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domingo, 1 de outubro de 2017

Liquidação de abraços - Mário Viana


Os pequenos grupos ficam parados na calçada da Avenida Paulista, olhando avidamente quem passa entretido nos próprios pensamentos. Rapazes e moças, vestindo roupas comuns, sorrindo e exibindo um olhar que mescla otimismo e inocência, seguram na altura do peito um cartaz geralmente escrito a mão: "Abraços grátis". Dos que passam, muitos fecham a cara: que história é essa de ser abraçado por estranho? Mas vi vários casos de quem escancara o sorriso e estende os braços, trocando um gesto de carinho a céu aberto. Tudo rápido e fugaz, como convém a uma cidade que não consegue mais parar.

Eu, que caminho sem dar um "vem cá, meu bem" em ninguém, fico trocando ideia comigo mesmo. Por que uma criatura que nunca me viu na vida se sentiria radiante de felicidade em me envolver nos seus braços? Quem me garante que esse gesto sem malícia me faria encontrar algum atalho para o nirvana mais próximo? Mais que isso: o que faz os grupos de abraços grátis proliferar nas ruas? Será que já se pensa em cobrar imposto por abraço?

Em países de comportamento discreto e gestos contidos, oferecer abraço grátis é quase uma revolução armada. Mas no Brasil? Somos um povo que não acredita no poder da simples palavra. Sublinhamos tudo o que falamos com olhares, piscadas, sorrisos. Entre os nossos, distribuímos abraços para todos os lados, com direito a tapinha nas costas e beijocas sonoras. Quando a intimidade é muita, há quem dê tapinhas no traseiro ou até em barrigas salientes.

Usamos o tato como uma das mais eficazes formas de aproximação. Começa pelo aperto firme de mão até chegar ao famigerado toque nos cotovelos. É como se o interlocutor não confiasse nos relacionamentos wi-fi e usasse o cotovelo do outro como antena. No meu caso, não funciona. Começou a pegar no braço, eu recuo automaticamente um passo. E busco com o olhar o super-herói que virá me salvar do sequestro.

Abraço é um gesto de relativa intimidade praticado com conhecidos. Quando duas pessoas não se conhecem, qualquer coisa além das formas tradicionais de etiqueta parece atrevimento. Não vejo nada de ruim em proximidade física. Pelo contrário, adoro abraçar e beijar as pessoas de que gosto, mas só as que eu conheço - exceção feita durante o Carnaval, nos blocos mais animadinhos.

Gostaria de ser mais despojado e topar esses abraços oferecidos graciosamente nas nossas ruas. Ainda não consegui. E se a pessoa não for chegada a um banho? Pior, e se ela adorar perfume doce e impregnar minhas roupas com aquele cheiro de violeta-do-campo? Será que existe alguma regra para ser um abraçador contumaz, tipo "evite perfumes fortes e não esqueça as balinhas de menta"?

Tocar e ser tocado nos torna mais humanos. É reconfortante sentir a pele de outra pessoa. Receber o calor emanado de outro corpo afasta, nem que seja por alguns instantes, o medo da solidão. Mesmo em países de costumes rígidos, como os árabes, os homens ficam de mãos dadas nos cafés, enquanto bebericam seu chá de menta. É o toque da outra pele que importa nessa hora. Ninguém nasce com tendência a coqueiro solitário em ilha deserta.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 21 de dezembro de 2016)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Por todos os abraços que me curaram, por todas as pessoas que amei (Melhor com Saúde)


Ainda que possamos receber abraços de muitas pessoas, a verdade é que os que realmente podem nos “curar” são os que damos e recebemos de nossos entes queridos.

Há abraços que curam, que reparam a alma ferida e unem seus fragmentos. Há pessoas que passam por nossa vida nos trazendo o melhor, um carinho sincero e nobre que se expressa através desta forma universal de afeto que todos entendemos: os abraços.

Dizem os especialistas em matéria emocional que todos precisamos ser envolvidos pelos abraços de três a quatro vezes por dia, pelo menos. Mas para que nos curem de verdade, é essencial que sejam dados por alguém a quem estejamos intimamente unidos.

Não pode ser qualquer um. Não valem desconhecidos, nem colegas de trabalho com quem não nos damos bem. Quando sofremos, quando nosso coração precisa de alívio e de apoio, os melhores abraços são os da família, do parceiro ou dos filhos.

As demonstrações de carinho contêm, em cada gesto, o melhor remédio. São capazes de aplacar medos e inseguranças, e até de prevenir depressões.

Porque, no final das contas, os abraços têm essa força capaz de nos “amarrar” ao que é importante de verdade: o amor.

Os abraços de todas as pessoas que você amou

Nosso coração amou muitas vezes. Na verdade, ainda que você pense que agora está cansado e que esconde mais de uma cicatriz que nunca se fechará, na verdade você ainda tem muita, muitíssima capacidade de amar.

Você nunca sabe o que o amanhã vai lhe trazer. Talvez, quando menos esperar,descubra uma relação tão corajosa, significativa e plena que todo o seu mundo se equilibrará de imediato, e sua realidade vai adquirir um novo e maravilhoso sentido.

Pode ser que, no dia de amanhã, sua família se amplie. Que cheguem mais filhos, mais sobrinhos ou até o primeiro neto.

Seu coração continuará a se expandir, continuará a amar e, a cada batimento, você se curará ainda mais. Porque não há nada como o afeto sincero para aplacar dores e angústias. Não há nada como os sorrisos para apagar dias cinzentos e tempestades.

Se você ama, abraça

Há quem não saiba, há quem não se atreva, e há pessoas que passaram tanto tempo sem abraçar os seus que já não sabem muito bem como retomar esse hábito do qual acabaram se descuidando.
Se você ama, abraça. Porque os abraços são essa linguagem que não necessita de palavras, na qual o tempo se detém e a respiração se acalma.
O mundo deixa de nos incomodar com seu ruído e até o turbilhão de nossa mente, onde dançam as dúvidas, os temores e os vazios, se dissolvem imediatamente para se deixar levar única e exclusivamente por esse abraço.
Retome o bom hábito de abraçar os seus. Se seu parceiro não o faz, você o fará para acostumá-lo a esse exercício saudável. Se seus filhos já são crescidos, pegue-os de surpresa e ofereça-lhes os braços, porque ninguém é crescido o bastante para não receber uma boa dose de abraços diários.

Abraçar: uma demonstração universal de afeto

É interessante descobrir a maneira como os idiomas de nosso mundo traduziram o conceito do amor. Às vezes, são adicionadas nuances tão excepcionais e únicas que é quase impossível traduzi-las para nossa língua.

Por exemplo, em hindi, uma das línguas da Índia, quando um casal de namorados se separa, diz-se que em suas almas levam o “viraha”, que vem a ser algo como esse amor que a distância não rompe nem diminui, mas que permanece com paixão especial em nosso interior.

Como você vê, há uma ampla explicação contida em uma bela palavra, e há muitos outros exemplos em que os abraços e a arte de abraçar continuam presentes.

Porque em todas as culturas, em todos os países do mundo, este ato é considerado algo vital para manter o amor, para demonstrá-lo e, portanto, para curar.

- Cwth, em galês, simboliza um abraço intenso e apaixonado que apenas a pessoa que amamos pode nos oferecer.

- Naz, na língua urdu, é um termo que significa o orgulho intenso e a satisfação que sentimos quando somos amados, quando nos abraçam e temos a plena segurança de que somos muito importantes para essa pessoa.

Palavras mágicas que nos demonstram, mais uma vez, o poder do afeto e a importância de nos dedicarmos aos gestos que o expressam e edificam: os abraços, os beijos, as carícias…

sábado, 15 de novembro de 2014

Hormônio do amor aumenta a generosidade: abrace mais! - Andréa Fassina


O que fazer para aumentar o hormônio do amor no corpo?

A receita, segundo o neurocientista e economista americano Paulo Zak, é simples: dar 8 abraços por dia. Zak - conhecido como Dr. Love por estudar a ocitocina, o hormônio do amor - diz que esta é a forma mais rápida de aumentar os níveis da substância no organismo. Também produzimos o hormônio em oração e quando damos atenção a alguém. Só estes gestos já seriam suficientes para causar maravilhas no ser humano. O professor da Universidade de Claremont, na Califórnia, tem uma tese: aumentar os níveis de ocitocina e estimular a produção do hormônio em outras pessoas pode gerar uma sociedade mais generosa. Essa cadeia de bondades, estimulada pelo hormônio do amor, o neurocientista chamou de "ciclo virtuoso da ocitocina".

Dr. Love conta que nas pesquisas encontrou a relação entre os níveis altos da substância e uma postura mais generosa. Os voluntários participaram de um teste em que tinham que dividir dinheiro com estranhos, para terem mais lucro. Os níveis mais altos de hormônio foram encontrados naqueles que receberam dinheiro em resposta à demonstração de confiança dos doadores, o que fez com que fossem mais generosos. A ocitocina é a base biológica do amor, ajuda as pessoas a confiar nos outros, a dar dinheiro para a caridade.

Zak dá ainda outra receita, que não é um spray com o hormônio. O cientista diz que se esforçar para se conectar as outras pessoas funciona bem melhor do que aspirar um spray. E lança um desafio: podemos ser ativistas sociais e impulsionar o ciclo virtuoso, que pode transformar outras pessoas, e assim construir uma sociedade mais conectada e afetiva. "Testamos isso em laboratório e comprovamos: somos criaturas sociais. Nós precisamos do contato. Ser honesto, gentil e ter compaixão exige que sejamos parte da sociedade", afirma Zak.

Autor do livro "A molécula da moralidade", Paul Zak deu entrevista ao jornal Folha de São Paulo em passagem pelo Brasil, durante o Ciclo de Palestras Fronteiras do Pensamento em São Paulo. Podemos concluir aquilo que já sabíamos sobre espalhar generosidade: a máxima "gentileza gera gentileza" foi provada cientificamente. Falta só o ser humano cair na real e começar a colocar em prática. Afinal quem não quer aumentar o hormônio do amor e aumentar a felicidade na terra?



(texto publicado na revista Leve & Leia nº 109* - ano 7 - janeiro de 2014)






segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Abrace quem você é - Mariana Conte


Como amar o próprio corpo se ele parece trazer só infelicidade? A australiana Taryn Brumfitt encontrou a resposta e hoje ajuda quem sofre com a autoimagem

A cirurgia estava marcada. A australiana Taryn Brumfitt, 36 anos, recortaria o abdome - expandido demais em três gestações -, colocaria silicone e ergueria os peitos, em queda depois da amamentação. Era assim, feia, que ela se via. Já vinha mantendo uma rotina insana na academia e uma dieta cruel - disposta, inclusive, a participar de competições de corpos perfeitos. Queria se livrar do asco ao se ver no espelho cravada de estrias e celulite e acabar com a desconfiança de que o marido não a desejava. Taryn acordou do pesadelo quando se perguntou: "Como vou ensinar minha filha a amar o próprio corpo se não consigo fazer isso?" Mikaela, 4 anos, é a irmã caçula dos garotos Oliver, 8, e Cruz, 6. "Havia deixado de aproveitar o tempo com os meus filhos, gastando-o com as práticas de emagrecimento."

Taryn mergulhou em uma busca profunda para descobrir o porquê de se envergonhar até de sair de casa. "Entendi que o meu corpo não é um ornamento, mas um veículo para os meus sonhos", diz. "Comecei dando um basta à autodepreciação, sendo gentil comigo e entendendo que a vida é curta para me preocupar com uma barriga flácida." Ajudou no processo a conversa com mulheres em situação parecida. Em 2012, ela criou o projeto Body Image Movement (Movimento da Imagem Corporal) para encorajar as pessoas a amar o corpo de dentro para fora, sem perseguir o padrão ditado pela indústria da moda e dos cosméticos. "Minha tese é a de que devemos celebrar a adversidade corporal e reescrever os ideais de beleza", afirma. "Nas reuniões, ouvi mulheres relatarem que seus filhos pequenos se achavam gordos, faziam dietas ou usavam esteroides." Para incentivar as mães, Taryn lançava uma provocação: "No que você vai pensar quando der o último suspiro?" Ninguém citava culotes ou papadas. "Então, sugeria: 'Aproveitem enquanto estão vivas para focar no que importa e refletir sobre seus valores'." O discurso não exclui a saúde. Pelo contrário, Taryn ensina receitas de sucos verdes e orienta a alimentar melhor a família.

Ex-fotógrafa, a ativista prepara para 2015 o documentário Embrace (Abrace), para defender a necessidade de as pessoas mudarem a visão que têm de si. O trailer (em: embrace.bodyimagemovement.com) já foi acessado por 7 milhões de internautas. "Arrecadei 200 mil dólares para o filme", diz. Nele, Taryn atacará parte da mídia que, além de "coisificar" o feminino, usa truques para atingir as mulheres em suas inseguranças. "É uma lavagem cerebral para acreditarmos que rugas são algo ruim. Não são. Apenas fazem parte do viver."



(texto publicado na revista Claudia nº 8 - ano 53 - agosto de 2014)






domingo, 12 de outubro de 2014

Ganhar um abraço não tem preço - Daniele Vilela Leite


Afazeres, estresses e agressividades estão cada vez mais comuns em nosso meio. São causadores de grandes males e doenças e quando somos infectados por eles, deixamos de lado um presente benéfico e barato: o abraço.

Como é bom receber e também dar um abraço! Como é boa a sensação de se sentir querido! Mas por que as pessoas encontram tantos impedimentos para se abraçarem? Qual a origem da dificuldade de aproximação entre aqueles que não se permitem "tocar"?

Talvez a resposta esteja no mau uso de tecnologias como celular, WhatsApp, e-mails, MSN, Facebook. Elas são sempre muito bem-vindas em nosso meio e até mesmo em sala de aula, têm seus benefícios rapidamente comprovados, possibilitando entre outros, contato rápido e eficiente que ajuda a solucionar os mais diferentes tipos de problemas. Mas essa mesma tecnologia, quando mal utilizada, nos afasta e nos faz perder o contato físico e quando não tratada a  tempo, pode anular a nossa consciência e promover a perda de sentimentos de diversas ordens.

Muitas pessoas hoje evitam a aproximação e mesmo quando estão próximas não gostam de ser tocadas. Quando estiver conversando, repare quantas pessoas olham nos seus olhos enquanto se falam (até isso está se perdendo). E se é difícil olhar nos olhos, imagine um abraço!

Segundo o dicionário "Aulete", o abraço significa, entre alguns outros pontos e figurativamente, a união de coisas ou pessoas, junção, ligação. Mas o abraço é muito mais que isso! Em algumas situações, quando as palavras falham, é ele que nos ajuda a expressar o que estamos sentindo, seja dor ou alegria! Isso sem contar que quando abraçamos temos a sensação de proteção, segurança, confiança, força, saúde e autovalorização.

Quando duas pessoas se abraçam, o sentimento reforçado é de de não há diferenças ou barreiras que as separem, e isso é imprescindível para o sucesso dos relacionamentos. O abraço diz mais que mil palavras e fortifica um elo entre as pessoas envolvidas por um mesmo sentimento de amizade, amor, carinho e paz.

E ainda tem mais! Estudos comprovam que o abraço faz muito bem à saúde! O Dr. Harold Voth, psiquiatra da Universidade de Kansas, disse: "o abraço é o melhor tratamento para a depressão. Objetivamente, ele faz com que o sistema imunológico do organismo seja ativado. Abraçar traz nova vida para um corpo cansado e faz com que você se sinta mais jovem e mais vibrante".

O abraço é, enfim, uma afirmação muito humana de ser querido e valorizado. É bom, não custa nada e exige pouco esforço. É saudável para quem dá e para quem o recebe. Enquanto nos abraçamos, estamos valorizando o amor e a cumplicidade, o que alivia a dor, a depressão e a ansiedade.

Pense nisso!



(texto publicado na revista Leve & Leia nº 99 - ano 6 - março de 2013)