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quinta-feira, 17 de março de 2016

Aedes Aegypti: População e o poder público tem que se unir nesta luta


Não basta apenas reclamar. Você tem que agir.

Uma das piores epidemias dos últimos anos  tem assombrado as pessoas em todas as partes do Brasil. Um vírus que agride não só o infectado, mas principalmente as gestantes, causando uma deficiência irreparável no feto. A microcefalia. Estudos e pesquisas ainda estão sendo realizadas em  todo o mundo. Laboratórios brasileiros e americanos buscam uma vacina eficiente para este mal, mas não se sabe ainda quanto tempo levará para ficar pronta, se realmente irá imunizar as pessoas e nem mesmo a sua real eficiência. O que se sabe é que o transmissor deste mal é um mosquito que pode estar em qualquer lugar, a qualquer hora. Esperar apenas ações dos governos não é o mais sensato neste momento, até porque todos nós sabemos que a proliferação desta praga acontece no vaso de planta da sua casa, na garrafa PET que você jogou na rua, no pneu que o seu vizinho colocou no terreno ao lado, etc. Ou seja, o principal responsável por esta epidemia é o seu vizinho e você. Sim, o seu vizinho que acumula água no vasos ou garrafas, e você que não conversou e orientou o seu vizinho. Mas lembre-se, antes de orientar o seu vizinho, faça a sua parte primeiro. O importante é mobilizar o maior número de pessoas no seu bairro, comunidade, escola, trabalho, condomínio, etc. O poder público tem que fazer sua parte também. Com programas de educação e orientação da população e também com operações de recolhimento de lixo e entulho em logradouros abandonados. Cabem ainda às prefeituras, notificar e multar proprietários de estabelecimentos comerciais, donos de terrenos desocupados e munícipes que não estiverem tomando medidas preventivas. A responsabilidade é de todos. Se o mosquito da dengue pode matar ele não pode nascer. Faça sua parte.



(texto publicado no jornal Ponto a Ponto edição 379 - ano 7 - março de 2016)


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Onde nasce o ebola? - Johnny Mazzilli


Em 1988, pesquisadores do Exército americano passaram um mês na caverna de Kitum, no Quênia, procurando a origem do vírus ebola. Não tiveram sucesso. Agora, a doença virou uma emergência mundial. Dificilmente o vírus chegará ao Brasil. Mas todos os países precisam se precaver do seu contágio.

A distância vê-se apenas uma fresta estreita e escura, recortada na base da montanha e oculta pela vegetação. De perto, a entrada tem 55 metros de largura, expandindo-se por 200 metros montanha adentro. De dia, a luz penetra na caverna fria e úmida, permitindo vislumbrar parte do interior. Na entrada, pegadas de elefantes formam um mosaico no solo barrento.Toda noite, as manadas entram na caverna Kitum para raspar as paredes com as presas, em busca de sais e minerais. A caverna situada no Parque Nacional Monte Elgon, no Quênia, formada há sete ou oito milhões de anos a partir de erupções vulcânicas, é um caso único no mundo de crescimento por ação de elefantes.

À medida que se penetra no interior, a luz se dissolve na escuridão. O silêncio só é interrompido pelo chilrar dos morcegos que vivem em colônias, dependurados no teto. Embaixo deles há espessas manchas de uma substância verde, pegajosa e molhada - o guano (fezes). Prontos para a revoada, centenas de olhos vermelhos observam. Kitum seria apenas uma entre as muitas cavernas africanas se não fosse por um motivo sombrio: os membros da tribo masai que habitam a região sempre tiveram casos de parentes mortos por uma estranha doença que causava sangramento até a morte. Em 1980 e em 1987, dois estrangeiros estiveram em Kitum e contraíram um vírus raríssimo, o marburg, sucumbindo em poucos dias com hemorragias maciças. Foi assim que Kitum entrou no radar dos caçadores dos raros vírus filamentosos, o marburg e seu primo ebola.

O marburg foi o primeiro "filovírus" (da família filoviridae) descoberto. Na verdade, ele apareceu na Alemanha, em 1967, na cidade de mesmo nome, em macacos trazidos de Uganda pela empresa Behring Works, que produzia vacinas. Em alguns dias, foi o fim do mundo: sete dos 30 funcionários infectados morreram com fortes hemorragias. Mas isso era apenas um introito. Em 1976, outro filovírus mortal surgiu no Sudão, causando devastação em aldeias e comunidades tribais; e, assim como veio, desapareceu, sem ser estudado, definido e classificado. Esse vírus ganhou o nome do rio que atravessa a região, o Ebola.

Meses depois do "ebola Sudão", outro filovírus mais letal ainda surgiu 800 quilômetros a oeste, na província de Bumba, na atual República Democrática do Congo (antigo Zaire), às margens do rio Ebola, ganhando o nome de "ebola Zaire". Uma terceira variedade do ebola surgiu inesperadamente em 1989, na cidade de Reston, na Virgínia, nos Estados Unidos, levada por um grupo de macacos importados das Filipinas. Com o tempo, outras mutações surgiram, como o ebola Costa do Marfim (1994) e o raríssimo ebola Bundibugyo (2008), registrado em Uganda. Talvez apareçam outras.

O marburg mata 25% de suas vítimas. O primo ebola Sudão é duas vezes mais mortífero, matando 50% dos infectados (mesma mortalidade da peste negra na Europa medieval). O vírus da febre amarela, considerado muito perigoso, mata uma a cada 20 vítimas, ou 5%. Já a variedade "ebola Zaire" mostrou-se bem mais agressiva, matando 90% dos infectados. O ebola Reston é o mais benigno: elimina animais, mas causou apenas sintomas semelhantes aos da gripe em humanos.

Imprevisiblidade

Desde 1976, quando dois surtos simultâneos surgiram em Nzara, no Sudão, e em Yambuku, na República Democrática do Congo, e a família ebola foi identificada pela primeira vez, já houve 25 irrupções epidêmicas,sempre no continente africano. Normalmente, as epidemias ocorriam em regiões tribais, atingindo pequenas comunidades com contágio fulminante, e logo desapareciam. Ao matar rapidamente as vítimas, o vírus inviabilizava sua propagação.

Em 2014, entretanto, a epidemia é a de maior magnitude já registrada. Em 8 de agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto como "emergência de saúde pública de alcance mundial". Já são mais de 1.386 mortos e mais de 3.000 infectados. Mais de 80 localidades foram atingidas em três países da África Ocidental - Guiné, Serra Leoa e Libéria, entre capitais, cidades e aldeias. A Nigéria também registrou seus primeiros casos. A Costa do Marfim e o Senegal estão em estado de alerta contra o vírus altamente contagioso. "De maneira inédita, o surto se espalhou para além da fronteira de três países africanos, tornando-se a maior distribuição geográfica do vírus na história", afirma Leticia Linn, diretora de comunicação da OMS.

"O surto de agora tem um caráter inteiramente diferente", afirma Valdilea Veloso, infectologista da Fiocruz. O clínico português Paulo Reis, 42 anos, que atua na organização Médicos sem Fronteiras, relata grandes dificuldades do trabalho de campo na Guiné: "Desta vez há muito mais gente infectada. Em Uganda as pessoas já conheciam a doença, mas na Guiné nem os médicos tinham ouvido falar dela", conta. O mais perturbador é que, apesar de quase meio século de pesquisa desde o aparecimento do marburg na Alemanha, os cientistas continuam sem saber quem é o hospedeiro do vírus e ao que se deve o aparecimento das epidemias letais, apesar de suspeitarem de algumas espécies de primatas.

Na verdade, o ebola Zaire vem se mostrando menos letal do que de costume, matando apenas 60% dos infectados. "Mas estamos chegando ao nosso limite", afirma Bart Janssens, diretor de operações da Médicos sem Fronteiras. "A epidemia já está fora de controle; necessitamos de reforços e não vejo o recrudescimento do surto em menos de seis meses", diz.

Contágio rápido

Um marco da batalha contra os filovírus foi a morte do homem conhecido como Yu G, no Sudão, em julho de 1976, com hemorragia maciça por todos os orifícios do corpo. O doente trabalhava numa fábrica de algodão nas proximidades da cidade de Nzara, bem perto de uma floresta. Yu G. ficou famoso mundialmente por ser o "caso index", o primeiro humano infectado por um vírus desconhecido, o ebola Sudão. Ele ocupava uma sala, nos fundos da fábrica, com morcegos pendurados no teto. Dias após sua morte, dois funcionários apresentaram febre e dores no corpo e morreram com hemorragias devastadoras. Ao contrário do tímido Yu G., um deles era extrovertido e mulherengo e, antes de surgirem os sintomas, espalhou o vírus pela cidade.

O vírus devastou Nzara e atingiu a vizinha cidade de Maridi, onde havia um pequeno hospital, matando pacientes, atendentes, enfermeiros e médicos. Com poucos recursos, o hospital aplicava injeções com as mesmas agulhas sujas o dia inteiro. Os pesquisadores que rastrearam o surto descobriram que as cadeias de infecção retrocediam de geração em geração até o discreto senhor Yu G.

No hospital de Maridi, os pacientes entravam em pânico, arrancavam as roupas e corriam pelas ruas, sem entender o que se passava. O surto só arrefeceu quando os doentes morreram e os sobreviventes fugiram da instituição. Assim como surgiu, o ebola Sudão desapareceu subitamente, e o mundo quase não tomou conhecimento desse primeiro surto. O vírus voltou a se esconder em seu reservatório na floresta  tropical, secretamente alojado em algum hospedeiro desconhecido. Hoje, 38 anos depois da morte de Yu G., os pesquisadores conseguiram identificar anticorpos e traços genômicos do ebola Sudão em três espécies de morcegos frugívoros.

A variedade ebola Zaire surgiu na aldeia de Yambuku, num pequeno hospital dirigido por freiras missionárias belgas. Ali, as freiras também aplicavam dezenas de injeções utilizando apenas algumas seringas. As pessoas que acorriam ao hospital em busca de alívio para a malária eram infectadas e dia depois morriam de hemorragia. O vírus atacou 55 aldeias ao redor de Yambuku, matando 400 pessoas. Mais uma vez, a epidemia só cessou quando os doentes morreram e os sobreviventes fugiram para a selva.

Expedição frustrada

Na primavera de 1988, o especialista em biorrisco e caçador de vírus norte-americano Eugene Johnson, diretor do Instituto Médico de Pesquisas de Doenças Infecciosas do Exército dos EUA, liderou uma expedição à caverna Kitum. Levou com ele uma equipe de 35 pessoas, entre médicos, pesquisadores e naturalistas, vasta quantidade de material de pesquisa,tendas, trajes herméticos, armadilhas, cobaias e macacos.

Como não há sensores para detectar um vírus, o método consagrado de investigação é deixar um animal de sentinela onde se espera que o vírus esteja e esperar que a cobaia adoeça. Os pesquisadores montaram tendas de pesquisa, de necropsia e de descontaminação. Durante um mês, mantiveram-se em trabalho de campo.

Com a ajuda dos quenianos e dos masais do Monte Elgon, capturaram milhares de insetos e centenas de animais de pequeno porte. Estudaram os registros médicos da população e tiraram milhares de amostras de sangue das pessoas e do gado, mas as análises revelaram não serem soropositivas para o marburg, ou seja, não tinham anticorpos da doença e, portanto, não haviam sido expostas a ela. Infelizmente, não foram descobertos vestígios de marburg ou ebola.

Além da incerteza sobre o hospedeiro, o mais desconcertante continua a ser a velocidade do contágio por contato. Em muitas regiões da África, as mulheres preparam os mortos para o funeral e servem comida no velório. No calor, as cerimônias fúnebres duram dois ou três dias e as pessoas acariciam e abraçam demoradamente o morto, mantendo contato com fluídos cadavéricos saturados de vírus. Em quase todas as epidemias ocorrias, esse foi um importante meio de contágio e as mulheres, os principais vetores.

O contato sexual é outra via de transmissão. O vírus ebola não viaja pelo ar, como o da gripe. Para que o contágio se dê através do ar, é preciso que haja nebulização de fluídos como tosse, espirros, vômitos e convulsões que espalhem secreções corpóreas. Há também relatos de gente que adoece após ingerir carne de macacos, antílopes e morcegos, animais que integram a dieta em alguns países africanos.

Não há remédios ou vacinas contra a doença, ainda. O tratamento visa à manutenção da saúde: hidratação, alimentação e a contenção da febre. Só o isolamento dos doentes e dos que tiveram contato com estes pode deter a epidemia, a maior dificuldade da missão que tenta combater o ebola na África.

Os EUA desenvolveram um medicamento experimental, o ZMapp, produzido em quantidade pequena e ainda sujeito a anos de trâmites de testes e aprovação. Diante da gravidade da situação, a OMS autorizou seu uso imediato. Macacos medicados experimentalmente com o ZMapp já foram curados. Dois médicos americanos infectados com o ebola Zaire receberam o medicamento e foram salvos. A OMS acredita que uma vacina pode estar disponível já em 2015. Mas, enquanto isso,  todos os países devem se prevenir contra a doença.





(texto publicado na revista Planeta edição 502 - ano 42 - setembro de 2014)








sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O vírus do pânico - Natalia Cuminale


Ao chegar aos Estados Unidos e à Europa, depois de alguma displicência das autoridades sanitárias, o ebola disseminou um mal difícil de controlar: o medo

Pode-se dizer, a respeito da chegada do ebola aos Estados Unidos e à Europa, que a disseminação do vírus está relativamente controlada. Não há perigo de epidemia, como já ocorre na região ocidental da África. No entanto, eis aí outra certeza, o pânico virou pandemia. Na semana passada, pressionado pela desconfiança da opinião pública, Barack Obama nomeou um czar para zelar pelo controle do ebola. Em frente à Casa Branca, manifestantes pediram a suspensão dos voos provenientes dos países africanos de maior incidência da doença. O ateliê de vestidos de noiva e o salão de beleza por onde passou uma das duas enfermeiras americanas diagnosticadas com o vírus fecharam suas portas. Há medo.

Ele é exagerado, mas nada há a ser feito contra essa percepção, a não ser reforçar os controles sanitários contra o ebola e explicar claramente onde houve erro - e foram muitos. Tom Frieden, diretor do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), reconheceu uma grave falha no sistema americano de vigilância. O caso mais emblemático de displicência é o da enfermeira Amber Joy Vinson, de 29 anos, que esteve envolvida nos cuidados com o liberiano Thomas Duncan, morto há duas semanas no Hospital Presbiteriano de Dallas, no Texas. Com casamento marcado, ela foi de Dallas para Cleveland, onde sua família mora. Recebeu a autorização do CDC para viajar. Na volta, antes de embarcar, informou estar febril, com 37,5 graus. Mesmo assim, permitiram-lhe voar. Um dia depois, o diagnóstico: infecção por ebola.

Relatório interno da Organização Mundial de Saúde (OMS) vai direto ao ponto ao explicar a epidemia africana: os métodos tradicionais usados no controle de doenças infecciosas não funcionaram em regiões com fronteiras porosas e sistemas de saúde falidos. "A tempestade perfeita estava se formando, pronta para estourar com força total", lê-se no documento. Mantido o ritmo atual, até dezembro o número de novos contaminados na África, conforme dados da OMS, deve chegar a 10 000 por semana - uma taxa dez vezes superior à de hoje. O vírus já infectou mais de 9 000 pessoas e matou 4546, a imensa maioria delas na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria. Teme-se a chegada do vírus à China e à Índia, países de imensa população e minúsculo sistema de saúde. VEJA entrevistou um dos maiores especialistas do mundo em biossegurança e contenção de epidemias, o australiano naturalizado americano Gavin Macgregor-Skinner, da fundação Elizabeth R. Griffin Research, organização dedicada a pesquisas e treinamentos de pessoal em áreas de risco biológico e apoio em saúde pública. Na entrevista a seguir revela-se o que é verdade e o que é mito no ebola.

Como se justificam os casos de ebola nos Estados Unidos e na Espanha?

Falha humana. Para cuidarem de pacientes com ebola, os profissionais de saúde precisam de treinamento intenso. Devem aprender como colocar o equipamento de proteção pessoal e, principalmente, como retirá-lo. Quando se usa um traje desse tipo, a temperatura interna ultrapassa os 46 graus. Faz calor, o suor é intenso, o peso é insustentável. A exaustação é inevitável. Quando o trabalho acaba, só vem à cabeça a ideia de se livrar daquilo tudo. nesse momento ocorrem os erros. Mesmo com roupa corretas, dá-se a infecção por falta de cuidado, fruto da supervisão inadequada. As enfermeira, por exemplo, trocam fraldas, aplicam medicamentos, tiram usando usando luva cirúrgica. Imagine terem de fazer isso com duas luvas grossas. É difícil, desconfortável, requer atenção máxima.

O senhor teme uma epidemia?

Não. O número de infectados fora da África é pequeno e é possível contê-lo. Dispomos de todas as ferramentas para o controle do ebola - o mapeamento de possíveis infectados e a detecção precoce dos doentes. Mas precisamos tirar essas ferramentas da caixa e usá-las adequadamente. Os protocolos para o manejo do vírus estão bem estabelecidos. Mas, na prática, eles nem sempre são seguidos. Veja o que aconteceu com o liberiano Duncan em Dallas. Com febre, ele procurou o hospital. Disse que havia chegado da Libéria, e essa informação foi anotada em seu prontuário. Mas não soou o alarme para os médicos que o atenderam. Ele foi mandado de volta para casa com prescrição de antibióticos. Há uma distância enorme entre o que está no papel e o que realmente acontece na prática.

Como diminuir essa distância?

Além de toda a infraestrutura hospitalar, com áreas de isolamento, é necessário treinar e treinar, incansavelmente, as equipes. Não somente médicos e enfermeiros, mas todos os funcionários - os agentes de segurança, cozinheiros, faxineiros. Ao treiná-los e conscientizá-los sobre a importância do controle do vírus, o risco de contaminação diminui muito. Além disso, todos ficam aptos a detectar eventuais erros. Em se tratando do ebola, é preciso contar com um sistema de supervisão extremamente sofisticado. Dispor de funcionários que não toquem o paciente, mas que acompanhem o trabalho dos que lidam diretamente com o doente para garantir que erros não sejam cometidos. O manejo dos pacientes com ebola não é fácil, especialmente daqueles em estado grave.Quando eles pioram, têm muita diarreia e vômito - ininterruptamente. Esses fluídos contêm bilhões de vírus. O profissional precisa acompanhar a saúde do paciente e, ao mesmo tempo, permanecer atento ao ambiente. Há que ser 100% rigoroso. Com o ebola não há uma segunda chance.

O senhor esteve à frente de equipe que coordenou a contenção do ebola na Nigéria. Nesta semana, a OMS deve declarar o fim da epidemia naquele país. Como foi seu trabalho lá?

Fomos acionados em julho pelo governo nigeriano, quando o liberiano Patrick Sawyer foi diagnosticado com o ebola. Utilizando recursos locais, sem nenhum aparato tecnológico ou terapia experimental, conseguimos rastrear as 891 pessoas que tiveram contato direto  ou indireto com o paciente. Treinamos a população local para ajudar nesse mapeamento e na identificação precoce dos doentes. Dos vinte infectados no país, doze sobreviveram.

Na semana passada, a OMS revisou a taxa de mortalidade por ebola. Ela foi de 50% para 70%. O vírus ficou mais letal?

Não. Os dados estão mais precisos. Na Nigéria, por exemplo, a taxa de mortalidade foi de 40%. Quando se diz que 70% dos infectados morrem, levam-se em conta as informações de todos os países africanos atingidos pela epidemia. Nos locais onde a contenção do vírus está funcionando, a taxa de sobrevivência é naturalmente maior.

Desde a descoberta do vírus, em 1976, já se contabilizam 26 surtos de ebola. Em que a atual epidemia na África difere das outras?

É a primeira vez que o ebola está circulando na África Ocidental. Antes, ele se manifestava, sobretudo, na África Central. O vírus nunca infectou tantas pessoas. Vai de um paciente para outro - e não para. Nos surtos anteriores, com uma taxa de mortalidade ao redor dos 90%, o ebola não se disseminava com tanta facilidade. Além disso, ele saiu das áreas rurais e atingiu os grandes centros. Como as pessoas vivem mais próximas, há mais contato direto entre elas. O potencial de proliferação aumentou.

Há o risco de o ebola vir a ser transmitido pelo ar?

Não. Há especialistas analisando amostras do vírus diariamente, em busca de eventuais alterações genéticas. Até agora, não foi detectada nenhuma mudança na estrutura do vírus responsável por sua transmissibilidade. Além disso, a partir das evidências científicas atuais, posso dizer que essa mutação não ocorrerá.

O senhor já trabalhou no controle do vírus H5N1, que provocou o surto de gripe aviária, em 2004, e no do H1N1, responsável pela eclosão da gripe suína, em 2009. Qual a diferença entre aquelas epidemias e a atual, de ebola?

O ebola afeta o indivíduo de duas formas: biologicamente, o vírus causa a doença; psicologicamente, transmite pânico. Não há vacina ou tratamento específico para o ebola. É isso que provoca medo, inclusive entre os profissionais de saúde. O medo não é bom em nenhuma situação de emergência de saúde pública. Quando isso ocorre, aumenta a probabilidade de erros e, consequentemente, o risco de infecção é maior.

Recentemente, o Brasil registrou o primeiro caso suspeito de bola - um refugiado guineano, no interior do Paraná. Depois desse episódio, imigrantes africanos das regiões de maior incidência do ebola chegaram a ser hostilizados. Na semana passada, manifestantes americanos pediram a suspensão dos voos vindos da África Ocidental. Fechar as fronteiras dos países acometidos pela epidemia é uma estratégia?

Não. Muitos dos meus colegas médicos que estão na África precisam de suprimentos. Se as fronteiras forem fechadas, o caos será ainda maior, com a falta de equipamentos de proteção, remédios, alimentos. O impacto econômico do ebola já é alto por si só. Não podemos estigmatizar um país só porque ele tem uma doença altamente infecciosa. Esse é o meu maior medo.

Alguns pacientes receberam tratamentos experimentais, como o anticorpo monoclonal ZMapp e a transfusão de sangue de pacientes curados. Até onde vai a eficácia dessas terapias?

Não sabemos. Ainda não há informações suficientes para responder a essa pergunta. Os estudos até agora foram feitos apenas com animais. Acompanhei um paciente em tratamento com o anticorpo monoclonal ZMapp. Um dia ele melhorou, depois ficou doente de novo, depois melhorou. Outro doente morreu. O mesmo vale para as transfusões de sangue de pacientes curados. Ninguém até agora foi salvo pelos tratamentos experimentais.

É possível comparar o ebola ao HIV?

A única semelhança entre os dois vírus é o estigma criado em relação aos doentes, aos seus familiares e a comunidades inteiras. Os pacientes com HIV foram estigmatizados e tratados como criminosos. É o que está acontecendo com o ebola - inclusive nos Estados Unidos. De resto, não há nenhuma outra semelhança entre os dois vírus. A falta de informação e de educação cria uma atmosfera do medo e não contribui para o combate ao ebola.




(texto publicado na revista Veja edição 2396 - ano 47 - nº 43 - 22 de outubro de 2014)




















sábado, 3 de janeiro de 2015

Por que o ebola preocupa tanto? (Planeta Sutentável)


O vírus, descoberto em 1976 na República Democrática do Congo, no centro da África, tem o surto mais mortal da história. Entenda por que ele é tão terrível

A epidemia que já matou mais de 5 mil pessoas na África, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, provoca medo e preocupação. Especialistas explicam a razão abaixo.

1. VEM DA SELVA

O hospedeiro primário do ebola é um tipo de morcego frutívoro. O homem se infecta ao comer a carne desse animal ou ao ter contato com bichos que interagem com ele, como macacos, antílopes e porcos-espinho. A partir daí, a transmissão acontece de pessoa para pessoa.

2. O DISFARCE

Lesões minúsculas na pele são a principal porta de entrada do vírus. Uma vez na circulação, ele é englobado por um tipo de célula de defesa batizado de macrófago - mas a tática de contenção não funciona. Escondido no macrófago, o ebola viaja até os gânglios linfáticos, localizados no pescoço, nas axilas e na virilha.

3. HORA DE ATACAR

O ebola pode permanecer 21 dias se multiplicando nos gânglios - na média, fica cinco ou seis dias ali. Depois rompe a parede dos macrófagos e espalha-se da cabeça aos pés, matando várias células. No fígado, por exemplo, isso impede a produção de fatores de coagulação do sangue e até leva à falência do órgão.

4. VIRA PENEIRA

Em resposta, o corpo fabrica um monte de citocinas, substâncias que servem como sinal de alerta. Mas o excesso de citocinas gera um encolhimento de células das veias e das artérias, o que abre buracos por onde o sangue vaza. Surge, então, uma hemorragia generalizada.

EXISTE UM TRATAMENTO?

Ainda não há nenhum remédio que elimine o ebola. Por enquanto, o jeito é manter o doente hidratado e monitorar a pressão, os níveis de oxigênio e a febre. Os cientistas correm contra o tempo para lançar em 2015 soluções efetivas - as esperanças recaem em uma vacina, na droga ZMapp e  no uso de anticorpos de infectados que conseguiram se curar por conta própria.









sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rápido e letal - Natália Cacioli e Natalia Cuminale


Depois de dois anos sem dar sinais, o ebola ressurgiu com força total. Na pior epidemia já registrada, o vírus infectou milhares de pessoas e fez quase 750 mortos na Guiné, Serra Leoa, Libéria e Nigéria. Por enquanto, a probabilidade de ele alastrar-se é remota

Não há definição mais precisa acerca do embate entre homens e vírus do que a feita pelo biólogo molecular Joshua Lederberg (1925-2008), prêmio Nobel de Medicina em 1958. Dizia ele: "Nós vivemos em uma constante competição evolucionária com os micróbios. E não há garantia de que seremos nós os sobreviventes". Nas últimas semanas, esse confronto ressurgiu com a entrada em cena de um dos vírus mais letais de que se tem notícia, o ebola. Depois de dois anos sem dar sinais, ele apareceu no oeste africano. Até sexta-feira, havia matado 729 pessoas em quatro países - Guiné, Serra Leoa, Libéria e Nigéria. É a pior epidemia de ebola desde a descoberta do vírus, em 1976, no Zaire (atual República Democrática do Congo) e no Sudão.

A paciente zero do atual surto foi uma menina de 2 anos de idade, moradora de um vilarejo no sul da Guiné. Em 2 de dezembro de 2013, ela apresentou febre, vômito e diarreia. Quatro dias depois, estava morta. Dali, como um rastilho de pólvora, o ebola se alastrou. Na semana passada, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos emitiu o alerta: as viagens para Guiné, Serra Leoa e Libéria são de altíssimo risco. Nas áreas afetadas, fronteiras foram fechadas e as aulas suspensas. Funcionários públicos entraram em férias compulsórias. Militares foram convocados para ajudar na identificação de doentes. O que mais preocupa as autoridades agora é que a doença está rompendo os limites da zona rural e fazendo vítimas nas capitais. A probabilidade de a epidemia sair da África, no entanto, é considerada remota.

Acredita-se que o hospedeiro natural do ebola seja o morcego, do tipo que se alimenta de frutas. Ele transmite o vírus, sobretudo a macacos, e a contaminação humana se dá pelo contato com esses animais. Entre os homens, a transmissão ocorre por meio do sangue, saliva, suor, urina, vômito e fezes. O fato de o ebola emergir em áreas miseráveis e sem infraestrutura sanitária dificulta enormemente o seu controle. Nos países que registraram a doença, profissionais encarregados dos cuidados dos doentes sofrem hostilidades frequentes. Como a letalidade pode chegar a 90% (neste surto, está em 60%), os familiares das vítimas, desesperados, culpam médicos e enfermeiros pela epidemia e pela impossibilidade de contê-la. Na semana passada, em Freetown, capital de Serra Leoa, uma cabeleireira de 32 anos infectada pelo ebola foi tirada à força do isolamento no hospital por parentes.

Até agora, 100 profissionais de saúde foram atingidos pelo vírus. Na última quinta-feira, estava prevista a remoção para os Estados Unidos do médico americano Kent Brantly, contaminado em um centro de saúde em Monróvia, capital da Libéria. "Na África, crenças e hábitos religiosos aceleram o processo de transmissão", diz Sylvia Lemos Hinrichsen, coordenadora do Comitê de Medicina dos Viajantes, da Sociedade Brasileira de Infectologia. Em muitas vilas, são os parentes que cuidam da preparação do corpo antes do enterro, por exemplo. A médica brasileira Rachel Soeiro fez parte de uma missão dos Médicos Sem Fronteiras em Télimélé, na Guiné, um dos focos da epidemia. Quando o grupo consegue salvar um paciente, conta ela, põe em prática um ritual destinado a mostrar que ele não oferece mais perigo aos parentes e vizinhos: ao deixar o isolamento, o paciente curado recebe um abraço dos médicos diante de toda a vila.

Apesar da agressividade do ebola, é improvável que ele saia vitorioso no embate com o homem. Do ponto de vista evolutivo, trata-se de um "vírus burro". Seu período de incubação é curto. Dura, em média, quatro dias. O HIV, agente causador da aids, por exemplo, em geral pode ficar sete anos sem dar sinal de sua existência. Essa característica faz com que o ebola tenha uma capacidade restrita de contaminação - e, portanto, de sobrevivência. "Alguém com o vírus da gripe consegue transmiti-lo a cerca de 500 pessoas antes de cair de cama. Já um paciente infectado pelo ebola, dado o curto período de incubação do vírus, passa a doença para dez, em média", diz o infectologista Artur Timerman. Além disso, o ebola mata rapidamente - em geral, em uma semana. Nos casos mais graves, ele destrói os vasos sanguíneos, levando o doente a um quadro severo de hemorragia. Alguns chegam a sangrar pelos poros. Quando isso ocorre, a morte é certa.




(texto publicado na revista Veja edição 2385 - ano 47 - nº 32 - 6 de agosto de 2014)






quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Chegou para ficar - César Vicente


O verão de 2015 terá uma visitante não convidada que promete incomodar e não ter pressa de ir embora: a febre chikungunya

Levantamentos epidemiológicos do Ministério da Saúde divulgados em outubro informam que o Brasil já havia registrado 789 casos de uma nova doença infecciosa febril que tende a se alastrar pelo País no verão de 2015 e se tornar crônica: a chikungunya. Semelhante à dengue, seu vírus transmissor (denominado CHIKV) tem como vetores os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, velhos conhecidos da população. Casos da doença foram notificados em grande número na Bahia, no Amapá e em Minas Gerais, e é previsível que se alastre por outras regiões em função da estação chuvosa que se aproxima. O risco de contaminação aumenta exponencialmente em épocas de calor e de concentração das águas, condições propícias para a reprodução dos mosquitos. "Essa febre segue os mesmos padrões sazonais da dengue. E ela chegou para ficar", confirma o doutor em Medicina Tropical e professor da Universidade de Brasília (UnB) Pedro Tauil.

A doença teria sua origem no continente africano. Na língua makonde, um dos idiomas da Tanzânia, onde foram documentados os primeiros casos em 1952, o termo chikungunya significa "tornar-se dobrado ou contorcido". Trata-se de uma referência à aparência curvada dos pacientes, em razão das dores articulares e musculares provocadas pelo mal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2006, via Quênia, o CHIKV alcançou a Ásia (Indonésia, Taiwan, Cingapura, Malásia, Sri Lanka etc.), quando 1,9 milhão de casos - a maioria na Índia - foram notificados. Em 2007, ele adentrou a Europa (Itália e França, principalmente) e, em dezembro de 2013, aportou no Caribe (Aruba, Dominica, Guiana Francesa e República Dominicana, entre outros países), provocando os primeiros casos nas Américas, inclusive Estados Unidos. Em junho deste ano, o vírus ingressou no Brasil provavelmente através de profissionais da saúde, missionários religiosos e soldados do Exército que retornaram infectados da missão de paz no Haiti.

Articulações

A chikungunya se assemelha à dengue na forma de transmissão e nos sintomas. Não existe contaminação entre pessoas, e a única forma de infecção é pela picada dos mosquitos. Entre dois e 12 dias após a picada, aparecem febre em torno de 39 graus, além de artralgias ou dores intensas nas articulações, principalmente dos pés e mãos. Pode ocorrer, ainda, dores de cabeça e musculares e manchas avermelhadas na pele. Cerca de 30% dos casos não chegam a demonstrar sintomas, enquanto em outros casos as artralgias podem se prolongar. Diferentemente do que ocorre com os portadores da dengue, uma parte dos infectados chega a desenvolver problemas crônicos, como dores articulares por seis meses a um ano. "Há casos de pacientes que não conseguem escrever", afirma o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde, Giovanini Coelho.

Em compensação, ao contrário da dengue, a chikungunya não apresenta uma variação hemorrágica - mais perigosa e de maior letalidade, superior a 10% dos casos - e raramente implica consequências graves. As mortes têm sido raras, ao menos até agora. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a letalidade da doença varia de zero - na Índia nenhum óbito foi confirmado - a 0,1% dos casos. Além disso, uma vez picada pelo mosquito, desenvolvendo ou não os sintomas, a pessoa fica imune pelo resto da vida. Isso porque, segundo os infectologistas, o ser humano constrói uma reação com a produção de seus anticorpos. "O organismo humano consegue montar uma resposta imune com a produção de anticorpos de tal forma que, se você tiver uma nova exposição, esse vírus vai ser neutralizado não gerando mais sintomas", avalia o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Edmilson Migoviski.

Prevenção

O diagnóstico é baseado nos sintomas e confirmado por exames laboratoriais. Como ainda não há vacina ou tratamento específico contra o mal, os médicos aliviam os sintomas através de medicação antitérmica (paracetamol) e contra dores articulares (analgésicos e anti-inflamatórios). Nos casos destas últimas se prolongarem, é indicado corticoides e sessões de fisioterapia. Como acontece com a dengue, não se recomenda o ácido acetilsalicílico devido ao risco de hemorragia. Aliás, evite a automedicação para não mascarar os sintomas e dificultar o diagnóstico. Outras recomendações são repouso absoluto e beber líquidos em abundância. E, claro, cortar o mal pela raiz. Da mesma forma como prevenimos a dengue, a chikungunya pode ser evitada erradicando-se os criadouros de mosquitos: não acumule água em recipientes, verifique se a caixa d'água está fechada, não esqueça vasilhames, garrafas e pneus amontoados no quintal, observe se as calhas não estão entupidas e coloque sempre areia nos pratos de vasos das plantas.




(texto publicado na revista Família Cristã nº 948 - ano 81 - dezembro de 2014)





terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dossiê: epidemias


Peste bubônica

Roedores contra-atacam

Após matar 60% da população da Europa no século 14, a peste reaparece na Europa

Em julho, 30 mil moradores de uma pequena cidade da China foram isolados depois de um caso de peste bubônica. A medida foi tomada depois que um homem de 38 anos morreu ao entrar em contato com uma marmota infectada. A peste bubônica (ou peste negra, como também é conhecida) é transmitida pelo bacilo de Yersin, que infecta roedores. Pulgas que se alimentam do sangue desses animais mordem humanos, transmitindo a doença. No caso da China, mais de 159 pessoas ficaram em quarentena, mas não foram registradas outras mortes.

O quadro chinês é bem diferente do registrado nos séculos passados "Alguns desventurados, incapazes de suportar o tormento, se atiravam do alto das casas, disparavam um tiro ou se destruíam de qualquer outro meio; casos como esses vi muitos. Outros, sem poder se conter, lançavam gritos incessantes de dor, e seus gemidos, tão fortes, tão lastimáveis, atravessavam o coração de quem os ouvia pela rua, e ainda era sabido que o mesmo chicote poderia ser açoitado contra si a qualquer instante", escreveu Daniel Defoe na obra Um Diário do Ano da Peste. O relato conta como a peste matou 70 mil pessoas em Londres em 1665.

O pânico dos ingleses tinha explicação: eles sabiam do estrago que a praga havia causado em boa parte da Europa no século 14. Considerada uma pandemia, a pior epidemia da história da Europa reduziu a população em quase um terço. Com uma  taxa de mortalidade de 60%, o número de europeus caiu para 30 milhões entre 1346 e 1353.

A peste chegou à Europa com as tropas do Império Mongol que ocupavam a península da Crimeia, origem da praga. Há relatos de que os mongóis catapultavam corpos infectados contra seus inimigos para espalhar o contágio pelo Ocidente, mas o mais provável é que a bactéria tenha entrado na Europa Ocidental através dos ratos que habitavam os navios de comércio e de comerciantes infectados. Assustados, genoveses e venezianos fugiram, espalhando a peste para o resto do continente. Na Europa, o bacilo de Yersin encontrou o ambiente ideal para sua disseminação: nas cidades medievais, as condições de higiene eram péssimas, sem aterros sanitários e com lixo espalhado pelas ruas.

A Ásia foi o berço da peste bubônica,mas hoje pessoas morrem da doença em quase todos os continentes. No mundo inteiro, há entre mi le 3 mil casos de peste negra por ano, segundo a OMS. Em volta das picadas de pulga, a pele é tomada por zonas gangrenadas. Ela incha e forma nódulos, os chamados bubões (daí o nome peste bubônica), que crescem nas virilhas e axilas e ficam do tamanho de uma maçã. As feridas secretam sangue e pus, e urina, suor, saliva e escarro ganham uma cor escura (daí o outro nome, peste negra). "A peste ainda está aí, é a mesma que tivemos antes, ainda com o poder e a ameaça que tinha", disse à revista The Atlantic o britânico Tim Brooks, especialista em doenças infecciosas.

Poliomielite

O vírus e o terrorismo

O número de casos de poliomielite foi reduzido em 99% até o ano passado, mas ação de grupos terroristas pode ajudar a dar fôlego para a epidemia

A poliomielite foi o terror de pais até a década de 1980. Transmitida de pessoa para pessoa via oral ou fecal por meio de água ou alimentos contaminados, ela causou paralisia e deformações no corpo de milhares de crianças de até 5 anos ao redor do mundo. Pior: em questão de horas, a vítima poderia ficar paralítica. Descoberta em 1840, a primeira vacina para a doença surgiu 110 anos depois e causou uma revolução na saúde. Em três décadas, uma campanha internacional encabeçada pelo Rotary e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reduziu a transmissão da pólio em 99%. O número de casos da doença caiu de 350 mil no início da vacinação para 406 casos em 2013.

Há apenas duas regiões do mundo onde a pólio nunca foi erradicada: áreas tribais na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão e no norte da Nigéria, na África. A explicação para isso? O terrorismo. Alguns anos atrás, na caçada pelo então terrorista mais procurado do mundo, a CIA criou uma campanha falsa de vacinação para coletar o DNA dos moradores do bunker de Osama bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. 

Quando descobriram a estratégia, líderes religiosos passaram a bater de porta em porta para convencer os paquistaneses de que campanhas de vacinação fazem parte de um plano mirabolante do Ocidente para destruir os muçulmanos. Quem sofre com isso são as crianças. Em 2011, ano em que bin Laden foi morto, foram contabilizados apenas 11 casos de pólio no Paquistão. Neste ano, foram 104 até o mês de agosto.

Algo semelhante acontece na Nigéria. O grupo terrorista Boko  Haram rejeita tudo o que considera ocidental, incluindo vacinação e educação. O grupo é o autor de ataques contra centros de imunização, mataram nove funcionários responsáveis pela campanha no ano passado e sequestraram mais três neste ano. Fora de controle, o vírus que se espalha pela Nigéria provocou uma crise de pólio na Somália, que espalhou a doença para o Quênia e a Etiópia. Em 10 anos o número de casos pode chegar a 200 mil no mundo inteiro. Uma em cada 200 infecções levam à paralisia irreversível e, entre esses casos mais graves, até 10% morrem porque os músculos respiratórios param de funcionar. A pólio ainda não tem cura.

Tuberculose

A doença dos artistas

Há quatro anos ela estava quase extinta. Hoje, mata 1,3 milhão de pessoas

Durante muito tempo, acreditou-se que a tuberculose infectava apenas pessoas sensíveis, como os artistas. Isso porque muitos poetas, escritores e pintores sucumbiram à doença. O mito foi embora e hoje a tuberculose é a segunda mazela causada por um único agente infeccioso que mais mata no mundo, atrás da Aids. São 1,3 milhão de vítimas ao anos. Ficou surpreso? Pois eis outro dado assustador: um terço da população mundial tem tuberculose latente, ou seja, foi infectada, mas ainda não desenvolveu os sintomas (tosse por mais de duas semanas, catarro, febre, sudorese, cansaço, dor no peito, falta de apetite e emagrecimento) e nem pode transmiti-la.

A bactéria Mycobacteria tuberculosis se propaga por espirro, tosse ou catarro. Todo ano, estima-se que 450 mil pessoas sejam infectadas por ela. É um cenário bem diferente do registrado há quatro anos, quando a doença estava controlada e quase inexistente. Quem mais sofre são as pessoas HIV  positivo, causando um quinto das mortes desse grupo, mas outros doentes com sistema imunológico prejudicado também correm risco.

A tuberculose tem cura com a utilização de antibióticos por seis meses. Mas o uso inadequado da medicação deixou o germe resistente ao tratamento, especialmente no Leste europeu e na Ásia central. Para o doutor Mario Raviglione, da  Organização Mundial da Saúde, isso coloca em risco a possibilidade de acabar com a doença. "Estamos numa encruzilhada entre a eliminação da tuberculose e milhões de outras mortes", disse.

Varíola

Perigo à espreita

Erradicado em 1979, o vírus foi encontrado em frascos abandonados

Outras doenças infecciosas com alta taxa de mortalidade podem voltar se continuarem sendo tratadas com descaso pelas autoridades. Uma delas é a varíola, declarada globalmente erradicada em 1979 depois de uma campanha de imunização da OMS. Causada pelo vírus de mesmo nome, a doença já foi uma das mais temidas do mundo: matou 300 milhões de pessoas entre 1896 e 1979. Depois de erradicada, dois estoques do vírus foram guardados em laboratórios considerados seguros, um nos EUA e outro na Rússia. Mas, em julho, frascos de varíola foram encontrados dentro de uma caixa de papelão por um cientista do governo americano em um centro de pesquisa perto de Washington. Por sorte, os vidros não estavam quebrados.



(texto publicado na revista Galileu nº 278 - setembro de 2014)


















Doenças sem fronteiras - Gabriela Loureiro


A pior epidemia de ebola da história é só mais um exemplo de mazelas que pareciam sumidas ou extintas que voltaram para assombrar o mundo

Um passageiro de avião morre em pleno saguão do aeroporto de Lagos, cidade mais populosa da África e capital da Nigéria. Nos dias seguintes, duas pessoas que tiveram contato com ele também sucumbem à doença. Os três foram vítimas da pior epidemia de ebola da história. Na China, uma cidade inteira passou dias isolada por causa de um caso de peste bubônica. No século 14, a doença foi responsável por dizimar quase dois terços da população da Europa. E no Afeganistão a ação do grupo terrorista Talibã é apontada como a responsável pelo recrudescimento da poliomelite, que causa paralisia em crianças de até 5 anos.

Nos últimos meses, o mundo tem assistido á volta do ebola e de outras doenças que pareciam extintas. Alguns fatores explicam isso. O desmatamento, por exemplo, expulsa animais e insetos vetores de seu habitat natural para colocá-los em contato com os humanos. Além disso, a urbanização acelerada transformou as cidades em ambientes perfeitos para o contágio em massa. Sem falar nas guerras e conflitos, que forçaram o deslocamento de refugiados e tornaram grupos radicais ainda mais intolerantes à vacinação.

"Em tempos de constante movimento das pessoas, se não houver vigilância e monitoramento que diagnostiquem, tratem e previnam as possíveis situações de riscos das doenças, estas permanecem endêmicas, especialmente em países de extrema pobreza, sem controle ou recursos", afirma a infectologista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Sylvia Hinrichsen. Nas páginas a seguir, GALILEU mostra o que explica a volta de doenças que pareciam extintas.

Ebola

O vírus que assusta o mundo

Na pior epidemia da história, quase 2 mil pessoas foram infectadas e mais de mil morreram da doença que completa 38 anos

A morte do americano de origem liberiana Patrick Sawyer foi a primeira registrada por causa do ebola em Lagos, capital da Nigéria. Quando mais duas pessoas morreram da enfermidade no país mais populoso da África e o oitavo do mundo, um alarme foi disparado: a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou situação de emergência sanitária internacional. Até o fechamento desta edição, em meados de agosto, o ebola havia infectado quase 2 mil pessoas em Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria, deixando mais de mil mortos. Apesar de ainda estar longe de acabar, esse já é tido como o pior surto da história do vírus.

Transmitida por primatas infectados por morcegos frutíferos, hospedeiros do vírus, a primeira notícia que se tem do ebola é de 1976. Ele teria aparecido no Sudão e na República Democrática do Congo (RDC), numa região próxima ao Rio Ebola, que emprestou o nome à doença. Naquele ano foram 318 casos da moléstia com 280 pessoas mortas na RDC - taxa de letalidade de 90%. Ao mesmo tempo, na região que hoje conhecemos como Sudão do Sul, 280 pessoas foram infectadas. O saldo final foi de 156 mortos.

Desde então, surtos esporádicos do ebola são comuns na África, mas nada comparado com o que testemunhamos hoje. O que explica a gravidade da situação é a precariedade do sistema de saúde dos países afetados, recém-saídos de guerras civis e castigados pela violência e pela pobreza. Para se ter ideia, a Libéria gasta US$ 18 per capita em seus sistema público de saúde. Serra Leoa US$ 13 e Guiné meros US$ 7. No Brasil, esse gasto é de US$ 466 dólares e nos EUA, quase US$ 4 mil.

Os cinco tipos

Ebola Zaire: o mais letal, já teve taxa de mortalidade de 90%. É o que mais faz vítimas hoje na África.

Ebola Sudão: um dos primeiros vírus a atingir o homem, mata cerca de metade dos infectados.

Ebola Bundibugyo: com 27% de mortalidade, surgiu em Uganda e se espalhou para o Congo.

Ebola Costa do Marfim: foi transmitido só para uma pesquisadora em 1994, sem causar sua morte.

Ebola Reston (Virginia, USA): o único que é transmitido pelo ar. Já matou centenas de macacos.

A tecnologia contra epidemias

A primeira declaração formal da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a atual epidemia de ebola foi divulgada em 23 de março. Nove dias antes, o site HealthMap já tinha identificado na região o surto de uma "misteriosa febre hemorrágica", e no dia 19 encontrou em sua base de dados menções ao ebola, lançando um alerta. O site, desenvolvido em 2006 por uma equipe do Boston Children's Hospital, é composto por algoritmos que vasculham milhares de sites, redes sociais, portais públicos e fóruns de infectologistas. As epidemias são categorizadas em cores diferentes, de acordo com sua intensidade, e é possível localizar as que estão mais próximas a você. Surtos como os de dengue e febre amarela podem ser vistos em nove línguas diferentes. (André Jorge)

Cobaias humanas

O médico norte-americano Kent Brantly foi infectado em julho na Libéria. Já com dificuldades para respirar, ele ligou para sua mulher para se despedir. Ante a morte, Brantly concordou em ser tratado com uma droga experimental chamada ZMapp, que até então só havia sido testada em macacos. Brantly estava infectado há nove dias quando tomou a droga. Após uma hora, já conseguia respirar bem e pouco depois voltou aos Estados Unidos, onde segue em recuperação. Apesar do resultado positivo no caso de Brantly, usar drogas ainda não aprovadas para uso humano é um risco restrito a poucas pessoas. O governo da Nigéria tentou, em vão, pedir lotes da ZMapp numa tentativa de controlar o surto, mas a ideia gerou uma enorme discussão no meio científico sobre o uso de drogas experimentais em humanos. A boa notícia é que, se o diagnóstico do ebola for rápido e o atendimento imediato, o corpo da vítima é capaz de desenvolver anticorpos para enfrentar o vírus. Os pacientes recebem fluídos de forma intravenosa para combater a desidratação e manter a pressão estável, analgésicos para as dores e antitérmicos para a febre, além de transfusões de sangue para repor as perdas em hemorragias e tratamento de infecções secundárias provocadas pelo vírus.

Perto da cura?

O pesquisador Thomas Geisbert crfia vacinas e medicamentos contra o ebola que funcionaram em macacos. Desafio é testá-los em seres humanos

P: Por que o vírus ebola é tão mortal?

Ainda não temos certeza absoluta. Sabemos que ele desarma ou reduz o nosso sistema de imunidade atingindo algumas das mais importantes células que são a primeira linha de defesa do corpo, como as células dendríticas. Fazendo isso, o vírus consegue crescer mais rápido e atingir outras partes do corpo.

P: Como você desenvolveu uma vacina que protege os macacos do vírus ebola?

Colocamos um pequeno fragmento do vírus no hospedeiros para que o sistema imunológico do corpo pense que está lidando com o verdadeiro ebola. O corpo do animal então desenvolve a habilidade de se defender contra o vírus porque foi ensinado a reconhecê-lo. Então usamos um vírus diferente que não atinge humanos como veículo de entrega, tiramos a glicoproteína dele e a substituímos pela glicoproteína do ebola e vacinamos alguns macacos com isso. Depois os colocamos em exposição ao ebola e todos sobreviveram.

P: Por que ainda não temos uma vacina contra o ebola para humanos?

Há vários motivos. Um dos principais é que o ebola é uma doença rara que só acontece em países de terceiro mundo. Diferentemente de desenvolver uma cura para o câncer, um remédio para doenças cardíacas ou até uma vacina para gripes, há poucos casos de ebola em uma escala global, então não há incentivos financeiros para a indústria farmacêutica desenvolver uma vacina.

P: Na mesma linha, por que ainda não existe medicação contra o ebola?

Temos três tratamentos capazes de proteger totalmente os macacos do ebola depois da exposição ao vírus. Mas a razão por que nenhum desses tratamentos foi licenciado é a mesma da vacina.



(texto publicado na revista Galileu nº 278 - setembro de 2014)









quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Não acreditavam que o ebola existia" - Paulo Reis, médico


O surto começou na Guiné, e as tradições locais dificultaram o esclarecimento da população, que ainda recorria a curandeiros. Nosso hospital e um de nossos carros foram atacados a pedradas

Cheguei à Guiné em março deste ano, três dias depois de o governo reconhecer a epidemia de ebola, antes de as pessoas se darem conta. O surto começou lá. Íamos de picape 4x4 por trilhas na mata para buscar as pessoas em vilas isoladas e informar sobre prevenção. Às vezes, o carro atolava e tínhamos de encontrar outro caminho. Tentávamos nos aproximar do líder da aldeia para explicar o trabalho. Havia muita desconfiança. Antes de o ebola chegar, não acreditavam que a doença existia. Achavam que mentíamos, mesmo ouvindo as notícias no rádio. Os curandeiros locais diziam: "Eu curo ebola". As tradições são muito fortes. Aí a gente precisava explicar que, infelizmente, muitos curandeiros morreram por causa do contato direto com doentes. Para facilitar a aproximação com os moradores, convidávamos os chefes locais a visitar nosso centro de tratamento. Em Uganda, onde já houve uma epidemia antes, a aceitação é muito mais rápida.

Voltei por um mês ao Rio de Janeiro, depois fui a duas missões em Serra Leoa. Lá, quando um paciente chegava a nosso centro de tratamento, havia uma triagem. Ele passava por um questionário para ver se era suspeito de ter ebola. Ficávamos separados fisicamente do paciente por um cerca dupla, a 2 metros dele. Se tivéssemos de carregá-lo, não tinha jeito, tínhamos de vestir a roupa toda e atendê-lo para fazer a admissão. Ele recebia toalha, roupa de cama e escova de dentes. A área dos casos suspeitos ficava separada da ala dos casos prováveis e da ala dos casos positivos. Colhíamos sangue. Só os profissionais mais experientes faziam esse trabalho, de risco. O resultado saía em três ou quatro horas, e só 20% dos que entravam não eram positivos.

Tínhamos 50 a 60 pacientes, em 12 tendas - e chegavam dez, 15 novos por dia. Os que sobreviviam ficavam de duas a três semanas internados. A maioria dos óbitos acontecia em quatro dias, em média. A partir do décimo dia, ou os sintomas melhoravam ou começavam a piorar - no segundo caso, o paciente dificilmente sobrevivia. Todo dia morria gente: num dia, um, dois; em outro, cinco... Muito paciente saía curado. Nossa taxa de cura era de 47%, enquanto, em termos gerais, a taxa de mortalidade é de 70%. Os sintomas do ebola são parecidos com os da malária. Diminuía muito a chance de sobrevivência de quem tinha malária também. Por via das dúvidas, todo paciente recebia tratamento de malária.

Em abril, tivemos de evacuar o centro de tratamento, porque um grupo de uma comunidade atacou a pedradas o hospital e um de nossos carros. Queriam queimar o material. Saímos corridos do hospital, num comboio de quatro carros, fugindo por uma trilha no mato. Diziam que estávamos lá para vender sangue, gordura, sabe-se lá o quê. Veio um pessoal de moto atrás da gente. Quando conseguimos nos desvencilhar deles, o pneu de um carro estourou... Escapamos e só voltamos para lá depois de contatar os militares e a polícia. Foi tenso.

Muita gente se contaminava em funerais, porque há a tradição de encostar muito, abraçar, beijar, e o momento da morte é o de maior transmissão. Passamos a fazer funerais seguros, em que a equipe dos Médicos Sem Fronteiras vai ao lugar e cuida do corpo, prepara tudo, com sacos mortuários duplos para evitar infecção. Um funcionário local nosso se contaminou e houve certo pânico. Por insegurança, muitos profissionais saíram. Não me senti mais inseguro lá do que em outros lugares onde já atuei, porque o protocolo e a proteção são muito rígidos. Ver tantas mortes é duro, mas me acostumei gradativamente. Claro, é uma situação tensa, de cansaço, preocupação. Os Médicos Sem Fronteiras têm uma estrutura de atendimento. Quem quiser pode conversar com psicólogos, tanto em trabalho de campo quanto  fora.

Há situações que sensibilizam. Recebemos uma menina, Isatta, de 1 ano e 9 meses. Ela chegou depois de uma viagem de seis horas numa ambulância cheia. Não tinha sintomas de ebola, mas o pai e a mãe estavam doentes. O pai morreu, a mãe morreu, a avó morreu, a família toda, e ela ficou no centro de tratamento, sozinha, doentinha. Pensamos: "Como faremos?". Pegamos uma caixa de gerador, de cerca de 1 metro quadrado, forramos como se fosse um berço, botamos uns brinquedos, e ela ficou lá. Passou a ser chamada de "o bebê da caixa". Todas as noites, uma médica trocava a fralda dela. Fizemos uma escala específica para cuidar dela. A menina melhorou e tentou "escapar" duas vezes. Saiu da caixa e correu para fora da cerca. Depois, começou a interagir com outras duas crianças, de 8 e 7 anos, que passaram a cuidar dela e a brincar juntas. Ela recebeu alta e vive com uma família de sobreviventes da epidemia. Ouvi dizer que um dos enfermeiros locais vai adotá-la.

Quando alguém tem alta, ganha um diploma assinado pelo governo e por nós, atestando que não oferece nenhum risco. Nossa equipe vai com eles até sua vila e, na frente de todos, damos parabéns. Fazemos questão de apertar a mão, para mostrar isso claramente. No começo era uma festa, a gente se emocionava, especialmente quando o paciente saía depois de três semanas - você já o conhece pelo nome. Depois muita gente teve alta, e isso passou a ser mais normal.

Ao voltar ao Brasil, passei pelo período de observação de 21 dias - período máximo de incubação -, com controle da temperatura duas vezes por dia, mas vida normal. Se não há sintomas, não há perigo nenhum de transmissão. Não acredito que existia risco de epidemia de ebola no Brasil. Pode haver casos isolados, importados de outros países. Mas não seria um problema de saúde pública, porque existe uma estrutura, e o governo tem um plano de ação.

No meu início nos Médicos sem Fronteiras, amigos diziam que eu era maluco, que amarrariam meu pé na cama para eu não ir, mas já se acostumaram. Eu vinha passando mais ou menos metade do ano em missões, agora reduzi. Já passei por situações de risco, mas não é comum. Não se pode entrar armado em nenhuma instalação do Médicos sem Fronteiras. Mesmo no Afeganistão, a polícia respeitava e deixava a metralhadora na entrada, no armário, e ganhava uma chave. Há momentos tensos, como quando houve tiroteio no local em que trabalhávamos na Somália. Em geral, temos uma relação boa com todos por nossa neutralidade.

A motivação desse trabalho são as pessoas. Você vê o impacto que sua ação pode ter, sente que faz algo útil. Mas não sou eu, é a equipe dos Médicos Sem Fronteiras, a ação organizada, estruturada. Às vezes o que fazemos significa salvar uma vida, outras dar uma condição de vida melhor, não deixar alguém ficar com sequelas, para que possa voltar a ganhar a vida. Nesta semana, volto para a Guiné e continuo meu trabalho.




(texto publicado na revista Época nº 858 - 10 de novembro de 2014)