, nos músculos e nos tecidos adiposos a glicose presente no sangue. Além disso, as células não reagiam mais com a mesma sensibilidade ao neurotransmissor; a chamada "sensibilidade à insulina" caía dramaticamente, estabilizando-se em um nível que os médicos verificam, normalmente, nos pacientes com alterações do metabolismo.
O fato de um sono repousante influir na glicemia já havia sido demonstrado em um estudo realizado nos Estados Unidos, o Nurse's Health Study, no qual foram examinadas, em um período de 30 anos e a intervalos regulares, cerca de 70 mil enfermeiras. A diminuição da quantidade e da qualidade das horas de sono aumentava o risco de ficarem doentes e de se tornarem diabéticas. Essa possibilidade aumentava em mais de 50% entre profissionais com menos de cinco horas de sono, em comparação às que dormiam mais de oito.
Para o equilíbrio energético do organismo o elemento decisivo é a qualidade do sono. Durante a fase profunda, que se instaura principalmente nas primeiras horas da noite, o organismo produz muitos hormônios que agem sobre o metabolismo dos glicídios. Essa etapa, medida por eletroencefalograma (EEG), mostra ondas lentas, as chamadas "delta".
Em 2008, o grupo de Eve Van Cauter afirmou que a alteração do sono delta pode desorganizar o mecanismo de controle dos glicídios no sangue. A pesquisadora fez com que um grupo de indivíduos que estavam dormindo ouvisse alguns sons de frequência e intensidade tais que impediam que acordassem, mas que também não entrassem no sono delta. A equipe registrou consequências dramáticas: a tolerância à glicose e a sensibilidade à insulina, de fato, diminuíam para um quarto.
Durante o repouso noturno o cérebro supre a própria necessidade energética recorrendo quase exclusivamente aos açúcares. Embora essas substâncias constituam apenas 2% da massa corpórea, o consumo cerebral de glicose e oxigênio corresponde a 20% de seu consumo total.
Gasolina para lembrar
No sono delta, é como se a necessidade de açúcar fosse "redimensionada" em comparação ao estado de vigília. O que indicou isso, entre outras coisas, foram os estudos realizados por Pierre Maquet, da Universidade de Liège, na Bélgica. O pesquisador ministrou nos voluntários que participaram de seu experimento uma solução à base de glicose com uma leve marcação radioativa. A tomografia por emissão de pósitrons (PET) determinou a quantidade de açúcares consumida pelo cérebro nas várias fases de repouso. Assim, descobriu que durante o sono profundo a quantidade de glicídios necessária era muito mais baixa. Por mais que nesse momento, em geral, nosso cérebro reduza a própria demanda energética, algumas áreas cerebrais pareciam literalmente inundadas por "carburantes" - produtos químicos cuja combustão permite a obtenção de energia, como a gasolina, por exemplo.
Em 2010, uma equipe de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Harvard, coordenados pela psicóloga Radhika Basheer, mediu a concentração de trifosfato de adenosina (ATP) - a principal fonte de energia dos processos metabólicos celulares - no cérebro de ratos. Alguns animais tinham sido obrigados a permanecer acordados por longo tempo e outros haviam dormido normalmente, como de hábito. Após os exames, os cientistas observaram que a quantidade de ATP permanecia estável enquanto os ratos estavam acordados. Mas assim que entravam no sono delta, o nível da substância aumentava principalmente nas regiões cerebrais que são ativas durante a fase de vigília, entre elas o córtex frontal, o prosencéfalo basal e o hipocampo. Quanto mais profundo o sono dos animais, maior era a quantidade de energia colocada à disposição de seu cérebro.
Mas por que quando a mente repousa e o corpo se mantém imóvel nosso organismo alimenta justamente essas áreas cerebrais? É possível que, nesses momentos particulares, seja ativado um processo importante: a consolidação de memórias. O mecanismo faz com que consigamos recordar por mais tempo o que acabamos de aprender durante o dia.
Há tempos sabemos que, para recordar melhor as coisas que acabamos de estudar, depois da "imersão" nos livros costuma ser útil tirar um cochilo, mas tudo isso não depende do efeito relaxante. O cérebro, de fato, faz com que durante o sono os conteúdos da memória que vêm do hipocampo, onde as recordações são conservadas apenas por um período de tempo limitado, sejam "transferidos" para a memória de longo prazo do córtex cerebral.
A consolidação das recordações, estritamente ligada ao sono, ocorre somente quando nosso cérebro tem à disposição reservas suficientes de energia. Essa espécie de estoque energético "reage" de maneira sensível também a pequenas quantidades de açúcares no sangue, como tivemos a oportunidade de demonstrar em nossos experimentos em laboratório. À noite, após os participantes do teste terem memorizado duplas de palavras, no decorrer da noite reduzimos a quantidade de glicose em seu sangue com administração de insulina. Em comparação ao grupo de controle cujo nível de açúcares tinha sido mantido em níveis normais, na manhã seguinte esses voluntários não recordavam tão bem as informações aprendidas. Talvez a "diminuição de açúcares" induzida em laboratório tenha subtraído de seu cérebro o carburante necessário para a consolidação da memória.
Pela manhã, oferecemos às pessoas que sofreram de hipoglicemia durante a noite um suntuoso bufê: cada um consumia em média cerca de 150 kal a mais em relação ao valor ingerido depois de uma noite "normal". Foi constatado que os voluntários preferiam lanches ricos em carboidratos, que fornecem energia ao cérebro mais rapidamente. Ao que parece, esse mecanismo é acionado também durante o sono, embora fique "desativada" a percepção da fome. Isso explica por que é muito mais comum ficarmos famintos quando estamos acordados.
Além disso, observamos que os participantes do teste tinham mais dificuldade de atingir a fase delta do sono durante a hipoglicemia noturna. Talvez isso dependa dos hormônios chamados orexinas (produzidos pelo hipotálamo que influenciam tanto o comportamento alimentar como o ritmo sono-vigília), que reagem à redução da glicemia. Sua atividade é indispensável para nos mantermos acordados durante o dia. Por isso, pessoas com deficiência de orexinas, como as que sofrem de narcolepsia, tendem a dormir de repente.
A eventual e repentina queda de energia durante o sono é aparentemente compensada pelo cérebro com uma sensação muito intensa de fome na manhã seguinte. Mas o que ocorre quando, durante a noite, o organismo tem à disposição açúcares em excesso? O apetite matutino é reduzido? Ao que parece, não: após ter administrado glicose em alguns voluntários jovens e com boa saúde durante a noite, foi constatado que o consumo de alimento na refeição não diminuía. O cérebro de quem dorme reage de maneira muito sensível ao déficit de energia: enquanto quando recebe demais, limita-se a aceitar com prazer o excedente, sem consequências.
Também a teoria do selfish brain do médico Achiin Peters, pesquisador da Universidade de Lübeck, atribui ao sistema nervoso central a função mais importante na cadei dos abastecimentos. De um lado, extrairia as substâncias nutritivas dos alimentos que consumimos e, de outro, colocaria de lado as reservas de energia, indo buscá-las nas regiões periféricas do organismo. Quando esse processo sofre alterações, acabamos comendo exageradamente. Desse modo garantimos ao sistema cerebral um fornecimento constante de energia, mas ao mesmo tempo provocamos uma "estagnação energética" no organismo. A consequência disso é o sobrepeso.
Dieta do futuro
Os principais fatores de risco que podem comprometer o equilíbrio orgânico são a redução e a alteração da fase de sono profundo, visto que nesse período o organismo se esforça para garantir o máximo de fornecimento de energia para determinadas regiões cerebrais. Talvez seja justamente esse o motivo pelo qual insônia crônica e excesso de peso são condições clínicas que tendem a se apresentar juntas.
Na prática, a compreensão dos efeitos práticos da complicada interação entre sono e alimentação pode ser útil a qualquer pessoa que queira se livrar dos quilos a mais. Em 2010, uma equipe de pesquisadores dirigida por Arlet Nedeltcheva e Plamen Penev, da Universidade de Chicago, em Illinois, prescreveu a dez voluntários com sobrepeso uma dieta de duas semanas. Os participantes do projeto foram divididos em dois grupos: aos integrantes de um deles era permitido dormir até oito horas e meia por noite e, ao outro, não mais que cinco horas e meia. As pessoas, como é natural, emagreciam em ambos os grupos, mas aqueles que repousavam menos se livravam de apenas metade da gordura corpórea em relação aos outros e, ao mesmo tempo, perdiam 60% a mais da massa muscular (o que costuma ser prejudicial). Todos esses estudos nos levam a pensar que, cada vez mais, as recomendações de dormir bem estarão ao lado dos outros conselhos já estabelecidos nos manuais de dieta.
(texto publicado na revista Mente Cérebro nº 235)
sábado, 2 de novembro de 2013
Memórias do amanhã - Wray Herbert
Lembro-me de quando me aposentei como se fosse hoje. Depois recordo que ainda trabalho, mas menos que quando mais jovem. Minha mulher e eu ainda moramos na região central da cidade, andamos bastante de bicicleta e assim ficamos em forma. Na volta para casa, passamos em nosso café predileto, onde lemos os jornais matutinos e, às vezes, encontramos amigos.
Na verdade, esse é apenas um dos cenários que devo ter projetado em algum ponto no passado, já que não estou nem perto da aposentadoria. Há várias outras possibilidades, mas o mais marcante é que todos os meus futuros são repletos de paz e alegria. Não incluem problemas financeiros ou de saúde, tampouco são monótonos - nem para mim nem para nenhum conhecido.
Um novo estudo publicado na edição de janeiro de 2012 da Psychological Science pode explicar por que somos todos tão otimistas sobre os tempos que (acreditamos que) estão por vir. Os autores afirmam que as pessoas tendem a se lembrar melhor das projeções mais felizes que das pessimistas.
Muitos pesquisadores se interessam por "futuros lembrados". O conceito parece até contraditório, pois tendemos a pensar na memória em relação ao passado: lembranças de pessoas e situações vividas, ou mesmo do que pensamos. O fato é que todos nós imaginamos o futuro e de tempos em tempos nos recordamos dessas projeções fantasiosas. Pesquisas recentes, mostram que rememorar algo ou pensar sobre o futuro ativa exatamente as mesmas áreas cerebrais. Alguns cientistas acreditam que essas "recordações" têm função adaptativa, pois nos permitem planejar e nos preparar melhor para o que pode estar por vir. Ou seja, se pudermos nos lembrar das ações e reações sobre as quais refletimos no passado, nosso comportamento futuro será mais eficiente.
Mesmo assim, muito pouco era conhecido até recentemente sobre como essas simulações funcionam. Todas as futuras lembranças seriam benéficas? De quais cenários nos lembramos melhor? As previsões da maioria das pessoas são de fato "cor-de-rosa"? Ou descartamos as simulações menos otimistas e as esquecemos? É muito difícil encontrar respostas para essas perguntas em um laboratório. Ou pelo menos era até recentemente, quando uma equipe de psicólogos experimentais, liderados por Karl K. Szpunar, pesquisador da Universidade Harvard, criou um método inédito para produzir simulações futuras de forma bastante autêntica, usadas para estudar as características e a permanência desses fenômenos mentais.
Szpunar e seus colegas começaram registrando detalhes biográficos reais lembrados por universitários. Essas informações incluíam pessoas que os participantes do estudo conheceram, locais em que estiveram, objetos e situações comuns de sua vida. Alguém poderia, por exemplo, contar aos pesquisadores sobre tomar uma cerveja com uma amiga no bairro onde mora, emprestar um livro ao primo ou comprar um aparelho de televisão durante a liquidação anual do shopping. Cada um dos 48 voluntários contribuiu com pelo menos uma centena dessas memórias "triviais".
Uma semana depois, os pesquisadores voltaram ao material básico - revendo todas as pessoas, lugares, situações e objetos de passados recentes e remotos citados pelos voluntários - e misturaram tudo. Apresentaram aos estudantes combinações aleatórias de suas lembranças e os instruíram a pensar em cenários imaginários futuros. Tornando o exemplo anterior, o conjunto aleatório poderia ter sido o primo, o bar, o livro e a televisão comprada no shopping. Em alguns casos pediram que os participantes imaginassem um futuro positivo, um negativo e outro neutro. Seria possível, por exemplo, a pessoa imaginar uma cena positiva na qual estivesse se divertindo com o primo no bar; um cenário negativo em que estivesse discutindo com o primo por causa de um livro, com a TV ligada ao fundo; e uma simulação neutra, na qual o voluntário estivesse comprando um livro no shopping.
Depois, os psicólogos testaram as lembranças dos voluntários sobre esses cenários futuros, fornecendo-lhes dois dos três detalhes - digamos, o bar e o primo , e pediram que completassem o detalhe que faltava - no caso, a televisão -, para recriar a cena simulada. Foram aplicados testes em alguns dos estudantes dez minutos após eles terem imaginado futuras situações e avaliados outros participantes no dia seguinte. A proposta era descobrir se o conteúdo emocional dos futuros imaginados - positivo, negativo ou neutro - influía para que fossem mais ou menos fixados.
Os resultados foram intrigantes: após dez minutos, os voluntários conseguiam recordar todas as simulações igualmente bem. Um dia depois, porém, detalhes de cenários negativos eram muito mais difíceis de ser resgatados que os dos positivos ou neutros.
Essa descoberta é consistente com o que se sabe a respeito de lembranças negativas - tendem a desaparecer mais rapidamente que as positivas - reforçando a idei de que, de fato, prevalece a idealização do passado. Szpunar levantou a hipótese de que a emoção associada a uma simulação do futuro é a "liga" que conecta detalhes do cenário na memória. À medida que a emoção negativa se dissipa, o mesmo acontece com a integridade do futuro projetado.
Assim, as versões negativas do que está por vir desaparecem com o tempo, enquanto as positivas permanecem - deixando, no balanço, basicamente uma visão predominantemente rósea do amanhã. Esse processo pode acarretar ilusões, mas parece sinal de saúde psíquica. É importante lembrar, por exemplo, que pessoas que sofrem de depressão e outros transtornos de humor tendem não apenas a ruminar os acontecimentos negativos passados, mas também a antever cenários tristes. Adultos psicologicamente saudáveis costumam ser otimistas sobre o que o futuro lhes reserva. Talvez seja um processo adaptativo imaginar o pior, de vez em quando, para em seguida nos esforçarmos para driblar o que pode ser evitado - para, posteriormente, deixarmos fantasmas que não podem ser combatidos desaparecer aos poucos.
(texto publicado na revista Mente Cérebro nº 233)
domingo, 15 de setembro de 2013
Descubra a essência em você - Eduardo Shinyashiki
Não podemos deixar que fatores psicológicos prejudiquem o desabrochar das melhores características do ser humano,que faz com que alcemos voos mais altos
Muitas são as obras de arte conhecidas mundialmente do grande artista e escultor da Renascença italiana Michelangelo, sendo uma das mais famosas a estátua de David, feita em mármore, localizada atualmente em Florença, na Itália.
Ao longo dos anos, essa escultura continua fascinando o mundo e impressionando por sua beleza, perfeição e maestria. Porém, poucos sabem que, antes de ser esculpido pelo mestre, o pedaço enorme de mármore foi considerado defeituoso e inútil por muitos artistas, inclusive por ninguém menos que Leonardo da Vinci, que declinou o convite de trabalhar essa rocha, considerando que nada podia sair dela, que aquilo não poderia dar forma a algo, e assim ficou por muitos anos jogada e abandonada.
Tempos depois de Leonardo ter declinado o convite, Michelangelo começou a trabalhar nela e criou a obra de arte que é o David. Enquanto se envolvia no projeto, um jovem ajudante perguntou para ele: "Mestre, por que você aceitou trabalhar nesse pedaço de mármore?". Ele respondeu: "Meu jovem, tem um anjo dentro dessa pedra. Eu só o estou deixando livre".
Pensando nessa metáfora que Michelangelo utilizou, todos nós somos uma obra de arte, mesmo que, às vezes, escondida ainda na "pedra". Existem pessoas que não reconheceram, ainda, o seu valor e outras que ficam esperando que alguém reconheça nelas essa qualidade.
Nesse começo de ano, podemos, então, refletir sobre o que é importante fazer para que nossa essência se manifeste e o que nos impede de voar alto, em liberdade. Em resumo, três comportamentos que bloqueiam o desabrochar das melhores características do ser humano:
-Preocupar-se: ou seja, ocupar-se antes dos fatos aconteceram e alimentar pensamentos negativos e repetitivos sobre as possíveis consequências fazem com que nosso cérebro se programe para o insucesso. Em vez disso, podemos, sim, verificar as alternativas, fortalecer as próprias habilidades e competências.
- Ficar preso ao passado, lamentando-se e revivendo situações antigas e não se atualizar. A principal capacidade de um líder é a habilidade de lidar com as mudanças, que trazem consigo o desafio da incerteza. Em tempos assim, velhos modelos mentais baseados em experiências passadas não levam a resultados positivos, e ficar na zona de conforto do que já foi só cria frustração.
- Não agir. Bloquear a ação cria estagnação. Precisamos ter atitude para ir em direção à realização e objetivos. A vida em si é mudança e movimento. Nada torna o líder mais forte que a sua capacidade de fazer e de traduzir as intenções em ações.
Em geral, isso nos mostra como é importante olhar para o futuro e mudar velhas rotinas, por mais dolorido que seja. Às vezes, precisamos desmascarar as falsas seguranças que os hábitos nos propiciam, e sobre as quais construímos a vida. Para realizar uma mudança, precisamos morrer metaforicamente para o que não serve mais. É como a metamorfose da lagarta. Para se transformar em borboleta, ela desaparece, "morre" para aquela identidade de lagarta, que, com certeza, a conduziu até aquele momento de transformação,mas que daquele ponto em diante não tem mais propósito.
Se ela se mantiver presa à forma anterior, de fato, morrerá para a vida. Para bater asas e voar, a borboleta precisa sair da situação de segurança que o casulo lhe oferece e se jogar no que ainda é desconhecido. A lagarta precisa assumir um compromisso de liberdade e realizar sua missão de voar. Deve abraçar sua identidade de borboleta morrendo para a de lagarta.
Há momentos na vida em que nós também precisamos morrer para o velho, o que fomos nos limita, e viver aquilo que escolhemos. Temos a capacidade de decidir sobre pontos limitantes da nossa vida para transformar tudo o que ousamos sonhar para a realidade.
Certa vez, ouvi o Dalai Lama dizer que "a verdadeira transformação espiritual do indivíduo está nas pequenas e fundamentais atitudes do dia a dia, independentemente do credo, estilo de vida, das preferências sexuais ou políticas que se possa ter". Isso nada mais quer dizer que o mundo depende mais dos pequenos do que dos grandes atos para ser transformado. É assim com todos nós.
Costumo dizer que escolher o próprio caminho - e alcançar resultados jamais imaginados e sempre sonhados - envolve romper o compromisso com as justificativas que damos sem perceber, ou até mesmo com extrema consciência. Não importa o que você faz, onde você vive, que cultura escolheu para se adaptar ou que religião segue, o que faz sentido é que, seja qual for o seu desejo, você tem capacidade de alcançá-lo, e que torná-lo uma realidade está mais relacionado ao quanto acredita no seu potencial e quais atitudes você toma na vida prática e em relação ao universo.
Eduardo Shinyashiki é consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes.
(texto publicado na revista Psique nº 86)
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Elevada autoestima ou narcisismo? - Patrícia Aragão Morello e Cintia Baraúna
Onde termina um e começa o outro? Você é um candidato a este tipo de transtorno? Confira.
A expressão narcisismo tem sua origem na mitologia grega. Narciso, um jovem muito bonito, desprezou o amor da ninfa Eco e por isso foi condenado a apaixonar-se por sua própria imagem espelhada na água. Este amor impossível levou Narciso à morte, afogado em seu reflexo. O narcisismo, portanto, retrata a tendência do indivíduo de alimentar uma paixão por si mesmo. Segundo Freud, isso acontece com todos até certo ponto, a partir da qual deixa de ser saudável e se torna doentio, conforme os parâmetros psicológicos e psiquiátricos.
Segundo a psicóloga Patrícia Aragão Morello, é muito comum o "narcisista" não identificar que está doente, ele começa a ser acusado por aqueles com quem convive de ser arrogante, de não perceber o outro como bom ou até melhor que ele próprio, de ser individualista, egoísta, convencido e assim por diante. "É importante que se preste atenção no discurso das pessoas que nos rodeiam. Se várias repetem conteúdos parecidos, muito provavelmente eles sejam verídicos. O narcisista é considerado o Deus do amor próprio", destaca. Ela explica que pessoas com este transtorno prejudicam a si próprias de uma forma muito simples: se fecham em um mundo que não cabe mais ninguém porque não há pessoa tão boa e bela quanto eles para dividir o mesmo espaço e acabam paralisados totalmente, não crescendo o quanto poderiam, não ensinando o quanto seriam capazes, fazem poucas trocas interpessoais, tornando-se seres de conteúdo reduzido.
Quanto às que convivem com pessoas com este problema, Patrícia ressalta que é um relacionamento bastante complicado. Ele é o dono da razão e sente-se sempre melhor que qualquer um. Não é a pessoa para quem se deve perguntar, por exemplo, se a roupa está bacana ou não, ele se preocupa somente com sua própria imagem.
A também psicóloga Cintia Baraúna lembra que amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância. Ela explica que, quando crianças, acreditamos que o mundo gira em torno de nós e que nossos pais vivem em nossa função, mas com o desenvolvimento saudável da personalidade é necessário que haja uma mudança nesse comportamento e o indivíduo comece a se deparar com as frustrações. Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida almejando o modelo inatingível de perfeição.
O sofrimento que pode ser gerado através das dificuldades nas relações humanas e da busca pela felicidade, onde é necessário que se tenha novas formas de agir e, muitas vezes, essas pessoas são incapazes de mudarem seu comportamento.
Cintia esclarece que o que parece uma elevada autoestima na verdade é um forte complexo de inferioridade, mas a acentuada dificuldade do indivíduo em lidar com isso faz com que este se comporte de forma exageradamente superior, o que dificulta as relações interpessoais que poderiam acrescentar muuito em seu convívio social.
De acordo com ela, o narcisismo pode ser primário, o que seria a persistência a uma fase arcaica do desenvolvimento psicossexual, ou retorno a ela, em que o objeto de amor é a própria personalidade. Quando esse estado de coisas se realiza com a identificação da pessoa a um objeto anteriormente amado, o narcisismo é chamado de secundário.
Patrícia Aragão Morello arremata dizendo que a classe da saúde mental acredita em uma melhora bastante significativa do narcisista patológico, a psicoterapia é uma forte aliada deste "perfil", é importante que ele entenda que sua satisfação pode e deve ser também a satisfação do outro. "Acredito que a psicoterapia em grupo deve ser introduzida após algum tempo da individual, é um excelente exercício do aprendizado ao olhar e escuta do próximo" recomenda.
A expressão narcisismo tem sua origem na mitologia grega. Narciso, um jovem muito bonito, desprezou o amor da ninfa Eco e por isso foi condenado a apaixonar-se por sua própria imagem espelhada na água. Este amor impossível levou Narciso à morte, afogado em seu reflexo. O narcisismo, portanto, retrata a tendência do indivíduo de alimentar uma paixão por si mesmo. Segundo Freud, isso acontece com todos até certo ponto, a partir da qual deixa de ser saudável e se torna doentio, conforme os parâmetros psicológicos e psiquiátricos.
Segundo a psicóloga Patrícia Aragão Morello, é muito comum o "narcisista" não identificar que está doente, ele começa a ser acusado por aqueles com quem convive de ser arrogante, de não perceber o outro como bom ou até melhor que ele próprio, de ser individualista, egoísta, convencido e assim por diante. "É importante que se preste atenção no discurso das pessoas que nos rodeiam. Se várias repetem conteúdos parecidos, muito provavelmente eles sejam verídicos. O narcisista é considerado o Deus do amor próprio", destaca. Ela explica que pessoas com este transtorno prejudicam a si próprias de uma forma muito simples: se fecham em um mundo que não cabe mais ninguém porque não há pessoa tão boa e bela quanto eles para dividir o mesmo espaço e acabam paralisados totalmente, não crescendo o quanto poderiam, não ensinando o quanto seriam capazes, fazem poucas trocas interpessoais, tornando-se seres de conteúdo reduzido.
Quanto às que convivem com pessoas com este problema, Patrícia ressalta que é um relacionamento bastante complicado. Ele é o dono da razão e sente-se sempre melhor que qualquer um. Não é a pessoa para quem se deve perguntar, por exemplo, se a roupa está bacana ou não, ele se preocupa somente com sua própria imagem.
A também psicóloga Cintia Baraúna lembra que amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância. Ela explica que, quando crianças, acreditamos que o mundo gira em torno de nós e que nossos pais vivem em nossa função, mas com o desenvolvimento saudável da personalidade é necessário que haja uma mudança nesse comportamento e o indivíduo comece a se deparar com as frustrações. Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida almejando o modelo inatingível de perfeição.
O sofrimento que pode ser gerado através das dificuldades nas relações humanas e da busca pela felicidade, onde é necessário que se tenha novas formas de agir e, muitas vezes, essas pessoas são incapazes de mudarem seu comportamento.
Cintia esclarece que o que parece uma elevada autoestima na verdade é um forte complexo de inferioridade, mas a acentuada dificuldade do indivíduo em lidar com isso faz com que este se comporte de forma exageradamente superior, o que dificulta as relações interpessoais que poderiam acrescentar muuito em seu convívio social.
De acordo com ela, o narcisismo pode ser primário, o que seria a persistência a uma fase arcaica do desenvolvimento psicossexual, ou retorno a ela, em que o objeto de amor é a própria personalidade. Quando esse estado de coisas se realiza com a identificação da pessoa a um objeto anteriormente amado, o narcisismo é chamado de secundário.
Patrícia Aragão Morello arremata dizendo que a classe da saúde mental acredita em uma melhora bastante significativa do narcisista patológico, a psicoterapia é uma forte aliada deste "perfil", é importante que ele entenda que sua satisfação pode e deve ser também a satisfação do outro. "Acredito que a psicoterapia em grupo deve ser introduzida após algum tempo da individual, é um excelente exercício do aprendizado ao olhar e escuta do próximo" recomenda.
(texto publicado na revista Tudo nº 31)
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