A astrologia deveu sua prosperidade no período renascentista pelo menos em parte à Igreja e ao estímulo positivo que recebeu de diversos papas. Disse-se que uma das razões de Lutero para se opor tanto à astrologia foi o fato de ela se encontrar tão em moda no Vaticano.
Os primeiros papas a se dedicarem ativamente à astrologia foram Sisto IX e Júlio II. O sucesso de Júlio, Leão X, levou um grupo de astrólogos para a corte papal, a fim de aconselhá-lo durante o seu reinado. Paulo III (1438-1549), o primeiro papa da Contra-Reforma, usava astrólogos para determinar as horas para o seu consistório. Mesmo Urbano VIII (1568-1644), que emitiu uma bula contra alguns aspectos da astrologia, continuou como patrono de astrólogos isolados, que o auxiliavam nas suas intrigas políticas particulares.
O exemplo dado pelo papado foi seguido nas principais cortes da Europa. Na Inglaterra a Rainha Elizabeth I aconselhava-se diariamente com o extraordinário Dr. Dee, e Cristiano IV da Dinamarca, Sigismundo III da Suécia e Frederico da Boêmia também utilizavam astrólogos de corte.
Um médico francês, Nostradamus, tornou-se o profeta de sua era após predizer a morte, num torneio, do rei francês Henrique II, quatro anos antes de acontecer. A viúva do rei, Catarina de Médicis, levou-o para o seu círculo cortesão. Nostradamus, porém, era mais necromante do que astrólogo, e consta que conduziu uma sessão espírita com a rainha que durou o tempo de 45 noites consecutivas. Conseguiu finalmente conjurar um espírito que mostrou a ela o seu futuro. A rainha viu cada um de seus três filhos passar rapidamente por um espelho, uma vez para cada ano que reinariam. Depois seu enteado, o protestante Henrique de Navarra (futuro Henrique IV), passou ante seus olhos 23 vezes, muito chocada. Catarina imediatamente suspendeu a perturbadora experiência, não desejando mais repeti-la.
(texto publicado no livro O grande livro da astrologia - Derek e Julia Parker)
Invadir o Vaticano, sequestrar o papa Pio 12 e levá-lo para o norte. Foi por muito pouco que os nazistas não cumpriram essa missão.
O telefone acordou Karl Wolff bem cedo na manhã de 13 de setembro de 1943. Do outro lado da linha, o aviso de que Adolf Hitler queria vê-lo imediatamente. O general vestiu o uniforme com pressa e tomou o caminho que separava seu quarto do bunker do führer. Enquanto percorria os extensos corredores, imaginava o que estava por vir. Três dias antes, as tropas alemãs haviam entrado em Roma. Hitler tinha sede de vingança contra os italianos desde junho, quando eles depuseram seu aliado Benito Mussolini. Quando Wolff chegou ao bunker, o ditador foi direto:
"Tenho uma missão especial para você, Wolff", teria dito Hitler, conforme o depoimento de Karl Wolff anos depois. "Suas tropas devem ocupar o Vaticano o mais rápido possível, proteger seus bens e levar o papa e a cúria para o norte. Não quero o pontífice nas mãos dos Aliados. O Vaticano já é um ninho de espiões e um centro de propaganda anti-nazista. Arranje os detalhes mais importantes e dê notícias a cada duas semanas."
Comandante da SS na Itália, Karl Wolff saiu da sala decidido não a executar o plano de que Hitler lhe havia incumbido, mas a sabotá-lo. Essa é a tese do jornalista americano Dan Kurzman, especializado na 2ª Guerra Mundial e autor do livro Conspiração contra o Papa, recém-lançado no Brasil. Kurzman foi o primeiro jornalista a entrevistar o general Wolff logo depois de ele sair da prisão, em 1969. Baseado nessa e em outras entrevistas com embaixadores e generais nazistas, Kurzman tentou reconstituir os meses em que o führer quase invadiu o Vaticano. "O papa sempre soube que Hitler queria acabar com o cristianismo", diz Kurzman. "Mas o perigo se tornou real apenas no fim de 1943, quando o ditador italiano Benito Mussolini foi deposto. "Para Hitler, era preciso acabar com a dupla ameaça que o papa representava. Ele temia, por um lado, uma declaração pública de Pio 12 contra o massacra dos judeus, que poderia levar quase metade dos soldados, alemães católicos, a se voltarem contra o führer. Por outro, o ditador sabia que o papa era um forte líder espiritual - que poderia influenciar as almas.
Para o general Karl Wolff, porém, raptar o papa era loucura. A invasão do Vaticano poderia causar um levante da Itália e de todos os católicos do mundo contra a Alemanha. Incumbir-se dessa missão era ainda pior. Ocupando um cargo no alto escalão da SS, organização por trás do Holocausto, Wolff temia ter seu nome associado ao rapto e, possivelmente, ao assassinato de Pio 12. A única maneira de esse plano insano ser útil era sabotá-lo. Se a Alemanha perdesse a guerra, a bênção de sua Santidade poderia salvar a vida dele, que já tinha seu nome ligado à deportação e morte de milhões de judeus. Por isso, naquela manhã em que Hitler lhe passou a ordem, Wolff sabia exatamente com quem deveria falar.
Os sabotadores
A primeira atitude do general foi pedir ajuda aos colegas "anti-Hitler" de Roma. O primeiro a saber do projeto que deveria continuar em segredo foi Rudolf Rahn, o embaixador alemão na Itália. Os dois logo entraram em contato com Ernst von Weizsäcker, o embaixador alemão para o Vaticano. Todos concordavam que a invasão deveria ser cancelada. Mas, para isso, o próprio papa precisaria ajudar.
Em setembro de 1943, o Vaticano estava nas mãos dos nazistas. As saídas da sede da Igreja estavam frechadas pelo Exército alemão. No início do mês seguinte, Hitler ordenou a prisão dos judeus romanos. Os nazistas que tentavam salvar a vida de Pio 12 achavam que, se se prisões ocorressem, o papa não teria alternativa senão falar publicamente contra o massacre, provocando o próprio rapto. Por isso, para salvá-lo, era preciso mantê-lo quietinho.
A melhor forma de fazer isso era metendo medo no pontífice. Segundo Kurzman, o primeiro artifício que os nazistas da Itália usaram foi uma notícia sem muitos detalhes em uma rádio pirata fascista avisando sobre um suposto sequestro do papa. A mensagem pipocou em alguns jornais e chegou até Pio 12. No dia seguinte, o secretário dele chamou o embaixador Weizsäcker para uma audiência. Sua Santidade havia mordido a isca.
Anos depois, o diplomata escreveria que, assim que entrou no escritório do líder católico, a primeira coisa que notou foi seu olhar sereno. Quando tocou no assunto do sequestro, sua expressão não se alterou. "Ouvi rumores", teria dito Pio 12. "Mas permanecerei em Roma a qualquer custo." Weizsäcker, segundo instruções recebidas de Berlim, perguntou se ele faria um elogio público à boa conduta alemã. O papa teria garantido que sim, se os nazistas prometessem não tomar nenhuma atitude hostil contra o Vaticano. Em outras palavras, se o sequestro fosse cancelado, o papa confirmaria o "bom tratamento" alemão.
O embaixador deixou o Vaticano com a promessa de que entraria em contato com Berlim sobre a troca de favores. E o pontífice entendeu que a ameaça alemã era real e próxima - mas não passaria disso se ele honrasse seu voto de silêncio. Mas mandou esconder todos os arquivos pessoais e documentos do Vaticano sob pisos falsos. Membros da cúria prepararam as malas para acompanhar seu líder em caso de uma fuga de emergência. Ele precisaria dessas garantias para os próximos dias. O chefão da SS, Heinrich Himmler, já havia ordenado que os cerca de 8 mil judeus de Roma fossem presos em 16 de outubro de 1943.
O dilema
O bairro judeu de Roma ainda dormia quando a SS tomou as ruas naquele 16 de outubro de 1943. A chuva desabava enquanto 365 soldados da polícia alemã abriram portas aos chutes, gritando o nome dos procurados. Antes das 6 horas, homens, mulheres e crianças estavam enfileirados e jogados em caminhões, sob a chuva sem trégua. Ao fim, 1.256 dos 8 mil judeus de Roma foram presos e 1.002 foram deportados naquele dia. Uma semana depois, morreram em Auschwitz. Pio 12, como nunca se pronunciou publicamente sobre a prisão dos judeus, entraria para a história como "o papa de Hitler". Entre outros temores que o levaram a silenciar o massacre, estavam seu sequestro e a aniquilação do Vaticano. "Além dos mais, ninguém podia ter certeza de que o pronunciamento teria ajudado a salvar algum judeu", diz Antônio Marchionni, professor de teologia da PUC-SP. "O mais provável é que não somente ninguém fosse salvo como também as instituições católicas que abrigavam milhares de judeus fossem retaliadas."
Na época, esse também era o raciocínio da embaixada alemã no Vaticano. Em 1963, o embaixador alemão Albrecht von Kessel escreveu: "Estávamos convencidos de que um protesto do papa contra a perseguição dos judeus não terai salvado ninguém. Hitler reagiria com violência a qualquer ameaça que fosse enviada diretamente a ele". Existe ainda a possibilidade de que mais judeus fossem mortos se o papa se pronunciasse. Sabe-se hoje que, dos cerca de 8 mil judeus que restavam em Roma, entre 4 mil e 7 mil foram abrigados em 180 edifícios católicos, entre igrejas, monastérios, instituições de assistência e também no próprio Vaticano.
No entanto, o dever moral de lutar contra o assassinato de milhares colocava o líder da Igreja em um dilema. "Pelo lado prático, o papa Pio 12 sabia que seu pronunciamento não apenas não barraria o assassínio dos judeus mas somaria ao Holocausto o ataque aos católicos e o provável fim da instituição que defendia", afirma o jornalista Dan Kurzman. "Na verdade, Pio 12 não tinha escolha. Olhando pelo lado moral, porém, ele tinha a obrigação de se colocar contra o massacre."
De um lado, atemorizado pelas próprias inseguranças, de outro, pela chantagem alemã, Pio 12 permaneceu mudo. Duas semanas depois daquele sangrento 16 de outubro, o papa cumpriu sua promessa ao embaixador alemão. Publicou no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, um comunicado expressando sua gratidão às tropas alemãs por terem respeitado a Igreja. O artifício do embaixador Weinsäcker havia funcionado. Mas o papa ainda teria que passar por cima de seus interesses mais uma vez até o fim da guerra para garantir sua segurança.
O encontro final
Em março de 1944, o Exército russo chegou a Roma. Uma bomba dos comunistas atingiu o exército alemão que marchava pela Via Rasella, em Roma. Os estilhaços mataram 32 soldados alemães. As ordens do führer foram expressas: para cada morto, 10 italianos deveriam ser sumariamente executados. Weizsäcker e Wolff haviam conseguido silenciar o papa durante a prisão dos judeus. Mas ele permaneceria calado frente a um massacre italiano? O plano do rapto, que estava dormente, voltou a assombrar a embaixada alemã.
Wolff havia chegado à cidade na noite do massacre com ordens expressas para levar a cabo a deportação dos romanos. E, diante desses fatos, tinha certeza, o papa não continuaria impassível. O único modo de evitar uma tragédia no Vaticano - e salvar o futuro de Wolff - era conversar pessoalmente com o pontífice.Como apenas o embaixador Weinzsäcker estava autorizad a entrar no Estado da Igreja, a reunião teve que ser secreta. O encontro clandestino entre o líder da Igreja e o comandante da SS na Itália aconteceu no dia 10 de maio de 1944.
O general Karl Wolff reservou ao papa a mesma deferência que tinha para Adolf Hitler. Recebeu seus protestos em silêncio e garantiu que faria o possível para impedir prisões e deportações, acalmando os ânimos do führer. No entanto, ainda temendo seu sequestro, o pontífice deixou claro que não sairia do Vaticano de jeito nenhum, nem deixaria de lutar pelos princípios cristãos de sua Igreja. Wolff assegurou com veemência que tentaria cancelar qualquer projeto de sequestro ou sabotagem de Roma. Acreditando no compromisso do general, o líder da Igreja Católica deu sua bênção ao amigo íntimo de Heinrich Himmler, e um dos executores do Holocausto. Wolff se despediu juntando os joelhos e erguendo o braço - o cumprimento nazista. Pouco mais de um mês depois do encontro, as tropas americanas entraram em Roma, expulsando os nazistas. A missão secreta de Karl Wolff nunca chegou a ser cumprida. Pio 12 deixou o Vaticano apenas em 1958, quando morreu.
Karl Wolff
Depois de evitar o sequestro do papa Pio 12, Wolff foi um dos principais negociadores da Operação Sunrise, que articulou a rendição completa dos nazistas que ocupavam a Itália. Preso pelos aliados em 1945, foi condenado a 5 anos de prisão em 1947 acusado de ser membro da SS. Em 1962, foi condenado mais uma vez, por ter contribuído para mandar 300 mil judeus para o campo de Treblinka. Em 1969, foi posto em liberdade por causa de problemas de saúde. Morreu em 1984.
Ernst von Weizsäcker
Preso em 1947, foi condenado a 5 anos de prisão, morrendo em 1951. Sua condenação ocorreu sob protestos - alguns políticos, entre eles Winston Churchill, eram contrários à prisão de Weizsäcker porque ele teria trabalhado contra a vontade de Hitler. Seu filho Richard von Weizsäcker foi chanceler da Alemanha entre 1984 e 1994.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 225 - agosto de 2008)
Pontífice afirmou que tem sensação de que ficará no cargo por 4 ou 5 anos. Ele descartou a imposição de um limite de tempo para o papado. O Papa Francisco confessou que tem a impressão de que seu pontificado será breve, de quatro ou cinco anos, e que não se sente sozinho e sem apoio para governar a Igreja. Em uma longa entrevista exclusiva com a correspondente da televisão mexicana Televisa, Valentina Alazraki, por ocasião de seu segundo ano de pontificado, o santo padre falou sobre sua eleição, dos escândalos, de seus limites como pessoa, de sua visão do papado, do México, da imigração e até brincou sobre o "ego" enorme dos argentinos. "Tenho a sensação de que meu pontificado será breve. Quatro ou cinco anos. Não sei, ou dois, ou três. Pelo menos dois já passaram. É como uma sensação vaga. É como a psicologia de quem joga e acredita que vai perder para não se desiludir (...) Tenho a sensação de que o Senhor me colocou aqui para uma missão breve", confessou. Francisco, de 78 anos, descarta um limite de idade ao pontificado já que considera que "o papado tem algo de última instância", e que não deve ter um término fixado. Questionado sobre se gosta de ser Papa, Francisco respondeu com resignação: "Não me desagrada!" Francisco também surpreendeu com uma brincadeira sobre o ego dos argentinos e confessou que não gosta muito de viajar, que é muito apegado a seus hábitos e voltou a criticar a Cúria Romana, a poderosa máquina central da Igreja, alvo há anos de intrigas e escândalos financeiros. "Esta é a última corte que resta na Europa. As demais cortes se democratizaram, incluindo as mais clássicas, assegurou ao reiterar que se propõe a mudá-la". O Papa afirmou que "não se sente sozinho" e aproveitou para acabar com a polêmica com o governo do México provocadas por um e-mail privado a um amigo onde pedia que evitasse a mexicanização da Argentina à respeito da violência do narcotráfico. "Evidentemente que é uma expressão. Não tem nada a ver com a dignidade do México. Como quando falamos da balcanização, nem sérvios, nem macedônios, nem croatas se sentem ofendidos", explicou. Segundo ele, o narcotráfico que mantém o México em uma espiral de violência é responsabilidade de todos e culpar apenas o governo "é a resposta mais simplista". Ao fazer uma reflexão sobre as sangrentas repercussões do tráfico de drogas no México o Papa se perguntou: "Quem tem a culpa?", uma pergunta que, sugeriu, a maioria das pessoas responde apontando o governo. "Sempre os governos têm a culpa de tudo, mas essa é a resposta mais superficial (...) todos temos de alguma maneira a culpa (...) sei que é difícil denunciar um narcotraficante, mas todos devemos disponibilizar o ombro" para carregar a responsabilidade compartilhada, disse o Papa, que na quinta-feira completou dois anos de pontificado. Também anunciou que visitará o México em uma data que ainda será determinada. Em referência ao caso dos 43 estudantes desaparecidos e provavelmente massacrados depois de terem sido baleados por policiais corruptos e criminosos no dia 26 de setembro em Iguala (Guerrero, sul), o Papa disse que a indiferença ante a violência derivada do narcotráfico torna todos responsáveis. O breve episódio de tensão do Papa com o México aconteceu em fevereiro, quando um legislador de Buenos Aires amigo de Francisco divulgou um e-mail no qual o pontífice falava de "evitar a mexicanização" da Argentina, em referência à violência do narcotráfico. O governo mexicano considerou que estes comentários podiam estigmatizar o país, mas o caso se dissipou rapidamente com uma troca de notas diplomáticas. Francisco reafirmou na entrevista de quinta-feira que tudo está em paz entre o Vaticano e o governo do México, o segundo país com mais católicos do mundo, atrás apenas do Brasil. "Isso não fechou as portas do México para mim, vou ao México", declarou o primeiro Papa latino-americano da história sem dizer quando a visita será realizada.
Michelangelo é o símbolo da mudança no Renascimento, pela qual o antigo artesão da Idade Média se torna artista, com controle total sobre a obra
Você certamente já viu algumas imagens que fazem parte do teto da Capela Sistina. O dedo de Deus apontado para o dedo de Adão é uma das figuras mais reproduzidas, homenageadas e parodiadas da humanidade (lembra do poster do filme E.T.?). AS cenas do Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, o Dilúvio Universal e tantas outras, saíram da parede para os livros, como ilustração do Velho Testamento. Ver esses afrescos é um privilégio que, infelizmente, acontece sempre em meio a uma turba de turistas, com o pescoço esticado - e a ameaça de um torcicolo. Para quem não pode ir a Itália, a mostra Esplendores do Vaticano, que vai até dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, apresenta uma reprodução da Capela Sistina.
Este ano, o mundo comemora os 500 anos da inauguração dos afrescos, em 1º de novembro de 1512. Dia de Todos os Santos, pelo papa Júlio 2º, após 4 anos de trabalho. "Nenhuma outra obra se compara a essa em excelência, nem hoje nem nunca", comentou o biógrafo Giorgio Vasari, contemporâneo de Michelangelo (1475-1564). "O teto é um farol para a nossa arte, de benefício inestimável para todos os pintores. Ele restabelece a luz num mundo que durante séculos esteve mergulhado em trevas."
Vasari foi o primeiro a chamar sua época de Renascença. E o que renascia eram a arte e o pensamento da Antiguidade. Quando Michelangelo terminou a pintura do teto da capela, já fazia pelo menos um século que esse resgate havia se iniciado na Itália, ou melhor, nas cidades-estado do norte e centro da península.
Os precursores da Renascença foram poetas e prosadores como Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375), pintores como Giotto (1266-1336) e Masaccio (1401-1428). Entre os contemporâneos, Leonardo da Vinci (1452-1619) e Rafael (1483-1520). A chave para entender esse movimento está nas profundas transformações econômicas conduzidas naqueles séculos por uma nova classe social urbana em ascensão - a burguesia mercantil. A Itália tinha a imensa vantagem de estar situada no coração da maior área de comércio do mundo, a bacia mediterrânea. Cidades costeiras como Gênova e Veneza tiveram a oportunidade de enriquecer de maneira fantástica devido ao comércio com o Oriente.
Graças a esse contato e à valorização de suas atividades, seus mercadores e banqueiros adquiriram uma nova visão do mundo, baseada na valorização da realidade material, em contraste com a religiosidade profunda da Idade Média. As artes reproduziam essa mudança de pensamento. Nas pinturas típicas do século 13, por exemplo, as figuras humanas eram planas e irreais. O tamanho de uma figura não refletia a perspectiva,mas sua importância no quadro. Dois séculos depois, os artistas faziam desenhos ultrarrealistas, criando a ilusão de profundidade num quadro plano. Tão realistas que, para aprender a configuração correta de músculos e veias, era comum que artistas dissecassem cadáveres, aprendendo anatomia. A riqueza permitiu que a burguesia em ascensão investisse pesadamente nas artes. Como resultado, já no século 14, surgia uma nova e numerosa classe de assalariados, que trabalhavam juntos nas primeiras oficinas, ou separados, cada qual em sua casa, recebendo os patrões matérias-primas e ferramentas e entregando-lhes o produto acabado mediante pagamento. Era uma mudança e tanto na vida europeia, com a lenta decadência das fechadas e hierarquizadas corporações de artesãos, as guildas, que monopolizavam a produção na Idade Média.
Mas, no começo, a mudança era limitada. O artista ainda não tinha completa autonomia e a melhor arte produzida no Renascimento era realizada sob encomenda dos mecenas, pertencentes às famílias ricas que exigiam sua execução conforme especificações e determinavam como deveria ser usada. Muitos eram mal pagos e, como qualquer outro provedor de serviços, deviam obedecer às instruções e entregar a mercadoria encomendada. Essa situação só veio a mudar no século 16, quando profissionais, como o próprio Michelangelo e Rafael, passaram a fazer parte de um grupo de elite, com liberdade para recusar encomendas e estipular as condições de trabalho.
Durante boa parte de sua vida, porém, Michelangelo enfrentou as mesmas vissicitudes dos outros artistas. Disso surgiram as famosas desavenças com o papa Júlio 2º, retratadas no filme Agonia e Èxtase (1965), que trata do projeto de pintura da Capela Sistina e leva o espectador ao mundo das cidades italianas do Renascimento. O enredo, baseado no livro do mesmo nome de Irving Stone, recorre a uma vasta pesquisa, usando as cartas de Michelangelo e a biografia do artista, escrita por Vasari em 1550 e ampliada em 1568, para ilustrar o embate entre dois temperamentos difíceis. De um lado, um artista atormentado, que se acreditava dotado de inspiração divina, e de outro um papa guerreiro e irascível. A biografia e as cartas mostram também o relacionamento difícil de Michelangelo com o pai, Ludovico, um magistrado apagado e de pouco tino para negócios, que tentou dissuadir o filho da ideia de tornar-se escultor, aos 13 anos.
Nascido em Caprese, na zona rural, em 6 de março de 1475, Michelangelo teve a sorte de ter se mudado com a família para Florença, a mais rica das cidades-estado italianas, dominada desde 1469 por Lorenzo de Medici, o Magnífico. Em 1489, Lorenzo descobriu o jovem aprendiz, cujo talento como escultor já começava a aparecer, e o convenceu a morar no palácio, onde havia fundado uma oficina para artistas. Pouco mais que um garoto, Michelangelo teve então a oportunidade de conviver com os filhos do poderoso Medici, estudando com os melhores professores particulares da Itália.
Foi no período de aprendizado no palácio que o artista realizou as duas primeiras obras que sobreviveram até os nossos dias. São os baixos-relevos Madona da Escada e Batalha dos Centauros. Nelas já se pode encontrar pistas do que Michelangelo posteriormente faria na Capela Sistina. Primeiro a preocupação com cada detalhe do corpo: veias, músculos, ossos, que sobressaem na variedade de posições.
As formas traduzem sensações como medo, preocupação, desespero e sofrimento, refletidas também nas imagens de santos e pecadores. "Michelangelo sai da imitação seletiva dos modelos antigos e cria uma nova interpretação da vida", diz Luciano Migliaccio, professor de História da Arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Essa ideia é muito repisada por Vasari, e segundo Migliaccio, instruída pelo próprio biografado. "Michelangelo queria construir a imagem de um gênio, sabia que disso dependia o seu status como artista", explica. "Ele quer deixar registrado que, mais do que seguir as regras antigas, possui uma marca própria, individual, uma espécie de liberdade que estaria na raiz da superação dos artistas anteriores."
Apesar disso, nesses primeiros tempos, o escultor não conseguia sobreviver de sua arte. Após a morte de Lorenzo, passou necessidade sem o protetor e com o caos que se seguiu em Florença. E para se manter ocupado e ganhar algum dinheiro, participou de um embuste. Fez uma estátua simulando uma antiguidade romana envelhecida artificialmente e enviou para Roma, onde, de mão em mão, acabou na posse de um cardeal. Grande colecionador, o religioso não engoliu a alegada antiguidade da obra, mas pagou o preço pedido em troca do nome do autor. Assim, Michelangelo foi convocado a Roma pela primeira vez.
Ali começou a trabalhar em um tema 100% cristão - a Pietà, que está na Basílica de São Pedro, no Vaticano, atrás de sólidos vidros que a protegem de atentados como o que quase a destruiu em 1972. A obra ainda hoje é considerada pelos especialistas a escultura de mármore mais refinada desde a queda de Roma, mil anos antes. Mostra uma Maria jovem demais para ser a mãe de um filho morto, aos 33 anos, como um sinal de beleza eterna da Virgem. Foi a consagração do autor.
Michelangelo voltou para Florença, convocado para realizar a obra que simbolizaria a cidade. O tema escolhido foi o personagem bíblico Davi, retratado no exato momento em que decide combater Golias, em uma estátua com mais de 4 m de altura. Exposta ao ar livre para que todos pudessem admirá-la, hoje encontra-se na Galleria dell'Accademia, enquanto a praça em frente exibe uma réplica do mesmo tamanho.
A fama recém-conquistada chegou aos ouvidos do novo papa, Júlio 2º, apelidado de Terrível. Michelangelo foi convocado em 1508 para se estabelecer em Roma. O pontífice tinha a intenção de recuperar para a cidade a glória da antiga capital do Império Romano e isso incluía ser enterrado em um mausoléu que ofuscasse o de todos os papas anteriores. Para isso, queria a participação do maior escultor do mundo, e Michelangelo começou a trabalhar dali a alguns meses. Duas esculturas do túmulo, Moisés e Os Escravos, só foram concluídas em 1513, após a morte do papa. Conta Vasari que, depois de terminar Moisés, Michelangelo teria batido no joelho da escultura e exclamado: parla! ("Fala!").
No meio do trabalho do mausoléu, veio a contraordem: o papa decidiu que ele deveria pintar o teto da sua capela privada e sede do conclave, onde até hoje o Colégio de Cardeais reúne-se para eleger o papa. Durante toda a sua vida, Michelangelo definiu-se como um escultor, considerando a pintura uma arte menor. Mas não havia como dizer não ao papa. Assim, de 1508 a 1512, entregou-se à pintura. Durante toda a obra, Michelangelo dispensou a ajuda de assistentes, trabalhando de pé, com a cabeça virada para cima. Comia enquanto pintava. À noite desenhava os cartões com as figuras que seriam transferidas para o teto na manhã seguinte. Colocou tapumes que escondiam todo o trabalho, que nem mesmo o papa poderia acompanhar.
Em sua biografia, Vasari relata que, quando Júlio 2º, impaciente, o interrogava para saber quando a obra ficaria pronta, respondia: "Quando eu acabar!" Numa das vezes, o papa furioso bateu-lhe com o cajado nas costas e ameaçou jogá-lo dos andaimes. Em várias ocasiões, atrasou o pagamento. Mas valeu a pena. Na abóbada de cerca de 1 000 m2, a 20 m de altura, há aproximadamente 300 figuras, representando 3 episódios do Gênesis, além de profetas, sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e cenas da história do povo de Israel.
No total, Júlio 2º pagou 3 mil ducados pelo trabalho. Feitas as contas, segundo o livro A Arte Secreta de Michelangelo, dos pesquisadores Gilson Barreto e Marcelo de Oliveira, em valores atuais corresponderia a cerca de 620 mil dólares. Significava que Michelangelo, a partir dali, era um homem rico. Mesmo assim, continuou a trabalhar até morrer, aos 89 anos, deixando obras fantásticas que marcaram para sempre a história da arte, entre elas O Juízo Final, encomenda do papa Clemente 7º, na parede frontal da Capela Sistina. Para ele, o mais importante era ser reconhecido pelo seu gênio artístico autônomo, ideia que viria a se firmar nos séculos posteriores.
(texto publicado na revista Aventuras na História nº 112 - novembro de 2012)
A Igreja Católica considera São Pedro - Simão Pedro, um dos 12 apóstolos de Jesus - o primeiro papa da história. Ele teria assumido a função de líder do cristianismo logo após a morte de Jesus, ainda no século 1. "Certamente naquele tempo não havia articulação entre todas as comunidades cristãs. Mas em um número expressivo delas surgia a liderança de Pedro como chefe dos 12 apóstolos. A Igreja Católica reconhece nessa proeminência inicial algo desejado por Jesus. Assim como os apóstolos tiveram sucessores, Pedro os teve. Por isso o papa é considerado o sucessor dele", afirma o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mas a questão não é tão simples assim. "Quando se pergunta pela origem do papa, é preciso refletir: está se pensando numa autoridade política, além de religiosa? Se assim for, teríamos de localizá-la no século 5, onde se destaca a figura de Leão Magno, que teve papel fundamental no contexto da queda do Império Romano", diz Pedro Lima. Também é importante lembrar que a palavra "papa" - que vem do grego pappas, "pai" - foi durante vários séculos usada para designar todos os bispos do Ocidente. Apenas no ano 1073, por ordem do papa Gregório VII, ela se tornou de uso exclusivo para o bispo de Roma, autoridade máxima da Igreja Católica. A única exceção é o patriarca de Alexandria, autoridade da Igreja Ortodoxa Grega, que também mantém o título até hoje.
(texto publicado na revista Mundo Estranho de abril de 2003)
1) Antes de se formar em Filosofia e Teologia, Jorge Mario Bergoglio fez graduação e mestrado em química.
2) Enquanto bispo de Buenos Aires, o Papa Francisco tinha o costume de andar de ônibus e metrô pela cidade.
3) Apesar de ser conservador em temas como aborto e união entre pessoas do mesmo sexo, ele já falou em tolerar o uso de contraceptivos como método para evitar doenças.
4) Ele já teve uma namorada na adolescência e dizia que queria se casar com ela.
5) O Papa Francisco é fã de futebol. Ele é torcedor do San Lorenzo e afirmou não ter perdido nenhum jogo do campeonato argentino de 1946, quando o time foi campeão. Na época, o Papa tinha apenas 10 anos.
6) O pai do Papa Francisco se interessava por outro esporte: o basquete.
7) No último dia 19 de maio, a TV2000 da Conferência Episcopal Italiana afirmou que o Papa Francisco havia feito um exorcismo, em plena Praça de São Pedro. Nas imagens é possível ver o Papa se aproximando do jovem, colocando a mão sobre a cabeça do menino e rezando. O porta-voz do Vaticano negou o exorcismo, disse que o Papa apenas rezou por uma pessoa doente que foi apresentada a ele. A TV se desculpou.
8) Apesar das desavenças, o primeiro encontro com líderes de Estado realizado pelo Papa Francisco foi com a presidente argentina Cristina Kirchner. Eles almoçaram juntos e o Papa disse que considerava o encontro "informal" e um gesto de "cortesia e afeto".
9) O Papa Francisco considera o bispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes, um grande amigo. Ele disse que o brasileiro o "confortava" durante o conclave. Quando foi eleito, dom Cláudio Hummes foi o primeiro a abraçá-lo e teria dito "não se esqueça dos pobres". A frase do bispo emérito foi uma das inspirações para a escolha do nome do Papa.
10) O Papa Francisco tem apenas um pulmão. O outro foi removido após uma infecção ainda na juventude.
11) O Papa já criticou padres que se recusaram a batizar bebês de mães solteiras.
12) Em 2001, foi até um hospital e lavou os pés de pacientes portadores do vírus da aids.
13) O Papa Francisco tem diversos livros publicados. Entre eles: "Diálogos entre João Paulo II e Fidel Castro", "Corrupção e Pecado" e "Desafios para Educadores Cristãos".
14) O Papa Francisco não teve um papel protagonista de combate à ditadura argentina - uma das mais sangrentas da América Latina - como tiveram outros religiosos. Um jornalista chegou a acusá-lo de ter colaborado com militares em um episódio. Os defensores do Papa garantem que a atuação dele na defesa dos direitos humanos e civis durante a ditadura se deu nos bastidores. Foi negada qualquer relação do Papa com os militares.
15) Quando nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II, o Papa Francisco teria pedido aos fiéis argentinos que não fossem até o Vaticano para a cerimônia. Ele teria dito que o dinheiro da viagem deveria ser dado aos pobres.
16) Logo após ser eleito Papa, Francisco recusou um veículo oficial destinado ao bispo de Roma e preferiu andar de ônibus lado a lado com outros cardeais.
(texto publicado na revista Saiba Mais nº 1 - ano 1 - Papa Francisco no Brasil)