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domingo, 20 de maio de 2018

A vida nos trata como tratamos nossa mãe - Roberto Debski (O Segredo)


Segundo Bert Hellinger, psicoterapeuta criador das Constelações Familiares e formulador das Leis Sistêmicas do Amor e da Vida, “O sucesso tem a face da mãe”.

Quem não conquista o sucesso na vida, entendendo-se sucesso como ter relacionamentos afetivos amorosos e enriquecedores para ambos, uma relação saudável com o dinheiro, conquistar seus objetivos, realizar-se e ser feliz na vida, sentir-se seguro, é porque “não tomou sua mãe”.

Tomar a mãe significa aceitá-la plenamente, sem julgamentos, amorosamente no coração, independentemente de como tenha sido sua criação, educação e relação com ela, se sentiu-se ou não amado o suficiente ou da maneira que imagina “adequada”, se foi castigado injustamente, preterido ou mesmo abandonado.

Conheço muitas pessoas, amigos, alunos, pacientes, que ouvindo essas palavras, com expressão angustiada, de raiva ou sofrimento, afirmam ser uma tarefa impossível! Não conseguem, e muitos afirmam sinceramente que não querem, abrir-se para esta aceitação. Carregam mágoas profundas, cicatrizes mal formadas que encobrem superficialmente feridas crônicas e incuráveis da alma.

Porém não há como dizer sim à vida, sem a aceitação, e antes de dizer SIM a ela, nossa mãe. A vida nos foi entregue através da mãe, nascemos de suas entranhas, de sua carne.

Nosso corpo foi forjado em seu ventre, através do alimento ingerido por ela e que tomamos para nós. Esses nutrientes nos permitiram evoluir, a partir do momento da concepção, quando duas células, mãe e pai, se tornaram somente uma, EU, através de um ato de amor da vida, para trilhões de células no momento do nascimento.

O oxigênio que nos manteve vivos, foi inspirado através de seus pulmões. O ritmo pulsante e tranquilizador que nos embalou durante os nove meses que em seu ventre fomos carregados, vinha das batidas de seu coração.

As emoções que sentíamos e nos envolviam, tanto as ruins que refletiam medos, incertezas e angústias, como as boas que carregavam os sonhos, esperanças, desejos e ideais, vieram de sua alma, e do campo familiar do qual ela fazia parte, e já nos envolvia, campo sistêmico que reverbera as experiências de milhares de pessoas que vieram antes de nós, as quais nos constituem incondicionalmente.

Revoltar-se, ter restrições, julgar ou criticar a mãe (ou também o pai, o que traz outras implicações) significa que nos julgamos maiores que ela, o que vai contra a lei da Hierarquia, significa também excluí-la o que vai contra a lei do Pertencimento e resulta em não realizar uma troca amorosa, pois recebemos a Vida também através dela, o que vai contra a lei do Equilíbrio de Troca.

Em resumo, com a escolha e atitude de não aceitar nem tomar plenamente a mãe, deixamos de vivenciar as três Ordens do Amor, as principais e fundamentais Leis dos relacionamentos e da Vida.

O resultado é a criação e/ ou a continuidade do fenômeno transgeracional de emaranhamentos familiares e o consequente fracasso em conquistar um destino de Sucesso e uma Vida plena e feliz.

A partir da ampliação da consciência sobre esses temas, da aceitação de tudo e de todos como são, dizemos SIM à Vida, podemos transformar essa realidade, cumprir nossa missão pessoal e, enfim, viver um destino saudável, com efeitos curativos em todo nosso sistema.

Viva a vida!

sábado, 30 de setembro de 2017

As mães medeias - Analdino Rodrigues Paulino


Apesar da Lei da Guarda Compartilhada, de 2014, na maioria dos casos a Justiça dá às mulheres a responsabilidade sobre os filhos - e muitas usam isso para afastá-los do convívio com os pais

Na tragédia grega Medeia, de Eurípedes, escrita em 431 a. C., uma mulher carregada a um só tempo de ódio e de amor decidiu vingar-se do marido, Jasão, que a abandonara por outra. Para afastar os filhos definitivamente do pai, ela matou as duas crianças do casal.

Medeia foi o primeiro registro do que hoje se conhece como alienação parental. O adjetivo refere-se à palavra parente, pois geralmente é um familiar que dificulta o acesso de um dos genitores - o pai ou a mãe - aos filhos. Pela experiência que temos dentro da Associação de Pais e Mães Separados (Apase), contudo, são os homens, assim como Jasão, os que mais se queixam da alienação parental. Muitos foram separados de seus filhos pela ex-mulher e precisam mendigar e lutar incansavelmente para conseguir uma razoável convivência com suas crianças e seus adolescentes. Eles são vítimas das "Medeias" brasileiras.

O fato de os pais separados sofrerem mais com essa privação não é uma decorrência de que as mães sejam piores do que  eles. Essa disparidade ocorre por uma questão estatística. Na maior parte das separações, são elas que ficam com a guarda unilateral dos filhos. É algo que já não deveria acontecer. Desde 2014, a lei estabelece que , quando não há acordo entre a mãe e o pai, deve-se optar pela guarda compartilhada. Com esse expediente, ambos os genitores devem dividir entre si as responsabilidades, o tempo e a atenção com as crianças.

A despeito da legislação, nosso Judiciário é conservador e tem dificuldades em aplicá-la. Embora homens e mulheres sejam iguais perante a lei, isso geralmente não é levado em conta após a separação. Em muitos casos, os juízes usam apenas o livre-arbítrio para tomar suas decisões. Em 2015, um ano depois de a lei ser aprovada, o IBGE concluiu que 86% das guardas eram unilaterais e dadas às mães. As compartilhadas representavam apenas 13%. O que restava disso tudo - ou seja, apenas 1% - eram os casos em que a guarda ficava com o pai, com os avós, com os tios ou com outras pessoas. Os pais, portanto, raramente ganhavam a guarda unilateral. Em todo o território nacional, Brasília era a cidade com a maior proporção de guarda compartilhada: 25%. São Paulo, onde o Judiciário é mais conservador, tinha um dos menores índices: 9,5%.

Favorecidas por nossos juízes, as mulheres, então, têm mais chance de usar o poder que recebem de uma forma despótica. Além de tentarem barrar o acesso do ex-marido aos filhos e apagar sua figura, elas também podem querer dominar a relação com as crianças ou com os adolescentes. Não é raro que um pacto de lealdade seja estabelecido entre a mãe e os filhos. Mesmo que aproveite os momentos que tem com o pai, a criança pode querer esconder essa satisfação da mãe. Pode até mesmo dizer a ela que foram negativos os passeios e os dias passados com ele. Com o tempo, também pode acontecer de os filhos começarem a contribuir com a mãe nos atos de alienação parental, o que costuma destruir os vínculos com o pai de tal maneira que eles dificilmente poderão ser recompostos no futuro. À medida que a alienação parental evolui, cresce também a violência contra os pequenos. No limite, essa realidade pode assumir sua forma mais perversa, quando a mãe faz uma falsa acusação de abuso sexual contra o pai.

A acusação de abuso sexual é, sem dúvida, a mais grave que alguém pode receber. Seja qual for o caso, é imperativo que ele seja investigado e que a justiça seja feita. Na nossa avaliação, porém, um número desproporcional dessas denúncias é falso, já que o objetivo é apenas isolar o pai. Segundo um levantamento feito em 2012 pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, as falsas denúncias de abuso sexual chegavam a 80% dos registros nas varas de família da capital do estado. Mesmo nos casos em que a acusação contra o pai é falsa, os prejuízos são enormes. Essas investigações tomam tempo. Quando o pai é finalmente inocentado, sua relação com o filho acaba comprometida pela perda dos vínculos, sobretudo o afeto e a confiança. As feridas ficam para sempre.

Entre os problemas perceptíveis em crianças e adolescentes que passam pela alienação parental estão a apatia, a introversão, a diminuição do interesse na escola e a dificuldade de relacionamento com amigos e colegas. Nos casos mais graves, as crianças podem fugir de casa, fazer sexo precocemente, envolver-se com drogas ou entrar na prostituição. Também há relatos de autoflagelação e tentativas de suicídio. Não bastasse tudo isso, ao chegar à idade adulta, a maioria das pessoas que suportaram a alienação parental na infância ou na adolescência acaba por envolver os próprios filhos em comportamentos similares, promovendo um triste círculo vicioso.

No Brasil, um terço dos casais se separa e novas famílias são formadas. Cerca de 35% de todos os divórcios são litigiosos e danosos aos filhos. São 80 000 mães atirando-se contra 80 000 pais, e vice-versa, por ano. Ainda que uma lei de 2010 tenha sido criada para evitar a alienação parental, a norma não tem conseguido estancar a sangria e promover o bem-estar e o equilíbrio entre muitas crianças e adolescentes. Pais e mães separados precisam entender que não devem envolver os filhos nas rixas de casal. Eles não podem ser usados como moeda de troca em infindáveis lutas judiciais em que só há perdedores. Os filhos continuarão sendo dos dois, que manterão a responsabilidade e o dever de criá-los a quatro mãos.


(texto publicado na revista Veja edição 2545 ano 50 nº 35 - 30 de agosto de 2017)

domingo, 7 de agosto de 2016

Sobrevivendo ao Narcisismo Perverso Materno - Silvia Malamud


Relato redimensionado permitido por paciente

Cenas e mais cenas que me trouxeram um mesmo mal-estar avassalador estão nas minhas memórias e se entrelaçam pelo caminho da minha vida de crescimento junto com a minha mãe. Incontáveis vezes ela literalmente me quebrou emocionalmente, e eu, por não ter a clareza do que estaria acontecendo, apenas me deprimia e sequer tinha a percepção de que poderia me revoltar, brigar, ou mesmo me impor naqueles momentos. Apenas me recolhia profundamente arrasada.

Foram tantas as situações que daria um livro imenso enumerá-las por aqui. Quando comecei a me revoltar, só piorou, ela se tornou extremamente agressiva em suas palavras, usando de outras armas de manipulação e abuso emocional; os ataques foram verbais e muito mais intensos. Ela alegava que eu nunca percebia as situações de modo correto, ou simplesmente argumentava dizendo que tinha se esquecido do que havia acabado de falar e me culpava de não ser uma boa filha... talvez porque naqueles momentos eu começasse a ter lucidez sobre o que não me era permitido ter.

O que pude entender depois de muita terapia? Entendi que o processo é bem assim; toda vez que eu poderia ter qualquer ato espontâneo, seja ele qual fosse, a minha mãe imediatamente fazia o serviço de cortá-lo de modo fulminante. Uma verdadeira castração de tudo que fosse representar a vida pulsando em mim, e não era apenas eu a vítima, eram todos que estivessem ao seu redor. Por conta disso, quando eu ainda estava inconsciente destes processos, por anos a fio, ela teve a maestria de me dar verdadeiros nocautes. E o pior é que eles sempre vinham quando eu me distraía, quando abria a guarda, quando era amorosa e espontânea e amorosa. Ou seja, quando a minha existência aparecia com colorido próprio, quando eu mostrava a minha própria luz.

Seria como se a explosão natural da vida nunca pudesse acontecer em mim, e nas vezes em que acontecia, simplesmente eu não era validada, ao contrário, sequencialmente era altamente desqualificada de modo aberto e quando ela poderia ficar mal vista por outros, mesmo assim, insistentemente ela fazia tudo de forma velada. Sossegava apenas no momento em que notava ter conseguido me quebrar emocionalmente.

Qual foi o resultado disso? Graças aos céus e para a minha própria sobrevivência e não enlouquecimento, acabei intuitivamente buscando referencias em outras pessoas fora do meu ambiente familiar. Como consequência alcancei uma vida repleta de amigos na adolescência e fiz muita coisa que me trouxe alegria plena nestes ambientes. Hoje, porém, noto que fui refém de uma busca excessiva pelo que sempre me faltou, que era poder sentir o prazer que sempre me fora tão podado. Constantemente, busquei olhares de aprovação dos outros e funcionava como se fosse um verdadeiro radar em busca deles. A todo custo precisava ser validada, era insegura sobre as minha qualidades e mesmo de quem eu era, afinal, o que mais me fez falta na vida foi um olhar de conexão, amor e compreensão real. Então, eu passava a maior parte do tempo encantando e seduzindo as pessoas ao meu redor.

Também precisava de muito sexo, porque era na intimidade que eu conseguia ter prazer total sem a ameaça de algum ataque externo. Vale dizer que não tinha nada de consciência sobre estes fatos antes e que estas são conclusões minhas, da minha história pessoal que ainda tem muito a ser processada, estou no meu caminho terapêutico...

O problema é que eu estava viciada nas minhas quebras emocionais, então, reproduzia em meus relacionamentos o mesmo que tinha com a minha mãe, e depois de um tempo, meus namorados acabavam me magoando e eu ficava exatamente como a minha mãe me fazia sentir durante toda a vida, rejeitada e não amada. Acredito que os inconscientes se atraem e às vezes também a gente amplia as nossas percepções sobre o outro porque só sabemos viver da forma que aprendemos, por mais que desejemos mudar as coisas. E enquanto não resolvemos nossas questões, as nossas vivências anteriores mal resolvidas reaparecem em meio de outros coloridos e cenários, mas com o mesmíssimo pano de fundo num looping infindável se não acordarmos a tempo. E sim, com esse pano de fundo emocional ainda não resolvido podemos ser vitimas de abusadores e de pessoas mal intencionadas que nos colocam como reféns na mesma promessa de um amor que nunca virá e da ameaça de abandono e rejeição tão sofrida e vividas por nós.

A busca da terapia foi um divisor de aguas para que eu rompesse com este ciclo viciado de sofrimento sem fim que eu estava vivendo. Depois da consciência de onde eu estava, precisei de ajuda para efetivamente começar a mudar meus cenários para outros tipos possíveis de realidades mais tranquilas e com outras vivencias mais saudáveis sobre o que vem a ser afeto, amor e conexão.

Quanto mais despertos, melhor!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

10 coisas que você aprende ao ser criado por uma mãe forte - Luiza Fletcher



1. Você aprende o valor da independência

Você não precisa de um homem para te salvar ou alguém para cuidar de você, você aprende pelo exemplo que é capaz de viver uma vida plena e feliz sem ter de compartilhá-la com outra pessoa. Você aprende que pode construir uma casa, criar filhos, cozinhar e fazer os pratos e, ao mesmo tempo, ter uma carreira próspera. Você praticamente aprende a ser uma super mulher.

2. Você aprende o significado do amor incondicional

Você viu a sua mãe sacrificar seu tempo, saúde e juventude por você e seus irmãos, mas ela nunca reclamou sobre o quanto esteve sofrendo ou o quanto fez. Ela tinha sempre um sorriso no rosto e foi feliz dando mais e mais de si mesma. Ela ensinou-lhe o amor altruísta e incondicional, e você sabe que não vai ser capaz de encontrar esse amor em qualquer outro lugar.

3. Você aprende a amar a si mesmo

Você aprende a andar longe das coisas que não são destinadas para você, aprende a continuar, mesmo quando o mundo inteiro está contra você, e aprende a acreditar em si mesmo quando todo mundo duvida. Você aprende que falhas não te definem; o que te define é como você se recupera de todos os contratempos e quão duro luta pela vida que quer.

4. Você aprende que pode ser forte e suave ao mesmo tempo

Mães fortes são geralmente muito sensíveis, elas escondem melhor, mas você viu sua mãe silenciosamente chorar sobre sua dor, ou ficar acordada a noite toda cuidando de você quando estava doente, ou as noites em que que ela não conseguia dormir porque algo a estava incomodando . A maneira como ela te abraça quando você está para baixo mostra compaixão incomparável e ternura.

5. Você aprende que não é fácil ser mulher

Você aprende que sua opinião será descontada, que não vão prestar atenção quando você estiver falando sério, mas também vai saber que pode se destacar na multidão e forçar todos a ouvir a sua voz e aceitar suas ideias. Você aprende que o que não te mata te faz mais forte.

6. Você aprende a nunca olhar para trás

Você aprende a abandonar todos os “e se” e “poderia ter sido”. Você aprender a não olhar para trás e perguntar por que a vida virou de cabeça para baixo. Você só fica olhando para frente e deixa o passado redimir-se. Você aprende que tudo o que aconteceu te levou para onde você pertence, mesmo que não seja o que sempre desejou.

7. Você aprende a importância da paciência e fé

Você aprende que Deus está olhando para para você e suas lutas, que vai dar tudo certo no final. Tempestades vão passar e amanhã será um novo dia. Você aprende a ser paciente com a vida, paciente com o tempo, paciente com sucesso e paciente com problemas. Aprende que paciência é força.

8. Você aprende como criar sua própria felicidade

Você pode encontrar a felicidade em uma vida difícil. Você ainda pode ser feliz, mesmo se estiver carregando o peso do mundo em seus ombros. Minha mãe me ensinou que eu sempre posso encontrar algo para sorrir, tudo o que tenho a fazer é olhar mais de perto.

9. Você aprende que ela ainda sabe mais sobre o amor do que você

Mesmo tendo diferença de anos, mesmo que você não gosta de suas escolhas no amor, se ela não aprova alguém, é melhor ouvi-la. Ela sabe o que está dizendo; além disso, não quer vê-lo ficar de coração partido.

10. Você aprende como ser uma boa mãe

Você foi criado por uma mãe que lhe mostrou como realmente cuidar de uma família, que o trabalho duro compensa, que você pode amar alguém incondicionalmente. Ela mostrou como ser protetora, amorosa, gentil, compassiva, forte e resistente. Ela estava liderando pelo exemplo, e sabendo ou não, você está seguindo seus passos um passo de cada vez.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Dois anos de vida - Chris Flores


Quando J. K. Howling criou Harry Potter viu sua vida mudar: contando a saga do aprendiz de feiticeiro, tornou-se uma das mulheres mais poderosas do mundo e a primeira escritora bilionária da história. O que ela não imaginava é que seu personagem tocaria com sua magia a vida de uma brasileira e mudaria seu destino. O bruxinho é o ídolo de Pedro Henrique, 2 anos, e de sua mãe, Angélica. Essa mulher recebeu o diagnóstico de que não veria seu bebê crescer porque lhe restavam apenas dois anos de vida.

A história de Angélica Vasconcelos Melo, ou Angel, para os amigos, começa em 17 de março de 1989, mas tem seu curso interrompido 23 anos depois. Em 2012, ela havia realizado dois sonhos: formar-se em publicidade e propaganda e ter Pedro Henrique. Quando o bebê completou 3 meses, ela começou a tirar o leite da sua mama para armazenar e voltar ao trabalho. Foi nesse ato corriqueiro para tantas mães que sentiu um caroço no seio e procurou sua ginecologista. A partir daí, a vida de Angélica virou de ponta-cabeça. Depois de alguns exames, o diagnóstico soou, em suas palavras, como "uma frase maldita": "Você tem câncer".

Um buraco se abriu, a tristeza e a dor tomaram conta dela. Foram várias sessões de quimioterapia, enjoos fortes, o cabelo que foi embora, levando sua autoestima, e uma cirurgia para a retirada completa da mama. "Travo uma luta diária com minha mente tentando ocupar um espaço vazio dentro da roupa", conta. Não bastasse tudo isso, a separação do marido acontecia ao mesmo tempo. Dias bem difíceis faziam parte de sua rotina - só Pedro Henrique lhe dava motivos para sorrir.

Angélica finalmente se livrou do câncer de mama, mas poucos meses depois veio nova bomba: metástase no cérebro. Células cancerígenas saíram do local de origem e instalaram-se onde a quimioterapia não havia chegado. O mais cruel ainda estava por vir. Com o diagnóstico, a sentença sobre seu tempo de vida: aproximadamente dois anos lhe restavam.

Angélica não pensava mais em si, apenas no filho. O que fazer com uma criança que tinha apenas 2 anos? Ela reuniu forças e decidiu que seu pequeno precisava recordar dela e do amor que sentia por ele. Seu maior medo era morrer e seu menino não ter idade suficiente para guardar a mãe na memória. Ela não poderia partir sem deixar doces e importantes lembranças em sua vida. Só alguém poderia fazer isso por ela: Harry Potter. Uma legião de mães se mobilizou e, em contagem regressiva, iniciou uma vaquinha virtual que arrecadou, em apenas um mês, o dinheiro necessário para patrocinar a viagem de Angélica e Pedro Henrique para Orlando, nos Estados Unidos, onde poderiam conhecer o bruxinho no parque que leva seu nome. Passaportes, vistos, passagens e autorização médica em mãos, mãe e filho partiram para conhecer aquele que mudaria o futuro dos dois.

A viagem aconteceu bem no Dia das Mães, e a mágica se fez. Eles viveram o hoje com ose não houvesse o amanhã. Inesquecível para ambos. Angélica diz que seu futuro é hoje, mas o de Pedro Henrique é amanhã. Nos seus sonhos, ele torna-se médico e ela assiste à sua formatura. Recentemente, Angel passou por uma radiocirurgia no crânio. O resultado esperado para seis meses já foi alcançado em três. "Creio que estou curada", afirma. Quem discorda dessa que é anjo até no nome? Magia, fé, amor ou medicina. Só Pedro Henrique tem a resposta. Ele nem sabe, mas aqui vai nosso segredo: Pedro Henrique tem mais poderes que Harry.




(texto publicado na revista Claudia Filhos 633-B)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A síndrome do ninho vazio


Passam-se anos de dedicação, amor e cumplicidade com seus filhos, mas, como pássaros, um dia eles aprendem avoar e vão para o mundo. Com isso, o lar, que antes era um lugar cheio de vozes, passa a se silenciar. Esta é a lei da vida. E, por consequência, os pais começam a se sentir menos importantes para seus filhos e ficam irritados e agoniados, ou seja, começam a apresentar sintomas da síndrome do ninho vazio. De acordo com a psicóloga especialista em terapia familiar, Roseli di Mauro, esta síndrome é pontual, ou seja, possui hora certa para acabar, sendo que sua duração começa desde o instante da separação dos filhos até o estabelecimento de uma nova ordem familiar. "No entanto, caso a tristeza da síndrome permaneça por mais tempo, pode se transformar em depressão", esclarece.

Neste período, a ajuda dos filhos é de extrema importância, sendo que deve haver uma inversão de papéis, com os filhos passando a "consolar" os pais, especialmente a mãe.

A personalidade de cada pessoa também influencia no modo como a separação é encarada, sendo que indivíduos mais dramáticos sofrem mais. Embora já seja certo que esta separação vai acontecer, ninguém está preparado, de fato, para ela. Além disso, a intensidade do sofrimento também fica na dependência de outros fatores, como o motivo da saída do filho da casa dos pais. Quando for por motivos bons, como casamento, faculdade ou até mesmo morar sozinho, mas com a participação dos pais, o processo se torna menos doloroso. Confira, abaixo, o que fazer para sair desta situação:

- Dê força ao seu companheiro. Quando temos filhos, muitas vezes nosso companheiro fica de lado. Este é o momento do equilíbrio, no qual um dá força ao outro.

- Fale do assunto. Por para fora seus sentimentos é o primeiro passo para melhorar. Às vezes, compartilhe este sentimento com nossos entes queridos permite perceber que podemos superar a situação.

- Atividades prazerosas. No decorrer da vida, as pessoas sempre sentem o desejo de realizar determinadas atividades que lhes dão prazer, mas as exigências diárias, às vezes, fazem com que estas terminem sendo esquecidas. Faça uma lista de todas as atividades das quais você gosta e se prepare para começar a fazê-las.

- Pratique um esporte. O exercício físico é muito bom para a saúde e ajuda a relaxar. Saia para caminhar todos os dias, durante 30 minutos, e você notará como em pouco tempo se sentirá cada vez melhor.

- Cuidado pessoal. Não se abandone, nem se deixe abandonar. Você deve buscar um cuidado pessoal, pois agora terá tempo para isso. É importante que você volte a adotar o papel de mulher, além de mãe.

- Estimule a independência. Seus filhos devem saber que podem contar com o seu apoio nesta nova fase. Evite invadir sua nova casa ou sua vida com visitas ou telefonemas contínuos. Você deve deixá-los crescer, acompanhá-los e desfrutar com eles desta nova etapa da vida.

- Adote um animal de estimação. Se você não tem um marido ou namorado com quem compartilhar este momento e sente que a casa está vazia sem seus filhos, pode adotar um animal de estimação. Eles serão uma grande companhia.

- Melhore a relação com seu filho. Á medida que passa o  tempo, a relação com seu filho mudará positivamente. A maturidade de ambos fomentará outro tipo de comunicação mais frutífera. Você nunca vai deixar o seu papel de mãe, seus filhos estarão sempre aí para você.




(texto publicado na revista Circuito edição 186 - ano 15 - junho de 2015)




sábado, 4 de julho de 2015

Antes que a morte te leve, mãe - Leticia Flores Montalvão (O Segredo)

Uma carta aberta às mães que viveram pelos filhos e agora buscam um novo sentido à vida. Um desabafo aos filhos cujo maior desejo é vê-las felizes.

Mãe, a vida é linda. Do jeitinho que você disse que ela seria.

A gente nunca sabe qual vai ser o último abraço, a última briga, o último "eu te amo". Por isso, no dia a dia, engolimos o nosso amor em nome do orgulho, da impaciência, daquela famosa "correria". A gente vive correndo atrás sabe-se lá do quê para, no final das contas, investir nosso tempo escrevendo todos os arrependimentos do nosso epitáfio.

Tá tudo ao contrário, né mãe? Podíamos ter amado mais, chorado mais, visto o sol se por. Podíamos ter viajado juntas, feito mais compras, trocado fofocas, cozinhado o almoço de domingo. Você podia ter me dado mais tapas na bunda e eu podia ter sido mais agradecida às suas noites em claro de preocupação enquanto eu me divertia com os amigos. Nós podíamos ter calado tantas ofensas, evitado tantas brigas e retardado o afastamento.

Nós podíamos ter sido a dupla dinâmica dos filmes, dos romances e sido aquelas melhores amigas que algumas filhas postam nas redes sociais. Nós podíamos, mas nós não fomos. Nós seríamos, mas nós não somos. Você e eu, mãe, somos tão diferentes de todas e tão diferentes entre nós que seriam precisos ainda menos dos meus 25 anos para percebermos que os nossos gênios não batem, nossas personalidades não se encaixam e alguns dos nossos valores se chocam.

Você, explosiva e desconfiada como uma boa escorpiana: eu, sentimental e boca suja como uma perfeita pisciana, falhamos na rotina de fazer dar certo a convivência que o destino nos impôs. Por outro lado, mãe, sabemos que a vida nos prega peças e, se não fomos capazes de nos "ensinar" aquilo que acreditávamos ser o certo, aprendemos com as nossas próprias diferenças a respeitar o nosso espaço, o nosso jeito, nossos altos e, sobretudo, os nossos baixos. Eu posso não ter me tornado a católica apostólica romana que você imaginou nem ter me casado virgem. Eu posso ter saído de casa, batido a porta, morrido por dentro e, depois, comprado flores para me redimir. Eu posso ter falado da boca para fora e depois escrito milhares de cartas para me desculpar. Eu posso ter errado e é fato: eu errei. Errei como filha, como amiga, como companheira. Mas mesmo que você não se faça perceber, foi com você que aprendi a me amar. Todos os dias, antes de dormir, ainda consigo sentir sua mão na minha cabeça, rezando baixinho aquela oração que eu tanto gostava "Será uma grande mulher, terá um futuro brilhante". O meu futuro chegou, mãe, e ele é brilhante - como você cantava nas suas orações diárias. Tornei-me mulher, uma grande mulher, não graças a suas palavras, mas sim devido aos exemplos que você me deu do que é ser uma puta mulher foda: como não admirar uma mulher que - criada para cuidar da casa e dos filhos - vê-se sozinha na luta para criar dois filhos, sem experiência, com um diploma indesejado nas mãos, o amargo da rejeição na boca e uma única motivação: dar de si o melhor às crias que, ingratas, quase nunca viam o seu real valor.

Sua história não é diferente da de muitas mulheres brasileiras, mãe, mas o modo como ela me tornou mulher é essencial para quem eu sou hoje: feliz, realizada e grata. Quantas foram as vezes que, mesmo machucada, eu te vi sorrir? Quantas foram as vezes que, mesmo cansada, eu acordei de manhã com você lavando o banheiro? E quantas foram as vezes que, mesmo sem criatividade, sem vontade e sem carinho, a comida estava prontinha e quentinha nas panelas, em cima do fogão?

Eu sei, mãe, eu não fui nem sou a melhor filha. Eu sei que falhei. Mas você, depois de vencer a maior luta da sua vida, parece que enfraqueceu. Sabe quando o super herói escolhe passar seus super poderes para o oprimido e acaba morrendo? Foi isso o que te aconteceu?

Mãe, eu preciso te dizer, antes que a morte te leve, que eu não quero mais te ver assim. Eu preciso contar que nossas brigas, nossas  ofensa e nossos desencontros foram esquecidos e que só restou o amor. Preciso gritar para o mundo o quão importante você ainda é para mim, mesmo que eu já não dependa inteiramente de você. Preciso falar que eu preciso, sim, do seu amor: aquele amor grato, sincero e até agressivo que você sempre esbravejou como um trovão para quem quisesse ouvir. "Eu faço o que for preciso pelas minhas crias, sim, e se for preciso faço de novo".

As crias cresceram, eu sei, mãe. Mas a luta... a luta não acabou. Não deixe que a morte te leve, não deixe que ela te sugue, não deixe que ela se instale enquanto seu coração ainda bater. Reabra a cartilha de onde você tirou o maior ensinamento que me deu em vida: "eu hei de vencer" e vença de novo. Esqueça o leito daquela cama fria e vazia e redescubra a luz de todos os dias que você mesma me apresentou quando eu nem sabia falar. Levante-se e dê de novo aqueles primeiros passos que você me ajudou a dar quando eu nem imaginava o quão importante aquele novo aprendizado seria para o restante da minha vida. Esqueça aquele meu conselho de arrumar um namorado para afastar a solidão, mãe, a única coisa que você precisa é se amar: amar como eu me amo, amar como eu amo a vida, amar como eu te amo -tanto!

Antes que a morte te leve - dessa vida ou nessa vida - olhe-se no espelho e lembre-se que todas as conquistas que a sua filha poderia alcançar já o fez por si mesma. No entanto, a conquista de te ver sorrir de novo, hoje, só depende de você.

Antes que a morte te leve, sorria. Brigue comigo de novo. Me ensine um novo palavrão. Antes que a morte te leve, me conte uma história da sua infância, me leve para passear no bosque, me irrite de novo dizendo como o dia está lindo, mesmo quando tudo estiver feio. Antes que a morte te leve, me deite no seu colo, coe um café e me console por ter sido demitida sem justa causa e de repente. Antes que a morte te leve, lembre-se de que a luta não acabou e que a vitória não é nem nunca foi ver os seus filhos felizes, mas sim, ser feliz você, porque quando a morte chegar de nada vai adiantar dizer que mereceu viver.

Antes que a morte te leve, acredite: a vida é linda, sim, do mesmo jeitinho que você me ensinou a acreditar que ela é.

Antes que a morte te leve, lembre-se: apesar de todos os erros, mãe... eu amo você.