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sábado, 24 de dezembro de 2016

E se... os velhos fossem a maioria? - Manuela Aquino


Ao lado de matemática, física e português, envelhecimento seria uma das nossas disciplinas escolares. E essa não é nem a diferença mais radical num mundo em que a maior parte das pessoas têm mais de 60 anos. "Tudo terá de ser transformado à medida que a sociedade envelhecer", escreveu o jornalista alemão Frank Schirrmacher em A Revolução dos Idosos, que busca nos alertar para o inevitável processo de envelhecimento mundial. Segundo a ONU, os idosos vão passar de 606 milhões para 1,97 bilhão em 2050. E, para Schirrmacher, o choque provocado por essa mudança será comparável ao de uma guerra mundial.

O mercado de trabalho, por exemplo, deve sofrer transformações drásticas. "A noção de aposentadoria compulsória a uma determinada idade ficaria obsoleta numa sociedade muito envelhecida", diz o médico brasileiro Alexandre Kalache, que coordena o Programa de Envelhecimento da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. Afinal, não há economia que resista a 51% da população economicamente inativa. A solução seria mudar as cargas de trabalho e horário.

E apesar de a velhice trazer dificuldades físicas inevitáveis (perda de sentidos e de massa muscular e óssea), um mundo com a maioria de velhos não quer dizer um mundo doente. Um estudo de 2001 da Duke University, nos EUA, chegou à conclusão de que o risco de algumas doenças (entre elas, câncer, hipertensão e arteriosclerose) diminui com o tempo. "O metabolismo do idoso fica mais lento, as células passam a trabalhar e a se reproduzir menos e isso dificulta o progresso de enfermidades crônicas", diz Svetlana V. Ukraintseva, coordenadora da pesquisa. Conheça ao lado outras mudanças que veríamos se os velhos se tornassem maioria.

Classificados

Empregos

Procura-se engenheiro com mais de 40 anos de experiência.

"Hoje, ser velho é a experiência de uma minoria", escreveu Frank Schirrmacher. E, como sempre, as qualidades da maioria é que são valorizadas. Criatividade e flexibilidade são moedas da juventude e, por isso, tornaram-se pré-requisitos no mercado de trabalho. Se envelhecermos, isso tende a mudar.

Vende-se carro. Retrovisores com lentes de aumento.

Produtos especiais para velhos seriam comuns. "Já temos tecnologia para isso. O que falta é investidores", diz Joseph Couhlin, diretor do AgeLab, um laboratório do MIT que pesquisa produtos para idosos. Como falta de investidores costuma estar ligada à falta de demanda, a situação tenderia a mudar se os velhos fossem maioria.

Vaga para consultor financeiro. Carga de 20 horas semanais.

"As pessoas irão, progressivamente, trabalhar menos e em tarefas fisicamente menos exigentes", diz Alexandre Kalache, da OMS. Aos jovens - e às máquinas - restaria o trabalho braçal.

Vendo computador G-23, com comando de voz.

Os jovens de hoje adoram aparelhos eletrônicos e não se assustam diante das novidades. Schirrmacher acredita que, em 2050, quando envelhecerem, eles estarão acostumados a se adaptar às novas tecnologias - e não a ser ultrapassados por elas, como acontece com nossos pais e avós.

Fazemos sua festa de 100 anos.

A expectativa de vida em 1900 era de 50 anos. 100 anos depois, pulou para 79. E a tendência é que ela aumente cada vez mais. As projeções da OMS dizem que, em 2050, o número de pessoas com mais de 100 anos de idade será 16 vezes maior do que é hoje.

Viaje nas férias. Grupos especiais para homens e mulheres da quinta e sexta idades.

Hoje, velhos são vistos como um grupo homogêneo: qualquer pessoa com mais de 60 anos entra na categoria terceira idade. Se esse grupo se tornar maioria, será preciso estabelecer divisões dentro dele. "Peritos em marketing já fazem diferença entre idosos de primeira, segunda, terceira e quarta idades", escreveu Schirrmacher.

Produtos

Está se sentindo sozinho? Vendemos e alugamos netos virtuais.

"Para manter os níveis populacionais é preciso uma taxa de fecundidade de 2,2 filhos por mulher. Hoje o número é de 1,4", escreveu Schirrmacher. A consequência será uma sociedade de vovôs, mas sem netos. "Um dos cenários prováveis é a substituição da família pela internet."

Serviços

Escola velhice ativa. Aceitamos alunos a partir dos 5 anos.

"Começaríamos a nos preocupar com a velhice desde muito cedo", diz o médico Alexandre Kalache. "Tomaremos precauções para manter nossa força muscular, capacidade respiratória e funções cardiovasculares. Quanto maior for o capital de saúde que pudermos armazenar, melhor."

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Nossa sociedade exalta imagens da juventude porque o envelhecimento é um tabu. "Pessoas mais velhas só aparecem na televisão como pacientes de hospitais ou tomando remédios", diz Schirrmacher. Essa aversão à figura dos velhos tende a desaparecer se eles se tornarem maioria.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 217 - setembro de 2005)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Como lidar com a disfagia


Caracterizada pelo mau funcionamento do esôfago, a disfagia atinge 60% dos idosos que sofrem com doenças degenerativas e pode ser contornada com alimentação adequada

Dificuldade de engolir a comida, sensação de falta de ar durante a mastigação, tosses fortes em meio a uma refeição. Todos esses sinais podem ser sintomas de um mal que atinge cerca de 60% dos idosos que sofrem com algum tipo de doença degenerativa ou ainda 35% das pessoas que sofrem com sequelas decorrentes de derrame (AVC), de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de disfagia.

Distúrbios de ordem neurológicas, mecânicas ou psicológicas podem dar origem a inúmeras doenças relacionadas ao sistema digestivo, mas poucos males alimentares estão tão ligados ao envelhecimento natural quanto a disfagia, que pode acontecer em duas fases distintas: oral (quando compromete a mastigação e o ato de engolir) e faríngea (que é involuntária quando o alimento já foi engolido).

O diagnóstico da disfagia normalmente é feito por um fonoaudiólogo, através de um exame específico da deglutição do paciente, mas é possível perceber a instalação da doença associando os sintomas citados logo no início desta matéria com uma significativa perda da satisfação de comer, já que é comum que alimentos mais duros e/ou secos entrem nas vias respiratórias, causando tosses e falta de ar.

Tratamento

O tratamento da disfagia reside em três principais estratégias para contornar o mal-estar causado na hora das refeições:

- Modificação da consistência dos alimentos;
- Manobras para facilitar a deglutição;
- Terapia de reabilitação da deglutição.

Nesse sentido, a preparação dos alimentos que serão consumidos por pessoas que sofrem com a disfagia deve levar em conta que, quanto mais macios forem os alimentos, melhor. Por exemplo, a consistência encontrada em purês, mingaus e preparações liquidificadas costuma ser ótima para a deglutição do paciente. Já os líquidos devem ser espessos. Ou seja: sopas (ou bebidas) muito ralas podem escorrer e atingir as vias respiratórias, por isso é importante tornar os líquidos o mais espesso possível. Você pode comprar espessantes (normalmente vendidos em pó) ou simplesmente "engrossar" os caldos por conta própria. Aqui, uma dica importante é sempre lembrar de deixar as refeições nutritivas e balanceadas, já que a dificuldade de deglutição vai impedir que o paciente ingira toda e qualquer sorte de alimentos. Atenção para as carnes e todo tipo de proteína!

O ato de mastigar e engolir também deve ser conduzido de maneira muito consciente. Por isso, as tais 'manobras" para facilitar a deglutição devem ser levadas em conta, priorizando a mastigação completa dos alimentos e inclinando a cabeça de maneira a facilitar a passagem do alimento na hora de engolir. Tudo feito sem pressa e com respiração normal. Além disso, os profissionais de fonoaudiologia oferecem tratamentos voltados para a reabilitação da deglutição, fortalecendo todo o conjunto de músculos utilizados durante o processo digestivo.



(texto publicado na revista Bem-Estar nº 28 - mai/jun de 2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Paulistana Nota Dez: Tatiane Ishida - Jussara Soares


Nome: Tatiane Ishida
Profissão: psicóloga
Atitude transformadora: coordena uma ONG que leva cachorros para visitar idosos e crianças em abrigos e hospitais da capital

A partir de outubro, Bruce Lee, de 7 anos, começará a atuar como terapeuta no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP. Esse sheepdog usará sua infalível técnica de lambidas para arrancar risos e conquistar a confiança dos pacientes. Ele tem experiência no assunto. Há quatro anos, na Fraternidade Irmã Clara, entidade da Barra Funda que atende pessoas com paralisia cerebral, destacou-se com um feito não atingido nem pela equipe médica: fez uma garota de 18 anos prestar atenção em suas estripulias. "Foi uma vitória, pois ela não reagia a nda", lembra a psicóloga Tatiane Ishida, de 35 anos, dona de Bruce e presidente da ONG Cão Terapeuta, que atualmente promove visitas de cachorros a idosos e crianças em cinco abrigos e hospitais da capital. "O animal só precisa que você esteja aberto para ele entrar na sua vida e receber seu carinho."

A Cão Terapeuta surgiu em 1998 como um braço social da empresa de adestramento Cão Cidadão, criada pelo zootecnista Alexandre Rossi, o Dr. Pet dos programas de TV. "Na época, a pet terapia não era levada a sério', relata Rossi, que se debruçou sobre estudos científicos para convencer as instituições de saúde da importância do trabalho. Tatiane só chegou ao grupo em 2006, quando procurou ajuda para treinar Bruce. Encantanda, entrou para o projeto e, em 2008, virou sua coordenadora. Em 2013, a entidade ganhou o status de ONG.

Sua matilha inclui quarenta missionários de quatro patas, entre vira-latas, goldens, labradores e outras raças, que vão ao encontro de cerca de 160 pessoas por mês. Todos os bichos têm ao menos 2 anos, passam por preparação para responder aos comandos, são vermifugados e podem ou não estar acompanhados por seus donos nas visitas. Tatiane concilia a atividade voluntária com o consultório de psicologia, na Vila Mariana, e a família (ela é casada e tem um filho de 8 meses). "Aliar minha profissão aos cães, que são uma paixão desde criança, é a realização de um sonho."




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 25 de setembro de 2013)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dia do idoso - Cláudio Fernandes


O 1º dia do mês de outubro celebra-se o Dia do Idoso no Brasil. Até 2006, o Dia do Idoso era comemorado no dia 27 de setembro. Isso porque, em 1999, a Comissão pela Educação, do Senado Federal, havia instituído tal data para a reflexão sobre a situação do idoso na sociedade, ou seja, a realidade do idoso em questões ligadas à saúde, convívio familiar, abandono, sexualidade, aposentadoria etc.

O fato é que, com a criação do Estatuto do Idoso, em 2003, o Brasil começou a incorporar à sua jurisprudência resoluções de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Sabe-se que, em 1982, a ONU elaborou, em Viena, na Áustria, a primeira Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento. Dessa Assembléia, foi elaborado um Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento que tinha 62 pontos, os quais passaram a orientar as reflexões, legislações e ações posteriores a respeito do idoso.

Entre esses princípios, estão os da "Autorrealização" e da "dignidade", cujos pontos são:

Autorrealização:

- Aproveitar as oportunidades para o total desenvolvimento das suas potencialidades;

- Ter acesso aos recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da sociedade;

Dignidade:

- Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objeto de exploração e maus-tratos físico ou mentais;

- Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia, deficiências, condições econômicas ou outros fatores.

Além desses princípios, a ONU ainda deu destaque às questões de assistência aos idosos e de sua integração e participação na sociedade, bem como da independência que lhes é inerente e que deve ser-lhes garantida em direitos como: oportunidade de trabalho, lazer, determinar em que momento deve afastar-se do mercado de trabalho, poder viver em ambientes seguros etc. O dia 1º de outubro, portanto, é reservado para pensar sobre todas essas questões fundamentais a respeito do idoso.



(texto publicado no Jornal Jaguaré nº 209 - ano 18 - setembro de 2016)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Supermercado móvel ajuda idosos que vivem em regiões isoladas do Japão - Paulo Sakamoto


TOKUSHIMA (IPC Digital) – Um sistema de vendas muito conhecido dos brasileiros que moram no Japão está sendo usado para ajudar a diminuir o isolamento de idosos que vivem em regiões remotas do país.

Os supermercados móveis – pequenos caminhões kei carregados com produtos de necessidades diárias – oferecem aos chamados “isolados comerciais” a oportunidade de fazer compras e de socializar.

Em 2025, cerca de 6 milhões de idosos no Japão com mais de 65 anos terão dificuldades em fazer compras básicas devido a problemas de acessibilidade e locomoção, de acordo com uma pesquisa realizada pelo governo japonês. Atualmente, o número de “isolados comerciais” passa de 4 milhões.

Cerca de 100 veículos da franquia “Tukushimaru” operam em 27 províncias do Japão. Em parceria com supermercados locais, os motoristas entregam encomendas feitas pelo telefone e também vendem outros produtos, como fraudas geriátricas e produtos de higiene.

Duas vezes por semana, cada caminhão visita cerca de 60 clientes que vivem em regiões isoladas que não são atendidas por transporte público. Além de vender os produtos, os motoristas também oferecem ajuda em tarefas simples, como a troca de lâmpadas e problemas com o controle remoto da TV.

“Como ele me visita duas vezes por semana, a sua presença é mais importante do que o meu filho”, disse uma das clientes atendidas pelo serviço.



terça-feira, 18 de agosto de 2015

Acolha um idoso com carinho e atenção!


Coloque-se no lugar deles

Ninguém odeia velhinhos, mas a maioria dos jovens se esquece deles. Isso acontece porque, ao se afastar do mercado de trabalho, muitos acabam perdendo o contato intergeracional. Por isso, é sempre bom lembrar que estamos vivendo mais a cada dia e, portanto, os jovens de hoje logo serão velhinhos também e certamente não gostaria de ser esquecidos.

Preste atenção e articule-se bem

Essa dica vale para qualquer conversa: demonstre atenção pelo seu interlocutor, olhando-o sempre nos olhos. No caso específico de conversas com pessoas idosas, não se acanhe em se aproximar para que vocês se escutem melhor. Tornando o papo mais confortável, você convida o idoso a confiar em você e sentir-se seguro para abrir suas angústias e lembranças.

Dê uma folguinha para os eletrônicos

Pode até ser que você consiga escrever no celular enquanto ouve uma história com atenção. Mas não parece. Para quem está falando, é desagradável notar que o ouvinte está dividindo a atenção com outra coisa, principalmente se quem fala é de uma geração que não nasceu teclando. Portanto, durante conversas com idosos, desligue o telefone e dê atenção exclusiva.

Disponha-se a ensinar e aprender coisas

Sentir-se útil é o maior desafio depois de certo momento da vida. Ao parar de trabalhar e entender costumes que vigoram na sociedade, o mais comum é que o idoso passe a se sentir inútil e apartado do mundo onde vive. Portanto, valorize os conhecimentos dos mais experientes e proponha-se a ensinar novidades em troca de aprender modas de outrora.

Não encare como uma obrigação

É normal, no começo, o contato com o idoso não fluir tão bem. Afinal, ele não te conhece e talvez desconfie das suas intenções - convenhamos que não é todo dia que surge alguém tão interessado nos seus papos. Mas tenha paciência e tente não encarar o encontro só como uma tarefa. Os laços verdadeiros precisam de dedicação e frequência para se formar.

Estimule mais orgulho do que saudade

Fixar-se no passado é um exercício inevitável para quem está mais para o fim do que para o início da vida. Isso não é ruim, mas é importante estimular seu colega idoso a encarar suas histórias passadas mais com orgulho do que com saudade. A nostalgia ensina lições, mas também pode aprisioná-lo em um tempo que nunca voltará.

Ajude-o a desfrutar do tempo livre

Nunca é tarde para retornar antigos hobbies ou mesmo começar a aprender algo que deixamos para quando surgisse um tempo livre. Aposentados têm todo o tempo do mundo e certamente acumulam desejos não realizados. Chegou a hora! Dá para viajar, matricular-se naquele curso que ficou sempre para depois, escrever um livro, cuidar de um jardim, enfim...




(texto publicado na revista Todos - A vida é feita de histórias. Qual é a sua? nº 3 - ago/set de 2015)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Inferno. "Abandonar idoso é pecado mortal", diz o papa


O papa Francisco advertiu ontem que abandonar os idosos é "pecado mortal" e que sem honrar os mais velhos não há futuro para os jovens. Ele falou na audiência geral das quartas-feiras a milhares de fiéis concentrados na praça de São Pedro, em Roma. "Os idosos deviam ser, para toda a sociedade, uma reserva de sabedoria."

Francisco disse que, graças ao progresso da medicina, a vida humana aumentou, mas o coração da humanidade não cresceu. "Os idosos são homens e mulheres que estiveram antes de nós no nosso caminho, na mesma casa, na nossa batalha cotidiana por uma vida boa. Homens e mulheres de quem recebemos muito."

Para Francisco, o idoso não é um um ser estranho. "Se não aprendermos a tratar bem os idosos, assim seremos tratados", afirmou. Segundo o papa, uma sociedade "sem proximidade é perversa", e a Igreja não pode tolerar isso.



(texto publicado no jornal Metro edição nº 1993 - ano 8 - 5 de março de 2015)