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terça-feira, 5 de julho de 2016

E se...trocássemos a Amazônia pela dívida pública? - Walmir Storti e Rodrigo Vergara

A dívida pública brasileira é o novo inimigo nacional. Considerada a responsável pela fuga de dólares e pelo descrédito do país, a dívida - que é a soma das dívidas dos governos federal, estadual e municipal e das empresas estatais - estimada em 232 bilhões de dólares - parece uma ameaça à viabilidade econômica do país. Diante dessa visão, quem já não pensou em uma saída radical, como trocá-la por um patrimônio nacional? E se a trocássemos pela Amazônia?

A resposta é que sairíamos perdendo. Se o motivo para a troca fosse só financeiro, já seria um mau negócio. De acordo com Ademar Ribeiro Romeiro, professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas e chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélites, a maioria das riquezas amazônicas continua desconhecida. Mas mesmo os recursos já descobertos - madeira, minérios, turismo, medicamentos e cosméticos - já são mais valiosos que a nossa dívida. Só as jazidas minerais valem 7 trilhões de dólares. Detalhe: sem contar o petróleo. No entanto, o potencial da região é ainda maior. Estima-seque, se forem bem explorados seus variados recursos, a Amazônia poderá render ao Brasil, por ano, cerca de 1,3 trilhão de dólares.

Mas será que sobrará alguma floresta até lá? No atual ritmo de destruição, em 50 anos a mata terá desaparecido. Só nos últimos 20 anos, perderam-se 60 milhões de hectares, mais que a área de Minas Gerais. E o ritmo de destruição ainda é alto: cerca de 15 000 quilômetros quadrados de florestas são devastados todo ano. Ou seja, se alienar a Amazônia é desvantajoso, pior seria mantê-lo brasileira para transformá-la em carvão.

Mas pouca gente acredita que isso vá acontecer. O ritmo da devastação está diminuindo. E a área desmatada poderia ser aproveitada. "Na Amazônia existem 10 milhões de hectares de solo de primeira. Para comparar, toda a produção agrícola brasileira vem de 50 milhões de hectares desse tipo", diz Romeiro.

Há outros aspectos a serem considerados, além do econômico. "A Amazônia tem importância ambiental e estratégica", diz Paulo Barreto, diretor da Imazon, uma ONG que pesquisa a região amazônica. De fato, a região concentra, entre outras riquezas, quase 20% do estoque mundial de água potável, uma mercadoria valiosa e estratégica para qualquer população.

Mas os benefícios da quitação não suplantariam eventuais prejuízos decorrentes da perda da região? Afinal, o governo federal pagará, este ano, mais de 90 bilhões de reais só em juros da dívida (incluída a correção monetária). Se a pendenga fosse quitada, o governo poderia investir essa dinheirama em infra-estrutura, por exemplo. Ou poderia diminuir a carga de impostos, que hoje é a maior do mundo - 34% do que se produz no país vira imposto.

Para Odair Abate, economista-chefe da Lloyds Bank TSB, a duração dessas vantagens dependeria muito de futuros governos. "Se um presidente começasse a gastar mais do que arrecada, voltaríamos a acumular dívida e, dessa vez, seríamos um país menos rico, porque não teríamos a Amazônia."

Além disso, para não acumularmos uma nova dívida seria preciso sanear algumas contas do país. Hoje, remetemos mais dólares ao exterior (para pagar importações e remunerar o lucro de multinacionais instaladas no Brasil) do que recebemos por nossas exportações, sem contar o pagamento de juros. Se essa conta não for revertida, o governo teria que continuar a oferecer juros para atrair dólares. E uma nova dívida nasceria.

Não bastasse isso, se alienássemos a Amazônia, teríamos um aumento nas importações. Cerca de 85% da madeira amazônica é consumida no Brasil. Outro exemplo: a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, é uma das principais fontes de energia para o Nordeste. Além do mais, o território brasileiro encolheria 60%. Seria melhor aumentar nossa exportação de produtos, não de terras.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 180 - setembro de 2002)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Absorção de carbono pela Amazônia caiu pela metade desde os anos 90 (Planeta Sustentável)


A Amazônia está perdendo sua capacidade de absorver carbono da atmosfera. Esta é a conclusão de um estudo com mais de 30 anos de duração realizado por quase 100 pesquisadores de vários países, entre eles o Brasil. O artigo foi publicado nesta quarta-feira na revista Nature.

A floresta amazônica absorve uma quantidade maior de dióxido de carbono do que libera, ajudando a controlar os efeitos climáticos provocados pelo acúmulo desse gás. Infelizmente, segundo o novo estudo, essa quantidade está diminuindo. Na década de 1990, a floresta absorvia 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono todos os anos. Agora, de acordo com Oliver Phillips, pesquisador da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e um dos autores do estudo, a estimativa é que ela absorvia metade disso, 1 bilhão de toneladas por ano.

O desmatamento da Amazônia nada tem a ver com esse fato. Os pesquisadores utilizaram no estudo uma parte da floresta que não sofreu alterações decorrentes da atividade humana. Eles apontam o aumento na quantidade de árvores morrendo na floresta como principal causa desse fato. A mortalidade das árvores cresceu em mais de um terço desde meados da década de 1980.

Inicialmente, o aumento da quantidade de dióxido de carbono, um dos ingredientes da fotossíntese, na atmosfera levou a um aumento no crescimento de árvores na Amazônia. "Com o tempo, o estímulo do crescimento se tornou excessivo, acelerando o crescimento das árvores e fazendo com que elas morressem mais cedo", disse ao site de VEJA.

O problema causado pela morte acelerada não é uma redução no número de árvores, mas o fato de que, ao morrer e se decompor, as árvores devolvem gás carbônico para a atmosfera.

Secas e altas temperaturas na região amazônica nos últimos anos podem ter contribuído para esse processo apesar de os registros de mortalidade das árvores feitos pelo estudo terem começado bem antes da intensa seca de 2005, por exemplo.

Para fazer o cálculo das mudanças em absorção de carbono os cientistas estudaram 321 pontos da floresta, identificaram e mediram 200.000 árvores e contabilizaram mortes e surgimento de novas árvores desde a década de 1980.

De acordo com Phillips, este pode ser o alerta inicial para um problema mais grave no futuro. "A Amazônia pode ser a primeira das grandes florestas a sofrer esta saturação e está nos alertando como outras florestas podem responder no futuro", afirmou.