Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de março de 2017

domingo, 25 de dezembro de 2016

Jesus está disfarçado em sua casa - Pe. Léo


Amor e sabor - Walcyr Carrasco



O convidado conhecia a alta culinária de Madri e Paris. Mesmo assim, repetiu três vezes minha canjica com amendoim

Comfort food. Não gosto muito de títulos em inglês. Mas, como os americanos gostam de dar rótulos para tudo, vai lá. A melhor tradução para comfort food seria “comidinha da mamãe” ou algo assim. Em um mundo onde o sal do Himalaia virou moda e às vezes a gente mastiga algo inexplicável num restaurante, surgiu um espaço, há anos, para a comida que aquece o coração. A culinária que remete à infância, às emoções caseiras. Faz tempo, eu estava lendo um livro de culinária de uma crítica americana (sim, todo guloso não só come, como também lê receitas! Pior: dizem que ler receita engorda. Mas isso é outra história). De A a Z, a cada letra, ela fazia uma pequena crônica e dava a receita do prato relacionado com aquela memória. A tantas, descrevia como era bom levar sanduíche de ovo frito para a escola quando criança. Levava no bolso de trás e no recreio comia o sanduíche amassadinho. Também sou fã de sanduíche de ovo frito. Igualmente, levava para a escola quando criança.

Lembro do caderno de receita que minha mãe mantinha. Esse caderno sumiu depois de seu falecimento. Que pena. Mas comprei um bom substituto: o livro Dona Benta. Somente um livro como Dona Benta tem aquelas receitas antigas, misturadas, de estrogonofe a manjar. Há alguns anos, o presidente de um grande banco vinha jantar em casa pela primeira vez. É um homem que frequenta presidentes, ministros, vai para Nova York como eu vou para a esquina. Deu aquele desespero. O que servir? Então pensei na história de vida dele. Na ascensão profissional árdua, vindo do interior de São Paulo. Não tive dúvidas. Fiz um prato tradicional, camarão na moranga. E, de sobremesa, manjar branco com vinho tinto. Uma receita da minha avó e de minha mãe. Em vez de usar ameixas na calda, vinho tinto com canela. Quando viu o manjar, os olhos dele arregalaram.

– Eu só comi esse manjar quando era criança.

– Sirva-se – disse eu vitorioso.

Foi um pedaço. Depois dois. Quando chegou ao quarto, propus:

– Você não quer levar para casa?

– Oh, não, não. Bem...

Chamei minha funcionária.

– Traz um Tupperware!

Pronto. Lá se foi o manjar, embalado nessas vasilhinhas práticas. O jantar, que deveria ser algo formal, terminou nessa confraternização caseira e deliciosa. Gostou? Leva para casa!

A culinária afetiva simplesmente emociona. A loucura por regimes e por manter um corpinho definido desvincula as pessoas dessa culinária em que amor se mescla com sabor. Tenho vários amigos que só comem frango, querem ter barriguinha de tanque. Eu seria muito infeliz se vivesse à base de frango! Mas também me sentiria solitário. O feijão da mamãe faz falta para todos nós, em algum momento da vida. Ou a sopa quando se fica gripado.

De alguns anos para cá, pessoas criativas perceberam esse nicho de mercado. Surgiram as cadeias que vendem bolos comuns, tipo os da vovó, a preços acessíveis. Há quem faça pudins. A venda de brigadeiros explodiu. Existe doce que mais remeta à infância que brigadeiro? Como boa parte das mães hoje em dia trabalha fora, elas encontraram, nos doces de seu passado, algo para oferecer aos filhos. Mais tarde eles se lembrarão do “ bolo da mamãe”. Embora tenha sido comprado. O que vale é a intenção.

A comida afetiva é sempre uma certeza de sucesso ao receber alguém. Há algum tempo fiz um jantar para um diretor de cinema espanhol. Outra vez, o terror. O que servir? Tomei a decisão:

– Canjica com amendoim.

Acharam doidice. Uma coisa tão simples? Para alguém que conhece a alta culinária de Madri e Paris?

Botei na mesa. Quando experimentou a primeira colherada, os olhos da mesa se cravaram nele. Fez uma expressão de surpresa. A mistura de sabores da canjica com amendoim lhe pareceu absolutamente exótica. Foram três pratos. E não mandou ver o quarto porque ficou constrangido, achou que podia parecer guloso. Eu só expliquei.

– Quis fazer um prato que comia quando criança.

Muitas vezes, com tantas falsas sofisticações, botamos num pedestal qualquer picareta estrangeiro (existem bons chefs vindos do exterior vivendo aqui. Só critico a tendência a endeusar qualquer um que tenha sobrenome estrangeiro). Ou um modismo culinário. Mas não respeitamos aquilo que está em nossa memória. A comida de nossas mães e avós. Já estou decidido. A próxima pessoa importante que for jantar em casa receberá um prato de arroz com dois ovos fritos. Gema molinha. É capaz de o convidado chorar de emoção. Quem não gosta de ovo frito?



(texto publicado na revista Época edição nº 960 - 7 de novembro de 2016)

domingo, 18 de dezembro de 2016

Sobre noras - Danuza Leão

´
Muito já se falou sobre as relações entre sogras e noras, que continuam, aliás, tão difíceis quanto sempre foram. Como uma mãe pode ser feliz se alguém arrancou de sua vida a pessoa que ela mais ama? E às vezes, em momentos de puro delírio, esse alguém pensa até que seu filho gosta mais dela do que de você? Ah, são amores diferentes? Pois, na cabeça de uma mãe, amor é amor e pronto. Afinal, a quem ele corre agora para dizer que fechou um negócio maravilhoso? Ou que vai trocar de carro? Que está com febre? Com quem ele planeja viagens? Com quem tem filhos? É com você ou com ela? Vai dizer que não dói? Dói, sim, e muito.

Há quem diga que é falta de maturidade, muito espírito de competição, mais uma porção de bobagens, mas eu não conheço mãe que não queria ter os filhos só para ela - e, se alguma diz que eles foram criados para o mundo, saiba que se trata de uma mentirosa, falsa ou anormal.

Os filhos têm que ser só nossos, é evidente. Seja sincera: dá para suportar seu filho se apaixonar por aquela gata e chamá-la de "meu amor" na sua frente, sem cerimônia? Claro que não. Mas a vida não é o que se quer e, já que é preciso aceitar a realidade, aqui vão alguns mandamentos para as mães não deixarem que essas relações acabem com chacina.

1. Esteja sempre à disposição.

2. Tome conte das crianças quando for preciso, em fins de semana ou férias, para que eles possam curtir sozinhos uma nova lua de mel.

3. Jamais chegue para uma visita sem avisar e nunca aceite o convite para passar o feriado na casa de praia- até porque nem sempre é sincero.

4. Não telefone. Nos aniversários, no Natal e em outras datas, use o e-mail. E, se quebrar a perna ou tiver um infarto, peça ao porteiro ou a alguma vizinha que providencie uma ambulância. Não incomode, jamais, a não ser que esteja correndo sério risco de vida.

5. De vez em quando, abra aquela gaveta e dê um anelzinho ou uma pulseirinha - nada muito importante - para ela, a nora, só para disfarçar o que verdadeiramente sente.

6. Nunca dê palpite. Não pergunte, não se meta, não diga que cor de parede prefere, nem ouse uma só palavra sobre a educação das crianças. Seja neutra, aliás, seja NA-DA. Só assim sua existência será aceita (para não dizer tolerada).

Sempre pensando na paz familiar, o conselho para a querida nora é simples: quando estiverem todos reunidos, o que deve acontecer raramente, o casal precisa se sentar bem longe um do outro e nunca trocar uma só palavra. Dizer que estão infelizes não pode e, felizes, menos ainda. Contar como se divertiram na véspera, que estão pretendendo trocar de apartamento, de carro ou de sofá, nem pensar. Gestos de carinho... bem, disso nem é preciso falar. E a suprema gentileza: que ela, a nora, nem olhe na direção dele. A única coisa que pode apaziguar o coração de uma mãe é pensar que a lua de mel já acabou.

E, agora, o conselho mais importante às mães: não conte a ninguém, jamais, sobre seus sentimentos em relação às suas noras nem o quanto elas são responsáveis por seu sofrimento. Vão dizer que você é louca - com razão. Porque, quando se trata dos filhos, as mães são todas loucas.



(texto publicado na revista Claudia nº 7 - ano 54 - julho de 2015)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Como administrar o uso do celular: trabalho, família, trânsito - Júlio Machado


Daniel Goleman, psicólogo, autor do livro Inteligência emocional,publicou na sua mais recente obra -Foco- severas advertências sobre esse momento humano-tecnológico que estamos atravessando, onde a falta de atenção tornou-se um dos maiores efeitos colaterais do uso descontrolado das ferramentas digitais. A quantidade enorme de convites para dispersão, através do WhatsApp, Facebook, e-mails, internet, twitter etc , somada à falta de gerenciamento do tempo e da disciplina para lidar com esses apelos digitais, tem comprometido muito a produtividade no trabalho e a segurança no trânsito, além de prejudicar seriamente os relacionamentos interpessoais.

Estudos tem comprovado que as interrupções em excesso podem diminuir em até 30% a capacidade de realização de atividades, o que faz com que o trabalho final deixe a desejar. Outra questão preocupante é a falta de consciência e a inconsequência dos motoristas que dirigem falando ao celular ou respondendo a mensagens, sem atentar para o fato de que estão assumindo o risco de matar. Hoje, esta conduta está sendo equiparada a dirigir alcoolizado.

A maioria das empresas que estão se preocupando com essas questões, não gostaria de fazer uso de ferramentas legais de caráter coercitivo para, por exemplo, proibir o uso do celular. Preferem, em vez disso, tentar educar e conscientizar, para que o bom senso dos colaboradores seja aplicado no dia a dia. Porém, esta tarefa não é nada fácil, principalmente nas empresas onde a maioria dos colaboradores tenha nascido depois dos anos 90.

Precisamos admitir que somos todos novatos no uso de algo em nossos bolsos que nos chama o tempo inteiro. Estamos aprendendo continuamente e, como tudo na vida, podemos fazer escolhas quanto à maneira como queremos usar o que o mundo nos proporciona. Importa termos a consciência de que estas escolhas ferarão consequências com que teremos que conviver no futuro. 

Propomos, através dessa palestra, uma sensibilização educativa, utilizando vídeos e relatos de casos, no sentido de buscarmos um posicionamento mais maduro e responsável para o uso dessas novas tecnologias na família, no trânsito e no ambiente de trabalho. Além de propormos algumas dicas para o uso seguro e ético dessas ferramentas, iniciaremos com o grupo a construção de um pequeno código de conduta a partir das experiências de cada um.

sábado, 4 de junho de 2016

Cortando o cordão umbilical: Os problemas de sua família não são seus - Thais Lopes Trajano (Fãs da Psicanálise)


A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.

Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais.

Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação.

Veja alguns que estão recentes em minha mente.

1. Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;

2. Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;

3. Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;

4. Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;

5. Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles;

Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.

Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.

Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.

Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado).

A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto.Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário.

O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares.

Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar.

domingo, 17 de maio de 2015

Sem comunicação, a família acaba - Cardeal Odilo Pedro Scherer



No domingo, dia 17 de maio, celebramos a Ascensão de Jesus ao céu; com esta solenidade litúrgica, recordamos também o envio missionário dos apóstolos: "ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura" (Mc 16,15). Essas palavras de Jesus referem-se à primeira e mais importante missão da Igreja, que é evangelizar. Nelas estão presentes três conceitos de comunicação: "ide", "anunciai" e "Boa Nova".

Por isso, a Igreja relaciona o Dia Mundial das Comunicações Sociais com o Domingo da Ascensão e o envio missionário: a Igreja tem a missão de comunicar; evangelizar é ação comunicadora feita de muitos modos, sobretudo na relação de pessoa a pessoa; é levar uma mensagem - o Evangelho; a um destinatário - "a todos os povos"; com uma metodologia - "ide", ou seja, saindo de si, dirigindo-se aos outros, inclusive com os modernos recursos técnicos da Comunicação Social.

Na sua Mensagem para o 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais, de 2015, o Papa Francisco trata da comunicação em família. Essa abordagem não podia ser mais oportuna, uma vez que a Igreja está preparando a assembleia do Sínodo, de outubro deste ano, sobre o tema da família. Achei a intuição do Papa Francisco muito iluminada! Com frequência, quando falamos do tema da família, pensamos logo nos grandes princípios cristãos que regem o casamento e a família; ou nos problemas do divórcio, da diminuição do apreço ao casamento e à família, nas questões morais ligadas à vida sexual e à transmissão da vida... Tudo isso tem sentido, mas as questões, tantas vezes, são bem mais simples; as pessoas não se falam mais, não há diálogo, não há sintonia no convívio familiar... E aí fica difícil manter viva a família!

O Papa está nos recordando que há questões bem simples na vida familiar, que não devem ser descuidadas no casamento e na vida em família. E se refere à "comunicação" na vida familiar. Será que muitos daqueles "grandes" problemas da família não estão ligados às questões de "comunicação"? Será que a atual avalanche de mensagens de todo tipo, recebidas e assimiladas por meio de todos os recursos de comunicação ao nosso alcance, de maneira nem sempre criteriosa, não está sufocando a comunicação que precisa existir no seio da vida familiar?

Seria interessante perguntar: quanto tempo ainda nos resta, cada dia, para a comunicação em família? Para conversar, trocar ideias, partilhar vivências, informações ou afetos? Ou, simplesmente, para "jogar conversa fora" pelo prazer de estar juntos, comunicar a alma, partilhar o convívio e manifestar estima e afeto? E qual é a qualidade desse tempo que ainda temos para a comunicação em família? Talvez, enquanto conversamos, a televisão ligada pede atenção, navegamos na Internet, atendemos a  telefonemas ou estamos ligados em mensagens de quem está bem distante de nós?

O Papa Francisco, na sua Mensagem, recorda que a família existe, acima de tudo, por um fato de comunicação: o namoro é comunicação; a vida do casal é comunicação; assim, as relações de paternidade e maternidade, de filiação e de fraternidade; sem esquecer que também as relações de parentesco se cultivam na comunicação dos parentes. Se os membros da família deixam de se comunicar de pessoa a pessoa, estas vão se distanciando e a família se torna insignificante. é sufocada e vai à falência múltipla, por falta de oxigenação...

Muitos problemas e crises no casamento e na vida familiar não surgiriam se a boa comunicação fosse mais bem cultivada no seu convívio; e muitas questões doutrinais, como a fidelidade e a indissolubilidade matrimonial, não seriam "problemas", se houvesse verdadeira comunicação na vida familiar.

Quanta coisa uma boa conversa consegue resolver! A comunicação mais elementar é a boa conversa, a escuta, a busca sincera da sintonia com o outro, para estar "ligado" nas mensagens dos outros; às vezes, é preciso desligar um pouco dos próprios programas e dar atenção ao outro; não raro, é bom abaixar o volume da voz ou ficar antenado nas mensagens cifradas dos outros, que pedem atenção e compreensão; e o diálogo, feito entrevista leal, consegue avivar novamente a qualidade dos relacionamentos...

Para não ser vítima do excesso de comunicação formal, que invade todos os espaços e minutos do dia, a família precisa zelar pela boa qualidade da comunicação entre os seus membros. A família vive de comunicação. Vale a pena ler a Mensagem do Papa.





(texto publicado no jornal O São Paulo ano 60 - edição 3051 - 13 a 19 de maio de 2015)




segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A roupa certa - Walcyr Carrasco


Todo mundo gosta de aparecer bem vestido em festa. As de fim de ano são as mais difíceis. Atualmente, impera a informalidade. É uma armadilha. Você tem de dar a impressão de que não se arrumou especialmente, mesmo que tenha passado horas no espelho. Homens aparecem de cabelos cuidadosamente desarrumados, à base de gel ou fixador, para manter os fios espetados, como se tivessem acabado de acordar. Mulheres põem uma sandália e fingem atitude displicente... experimentaram todos os pares do armário. Dificílimo ser elegante no Natal. É festa de família. mas o que é a família hoje? E a mulher que receberá o ex com a atual? O homem vem ver os filhos. A nova cara-metade aproveita para conferir a anterior. Ambas querem ofuscar uma à outra. Meu conselho: roupa no caso é o de menos. Não precisam se arrumar como renas desfilando com Papai Noel. Melhor que qualquer vestido, para a ex, é botar um boy magia sentado no sofá, com atitude de dono da casa. Mesmo que seja emprestado de uma amiga, será útil para dar uma imagem de sucesso e superação. A atual irá à desforra se puser uma joia cara, mesmo que também seja emprestada. É para a ex pensar que ele dá presentes melhores do que lhe dava antes. Roupas em situações semelhantes são úteis para complementar uma estratégia.

As especialistas em moda gostam de dizer que, no Natal, o certo é a informalidade. Mentira. Ninguém acha bonito convidado de moletom. Já tentaram provar que moletom com sapato de salto era fashion. Mulher vestida assim, ainda por cima com cabelos loiros, tem jeito de perua ou periguete. Homens de moletom e tênis no Natal, então, ficam tão elegantes quanto um peru pronto prestes a desembarcar no forno. Camisetas grudadas com a pança de fora, nem se diga! Há uma diferença entre informalidade e relaxamento, mesmo em família. Nem muito chique nem muito simples, eis o segredo do Natal. A todos, aconselho: levem lenços. Sempre haverá uma criança que pode babar em sua camisa.

O Réveillon é mais complicado. Há de todos os tipos. As roupas são orientadas pelas crenças em boa sorte. A maioria veste branco. Certa vez, uma amiga, desempregada havia três anos, apareceu de preto:

- Vou virar a sorte!

Já faz sete, e continua desempregada. Cueca vermelha ou amarela também podem ser benéficas, dizem. Sou muito supersticioso, mas tenho muitas dúvidas. Ninguém me verá correndo de cueca vermelha na praia!

Vestir-se de branco é garantia de elegância. Resolve as festas de Réveillon. Neste ano, fui convidado para uma festa na Avenida Atlântica, em frente ao mar, por um casal de amigos queridos. A anfitriã avisou:

- Venha de sandália de dedo, se quiser.

Não é bem assim. Há um certo tipo de roupa ideal para cada idade e cada corpo. Isso vale para qualquer festa. Quem tem 20 anos e corpo esguio pode botar o que quiser. Camiseta, jeans e sandália de dedo. Tudo bem. Depois do 40, é preciso lidar com as realidades da vida. Sandálias de dedo não valorizam um pé gordinho como pão francês. Decote ousado, com peito caído, não rola. Só deprime. Portanto, não se jogue. Liberdade total é para os mais jovens. Na dúvida, um vestido mais estruturado ou até um paletó leve funcionam.

A boa notícia é que a maior parte das pessoas são como você e eu: comuns. Há sempre um pneu sobrando. Novas rugas de expressão, com o tempo, transformarão seu rosto num cânion. Ou os dentes precisam de recauchutagem. A gente é como uma casa. À medida que o tempo passa, precisamos de mais consertos no encanamento, nas dobradiças que rangem, no visual. Há dois segredos para se dar bem nas festas de fim de ano. O primeiro é saber que pessoas serão convidadas para seu Natal ou Réveillon. Imagine como se vestirão. Então vista uma roupa muito melhor. Despertar a inveja entre os parentes que você não vê há tempos é um dos principais objetivos natalinos. (Embora haja outros, como explorar seus sucessos e falar mal de alguém que não foi. Ah, sim, também se trocam presentes, com o objetivo de criticar a avareza de quem deu.) O outro segredo é conhecer nossos próprios limites. Ou seja: escolher uma roupa adequada ao próprio corpo, olhando no espelho com sinceridade. Para a maioria de nós, a época de camisetinha com jeans já passou. Nada mais ridículo que uma velhota de minissaia e top. Mas não tem importância. Para quem sabe se adequar a cada fase da vida, o charme supera qualquer barriga.




(texto publicado na revista Época nº 813 - 23 de dezembro de 2013)




A internet e a união familiar - Walcyr Carrasco


Desembarco em Curitiba. Envio um recado à minha prima em segundo grau Myrna:

- Cheguei.

Marcamos um café. Não vejo Myrna e seus irmãos há mais de 40 anos. Sua mãe era prima da minha. Quando Myrna era pré-adolescente, a mãe, o pai e a irmã mais velha morreram num acidente de carro. Myrna e seus irmãos saíram ilesos, mas foram morar com os avós paternos. Perdemos o contato. Há alguns meses, Myrna me reencontrou pelo Facebook. Falamos muito pela web. Quando fui convidado para uma palestra em Curitiba, aproveitei para marcar o encontro pessoal. Aconteceu no apartamento de Zulma, sua irmã. Mônica, a caçula, e Leõnidas Jr. também foram. Eu tinha dúvidas, depois de tantos anos:

- Como será?

Foi maravilhoso. Não nos víamos desde crianças, mas nos entendemos como quem se conhece desde sempre. Falamos sobre como foi a vida de cada um. Myrna é corretora de imóveis. Sempre disse que, se não fosse escritor, seria corretor! Mônica tem um café teatro, seu filho é ator. Vocação familiar! Leônidas é joalheiro. Antes esculpia peças sobre encomendas. Agora, montou ele próprio uma impressora 3D, com componentes achados em lojas de eletrônica. Cria os moldes de joias a partir de fotos. Genial, na minha opinião. Lamentavelmente, acho que talento vem de sua herança paterna. Sou um asno no quesito informática.

Agora sei que tenho família em Curitiba, que nos veremos muitas vezes. Recentemente, tive notícias de outra prima, essa bem mais distante, em Cuiabá. A vida não foi tão generosa com ela. É gari. Mandei mensagem, ela não respondeu. Ainda. O fato de escrever para televisão, livros e numa revista importante assusta e afasta. É preciso tempo. Mais cedo ou mais tarde, ela ou seus filhos e sobrinhos falarão comigo, e a grande corrente familiar continuará a ganhar elos.

A internet é amiga do apocalipse, pensam alguns. Mentira, difamação, invasão de privacidade, sites para pedófilos na internet profunda. Já aconteceu: pela internet, um canibal e sua vítima se conheceram. Se entenderam, e um aceitou ser devorado pelo outro. Há aspectos pavorosos na nuvem. Mas também existem coisas belas, como a união familiar. Meus dois irmãos e eu criamos um grupo no WhatsApp. Há décadas moramos em cidades diferentes. Lembro que, antes de morrer, um dos maiores desejos de minha mãe era ter um Natal com os três filhos reunidos, pois raramente nos encontrávamos ao mesmo tempo. (E também nos revezávamos em datas significativas par que ela nunca ficasse sozinha. Ela também morava em outra cidade.) Adoro meus dois irmãos, mas nos vemos pouco. Agora, Airton montou esse grupo, Ney e eu já entramos. Para minha surpresa, descobrimos que, há uns dois anos, mando mensagens a Ney pensando se tratar da mulher dele, Bia. Gravei o nome errado. Os dois me chamaram de gagá. Mereci. Minhas sobrinhas também montaram outro grupo, onde nos divertimos todos os dias. São piadas, comentários, fofocas. Uma delícia. Por causa dessas mensagens, decidimos que, neste ano, o Natal será em minha casa. Já corri para comprar uma miniatura de roda-gigante para divertir as crianças, já que minha cada é cheia de caveiras e obras de arte contemporâneas. Nada muito infantil. Hummmmm.... talvez as crianças gostem das caveiras, pensando bem.

Neste país, formado por levas e levas de imigrantes, é comum que as famílias se dispersem. Minha mãe teve 11 irmãos vivos, todos com filhos. Primos em primeiro grau, tenho uns 80! Recentemente, Valdo me achou, também pela internet. Fui ao aniversário de 90 anos de sua mãe, minha tia Bernarda, a mais velha de todas as irmãs, e única ainda viva. Dezenas de primos e primas estavam lá, em Vinhedo, São Paulo. Atualizamos nossas vidas, foi um grande reencontro. Uma família tão grande reflete a história do país. Muitos subiram na vida, de maneira impressionante. Alguns ficaram na linha da pobreza. Um cumpre pena, outro, com quem eu brincava em criança, já passou pela cadeia duas vezes. Tudo isso é minha história, não é?

Assim como eu, conheço muita gente que redescobriu a família com a ajuda da internet. Outro dia, minha prima Myrna me enviou a última foto que todos nós, netos e bisnetos, tiramos com meus avós. Me revi garotinho, de braços cruzados. Não tinha essa foto. A internet a trouxe de volta, com tantas recordações. É a prova de que a família tem laços únicos, intangíveis, misteriosos - que são para sempre.




(texto publicado na revista Época nº 862 - 8 de dezembro de 2014)




domingo, 28 de dezembro de 2014

Viva família - João Felipe Candido


Os atores Nicette Bruno e Paulo Goulart estão juntos há 61 anos. O enredo de vida  dos dois poderia facilmente se transformar em um bom livro ou quem sabe um roteiro de teatro, ou até mesmo virar uma novela...

Maio sempre costuma ser um mês de muitas emoções. Afinal de contas, continua sendo o período preferido pelas noivas para o tão sonhado casamento. Na mesma época, no segundo domingo, comemoramos o Dia das Mães, e na sequência vem o Dia Internacional da Família, celebrado no dia 15. Com tantas datas especiais em um único mês, a reportagem da revista Viva S/A não pensou duas vezes em convidar um dos casais mais admirados do país para falar sobre sua história, que resultou em uma grande família, com três filhos, sete netos e dois bisnetos.

Como tudo começou

Nicette Xavier Miessa e Paulo Afonso Miessa completaram 80 anos em 2013. Ela nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, no dia 7 de janeiro. Ele nasceu dois dias depois, em Ribeirão Preto, São Paulo. Desde pequena, as raízes artísticas da família sempre a acompanharam de alguma forma. Com o passar do tempo, ela optou pela carreira de atriz e ingressou no Teatro Universitário do Rio de Janeiro. "Recebi total apoio de minha família, e logo passei a fazer parte do Teatro Municipal. Meu grande objetivo na época era transformar em realidade o teatro itinerante; porém, a ajuda prometida pelo então presidente Getúlio Vargas não saiu, pois isso, decidi ir para São Paulo."

Determinada, a jovem atriz formou a Companhia Nicette Bruno e conseguiu montar o teatro itinerante na capital paulista, mais precisamente no Vale do Anhangabaú. "Ruggero Jacobbi aceitou dirigir minhas peças, e precisávamos de um galã para atuar em 'Senhorita Minha Mãe'. Ele indicou o locutor de rádio Paulo Goulart, recém-contratado pela TV Paulista." Formado em química industrial, Paulo sempre sonhou em  trabalhar em rádio. Após inúmeros testes, passou a ser rádio-ator e fazer peças de teatro, até que surgiu o convite para atuar com Nicette. "Nosso romance começou bem depois da estreia do espetáculo, quando ela leu em uma festa o poema 'Único Amor', de Olegário Mariano, me encarando", recorda Goulart. Desde então, o casal não se separou mais. Logo veio o casamento, em 26 de fevereiro de 1954, e os filhos, Bárbara, Beth e Paulo Goulart Filho, todos artistas.

"Nicette é uma pessoa que nasceu sorrindo. Ela não chorou ao nascer. Eu nunca vi pessoa tão alegre na minha vida. Em todos os acontecimentos, ela sempre encontra uma maneira de virar o jogo. De transformar algo difícil ou desagradável em coisas passageiros", elogia Paulo. Nicette também elogia o marido: "Admiro a lealdade do Paulo. Ele é um grande amigo, não só comigo, mas com quem convive com ele. Ele é verdadeiro, autêntico, generoso, e isso faz com que eu o admire mais".

A profissão e a vida em família

Com a rotina atribulada da profissão, nem sempre Nicette e Paulo puderam estar ao lado de seus filhos. Durante a infância, Bárbara e Beth ficavam sob os cuidados da avó materna, Eleonor Bruno. E com Paulo Filho não foi diferente. "Nossa profissão sempre exigiu muito de nós, porém, quando estávamos juntos, aproveitávamos cada instante", diz Nicette, que não se arrepende de trabalhar e cuidar da família. "Minha avó estudou medicina mesmo com três filhos. A cada filho eu me dedicava inteiramente no primeiro ano de vida, pois achava fundamental, inclusive para a estabilidade emocional da criança. Nunca deixei meus filhos com babá, pois eu sempre tive muita ajuda de minha mãe."

O casal afirma que não esperava que seus filhos fossem trilhar a carreira artística. "Eu e o Paulo vivíamos estudando textos e roteiros. Acredito que isso foi um exemplo para nossos filhos. A escolha de suas carreiras deve ter sido reflexo da nossa profissão", diz a mãe dos artistas. Bárbara começou na TV na série "Dona Jandira em Busca da Felicidade", ao lado dos pais, em 1963. Beth passou por TV, teatro, fez alguns filmes e chegou a gravar três discos. Paulo formou-se em educação física, dedicou-se à dança e estreou ao lado dos pais, na peça "Dona Rosita, a Solteira".

Família é tudo de bom

Para o casal, a família é a base fundamental para direcionar a trajetória de vida de uma pessoa. "Com a família podemos aprender a ter relacionamentos amistosos e a ser úteis à sociedade. Só a família pode oferecer o equilíbrio emocional para que possamos enfrentar os desafios da vida", dizem. Quando o assunto envolve os valores que uma família deve deixar para seus filhos, o casal é uníssono. "Sem dúvida honestidade, lealdade, sinceridade e propósito. Mostrar a importância de deixar de lado o egoísmo, ser solidário e procurar o benefício do próximo. É fundamental ensiná-los a seguir as suas verdades com dignidade. Também devemos mostrar que nossa vida é uma batalha constante e um eterno aprendizado", salienta Nicette.

O casal afirma que atualmente não tem sido fácil reunir todos os membros da família, e revela que sempre que possível, tentam se encontrar aos domingos, e não abrem mão das datas comemorativas. No Natal, por exemplo, eu e o Paulo fazemos questão de reunir toda a família aqui em casa. No Ano Novo já é mais difícil. Nossa filha Beth está chegando hoje de viagem, e com certeza iremos comemorar a volta dela, mesmo que seja com um lanche informal", diz.

Questionada sobre o que gostaria de ganhar no Dia das Mães, ela revela que a presença de seus familiares seria o melhor presente. "Nós falamos com os nossos filhos todos os dias por telefone. "Não sei se eles poderão estar conosco no Dia das Mães, porém, se estiverem, com certeza ficarei extremamente feliz", finaliza Nicette.

Os segredos dos Goulart para manter a família unida

- Coloque a amizade e o apoio em primeiro lugar.

- Respeite a individualidade de cada um, não se intrometendo na vida do outro.

- Tenha uma boa convivência com os seus familiares, em uma relação de torcida pelo outro.

- Priorize o bom humor.

- Incentive o diálogo.

- Reúnam-se, nem que seja apenas nas datas comemorativas.

- Sempre que possível, divirtam-se juntos.

- Viva intensamente os momentos que estiver junto com seus familiares. E quando solicitado, esteja com eles.

- Fale com seus familiares, isso mantém o vínculo entre vocês. É uma forma de estabelecer contato.

- Viva em comunidade, mas crie momentos a sós com cada um.

- Seja o exemplo, suas atitudes positivas geram admiração.

- Reconheça que ninguém é perfeito.




(texto publicado na revista Viva S/A edição 143 - ano 11 - abril de 2013)











sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O caça-desaparecidos - Nataly Costa


Paulistano diz ter promovido mais de 17 000 reencontros entre parentes

Em agosto de 2003, o empresário Walter Peceniski recebeu um telefonema inusitado. Do outro lado da linha, o produtor de uma rádio israelense perguntava se ele conhecia a adolescente Liat, então com 14 anos. "É minha filha, que eu não via desde que ela tinha 4 meses de idade", conta. O paulistano fora casado em Israel e, após a separação, perdeu o contato com a família. A satisfação com a notícia surpreendente o levou a abandonar a carreira de consultor jurídico naquele mesmo ano e criar a ONG GoodAngels, especializada em conectar parentes afastados. Em onze anos de atuação, diz ter promovido cerca de 17 000 reencontros. Sem cobrar pelo serviço, oferecido em um site na internet, o profissional ganha a vida levando esses episódios a programas de rádio e televisão - tem contratos para inserções no SBT e na Rádio Globo.

A imensa maioria dos clientes que atende traz uma história bem semelhante à vivida por ele próprio: filhas em busca do pai sumido. "Também aparecem pessoas procurando irmãos ou amores do passado", diz. Há duas semanas, surgiu o caso mais surreal de sua trajetória, que teve repercussão na imprensa, uma mulher do interior de São Paulo descobriu ser casado com o próprio irmão após conhecer a mãe.

Além de rechaçar a alcunha de "detetive", Peceniski evita dar detalhes sobre seu método de trabalho. Mas não há nada de muito sensacional, é basicamente burocrático. Ele dispõe de um enorme arquivo com dados socioeconômicos de cidadãos brasileiros que inclui nome completo, data de nascimento e endereço fixo. O banco é semelhante ao usado por empresas de cobrança e análise de crédito, o tipo de firma do qual era proprietário até a década passada. Um analista de sistemas o ajudou a formatar as informações e facilitar a busca pelos desaparecidos. A tentativa de reunião, no entanto, nem sempre tem final feliz. "Às vezes, a pessoa pede para permanecer em sigilo, e eu respeito." Na era das redes sociais, há ainda o risco iminente de seu trabalho tornar-se obsoleto. "Dizem que meu maior concorrente é o Facebook."

Elo perdido

Alguns dos casos "resolvidos pela GoodAngels

Uma dona de casa de Palmital (SP) pediu ajuda para reencontrar a mãe, que não via fazia quarenta anos. Ao vivo na Rádio Globo, descobriu que estava casada com o próprio irmão, também abandonado pela mesma mulher.

Internada no Hospital Dom Pedro, no Jaçanã, fazia quinze anos, Xista Gomes não via ninguém da família desde então. No ano passado, com a ajuda da entidade, foi contatada por uma irmã de Pernambuco.

Com a morte do pai, em 2012, a enfermeira Isabel Valente resolveu procurar o irmão Rony, de quem estava afastada havia 22 anos. Encontrou-o morando no Rio de Janeiro com uma nova família e restabeleceu o vínculo.













quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Amor a distância


Conheça histórias de pais que optaram por enviar seus filhos para o exterior

Preparar seus filhos par o mundo é uma das principais preocupações dos pais. A dúvida é escolher a melhor maneira e como fazê-la? Uns optam por uma escola linha dura, outros em fazer o filho participar de todas as tarefas de casa e muitos optam por enviá-los para fora do país. Para alguns pais isso parece uma tarefa impossível. A preocupação, além da saudade, é a falta de carinho e amor em razão da distância. Certos pais apostam que enviar os filhos para o exterior é a melhor maneira de prepará-los para o mundo. Conversamos com famílias que vivenciaram a experiência e não se arrependeram.

A administradora de empresas Ana Ramos mandou suas três filhas para o exterior em diferentes momentos. A primeira foi Ailyn, com 16 anos para a Índia. A coragem da irmã mais nova e a experiência relatada por ela entusiasmou Mayara que foi cursar a faculdade na França; Ailyn gostou tanto da Índia que retornou com sua irmã Maitê, que até então não havia vivenciado esta experiência.

José Roberto Baraúna Filho, membro do Rotary, optou por mandar seu filho, José Victor para a Dinamarca: "Sabia como seria importante para ele uma experiência no exterior, fazendo-o crescer, amadurecer, vivenciando uma nova cultura, novo idioma e adquirindo uma nova visão de mundo", conta o pai.

Através do programa do Rotary, José Roberto também recebeu jovens de outros países em sua casa e confirma que a experiência é muito rica: "Os laços que se criam ficam para o resto da vida e a aprendizagem das culturas é maravilhosa!"

Para ele o intercâmbio é uma experiência única, que proporciona ao jovem confiar mais em si, aprender a resolver e administrar seus problemas, respeitar o próximo, criando laços afetivos para sempre.

"Fico feliz em ter proporcionado essa experiência ao meu filho e sei que ele jamais se esquecerá desse ano que passou fora. Também tenho certeza de que pude acrescentar muito aos jovens que comigo ficaram. Só quem vive e participa desta experiência é capaz de saber o quanto ela contribui para a vida de um jovem!", explica Baraúna.

Luciana Donati vive uma experiência diferente com seu filho Henrique. O garoto vive fora do Brasil para jogar futebol e estudar. Na história de Henrique, o destino foi traçando o seu caminho e os pais foram concordando. "Ele começou a frequentar a escolinha de futebol com 4 anos e sempre disse que queria ser jogador profissional. Aos 15, quando percebemos que essa vontade era realmente uma vocação, deixamos que se matriculasse numa escola com menor carga horária para poder se dedicar aos treinos num time e base", conta Luciana.

Mas desde cedo o garoto tinha foco, propôs aos pais que se não conseguisse nada no Brasil na área do futebol até os 18 anos, faria uma faculdade no exterior. Dedicado aos treinos, o menino também aperfeiçoava seu inglês, até que foi convidado por uma empresa de intercâmbio esportivo para se candidatar a uma bolsa de estudos em uma High School americana. Seis meses depois ele embarcava para Chattanooga - uma cidade no Tennessee, e passava a fazer parte de um grupo de mais de 200 alunos internos da Baylor School.

Quando perguntamos sobre os sentimentos envolvidos nas decisões, José Roberto afirma: Respeitar esse momento e trabalhar essas emoções a distância, trazem um grande aprendizado para ambos".

Luciana descreveu um misto de emoções, entre euforia, orgulho, felicidade e receio. No meio de tantos sentimentos, os pais acompanharam seu filho Henrique para conferir de perto Chattanooga. Nas palavras de Luciana, "Tudo se acalmou. A estrutura da escola, o profissionalismo e receptividade de todos fizeram das nossas melhores expectativas uma certeza."

Ao responder sobre a parte emocional, Ana disse que com a tecnologia de hoje é muito mais fácil driblar a saudade. Ela se recorda de quando foi morar fora do país, a comunicação da época era feita por cartas, pois telefone para o exterior era algo caro. Hoje existe Facebook, WhatsApp, Skype, que permitem conversas em tempo real e com a vantagem de visualizar a imagem do interlocutor. Outra vantagem de ter as filhas morando no exterior, é poder visitá-las frequentemente, unindo o útil ao agradável.

Luciana não cansa de visitar Henrique, agora na faculdade e jogando futebol americano. Ela se diz plugada em todas as redes sociais, aguardando a transmissão dos jogos da NFL.

"Minha maior lição foi aprender a não fazer drama, a encarar a distância como mero detalhe. Quando a saudade aperta recorro a minha memória digital - revejo fotos, posts, entrevistas. Quando bate a preocupação, disparo um interrogatório via iMessenger", comenta.

Quando se pensa em mandar o filho para viver em outro país, a saudade passa a ser um mero detalhe diante de tantos pontos positivos. Ana não se arrepende em momento algum sobre ter enviado as filhas para o exterior. "O mais importante desta experiência é que as três tiveram diferentes vivências, aprendendo a se virar muito melhor. Outra vantagem é o idioma, todas falam inglês fluente e aprenderam a viver e respeitar as diferenças culturais", diz orgulhosa.

É claro que aquele mix de sentimentos narrados por Luciana, volta de tempos em tempos, mas ela sabe como lidar com isso: 'Quando tenho dúvidas, dou minhas investigadas. E quando bate o desespero, esqueço tudo e foco no que realmente importa - a felicidade dele. Fora de casa, em outro país, ele busca um futuro melhor, por caminhos mais fáceis e seguros."

"Com certeza os jovens após essa experiência voltam mudados, com visão do mundo ampliada, estando assim aptos a resolverem as questões do cotidiano com maior independência", completa José Roberto Baraúna Fiho.




(texto publicado na revista Tudo nº 43 - agosto de 2014)





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"Misturei trabalho e família e deu certo" - Michell Lott


Foi com persistência, boa dose de resiliência e sintonia fina com o marido que Patricia Cruz, 43 anos, realizou sonhos que pareciam impossíveis: ser mãe e ter o próprio negócio

"No mês passado, ganhei uma linda orquídea do Fernando, meu marido. É exatamente igual à que ele me deu há dez anos, quando nos conhecemos. Naquela época, eu morava em São Paulo, mas sempre voltava a Piracicaba, cidade do interior paulista onde nasci, para visitar meus pais. Em um fim de semana desses, conheci o Fernando em uma oficina mecânica. Ele era advogado em Santos, no litoral paulista, e estava por lá para acompanhar a reforma do apartamento do irmão. Conversamos enquanto esperávamos nossos carros ficarem prontos e, como ele estava sozinho, perguntei se queria sair comigo e com meus amigos naquela noite. A conexão foi imediata e, em um ano, estávamos casados.

Fomos morar em Piracicaba, onde ele montou um escritório de advocacia. Em paralelo, decidimos abrir um negócio juntos. Administradora, sempre trabalhei em grandes empresas, mas sonhava com outro tipo de carreira. Pegamos nossas economias e aceitamos a ajuda do pai dele para inaugurar a Casa de Banho, loja de cosméticos nacionais e importados instalada em um lindo casarão. Mas o que parecia ser o início de uma vida próspera virou pesadelo. Sofremos três roubos que nos custaram nosso patrimônio. No primeiro, quando o negócio só tinha seis meses, limparam tudo e tivemos de vender um dos nossos dois apartamentos para cobrir o rombo. No segundo, o que não levaram deixaram quebrado. Então, vendemos o apartamento em que morávamos e um carro para tentar nos recuperar antes do Natal, época boa para vendas. Em novembro, fomos vítimas mais uma vez. Estávamos tão obstinados que passamos a dormir na loja. Mesmo assim, sofremos mais três tentativas de arrombamento.

Enquanto isso, tentávamos realizar outro projeto: ter um filho. A dificuldade de engravidar nos levou a procurar especialistas e descobrimos que meu marido não poderia ser pai. Aí, três meses depois, soube que, para completar, eu estava em menopausa precoce. Ficamos em choque e desesperados ao ver que, de repente, nosso sonho não viraria realidade. Por sorte, somos muito unidos e nos apoiamos sempre. Assim que saímos do consultório médico, conversamos e decidimos adotar um bebê.

Começamos o processo em 2007 e a espera durou três anos. Nunca desanimamos. Durante esse tempo, nos preparamos para assumir os novos papéis de pai e mãe. Fechamos a loja, pois seria difícil conciliar os horários do comércio com os de uma criança. Transformamos nossa empresa em uma marca de cosméticos. A produção seria terceirizada e a venda no varejo se daria em lojas franqueadas. Assim, não precisaríamos cuidar de uma estrutura grande e complexa, o que nos permitiria estar em casa às 18 horas. Vendemos nosso segundo carro e montamos o escritório. Íamos trabalhar de bicicleta no verão mais escaldante de que me lembro. O Fernando, que tinha parado de advogar, precisou retornar para garantir uma renda. Apesar de tudo, nos divertíamos. Meu marido fazia poesias e gravávamos vídeos para ver com a criança depois.

Em novembro de 2010, nasceu a Maria Clara, uma menininha linda, e nos ligaram. A mãe dela havia fugido do hospital após o parto. Por questões legais, aguardamos 30 dias para poder adotá-la. Mas, aí, chegou o Natal e o fórum entrou em recesso. Finalmente, no meio de janeiro, recebemos o telefonema mais esperado dos últimos anos: podíamos buscá-la. Saímos correndo do Rio de Janeiro, onde passávamos férias, e voltamos para Piracicaba chorando de emoção. Quando chegamos em casa com a nossa filha no colo, familiares e amigos nos esperavam ansiosos. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida!

O tempo não para. Doze dias depois da chegada da Maria Clara, me avisaram que eu havia sido aceita no programa 10 000 Mulheres, um curso de especialização da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Apesar da vontade de ficar grudada em minha pequena, não faltei a nenhuma aula. Viajava às quintas e voltava para casa aos sábados. Meu marido parou de trabalhar às sextas para cuidar da nossa filha. No sábado, minha mãe dava uma força. Durante a semana, eu estudava e preparava o plano de negócios da empresa. Fazia tudo com a Maria Clara no colo. Não queria ficar nem um segundo longe dela. Com o que aprendi no curso, nossa empresa decolou!

O Fernando ainda advoga, mas nossa marca está crescendo e pode crescer muito mais. No ano passado, contratamos seis estagiárias do ensino médio para reforçar a equipe. São jovens carentes de 16 a 18 anos com histórias pesadas: algumas foram estupradas, outras se envolveram com drogas. Todo dia, nos reunimos para lanchar, conversar e trocar conselhos. Tem funcionado: elas agora se valorizam e se empenham nos estudos. Quero ensinar minha filha a batalhar por seus sonhos. Ela sabe que foi adotada e que foi muito desejada. Nossa história foi até parar em livro. É contada em Minha Mãe É um Negócio (Saraiva), que está sendo lançado neste mês e reúne casos de mulheres que viraram empreendedoras após ter um bebê. Hoje, levo a vida que queria. E o principal: sei que, juntos, eu e o Fernando conseguimos fazer com que um dia seja sempre melhor do que o outro."




(texto publicado na revista Claudia nº 10 - ano 52 - outubro de 2013)




quarta-feira, 21 de maio de 2014

Avós da nova era - Cíntia Marcucci


Agora elas mimam as crianças pelo Face, mas continuam transmitindo experiência e sabedoria. Veja como ser uma avó antenada e participativa - na medida

As avós brasileiras mudaram - e bastante! Atualmente, são mais ativas, entram e saem da internet, pintam as unhas de azul e muitas até trabalham fora. Que o diga a atriz Fernanda Montenegro. Aos 85 anos, ela tem três netos. "Trabalho muito, mas sempre que posso estou por perto", diz a atriz.

"Hoje as avós podem participar de maneiras diferentes da vida das crianças. Muitas falam com elas pelo Facebook, por exemplo", diz a psicóloga Lídia Aratangy, autora do Livro dos Avós (Editora Artemeios).

A leitora Maria Aparecida de Almeida faz parte da turma das "vovós conectadas": "Sempre mando um WhatsApp para o meu neto e pergunto se ele vem almoçar comigo", ela conta. Mas os conflitos familiares continuam parecidos com os da era pré-internet. "Meu genro acha que eu mimo demais o menino. Ele dormiu na minha cama até os 3 anos!", diverte-se Maria.

Veja a seguir como lidar com as novas questões (e as velhas também!) que toda avó enfrenta um dia.

6 dilemas antigos que são atuais

Muitas avós acreditam que precisam ensinar a filha - ou a nora - a ser mãe. Por isso acontecem tantos conflitos e saias justas na maioria das famílias. Mas tomando os cuidados certos, é perfeitamente possível evitar as discussões e ficar só com a parte boa da convivência com os netos. Confira as situações que mais causam desentendimentos e saiba como agir em cada uma delas!

Quem dita as regras?

Na casa da avó, valem as normas dela. É chato a mãe querer deixar por escrito os horários das refeições, do banho, do quanto pode brincar... Noras e filhas devem confiar no bom senso da mãe ou da sogra. Esse tipo de recomendação só vale para o essencial, como o horário de tomar remédio. Mas, quando estiver na casa dos netos, as avós devem respeitar as regras de lá. Nada de dar doce escondido!

Quem cuida da criança?

Algumas avós podem achar ruim que o neto vá para a creche em vez de ficar com ela quando termina a licença-maternidade da mãe. Isso é uma decisão dos pais da criança e é melhor não interferir. Por outro lado, se a família achar que o bebê deve ficar com uma das avós, é preciso entender que a função de educar e impor limite continua sendo dos pais. Os avós podem ajudar, mas a responsabilidade é mesmo de quem colocou a criança no mundo.

Como ajudar sem invadir?

As avós muitas vezes querem ajudar a filha ou a nora com tudo, principalmente quando um bebê novinho chega à família. Em alguns casos, cheias de boas intenções, podem exagerar, tentando organizar a vida e a casa dos filhos, lavando a roupa, limpando a casa, cozinhando, cuidando das crianças. O casal pode se sentir desconfortável com isso e ficar sem jeito de falar algo. O ideal é esperar que peçam ajuda antes.

Dá para ensinar a ser mãe?

Tem muita avó que se sente na obrigação de ensinar a filha ou a nora como criar os filhos. Ficam nervosas quando flagram alguma coisa que consideram errada. Mas o ideal é deixar que cada mulher descubra seu jeitinho de cuidar das crianças. Se alguém perguntar, claro que tem que dar a própria opinião, mas sem querer colocar o dedo na cara da "nova mamãe" quando algo sair diferente daquilo que era esperado.

Como evitar abusos?

Muitos pais abusam da boa vontade das avós e, para poderem sair e se divertir, deixam os filhos para elas cuidarem todo fim de semana. Uma vez ou outra isso pode ser uma delícia, mas, se vira rotina, acaba prejudicando os passeios e o sossego dos avós. Eles também precisam curtir a vida, ora bolas. Manter um equilíbrio é a chave nesses casos. Quem sentir que está havendo uma certa "folga" pode dizer que precisa sair ou que simplesmente quer descansar naquela noite.

Como manter a ligação?

Quando a avó trabalha ou mora em outra cidade, fica mais difícil ver os netos com frequência. Mas a tecnologia pode ajudar bastante. É só usar o Skype, as redes sociais ou os aplicativos de troca de mensagens, como o WhatsApp. Crianças e adolescentes adoram manter contato dessa forma. Mas vale uma dica para as avós: tem que respeitar limites e evitar fuçar a vida inteira dos netos na internet.


(texto publicado na revista AnaMaria nº 917 de 9 de maio de 2014)